The Project Gutenberg EBook of Contos para a infncia, by Guerra Junqueiro

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Title: Contos para a infncia
       Escohidos dos melhores auctores

Author: Guerra Junqueiro

Release Date: August 4, 2005 [EBook #16429]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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CONTOS PARA A INFANCIA

ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO


LISBOA

TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL

Rua dos Calafates, 110

1877




*A me*


Estava uma me muito afflicta, sentada ao p do bero do seu filho, com
medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados.
Resprava com difficuldade, e s vezes to profundamente, que parecia
gemer; mas a me causava ainda mais lastima do que o pequenino
moribundo.

N'isto bateram  porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuado
n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. L fra estava tudo coberto de
neve e de glo, e o vento cortava como uma navalha.

O pobre homem tremia de frio; a creana adormecra por alguns instantes,
e a me levantou-se a pr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
comeou a embalar a creana, e a me, pegando n'uma cadeira, sentou-se
ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mosinha descarnada e disse para
o velho:

--Oh! Nosso Senhor no m'o hade levar! no  verdade?--

E o velho, que era a Morte, meneou a cabea d'uma maneira extranha, em
ar de duvida. A me deixou pender a fronte para o cho, e as lagrimas
corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
cabea; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou
ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a
tremer de frio.

--Que  isto! exclamou, lanando  volta de si o olhar hallucinado. O
bero estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creana.

       *        *        *        *        *

A pobre me saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. A Morte entrou-te em
casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.

--Por onde foi ella? gritou a me. Dize-m'o pelo amor de Deus!

--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto.
Mas s t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canes que cantavas
ao teu filho. So lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.

--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a me. Agora no me
demores, porque quero encontrar o meu filho.--

A Noite ficou silenciosa. A me ento, desfeita em lagrimas, comeou a
cantar. Cantou muitas canes, mas as lagrimas foram mais do que as
palavras.

No fim disse-lhe a Noite: Toma  direita, pela floresta escura de
pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.

A me correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e no
sabia que direco havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal,
cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
cristallisada.

       *        *        *        *        *

--No viste a Morte que levava o meu filho? perguntou-lhe a me.

--Vi, respondeu o mattagal, mas no te ensino o caminho, seno com a
condio de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.

E a me estreitou o mattagal contra o corao; os espinhos
dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se
de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite
d'inverno frigidissima, tal  o calor febricitante do seio d'uma me
angustiosa.

E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
andando, at que chegou  margem d'um grande lago, onde no havia nem
barcos, nem navios. No estava sufficientemente gelado para se andar por
elle, e era demasiadamente profundo para o passar a vo. Comtudo,
querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio
do seu amor, atirou-se de bruos a ver se poderia beber toda a agua do
lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixo, faria
talvez um milagre.

--No! no s capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos
amigavelmente. Gosto de vr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus
olhos so d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu
tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas  fora de chorar, e
levar-te-hei  estufa grandiosa, que est do outro lado: essa estufa  a
habitao da Morte; e as flores e as arvores que esto l dentro,  ella
quem as cultiva; cada flor e cada arvore  a vida d'uma creatura
humana.

--Oh! o que no darei eu, para rehaver o meu filho! disse a me. E
apesar de ter j chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do
que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo
do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as no teve no
mundo uma rainha.

O lago ento ergueu-a, e com um movimento de ondulao depositou-a na
outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua
de comprido. De longe no se sabia se era uma construco artistica ou
uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre me no podia ver nada;
tinha dado os seus olhos.

--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho! bradou
ella desesperada.

--A Morte ainda no chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um
lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?

--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus  misericordioso. Compadece-te
de mim, e dize-me onde est o meu filho.

--Eu no o conheo, e tu s cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas
e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte no tarda ahi para
as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este
sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes,
sente-se bater um corao. Guia-te por isto, e talvez reconheas as
pulsaes do corao de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
que tens ainda de fazer?

--J no tenho nada que te dar, disse a pobre me. Mas irei at ao fim
do mundo buscar o que tu quizeres.--Fra d'aqui no preciso de nada,
respondeu a velha. D-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que
so bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos
brancos.--No pedes mais nada do que isso? disse a me. Ahi os tens,
dou-t'os de boa vontade.

E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu
orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
inteiramente brancos da velha.

Esta levou-a pela mo  grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma
vegetao maravilhosa.

Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado
de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas
cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam
cobras asquerosas.

Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos
frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa,
tomilho, ortel e outras plantas humildes que representavam o genero de
utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.

Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em
vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com
esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
essa hora existiam no mundo, desde a China at  Groenlandia.

A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a me
impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas
pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
corao, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as
pulsaes do corao do seu filho.

-- elle! exclamou, lanando a mo a um aafroeiro, que, pendido sobre
a terra, parecia completamente estiolado.

--No lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte
vier, que no tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaa-a de
arrancar todas as flores que esto aqui. A Morte ter medo, porque tem
de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma pde ser arrancada sem o seu
consentimento.

N'isto sentiu-se um vento glacial, e a me adivinhou que era a Morte,
que se approximava.

--Como  qu deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
primeiro do que eu! Como o conseguiste?--Sou me respondeu ella.

E a Morte estendeu a sua mo ganchosa para o pequenino aafroeiro.

Mas a me protegia-o violentamente com ambas as mos, tendo o cuidado de
no ferir uma s das pequeninas petalas. Ento a Morte soprou-lhe nas
mos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do
que os ventos enregelados do inverno.

--No pdes nada comigo! disse a Morte.--Mas Deus tem mais fora do que
tu, respondeu a me.-- verdade, mas eu no fao seno aquillo que
elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e
arbustos, quando comeam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
um dos quaes  o grande jardim do Paraizo. So regies desconhecidas;
ningum sabe o que se l passa.

--Misericordia! misericordia! soluou a me. No me roubem o meu filho,
agora que acabo de o encontrar! Supplicava e gemia. A Morte
conservava-se impassivel; agarrou ento instantaneamente em duas flores
lindissimas e disse  Morte: Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar,
despedaar no s esta, mas todas as flores que esto aqui!

--No as arranques, no as mates, bradou a Morte. Dizes que s
desgraada, e querias ir partir o corao de outra me!--Outra me!
disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui
tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam to suavemente que os tirei
do lago. No sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
fundo d'este poo; v o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
Vers passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada
a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
porventura vivesse.

Debruou-se no poo, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de
miseria, d'angustias e de desolao.

--N'isto que eu vejo, disse a me afflictissima, no distingo qual era a
sorte que Deus destinava ao meu filho.

--No posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.

A me desvairada, lanou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? No  verdade! Falla!
No me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, no v elle soffrer
desgraas to horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que  minha
vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos.
Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz
e tudo o que disse.

--No te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
filho ou que o leve para a regio desconhecida de que no posso
fallar-te! Ento a me allucinada, convulsa, torcendo os braos,
deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: No me ouas,
Senhor, se reclamo no fundo do meu corao contra a tua vontade que 
sempre justa! No me attendas meu Deus!

E deixou cair a cabea sobre o peito, mergulhada na sua agonia
dilacerante.

E a Morte arrancou o pequenino aafroeiro, e foi transplantal-o no
jardim do paraiso.




*O ouro*


Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro,
empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o
resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
fome no paiz.

Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
que elle ficou todo satisfeito, porque no comprehendeu ao principio
qual era o sentido da rainha; mas, vendo que no lhe traziam mais nada
de comer, comeou a zangar-se. Pediu-lhe ento a rainha, que visse bem
que o ouro no era alimento, e que seria melhor empregar os seus
vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
trazel-os nas minas  busca do ouro, que no mata a fome nem a sede, e
que no tem outro valor alm da estimao que lhe  dada pelos homens,
estimao que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
apparecesse em abundancia.

A rainha tinha juizo.




*Doura e bondade*


Ha entre vs, meus filhos, indoles violentas, que no sabem dominar-se,
e que so arrastadas pelas primeiras impresses.  uma pessima
disposio, que  necessario corrigir; d lugar a disputas, e a que se
commettam aces, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha.

Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
d'elle, volta-se e d-lhe uma bofetada.

--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um
cego!

Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns
camponezes grosseiros comearam a apupal-o e a bater no burro, para o
fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a
sua perna aleijada, disse-lhes: Se soubesseis que eu era coxo, no
terieis sido to covardes.

Os camponezes, envergonhados, craram, afastando-se sem pronunciar uma
palavra.

Que vos parece estas duas lies? Estou convencido que aproveitaram a
quem as recebeu.




*O malmequer*


Ouvi com atteno esta pequenina historia!

No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no
meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
olhos vistos, graas ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella
manh, j inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
que o vissem no meio da herva e no fizessem caso d'elle, pobre florinha
insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.

N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
sentia-se to feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanas
sentadas nos bancos da escola estudavam a lio, elle, sentado na haste
verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com
admiravel nitidez nas canes alegres da cotovia. Por isso poz-se a
olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
feliz que cantava e voava.

Eu vejo e oio, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
acaricia-me. Oh! no tenho raso de me queixar.

Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos
aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para
parecerem maiores do que as rosas; mas no  o tamanho que faz a rosa.
As tulipas brilhavam pela belleza das suas cres, pavoneando-se
pretenciosamente. No se dignavam de lanar um olhar para o pequeno
malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: como so
ricas e bonitas! A cotovia ir certamente visital-as. Graas a Deus,
poderei assistir a este bello espectaculo. E no mesmo instante a
cotovia dirigiu o seu vo, no para as dalias e tulipas, mas para a
relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria no sabia o que
havia de pensar.

O passarinho poz-se a saltitar  roda d'elle, cantando: Como a herva 
macia! oh! que encantadora florinha, com um corao d'oiro, vestida de
prata!

No se pde fazer ida da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do
firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora no pde o malmequer
reprimir a sua commoo. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabea toda
inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis
ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.

Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
uma a uma.

Que desgraa! disse o malmequer suspirando;  horrivel; foram-se
todas.

E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrra-se por
ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando
reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.

No dia seguinte de manh, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
ar e  luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rases para se affligir:
haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella
aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas
antigas viagens atravez do espao illimitado.

O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
difficil. A compaixo pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e
a alvura resplandecente das suas proprias folhas.

N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mo
uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que no podia comprehender o
que desejavam.

Podemos arrancar d'aqui um pedao de relva para a cotovia, disse um dos
rapazes, e comeou a fazer um quadrado profundo  volta da florinha.

--Arranca a flor, disse o outro.

A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era
morrer; e nunca tinha abenoado tanto a existencia, como no momento em
que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.

No; deixemol-a, disse o mais velho. Est ahi muito bem.

Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.

O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia
com as azas nos arames da gaiola. O malmequer no podia, apesar dos seus
desejos, articular-lhe uma palavra de consolao.

Passou-se assim toda a manh.

J no tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre
terrivel, sinto-me abafada! Ai! No ha remedio seno morrer, longe do
sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
creao!

Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu
ento o malmequer; fez-lhe um signal de cabea amigavel, e disse-lhe,
afagando-o: Tambem tu, pobre florinha, morrers aqui! Em vez do mundo
inteiro, que eu tinha  minha disposio, deram-me um pedacito de relva,
e a ti s por unica companhia. Cada psinho de relva substitue para mim
uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah!
como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!

--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
minimo movimento.

Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume;
a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
arrancar a herva, teve todo o cuidado em no tocar nem sequer de leve na
flor.

Caiu a noite; no estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua 
desditosa cotovia; Estendeu ento as suas bellas azas, sacudindo-as
convulsivamente, e poz-se a cantar uma canosinha melancolica; a sua
cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu corao quebrado de desejos e
d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer
no pde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
para o cho, doente de tristeza.

Os rapazitos s voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro
d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e
cobriram o tumulo com folhas de rosas.

Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e
deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto  que o choraram
e lhe fizeram honrarias pomposissimas.

A relva e o malmequer lanaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle
que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.




*No quero*


Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
alto: No, dizia um com voz energica, no quero. Parei e
perguntei-lhe:--O que  que tu no queres, meu rapaz?--No quero dizer
 mam que venho da escola, porque  mentira. Sei que me hade ralhar,
mas antes quero que me ralhe do que mentir.--E tens razo, disse-lhe
eu. s um rapaz como se quer. Apertei-lhe a mo, emquanto que o outro
pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
todo envergonhado.

D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o
professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois
pequenos; o que no quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro,
vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro,  um magnifico
estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a
confessar as suas faltas e o que  ainda melhor, a reparal-as. O outro
pelo contrario,  mentiroso, covarde e incorrigivel.--No me espanto,
disse eu, j tinha tirado o horscopo d'estas duas creanas; e
contei-lhe o que tinha ouvido.




*Piloto*


Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos ces, e o
infatigavel companheiro dos brinquedos das creanas da quinta.

Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que Joo lhe
lanava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e
trazia-o  margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irm
Joaninha.

Esta brincadeira recomeava vinte vezes sem canar nunca a paciencia do
Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, at que o
assobio do creado da quinta chamava o fiel animal s suas obrigaes:
partia ento como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.

Quando o hortelo ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
da carroa; e muito atrevido seria quem saltasse  noite a parede da
quinta.

Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se
empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa,
tentou de noite roubar um sacco.

Piloto, que o conhecia, no fez a menor demonstrao de hostilidade
emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
largar.

Era como se dissesse: Onde vaes tu com o trigo de meu dono?

O ladro quiz pr ento outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto
no consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, at de
manh; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posio,
reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o no
deshonrar.

Mas o homem ficou com odio ao co, e muito tempo depois, aproveitando a
ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
elle sem desconfiana; atou-lhe uma corda ao pescoo e arrastou-o at 
margem do ribeiro.

Atou uma grande pedra  outra extremidade da corda e levantando o animal
atirou-o  agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforo,
caiu tambem.

Como no sabia nadar, teria sido despedaado pela roda do moinho, se o
corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
desembaraando-se da pedra mal atada, no tivesse mergulhado duas vezes
e trazido para terra o seu mortal inimigo.

Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o
co que elle tinha querido afogar, lhe salvra a vida.

Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si
mesmo e combateu as suas ms inclinaes.

O exemplo do co corrigiu o homem.




*O rico e o pobre*


Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
deitou-se de baixo d'uma arvore,  porta d'uma estalagem, junto da
estrada. Estava comendo um bocado de po que tinha trazido para jantar,
quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que no tinham tempo,
e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
vinho.

Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua
codea de po, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e
suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino to rico,
em vez do desgraado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu
dentro d'aquella carruagem! O preceptor ouviu casualmente o que dizia
Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lanando a cabea fra da
carruagem, chamou Martinho com a mo.

--Ficarias muito contente, no  verdade, meu rapaz, podendo trocar a
minha sorte pela tua?--Peo que me desculpe senhor, replicou Martinho
crando, o que eu disse no foi por mal.--No estou zangado comtigo,
replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.

--Oh! est a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar
no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando
muitas leguas por dia, como po secco e batatas, emquanto que o senhor
anda n'uma carruagem, pde comer frangos e beber vinho.--Pois bem,
volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu
no tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo. Martinho
ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
preceptor continuou: Acceitas a troca?--Ora essa! exclamou Martinho,
ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada
de me ver entrar n'esta bella carruagem! E Martinho desatou a rir com a
ida da entrada triumphante na sua aldeia.

O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma
perna de pau e que a outra era to fraca, que se via obrigado a andar em
duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou
que era muito pallido e que tinha cara de doente.

Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Ento sempre
desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas
valentes e as tuas faces cradas, pelo prazer de ter uma carruagem e
andar bem vestido?--Oh! no, por coisa nenhuma! replicou
Martinho.--Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro
os meus males com paciencia e fao por ser alegre, dando graas a Deus
pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.

Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se s pobre e comes mal,
tens fora e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que no
podem comprar-se com dinheiro.




*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*


Tinha o corao duro, e no dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.

No o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeo.

Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a
credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da
minha parte.

No dia seguinte de manh apresentou-se o primeiro pobre.

Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.

Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.

E o teu appellido?

Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.

E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

Ao outro dia chega segundo pobre.

Como te chamas?

Venha--A--Ns--O--Vosso--Reino.

E o teu appellido?

Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.

E partiu com o seu alqueire de trigo.

Veiu terceiro pobre.

Como te chamas?

Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.

E o teu appellido?

Dae-nos--Hoje--O--Po--Nosso--De--Cada--Dia.

E levou o seu alqueire.

Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma
forma at chegar ao _Amen_.

Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeo.

Ento j sabes o Padre Nosso?

No, sr. cura, sei s os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei
o meu trigo.

Quaes so? tornou o padre.

E o aldeo enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
apresentado.

J vs, disse o confessor, que no era muito difficil aprender o Padre
Nosso, porque j o sabes perfeitamente.




*O talisman*


Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas
com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
que no era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com
uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direco da
sua casa.

Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual  a razo
porque a sorte nos trata de um modo to differente? Vendemos as mesmas
mercadorias, a minha loja est to bem situada como a tua, e apezar
d'isso, emquanto tu ganhas, eu no fao seno perder. E no  porque eu
seja estroina; no bebo, nem jogo. J tenho pensado algumas vezes se no
ters tu por acaso algum precioso talisman.

Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma
virtude incomparavel. Trago-o ao pescoo, e ando assim com elle todo o
dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o
celleiro. E o caso  que tudo me corre perfeitamente.

Ol meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia
preciosa de que tanto necessito; pdes ter a certeza de que t'a
restituo.

Pois vem buscal-a manh de manh.

Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
apresentou-lhe este uma avell, atravs da qual tinha tinha passado um
fio de seda.

O nosso homem pl-a immediatamente ao pescoo, e comeou a correr toda a
casa com o talisman. Observou ento a completa desordem que por toda a
parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
cozinha o po, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o
feijo; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos
cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
escripturados; viu tudo isto, e que era necessrio dar-lhe remedio,
comprehendendo que o dono da casa nunca pde ser substituido por
terceira pessoa na direco dos seus negocios.

Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.




*A alma*


Mam, nem todas as creanas que morrem vo para o Paraizo. O outro dia
vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu pap e as
suas duas irmsinhas acompanhavam o caixo, e choravam tanto que me
fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, no 
verdade?

No; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus
paes e suas irms, j estava vivendo feliz no Paraizo.

A alma? mam; no sei o que ; no comprehendo bem.

Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
pequerruchas.

Tive sim, mam, tive muita pena.

Ora bem, o que  que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
braos?

No, mam.

Eram as orelhas?

Oh! no mam, era _c dentro_.

Esse _l dentro_, Maria,  a tua alma que se alegra ou se entristece,
que te reprehende quando fazes o mal, e que est satisfeita quando
praticas o bem.




*Alberto*


Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus
irmos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
feijo produzir cem feijes e muitas vezes mais, e de uma talhada de
batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava
com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. Ha
de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dar libras como uma
cerejeira d cerejas, e irei entregal-as ao pap, que ficar muito
contente. Todas as manhs ia ver se a libra tinha nascido, mas no
rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por
fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.

Vi pap; achei-a e fui semeal-a.

Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?

Mas, pap, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.

 verdade, mas no nasce como uma semente; o oiro no tem vida.

Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
no pertencia.

Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como
?  dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.



*A cano da cerejeira*


Disse Deus na primavera: Ponham a mesa s lagartas! E a cereijeira
cobriu-se immediatamente de folhas, milhes de folhas, fresquinhas e
verdejantes.

A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiou-se,
abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as
folhinhas tenras, dizendo: No se pde a gente despegar d'ellas. Quem 
que me arranjou este banquete?

Ento Deus disse de novo: Ponham a mesa s abelhas! E a cereijeira
cobriu-se immediatamente de flores, milhes de flores delicadas e
brancas.

E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas,
dizendo: Vamos tomar o nosso caf; e que chvenas to bonitas em que o
deitaram!

Provou com a linguita, exclamando: Que deliciosa bebida! No pouparam o
assucar!

No vero disse Deus: Ponham a mesa aos passarinhos! E a cereijeira
cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.

Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasio; temos appetite,
e isto dar-nos-ha novas foras para podermos cantar uma nova cano. No
outono disse Deus: Levantae a mesa, j esto satisfeitos. E o vento
frio das montanhas comeou a soprar, e fez estremecer a arvore.

As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
vento que as lanou ao cho erguia-as novamente, fazendo-as esvoaar.

Chegou o inverno e disse Deus: Cobri o resto! E os turbilhes dos
ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descana.




*Os gigantes da montanha e os anes da planicie*


Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer  plancie a ver o que
faziam l em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anes.
Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido  caa e sua me estava
dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os
jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os
lavradores, coisas inteiramente novas para ella. Oh! que lindos
brinquedos! exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
quasi que cubriu o campo. Lanou-lhe dentro os homens, os cavallos, a
charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello,
onde seu pae estava a jantar.

--Que trazes ahi, minlia filha? perguntou elle.

--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. So os
mais bonitos que tenho visto.

E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os
trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
tivessem transportado d'um formigueiro para um salo. A gigantinha
poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
fez-se serio e franziu o sobrolho. Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso
no so brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e pe-n'o
immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
montanha, morreriam de fome, se os anes da planicie deixassem de lavrar
a terra e de semear o trigo.




*A creana, a anjo e flr*


Quando morre uma creana, desce um anjo do ceo, toma-a nos braos, e
desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que
ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de
quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresam
no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
escolhida, adquirindo voz immediatamente, comea a cantar os coros
maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma
creana morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro
sobre a casa em que a creana brincra, e depois sobre jardins
deliciosos, cobertos de flores.

Qual  a flor que desejas para plantar no paraiso? perguntou o anjo.

Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
magnifica; mas quebraram-lhe o p, e todos os seus ramos cheios de
botesinhos lindissimos pendiam estiolados para o cho.

Pobre roseira! disse a creana ao anjo; vamos buscal-a para que possa
reflorir no paraiso.

O anjo foi buscal-a, e abraou a creana. Colheram muitas flores
brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.

A colheita estava terminada, e comtudo no voavam ainda para Deus. Caiu
a noite silenciosa, e a creana e o seu guia Divino andavam ainda por
cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
de cacos de loua, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
immundicie. Entre estes destroos distinguiu o anjo um vaso de flores
com a terra pelo cho, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos
campos, j murcha, e que parecia no poder reverdecer: tinham-n'a
atirado para a rua como inutil e morta.

Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando,
te contarei a historia da florinha. L ao fundo, l ao fundo, naquella
rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creana miseravel e
doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar
com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
de vero os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
Ento a creana sentada  janella, aquecida pelo sol, sem o cansao do
andar, imaginava-se passeando; no conhecia da floresta, da fresca
verdura da primavera, seno o ramo de faia, que uma vez o filho do
visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabea o ramo
verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava
com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe
flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda
raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o  janella, junto da
cama. A flor plantada por mo abenoada, cresceu, tornou-se grande, e
todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
aproveitar os raios do sol at ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
ostentava as suas cres; quando se sentiu morrer foi para ella que se
voltou.

Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida
flor, esquecida  janella desde ento, murchou, estiolou-se e
atiraram-n'a  rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca  o
thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
canteiros d'um jardim realengo.

Como sabes tu isso? perguntou a creana, que o anjo levava para o co.

--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
em moletas; como no havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!

A creana abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
no co onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
levou-as ao corao, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
formando circulos que vo augmentando successivamente, multiplicando-se
at ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
harmoniosamente--desde a creana abenoada at  humilde florinha do
campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
tortuosa.




*Presente por presente*


Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite
 choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda no tinha chegado, foi
a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
pde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque
eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama no a
tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faises,
e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao
outro dia pela manh disse isto mesmo  pobre mulher, gratificando-a ao
despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
dito que a guardasse como uma pequena lembrana, a boa camponeza julgou
que seria uma medalha, e sentiu que no tivesse um buraquito para a
trazer ao pescoo. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:

Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!

E o bom do homem no podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
achado as suas batatas melhores do que faises.

 necessrio confessar, disse elle com um ar triumphante, que no ha
talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das
batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, j que as acha to boas.

E partiu immediatamente para o palacio com uma proviso de batatas
escolhidas.

Os lacaios e as sentinellas ao principio no o queriam deixar entrar;
mas insistiu energicamente, dizendo que no vinha pedir nada, e que pelo
contrario vinha trazer alguma cousa.

Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.

Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente
pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pea de ouro, em troca
d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis
o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faises. Dignae-vos
acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, l
as encontrareis sempre ao vosso dispor.

A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava
n'um momento de bom humor, fez-lhe doao de uma quinta com trinta
geiras de terra.

Ora o carvoeiro tinha um irmo muito rico, mas invejoso e avarento, que,
sabendo da fortuna do irmo mais novo, disse comsigo: Porque no me ha
de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer
presente d'elle: se deu ao Joo uma quinta com trinta geiras de terra,
simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
recompensar ainda mais generosamente.

Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar
altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.

Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; no
tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o
offerea.

O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
comsigo: Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:

Depois dirigindo-se a elle:

Acceito a tua dadiva, mas no sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
faises. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que  um bom
preo para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.

E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.




*O pinheiro ambicioso*


Era uma vez um pinheiro, que no estava contente com a sua sorte. Oh!
dizia elle, como so horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!

O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manh acordou o
pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
mais sensatos do que elle, no invejavam a sua rapida fortuna.  noite
passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um
sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos ps  cabea.

Oh! disse elle, que doido que eu fui! no me tinha lembrado da cobia
dos homens. Fiquei completamente despido. No ha agora em toda a
floresta uma planta to pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
o oiro attrae as ambies.

Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
avarento no me teria despido.

No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de
nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as
folhas de cristal.

Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em
pedaos o seu manto cristalino. O oiro e o vidro no servem para vestir
as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria
menos brilhante, mas viveria descansado.

Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado s vaidades
primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
outros pinheiros seus irmos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as
todas sem deixar uma unica.

O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j queria voltar  sua
frma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
sua sorte.




*Perfeio das obras de Deus*


_A filha_.--Oh! mam quebrou-se-me a agulha.

_A me_.--Vou-te dar outra.

_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mam?

_A me_.--V se adivinhas.

_A filha_.--N sei, mam.

_A me_.--Conheces os metaes?

_A filha_.--Conheo mam; tenho l dentro muitos bocadinhos dentro de
uma caixa.

_A me_.--Ora muito bem, dize-me l, as agulhas so de pau, de pedra, de
marmore?

_A filha_.--Oh! no; so de metal; mas de que metal?

_A me_.--Antes de perguntar qualquer coisa, v sempre se a adivinhas
primeiro.

_A filha_.--Ora espere!... uma agulha  de metal: no  de prata, porque
no  branca; no  de oiro, porque no  de um lindo amarello muito
brilhante; no  de cobre, porque no  de um amarello muito feio, que
cheira mal... Ento  de ferro, mam?

_A me_.--Adivinhaste.

_A filha_.--Mas, mam, o ferro no  liso e brilhante como as agulhas.

_A me_.-- que  primeiro polido e preparado de certo modo, e depois j
se no chama ferro,  ao.

_A filha_.--Bem, as agulhas so de ao. Agora quero adivinhar como  que
as fazem.

_A me_.-- impossivel, no s capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma
fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar
muito.

_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
nos servimos.

_A me_.--Tens razo;  uma vergonha ignoral-o.

_A filha_.--Mam, deixe-me ver as suas agulhas.

_A me_.--Olha, ahi tens o meu estojo.

_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! So to
fininhas, to fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para
fazer uma coisinha to delicada!

_A me_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?

_A filha_.--Lembro, mam; era to bonito!

_A me_.--Li n'um jornal allemo que um operario chamado Nerlinger fez
um copo de um gro de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais
doze...

_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um
gro de pimenta!

_A me_.--E ainda no  tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas
doiradas, e sustentava-se no p.

_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!

_A me_.--Tens razo de te admirares da habilidade dos homens. 
effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admirao.

_A filha_.--Quaes, mam?

_A me_.--J t'o digo. (_Levanta-se_.)

_A filha_.--Que quer, mam?

_A me_.--Quero que vejas o microscopio de teu pap.

_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.

_A me_.--Este  magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes
ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como  fina,
lisa e brilhante... Agora olha; o que  que vs?

_A filha_.--Meu Deus, que coisa to feia! que agulha to grosseira!

_A me_.--Vs-lhe buracos, riscos, asperesas, no  verdade?

_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.

_A me_.--Pois todas essas imperfeies so verdadeiras, existem na
agulha; a nossa vista, por ser muito fraca,  que no d por ellas.

_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
visse ao microscopio.

_A me_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.

_A filha_.--O qu, mam?

_A me_.--O aguilhosinho de uma abelha.

_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como  liso, como 
brilhante!... Mas j sei que visto ao microscopio ha de acontecer o
mesmo que com a agulha.

_A me_.--Prompto: olha.

_A filha_ (olhando).-- exquisito, mam!

_A me_.--Ento?

_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas no  spero, pelo
contrario,  perfeitamente liso... A agulha parecia que no tinha ponta,
e o ferrosinho da abelha tem uma ponta to fina como um cabello. Porque
ser isto, mam?

_A me_.-- porque o operario que fez este aguilho  muito mais habil
do que o que fez a agulha.

_A filha_.--Quem  esse operario to habil?

_A me_.-- o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as
creaturas.

_A filha_.-- Deus.

_A me_.--Exactamente. Pois no  Deus que fez as abelhas e todos os
animaes?

_A filha_.--De certo.

_A me_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilho d'esta abelha; e
ahi tens porque o aguilho  superior  agulha:  obra de Deus. Mas
continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui est um pedacinho de
musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que  que vs?

_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.

_A me_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.

_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo
microscopio.

_A me_.--Ento?

_A filha_.-- horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes
buracos deseguaes.

_A me_.--As obras do homem so todas assim.

_A filha_.--Oh! mam, vejamos agora as obras de Deus.

_A me_.--Sabes o que  isto?

_A filha_.--Sei, mam,  um casulo de bicho de seda.

_A me_.--Os fiosinhos que o compem so muito finos, muito lisos; olha
pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.

_A filha_ (olhando pelo microscpio).--No, mam; os fios so todos
eguaes, e o casulo  sempre muito liso, muito brilhante.

_A me_.-- porque  obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha
sobre este papel?

_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas
tambm com tinta.

_A me_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
redondos?

_A filha_.--Sim, mam, perfeitamente redondos.

_A me_.--V-os agora ao microscopio.

_A filha_.--Oh! j no so redondos, so todos deseguaes.

_A me_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus.  uma aza de borboleta;
vs que est mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
microscopio; o que  que vs?

_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, s com a differena
que agora  maior. Que bellas que so as obras de Deus!

_A me_.--Merece bem a pena estudal-as.

_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
dos homens.

_A me_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do
homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
primeira  que Deus merece tanto a nossa admirao como o nosso amor; a
segunda  que os homens orgulhosos so insensatos, porque no podem
fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras
mais primorosas so cheias de imperfeies, se as compararmos com as
obras do Creador.




*Joo e os seus camaradas*


Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso,
possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. Joo resolveu-se a
correr mundo,  busca de fortuna. A me coseu o resto da farinha, matou
o gallo, e disse-lhe:

O que  que preferes: metade d'esta merenda com a minha beno, ou toda
com a minha maldio?

Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no
mundo eu quereria a tua maldio.

Bem, meu filho, replicou a me carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
abene.

E partiu. Foi andando, andando, at que encontrou um jumento, que tinha
caido n'um atoleiro, d'onde no podia sair.

Oh! Joo, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a
afogar-me.

Espera, respondeu Joo.

E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o
quadrpede do atoleiro.

Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de Joo. Se te posso ser util,
aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?

--Vou por esse mundo fra, a ver se ganho a minha vida.

Queres tu que eu te acompanhe?

Anda d'ahi.

E puzeram-se a caminho.

Ao passarem por uma aldeia, viram um co perseguido pelos rapazes da
eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
animal correu para Joo que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de
tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.

Obrigado, disse o rafeiro a Joo. Se para alguma cousa te for
prestavel, aqui me tens s tuas ordens. Aonde vaes tu?

Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.

Queres que te acompanhe?

Anda d'ahi.

Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
merenda do alforge, e repartiu-a com o co. O burro pastou alguma erva
que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar
lastimosamente.

Coitado, exclamou Joo! E deu-lhe uma asa do frango.

--Obrigado disse o gato. Oxal que um dia eu te possa ser util. Aonde
vaes tu?

--Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.

--De boa vontade.

Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um
grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
gallo na bocca.

Agarra! agarra! bradou o pequeno ao co.

E no mesmo instante o co atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em
perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente
disse a Joo:

--Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?

--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?

--De boa vontade.

--Ento anda. Se te canares, empoleira-te no jumento.

Os viajantes contnuaram a jornada com o seu novo companheiro.
Sentiram-se todos fatigados e no avistavam  roda nem uma quinta, nem
uma cabana.

--Paciencia, disse Joo, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
hoje a dormir ao ar livre; alm d'isso a noite est socegada, e a relva
 macia.

Dito isto estendeu-se no cho; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o co
e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo
empoleirou-se n'uma arvore.

Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo comeou
a cantar.

--Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque  que
ests a gritar?

--Porque j  dia, respondeu o gallo. No vs ao longe a luz da
madrugada, que vem rompendo?

--Vejo uma luz, disse Joo, mas no  do sol,  d'uma lanterna.
Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto
da noite.

Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez
dos campos, at que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo,
d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
blasphemias horriveis.

--Escutem, disse Joo; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
 que est l dentro.

Eram seis ladres armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam
alegremente, sentados a uma mesa principesca.

--Que bom assalto acabmos de dar, disse um d'elles, ao castello do
conde, graas ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que  este
porteiro.  sua saude!

-- sade do nosso amigo! repetiram em coro todos os ladres.

E d'um trago despejaram os copos.

Joo voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:

--Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.

O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lanou as mos ao peitoril
d'uma janella, o co trepou-lhe  cabea, o gato  cabea do co e o
gallo  cabea do gato. Joo deu o signal, e estoirou  uma o ornear do
jumento, os latidos do co, o miar do gato e os gritos estridentes do
gallo.

--Agora, bradou Joo, fingindo que commandava um destacamento, carregar
armas! Dae-me cabo dos ladres; fogo!

No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando
cada vez mais; os ladres atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
precipitadamente por uma porta falsa.

Joo e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um
excellente jantar, e deitaram-se em seguida--Joo n'uma cama, o burro na
cavallaria, o co n'uma esteira ao p da porta, o gato junto do fogo e
o gallo n'um poleiro.

Ao principio os ladres ficaram muito contentes, por se verem sos e
salvos na floresta. Mas depois, comearam a reflectir.

--Era bem melhor a minha cama, do que esta erva to humida, disse um
d'elles.

--Tenho pena do frango que eu comeava a saborear, disse um outro.

--E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.

--E o que  mais lamentavel, exclamou um quarto,  ficar-nos l todo o
dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
gavetas.

--Vou ver se torno l a entrar? disse o capito.

--Bravo! exclamaram os ladres.

E poz-se a caminho.

J no havia luz na casa; o capito entrou s apalpadellas, e dirigiu-se
para o fogo; o gato saltou-lhe  cara e esfarrapou-lh'a com as garras.
Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
rabo do co, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo
atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.

--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capito, como poderei eu sair!

Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do cho.

Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que no tinha nem
pernas nem braos partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.

--Ento? ento?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.

--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
me deitar e cataplasmas de linhaa para pr n'este corpo, que o trago
n'um feixe. No podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado
por uma velha que estava a cardar l, e arrumou-me na cara com o
cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta,
um demonio d'um remendo atravessou-me as pernas com a sovella. Logo
depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaando-me com as garras.
Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocs me no
acreditam, vo l, e experimentem.

--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
ensanguentado: No seremos ns que l tornaremos.

Pela manh, Joo e os seus camaradas almoaram ainda excellentemente, e
partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladres
lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos,
com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at que chegaram 
porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com
uma libr esplendida, meias de seda, cales escarlates e cabello
empoado.

Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a Joo.

--Que vindes aqui buscar? No ha lugar para os recolher, vo-se embora?

--No queremos nada de ti, respondeu Joo. O dono do castello far-nos-ha
um bom acolhimento.

--Fra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
andar immediatamente, quando no atiro-lhes j s pernas os meus ces de
fila.

--Perdo, s um instante, replicou o gallo empoleirado na cabea do
jumento; no me poderias dizer quem  que abriu aos ladres na noite
passada a porta do castello?

O porteiro crou. O conde que estava  janella, disse-lhe:

-- Bernab, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.

--Senhor, replicou Bernab, este gallo  um miseravel. No fui eu que
abri a porta aos seis ladres.

--Como  ento, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?

Seja como for, disse Joo, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
pedindo-lhe unicamente que nos d de jantar e nos recolha esta noite,
porque vimos canados do caminho.

--Ficae certos que sereis bem tratados.

O burro, o co e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na
cosinha. E emquanto a Joo, o conde reconhecido, vestiu-o dos ps 
cabea com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e
disse-lhe:

--Queres ficar comigo? s esperto e honrado, sers o meu intendente.

Joo acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha me para o p de si.
Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.




*O rabequista*


Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma
egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.

As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l em romaria
um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
sido muito longa, estava canado, e j no seu alforge no havia po nem
dinheiro no bolso para o comprar.

Assim que entrou na capella, comeou a tocar na sua rabeca com tal
suavidade, com tanta expresso, que a santa ficou enternecida ao vel-o
to pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa
Cecilia abaixou-se, descalou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o
ao pobre musico, que tonto d'alegria, danando, cantando, chorando,
correu  loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o
sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o  presena do
juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado  morte.

Chegra o dia da execuo. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim no
chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como
ultima graa, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca at ao ultimo momento.
O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam
supplicou o triste desgraado, que o levassem l dentro para tocar a sua
derradeira melodia.

Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
ajoelhou aos ps da santa, e debulhado em lagrimas comeou a tocar.
Ento o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de
novo, descalar o outro sapato e mettel-o nas mos do infeliz musico. 
vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
prestar-lhe as mais honrosas homenagens.




*Os pecegos*


Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
extasiaram-se diante das suas cres e da fina penugem que os cubria. 
noite o pae perguntou-lhes:

--Ento comeram os pecegos?

--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroo, e hei
de plantal-o para nascer uma arvore.

--Fizeste bem, respondeu o pae,  bom ser economico e pensar no futuro.

--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mam ainda me deu
metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.

--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade no admira;
espero que quando fores maior te has de corrigir.

--Pois eu c, disse um terceiro, apanhei o caroo que o meu irmo deitou
fra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for 
cidade.

O pae meneou a cabea:

--Foi uma ida engenhosa, mas eu preferia menos calculo.

--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?

--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho,
ao Jorge, que est coitadinho com febre. Elle no o queria, mas
deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.

--Ora bem, perguntou o pae, qual de vs  que empregou melhor o pecego
que eu lhe dei?

E os trs pequenos disseram  uma:

--Foi o mano Eduardo.

Este no entanto no dizia palavra, e a me abraou-o com os olhos
arrazados de lagrimas.




*A urna das lagrimas*


Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
adorava sobre todas as coisas. No se separava d'ella um s momento; mas
um dia a pobre pequerrucha comeou a soffrer, adoeceu e morreu. A
desditosa me, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
momento,  cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades.
No comia, no fazia seno chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido,
abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua
querida filha, sorrindo com uma expresso angelica e trazendo nas mos
uma urna, que vinha cheia at s bordas.

--Oh! minha querida me, disse-lhe ella, no chores mais. Olha, o anjo
das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais,
transbordar, e as tuas lagrimas correro sobre mim, inquietando-me no
tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.

A pequenina desappareceu, e a me no tornou a chorar para a no
affligir.




*Reconhecimento e ingratido*


Os vossos filhos sero para vs como vs tiverdes sido para vossos paes.
E  natural. As creanas veem diariamente o que fazem seus paes, e
imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a
beno ou a maldio d'um pae cae sobre a cabea de seus filhos,
terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem
ser meditados.

Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
d'algumas perguntas, soube que o campo no pertencia ao homem, mas que
trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
principe, que para as suas despezas d'administrao e representao
necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima
satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeo, que lhe respondeu:

Gasto diariamente comigo a tera parte d'essa quantia; outro tero 
para pagar as minhas dividas; e o resto  para ir juntando algumas
economias.

Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o
d'este modo.

Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que j no podem
trabalhar, e com os meus filhos, que ainda no teem fora para isso. Aos
primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
infancia; e espero que os segundos no me abandonem, quando os annos
tiverem pesado sobre mim.

O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se
da educao de seus filhos; e a beno que lhe deram os seus velhos
paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando
egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicao.

Mas posso desgraadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma
maneira to indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve
de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato
recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde
foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima
esmola, um par de lenoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
O mau filho escolheu os lenoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de
dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
notou que a creana ao partir tinha escondido um dos lenoes a um canto,
atraz da porta.

Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.

Foi, respondeu a creana desabridamente, para me servir mais tarde
d'este lenol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.




*O fato novo do sulto*


Era uma vez um sulto, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.

Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
theatro, no tinha outro fim seno mostrar os seus fatos novos. Mudava
de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Est no conselho;
dizia-se d'elle: Est-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
muito alegre, graas  quantidade d'estrangeiros que por ali passavam;
mas chegaram l um dia dois larapios, que, dando-se por teceles,
disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. No
s eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas alm
d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade
maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos
aquelles que no exercessem bem o seu emprego.

--So vestuarios impagaveis, disse comsigo o sulto; graas a elles,
saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
dos ministros. Preciso d'esse estofo!

E mandou em seguida adiantar aos dois charlates uma quantia avultada,
para que podessem comear os trabalhos immediatamente.

Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que
trabalhavam, apesar de no haver absolutamente nada nas lanadeiras.
Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
muito bem guardado, trabalhando at  meia noite com os teares vasios.

--Preciso saber se a obra vae adiantada.

Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo no podia ser visto pelos
idiotas. E, apesar de ter confiana na sua intelligencia, achou prudente
em todo o caso mandar alguem adiante.

Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.

--Vou mandar aos teceles o meu velho ministro, pensou o sulto; tem um
grande talento, e por isso ninguem pde melhor do que elle avaliar o
estofo.

O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
com os teares vasios.

--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, no vejo
absolutamente nada! Mas no entanto calou-se. Os dois teceles
convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinio sobre os
desenhos e as cres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
olhava, mas no via nada, pela raso simplicissima de nada l existir.

--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido?  necessario que
ningum o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas l
confessar que no vejo nada, isso  que eu no confesso.

--Ento que lhe parece? perguntou um dos teceles:

--Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este
desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sulto que fiquei
completamente satisfeito.

--Muito agradecido, muito agradecido, disseram os teceles; e
mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma
descripo minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois
repetir tudo ao sulto.

Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
bolso,  claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam
sempre.

Passado algum tempo, mandou o sulto um novo funccionario, homem
honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a
este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e no
via nada.

--No acha um tecido admiravel? perguntaram os tratantes, mostrando o
magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente
de no existir.

--Mas que diabo! eu no sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois no serei
eu capaz de desempenhar o meu lugar?  exquisito! mas deixal-o, no o
deixo eu.

Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admirao pelo
desenho e o bem combinado das cores.

-- d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sulto. E toda a
cidade comeou a fallar d'esse tecido extraordinario.

Emfim o proprio sulto quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande
acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois
honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois
velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de
especie alguma.

--No acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho
e as cores so dignos de vossa alteza.

E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam
podessem ver alguma cousa.

--Que  isto! disse comsigo mesmo o sulto, no vejo nada!  horrvel!
serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraa que me
acontece! Depois de repente exclamou:  magnifico! Testemunho-vos a
minha satisfao.

E meneou a cabea com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do
mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto
repetiam como o sulto:  magnifico! At lhe aconselharam a que se
apresentasse com o fato novo no dia da grande procisso.  magnifico! 
encantador!  admirvel! exclamavam todas as bocas, e a satisfao era
geral.

Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
teceles.

Na vespera do dia da procisso passaram a noite em claro, trabalhando 
luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio,
e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.

O sulto com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores
levantando um brao, como para sustentar alguma cousa, disseram:

Eis as calas, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha;
 a principal virtude d'este tecido.

--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios,
provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.

O sulto despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calas,
depois a casaca, depois o manto. O sulto tudo era voltar-se defronte do
espelho.

--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezos.
Que desenho! que cores! que vesturio incomparavel!

Nisto entrou o gro-mestre de ceremonias.

--Est  porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir  procisso,
disse elle.

--Bom! estou prompto, respondeu o sulto. Parece-me que no vou mal.

E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do
seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, no
querendo confessar que no viam absolutamente nada, fingiam arregaal-a.

E, emquanto o sulto caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a
gente na rua e s janellas exclamava: Que vestuario magnifico! Que
cauda to graciosa! Que talhe elegante! Ninguem queria dar a perceber,
que no via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
Nunca os fatos do sulto tinham sido to admirados.

--Mas parece que vae em cuecas, observou um pequerrucho, ao collo do
pae.

-- a voz da innocencia, disse o pae.

--Ha ali uma creana que diz que o sulto vae em cuecas.

Vae em cuecas! vae em cuecas! exclamou o povo finalmente.

O sulto ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era
verdade. Entretanto tomou a energica resoluo de ir at ao fim, e os
camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
imaginaria.




*Boa sentena*


Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil ris
d'alviaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

--Deviam ser oitocentos mil ris, que foi a quantia que eu perdi; no
alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
adiantados os cem mil ris d'alviaras: estamos pagos por conseguinte.

O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, no podia nem
devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
que, vendo a m f do avarento, deu a seguinte sentena:

--Um de vs perdeu oitocentos mil ris; o outro encontrou um alforge
apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
ultimo encontrou no pde ser o mesmo a que o primeiro se julga com
direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
encontraste, e guarda-o at que apparea o individuo que perdeu smente
setecentos mil ris. E tu, o unico conselho que passo a dar-te,  que
tenhas paciencia at que apparea alguem que tenha achado os teus
oitocentos mil ris.




*Os animaes agradecidos*


Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
respondeu:

--Senhor: eu sou um desgraado, um miseravel; nasci no vosso reino, e
chamo-me _Ingratido_.

--Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
servio.

O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se
to esperto e to solicito, que o rei affeioou-se-lhe de tal modo, que
o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administrao da sua casa.
Deslumbrado por uma fortuna to rapida, o seu orgulho desde ento no
conheceu limites; maltratava os inferiores, e no tinha compaixo dos
desventurados.

Ora, na visinhana do palacio havia uma floresta cheia d'animaes
selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a
parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
floresta, ia to absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.

Passado um instante, caiu um leo dentro do mesmo poo; caiu depois um
lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
governador, ao ver-se em to extraordinaria companhia, ficou to
horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperana de
salvao lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
ninguem o vinha soccorrer.

Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha  floresta, para
ganhar o po necessario  sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem
l foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar no longe da
cova em que cara o intendente, cujos gritos d'afflico no tardou a
ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
ali.

--Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto
encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leo, d'um lobo e d'uma
enorme serpente.

--Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, no tendo para
sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava
um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v l pois, se
cumpres a tua promessa?

O intendente continuou:

--Pela f que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
cumprirei a minha palavra.

Confiado n'isto o rachador de lenha foi  cidade, e voltou com uma corda
muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leo atirou-se a
ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
o intendente.

Quando chegou acima, o leo agradeceu ao seu salvador com a maior
amabilidade, e foi-se embora  procura de jantar, porque tinha fome.

Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poo, e, julgando tirar o
governador, enganou-se, porque era o lobo;  terceira vez subiu a
serpente; foi necessrio fazer uma quarta tentativa, para sair o
governador. Este no perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou  mulher tudo o
que se tinha passado, no lhe esquecendo,  claro, as brilhantes
promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh, foi o pobre
homem bater  porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.

--Faa-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex. o intendente
que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.

O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:

--Vae dizer a esse homem, que eu no vi ninguem na floresta; que se
ponha a andar, porque o no conheo.

O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.

O pobre homem tornou para casa mui descoroado, e contou  mulher a
odiosa perfidia de que tinha sido victima.

A mulher disse-lhe:

--Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e
foi talvez por isso que te no pde receber.

Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanas.

Na manh seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo  porta do palacio.
Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que no tornasse
ali a apparecer, quando no ver-se-hia obrigado a empregar meios
violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:

--Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o
inspire melhor. E se assim no for, ainda que te custe, no penses mais
n'isso.

No dia seguinte o bom do homem voltou  carga; e tendo o porteiro
consentido  fora de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este
encolerisado atirou-se praguejando fra do quarto, e crivou o pobre
homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do
cho. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um
burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se
obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente
tinha recobrado algumas foras, voltou ao bosque segundo o costume para
fazer alguma lenha. Apenas l chegou, appareceu-lhe o leo, que elle
tinha ajudado a sair do poo. O leo conduzia um burro diante de si, e
este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leo,
vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso
agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal
de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal
para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.

No dia seguinte, voltando de novo  floresta, appareceu-lhe o lobo, que
o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto
lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado
o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha
tirado do fjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em
que brilhavam trs cres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
serpente chegou ao p do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio
levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho,
afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia.
Antonio respondeu-lhe que a no queria vender, mas simplesmente saber se
seria boa.

O velho respondeu:

--So trs as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria
imperturbavel e luz sem trevas. Se algum t'a comprar por menos dinheiro
do que vale, tornar immediatamente para a tua mo.

Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
sciencia maravilhosa, e correu a contar  mulher a sua felicidade. Como
se imagina, graas  virtude da famosa pedra, no lhe faltaram d'ahi em
diante, nem honras nem riquezas.

Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou
chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.

Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:

--Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me no for paga
pelo que vale, tornar ella mesma para o meu poder.

--Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.

E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manh,
Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
disse-lhe:

--Torna a leval-a ao rei immediatamente; no v elle persuadir-se que
lh'a furtaste.

O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou  presena de sua
magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
preciosa.

--Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro,
fechado com sete chaves, disse o rei.

Antonio mostrou-lhe ento a joia preciosa, e o rei ficou
extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido
semelhante thesouro.

Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratido do governador e o
reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
intendente, e disse-lhe:

--Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratido_,
porque s mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste
com o mal o bem que te fizeram. Mas justia ser feita. Dou a Antonio as
tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
enforcado.

Admiraram todos a sentena do rei, e Antonio desempenhou as suas altas
funces com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos
gloriosos.




*O ermito*


Um homem, animado pela mais ardente crena religiosa, deliberou
retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao
trabalho da sua salvao. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
seus pensamentos no se desviavam nunca da ida de Deus. Depois de ter
assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que j tinha
merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os
santos mais notaveis.

Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:

--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

O ermito, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
seu bordo, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:

--Irmo, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que oraes e
penitencias te tornaste agradavel a Deus.

--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabea, santo padre, no
zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a oraes no as sei,
pobre de mim, que sou um peccador. O que fao  andar de casa em casa a
divertir os outros.

O austero ermito continuou a insistir:

--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum
acto de virtude.

--Em verdade no poderia citar nem um s.

--Mas ento como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
loucamente como os que exercem a tua profisso? Dissipaste frivolamente
o teu patrimonio e o producto do teu officio?

--No; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
filhos tinham sido condemnados  escravido para pagar uma divida. Essa
mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa,
protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a
sua familia, e levei-a  cidade, onde ella devia encontrar-se com seu
marido e com seus filhos. Mas quem no teria feito outro tanto?

A estas palavras o ermito poz-se a chorar, e exclamou:

--Nos meus setenta annos de solido nunca pratiquei uma obra to
meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu no
passas d'um pobre musico.




*Carlos Magno e o abade de S. Gall*


Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
preguiosamente reclinado sobre almofadas  porta da abadia, fresco,
rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e
activos, e o abade era indolente. Alm d'isso o imperador tinha mais
d'um motivo de queixa contra elle.

--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter 
sua esclarecida raso tres perguntas, s quaes ter a bondade de me
responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sesso solemne do
nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
rev.^{ma} vier  minha presena, pensamento que deve ser um erro. Trate
d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, alis deixa de ser abade de S.
Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada
para o rabo.

O abade no sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
os doutores mais famosos pela sua sciencia, no lhe souberam dar
resposta. No entanto os dias iam correndo, e a poca fatal
aproximava-se; j no faltava seno um mez, j no faltavam seno
semanas, e afinal s dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e
anafado, estava magro como um esqueleto. Perdra o somno e o appetite.
Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraa, quando se
encontrou com o seu pastor.

--Bons dias senhor abade. Parece que est mais magro! Est doente?

--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.

--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.

--Infelizmente no so ervas que eu preciso, mas resposta s minhas tres
perguntas.

-- ento latim?

--No, no  latim, seno os doutores tinham-me arranjado tudo.

--Visto que no  latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que : minha me
era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.

Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
barrete ao ar, e disse-lhe:

--Se  apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
pde continuar a engordar; mas para isso  necessario que eu vista o seu
habito.

Quando chegou o dia, o pastor disfarado com o habito do abade de S.
Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
imperial.

--Ento, senhor abade, parece que est mais magro, deu-lhe muito que
pensar a chave do enigma? Vamos l a ver a primeira pergunta: Quanto
valho eu em dinheiro?

--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por
trinta dinheiros, sua magestade vale  justa vinte e nove, s um
dinheiro menos.

--Bravo, senhor abade, a resposta  habil, e na realidade no posso
deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos  segunda pergunta, no ha de
ser to facil dar a resposta. Vamos l a ver: quanto tempo levaria eu a
dar a volta ao mundo?

--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
quatro horas.

--Decididamente, v. rev.^{ma}  um grande finorio, e d'esta vez,
confesso-me vencido; mas a terceira, no d'essas  que se responde com
supposies. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha
de provar que este pensamento  um erro? Tem a palavra senhor abade.

--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; est
enganado, porque eu sou o seu pastor.

--Mas ento tu  que deves ser o abade de S. Gall, e desde j o ficas
sendo.

--No sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor,
peco-lhe outra cousa.

--No tens mais que fallar.

--Peo a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.

Carlos Magno no era homem que faltasse  sua palavra.




*A boneca*


Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma
boneca!

No ha muitos annos, mas ainda no era a cordoaria do Porto o ameno
jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o
sorriso do sol, sem que lhe ennegrea o espirito a vista dos dois
monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades,
que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda no ha
muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
feira, divertindo-me a meu modo.

Canado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella
especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo,
quando novos personagens me chamaram a atteno.

Eram os meus visinhos _ricos_.

Aqui  preciso uma rapida explicao.

Das famlias da minha visinhana, s conheo tres.

Qual d'estas tres familias ser mais feliz?...

Pelo que tenho notado, no tem que invejar umas s outras.

So todas felizes; cada qual a seu modo.

Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.

Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapu na mo e
dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou,
tomou nos braos a filhinha e depol-a no cho, e offerecendo, em
seguida, a mo  esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e
com a menina para a barraca onde eu estava.

No havia ali segredo a surprehender.

Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
parecia agradecer quella formosa criana a manifestao de qualquer
desejo.

No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
felicidade de dez crianas menos abastadas.

Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca...
_rica_.

Faltava apenas a dona da casa--a boneca.

Todo risos e attenes, o logista apresentou o que tinha de melhor.

Depois de muita hesitao e de, j com os olhos, j com a voz, consultar
a mam, a gentil creana acabou por escolher uma magnifica boneca de
dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.

Uma boneca como as outras: cabea e collo de massa, corpo de pellica
recheada, braos e pernas de pu.

Uma vive na loja da casa, que habito.  uma tribu de crianas, que fazem
o martyrio e a alegria da pobre me, e tem por chefe um honrado
sapateiro.

Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
anjos, caidos do co sobre um monte de lama.

So os meus visinhos _pobres_.

A segunda compe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
immediata.

 como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.

A filha que ter dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas,
cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem 
presso.

So os meus visinhos _remediados_.

A terceira  a dos meus visinhos _ricos_.

Casa nobre, jardim espaoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
estado--nada falta quella ditosa gente!

Compe-se egualmente de marido, mulher e filha.

Que formosa criana!... Ter oito annos.

Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e
scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mos de dedos compridos e
esguios, terminados por unhas d'uma cr de rosa transparente, que no
sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.

Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas
aquellas preciosidades de sobre o balco da barraca para dentro do
carro.

A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criana.

Sa d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at casa variadissimas
consideraes, suggeridas pela quasi indiferena, com que aquella menina
recebra brinquedos, que representavam um par de moedas.

Que contraste com os olhares de cubia, com que outras raparigas da
mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabea de panno, horrivel
artefacto portuguez, em que os olhos so representados por dois pontos
de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por
outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de l preta!

Quando cheguei a casa, j na dos meus visinhos remediados no havia luz.

Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
provocavam os ralhos da me.

Quando, no dia seguinte, cheguei  janella, seriam onze horas da manh.

Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na
casa immediata no se via ninguem--estava a pequena na mestra; no
palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma
linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.

Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.

--Ahi est a tua caricatura, minha feiticeira!...--disse eu de mim
para mim. Ensaias nas bonecas o que vs no mundo a que pertences!...
Ests a aprender a copiar... Sempre este mundo!...

Retirei-me da janella.

Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.

A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
vestia tres e quatro vezes!

Ao que eu, porm, achava mais graa, era ao respeito com que a dona a
tratava!

Chamava-lhe sr. D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente
com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que
se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.

Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos
_ricos_--ouvi um grito de susto.

Era devido a um accidente, a que est sujeito quem anda de carro.

Voltra-se este, e a boneca cara, ferindo a fronte na pedra da janella.

O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo,
porm, que a ferida havia forosamente de deixar cicatriz, e
lembrando-se de que s lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
nova, agarrou-a pelos ps e ia atiral-a com despeito  rua, quando mais
perto de mim bradou voz timida e suplicante:

No atire!... D-m'a.

Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu no dra f at
ento.

Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
lanou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.

Vendo uma criana, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
encolhendo os hombros, respondeu:

--J no presta!... Est esmurrada!...

-- o mesmo!... D-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
cubia.

--Dou...--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.

E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mos da
visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse
despedaar-se nas lages da rua.

Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
outra, para mostrar  me a que ella ainda no podia acreditar, que
fosse sua!

Por espao de mezes foi a boneca a principal occupao da nova dona.

A pobre perdra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
vezes em quatro horas!... J lhe no davam excellencia! Chamavam-lhe
sr. D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da
creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
estranhas para ella!

E a desgraada perdia as cres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!

Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
ainda no poderia enganar olhos pouco conhecedores.

No tardou, porm, que arrebiques de mo gosto, fitas velhas, rendas
amarelladas, chapos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do
vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.

Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle
as ondulaes do _moir_, at que, um bello dia, vi a boneca vestida de
cassa---no inverno!--chaile e manta na cabea.

Muito mal lhe ficava aquillo!... quella boneca custava-lhe de certo o
vr-se to mal arranjada.

Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:

-- justo!... Cada qual segundo as suas posses.

Por esse tempo, entrei em relaes com o meu visinho sapateiro.

O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
faziam logo ao amanhecer, e aproveitra a primeira occasio, para me
pedir desculpa.

Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
aproximar-se de ns e, desde ento, nunca saio de casa nem entro, sem
grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.

Entre os filhos do sapateiro, porm, ha uma pequenita d'onze annos, com
quem sympathisei logo  primeira vista.

Chama-se Maria.

Por um d'estes acasos da Providencia, que parece s vezes comprazer-se
em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmos.

Acostumado s travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
fiquei devras pasmado quando o pai m'a apresentou.

E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criana, porque havia
verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: Esta  a
minha Maria!

E tinha razo!

No podia ser mais discreta do que j n'esse tempo era.

-- quem vale  me!...--accrescentou o velho.--Ali, onde a v, faz o
servio d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve
doente--bem pensei que no arribasse!--a pequena era quem cosinhava e
olhava pelos irmos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella
pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao p da me! Foi
preciso eu obrigal-a, que ella no a queria deixar!...

E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que,
havia muito, hesitava sobre se sim ou no se devia despenhar.

Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
cabea coberta por um leno branco.

Desde que o pai me deu to boas informaes da rapariga, nunca mais
passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias 
pequena.

Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
deitada nos joelhos.

--Eu conheo aquella boneca!...--disse eu de mim para mim.

E, no podendo resistir  curiosidade, bradei:

-- Maricas!... Quem te deu a boneca?...

Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, crando de prazer.

Era escusado dizer-m'o.

Maria pegara na boneca e voltra-a de face para mim. No podia
duvidar... Era ella; l estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel
na fronte.

De tempos a tempos, nas raras horas de descano, Maria entretinha-se com
ella.

--Quem te viu e quem te v!...--pensava eu.

s vezes, se Maria se descuidava e os irmos lh'a podiam apanhar, que
tratos que sofria a desgraada!

Roada por aquellas mos, de que um carvoeiro se envergonharia,
empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim,
singularissimo o aspecto da triste!

Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
fraternisar com o povo.

A misera mudra mais uma vez de nome!...

De sr. D. Anna passara a ser sr. Rosinha e tratavam-n'a por vocemec.

Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e leno na cabea.

Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
a boneca.

Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre
boneca a lastimar-se por estar tudo to caro, por haver falta de
trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que
mais familiares eram  pequena.

Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a,
mandavam-n'a buscar agua  fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
acabavam por a despedir.

J o leitor v que, apesar da bondade Maria, deixra de ser feliz.

Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!

Desmaiada de cres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos,
desfeito o carmim dos labios, a boneca no promettia longa durao.

Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi,
tentando em vo agradar  ultima dona que o seu destino lhe dera.

Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!

Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
espadanava em cacho para cima dos passeios, arastando na passagem mil
immundicies.

Eu estava  porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto,
arremessado de dentro da loja, atravessou o espao voando, e foi cair no
leito do enxurro...

Olhei... Era a boneca!...

A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo at esbarrar n'uma
pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou
quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traado entre a pedra e
o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at ir sumir-se nas
profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!

Ser pieguice, ser o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me
impressionou o fim da pobre boneca.

Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado  vidraa do
sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:

--Porque deitaste fra a boneca, Maricas!?

--No fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...

--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...

--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
feia!...

Curvei a cabea ante aquella razo, e segui o meu caminho.

Pobre boneca!




*Inconveniente da riqueza*


Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
surprehendido pela noite  entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para
outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam j
todas fechadas, no se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo
estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual
com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso
Senhor dirigiu-se para l, chegou ao p do muro d'uma quinta, e bateu 
porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.

--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
No se havia de arrepender.

E accrescentou:

--Visto que j todos esto deitados, para que  que voc est ainda a
trabalhar?

--Ora, respondeu o camponez, soube hontem  noite que ia ser perseguido
por um credor desapiedado, se lhe no pagasse manh o que lhe devo,
portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto no nos fica
nada, e no sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus
quizer!

Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mo pelos
olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve d d'elle, e disse-lhe:

--No desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que no te
havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.

Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e
approximou-a do trigo.

--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
tudo!

Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se,
de cada espiga, desceu uma chuva de gros prodigiosa.  vista d'um tal
milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.

--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, sers
recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda,  Deus que te
enriquece.

Dito isto desappareceu.

E a chuva dos gros no parou em toda a noite, e fez um monte to alto
como a egreja.

O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e
seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que
se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o
enriquecra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na
candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a
casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais
absoluta.




*Querer  poder*


--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por
experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima  verdadeira.

Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.

--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e
solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caa_. Tomei
uma grande resoluo. Quero casar com a filha do rei.

O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, at que o rei ouviu
fallar o rapaz da sua louca pretenso. Surprehendido com uma ida to
extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia,
pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes so
os teus titulos? Para seres o marido de minha filha  necessario que te
distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor
incalculavel. Aquelle que o encontrar obter a mo de minha filha.

O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
rio; logo de manh comeava a tirar agua com um balde pequeno, e
deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
horas, punha-se a resar.

Os peixes inquietos ao verem to grande tenacidade, e receiando que
chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.

--Encontrar um diamante que caiu ao rio.

--Ento, respondeu o velho rei, sou d'opinio que lh'o entreguem, porque
vejo qual  a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar
as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.

Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
do rei.




*Qual ser rei?*


Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
successor. Reuniu-se a crte, e decidiu-se que a cora devia pertencer,
no ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.

Resolveram alm d'isso que o cadaver do rei fosse posto de p contra um
muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle
alvo, seria o escolhido para successor.

Comeou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
tempo, e a flecha foi atravessar a mo esquerda do defuncto. O principe
soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmos atirariam per, e que
por conseguinte seria elle quem viria a reinar.

O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
alegre do que o outro principe.

O terceiro varou o corao de seu pae, e os seus gritos de triumpho
quasi que chegavam ao co, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.

Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mos as
flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
longe de si, e desatou a chorar:

--Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jmais
consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mo de teus
proprios filhos!

Os grandes da crte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
digno.




*Os tres vos de Maria*


O primeiro vo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve.
Bordra-o com as suas mos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
seda to bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em
cima.

Este vo branco s o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communho.

O segundo vo de Maria era de l negra. Principiou-o no mesmo dia em que
sua me lhe morrra, deixando-a ssinha, sem amparo, na casa triste e
abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de
marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas
lagrimas.

O vo negro s o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
Jesus no convento da Ave-Maria.

O terceiro vo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado
d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.

Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou
no paraizo.




*Os pequenos no bosque*


Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
outros, que no havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: Vamos
para o bosque que encontremos l toda a especie de lindos bichinhos, que
no fazem outra cousa seno brincar, e ns brincaremos com elles.

Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p da activa formiga e da
abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar,
disse-lhes:

--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
outra j no est solida.

--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provises para o inverno.

--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
ninho.

--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocs, mas ainda
hoje no lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
minha _toilette_.

E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
a saltar e a tagarellar, tambem no queres brincar comnosco?

--Estes pequenos so tolos, disse o regato. Como? Vocs ento imaginam
que eu no tenho que fazer? De noite ou de dia, no descano nem um
momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, s colinas,
aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios,
tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje
acabra, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. No posso perder
um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.

Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um
pintasilgo, em cima d'um ramo.

--Olha! tu, que no tens nada que fazer, queres brincar comnosco?

--Nada que fazer? vocs esto a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo
o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho alm d'isso que tomar
parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o
meu chilrear, e tenho que adormecer as creanas com uma outra cantiga,
que  noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora,
preguiosos, ide cumprir o vosso dever, e no tornem a vir incommodar os
habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.

Os pequenos aproveitaram a lio, e comprehenderam que o prazer s 
ligitimo, quando  a recompensa do trabalho.




*O chapellinho encarnado*


Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
me e sua av adoravam extremosamente. A boa da avsinha, que passava o
tempo a imaginar o que poderia agradar  neta, deu-lhe um dia um chapo
de veludo vermelho. A pequenita andava to contente com o seu chapo
novo, que j no queria pr outro, e comearam a chamar-lhe a menina do
chapellinho encarnado.

A me e a av moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
legua de comprido. Uma manh a me disse  pequenita:

--Tua av est doente, e no pde vir vr-nos. Eu fiz estes doces, vae
levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado no quebres a
garrafa, no andes a correr, vae devagarinho e volta logo.

--Sim, mam, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.

Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se
a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita,
que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.

--Bons dias, chapellinho encarnado.

--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.

--Onde vaes to cedo?

--A casa da minha av que est doente.

--E levas-lhe alguma cousa?

--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
dar foras.

Dize-me onde mora a tua, av, que tambem a quero ir ver.

-- perto, aqui no fim da floresta. Ha ao p uns carvalhos muito
grandes, e no jardim ha muitas nozes.

--Ah! tu  que s uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava
de te comer. Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e
que lindos passarinhos. Como  bom passear nas florestas, e ento que
quantidade de plantas medicinaes que se encontram!

--O senhor,  com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
que fizesse bem a minha av.

--Com certeza, minha filha, olha, aqui est uma, e esta tambem, e
aquella. Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
venenosas. A pobre creana, queria-as apanhar para as levar a sua av.

--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.

E poz-se a correr em direco da casa da av, emquanto que a pequerrucha
se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.

Quando o lobo chegou  porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
av no se podia levantar da cama, e perguntou: Quem est ahi?

-- o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
pequerrucha. A mam manda-te bolos e uma garrafa de vinho.

--Procura debaixo da porta disse a av, que encontrars a chave.

Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira,
e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.

Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a
porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av a costumava ter
fechada.

O lobo tinha posto uma touca na cabea, que lhe escondia uma parte do
focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.

--Ai! avsinha, disse a creana, porque tens tu as orelhas to grandes?

-- para te ouvir melhor, minha filha.

--E porque ests com uns olhos to grandes?

-- para te vr melhor.

--E para que ests com os braos to grandes?

-- para te poder abraar melhor.

--E Jesus! para que tens hoje uma bca to grande e uns dentes to
agudos?

-- para te comer melhor. A estas palavras o lobo arremessou-se  pobre
pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e comeou a
resonar muito alto. Um caador que passava por acaso, perto da casa, e
que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha est com um
pesadelo, est peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa. Entra, e
v o lobo estendido na cama.

--Ol, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.

Armou a sua espingarda, mas parando logo: No, disse elle, no vejo a
dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o
animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e
saltou para o cho, gritando:

--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!

A av saiu tambm contentissima por ver outra vez a luz do dia.

O lobo continuava a dormir profundamente, e o caador metteu-lhe ento
duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a av e a
neta para verem o que se ia passar.

Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se
para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
no podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e
affogou-se.

O caador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha
e a sua neta. A velha sentia-se remoar, e o chapellinho encarnado
prometteu no tornar a passar na floresta, quando sua me lh'o
prohibisse.




*Os cinco sonhos*


Andando um dia Carlos Magno  caa com uma comitiva numerosa, perseguiu
um veado, que dava taes saltos, e corria por tal frma, que, apesar da
ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi s
ento que viu que estava s, tendo a sua crte ficado muito para traz;
sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria
no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladres.
Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe
quizeram logo contar.

O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:

--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro  pessoa que acaba de entrar
aqui, e punha-o na minha cabea.

--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraa.

--E eu que estava pondo o seu manto.

--E eu, disse o quarto ladro, para lhe fazer favor, passava em roda do
meu pescoo aquella pesada cadeia d'ouro, da qual est pendurada a sua
trompa de caa.

--Vejo bem, disse o imperador, que teem teno de me roubar tudo, e
mesmo a vida. Reconheo que estou em poder de vocs, e que toda e
qualquer resistencia seria inutil. No lhes peo seno uma cousa,  que
me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caa.

Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido
d'um moribundo deve ser respeitado.

Carlos Magno levou  boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou
d'ella sons to fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os
seus companheiros de caa e a sua comitiva estavam ao p d'elle.

--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem
eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocs todos iam ser
enforcados diante d'este casebre.

E o sonho realisou-se immediatamente.




*A egreja do rei*


Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da
Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
marmore uma inscripo em letras d'ouro, que dizia que s elle, e mais
ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite
seguinte o nome do rei foi apagado da inscripo, e substituido por o
d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
pr o seu nome na inscripo, e de novo foi substituido pelo da pobre
mulher;  terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou
ento que lhe trouxessem a mulher  sua presena:

--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem
fosse com o que fosse para a edificao d'esta egreja; vejo que no
cumpriste as minhas ordens.

--Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas
ordens, apesar da magua que sentia por no poder offerecer o meu
pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei no desobedecer a vossa
magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
que eu levava s escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
 construco da egreja.

--O teu nome  mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na
inscripo do monumento, disse-lha o rei.

Mas na noite seguinte uma mo invisivel restabeleceu na lapide da egreja
o nome do rei, que desde ento l se conserva ainda.




*O valente soldado de chumbo*


Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmos, por todos
terem nascido da mesma colher de chumbo. Vde-os: que attitude marcial,
d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos!
A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da
caixa em que elles estavam, foi este grito: Olha soldados de chumbo!
que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado
de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a
mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
menos, porque o tinham deitado na frma em ultimo lugar, e j no havia
chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros no estavam mais
firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e  este o que
precisamente nos interessa.

Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de
papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos sales.
 volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia
poeticamente n'um pedao d'espelho que fingia um lago, onde nadavam
pequeninos cysnes de cra. Tudo isto era encantador, mas no tanto como
uma menina que estava  porta, e que era tambem de papel, vestida com um
lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
tinha os braos arqueados, porque era danarina, e tinha uma perninha
levantada a tal altura, que o soldado de chumbo no a podia ver, e
imaginou que, como elle, no tinha seno uma perna.

--Ali est a mulher que me convm, pensou elle, mas  uma grande
fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
quatro camaradas, e no haveria c lugar pura ella. No entantanto
preciso conhecel-a.

Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver  sua vontade a
elegante danarina, que estava sempre n'um p s, sem perder o
equilibrio.

 noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas
da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, comearam
a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam l ir; mas
como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes comeou a dar cabriolas
e saltos mortaes, o lapis traou mil arabescos phantasticos n'uma louza,
emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar.
Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
danarinasinha. Ella no bico do p, e elle n'uma perna s, a
espreital-a.

Deu meia noite, e zs, a tampa da caixa de rap levanta-se, e em lugar
de rap, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.

--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
sitio.

Mas o soldado fez que no ouvia.

--Espera at manh, e vers o que te acontece, continuou o feiticeiro.

No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de
chumbo  janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por
causa do vento caiu  rua de cabea para baixo. Que tombo! Ficou com a
perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta
enterrada entre duas lages.

A creada e o rapazito foram l abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: Cautella!
tel-o-am achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva
comeou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois
do aguaceiro passaram dois garotos.

--Ol! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o
navegar.

Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de
chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
Que fora de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava
d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.

De repente o barco foi levado para um cano, onde era to grande a
escurido como na caixa dos soldados.

--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me
metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina
estivesse no barco, no importava, ainda que a escurido fosse duas
vezes maior.

D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do
cano.

--Venha o teu passaporte.

Mas o soldado de chumbo no disse nada, e agarrou com mais fora na
espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
rangendo os dentes, e gritando s palhas, e aos cavacos:--Faam-n'o
parar, faam-n'o parar! No pagou a passagem, no mostrou o passaporte.

Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j a luz do dia, e
sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
Havia na extremidade do cano uma queda d'agua to perigosa para elle,
como  para ns uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem
poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lanou-se sobre a
queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se
atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.

O barco, depois de ter andado  roda durante muito tempo, encheu-se
d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua j chegava ao pescoo do
soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
agua passou por cima da cabea do nosso heroe. N'esse momento supremo,
pensou na gentil danarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

--Soldado: o perigo  enorme, a morte espera-te.

O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi
devorado por um grande peixe.

L  que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E alm d'isso, que
talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado
estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.

O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, at que emfim
parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia,
e alguem exclamou:

--Olha um soldado de chumbo!

O peixe tinha sido pescado, exposto na praa, vendido, e levado para a
cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na
barriga d'um peixe. No entretanto o soldado no se sentia orgulhoso.
Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto  verdade que acontecem
cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel danarina sempre de perna
no ar. O soldado de chumbo ficou to commovido, que de boa vontade teria
derramado lagrimas de chumbo, mas no era conveniente. Olhou para ella,
ella olhou para elle, mas no disseram uma palavra um ao outro.

De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no
fogo; eram obras do feiticeiro da caixa do rap.

O soldado de chumbo l estava perfilado, allumiado por um claro
sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as cres lhe tinham
desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas
viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
danarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre
intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma
porta, o vento arremeou a danarina ao fogo para junto do soldado, que
desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, j no era mais
que uma pequena massa informe.

No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
objecto que tinha o feitio d'um pequeno corao de chumbo, e tudo o que
restava da danarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
ennegrecido.




*Joo Pateta*


Joo era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A
gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Joo Pateta. Um dia sua me
mandou-o  feira comprar uma foice.  volta, comeou a andar com a foice
 roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.

--Pateta, disse-lhe sua me, o que deverias ter feito era pr a foice em
um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.

--Perdo, me, respondeu humildemente Joo, para a outra vez serei mais
esperto.

Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que
as no perdesse.

--Fique descanada. E voltou todo orgulhoso.

--Ento, Joo, onde esto as agulhas?

--Ah! esto em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a
passar o carro do visinho carregado de palha; metti l as agulhas, no
podem estar em sitio melhor.

--De certo, esto em lugar de tal modo seguro, que no ha meio de as
tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapo.

--Perdo, respondeu Joo, para a outra vez, heide ser mais esperto.

Na outra semana, por um dia de calor, Joo foi d'ali uma legua comprar
uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua me, poz a
manteiga dentro do chapo e o chapo na cabea. Imagine-se o estado em
que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

A me j tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
resolveu-se a mandal-o  feira vender duas gallinhas.

--Ouve bem, no vendas pelo primeiro preo. Espera que te offeream
outro.

--Est entendido, respondeu Joo.

Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.

--Queres seis tostes por essas gallinhas?

--Ora adeus! minha me recommendou-me, que no acceitasse o primeiro
preo, mas que esperasse o segundo.

--E tens muita raso. Dou-te um cruzado.

--Est bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro,
mas, como cumpro as ordens de minha me, ella no tem que me ralhar.

Depois d'isto, Joo foi condemnado a ficar em casa. Sua me sabia que
mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manh quiz fazer uma
experiencia, e disse-lhe:

--Vae vender este carneiro  feira. Mas no te deixes enganar. No o
entregues seno a quem te der o preo mais elevado.

--Est bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.

--Quanto queres por esse carneiro?

--Minha me disse-me que o no vendesse seno pelo preo mais elevado.

--Quatro mil ris?

-- o preo mais elevado?

--Pouco mais ou menos.

-- minha a l e o carneiro, disse um rapaz que trepra a uma escada.

--Quanto?

--Dez tostes:

-- menos, respondeu timidamente o Joo.

--Sim, mas vs at onde chega esta escada. Em toda a feira no ha um
preo mais elevado.

--Tem raso.  seu o carneiro.

Desde esse dia o Joo Pateta no tornou a ser encarregado de vender ou
comprar cousa alguma.




*Branca de Neve*


Era uma vez uma rainha, que se lastimava por no ter filhos. Um dia
d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'bano olhando de vez em
quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no cho,
distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.

--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beios to vermelhos
como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros
como este bano.

Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu  luz uma filha,
que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo to branco,
que lhe chamavam Branca de Neve. Porm esta feliz me no gozou muito
tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
d'uma grande belleza, e d'um orgulho no menos extraordinario. Era to
formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho
magico dizia-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual  a mulher mais linda que ha no
mundo?

--s tu, respondia o espelho.

No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
formosa. Tinha apenas sete annos, e j ninguem a podia ver sem ficar
maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
espelho, disse-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual  a mulher mais linda que ha no
mundo?

--No s tu, no s tu. Branca de Neve  mais linda.

A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no corao uma dr aguda,
como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela
innocente Branca. No podia socegar nem de dia, nem de noite. Para
satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:

--Quero quo Branca desapparea. Conduze-a  floresta, mata-a, e, para me
provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o
corao.

O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creana chorava e
lamentava-se, e pedia-lhe que a no matasse, porque ella no tinha feito
mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas
lagrimas, no teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
as feras a devorassem a culpa no era d'elle, mas sim da rainha. Assim
fez, e para mostrar o corao de Branca  rainha, matou um cabrito, e
tirou-lhe o corao. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou
contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma
mulher no mundo  to bella como eu.

A pobre Branca, abandonada na floresta, no tinha morrido, mas estava
cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os ps nas pedras, e
andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
tambem via animaes ferozes. Mas as feras no lhe faziam mal algum, o
deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

 noite chegou ao p d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de
brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.

Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
que tinham gente em casa. Um d'elles disse:

--Quem comeu o meu po?

E os outros successivamente:

--Quem pegou no meu garfo?

--Quem comeu o meu caldo?

--Quem bebeu o meu vinho?

E emfim um d'elles:

--Quem est ahi deitado na minha cama?

Reuniram-se todos  roda do pequeno leito em que dormia Branca.  luz
das lanternas viram o doce rosto da creana, que dormia tranquillamente,
e affastaram-se sem fazer bulha, para a no accordar. Branca no dia
seguinte de manh ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
aquelles sete anes das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura,
que no tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava.
Branca contou a sua triste historia, e os anes disseram-lhe:

--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?

--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.

Comeou logo o seu servio, e continuou-o regularmente todos os dias.
Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anes iam trabalhar para as
minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que j no
tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
e disse-lhe:

--Meu fiel espelho, no  verdade que eu sou agora a mulher mais linda
que ha no mundo?

E o espelho respondeu:

--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca est nas sete
montanhas, e Branca  mais linda do que tu.

Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que
modo? Uma manh partiu desfarada em vendedeira ambulante, com um cesto
cheio d'objectos de phantasia. Foi direita s sete montanhas, e bateu 
porta da casinha, gritando: Quem quer comprar bonitas joias?

Os anes tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras
estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser
prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no
cesto, esqueceu-se das suas promessas.

--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao
pescoo.

Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
anes voltaram, viram a infeliz Branca estendida no cho e completamente
inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
gotas d'um licor amarello. Branca comeou a respirar, voltou a si pouco
a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

--Pdes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira no era
outra pessoa, seno a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, no deixes
entrar aqui ninguem, quando no estivermos em casa.

Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do
espelho, e disse-lhe:

--Meu fiel espelho: Qual  agora a mulher mais linda que ha no mundo?
Responde.

E o espelho respondeu:

--s tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca est
nas sete montanhas, e Branca  mais linda do que tu.

A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
infeliz Branca. Tornou-se a disfarar em vendedeira. Chegou s sete
montanhas, e bateu  porta da cabana.

--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu  janella, e respondeu:

--V-se embora, aqui no entra ninguem.

--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. J
viu outro to bonito?

Branca no poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a
porta.

--Oh! minha linda menina, deixe-me pr-lh'o na cabea.

Ao dizer isto enterrou-lhe na cabea o pente, que estava envenenado, e
Branca caiu morta.

 noite quando regressaram os anes, acharam-n'a pallida e fria.
Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.

No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio.
Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
o espelho respondeu como antecedentemente.

--Ah!  preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me
sacrificar.

Vestiu-se de camponeza com um cesto de mas. Entre ellas havia uma que
estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu  porta da cabana.

--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?

--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, no deixo entrar
ninguem, nem compro coisa alguma.

--Est bem, no faltar quem compre estas ricas mas. Mas por ser to
bonita, quero dar-lhe uma.

--Obrigada, no posso acceitar.

--Imagina que est envenenada. Olhe, eu vou comer um pedao. Ah! que boa
que ! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
mordia no lado da ma, que no estava envenenado. Branca deixou-se
tentar, levou  boca o outro pedao, e caiu fulminada.

--Ahi tens, para castigo da tua formosura.

Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
perguntou-lhe:

--Meu fiel espelho, quem  agora a mulher mais linda?

E o espelho respondeu:

--s tu, s tu.

--At que emfim!

Os anes estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o
licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos
da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas no podiam
acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto to tranquillo,
as suas faces to frescas, parecia que estava a dormir. No quizeram
enterral-a. Metteram-n'a n'um caixo de cristal, e escreveram em cima.
Aqui jaz a filha d'um rei; puzeram o caixo n'uma das sete montanhas,
e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais
pequena alterao.

Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar 
caa, viu o caixo, e pediu aos anes que lh'o cedessem, fosse por preo
que fosse.

--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixo, que
 o nosso thesouro.

--Ento dem-m'o, j no posso viver sem contemplar este rosto de
mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me
faam isto.

Os anes, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixo para
o levarem. Um d'elles tropeou n'uma raiz, e o caixo soffreu um
balano, que fez cair o bocado da ma envenenada, que Branca no tinha
engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O
joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O
casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e
rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de
Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos
os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:

--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?

E o espelho respondeu:

--Branca  mais formosa que tu.

A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
fossem descobertos, que morreu de repente.

Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de
princesa no se esqueceu dos anes que tinham sido os seus bemfeitores.




*A rapariguinha e os phosphoros*


Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de
dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escurido
passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabea descoberta e os
ps descalos.  verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua me j
tinha usado, to grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a inteno de fazer
d'elle um tero para o seu primeiro filho.

A pequenita caminhava com os psinhos ns, arroxeados pelo frio; tinha
no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na
mo um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; no tinha havido
compradores, e por isso no apurra cinco ris.

Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoo; mas
pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?

As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos
manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.

Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
vez mais, mas no se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
porque no tinha vendido os seus phosphoros. Alm d'isso em sua casa
fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
mosinhas j quasi que as no sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso
lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o
aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que
luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro
de ferro, cujo lume magnifico aquecia to suavemente, que era um regalo.

A pequerrucha ia j a estender os psitos para os aquecer tambem, quando
a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mo uma
pontita de phosphoro consumido.

Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse
muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha
alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha
assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume
delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do
prato, e cau no cho ao p da pequerrucha, com o garfo e a faca
espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de
si a parede fria e tenebrosa.

Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo
de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem
sumptuoso.

Nos ramos verdes brilhavam centenares de bales accesos, e as estampas
coloridas, como as que ha s portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
Quando ia agarral-as com as duas mos, apagou-se o phosphoro; todos os
bales da arvore do Natal comearam a subir, a subir, e viu ento que se
tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo
um longo rasto de fogo.

-- algum que est a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua av, que
lhe queria tanto, mas que j morrera, dissera-lhe muitas vezes: Quando
cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.

Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
appareceu sua av, de p, com um ar radioso e suavissimo.

--Minha av, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes
embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecers como a panella de
ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.

Accendeu o rosto do masso, porque no queria que sua av lhe fugisse, e
os phosphoros espalharam um claro mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
av tinha sido to formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas
alegres, no meio d'este deslumbramento, voram to alto, to alto, que
j no tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.

Mas quando rompeu a fria madrugada, encontrram a pequerrucha, entre os
dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios...
morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu
alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que
faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se,
disse um homem que passou. E ninguem soube nunca as lindas coisas que
ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
velha av no dia do Anno Novo.




*O primeiro peccado de Margarida*


Chamava-se Margarida, e estavam  espera d'ella no co, porque Deus
tinha dito:-- uma boa alma, e, como l em baixo no mundo lhe pde
acontecer alguma desgraa, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.

Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como
ella; todos os dias ao acordar resava as oraes, que sua me lhe tinha
ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como no tinha
joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.

Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.

E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella cano
d'amor e de gloria, que j emballra muitos beros, e que podia
sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.

N'uma tarde de vero, estava ella sentada  porta de casa fiando linho,
 hora em que as estrellas comeam a apparecer, uma a uma no firmamento.

Estava Margarida cantando a sua cano, quando passou por alli uma das
suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo.
Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
collar d'ouro que levava ao pescoo; apertou-lhe a mo para que visse
bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que
inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.

O fio de linho j no passava to rapidamente entre os dedos de
Margarida, a roda cessra o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das
mos.

Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si
um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mo um gorro de velludo
preto, com uma pluma vermelha, da cr do fogo. O cavalleiro saudou-a
respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
perguntou-lhe:

--Qual  o caminho da cidade?

Margarida estendeu a mo para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se
tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma
estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que
o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se ento com
um sorriso estranho e diabolico.

N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
Margarida, e pediu-lhe uma esmola.

Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraado.

O cavalleiro ento, soltando um grito de colera, ia lanar-se sobre
Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
disfarado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto  Satans, que
tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.




*Um nome inscripto no co*


Era uma vez um pobre mendigo, que bateu  porta d'uma humilde cabana a
pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas no vendo, nem
ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
ento uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:

--Ai! no te posso dar nada, porque nada tenho.

E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater  mesma
porta.

--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j te disse que no tenho nada
que te dar.

--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.

E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
cima da meza, muitos bocados de po e algumas moedas de dez ris, que
lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.

--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se
embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.

No sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-ho no
Paraizo, e mais tarde ns o viremos a saber.




*O linho*


O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e
transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o
d'um filho quando a me o lava e lhe d um beijo.

--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
e serei brevemente uma rica pea de panno. Sinto-me feliz. No ha
ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello
futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
feliz, feliz a mais no poder ser!

--Como s ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu no conheces o
mundo, de que ns outras temos uma larga experiencia.

E rangendo lastimosamente, cantaram:

    --Cric, crac! cric, crac! crac!
    --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

--No to cedo como vocs imaginam, respondeu o linho; est uma bella
manh, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
florir. Sou muitissimo feliz.

Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de
pol. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e
depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!

--No se pde ser mais feliz, pensou o linho de si para si;  necessario
soffrer, o soffrimento  a me da experiencia.

Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o,
cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois,
puzeram-n'o n'uma roca, e ento perdeu a cabea inteiramente.

--Era feliz de mais, pensava o desgraado linho no meio d'aquellas
torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.

E ainda estava dizendo--perdidas, e j o estavam a metter no tear e a
transformal-o n'uma pea de panno.

--Isto  extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:

    Cric, crac! cric, crac! crac!
    Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

Agora  que eu principio a viver. Padeci muito,  verdade, mas por isso
tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me to forte, to alto,
to macio! Ah! isto  bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
ninguem trata da gente, e no bebemos outra agua a no ser a da chuva.
Agora  o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
manhs, e  noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura
fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
melhor pea da parochia. No posso ser mais feliz.

Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o s thesouras. Cortaram-n'o e
picaram-n'o com uma agulha. No era l muito agradavel, mas em
compensao fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.

--Agora decididamente comeo a valer alguma coisa. O meu destino 
abenoado, porque sou util n'este mundo.  preciso isso para se viver em
paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaos,  verdade, mas formamos um
s grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!

O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.

--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas no
se fazem impossiveis.

E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaados, fervidos, sem
adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
branco magnifico.

--Oh que agradvel surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
do que d'antes, e vo cobrir-me de letras. O que no escrevero em cima
de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!

E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de
numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.

--Ora aqui est uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! No sei
explicar o que me est acontecendo, mas  verdade. Deus sabe
perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, at chegar  maior gloria.
Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: Acabou-se, acabou-se
tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora
as minhas flores so os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
immensamente feliz!

Mas o papel no foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que l
estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
papel no teria prestado o mesmo servio, ainda que desse a volta  roda
do mundo. A meio caminho j estaria gasto.

-- justo, disse o papel, no tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou
ser considerado como um velho av! fui eu que recebi as letras, as
palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os
livros vo por esse mundo fra. A sua misso  realmente bella, e eu
estou contente, e julgo-me feliz.

O papel foi empacotado, e lanado para uma estante.

--Depois do trabalho  agradvel o descano, pensou elle.  n'este
isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S d'hoje em diante  que
eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a ns mesmo  a verdadeira
perfeio. Que me ir ainda acontecer? Progredir, est claro.

Passados tempos, o papel foi atirado ao fogo para o queimarem, porque o
que o no queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as
creanas da casa se pozeram  roda; queriam vel-o arder, e ver tambm,
depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir,
e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel
foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande
chamma, que se erguia to alto, to alto como o linho nunca ergura as
suas flores azues; a pea de panno nunca tinha tido um brilho
semilhante.

Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
palavras, todas as idas desappareceram em linguas de fogo.

--Vou subir at ao sol; dizia uma voz no meio da lavareda, que
pareciam mil vozes reunidas n'uma s. A chamma saiu pela chamin, e no
meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do
homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu,
quando no restava do papel seno a cinza negra, ainda elles danavam
sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas
encarnadas.

As creanas cantavam  roda da cinza inanimada:

    Cric, crac! cric, crac! crac!
    Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

Mas cada um dos pequeninos seres dizia: No, no se acabou; agora  que
 o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.

As creanas no poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas
tambem no era necessario, porque as creanas no devem saber tudo.


FIM.




*INDICE*


A me
O ouro
Doura e bondade
O malmequer
No quero
Piloto
O rico e o pobre
Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
O talisman
A alma
Alberto
A cano da cerejeira
Os gigantes da montanha e os anes da plancie
A creana, o anjo e flr
Presente por presente
O pinheiro ambicioso
Perfeio das obras de Deus
Joo e os seus camaradas
O rabequista
Os pecegos
A urna das lagrimas
Reconhecimento e ingratido
O fato novo do sulto
Boa sentena
Os animaes agradecidos
O ermito
Carlos Magno e o abade de S. Gall
A boneca
Inconveniente da riqueza
Querer  poder
Qual ser rei?
Os trs vos de Maria
Os pequenos no bosque
O chapellinho encarnado
Os cinco sonhos
A egreja do rei
O valente soldado de chumbo
Joo Pateta
Branca de Neve
A rapariguinha e os phosphoros
O primeiro peccado de Margarida
Um nome inscripto no co
O linho


[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade,
residente no Rio de Janeiro.]





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