The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Cames, Tomo III, by 
Lus Cames

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Title: Obras Completas de Luis de Cames, Tomo III

Author: Lus Cames

Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Notas de transcrio:

O texto aqui transcrito,  uma cpia integral e inalterada do livro
impresso em 1843.

Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos alguns
pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a leitura do texto,
e que por isso no considermos necessrio assinal-los. Mantivemos
inclusivamente as eventuais incoerncias de grafia de algumas palavras, em
particular quanto  acentuao.


      *      *      *      *      *





                          CLASSICOS PORTUGUEZES.

                                 TOMO II.

                                  CAMES.

                                    II.



PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,
Rua Racine, 28, junto ao Odeon.



OBRAS COMPLETAS

DE

LUIS DE CAMES,

CORRECTAS E EMENDADAS

PELO CUIDADO E DILIGENCIA

DE

J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.


TOMO TERCEIRO.


LISBOA.

ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,
NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,
3, quai Malaquais, prs le pont des Arts.

1843




      *      *      *      *      *

RIMAS.

      *      *      *      *      *


RIMAS.




REDONDILHAS.


    Sbolos rios que vo
    Por Babylonia, me achei,
    Onde sentado chorei
    As lembranas de Sio,
    E quanto nella passei.
    Alli o rio corrente
    De meus olhos foi manado;
    E tudo bem comparado,
    Babylonia ao mal presente,
    Sio ao tempo passado.

    Alli lembranas contentes
    N'alma se representro;
    E minhas cousas ausentes
    Se fizero to presentes,
    Como se nunca passro.
    Alli, despois d'acordado,
    Co'o rosto banhado em goa,
    Deste sonho imaginado,
    Vi que todo o bem passado
    No he gsto, mas he mgoa.

    E vi que todos os danos
    Se causavo das mudanas,
    E as mudanas dos anos;
    Onde vi quantos enganos
    Faz o tempo s esperanas.
    Alli vi o maior bem
    Quo pouco espao que dura;
    O mal quo depressa vem;
    E quo triste estado tem
    Quem se fia da ventura.

    Vi aquillo que mais val
    Qu'ento s'entende melhor,
    Quando mais perdido for:
    Vi ao bem succeder mal,
    E ao mal muito peor.
    E vi com muito trabalho
    Comprar arrependimento:
    Vi nenhum contentamento;
    E vejo-me a mi, qu'espalho
    Tristes palavras ao vento.

    Bem so rios estas goas
    Com que banho este papel:
    Bem parece ser cruel
    Variedade de mgoas,
    E confuso de Babel.
    Como homem, que por exemplo
    Dos trances em que se achou,
    Despois que a guerra deixou,
    Pelas paredes do templo
    Suas armas pendurou:

    Assi, despois qu'assentei
    Que tudo o tempo gastava,
    Da tristeza que tomei,
    Nos salgueiros pendurei
    Os orgos com que cantava.
    Aquelle instrumento ledo
    Deixei da vida passada,
    Dizendo: Musica amada,
    Deixo-vos neste arvoredo
     memoria consagrada.

    Frauta minha, que tangendo
    Os montes fazieis vir
    Par'onde estaveis, correndo;
    E as goas, que hio descendo,
    Tornavo logo a subir;
    Jamais vos no ouviro
    Os tigres, que s'amansavo;
    E as ovelhas, que pastavo,
    Das hervas se fartaro,
    Que por vos ouvir deixavo.

    Ja no fareis docemente
    Em rosas tornar abrolhos
    Na ribeira florecente;
    Nem poreis freio  corrente,
    E mais se for dos meus olhos.
    No movereis a espessura,
    Nem podereis ja trazer
    Atraz vs a fonte pura;
    Pois no pudestes mover
    Desconcertos da ventura.

    Ficareis offerecida
     Fama, que sempre vela,
    Frauta de mi to querida;
    Porque mudando-se a vida,
    Se mudo os gostos della.
    Acha a tenra mocidade
    Prazeres accommodados;
    E logo a maior idade
    Ja sente por pouquidade
    Aquelles gostos passados.

    Hum gsto, que hoje s'alcana,
     manha ja o no vejo:
    Assi nos traz a mudana
    D'esperana em esperana,
    E de desejo em desejo.
    Mas em vida to escassa
    Qu'esperana ser forte?
    Fraqueza da humana sorte,
    Que quanto da vida passa
    Est recitando a morte!

    Mas deixar nesta espessura
    O canto da mocidade:
    No cuide a gente futura
    Que ser obra da idade
    O que he fra da ventura.
    Qu'idade, tempo, e espanto
    De ver quo ligeiro passe,
    Nunca em mi pudero tanto,
    Que, postoque deixo o canto,
    A causa delle deixasse.

    Mas em tristezas e nojos,
    Em gsto e contentamento;
    Por sol, por neve, por vento,
    _Tendr presente  los ojos
    Por quien muero tan contento._
    Orgos e frauta deixava,
    Despjo meu to querido,
    No salgueiro que alli'stava,
    Que para tropheo ficava
    De quem me tinha vencido.

    Mas lembranas da affeio
    Que alli captivo me tinha,
    Me perguntro ento,
    Qu'era da musica minha,
    Que eu cantava em Sio?
    Que foi daquelle cantar,
    Das gentes to celebrado?
    Porque o deixava de usar,
    Pois sempre ajuda a passar
    Qualquer trabalho passado?

    Canta o caminhante ledo
    No caminho trabalhoso
    Por entre o espsso arvoredo;
    E de noite o temeroso
    Cantando refreia o medo.
    Canta o preso docemente,
    Os duros grilhes tocando;
    Canta o segador contente;
    E o trabalhador, cantando,
    O trabalho menos sente.

    Eu qu'estas cousas senti
    N'alma de mgoas to cheia,
    Como dir, respondi,
    Quem alheio est de si
    Doce canto em terra alheia?
    Como poder cantar
    Quem em chro banha o peito?
    Porque, se quem trabalhar
    Canta por menos cansar,
    Eu s descansos engeito.

    Que no parece razo,
    Nem sera cousa idonia,
    Por abrandar a paixo
    Que cantasse em Babylonia
    As cantigas de Sio.
    Que quando a muita graveza
    De saudade quebrante
    Esta vital fortaleza,
    Antes morra de tristeza,
    Que por abrand-la cante.

    Que se o fino pensamento
    S na tristeza consiste,
    No tenho medo ao tormento:
    Que morrer de puro triste,
    Que maior contentamento?
    Nem na frauta cantarei
    O que passo, e passei ja,
    Nem menos o escreverei;
    Porque a penna cansar,
    E eu no descansarei.

    Que se vida to pequena
    S'accrescenta em terra estranha;
    E se Amor assi o ordena,
    Razo he que canse a penna
    D'escrever pena tamanha.
    Porm, se para assentar
    O que sente o corao,
    A penna ja me cansar,
    No canse para voar
    A memoria em Sio.

    Terra bem-aventurada,
    Se por algum movimento
    D'alma me fores tirada,
    Minha penna seja dada
    A perptuo esquecimento.
    A pena deste destrro,
    Qu'eu mais desejo esculpida
    Em pedra, ou em duro ferro,
    Essa nunca seja ouvida,
    Em castigo de meu rro.

    E se eu cantar quizer
    Em Babylonia sujeito,
    Hierusalem, sem te ver,
    A voz, quando a mover,
    Se me congele no peito;
    A minha lingua se apegue
    s fauces, pois te perdi,
    S'em quanto viver assi
    Houver tempo, em que te negue,
    Ou que m'esquea de ti.

    Mas  tu, terra de glria.
    S'eu nunca vi tua essencia,
    Como me lembras na ausencia?
    No me lembras na memoria,
    Seno na reminiscencia:
    Que a alma he taboa rasa,
    Que com a escrita doutrina
    Celeste tanto imagina,
    Que va da propria casa,
    E sobe  patria divina.

    No he logo a saudade
    Das terras onde nasceo
    A carne, mas he do Ceo,
    Daquella santa Cidade,
    Donde est'alma descendeo.
    E aquella humana figura,
    Que c me pde alterar,
    No he quem se ha de buscar;
    He raio da formosura,
    Que s se deve d'amar.

    Que os olhos, e a luz que ateia
    O fogo que c sujeita,
    No do sol, nem da candeia,
    He sombra daquella ideia,
    Qu'em Deos est mais perfeita.
    E os que c me captivro,
    So poderosos affeitos
    Qu'os coraes tee sujeitos;
    Sophistas, que m'ensinro
    Maos caminhos por direitos.

    Destes o mando tyrano
    M'obriga com desatino
    A cantar ao som do dano
    Cantares d'amor profano,
    Por versos d'amor divino.
    Mas eu, lustrado co'o santo
    Raio, na terra de dor,
    De confuses e d'espanto
    Como hei de cantar o canto,
    Que s se deve ao Senhor?

    Tanto pde o beneficio
    Da graa que d saude,
    Que ordena que a vida mude:
    E o qu'eu tomei por vcio,
    Me faz grao para a virtude;
    E faz qu'este natural
    Amor, que tanto se prza,
    Suba da sombra ao real,
    Da particular belleza
    Para a belleza geral.

    Fique logo pendurada
    A frauta com que tangi,
     Hierusalem sagrada,
    E tome a lyra dourada
    Para s cantar de ti;
    No captivo e ferrolhado
    Na Babylonia infernal,
    Mas dos vicios desatado,
    E c desta a ti levado,
    Patria minha natural.

    E s'eu mais der a cerviz
    A mundanos accidentes,
    Duros, tyrannos e urgentes,
    Risque-se quanto ja fiz
    Do gro livro dos viventes.
    E, tomando ja na mo
    A lyra santa e capaz
    D'outra mais alta inveno,
    Calle-se esta confuso,
    Cante-se a viso de paz.

    Oua-me o pastor e o rei,
    Retumbe este accento santo,
    Mova-se no mundo espanto;
    Que do que ja mal cantei
    A palinodia ja canto.
    A vs s me quero ir,
    Senhor, e gro Capito
    Da alta trre de Sio,
     qual no posso subir,
    Se me vs no dais a mo.

    No gro dia singular,
    Que na lyra em douto som
    Hierusalem celebrar,
    Lembrae-vos de castigar
    Os ruins filhos de Edom.
    Aquelles que tintos vo
    No pobre sangue innocente,
    Soberbos co'o poder vo,
    Arraz-los igualmente:
    Conheo que humanos so.

    E aquelle poder to duro
    Dos affectos com que venho,
    Qu'encendem alma e engenho;
    Que ja m'entrro o muro
    Do livre arbitrio que tenho;
    Estes, que to furiosos
    Gritando vem a escalar-me,
    Maos espiritos damnosos,
    Que querem como forosos
    Do alicerce derribar-me;

    Derribae-os, fiquem ss,
    De fras fracos, imbelles;
    Porque no podemos ns,
    Nem com elles ir a vs,
    Nem sem vs tirar-nos delles.
    No basta minha fraqueza
    Para me dar defenso,
    Se vs, santo Capito,
    Nesta minha Fortaleza
    No puzerdes guarnio.

    E tu,  carne, qu'encantas,
    Filha de Babel to feia,
    Toda de miseria cheia,
    Que mil vezes te levantas
    Contra quem te senhoreia;
    Beato s pde ser
    Quem co'a ajuda celeste
    Contra ti prevalecer,
    E te vier a fazer
    O mal que lhe tu fizeste:

    Quem com disciplina crua
    Se fere mais que huma vez;
    Cuja alma, de vicios nua,
    Faz nodas na carne sua,
    Que ja a carne n'alma fez.
    E beato quem tomar
    Seus pensamentos recentes,
    E em nascendo os affogar,
    Por no virem a parar
    Em vicios graves e urgentes:

    Quem com elles logo der
    Na pedra do furor santo,
    E batendo os desfizer
    Na Pedra, que veio a ser
    Emfim cabea do canto:
    Quem logo, quando imagina
    Nos vicios da carne m,
    Os pensamentos declina
    quella Carne divina,
    Que na Cruz esteve ja.

    Quem do vil contentamento
    C deste mundo visibil,
    Quanto ao homem for possibil,
    Passar logo entendimento
    Para o mundo intelligibil;
    Alli achar alegria
    Em tudo perfeita, e cheia
    De to suave harmonia,
    Que nem por pouca recreia,
    Nem por sobeja enfastia.

    Alli ver to profundo
    Mysterio na summa Alteza,
    Que, vencida a natureza,
    Os mores faustos do mundo
    Julgue por maior baixeza.
     tu, divino aposento,
    Minha patria singular,
    Se s com te imaginar,
    Tanto sobe o entendimento,
    Que fara se em ti se achar?

    Ditoso quem se partir
    Para ti, terra excellente,
    To justo e to penitente,
    Que despois de a ti subir,
    L descanse eternamente!

      *      *      *      *      *


CARTA A HUMA DAMA.

    Querendo escrever hum dia
    O mal, que tanto estimei;
    Cuidando no que poria,
    Vi Amor que me dizia:
    Escreve, qu'eu notarei.
    E como para se ler
    No era historia pequena
    A que de mi quiz fazer,
    Das azas tirou a penna
    Com que me fez escrever.

    E, logo como a tirou,
    Me disse: Aviva os espritos;
    Que pois em teu favor sou,
    Esta penna, que te dou,
    Fara voar teus escritos.
    E dando-me a padecer
    Tudo o que quiz que puzesse,
    Pude emfim delle dizer,
    Que me deo com qu'escrevesse
    O que me deo a escrever.

    Eu qu'este engano entendi,
    Disse-lhe: Qu'escreverei?
    Respondeo, dizendo assi:
    Altos effeitos de mi.
    E daquella a quem te dei.
    E ja que te manifesto
    Todas minhas estranhezas,
    Escreve, pois que te przas,
    Milagres d'hum claro gesto,
    E de quem o vio, tristezas.

    Ah Senhora, em quem se apura
    A f de meu pensamento!
    Escutae e estae a tento,
    Que com vossa formosura
    Iguala Amor meu tormento.
    E, postoque to remota
    Estejais de m'escutar
    Por me no remediar,
    Ouvi, que pois Amor nota,
    Milagres se ho de notar.

    Escrevem varios Authores,
    Que junto da clara fonte
    Do Ganges, os moradores
    Vivem do cheiro das flores
    Que nascem naquelle monte.
    Se os sentidos podem dar
    Mantimento ao viver,
    No he logo d'espantar,
    S'estes vivem de cheirar,
    Que viva eu s de vos ver.

    Huma rvore se conhece,
    Que na geral alegria
    Ella tanto s'entristece,
    Que, como he noite, florece,
    E perde as flores de dia.
    Eu, qu'em ver-vos sinto o preo
    Qu'em vossa vista consiste,
    Em a vendo m'entristeo,
    Porque sei que no mereo
    A glria de ver-me triste.

    Hum Rei de grande poder
    Com veneno foi criado,
    Porque, sendo costumado,
    No lhe pudesse empecer,
    Se despois lhe fosse dado.
    Eu, que criei de pequena
    A vista a quanto padece,
    Desta sorte m'acontece,
    Que no me faz mal a pena,
    Seno quando me fallece.

    Quem da doena Real
    De longe enfrmo se sente,
    Por segredo natural
    Fica so vendo somente
    Hum volatil animal.
    Do mal, que Amor em mi cria,
    Quando aquella Phenix vejo,
    So de todo ficaria;
    Mas fica-me hydropesia,
    Que quanto mais, mais desejo.

    Da vibora he verdadeiro,
    Se a consorte vai buscar,
    Qu'em se querendo juntar,
    Deixa a peonha primeiro,
    Porque lh'impede o gerar.
    Assi quando m'apresento
     vossa vista inhumana,
    A peonha do tormento
    Deixo  parte, porque dana
    Tamanho contentamento.

    Querendo Amor sustentar-se,
    Fez huma vontade esquiva
    D'huma estatua namorar-se:
    Despois, por manifestar-se,
    Converteo-a em mulher viva.
    De quem m'irei eu queixando,
    Ou quem direi que m'engana
    Se vou seguindo e buscando
    Huma imagem, que d'humana
    Em pedra se vai tornando?

    D'huma fonte se saba,
    Da qual certo se provava
    Que quem sbre ella jurava,
    Se falsidade dizia,
    Dos olhos logo cegava.
    Vs, que minha liberdade,
    Senhora, tyrannizais,
    Injustamente mandais,
    Quando vos fallo verdade,
    Que vos no possa ver mais.

    Da palma s'escreve e canta
    Ser to dura e to forosa,
    Que pzo no a quebranta,
    Mas antes, de presunosa,
    Com elle mais se levanta.
    Co'o pzo do mal que dais,
    A constancia qu'em mi vejo,
    No somente ma dobrais,
    Mas dobra-se meu desejo,
    Com qu'ento vos quero mais.

    Se alguem os olhos quizer
    s andorinhas quebrar,
    Logo a me, sem se deter,
    Huma herva lhe vai buscar
    Que lhes faz outros nascer.
    Eu que os olhos tenho attento
    Nos vossos, qu'estrellas so,
    Cego-se os do entendimento,
    Mas nascem-me os da razo
    De folgar com meu tormento.

    L para onde o sol sahe,
    Descobrimos, navegando,
    Hum novo rio admirando,
    Que o lenho que nelle cahe,
    Em pedra se vai tornando.
    No s'espantem disto as gentes;
    Mais razo ser qu'espante
    Hum corao to possante,
    Que com lagrimas ardentes
    Se converte em diamante.

    Pde hum mudo nadador
    Na linha e cana influir
    To venenoso vigor,
    Que faz mais no se bulir
    O brao do pescador.
    Se comeo de beber
    Deste veneno excellente
    Meus olhos, sem se deter,
    No se sabem mais mover
    A nada que se apresente.

    Isto so claros sinais
    Do muito qu'em mi podeis:
    Nem podeis desejar mais;
    Que se ver-vos desejais,
    Em mi claro vos vereis.
    E quereis ver a que fim
    Em mi tanto bem se ps?
    Porque quiz Amor assim,
    Que por vos verdes a vs,
    Tambem me visseis a mim.

    Dos males que m'ordenais,
    Qu'inda tenho por pequenos,
    Sabei, se mos escutais,
    Que ja no sei dizer mais,
    Nem vs podeis saber menos.
    Mas ja que a tanto tormento
    No se acha quem resista,
    Eu, Senhora, me contento
    De terdes meu soffrimento
    Por alvo de vossa vista.

    Quantos contrarios consente
    Amor, por mais padecer!
    Que aquella vista excellente,
    Que me faz viver contente,
    Me faa to triste ser!
    Mas dou este entendimento
    Ao mal, que tanto m'offende,
    Como na vela s'entende,
    Que se se apaga co'o vento,
    Co'o mesmo vento se accende.

    Exprimentou-se algum'hora
    D'ave, que chamo Camo,
    Que se da casa, onde mora,
    V adltera senhora,
    Morre de pura paixo.
    A dor he to sem medida,
    Que remedio lhe no val.
    Mas oh ditoso animal,
    Que pde perder a vida,
    Quando v tamanho mal!

    Nos gstos de vos querer
    Estava agora enlevado,
    Se no fra salteado
    Das lembranas de temer
    Ser por outrem desamado.
    Estas suspeitas to frias,
    Com que o pensamento sonha,
    So assi como as harpias,
    Que as mais doces iguarias
    Vo converter em peonha.

    Faz-me este mal infinito
    No poder ja mais dizer,
    Por no vir a corromper
    Os gostos que tenho escrito,
    Co'os males qu'hei d'escrever.
    No quero que s'aprege
    Mal tanto para encobrir,
    Porque em quanto aqui s'ouvir
    Nenhuma outra cousa se,
    Que a glria de vos servir.

      *      *      *      *      *


 MESMA.

    Dama d'estranho primor,
    Se vos for
    Pezada minha firmeza,
    Olhae no me deis tristeza,
    Porque a converto em amor.
    E se cuidais
    De me matar, quando usais
    D'esquivana,
    Irei tomar por vingana
    Amar-vos cada vez mais.

    Porm vosso pensamento,
    Como isento,
    Seguir sua teno,
    Crendo qu'em tanta affeio
    No haja accrescentamento.
    No creais
    Que desta arte vos faais
    Invencibil;
    Que Amor sbre o impossibil
    Amostra que pde mais.

    Mas ja da teno que sigo,
    Me desdigo;
    Que se ha tanto poder nelle,
    Tambem vs podeis mais qu'elle
    Neste mal que usais comigo.
    Mas se for
    O vosso poder maior
    Entre ns,
    Quem poder mais que vs,
    Se vs podeis mais que Amor?

    Despois que, Dama, vos vi,
    Entendi,
    Que perdra Amor seu preo;
    Pois o favor que lh'eu peo,
    Vos pede elle para si.
    Nem duvido
    Que no pde, de sentido,
    Resistir;
    Pois em vez de vos ferir,
    Ficou de vos ver ferido.

    Mas pois vossa vista he tal
    Em meu mal,
    Que posso de vs querer?
    Que mal poderei valer,
    Onde o mesmo Amor no val.
    Se attentar,
    Nenhum bem posso esperar:
    E oxal
    Que vos alembrasse ja,
    Sequer para me matar.

    Mas nem com isto creais
    Que faais
    Meus servios mais pequenos;
    Porqu'eu, quando espero menos,
    Sabei qu'ento quero mais.
    Nada espero;
    Mas de mi crede este fero,
    Qu'em ser vosso,
    Vos quero tudo o que posso,
    E no posso quanto quero.

    S por esta phantasia
    Merecia
    De meus males algum fruito;
    E no era certo muito
    Para o muito que queria.
    De maneira,
    Que no he, na derradeira,
    Grande espanto,
    Que quem, Dama, vos quer tanto,
    Que outro tanto de vs queira.

      *      *      *      *      *


A HUMAS SUSPEITAS.

    Suspeitas, que me quereis?
    Qu'eu vos quero dar lugar
    Que de certas me mateis,
    Se a causa, de que nasceis,
    Vs quizesseis confessar.
    Que de no lhe achar desculpa,
    A grande mgoa passada
    Me tee a alma to cansada,
    Que se me confessa a culpa,
    Te-la-hei por desculpada.

    Ora vde que perigos
    Tee cercado o corao,
    Que no meio da oppresso
    A seus proprios inimigos
    Vai pedir a defenso!
    Que, suspeitas, eu bem sei,
    Como se claro vos visse,
    Que he certo o que ja cuidei;
    Que nunca mal suspeitei,
    Que certo me no sahisse.

    Mas queria esta certeza
    Daquella que me atormenta;
    Porque em tamanha estreiteza
    Ver que disso se contenta,
    He descanso da tristeza.
    Porque se esta s verdade
    Me confessa limpa e nua
    De cautela e falsidade,
    No pde a minha vontade
    Desconforme ser da sua.

    Por segredo namorado
    He certo estar conhecido
    Que o mal de ser engeitado
    Mais atormenta sabido
    Mil vezes, que suspeitado.
    Mas eu s, em quem se ordena
    Novo modo de querella,
    De medo da dor pequena,
    Venho a achar na maior pena
    O refrigerio para ella.

    Ja nas iras m'inflammei,
    Nas vinganas, nos furores,
    Que ja doudo imaginei;
    E ja mais doudo jurei
    De arrancar d'alma os amores.
    Ja determinei mudar-me
    Para outra parte com ira;
    Despois vim a concertar-me
    Que era bom certificar-me
    No que mostrava a mentira.

    Mas despois ja de cansadas
    As furias do imaginar,
    Vinha emfim a rebentar
    Em lagrimas magoadas,
    E bem para magoar.
    E deixando-se vencer
    Os meus fingidos enganos
    De to claros desenganos,
    No posso menos fazer,
    Que contentar-me co'os danos.

    E pedir que me tirassem
    Este mal de suspeitar
    Que me vejo atormentar,
    Indaque me confessassem
    Quanto me pde matar.
    Olhae bem se me trazeis,
    Senhora, psto no fim;
    Pois neste estado a que vim,
    Para que vs confesseis,
    Se do os tratos a mim.

    Mas para que tudo possa
    Amor, que tudo encaminha,
    Tal justia lhe convinha;
    Porque da culpa, qu'he vossa,
    Venha a ser a morte minha.
    Justia to mal olhada
    Olhae com que cr se doura,
    Que quero, ao fim da jornada,
    Que vs sejais confessada,
    Para qu'eu seja o que moura!

    Pois confessae-vos jagora,
    Indaque tenho temor
    Que nem nesta ltima hora
    Me ha de perdoar Amor
    Vossos peccados, Senhora.
    E assi vou desesperado,
    Porque estes so os costumes
    D'amor que he mal empregado;
    Do qual vou ja condemnado
    Ao inferno de ciumes.

      *      *      *      *      *


LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1]

    Corre sem vela e sem leme
    O tempo desordenado,
    D'hum grande vento levado:
    O que perigo no teme,
    He de pouco exprimentado.
    As redeas trazem na mo
    Os que redeas no tivero:
    Vendo quanto mal fizero
    A cobia e ambio,
    Disfarados se acolhro.

    A nao, que se vai perder,
    Destrue mil esperanas:
    Vejo o mao que vem a ter;
    Vejo perigos correr
    Quem no cuida que ha mudanas.
    Os que nunca em sella andro,
    Na sella postos se vem:
    De fazer mal no deixro;
    De demonio hbito tem
    Os que o justo profanro.

    Que poder vir a ser
    O mal nunca refreado?
    Anda, por certo, enganado
    Aquelle que quer valer,
    Levando o caminho errado.
    He para os bons confuso,
    Ver que os maos prevalecro;
    Que, psto se detivero
    Com esta simulao,
    Sempre castigos tivero:

    No porque governe o leme
    Em mar envolto e turbado,
    Que tee seu rumo mudado,
    Se perece grita e geme
    Em tempo desordenado.
    Terem justo galardo,
    E dor dos que merecro,
    Sempre castigos tivero
    Sem nenhuma redempo,
    Postoque se detivero.

    Na tormenta, se vier,
    Desespere na bonana,
    Quem manhas no sabe ter:
    Sem que lhe valha gemer,
    Ver falsar a balana.
    Os que nunca trabalhro,
    Tendo o que lhe no convem,
    Se ao innocente enganro,
    Perdero o eterno bem,
    Se do mal no s'apartro.

[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, no parece obra do poeta.
Nelle no fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria
passar-lhe um trao por cima: o que no ousamos fazer por andar em
todas as edies.

                                               _Nota dos editores._

      *      *      *      *      *


CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.

_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_

    Se no quereis padecer
    Huma, ou duas horas tristes,
    Sabeis que haveis de fazer?
    Volveros por d venistes,
    Que aqui no ha que comer.
    E, postoque aqui leais
    Trovinha que vos enleia,
    Corrido no estejais;
    Porque por mais que corrais,
    No heis de alcanar a ceia.

_A segunda a D. Francisco de Almeida._

    Heliogabalo zombava
    Das pessoas convidadas;
    E de sorte as enganava,
    Que as iguarias que dava,
    Vinho nos pratos pintadas.
    No temais tal travessura,
    Pois ja no pde ser nova;
    Porque a ca est segura
    De vos no vir em pintura;
    Mas ha de vir toda em trova.

_A terceira a Heitor da Silveira._

    Ca no a papareis:
    Com tudo, porque no minta,
    Para beber achareis,
    No Caparica, mas tinta,
    E mil cousas que papeis.
    E vs torceis o focinho
    Com esta amphibologia?
    Pois sabei que a Poesia
    Vos d aqui tinta por vinho,
    E papis por iguaria.

_A quarta a Joo Lopes Leito, a quem o Author fez huns versos, que vo
adiante, sbre huma pea de cacha, que deo a huma Dama._

    Porque os que vos convidro
    Vosso estomago no danem,
    Por justa causa ordenro,
    Se trovas vos enganro,
    Que trovas vos desenganem.
    Vs tereis isto por tacha,
    Converter tudo em trovar;
    Pois se me virdes zombar,
    No cuideis, Senhor, que he cacha,
    Que aqui no ha que cachar.

_Responde Joo Lopes._

    Pezar ora no de so,
    Eu juro pelo Ceo bento,
    Se de comer no me do,
    Qu'eu no sou camaleo,
    Que m'hei de manter do vento.

_Responde o Author._

    Senhor, no vos agasteis,
    Porque Deos vos prover;
    E se mais saber quereis,
    Nas costas deste lereis
    As iguarias que ha.

_Virado o papel, dizia assi:_

    Tendes nem migalha assada;
    Cousa nenhuma de mlho;
    E nada feito em empada;
    E vento de tigelada;
    Picar no dente em remlho:
    De fumo tendes taalhos;
    Ave da pena que sente
    Quem da fome anda doente;
    Bocejar de vinho e d'alhos;
    Manjar em branco excellente.

_A derradeira a Francisco de Mello._

    D'hum homem, que teve o scetro
    Da va maravilhosa,
    No foi cousa duvidosa,
    Que se lhe tornava em metro
    O qu'hia a dizer em prosa.
    De mi vos quero affirmar
    Que faa cousas mais novas,
    De quanto podeis cuidar;
    E esta ca, que he manjar,
    Vos faa na boca em trovas.

      *      *      *      *      *


NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE.

    Conde, cujo illustre peito
    Merece nome de Rei,
    Do qual muito certo sei
    Que lhe fica sendo estreito
    O cargo de Viso-Rei;
    Servirdes-vos d'occupar-me
    Tanto contra meu Planeta,
    No foi seno azas dar-me,
    Com as quaes vou a queimar-me,
    Como o faz a borboleta.

    E s'eu a penna tomar,
    Que to mal cortada tenho,
    Ser para celebrar
    Vosso valor singular
    Dino de mais alto engenho.
    Que se o meu vos celebrasse,
    Necessario me sera
    Que os olhos d'aguia tomasse,
    S para que no cegasse
    No sol de vossa valia.

    Vossos feitos sublimados
    Nas armas, dignos de gloria,
    So no mundo to soados,
    Qu'em vs de vossos passados
    Se resuscita a memoria.
    Pois aquelle nimo estranho,
    Prompto para todo effeito,
    Espanta todo o conceito:
    Como corao tamanho
    Vos pde caber no peito?

    A clemencia, que asserena
    Corao to singular,
    S'eu nisso puzesse a penna,
    Sera encerrar o mar
    Em cova muito pequena.
    Bem basta, Senhor, que agora
    Vos sirvais de me occupar;
    Que assi fareis aparar
    A penna, com que algum'hora
    Vos vereis ao ceo voar.

    Assi vos irei louvando,
    Vs a mi do cho erguendo,
    Ambos o mundo espantando;
    Vs com a espada cortando,
    Eu com a penna escrevendo.

_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._

    Muito sou meu inimigo,
    Pois que no tiro de mi
    Cuidados, com que nasci,
    Que pe a vida em perigo.
    Oxal que fra assi!

_Volta._

    Viver eu, sendo mortal,
    De cuidados rodeado,
    Parece meu natural;
    Que a peonha no faz mal
    A quem foi nella criado.
    Tanto sou meu inimigo,
    Que por no tirar de mi
    Cuidados, com que nasci,
    Porei a vida em perigo.
    Oxal que fra assi!

    Tanto vim a accrescentar
    Cuidados, que nunca amanso
    Em quanto a vida durar,
    Que canso ja de cuidar
    Como cuidados no canso.
    S'estes cuidados, que digo,
    Dessem fim a mi e a si,
    Fario pazes comigo;
    Que pr a vida em perigo,
    O bom fra para mi.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS.

    Senhora, s'eu alcanasse
    No tempo que ler quereis,
    Que a dita dos meus papis
    Pola minha se trocasse;
    E por ver
    Tudo o que posso escrever
    Em mais breve relao,
    Indo eu onde elles vo,
    Por mi s quizesseis ler;

    Despois de ver hum cuidado
    To contente de seu mal,
    Verieis o natural
    Do que aqui vdes pintado;
    Que o perfeito
    Amor, de que sou sogeito,
    Vereis aspero e cruel,
    Aqui com tinta e papel,
    Em mi com sangue no peito.

    Que hum continuo imaginar
    Naquillo que Amor ordena,
    He pena, que emfim por penna
    Se no pde declarar;
    Que se eu levo
    Dentro n'alma quanto devo
    De trasladar em papis,
    Vde que melhor lereis,
    Se a mi, se aquillo qu'escrevo?

      *      *      *      *      *


A HUMA SENHORA, A QUEM DERO HUM PEDAO DE SITIM AMARELLO.

    Se derivais da verdade
    Esta palavra _Sitim_,
    Achareis sem falsidade,
    Que apos o _si_ tee o _tim_,
    Que tine em toda a Cidade.
    Bem vejo que m'entendeis;
    Mas porque no falle em vo,
    Sabei que a esta Nao
    Tanto que o _si_ concedeis,
    O _tim_ logo est na mo.

    E quem da fama s'arreda,
    Que tudo vai descobrir,
    Deve sempre de fugir
    De sitins, porque da seda
    Seu natural he rugir.
    Mas panno fino e delgado,
    Qual a raxa e outros assi,
    Dura, aquenta, e he callado,
    Amoroso, e d de si
    Mais que _sitim_, nem brocado.

    Mas estes, que sedas so
    Com quem s'engano mil Damas,
    Mais vos tomo, do que do;
    Promettem, mas no daro,
    Seno nodoas para as famas.
    E se no me quereis crer,
    Ou tomais outro caminho,
    Por exemplo o podeis ver,
    Quando l virdes arder
    A casa d'algum vizinho.

    Oh feminina simpreza,
    Donde esto culpas a pares,
    Que por hum Dom de nobreza,
    Deixo des da natureza,
    Mais altos e singulares!
    Hum Dom, que anda enxertado
    No nome, e nas obras no.
    Fallo como exprimentado;
    Que _sitim_ desta feio
    Eu tenho muito cortado.

    Dizem-me qu'era amarello;
    E quem assi o quiz dar,
    S para me Deos vingar,
    Se vem  mo amar-lo,
    O qu'eu no posso cuidar.
    Porque quem sabe viver
    Por estas artes manhosas,
    (Isto bem pde no ser)
    D a meninas formosas,
    Somente polas fazer.

    Quem vos isto diz, Senhora,
    Servio nas vossas armadas
    Muito, mas anda ja fra;
    E pde ser qu'inda agora
    Traz abertas as frchadas.
    E, postoque desfavores
    O tiro de servidor,
    Quer-vos ventura melhor;
    Que dos antigos amores
    Inda lhe fica este amor.

      *      *      *      *      *


A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.

    Peo-vos que me digais
    As oraes que rezastes,
    Se so polos que matastes,
    Se por vs que assi matais?
    Se so por vs, so perdidas;
    Que qual ser a orao,
    Que seja satisfao,
    Senhora, de tantas vidas?

    Que se vdes quantos vem
    A s vida vos pedir,
    Como vos ha Deos de ouvir,
    Se vs no ouvis ninguem?
    No podeis ser perdoada
    Com mos a matar to prontas,
    Que se n'huma trazeis contas,
    Na outra trazeis espada.

    Se dizeis que encommendando
    Os que matastes andais;
    Se rezais por quem matais,
    Para que matais rezando?
    Que se na fra do orar
    Levantais as mos aos Ceos,
    No as ergueis para Deos,
    Erguei-las para matar.

    E quando os olhos cerrais,
    Toda enlevada na f,
    Cerro-se os de quem vos v,
    Para nunca verem mais.
    Pois se assi forem tratados
    Os que vos vem quando orais,
    Essas horas que rezais,
    So as horas dos finados.

    Pois logo, se sois servida
    Que tantos mortos no sejo,
    No rezeis onde vos vejo,
    Ou vde para dar vida.
    Ou se quereis escusar
    Estes males que causastes,
    Resuscitae quem matastes,
    No tereis por quem rezar.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.

    Se n'alma e no pensamento
    Por vosso me manifesto,
    No me peza do que sento;
    Que se no soffrer tormento,
    Fao offensa a vosso gesto.
    E, pois quanto Amor ordena,
    E quanto est'alma deseja,
    Tudo  morte me condena,
    No quero seno que seja
    Tudo pena, pena, pena.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.

    Sem olhos vi o mal claro,
    Que dos olhos se seguio:
    Pois cara sem olhos vio
    Olhos, que lhe custo caro.
    D'olhos no fao meno,
    Pois quereis que olhos no sejo;
    Vendo-vos, olhos sobejo,
    No vos vendo, olhos no so.

      *      *      *      *      *


DISPARATES NA INDIA.

    Este mundo es el camino
    Ad hay ducientos vos,
    Ou por onde bons e maos,
    Todos somos del merino.
    Mas os maos so de teor,
    Que desque mudo a cr,
    Chamo logo a ElRei compadre;
    E emfim dejadlos, mi madre,
    Que sempre tee hum sabor
    De quem torto nasce, tarde s'endireita.

    Deixae a hum que se abone:
    Diz logo de muito sengo,
    Villas y castillos tengo,
    Todos  mi mandar sone.
    Ento eu, qu'estou de mlho,
    Com a lagrima no lho,
    Polo virar do envs,
    Digo-lhe: _tu ex illis es_,
    E por isso no te lho;
    Pois honra e proveito no cabem n'hum saco.

    Vereis huns, que no seu seio
    Cuido que trazem Pars,
    E querem com dous ceits,
    Fender anca pelo meio.
    Vereis mancebindo de arte,
    Com espada em talabarte:
    No ha mais Italiano.
    A este direis: Meu mano,
    Vs sois galante que farte;
    Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido.

    Outros em cada theatro,
    Por officio lhe ouvirs
    Que se matarn con tres,
    Y lo mismo haran con cuatro.
    Prezo-se de dar respostas,
    Com palavras bem compostas;
    Mas se lhe meteis a mo,
    Na paz mostro corao,
    Na guerra mostro as costas;
    Porque aqui torce a porca o rabo.

    Outros vejo por ahi,
    A que se acha mal o fundo,
    Que ando emendando o mundo,
    E no se emendo a si.
    Estes respondem a quem
    Delles no entende bem
    El dolor que est secreto;
    Mas porm quem for discreto,
    Responder-lhe-ha muito bem:
    Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.

    Achareis rafeiro velho,
    Que se quer vender por galgo:
    Diz que o dinheiro he fidalgo,
    Que o sangue todo he vermelho.
    Se elle mais alto o dissera,
    Este pelote puzera:
    Que o seu eco lhe responda;
    Que su padre era de Ronda,
    Y su madre de Antequera,
    E quer cobrir o ceo co'huma joeira.

    Fraldas largas, grave aspeito,
    Para Senador Romano.
    Oh que grandissimo engano!
    Que Momo lhe abrisse o peito!
    Consciencia, que sobeja,
    Siso, com que o mundo reja,
    Mansido outro que si;
    Mas que lobo est em ti,
    Metido em pelle de oveja!
    E sabem-no poucos.

    Guardae-vos de huns meus Senhores,
    Que ainda compro e vendem;
    Huns, qu'he certo, que descendem
    Da gerao de pastores:
    Mostro-se-vos bons amigos;
    Mas se vos vem em perigos,
    Escarro-vos nas paredes;
    Que de fra dormiredes,
    Irmo, que he tempo de figos;
    Porque de rabo de porco nunca bom virote.

    Que direis d'huns, que as entranhas
    Lh'esto ardendo em cobia,
    E se tee mando, a justia
    Fazem de teas de aranhas?
    Com suas hypocrisias,
    Que so de vossas espias:
    Para os pequenos huns Neros,
    Para os grandes tudo feros.
    Pois tu, parvo, no sabas,
    Que l vo leis, onde querem cruzados?

    Mas tornando a huns enfadonhos,
    Cujas cousas so notorias;
    Huns, que conto mil histrias
    Mais desmanchadas que sonhos;
    Huns mais parvos que zamboas,
    Qu'estudo palavras boas,
    A que ignorancia os atia:
    Estes paguem por justia,
    Que tee morto mil pessoas,
    Por vida de quanto quero.

    Adonde tienen las mentes
    Huns secretos trovadores,
    Que fazem cartas d'amores,
    De que fico mui contentes?
    No querem sahir  praa;
    Trazem trova por negaa;
    E se lha gabais, qu'he boa,
    Diz qu'he de certa pessoa.
    Ora que quereis que faa,
    Seno ir-me por esse mundo?

     tu, como me atarracas,
    Escudeiro de Solia,
    Com bocaes de fidalguia,
    Trazido quasi com vacas;
    Importuno a importunar,
    Morto por desenterrar
    Parentes, que cheiro ja!
    Voto a tal, que me fara
    Hum destes nunca fallar
    Mais com viva alma.

    Huns, que fallo muito, vi,
    De que quizera fugir;
    Huns que, emfim, sem se sentir,
    Ando fallando entre si;
    Porfiosos sem razo;
    E desque tomo a mo,
    Fallo sem necessidade;
    E se algum'hora he verdade,
    Deve ser na confisso;
    Porque quem no mente... Ja m'entendeis.

    Oh vs, quem quer que me lerdes,
    Qu'haveis de ser avisado,
    Que dizeis ao namorado
    Que caa vento com redes?
    Jura por vida da Dama;
    Falla comsigo na cama;
    Passa de noite e escarra;
    Por falsete na guitarra
    Pe sempre: Viva que ama,
    Porque cala a seu proposito.

    Mas deixemos, se quizerdes,
    Por hum pouco as travessuras,
    Porqu'entre quatro maduras
    Leveis tambem cinco verdes.
    Deitemos-nos mais ao mar;
    E se algum se arrecear,
    Passe tres ou quatro trovas.
    E vs tomais cres novas?
    Mas no he para espantar;
    Que quem porcos ha menos,
    Em cada mouta lhe ronco.

     vs, que sois Secretarios
    Das consciencias Reais,
    E que entre os homens estais
    Por Senhores ordinarios;
    Porque no pondes hum freio
    Ao roubar, que vai sem meio,
    Debaixo de bom governo?
    Pois hum pedao de inferno
    Por pouco dinheiro alheio
    Se vende a Mouro e a Judeo.

    Porque a mente, affeioada
    Sempre  Real dignidade,
    Vos faz julgar por bondade
    A malicia desculpada.
    Move a presena Real
    Huma affeio natural,
    Que logo inclina ao Juiz
    A seu favor: e no diz
    Hum rifo muito geral,
    Que o Abbade donde canta, dahi janta?

    E vs bailais a esse som:
    Por isso, gents pastores,
    Vos chama a vs mercadores
    Hum que s foi pastor bom.

      *      *      *      *      *


A JOO LOPES LEITO, SBRE HUMA PEA DE CACHA QUE MANDOU
A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.

_Mote._

    Se vossa Dama vos d
    Tudo quanto vs quizestes,
    Dizei-me: p'ra que lhe dstes
    O que vos ella fez ja?

_Volta._

    Sendo os restos envidados,
    E vs de cachas mil contos
    Sabeis com quo poucos pontos,
    Que lhos achastes quebrados;
    Se o que tee, isso vos d,
    Vs mui bem lho merecestes,
    Porque se a cacha lhe dstes
    Tinha-vo-la feita ja.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Menina formosa e crua,
    Bem sei eu
    Quem deixar de ser seu,
    Se vs quizereis ser sua.

_Voltas._

    Menina mais que na idade,
    Se para me querer bem
    Vos no vejo ter vontade,
    He porque outrem vo-la tem;
    Tee-vo-la, e faz-vo-la crua.
    Porm eu
    Ja tomra no ser meu,
    Se vs no foreis to sua.

    Nos olhos, e na feio
    Vos vi, quando vos olhava,
    Tanta graa, que vos dava
    De graa este corao:
    No o quizestes de crua,
    Por ser meu:
    Se outrem vos dera o seu,
    Pde ser foreis mais sua.

    Menina, tende maneira,
    Que ainda no venha a ser,
    Pois no quereis quem vos quer,
    Que queirais quem vos no queira.
    Olhae no me sejais crua,
    Que pois eu
    Quero ser vosso, e no meu,
    Sde vs minha, e no sua.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA DOENTE

_Mote._

    Da doena, em que ora ardeis,
    Eu fra vossa mzinha
    S com vs serdes a minha.

_Voltas._

    He muito para notar
    Cura to bem acertada,
    Que podereis ser curada
    Somente com me curar.
    Se quereis, Dama, trocar,
    Ambos temos a mzinha,
    Eu a vossa, e vs a minha.

    Olhae, que no quer Amor,
    (Porque fiquemos iguais)
    Pois meu ardor no curais,
    Que se cure vosso ardor.
    Eu c sinto vossa dor;
    E se vs sentis a minha,
    Dae e tomae a mzinha.

      *      *      *      *      *


OUTRO

    Deo, Senhora, por sentena
    Amor, que fosseis doente,
    Para fazerdes  gente
    Doce e formosa a doena.

_Voltas._

    No sabendo Amor curar,
    Foi a doena fazer
    Formosa para se ver,
    Doce para se passar.
    Ento vendo a differena
    Que ha de vs a toda a gente,
    Mandou, que fsseis doente,
    Para glria da doena.

    E digo-vos de verdade,
    Que a saude anda invejosa,
    Por ver estar to formosa
    Em vs essa enfermidade.
    No faais logo detena,
    Senhora, em estar doente,
    Porque adoecer a gente,
    Com desejos da doena.

    Qu'eu por ter, formosa Dama,
    A doena, qu'em vs vejo,
    Vos confesso, que desejo
    De cahir comvosco em cama.
    Se consentis, que me vena
    Deste mal, no houve gente
    Da saude to contente,
    Como eu serei da doena.

      *      *      *      *      *


AO MESMO

    Olhae que dura sentena
    Foi amor dar contra mi!
    Que porqu'em vs me perdi,
    Em vs me busque a doena.
    Claro est,
    Que em vs s me achar;
    Qu'em mi, se me vem buscar,
    No poder mais achar,
    Que a frma do que foi ja.

    Que s'em vs Amor se ps,
    Senhora, he forado assi,
    Que o mal, que me busca a mi,
    Que vos faa mal a vs.
    Sem mentir,
    Amor me quiz destruir
    Por modo nunca cuidado,
    Pois ha de ser ja forado
    Pezar-vos de vos servir.

    Mas sois to desconhecida,
    E so meus males de sorte,
    Que vos ameaa a morte,
    Porque me negais a vida.
    Se por boa
    Tal justia se pregoa;
    Quando desta sorte for,
    Havei vs perdo de Amor,
    Que a parte ja vos perdoa.

    Mas o que mais temo, emfim,
    He que nesta differena,
    Que se no torne a doena,
    Se me no tornais a mim.
    De verdade,
    Que ja vossa humanidade
    De que se queixe no tem;
    Pois para as almas tambem
    Fez Amor enfermidade.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA VESTIDA DE D.

_Mote._

    De atormentado e perdido,
    Ja vos no peo, seno
    Que tenhais no corao
    O que tendes no vestido.

_Volta._

    Se de d vestida andais
    Por quem ja vida no tem
    Porque no o haveis de quem
    Vs tantas vezes matais?
    Que brado sem ser ouvido,
    E nunca vejo seno
    Cruezas no corao,
    E grande d no vestido.

      *      *      *      *      *


A DONA GUIOMAR DE BLASF, QUEIMANDO-SE COM HUMA VLA NO ROSTO.

_Mote._

    Amor, que todos offende,
    Teve, Senhora, por gsto,
    Que sentisse o vosso rosto
    O que nas almas accende.

_Volta._

    Aquelle rosto que traz
    O mundo todo abrazado,
    Se foi da flamma tocado,
    Foi porque sinta o que faz.
    Bem sei que Amor se vos rende;
    Porm o seu presupposto
    Foi sentir o vosso rosto
    O que nas almas accende.

      *      *      *      *      *


A HUMA MULHER, AOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVO QUARESMA.

_Mote._

    No estejais aggravada,
    Seno se for de vs mesma;
    Porqu'a mulher, que he errada,
    Com razo pela Quaresma
    Deve ser disciplinada.

_Voltas._

    Quererdes profano amor
    Em Quaresma, he consciencia:
    Aoutes e penitencia
    Vos est muito melhor.
    No fiqueis disto affrontada,
    Pois a culpa he vossa mesma;
    Que mulher, que he to malvada,
    He bem que pela Quaresma
    Seja bem disciplinada.

    Se a penitencia vos val,
    Mui bem aoutada estais;
    Pois por Quaresma pagais
    Vossos vicios do carnal.
    No torneis a ser errada,
    Nem condemneis a vs mesma,
    Pois estais ja emendada;
    E no sereis por Quaresma
    Outra vez disciplinada.

      *      *      *      *      *


A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO.

    Quem no mundo quizer ser
    Havido por singular,
    Para mais s'engrandecer,
    Ha de trazer sempre o dar
    Nas ancas do prometter.
    E ja que vossa merc,
    Largueza tee por divisa,
    Como o mundo todo v,
    Ha mister que tanto d,
    Que venha a dar a camisa.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FO DOS ANJOS

_Mote._

    Senhora, pois me chamais
    To sem razo to mo nome,
    Inda o diabo vos tome.

_Voltas._

    Quem quer que vio, ou que leo,
    Ter por novo e moderno,
    Ter quem vive no inferno,
    O pensamento no ceo.
    Mas se a vs vos pareceo,
    Que m'estava bem tal nome,
    Esse diabo vos tome.

    Perdido mais que ninguem
    Confesso, Senhora, ser;
    Mas o diabo no quer
    Aos Anjos tamanho bem.
    Pois logo no me convem,
    Ou se me convem tal nome,
    Ser para que vos tome.

    Se vos benzeis com cautella,
    Como de Anjo, e no de luz,
    Mal pde fugir da Cruz,
    Quem vs tendes psto nella.
    Mas ja que foi minha estrella
    Ser diabo, e ter tal nome,
    Guardae-vos, que vos no tome.

    Ja que chegais tanto ao cabo,
    Com as mos, postas aos ceos
    Vou sempre pedindo a Deos,
    Que vos leve este diabo.
    Eu, Senhora, no me gabo;
    Mas pois que me dais tal nome,
    Tomo-o, para que vos tome.

      *      *      *      *      *


A HUM AMIGO, QUE NO PODIA ENCONTRAR.

_Mote._

    Qual ter culpa de ns
    Neste mal, que todo he meu?
    Quando vindes, no vou eu,
    Quando vou, no vindes vs.

_Volta._

    Reinando Amor em dous peitos,
    Tece tantas falsidades,
    Que de conformes vontades
    Faz desconformes effeitos.
    Igualmente vive em ns;
    Mas por desconcrto seu
    Vos leva, se venho eu,
    Me leva, se vindes vs.

      *      *      *      *      *


MOTE SEU.

    Descala vai pela neve:
    Assi faz quem Amor serve.

_Voltas._

    Os privilegios, que os Reis
    No pdem dar, pde amor,
    Que faz qualquer amador
    Livre das humanas leis.
    Mortes e guerras crueis,
    Ferro, frio, fogo e neve,
    Tudo soffre quem o serve.

    Moa formosa despreza
    Todo o frio, e toda a dor.
    Olhae quanto pde Amor
    Mais que a propria natureza.
    Medo, nem delicadeza
    Lh'impede que passe a neve.
    Assi faz quem Amor serve.

    Por mais trabalhos que leve,
    A tudo se off'receria;
    Passa pela neve fria,
    Mais alva que a propria neve;
    Com todo frio se atreve.
    Vde em que fogo ferve
    O triste, que a Amor serve.

      *      *      *      *      *


OUTRO ALHEIO

    A dor que a minha alma sente,
    No na sabe toda a gente.

_Voltas._

    Qu'estranho caso de Amor!
    Que desejado tormento!
    Que venho a ser avarento
    Das dores de minha dor!
    Por me no tratar peor,
    Se se sabe, ou se se sente,
    No na digo a toda a gente.

    Minha dor e causa della
    De ninguem ouso fiar;
    Que sera aventurar
    A perder-me, ou a perdella.
    E pois s com padecella,
    A minha alma est contente,
    No quero que o saiba a gente.

    Ande no peito escondida,
    Dentro n'alma sepultada;
    De mi s seja chorada,
    De ninguem seja sentida.
    Ou me mate, ou me d vida,
    Ou viva triste ou contente,
    No ma saiba toda a gente.

      *      *      *      *      *


OUTRO SEU

    D'alma, e de quanto tiver,
    Quero que me despojeis,
    Com tanto, que me deixeis
    Os olhos para vos ver.

_Volta._

    Cousa este corpo no tem,
    Que ja no tenhais rendida:
    Despois de tirar-lhe a vida,
    Tirae-lhe a morte tambem.
    Se mais tenho que perder,
    Mais quero que me leveis,
    Com tanto que me deixeis
    Os olhos para vos ver.

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Amores de huma casada,
    Que eu vi pelo meu mal.

_Voltas._

    N'huma casada fui pr
    Os olhos, de si senhores:
    Cuidei que fossem amores,
    Elles fizero-se amor.
    Faz-se o desejo maior
    Donde o remedio no val,
    Em perigo de meu mal.

    No me paraceo que Amor
    Pudesse tanto comigo,
    Que donde entra por amigo,
    Se levante por senhor.
    Leva-me de dor em dor,
    E de final em final,
    Cada vez para mor mal.

      *      *      *      *      *


OUTRO SEU

    Enforquei minha esperana;
    Mas Amor foi to madrao,
    Que lhe cortou o barao.

_Volta._

    Foi a esperana julgada
    Por sentena da Ventura,
    Que pois me leve  pendura,
    Que fosse dependurada:
    Vem Cupido com a espada,
    Corta-lhe cerce o barao.
    Cupido, foste madrao.

      *      *      *      *      *


OUTRO SEU

    Puz o corao nos olhos,
    E os olhos puz no cho,
    Por vingar o corao.

_Volta._

    O corao invejoso
    Como dos olhos andava,
    Sempre remoques me dava
    Que no era o meu mimoso:
    Venho eu de piedoso
    Do Senhor meu corao,
    E boto os olhos no cho.

      *      *      *      *      *


OUTRO SEU

    Puz meus olhos n'huma funda,
    E fiz hum tiro com ella
    s grades d'huma janella.

_Volta._

    Huma Dama, de malvada,
    Tomou seus olhos na mo;
    E tirou-me huma pedrada
    Com elles ao corao.
    Armei minha funda ento,
    E puz os meus olhos nella,
    Trape, quebrei-lhe a janella.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    De pequena tomei amor,
    Porque o no entendi;
    Agora que o conheci,
    Mata-me com desfavor.

_Voltas._

    Vi-o moo e pequenino,
    E a mesma idade ensina
    Que s'incline huma menina
    s amostras d'hum menino:
    Ouvi-lhe chamar Amor,
    Pelo nome me venci;
    Nunca tal engano vi,
    Nem tamanho desamor.

    Cresceo-me de dia em dia
    Com a idade a affeio,
    Porque amor de criao,
    N'alma, e na vida se cria.
    Criou-se em mi este amor,
    E senhoreou-se de mi:
    Agora que o conheci,
    Mata-me com desfavor.

    As flores me torna abrolhos,
    A morte me determina
    Quem eu trouxe de menina
    Nas meninas de meus olhos.
    Desta mgoa e desta dor
    Tenho sabido que emfim
    Por amor me perco a mim
    Por quem de mi perde amor.

    Parece ser caso estranho
    O que Amor em mi ordena,
    Qu'em idade to pequena
    Haja tormento tamanho.
    Sejo milagres d'Amor,
    Hei-os de soffrer assi,
    At que haja d de mi
    Quem entender esta dor.

      *      *      *      *      *


CANTIGA VELHA.

    Apartro-se os meus olhos
    De mi to longe.
    Falsos amores,
    Falsos, maos, enganadores.

_Voltas._

    Tratro-me com cautella,
    Por m'enganar mais asinha;
    Dei-lhe posse d'alma minha,
    Foro-me fugir com ella.
    No ha v-los, nem ha vella,
    De mi to longe.
    Falsos amores,
    Falsos, maos, enganadores!

    Entreguei-lhe a liberdade,
    E, emfim, da vida o melhor;
    Foro-se; e do desamor
    Fizero necessidade.
    Quem teve a sua vontade
    De si to longe?
    Falsos amores,
    E oxal enganadores!

      *      *      *      *      *


OUTRA.

    Falso Cavalheiro, ingrato,
    Enganais-me,
    Vs dizeis, que eu vos mato,
    E vs matais-me.

_Voltas._

    Costumadas artes so
    Para enganar innocencias,
    Piedosas apparencias
    Sbre isento corao.
    Eu vos amo, e vs ingrato
    Magoais-me,
    Dizendo, que eu vos mato,
    E vs matais-me.

    Vde agora qual de ns
    Anda mais perto do fim,
    Que a justia faz-se em mim,
    E o prego diz que sois vs.
    Quando mais verdade trato
    Levantais-me
    Que vos desamo e vos mato,
    E vs matais-me.

      *      *      *      *      *


PROPRIO.

    Se de meu mal me contento,
    He porque para vs vejo
    Em todo o mundo desejo,
    E em ninguem merecimento.

_Volta._

    Para quem vos soube olhar
    To impossivel foi ser
    O poder-vos merecer,
    Como o no vos desejar.
    Pois logo a meu pensamento
    Nenhum remedio lhe vejo,
    Seno se der o desejo
    Azas ao merecimento.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Vs, Senhora, tudo tendes,
    Seno que tendes os olhos verdes.

_Voltas._

    Dotou em vs natureza
    O summo da perfeio;
    Que o qu'em vs he seno,
    He em outras gentileza:
    O verde no se despreza,
    Que, agora que vs os tendes,
    So bellos os olhos verdes.

    Ouro e azul he a melhor
    Cr, por que a gente se perde;
    Mas a graa desse verde
    Tira a graa a toda cr.
    Fica agora sendo a flor
    A cr, que nos olhos tendes,
    Porque so vossos e verdes.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Para que me dan tormento,
    Aprovechando tan poco?
    Perdido, mas no tan loco,
    Que descubra lo que siento.

_Voltas._

    Tiempo perdido es aquel
    Que se passa en darme afan,
    Pues cuanto ms me lo dan,
    Tanto menos siento dl.
    Que descubra lo que siento?
    No lo har, que no es tan poco;
    Que no puede ser tan loco
    Quien tiene tal pensamiento.

    Sepan que me manda Amor,
    Que de tan dulce querella,
    A nadie d parte della,
    Porque la sienta mayor.
    Es tan dulce mi tormento,
    Que aun se me antoja poco;
    Y si es mucho, quedo loco
    De gusto de lo que siento.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    De vuestros ojos centellas,
    Que encienden pechos de hielo,
    Suben por el aire al cielo,
    Y en llegando son estrellas.

_Voltas._

    Falsos loores os dan,
    Que essas centellas tan raras
    No son nel cielo mas claras
    Que en los ojos donde estan.
    Porque cuando miro en ellas
    Lo como alumbran al suelo,
    No s que seran nel cielo;
    Mas s que ac son estrellas.

    Ni se puede presumir
    Que al cielo suban, Seora;
    Que la lumbre que en vs mora,
    No tiene ms que subir;
    Mas pienso que dan querellas
     Dios nel octavo cielo,
    Porque son ac en el suelo
    Dos tan hermosas estrellas.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    De dentro tengo mi mal,
    Que de fuera no hay seal.

_Volta._

    Mi nueva y dulce querella
    Es invisible  la gente;
    El alma sola la siente,
    Que el cuerpo no es dino della.
    Como la viva centella
    Se encubre en el pedernal,
    De dentro tengo mi mal.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Amor loco, amor loco,
    Yo por vs, y vs por otro.

_Voltas._

    Dime Amor tormentos ds,
    Para que pene doblado;
    Uno es verme desamado,
    Otro es mancilla de vs.
    Ved que ordena Amor en ns!
    Porque vs haceisme loco,
    Que seais loca por otro.

    Tratais Amor de manera,
    Que porque asi me tratais,
    Quiere que, pues no me amais,
    Que ameis otro que no os quiera.
    Mas con todo, si no os viera
    De todo loca por otro,
    Con mas razon fuera loco.

    Y tan contrario viviendo,
    Alfin, alfin, conformamos;
    Pues ambos a ds buscamos
    Lo que mas nos v huyendo.
    Voy tras vs siempre siguiendo,
    Y vs huyendo por otro:
    Andais loca, y me haceis loco.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Vde bem se nos meus dias
    Os desgostos vi sobejos,
    Pois tenho medo a desejos,
    E quero mal a alegrias.

_Volta._

    Se desejos fui ja ter,
    Servro de atormentar-me;
    Se algum bem pde alegrar-me,
    Quiz-me antes entristecer.
    Passei annos, passei dias
    Em desgostos to sobejos,
    Que s por no ter desejos,
    Perderei mil alegrias.

      *      *      *      *      *


PROPIO.

    Pois he mais vosso que meu,
    Senhora, meu corao,
    Eu vosso captivo so,
    Meus olhos, lembre-vos eu.

_Volta._

    Lembre-vos minha tristeza,
    Que jamais nunca me deixa;
    Lembre-vos com quanta queixa
    Se queixa minha firmeza:
    Lembre-vos que no he meu
    Este triste corao;
    E pois ha tanta razo,
    Meus olhos, lembre-vos eu.

      *      *      *      *      *


OUTRO.

    Senhora, pois minha vida
    Tendes em vosso poder;
    Por serdes della servida,
    No queirais que destruida
    Possa ser.

_Volta._

    Isto no por me pezar
    De morrer, se vs quizerdes;
    Que melhor me he acabar
    Mil vezes, que supportar
    Os males que me fizerdes;
    Mas s por serdes servida
    De mi, em quanto viver,
    Vos peo que minha vida
    No queirais que destruida
    Possa ser.

      *      *      *      *      *


OUTRO.

    Pois damno me faz olhar-vos,
    No quero, por no perder-vos,
    Que ninguem me veja ver-vos.

_Voltas._

    De ver-vos a no vos ver
    Ha dous extremos mortaes;
    E so elles em si taes,
    Que hum por hum me faz morrer;
    Mas antes quero escolher,
    Que possa viver sem ver-vos,
    Minh'alma, por no perder-vos.

    Deste tamanho perigo
    Que remedio posso ter,
    Se vivo s com vos ver,
    Se vos no vejo, perigo?
    Mas quero acabar comigo,
    Que ninguem me veja ver-vos,
    Senhora, por no perder-vos.

      *      *      *      *      *


A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIO QUE O AMAVO.

_Mote._

    No sei se m'engana Helena,
    Se Maria, se Joanna;
    No sei qual dellas m'engana.

_Voltas._

    Huma diz que me quer bem,
    Outra jura que me quer;
    Mas em jura de mulher
    Quem crer, se ellas no crem?
    No posso no crer a Helena,
    A Maria, nem Joanna;
    Mas no sei qual mais m'engana.

    Huma faz-me juramentos
    Que s meu amor estima,
    A outra diz que se fina,
    Joanna, que bebe os ventos.
    Se cuido que mente Helena,
    Tambem mentir Joanna;
    Mas quem mente no m'engana.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.

_Mote._

    Menina, no sei dizer,
    Vendo-vos to acabada,
    Quo triste estou por vos ver
    Formosa e mal empregada.

_Voltas._

    Quem to mal vos empregou,
    Pouco de mi se dohia,
    Pois no vio o quanto me hia
    Em tirar-me o que tirou.
    Obriga o primor que tem
    Lindeza to extremada
    Que digo quantos a vem,
    Formosa e mal empregada!

    Tomastes da formosura
    Quanto della desejastes,
    E com ella me guardastes
    Para to triste ventura.
    Mataveis sendo solteira,
    Matais agora em casada;
    Matais de toda a maneira,
    Formosa e mal empregada.

      *      *      *      *      *


A HUMA Foa Gonalves.

_Mote._

    Com vossos olhos, Gonalves,
    Senhora, captivo tendes
    Este meu corao Mendes.

_Volta._

    Eu sou boa testimunha,
    Que Amor tem por cousa m,
    Que olhos, que so homens ja,
    Se nomeiem sem alcunha;
    Pois o corao apunha,
    E diz, olhos, pois vs tendes,
    Chamae-me corao Mendes.

      *      *      *      *      *


OUTRO

    De que me serve fugir
    De morte, dor e perigo,
    Se me eu levo comigo?

_Voltas._

    Tenho-me persuadido,
    Por razo conveniente,
    Que no posso ser contente,
    Pois que pude ser nascido.
    Anda sempre to unido
    O meu tormento comigo,
    Qu'eu mesmo sou meu perigo.

    E se de mi me livrasse,
    Nenhum gsto me sera:
    Quem, seno eu, no teria
    Mal, que esse bem me tirasse?
    Fra he logo que assi passe,
    Ou com desgsto comigo,
    Ou sem gsto e sem perigo.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.

    Quando me quer enganar
    A minha bella perjura,
    Para mais me confirmar
    O que quer certificar,
    Polos seus olhos me jura.
    Como meu contentamento
    Todo se rege por elles,
    Imagina o pensamento,
    Que se faz aggravo a elles
    No crer to gro juramento.

    Porm como em casos tais
    Ando ja visto e corrente,
    Sem outros certos sinais,
    Quanto me ella jura mais,
    Tanto mais cuido que mente.
    Ento vendo-lhe offender
    Huns taes olhos como aquelles,
    Deixo-me antes tudo crer,
    S pola no constranger
    A jurar falso por elles.

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Ha hum bem, que chega e foge;
    E chama-se este bem tal,
    Ter bem para sentir mal.

_Volta._

    Quem viveo sempre n'hum ser,
    Inda que seja em pobreza,
    No vio o bem da riqueza,
    Nem o mal d'empobrecer:
    No ganhou para perder;
    Mas ganhou com vida igual
    No ter bem, nem sentir mal.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.

_Mote._

    Olhos, no vos mereci
    Que tenhais tal condio,
    To liberaes para o cho,
    To irosos para mi.

_Volta._

    Baixos e honestos andais,
    Por vos negardes a quem
    No quer mais que aquelle bem,
    Que vs no cho espalhais?
    Se pouco vos mereci,
    No m'estimeis mais que o cho,
    A quem vs o galardo
    Dais, e mo negais a mi.

      *      *      *      *      *


PROPRIO.

    Venceo-me Amor, no o nego;
    Tee mais fra qu'eu assaz;
    Que como he cego e rapaz,
    D-me porrada de cego.

_Volta._

    S porque he rapaz ruim,
    Dei-lhe hum bofte zombando.
    Diz-me:  mao, estais me dando,
    Porque sois maior que mim?
    Pois se eu vos descarrgo,
    E em dizendo isto, chaz;
    Torna-me outra; t rapaz,
    Que ds porrada de cego.

      *      *      *      *      *


AO DESCONCERTO DO MUNDO.

    Os bons vi sempre passar
    No mundo graves tormentos;
    E para mais m'espantar,
    Os maos vi sempre nadar
    Em mar de contentamentos.
    Cuidando alcanar assi
    O bem to mal ordenado,
    Fui mao; mas fui castigado.
    Assi, que s para mi
    Anda o mundo concertado.

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.

_Mote._

    Perguntais-me, quem me mata?
    No quero responder nada,
    Por vos no fazer culpada.

_Volta._

    E se a penna no me atia,
    A dizer pena to forte,
    Quero-me entregar  morte,
    Antes que a vs  justia.
    Porm se tendes cobia
    De vos verdes to culpada,
    Direi que no sinto nada.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Esconjuro-te, Domingas,
    Pois me ds tanto cuidado,
    Que me digas se te vingas,
    Viverei menos penado.

_Voltas._

    Juravas-me, que outras cabras
    Folgavas de apascentar;
    Eu por no me magoar,
    Fingia qu'ero palabras.
    Agora d'arte te vingas
    D'algum meu doudo peccado,
    Qu'inda que queiras, Domingas,
    No posso ser enganado.

    Qualquer cousa busca o seu;
    A fonte vai para o Tejo,
    E tu para o teu desejo,
    Por te vingares do meu.
    De mi t'esqueces, Domingas,
    Como eu fao do meu gado:
    Praza a Deos, que se te vingas,
    Que morra desesperado.

    Na phantasia te pinto,
    Fallo-te, responde o monte,
    Busco o rio, busco a fonte,
    Endoudeo, e no o sinto:
    Domingas no valle brado,
    Responde o eco Domingas;
    E tu inda te no vingas
    De me ver doudo tornado!

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Se a alma ver-se no pde
    Onde pensamentos ferem,
    Que farei para me crerem?

_Voltas._

    Se n'alma huma s ferida
    Faz na vida mil sinais,
    Tanto se descobre mais,
    Quanto he mais escondida.
    S'esta dor to conhecida
    Me no vem, porque no querem,
    Que farei para ma crerem?

    Se se pudesse bem ver
    Quanto callo, e quanto sento,
    Despois de tanto tormento
    Cuidaria alegre ser.
    Mas se no me querem crer
    Olhos, que to mal me ferem,
    Que farei para me crerem?

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Vosso bem querer, Senhora,
    Vosso mal melhor me fra.

_Voltas._

    Ja agora certo conheo
    Ser melhor todo tormento,
    Onde o arrependimento
    Se compra por justo preo.
    Enganou-me hum bom como;
    Mas o fim me diz agora
    Que o mal melhor me fra.

    Quando hum bem he to damnoso,
    Que sendo bem, d cuidado,
    O damno fica obrigado
    A ser menos perigoso.
    Mas se a mi por desditoso,
    Co'o bem me foi mal, Senhora,
    Co'o vosso mal bem me fra.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Se me desta terra for,
    Eu vos levarei, amor.

_Voltas._

    Se me for, e vos deixar,
    (Ponho por caso, que possa)
    Est'alma minha, qu'he vossa,
    Comvosco m'ha de ficar.
    Assi que s por levar
    A minha alma, se me for,
    Vos levarei, meu amor.

    Que mal pde maltratar-me,
    Que comvosco seja mal?
    Ou que bem pde ser tal,
    Que sem vs possa alegrar-me?
    O mal no pde enojar-me,
    O bem me ser maior,
    Se vos levar, meu amor.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Pequenos contentamentos,
    Hi buscar quem contenteis,
    Que a mi no me conheceis.

_Voltas._

    Os gostos, que tantas dores
    Fizero ja valer menos,
    No os acceita pequenos,
    Quem nunca teve maiores:
    Bem parecem vos favores,
    Pois to tarde me quereis,
    Qu'inda me no conheceis.

    Offereceis-me alegria,
    Tendo-me ja cego e mouco:
    He baixeza acceitar pouco,
    Quem tanto vos merecia.
    Ide-vos por outra via,
    Pois o bem que me deveis,
    Nunca mo satisfareis.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Perdigo perdeo a penna,
    No ha mal que lhe no venha.

_Voltas._

    Perdigo, que o pensamento
    Subio a hum alto lugar,
    Perde a penna do voar,
    Ganha a pena do tormento:
    No tee no ar, nem no vento,
    Azas com que se sostenha:
    No ha mal que lhe no venha.

    Quiz voar a huma alta torre,
    Mas achou-se desasado;
    E vendo-se despennado,
    De puro penado morre.
    Se a queixumes se soccorre,
    Lana no fogo mais lenha:
    No ha mal que lhe no venha.

      *      *      *      *      *


A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.

    Pois a tantas perdies,
    Senhoras, quereis dar vida,
    Ditosa seja a ferida,
    Que tee taes Cirurgies!
    Pois ventura
    Me subio a tanta altura,
    Que me sejais valedoras,
    Ditosa seja a tristura,
    Que se cura
    Por vossos rogos, Senhoras!

    Ser minha pena mortal,
    Ja qu'entendeis, que he assi,
    No quero fallar por mi,
    Que por mi falla meu mal.
    Sois formosas,
    Haveis de ser piedosas,
    Por ser tudo d'huma cr;
    Que pois Amor vos fez rosas
    Milagrosas,
    Fazei milagres de Amor.

    Pedi a quem vs sabeis,
    Que saiba de meu trabalho,
    No pelo qu'eu nisso valho,
    Mas pelo que vs valeis.
    Que o valer
    De vosso alto merecer,
    Com lho pedir de giolhos,
    Fara qu'em meu padecer
    Possa ver
    O poder que tee seus olhos.

    Vossa muita formosura
    Com a sua tanto val,
    Que me rio de meu mal,
    Quando cuido em quem me cura.
    A meus ais,
    Peo-vos que lhe valhais,
    Damas de Amor to valdas,
    Que nunca tal dor sintais,
    Que queirais,
    Onde no sejais queridas.

      *      *      *      *      *


CANTIGA ALHEIA.

    Na fonte est Leonor
    Lavando a talha, e chorando,
    s amigas perguntando:
    Vistes l o meu amor?

_Voltas._

    Psto o pensamento nelle,
    Porque a tudo o Amor a obriga,
    Cantava, mas a cantiga
    Ero suspiros por elle.
    Nisto estava Leonor
    O seu desejo enganando,
    s amigas perguntando:
    Vistes l o meu amor?

    O rosto sbre hua mo,
    Os olhos no cho pregados,
    Que de chorar ja cansados,
    Algum descanso lhe do;
    Desta sorte Leonor
    Suspende de quando em quando
    Sua dor; e em si tornando,
    Mais pezada sente a dor.

    No deita dos olhos goa,
    Que no quer que a dor s'abrande
    Amor, porque em mgoa grande
    Scca as lagrimas a mgoa.
    Despois que de seu amor
    Soube novas perguntando,
    D'improviso a vi chorando.
    Olhae que extremos de dor!

      *      *      *      *      *


ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA
DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D.
FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FRA, PEDINDO-LHE O
FIZESSE DESEMBARGAR.

    Que diabo ha to damnado,
    Que no tema a cutilada
    Dos fios seccos da espada
    Do fero Miguel armado?
    Pois se tanto hum golpe seu
    Sa na infernal cadeia;
    Do que o demonio arreceia
    Como no fugirei eu?

    Com razo lhe fugiria,
    Se contr'elle, e contra tudo
    No tivesse hum forte escudo
    S em Vossa Senhoria.
    Por tanto, Senhor, proveja,
    Pois me tee ao remo atado,
    Que antes que seja embarcado,
    Eu desembargado seja.

      *      *      *      *      *


ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA.

    Vossa Senhoria creia
    Que no apura o engenho
    Fome, se he como a que tenho,
    Mas afraca e corta a veia.
    E quem o contrrio sente,
    Est farto em toda a hora,
    Como estou faminto agora:
    Mas Martha, se est contente,
    D-lhe pouco de quem chora.

    E pois Vossa Senhoria
    Em geral a tudo acode,
    Acuda a mi, que s pde
    Dar-me no engenho valia.
    Esperte esta Musa minha,
    Que o tempo traz somnolenta;
    Valha-lhe nesta tormenta
    Com essa doce mzinha,
    Que s d vida e contenta.

    Acuda com proviso,
    No de papel, mas provda
    D'ouro e prata; que esta vida
    No sustento papis, no.
    De feitor a thesoureiro
    Ser-me-hia trabalho grande;
    Vossa Senhoria mande
    Algum remedio, primeiro,
    Com que a morte o ferro abrande.

_Ajuda de Luis de Cames._

    Nos livros doutos se trata
    Que o grande Achilles insano
    Deo a morte a Heitor Troiano;
    Mas agora a fome mata
    O nosso Heitor Lusitano.
    S ella o pde acabar,
    Se essa vossa condio
    Liberal e singular
    No mete entr'elles basto,
    Bastante para o fartar.

      *      *      *      *      *


A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.

_Esparsa._

    No posso chegar ao cabo
    De tamanho desarranjo,
    Que sendo vs, Senhora, Anjo,
    Vos queira tanto o Diabo.
    Dais manifesto sinal
    De minha muita firmeza,
    Que os diabos querem mal
    Aos Anjos por natureza.

      *      *      *      *      *


CANTIGA.

    Vi chorar huns claros olhos,
    Quando delles me partia.
    Oh que mgoa! Oh que alegria!

_Voltas._

    Polo meu apartamento
    Se arrazro todos d'goa.
    Quem cuidou qu'em tanta mgoa
    Achasse contentamento?
    Julgue todo entendimento
    Qual mais sentir se devia,
    Se esta dor, se esta alegria?

    Quando mais perdido estive,
    Ento deo a est'alma minha
    Na maior mgoa que tinha,
    O maior gsto que tive.
    Assi, se minha alma vive,
    Foi porque me defendia
    Desta dor esta alegria?

    O bem, que Amor me no deu
    No tempo que desejei,
    Quando delle me apartei,
    Me confessou, qu'era meu.
    Agora que farei eu,
    Se a fortuna me desvia
    De lograr esta alegria?

    No sei se foi enganado,
    Pois me tinha defendido
    Das ras de mal querido,
    No mal de ser apartado.
    Agora peno dobrado,
    Achando no fim do dia
    O princpio da alegria.

      *      *      *      *      *


VILLANCETE PASTORIL.

    Deos te salve, Vasco amigo.
    No me fallas? Como assi?
    Bof, Gil, no 'stava aqui.

_Voltas._

    Pois onde te ho de fallar,
    Se no 'sts onde appareces?
    Se Magdanela conheces,
    Nella me pdes achar.
    E como te ho d'ir buscar
    Aonde fogem de ti?
    Pois nem eu estou em mi.

    Porque te no acharei
    Em ti, como em Magdanela?
    Porque me fui perder nella
    O dia que me ganhei.
    Quem to bem falla, no sei
    Como anda fra de si.
    Ella falla dentro em mi.

    Como ests aqui presente,
    Se l tens a alma e a vida?
    Porqu'he d'hum'alma perdida
    Apparecer sempre  gente.
    Se es morto, bem se consente
    Que todos fujo de ti.
    Eu tambem fujo de mi.

      *      *      *      *      *


OUTRO PASTORIL.

    Porque no miras, Giraldo,
    Mi zampoa como suena?
    Porque no me mira Elena.

_Voltas._

    Vuelve ac, no ests pasmado,
    Mira que gentil sonar!
    Como te podr mirar
    Quien no puede ser mirado?
    Y que bueno enamorado!
    No dirs, si es mala, o buena?
    No, que me hizo mudo Elena.

    Mira tan dulce armona,
    Djate dessos enojos.
    Tengo clavados los ojos
    Con que mirar te podia.
    Ans Dios te d alegra:
    No vs cuan dulce que suena?
    No, porque no veo Elena.

      *      *      *      *      *


OUTRO PASTORIL.

    Crescem, Camilla, os abrolhos
    De chorares por Cincero:
    No he muito, que lhe quero,
    Belisa, mais que meus olhos.

_Voltas._

    Sempre os teus olhos esto,
    Camilla, d'goas banhados.
    De se verem desamados
    Pde ser que choraro.
    Si, mas crescem os abrolhos,
    E tu cegas por Cincero.
    S'eu no vejo quem mais quero,
    Para que quero mais olhos?

    Se se foi ha mais d'hum ms,
    Teus olhos no cansaro?
    No, que apos elle se vo
    Estas lagrimas que vs.
    Fazem logo estes abrolhos
    O mato espinhoso e fero.
    Pois eu no vejo a Cincero,
    Isso s vero meus olhos.

    Chorando queres morrer?
    Mais quero viver chorando.
    Tu no vs que vs cegando?
    Se cego, como hei de ver?
    Pe na vista outros antolhos.
    No posso, nem menos quero.
    Outra para outro Cincero,
    Antes no quero ter olhos.

      *      *      *      *      *


A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.

_Mote._

    Olhos, em qu'esto mil flores,
    E com tanta graa olhais,
    Que parece que os Amores
    Moro onde vs morais.

_Volta._

    Vem-se rosas e boninas,
    Olhos, nesse vosso ver;
    Vem-se mil almas arder
    No fogo dessas meninas.
    E di-lo-ho minhas dores,
    Meus suspiros e meus ais;
    E diro mais, que os amores
    Moro onde vs morais.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Quem se confia em huns olhos,
    Nas meninas delles v
    Que meninas no tee f.

_Voltas._

    Quem pe suas confianas
    Em meninas sem assento,
    Offerea o soffrimento
    A duzentas mil mudanas.
    Mostro no ar esperanas;
    Mas em seus olhos se v
    Como no tee n'alma f.

    Engano ao parecer,
    Porque no caso d'amar,
    So mulheres no matar,
    E meninas no querer.
    Quem em seus olhos se crer,
    Cem mil graas nelles v;
    V-las sim, mas no ter f.

    Amostro-vos n'hum momento
    Favores assi a mlhos;
    Mas na mudana dos olhos
    Se lhe muda o pensamento.
    Em nada ja tee assento,
    E o que mais nelles se v
    He formosura sem f.

      *      *      *      *      *


LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.

_Cantiga Velha._

    Sois formosa, e tudo tendes,
    Seno que tendes os olhos verdes,

_Voltas._

    Ninguem vos pde tirar
    Serdes to bem assombrada;
    Mas heis-me de perdoar,
    Que os olhos no valem nada.
    Fostes mal aconselhada
    Em querer que fossem verdes:
    Trabalhae de os esconderdes.

    A vossa testa he jardim,
    Onde Amor se desenfada;
    He to branca e bem talhada,
    Que parece de marfim.
    Assi he; e quanto a mim,
    Isso vos nasce de a terdes
    To perto dos olhos verdes.

    Os cabellos desatados
    O mesmo sol escurecem;
    Seno que por ser ondados,
    Algum tanto desmerecem:
    Mas  f, que se parecem
    A furto dos olhos verdes,
    No vos peze, no, de os terdes.

    As pestanas tee mostrado
    Ser raios, que abrazo vidas:
    Se no foro to compridas,
    Tudo o mais era pintado:
    Ellas me tinho levado
    A alma, sem o vs saberdes,
    Se no foro os olhos verdes.

    O mimo desse caro
    Nem pr-lhe os olhos consente:
    O ser liso e transparente
    Rouba todo o corao:
    Inda assi achareis nao,
    Que lhe no peze de os verdes;
    Mas no seja co'os olhos verdes.

    Esse riso, que he compsto
    De quantas graas nascro,
    Seno que alguns me dissero,
    Vos faz covinhas no rsto.
    Na vontade tenho posto
    Dar-vos a alma, se quizerdes,
    A trco dos olhos verdes.

    Nunca se vio, nem se escreve
    Boca co'huma graa igual,
    Se no fra de coral,
    E os dentes de cr de neve.
    Dou-me eu a Deos, que me leve!
    Soffrerei quanto tiverdes,
    No me tenhais olhos verdes.

    Essa garganta merece
    Outras palavras no minhas,
    Seno qu'he feita em rosquinhas
    D'alfenim, ao que parece.
    Eu sei bem quem se offerece
    A tomar tudo o que tendes,
    E tambem os olhos verdes.

    Essas mos so ferropeas:
    S o v-las enfeitia;
    Seno que so alvas, cheias,
    E tee a feio rolia;
    Com que appellais por justia,
    Para com ellas prenderdes
    Quem v vossos olhos verdes.

    A vossa galantaria
    Matar a quem fallardes:
    Tendes huns desdens e tardes,
    Que eu logo vos roubaria.
    Oh dou-me a Santa Maria!
    Sou cujo de quanto tendes,
    E tambem desses olhos verdes.

      *      *      *      *      *


AO MESMO.

    Tudo tendes singular,
    Com que os coraes rendeis,
    Seno que rindo, fazeis
    Covinhas para enterrar:
    E para resuscitar
    Tee fora a graa que tendes;
    Seno que tendes os olhos verdes.

    Tudo, Senhora, alcanais,
    Quanto o ser formosa alcana,
    Seno que dais esperana
    Co'os olhos com que matais.
    Se acaso os alevantais,
    He para as almas renderdes;
    Seno que tendes os olhos verdes.

      *      *      *      *      *


A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS
GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR
PRINCPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.

    Cinco gallinhas e meia
    Deve o Senhor de Cascais;
    E a meia vinha cheia
    De appetite para as mais.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Catharina bem promette;
    Ora m! como ella mente!

_Voltas._

    Catharina he mais formosa
    Para mi, que a luz do dia;
    Mas mais formosa sera,
    Se no fosse mentirosa.
    Hoje a vejo piedosa,
     manha to differente,
    Que sempre cuido que mente.

    Prometteo-me hontem de vir,
    Nunca mais appareceo;
    Creio que no prometteo,
    Seno s por me mentir.
    Faz-me, emfim, chorar e rir;
    Rio, quando me promette,
    Mas chro quando me mente.

    Jurou-me aquella cadella
    De vir, pela alma que tinha;
    Enganou-me; tinha a minha;
    Deo-lhe pouco de perdella.
    A vida gasto apos ella,
    Porque ma d, se promette,
    Mas tira-ma, quando mente.

    M, mentirosa, malvada,
    Dizei, porque me mentis?
    Prometteis, e ento fugis?
    Pois sem tornar, tudo he nada.
    No sois bem aconselhada;
    Que quem promette, se mente,
    O que perde no o sente.

    Tudo vos consentiria
    Quanto quizesseis fazer,
    Se este vosso prometter
    Fosse por me ter hum dia.
    Todo ento me desfaria
    Com gsto; e vs de contente,
    Zombarieis de quem mente.

    Mas pois folgais de mentir,
    Promettendo de me ver,
    Eu vos deixo o prometter,
    Deixae-me vs o servir:
    Haveis ento de sentir
    Quanto a minha vida sente
    O servir a quem lhe mente.

    Catharina me mentio
    Muitas vezes, sem ter lei,
    E todas lhe perdoei
    Por huma s que cumprio.
    Se como me consentio
    Fallar-lhe, o mais me consente,
    Nunca mais direi que mente.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    A alma, qu'est offrecida
    A tudo, nada lhe he forte;
    Assi passa o bem da vida,
    Como passa o mal da morte.

_Volta._

    De maneira me succede
    O que temo, e o que desejo,
    Que sempre o que temo, vejo,
    Nunca o que a vontade pede.
    Tenho to offerecida
    Alma e vida a toda a sorte,
    Que isso me dera da morte,
    Como ja me d da vida.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Ferro, fogo, frio e calma,
    Todo o mundo acabaro;
    Mas nunca vos tiraro,
    Alma minha, da minha alma.

_Volta._

    No vos guardei, quando vinha,
    Em trre, fra, ou engenho;
    Que mais guardada vos tenho
    Em vs, que sois alma minha.
    Alli nem frio, nem calma,
    No podem ter jurdio;
    Na vida sim, porm no
    Em vs que tenho por alma.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Esperei, ja no espero
    De mais vos servir, Senhora;
    Pois me fazeis cada hora
    Tanto mal, que desespro.

_Volta._

    Pois sei certo que folgais,
    Quando mais mal me fazeis,
    E que nunca descansais,
    Seno quando me mostrais
    Quo pouco bem me quereis;
    Servir-vos mais no espero
    Pois meu viver empeora
    Com me fazerdes, Senhora,
    Tanto mal, que desespro.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Descala vai para a fonte
    Leonor pela verdura;
    Vai formosa, e no segura.

_Voltas._

    Leva na cabea o pote,
    O testo nas mos de prata,
    Cinta de fina escarlata,
    Sainho de chamalote:
    Traz a vasquinha de cote,
    Mais branca que a neve pura;
    Vai formosa, e no segura.

    Descobre a touca a garganta,
    Cabellos de ouro entranado,
    Fita de cr d'encarnado,
    To linda que o mundo espanta:
    Chove nella graa tanta,
    Que d graa  formosura;
    Vai formosa, e no segura.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Quem disser que a barca pende,
    Dir-lhe-hei, mana, que mente.

_Voltas._

    Se vos quereis embarcar,
    E para isso estais no caes,
    Entrae logo: que tardaes?
    Olhae qu'est preamar:
    E se outrem, por vos fretar,
    Vos disser qu'esta que pende,
    Dir-lhe-hei, mana, que mente.

    Esta barca he de carreira;
    Tee seus apparelhos novos:
    No ha como ella outra em Povos
    Boa de leme, e veleira:
    Mas, se por ser a primeira,
    Vos disser alguem que pende,
    Dir-lhe-hei, mana, que mente.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Com razo queixar-me posso
    De vs, que mal vos queixais;
    Pois, Senhora, vos sangrais,
    Que seja n'hum corpo vosso.

_Voltas._

    Eu para levar a palma,
    Com que ser vosso merea,
    Quero que o corpo padea
    Por vs, que delle sois alma.
    Vs do corpo vos queixais,
    Eu queixar-me de vs posso,
    Porque, tendo hum corpo vosso,
    Na minha alma vos sangrais.

    E sem fazer differena
    No que de mi possuis,
    Pelo pouco que sentis,
    Dais  minh'alma doena.
    Porque dous aventurais?
    Oh no seja o damno nosso!
    Sangre-se este corpo vosso,
    Porque, minha alma, vivais.

    E inda, se attentardes bem,
    Seguis medicina errada,
    Porque para ser sangrada
    Hum'alma sangue no tem.
    E pois em mi sarar posso
    Males, que  minha alma dais,
    Se inda outra vez vos sangrais,
    Seja neste corpo vosso.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Ojos, herido me habeis,
    Acabad ya de matarme;
    Mas muerto volved  mirarme,
    Porque me resusciteis.

_Voltas._

    Pues me distes tal herida,
    Con gana de darme muerte,
    El morir me es dulce suerte,
    Pues con morir me dais vida.
    Ojos, qu os deteneis?
    Acabad ya de matarme;
    Mas muerto volved  mirarme,
    Porque me resusciteis.

    La llaga cierto ya es mia,
    Aunque, ojos, vs no querrais;
    Mas si la muerte me dais,
    El morir me es alegra.
    Y as digo que acabeis,
    O ojos, ya de matarme;
    Mas muerto volved  mirarme,
    Porque me resusciteis.

      *      *      *      *      *


A DONA FRANCISCA DE ARAGO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:

    Mas porm a que cuidados?

    Tanto maiores tormentos
    Foro sempre os que soffri,
    Daquillo que cabe em mi,
    Que no sei que pensamentos
    So os para que nasci.
    Quando vejo este meu peito
    A perigos arriscados
    Inclinado, bem suspeito
    Que a cuidados sou sujeito,
    _Mas porm a que cuidados?_

_Ao mesmo._

    Que vindes em mi buscar,
    Cuidados, que sou captivo?
    Eu no tenho que vos dar:
    Se vindes a me matar,
    Ja ha muito que no vivo:
    Se vindes, porque me dais
    Tormentos desesperados,
    Eu, que sempre soffri mais,
    No digo que no venhais;
    _Mas porm a que cuidados?_

_Ao mesmo._

    Se as penas que Amor me deu,
    Vem por to suaves meios,
    No ha que temer receios;
    Que val hum cuidado meu
    Por mil descansos alheios.
    Ter n'huns olhos to formosos
    Os sentidos enlevados,
    Bem sei qu'em baixos estados
    So cuidados perigosos;
    _Mas porm a que cuidados?..._

_Carta com a glosa acima._

Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sera assi mais
seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me
mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de
agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de
novo me d, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, no me fica
mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei
tres entendimentos, segundo as palavras delle pudro soffrer: se forem
bons, he mote de v. m.: se maos, so as glosas minhas.

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Campos bem-aventurados,
    Tornae-vos agora tristes;
    Que os dias, em que me vistes,
    Alegres ja so passados.

_Glosa._

    Campos cheios de prazer,
    Vs qu'estais reverdecendo,
    Ja m'alegrei com vos ver;
    Agora venho a temer
    Qu'entristeais em me vendo.
    E pois a vista alegrais
    Dos olhos desesperados,
    No quero que me vejais,
    Para que sempre sejais,
    _Campos, bem-aventurados._

    Porm se por accidente
    Vos pezar de meu tormento,
    Sabereis que Amor consente
    Que tudo me descontente,
    Seno descontentamento.
    Por isso vs, arvoredos,
    Que ja nos meus olhos vistes
    Mais alegria, que medos,
    Se mos quereis fazer ledos,
    _Tornae-vos agora tristes._

    Ja me vistes ledo ser,
    Mas despois que o falso Amor
    To triste me fez viver,
    Ledos folgo de vos ver,
    Porque me dobreis a dor.
    E se este gsto sobejo
    De minha dor me sentistes,
    Julgae quanto mais desejo
    As horas que vos no vejo,
    _Que os dias em que me vistes._

    O tempo, qu'he desigual,
    De seccos, verdes vos tem;
    Porqu'em vosso natural
    Se muda o mal para o bem,
    Mas o meu para mor mal.
    Se perguntais, verdes prados,
    Pelos tempos differentes
    Que de Amor me foro dados,
    Tristes, aqui so presentes,
    _Alegres, ja so passados._

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Trabalhos descansario
    Se para vs trabalhasse;
    Tempos tristes passario,
    Se algum'hora vos lembrasse.

_Glosa._

    Nunca o prazer se conhece,
    Seno despois da tormenta:
    To pouco o bem permanece,
    Que se o descanso florece,
    Logo o trabalho arrebenta.
    Sempre os bens se logrario,
    Mas os males tudo atalho;
    Porm ja que assi porfio,
    Onde descansos trabalho,
    _Trabalhos descansario._

    Qualquer trabalho me fra
    Por vs gro contentamento:
    Nada sentira, Senhora,
    Se vra disto algum'hora
    Em vs hum conhecimento.
    Por mal que o mal me tratasse,
    Tudo por bem tomaria;
    Postoque o corpo cansasse,
    A alma descansaria,
    _Se para vs trabalhasse._

    Quem vossas cruezas ja
    Soffreo, a tudo se poz;
    Costumado ficar;
    E muito melhor ser,
    Se trabalhar para vs.
    Tristezas esquecerio,
    Postoque mal me tratro;
    Annos no me lembrario,
    Que como est'outros passaro,
    _Tempos tristes passario._

    Se fosse galardoado
    Este trabalho to duro,
    No vivra magoado.
    Mas no o foi o passado,
    Como o ser o futuro?
    De cansar no cansaria,
    Se quizereis, que cansasse;
    Cavar, morrer, fa-lo-hia;
    Tudo, emfim, esqueceria,
    _Se algum'hora vos lembrasse._

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Triste vida se me ordena,
    Pois quer vossa condio
    Que os males, que dais por pena,
    Me fiquem por galardo.

_Glosa._

    Despois de sempre soffrer,
    Senhora, vossas cruezas,
    A pezar de meu querer,
    Me quereis satisfazer
    Meus servios com tristezas.
    Mas, pois em balde resiste
    Quem vossa vista condena,
    Prestes estou para a pena;
    Que de galardo to triste
    _Triste vida se me ordena._

    De contente do mal meu
    A to grande extremo vim,
    Que consinto em minha fim:
    Assi que vs e mais eu,
    Ambos somos contra mim.
    Mas que soffra meu tormento,
    Sem querer mais galardo,
    No he fra de razo
    Que queira meu soffrimento,
    _Pois quer vossa condio._

    O mal, que vs dais por bem,
    Esse, Senhora, he mortal;
    Que o mal, que dais como mal,
    Em muito menos se tem,
    Por costume natural.
    Mas porm nesta victoria,
    Que comigo he bem pequena,
    A maior dor me condena
    A pena, que dais por gloria,
    _Que os males, que dais por pena._

    Que mor bem me possa vir,
    Que servir-vos, no o sei.
    Pois que mais quero eu pedir,
    Se quanto mais vos servir,
    Tanto mais vos deverei?
    Se vossos merecimentos
    De to alta estima so,
    Assaz de favor me do
    Em querer que meus tormentos
    _Me fiquem por galardo._

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Ja no posso ser contente,
    Tenho a esperana perdida;
    Ando perdido entre a gente,
    Nem morro, nem tenho vida.

_Glosa._

    Despois que meu cruel Fado
    Destruio huma esperana,
    Em que me vi levantado,
    No mal fiquei sem mudana,
    E do bem desesperado.
    O corao, que isto sente,
     sua dor no resiste,
    Porque v mui claramente
    Que pois nasci para triste,
    _Ja no posso ser contente._

    Por isso, contentamentos,
    Fugi de quem vos despreza:
    Ja fiz outros fundamentos,
    Ja fiz senhora a tristeza
    De todos meus pensamentos.
    O menos que lh'entreguei,
    Foi esta cansada vida:
    Cuido que nisto acertei,
    Porque de quanto esperei
    _Tenho a esperana perdida._

    Acabar de me perder
    Fra ja muito melhor;
    Tivera fim esta dor,
    Que no podendo mor ser,
    Cada vez a sinto mor.
    De vs desejo esconder-me,
    E de mi principalmente,
    Onde ninguem possa ver-me;
    Que pois me ganho em perder-me,
    _Ando perdido entre a gente._

    Gostos de mudanas cheios,
    No me busqueis, no vos quero:
    Tenho-vos por to alheios,
    Que do bem que no espero,
    Inda me fico receios.
    Em pena to sem medida,
    Em tormento to esquivo
    Que morra, ninguem duvda;
    Mas eu se morro, ou se vivo,
    _Nem morro, nem tenho vida._

      *      *      *      *      *


A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.

_Mote._

    A morte, pois que sou vosso,
    No a quero; mas se vem,
    Ha de ser todo meu bem.

_Glosa._

    Amor, qu'em meu pensamento
    Com tanta f se fundou,
    Me tee dado hum regimento,
    Que quando vir meu tormento
    Me salve com cujo sou.
    E com esta defenso,
    Com que tudo vencer posso,
    Diz a causa ao corao:
    No tee em mi jurdio
    _A morte, pois que sou vosso._

    Por exprimentar hum dia
    Amor se me achava forte
    Nesta f, como dizia,
    Me convidou com a morte,
    S por ver se a temeria.
    E como ella seja a cousa
    Onde est todo meu bem,
    Respondi-lhe, como quem
    Quer dizer mais, e no ousa:
    _No a quero, mas se vem..._

    No disse mais, porque ento
    Entendeo quanto me toca;
    E se tinha dito o no,
    Muitas vezes diz a boca,
    O que nega o corao.
    Toda a cousa defendida
    Em mais estima se tem:
    Por isso he cousa sabida,
    Que perder por vs a vida
    _Ha de ser todo meu bem._

      *      *      *      *      *


 MESMA DAMA.

    Vejo-a n'alma pintada,
    Quando me pede o desejo
    O natural que no vejo.

_Glosa._

    Se s de ver puramente
    Me transformei no que vi,
    De vista to excellente
    Mal poderei ser ausente,
    Em quanto o no for de mi.
    Porque a alma namorada
    A traz to bem debuxada,
    E a memoria tanto voa,
    Que se a no vejo em pessoa,
    _Vejo-a n'alma pintada._

    O desejo, que s'estende
    Ao que menos se concede,
    Sbre vs pede e pretende,
    Como o doente que pede
    O que mais se lhe defende.
    Eu, qu'em ausencia vos vejo,
    Tenho piedade e pejo
    De me ver to pobre estar,
    Qu'ento no tenho que dar,
    _Quando me pede o desejo._

    Como quelle que cegou,
    He cousa vista e notoria,
    Que a natureza ordenou
    Que se lhe dobre em memoria
    O qu'em vista lhe faltou:
    Assi a mi, que no vejo
    Co'os olhos o que desejo,
    Na memoria e na firmeza
    Me concede a natureza
    _O natural que no vejo._

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Sem vs, e com meu cuidado,
    Olhae com quem, e sem quem.

_Glosa._

    Vendo Amor que com vos ver
    Mais levemente soffria
    Os males que me fazia,
    No me pde isto soffrer;
    Conjurou-se com meu Fado;
    Hum novo mal me ordenou:
    Ambos me levo forado,
    No sei onde, pois que vou
    _Sem vs e com meu cuidado._

    No sei qual he mais estranho
    Destes dous males que sigo,
    Se no vos ver, se comigo
    Levar imigo tamanho.
    O que fica, e o que vem,
    Hum me mata, outro desejo:
    Com tal mal, e sem tal bem,
    Em taes extremos me vejo:
    _Olhae com quem, e sem quem_!

      *      *      *      *      *


AO MESMO.

    Amor, cuja providencia
    Foi sempre que no errasse,
    Porque n'alma vos levasse,
    Respeitando o mal d'ausencia,
    Quiz qu'em vs me transformasse.
    E vendo-me ir maltratado,
    Eu e meu cuidado ss,
    Proveo nisso de attentado,
    Por no me ausentar de vs,
    _Sem vs, e com meu cuidado._

    Mas est'alma, qu'eu trazia,
    Porque vs nella morais,
    Deixa-me cego, e sem guia;
    Que ha por melhor companhia
    Ficar onde vs ficais.
    Assi me vou de meu bem,
    Onde quer a forte estrella,
    Sem alma, qu'em si vos tem,
    Co'o mal de viver sem ella:
    _Olhae com quem, e sem quem_!

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Sem ventura he por demais.

_Glosa._

    Todo o trabalhado bem
    Promette gostoso fruito;
    Mas os trabalhos, que vem,
    Para quem dita no tem
    Valem pouco, e custo muito.
    Rompe toda a pedra dura,
    Faz os homens immortais
    O trabalho quando atura;
    Mas querer achar ventura,
    _Sem ventura, he por demais._

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Minh'alma, lembrae-vos della.

_Glosa._

    Pois o ver-vos tenho em mais
    Que mil vidas que me deis,
    Assi como a que me dais,
    Meu bem, ja que mo negais,
    Meus olhos, no mo negueis.
    E se a tal estado vim
    Guiado de minha estrella,
    Quando houverdes d de mim,
    Minha vida, dae-lhe a fim,
    _Minh'alma, lembrae-vos della._

      *      *      *      *      *


MOTE ALHEIO.

    Tudo pde huma affeio.

_Glosa._

    Tee tal jurdio Amor
    N'alma donde se aposenta,
    E de que se faz senhor,
    Que a liberta e isenta
    De todo humano temor.
    E com mui justa razo,
    Como senhor soberano,
    Que Amor no consente dano.
    E pois me soffre teno,
    Gritarei por desengano:
    _Tudo pde huma affeio._

      *      *      *      *      *


TROVA DE BOSCO.

    Justa fu mi perdicion;
    De mis males soy contento;
    Ya no espero galardon,
    Pues vuestro merecimiento
    Satisfizo mi pasion.

_Glosa._

    Despues que Amor me form
    Todo de amor, cual me veo,
    En las leyes, que me di,
    El mirar me consinti,
    Y defendime el deseo.
    Mas el alma, como injusta,
    En viendo tal perfeccion,
    Di al deseo ocasion:
    Y pues quebr ley tan justa,
    _Justa fu mi perdicion._

    Mostrndoseme el Amor
    Mas benigno que cruel,
    Sobre tirano traidor,
    De zelos de mi dolor,
    Quiso tomar parte en l.
    Yo que tan dulce tormento
    No quiero dallo, aunque peco,
    Resisto, y no lo consiento;
    Mas si me lo toma  trueco
    _De mis males, soy contento._

    Seora, ved lo que ordena
    Este Amor tan falso nuestro!
    Por pagar  costa agena,
    Manda que de un mirar vuestro
    Haga el premio de mi pena.
    Mas vos, para que veais
    Tan engaosa intencion,
    Aunque muerto me sintais,
    No mireis, que si mirais,
    _Ya no espero galardon._

    Pues que premio (me direis)
    Esperas que ser bueno?
    Sabed, sino lo sabeis,
    Que es lo mas de lo que peno
    Lo menos que mereceis.
    Quien hace al mal tan ufano,
    Y tan libre al sentimiento?
    El deseo? No, que es vano.
    El amor? No, que es tirano.
    _Pues? Vuestro merecimiento._

    No pudiendo Amor robarme
    De mis tan caros despojos,
    Aunque fu por mas honrarme,
    Vos sola para matarme
    Le prestastes vuestros ojos.
    Matranme ambos  dos;
    Mas  vos con mas razon
    Debe el la satisfaccion;
    Que  mi por l, y por vos,
    _Satisfizo mi pasion._

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Todo es poco lo posible.

_Glosa._

    Ved que engao seorea
    Nuestro juicio tan loco,
    Que por mucho que se crea,
    Todo el bien, que se desea,
    Alcanzado, queda poco.
    Un bien de cualquiera grado,
    Si de haberse es imposible,
    Queda mucho deseado.
    Mas para mucho, alcanzado,
    _Todo es poco lo posible._

_Outro._

    Posible es  mi cuidado
    Poderme hacer satisfecho,
    Si fuera posible al hado
    Hacer no hecho lo hecho,
    Y futuro lo pasado.
    Si olvido pudiera haber,
    Fuera remedio sufrible;
    Mas ya que no puede ser,
    Para contento me hacer,
    _Todo es poco lo posible._

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Vos teneis mi corazon.

_Glosa._

    Mi corazon me han robado;
    Y Amor viendo mis enojos,
    Me dijo: Fute llevado
    Por los mas hermosos ojos,
    Que desque vivo he mirado.
    Gracias sobrenaturales
    Te lo tienen en prision.
    Y si Amor tiene razon,
    Seora, por las seales,
    _Vos teneis mi corazon._

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Qu ver que me contente?

_Glosa._

    Desque una vez yo mir,
    Seora, vuestra beldad,
    Jamas por mi voluntad
    Los ojos de vos quit.
    Pues sin vos placer no siente
    Mi vida, ni lo desea,
    Si no quereis que yo os vea,
    _Qu ver que me contente?_

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Sem vs, e com meu cuidado.

_Glosa._

    Querendo Amor esconder-vos
    Em parte que vos no visse,
    Co'o extremo de querer-vos
    Cegou-me os olhos com ver-vos,
    Levou-vos, sem que vos visse.
    Eu cego, mas atinado,
    Quando vi que vos no via,
    Do mesmo Amor indignado,
    Ja vdes qual ficaria
    _Sem vs e com meu cuidado._

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Retrato, vs no sois meu;
    Retratro-vos mui mal;
    Que a serdes meu natural,
    Foreis mofino como eu.

_Glosa._

    Indaqu'em vs a arte vena
    O que o natural tee dado,
    No fostes bem retratado;
    Que ha em vs mais differena,
    Que no vivo do pintado.
    Se o lugar se considera
    Do alto estado, que vos deu
    A sorte, qu'eu mais quizera;
    Se he qu'eu sou quem d'antes era,
    _Retrato, vs no sois meu._

    Vs na vossa glria psto,
    Eu na minha sepultura,
    Vs com bens, eu com desgsto;
    Pareceis-vos ao meu rosto,
    E no ja  minha ventura.
    E pois nella e vs erraro
    O qu'em mi he principal,
    Muito em ambos s'enganro.
    Se por mi vs retratro,
    _Retratro-vos mui mal._

    Mas se esse rosto fingido
    Quizero representar,
    E houvero por bom partido
    Dar-vos a alma do sentido
    Para a glria do lugar;
    Vreis, psto nessa alteza,
    Que vos no ha cousa igual;
    E que nem a maior mal
    Podeis vir, nem mor baixeza,
    _Que a serdes meu natural._

    Por isso no confesseis
    Serdes meu, qu'he desatino,
    Com que o lugar perdereis:
    Se conservar-vos quereis,
    Blazonae que sois divino.
    Que se nesta occasio
    Conhecessem qu'ereis meu,
    Por meu vos dero de mo,
    . . . . . . . . . .
    _Freis mofino, como eu._

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Foi-se gastando a esperana,
    Fui entendendo os enganos;
    Do mal ficro-me os danos,
    E do bem s a lembrana.

_Glosa._

    Nunca em prazeres passados
    Tive firmeza segura.
    Antes to arrebatados,
    Qu'inda no ero chegados,
    Quando mos levou ventura.
    E como quem desconfia
    Ter em tal sorte mudana,
    No meio desta porfia,
    De quanto bem pretendia
    _Foi-se gastando a esperana._

    No tive por desatino
    A occasio de perdella;
    Mas foi culpa do destino,
    Que a ninguem, como mais dino,
    Amor pudra sostella.
    Dei-lhe tudo o qu'era seu,
    No receando taes danos
    Deste, a quem alma lhe deu:
    Quando ja no era meu,
    _Fui entendendo os enganos._

    Fiquei deste mal sobejo
    A quem a causa compete
    Dizer-lhe tudo o que vejo,
    Que Amor acceita o desejo,
    Mas mente no que promete.
    Que se a mi se me obrigou
    A dar-me bens soberanos,
    Foi engano que ordenou;
    Que do bem tudo levou,
    _Do mal ficro-me os danos._

    E se dor to desigual
    Soffro em mi com padecellos,
    Quero de novo soffrellos;
    Que por a causa ser tal,
    No determino offendellos.
    Dobre-se o mal, falte a vida,
    Cresa a f, falte a esperana,
    Pois foi mal agradecida;
    Fique a dor n'alma imprimida,
    _E do bem s a lembrana._

      *      *      *      *      *


ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.

    Aquella captiva,
    Que me tee captivo,
    Porque nella vivo,
    Ja no quer que viva.
    Eu nunca vi rosa
    Em suaves mlhos,
    Que para meus olhos
    Fosse mais formosa.

    Nem no campo flores,
    Nem no ceo estrellas,
    Me parecem bellas,
    Como os meus amores.
    Rosto singular,
    Olhos socegados,
    Pretos e cansados,
    Mas no de matar.

    Huma graa viva,
    Que nelles lhe mora,
    Para ser senhora
    De quem he captiva.
    Pretos os cabellos,
    Onde o povo vo
    Perde opinio,
    Que os louros so bellos.

    Pretido de Amor,
    To doce a figura,
    Que a neve lhe jura
    Que trocra a cr.
    Leda mansido,
    Que o siso acompanha,
    Bem parece estranha,
    Mas barbara no.

    Presena serena,
    Que a tormenta amansa:
    Nella emfim descansa
    Toda minha pena.
    Esta he a captiva,
    Que me tee captivo;
    E pois nella vivo,
    He fra que viva.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Quem ora soubesse
    Onde o Amor nasce,
    Que o semeasse!

_Voltas._

    D'Amor e seus danos
    Me fiz lavrador;
    Semeava amor,
    E colhia enganos;
    No vi, em meus anos,
    Homem que apanhasse
    O que semeasse.

    Vi terra florda
    De lindos abrolhos,
    Lindos para os olhos,
    Duros para a vida.
    Mas a rez perdida,
    Que tal herva pasce,
    Em forte hora nasce.

    Com quanto perdi,
    Trabalhava em vo:
    Se semeei gro,
    Grande dor colhi.
    Amor nunca vi
    Que muito durasse,
    Que no magoasse.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Se me levo goas,
    Nos olhos as levo.

_Voltas._

    Se de saudade
    Morrerei ou no,
    Meus olhos diro
    De mi a verdade.
    Por elles me atrevo
    A lanar as goas,
    Que mostrem as mgoas
    Que nesta alma levo.

    As goas, qu'em vo
    Me fazem chorar,
    Se ellas so do mar,
    Estas de amar so.
    Por ellas relvo
    Todas minhas mgoas;
    Que se fra d'goas
    Me leva, eu as levo.

    Todas me entristecem,
    Todas so salgadas;
    Porm as choradas
    Doces me parecem.
    Correi, doces goas,
    Que se em vs m'enlvo,
    No doem as mgoas,
    Que no peito levo.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Menina dos olhos verdes,
    Porque me no vedes?

_Voltas._

    Elles verdes so,
    E tee por usana
    Na cr esperana,
    E nas obras no.
    Vossa condio
    No he d'olhos verdes,
    Porque me no vdes.

    Isenes a mlhos
    Qu'elles dizem terdes,
    No so d'olhos verdes,
    Nem de verdes olhos.
    Sirvo de giolhos,
    E vs no me credes,
    Porque me no vdes.

    Havio de ser,
    Porque possa v-los,
    Que huns olhos to bellos
    No se ho d'esconder:
    Mas fazeis-me crer,
    Que ja no so verdes,
    Porque me no vdes.

    Verdes no o so,
    No que alcano delles;
    Verdes so aquelles
    Qu'esperana do.
    Se na condio
    Est serem verdes,
    Porque me no vedes?

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Trocae o cuidado,
    Senhora, comigo;
    Vereis o perigo,
    Qu'he ser desamado.

_Voltas._

    Se trocar desejo
    O amor entre ns,
    He para qu'em vs
    Vejais o que vejo.
    E sendo trocado
    Este amor comigo,
    Ser-vos-ha castigo
    Terdes meu cuidado.

    Tendes o sentido
    D'Amor livre e isento,
    E cuidais qu'he vento
    Ser to mal querido.
    No seja o cuidado
    To vosso inimigo,
    Que queira o perigo
    De ser desamado.

    Mas nunca foi tal
    Este meu querer,
    Que a quem tanto quer,
    Queira tanto mal
    Seja eu maltratado,
    E nunca o castigo
    Vos mostre o perigo,
    Qu'he ser desamado.

      *      *      *      *      *


 TENO DE MIRAGUARDA.

    Ver, e mais guardar
    De ver outro dia,
    Quem o acabaria?

_Voltas._

    Da lindeza vossa,
    Dama, quem a v,
    Impossivel he
    Que guardar-se possa.
    Se faz tanta mossa
    Ver-vos hum s dia,
    Quem se guardaria?

    Melhor deve ser
    Neste aventurar
    Ver, e no guardar,
    Que guardar e ver.
    Ver e defender,
    Muito bom sera,
    Mas quem poderia?

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Irme quiero, madre,
     aquella galera,
    Con el marinero,
     ser marinera.

_Voltas._

    Madre, si me fuere,
    Do quiera que v,
    No lo quiero yo,
    Que el Amor lo quiere.
    Aquel nio fiero,
    Hace que me mueva
    Por un marinero
     ser marinera.

    El que todo puede,
    Madre, no podr,
    Pues el alma v,
    Que el cuerpo se quede.
    Con l por que muero
    Voy, porque no muera;
    Que si es marinero,
    Ser marinera.

    Es tirana ley
    Del nio Seor,
    Que por un amor
    Se deseche un Rey.
    Pues desta manera
    Quiero irme, quiero
    Por un marinero
     ser marinera.

    Decid, ondas, cuando
    Vistes vos doncella,
    Siendo tierna y bella,
    Andar navegando?
    Mas qu no se espera
    Daquel nio fiero?
    Vea yo quien quiero,
    Sea marinera.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Saudade minha,
    Quando vos veria?

_Voltas._

    Este tempo vo,
    Esta vida escassa,
    Para todos passa,
    S para mi no.
    Os dias se vo
    Sem ver este dia,
    Quando vos veria.

    Vde esta mudana
    Se est bem perdida,
    Em to curta vida
    To longa esperana.
    Se este bem se alcana,
    Tudo soffreria,
    Quando vos veria.

    Saudosa dor,
    Eu bem vos entendo;
    Mas no me defendo,
    Porque offendo Amor.
    Se fsseis maior,
    Em maior valia
    Vos estimaria.

    Minha saudade,
    Charo penhor meu,
    A quem direi eu
    Tamanha verdade?
    Na minha vontade
    De noite e de dia
    Sempre vos teria.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Vida da minha alma,
    No vos posso ver:
    Isto no he vida
    Para se soffrer.

_Voltas._

    Quando vos eu via,
    Esse bem lograva,
    A vida estimava,
    Pois ento vivia;
    Porque vos servia
    S para vos ver.
    Ja que vos no vejo
    Para qu'he viver?

    Vivo sem razo,
    Porqu'em minha dor
    No a poz Amor;
    Que inimigos so.
    Mui grande traio
    Me obriga a fazer
    Que viva, Senhora,
    Sem vos poder ver.

    No me atrevo ja,
    Minha to querida,
    A chamar-vos vida,
    Porque a tenho m.
    Ninguem cuidar,
    Que isto pde ser,
    Sendo-me vs vida,
    No poder viver.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Coifa de beirame
    Namorou Joanne.

_Voltas._

    Por cousa to pouca
    Andas namorado?
    Amas o toucado,
    E no quem o touca?
    Ando cega e louca
    Por ti, meu Joanne,
    Tu pelo beirame.

    Amas o vestido?
    Es falso amador.
    Tu no vs que Amor
    Se pinta despido?
    Cego e mui perdido
    Andas por beirame,
    E eu por ti, Joanne.

    A todos encanta
    Tua parvoice;
    De tua doudice
    Gonalo s'espanta,
    E zombando canta:
    Coifa de beirame,
    Namorou Joanne.

    Eu no sei que viste
    Neste meu toucado,
    Que to namorado
    Delle te sentiste.
    No te veja triste;
    Ama-me, Joanne,
    E deixa o beirame.

    Joanne gemia,
    Maria chorava,
    E assi lamentava
    O mal que sentia:
    (Os olhos feria,
    E no o beirame,
    Que matou Joanne)

    No sei do que vem
    Amares vestido;
    Que o mesmo Cupido
    Vestido no tem.
    Sabes de que vem
    Amares beirame?
    Vem de ser Joanne.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Se Helena apartar
    Do campo seus olhos,
    Nascero abrolhos.

_Voltas._

    A verdura amena,
    Gados, que pasceis,
    Sabei que a deveis
    Aos olhos d'Helena.
    Os ventos serena,
    Faz flores d'abrolhos
    O ar de seus olhos.

    Faz serras flordas,
    Faz claras as fontes:
    S'isto faz nos montes,
    Que fara nas vidas?
    Tra-las suspendidas,
    Como hervas em mlhos,
    Na luz de seus olhos.

    Os coraes prende
    Com graa inhumana;
    De cada pestana
    Hum'alma lhe pende.
    Amor se lhe rende,
    E psto em giolhos,
    Pasma nos seus olhos.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Verdes so os campos
    De cr de limo;
    Assi so os olhos
    Do meu corao.

_Voltas._

    Campo, que t'estendes
    Com verdura bella;
    Ovelhas, que nella
    Vosso pasto tendes;
    D'hervas vos mantendes
    Que traz o vero;
    E eu das lembranas
    Do meu corao.

    Gados, que pasceis
    Com contentamento,
    Vosso mantimento
    No no entendeis.
    Isso que comeis,
    No so hervas, no;
    So graa dos olhos
    Do meu corao.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Verdes so as hortas
    Com rosas e flores:
    Moas, que as rgo,
    Mato-me d'amores.

_Voltas._

    Entre estes penedos
    Que daqui parecem,
    Verdes hervas crescem,
    Altos arvoredos.
    Vai destes rochedos
    goa, com que as flores
    D'outras so regadas,
    Que mto d'amores.

    Com goa, que cai
    Daquella espessura,
    Outra se mistura,
    Que dos olhos sai:
    Toda junta vai
    Regar brancas flores;
    Onde ha outros olhos,
    Que mto d'amores.

    Celestes jardins,
    As flores estrellas:
    Hortelas dellas
    So huns seraphins.
    Rosas e jasmins
    De diversas cres,
    Anjos, que as rgo,
    Mto-me d'amores.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Menina formosa,
    Dizei de que vem
    Serdes rigorosa
    A quem vos quer bem?

_Voltas._

    No sei quem assella
    Vossa formosura;
    Que quem he to dura
    No pde ser bella.
    Vs sereis formosa;
    Mas a razo tem
    Que quem he irosa,
    No parece bem.

    A mostra he de bella,
    As obras so cruas:
    Pois qual destas duas
    Ficar na sella?
    Se ficar _irosa_,
    No vos est bem:
    Fique antes _formosa_,
    Que mais fra tem.

    O Amor formoso
    Se pinta e se chama:
    Se he amor, ama,
    Se ama, he piedoso.
    Diz agora a grosa
    Que este texto tem,
    Que quem he formosa
    Ha de querer bem.

    Havei d, menina,
    Dessa formosura;
    Que se a terra he dura,
    Secca-se a bonina.
    Sde piedosa;
    No veja ninguem
    Que por rigorosa
    Percais tanto bem.

      *      *      *      *      *


ALHEIO.

    Tende-me mo nelle,
    Que hum real me deve.

_Voltas._

    C'hum real d'amor,
    Dous de confiana,
    E tres d'esperana,
    Me foge o trdor.
    Falso desamor
    S'encerra naquelle
    Que hum real me deve.

    Pedio-mo emprestado,
    No lhe quiz penhor:
    He mao pagador;
    Tendo-mo afferrado.
    C'hum cordel atado,
    Ao Tronco se leve;
    Que hum real me deve.

    Por esta travssa
    Se vai acolhendo:
    Ei-lo vai correndo,
    Fugindo a gr pressa.
    Nesta mo, e nessa
    O falso se atreve,
    Que hum real me deve.

    Comprou-me o amor,
    Sem lhe fazer preo:
    Eu no lhe mereo
    Dar-me desfavor.
    D-me tanta dor,
    Que ando apos elle
    Pelo que me deve.

    Eu de c bradando,
    Elle vai fugindo;
    Elle sempre rindo,
    Eu sempre chorando.
    E de quando em quando
    No amor se atreve,
    Como que no deve.

    A fallar verdade
    Elle ja pagou;
    Mas ainda ficou
    Devendo ametade.
    Minha liberdade
    He a que me deve:
    S nella se atreve.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    D la mi ventura,
    Que no veo alguna?

_Voltas._

    Sepa quien padece,
    Que en la sepultura
    Se esconde ventura
    De quien la merece.
    All me parece,
    Que quiere fortuna
    Que yo halle alguna.

    Naciendo mesquino,
    Dolor fu mi cama;
    Tristeza fu el ama,
    Cuidado el padrino.
    Vestise el destino
    Negra vestidura,
    Huy la ventura.

    No se hall tormento,
    Que alli no se hallase;
    Ni bien, que pasase,
    Sin como viento.
    Oh qu nacimiento,
    Que luego en la cuna
    Me sigui fortuna!

    Esta dicha mia,
    Que siempre busqu,
    Buscndola, hall
    Que no la hallaria;
    Que quien nace en dia
    D'estrella tan dura,
    Nunca halla ventura.

    No puso mi estrella
    Mas ventura em min:
    Ans vive en fin
    Quien nace sin ella.
    No me quejo della;
    Qujome que atura
    Vida tan escura.

      *      *      *      *      *


MOTE.

    Vida de minha alma.

_Volta._

    Dous tormentos vejo
    Grandes por extremo:
    Se vos vejo, temo,
    E se no, desejo.
    Quando me despejo,
    E venho a escolher,
    Temendo o desejo,
    Desejo temer.

      *      *      *      *      *


CANTIGA ALHEIA.

    Pastora da serra,
    Da serra da Estrella,
    Perco-me por ella.

_Voltas._

    Nos seus olhos bellos
    Tanto Amor se atreve,
    Que abraza entre a neve
    Quantos ouso vellos.
    No slta os cabellos
    Aurora mais bella:
    Perco-me por ella.

    No teve esta serra
    No meio d'altura
    Mais que a formosura,
    Que nella se encerra.
    Bem ceo fica a terra,
    Que tee tal estrella:
    Perco-me por ella.

    Sendo entre pastores
    Causa de mil males,
    No se ouvem nos vales
    Seno seus louvores.
    Eu s por amores
    No sei fallar nella,
    Sei morrer por ella.

    D'alguns, que sentindo
    Seu mal vo mostrando.
    Se ri, no cuidando
    Qu'inda paga rindo.
    Eu triste, encobrindo
    S meus males della,
    Perco-me por ella.

    Se flores deseja
    Por ventura bellas,
    Das que colhe dellas
    Mil morrem d'inveja.
    No ha quem no veja
    Todo o melhor nella:
    Perco-me por ella.

    Se n'goa corrente
    Seus olhos inclina,
    Faz a luz divina
    Parar a corrente.
    Tal se v, que sente
    Por ver-se a goa nella:
    Perco-me por ella.

      *      *      *      *      *


ENDECHAS.

    Vs sois huma Dama
    Das feias do mundo;
    De toda a m fama
    Sois cabo profundo.

    A vossa figura
    No he para ver;
    Em vosso poder
    No ha formosura.

    Vs fostes dotada
    De toda a maldade;
    Perfeita beldade
    De vs he tirada.

    Sois muito acabada
    De taixa e de glosa:
    Pois quanto a formosa,
    Em vs no ha nada.

    Do gro merecer
    Sois bem apartada;
    Andais alongada
    Do bem parecer.

    Bem claro mostrais
    Em vs fealdade:
    No ha hi maldade,
    Que no precedais.

    De fresco caro
    Vos vejo ausente;
    Em vs he presente
    A m condio.

    De ter perfeio
    Mui alheia estais;
    Mui muito alcanais
    De pouca razo.

      *      *      *      *      *


ENDECHAS.

    Vai o bem fugindo,
    Cresce o mal co'os annos,
    Vo-se descubrindo
    Co'o tempo os enganos.

    Amor e alegria.
    Menos tempo dura.
    Triste de quem fia
    Nos bens da ventura!

    Bem sem fundamento
    Tee certa a mudana,
    Certo o sentimento
    Na dor da lembrana.

    Quem vive contente,
    Viva receoso:
    Mal que se no sente,
    He mais perigoso.

    Quem males sentio,
    Saiba ja temer;
    E pelo que vio
    Julgue o qu'ha de ser.

    Alegre vivia,
    Triste vivo agora;
    Chora a alma de dia,
    E de noite chora.

    Confesso os enganos
    De meu pensamento:
    Bem de tantos annos
    Foi-se n'hum momento.

    Meus olhos, que vistes?
    Pois vos atrevestes,
    Chorae, olhos tristes,
    O bem que perdestes.

    A luz do sol pura
    S a vs se negue;
    Seja noite escura,
    Nunca a manha chegue.

    O campo florea,
    Murmurem as goas,
    Tudo me entristea,
    Creso minhas mgoas.

    Quizera mostrar
    O mal que padeo;
    No lhe d lugar
    Quem lhe deu como.

    Em tristes cuidados
    Passo a triste vida;
    Cuidados cansados,
    Vida aborrecida.

    Nunca pude crer
    O que agora creio:
    Cegou-me o prazer
    Do mal que me veio.

    Ah ventura minha,
    Como me negaste!
    Hum so bem que tinha,
    Porque mo roubaste?

    Triste fantasia
    Quanta cousa guarda!
    Quem ja visse o dia,
    Que tanto lhe tarda!

    Nesta vida cega
    Nada permanece;
    O qu'inda no chega,
    Ja desaparece.

    Qualquer esperana
    Foge como o vento:
    Tudo faz mudana,
    Salvo meu tormento.

    Amor cego e triste,
    Quem o tee padece:
    Mal quem lhe resiste!
    Mal quem lhe obedece!

    No meu mal esquivo
    Sei como Amor trata:
    E pois nelle vivo,
    Nenhum amor mata.

      *      *      *      *      *



SEXTINAS.


SEXTINA I.

    Foge-me pouco a pouco a curta vida,
    Se por caso he verdade qu'inda vivo;
    Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;
    Chro por o passado; e em quanto fallo,
    Se me passo os dias passo a passo.
    Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.

    Que maneira to aspera de pena!
    Pois nunca hum'hora vio to longa vida
    Em que do mal mover se visse hum passo.
    Que mais me monta ser morto que vivo?
    Para que chro, emfim? para que fallo,
    Se lograr-me no pude de meus olhos?

    Oh formosos, gents e claros olhos,
    Cuja ausencia me move a tanta pena,
    Quanta se no comprende em quanto fallo!
    Se no fim de to longa e curta vida
    De vs m'inflammasse inda o raio vivo,
    Por bem teria todo o mal que passo.

    Mas bem sei que primeiro o extremo passo
    Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,
    Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.
    Testimunhas sero a tinta e penna,
    Qu'escrevro de to molesta vida
    O menos que passei, e o mais que fallo.

    Oh que no sei qu'escrevo, nem que fallo!
    Pois se d'hum pensamento em outro passo,
    Vejo to triste genero de vida,
    Que se lhe no valerem tanto os olhos,
    No posso imaginar qual seja a penna
    Qu'esta pena traslade com que vivo.

    N'alma tenho contino hum fogo vivo,
    Que se no respirasse no que fallo,
    Estaria ja feita cinza a pena;
    Mas sbre a maior dor que soffro e passo,
    O tempero com lagrimas os olhos:
    Com que, se foge, no se acaba a vida.

    Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
    Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;
    E juntamente passo gloria e pena.

      *      *      *      *      *


SEXTINA II.

    A culpa de meu mal s tee meus olhos,
    Pois que dero a Amor entrada n'alma,
    Para que perdesse eu a liberdade.
    Mas quem pde fugir a huma brandura,
    Que despois de vos pr em tantos males,
    D por bens o perder por ella a vida?

    Assaz de pouco faz quem perde a vida
    Por condio to dura e brandos olhos;
    Pois de tal qualidade so meus males,
    Que o mais pequeno delles toca n'alma.
    No s'engane com mostras de brandura
    Quem quizer conservar a liberdade.

    Roubadora he de toda liberdade
    (E oxal perdoasse  triste vida!)
    Esta que o falso Amor chama brandura,
    Ai meus antes imigos, que meus olhos!
    Que mal vos tinha feito esta vossa alma,
    Para vs lhe fazerdes tantos males?

    Creso de dia em dia embora os males;
    Perca-se embora a antigua liberdade;
    Transforme-se em Amor esta triste alma;
    Padea embora esta innocente vida;
    Que bem me pgo tudo estes meus olhos,
    Quando de outros, se os vem, vem a brandura.

    Mas como nelles pde haver brandura,
    Se causadores so de tantos males?
    Engano foi d'Amor, porque meus olhos
    Dessem por bem perdida a liberdade.
    Ja no tenho que dar seno a vida,
    Se a vida ja no deo, quem ja deo a alma.

    Que pde ja'sperar quem a sua alma
    Captiva eterna fez d'huma brandura,
    Que quando vos d morte, diz qu'he vida?
    Forado me he gritar nestes meus males,
    Olhos meus: pois por vs a liberdade
    Perdi, de vs me queixarei, meus olhos.

    Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,
    Pois dais a liberdade a tal brandura,
    Que para dar mais males, d mais vida.

      *      *      *      *      *


SEXTINA III.

    Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia,
    Amanhecido s para meu damno!
    Pudeste-me apartar daquella vista
    Por quem vivia com meu mal contente?
    Ah se o supremo fras desta vida,
    Qu'em ti se comera a minha glria!

    Mas como eu no nasci para ter glria,
    Seno pena que cresa cada dia,
    O ceo m'est negando o fim da vida,
    Porque no tenha fim com ella o damno:
    Para que nunca possa ser contente,
    Da vista me tirou aquella vista.

    Suave, deleitosa, alegre vista,
    Donde pendia toda a minha gloria,
    Por quem na mor tristeza fui contente;
    Quando ser que veja aquelle dia
    Em que deixe de ver to grave damno,
    E em que me deixe to penosa vida?

    Como desejarei humana vida,
    Ausente d'hua mais que humana vista,
    Que to glorioso me fazia o damno!
    Vejo o meu damno sem a sua glria;
     minha noite falta ja seu dia:
    Triste tudo se v, nada contente.

    Pois sem ti ja no posso ser contente,
    Mal posso desejar sem ti a vida;
    Sem ti ja ver no posso claro dia,
    No posso sem te ver desejar vista;
    Na tua vista s se via a glria,
    No ver a glria tua he ver meu damno.

    No via maior glria que meu damno,
    Quando do damno meu eras contente:
    Agora me he tormento a maior glria,
    Que pde prometter-me Amor na vida,
    Pois tornar-te no pde  minha vista,
    Que s na tua achava a luz do dia.

    E pois de dia em dia cresce o damno,
    Nem posso sem tal vista ser contente,
    S com perder a vida acharei glria.

      *      *      *      *      *


SEXTINA IV.

    Sempre me queixarei desta crueza
    Que Amor usou comigo quando o tempo,
    A pezar de meu duro e triste fado,
    A meus males queria dar remedio,
    Em apartar de mi aquella vista,
    Por quem me contentava a triste vida.

    Levra-me, oxal, traz ella a vida,
    Para que no sentira esta crueza
    De me ver apartado de tal vista!
    E praza a Deos no veja o proprio tempo
    Em mi, sem esperana de remedio,
    A desesperao d'hum triste fado!

    Porm ja acabe o triste e duro fado!
    Acabe o tempo ja to triste vida,
    Qu'em sua morte s tee seu remedio.
    O deixar-me viver he mor crueza,
    Pois desespro ja d'em algum tempo
    Tornar a ver aquella doce vista.

    Duro Amor! se pagava s tal vista
    Todo o mal que por ti me fez meu fado,
    Porque quizeste que a levasse o tempo?
    E se o assi quizeste, porque a vida
    Me deixas para ver tanta crueza,
    Quando em no v-la s vejo o remedio?

    Tu s de minha dor eras remedio,
    Suave, deleitosa e bella vista.
    Sem ti, que posso eu ver seno crueza?
    Sem ti, qual bem me pde dar o fado,
    Se no he consentir que acabe a vida?
    Mas elle della me dilata o tempo.

    Azas para voar vejo no tempo,
    Que com voar a muitos foi remedio;
    E s no va para a minha vida.
    Para que a quero eu sem tua vista?
    Para que quer tambem o triste fado
    Que no acabe o tempo tal crueza?

    No podero fazer crueza, ou tempo,
    Fra de fado, ou falta de remedio,
    Qu'essa vista m'esquea em toda a vida.

      *      *      *      *      *




ELEGIAS


ELEGIA I.

    O sulmonense Ovidio desterrado
    Na aspereza do Ponto, imaginando
    Ver-se de seus Penates apartado;

    Sua chara mulher desamparando,
    Seus doces filhos, seu contentamento,
    De sua Patria os olhos apartando;

    No podendo encobrir o sentimento,
    Aos montes ja, ja aos rios se queixava
    De seu escuro e triste nascimento.

    O curso das estrellas contemplava,
    E aquella ordem com que discorria
    O ceo e o ar, e a terra adonde estava.

    Os peixes por o mar nadando via,
    As feras por o monte procedendo
    Como o seu natural lhes permittia.

    De suas fontes via estar nascendo
    Os saudosos rios de crystal,
     sua natureza obedecendo.

    Assi s, de seu proprio natural
    Apartado, se via em terra estranha,
    A cuja triste dor no acha igual.

    S sua doce Musa o acompanha
    Nos soidosos versos qu'escrevia,
    E nos lamentos com que o campo banha.

    Dest'arte me figura a phantasia
    A vida com que morro, desterrado
    Do bem qu'em outro tempo possuia.

    Aqui contemplo o gsto ja passado,
    Que nunca passar por a memoria
    De quem o traz na mente debuxado.

    Aqui vejo caduca e debil glria
    Desenganar meu rro co'a mudana
    Que faz a fragil vida transitoria.

    Aqui me representa esta lembrana
    Quo pouca culpa tenho; e m'entristece
    Ver sem razo a pena que m'alcana.

    Que a pena que com causa se padece,
    A causa tira o sentimento della;
    Mas muito doe a que se no merece.

    Quando a roxa manha, dourada e bella,
    Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,
    E torna a seus queixumes Philomela;

    Este cuidado, que co'o somno atalho,
    Em sonhos me parece; que o que a gente
    Por seu descanso tee me d trabalho.

    E despois de acordado cegamente,
    (Ou, por melhor dizer, desacordado,
    Que pouco acrdo logra hum descontente)

    Daqui me vou, com passo carregado,
    A hum outeiro erguido, e alli m'assento,
    Soltando toda a redea a meu cuidado.

    Despois de farto ja de meu tormento,
    Estendo estes meus olhos saudosos
     parte donde tinha o pensamento.

    No vejo seno montes pedregosos;
    E sem graa e sem flor os campos vejo,
    Que ja floridos vra, e graciosos.

    Vejo o puro, suave e rico Tejo,
    Com as concavas barcas, que nadando
    Vo pondo em doce effeito o seu desejo.

    Humas com brando vento navegando,
    Outras com leves reinos brandamente
    As crystallinas goas apartando.

    D'alli fallo com a goa que no sente
    Com cujo sentimento est'alma sae
    Em lagrimas desfeita claramente.

     fugitivas ondas, esperae;
    Que pois me no levais em companhia,
    Ao menos estas lagrimas levae.

    At que venha aquelle alegre dia
    Qu'eu v onde vs ides, livre e ledo.
    Mas tanto tempo, quem o passaria?

    No pde tanto bem chegar to cedo:
    Porque primeiro a vida acabar,
    Que se acabe to aspero degredo.

    Mas essa triste morte que vir,
    S'em to contrrio estado me acabasse,
    Est'alma assi impaciente adonde ir?

    Que se s portas Tartaricas chegasse,
    Temo que tanto mal por a memoria
    Nem ao passar do Lethe lhe passasse.

    Que se a Tantalo e Ticio for notoria
    A pena com que vai, e que a atormenta,
    A pena que l tee, tero por glria.

    Essa imaginao, emfim, me augmenta
    Mil mgoas no sentido, porque a vida
    De imaginaes tristes se contenta.

    Que pois de todo vive consumida,
    Porque o mal que possue se resuma,
    Imagina na glria possuida.

    At que a noite eterna me consuma,
    Ou veja aquelle dia desejado
    Em que a Fortuna faa o que costuma;

    Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.

      *      *      *      *      *


ELEGIA II.

    Aquella que d'amor descomedido
    Por o formoso moo se perdeo,
    Que s por si d'amores foi perdido;

    Despois que a deosa em pedra a converteo
    De seu humano gesto verdadeiro,
    A ltima voz s lhe concedeo.

    Assi meu mal do proprio ser primeiro
    Outra cousa nenhua me consente,
    Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.

    E se huma pouca vida, estando ausente,
    Me deixa Amor, he porque o pensamento
    Sinta a perda do bem d'estar presente.

    Senhor, se vos espanta o soffrimento
    Que tenho em tanto mal para escrev-lo,
    Furto este breve espao a meu tormento.

    Porque quem tee poder para soffr-lo,
    Sem se acabar a vida co'o cuidado,
    Tambem ter poder para diz-lo.

    Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;
    Mas n'alma minha triste e saudosa
    A saudade escreve, e eu traslado.

    Ando gastando a vida trabalhosa,
    E esparzindo a contnua soidade
    Ao longo d'huma praia soidosa.

    Vejo do mar a instabilidade,
    Como com seu ruido impetuoso
    Retumba na maior concavidade.

    De furibundas ondas poderoso,
    Na terra, a seu pezar, est tomando
    Lugar, em que s'estenda, cavernoso.

    Ella, como mais fraca, lh'est dando
    As concavas entranhas, onde esteja
    Sempre com som profundo suspirando.

    A todas estas cousas tenho inveja
    Tamanha, que no sei determinar-me,
    Por mais determinado que me veja.

    Se quero em tanto mal desesperar-me,
    No posso, porque Amor e saudade
    Nem licena me do para matar-me.

    s vezes cuido em mi, se a novidade
    E estranheza das cousas, co'a mudana,
    Poderio mudar huma vontade.

    E com isto figuro na lembrana
    A nova terra, o novo trato humano,
    A estrangeira progenie, a estranha usana.

    Subo-me ao monte que Hercules Thebano
    Do altissimo Calpe dividio,
    Dando caminho ao mar Mediterrano;

    D'alli'stou tenteando adonde vio
    O pomar das Hesperidas, matando
    A serpe que a seu passo resistio.

    Estou-me em outra parte figurando
    O poderoso Anteo, que derribado
    Mais fra se lhe vinha accrescentando;

    Porm do Herculeo brao sobjugado,
    No ar deixando a vida, no podendo
    Dos soccorros da me ser ajudado.

    Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,
    Nem com as armas to continuadas,
    D'amorosas lembranas me defendo.

    Todas as cousas vejo demudadas,
    Porque o tempo ligeiro no consente
    Qu'estejo de firmeza acompanhadas.

    Vi ja que a Primavera, de contente,
    Em variadas cres revestia
    O monte, o campo, o valle, alegremente.

    Vi ja das altas aves a harmonia,
    Que at duros penedos convidava
    A algum suave modo d'alegria.

    Vi ja que tudo, emfim, me contentava,
    E que, de muito cheio de firmeza,
    Hum mal por mil prazeres no trocava.

    Tal me tee a mudana e estranheza,
    Que se vou por os prados, a verdura
    Parece que se scca de tristeza.

    Mas isto he ja costume da ventura;
    Porque aos olhos que vivem descontentes,
    Descontente o prazer se lhes figura.

    Oh graves e insoffriveis accidentes
    De Fortuna e d'Amor! que penitencia
    To grave dais aos peitos innocentes!

    No basta examinar-me a paciencia
    Com temores e falsas esperanas,
    Sem que tambem me tente o mal de ausencia?

    Trazeis hum brando espirito em mudanas,
    Para que nunca possa ser mudado
    De lagrimas, suspiros e lembranas.

    E s'estiver ao mal acostumado,
    Tambem no mal no consentis firmeza,
    Para que nunca viva descansado.

    Ja quieto m'achava co'a tristeza;
    E alli no me faltava hum brando engano.
    Que tirasse desejos da fraqueza.

    Mas vendo-me enganado estar ufano,
    Deo  roda a Fortuna; e deo comigo
    Onde de novo chro o novo dano.

    Ja deve de bastar o que aqui digo,
    Para dar a entender o mais que calo
    A quem ja vio to aspero perigo.

    E se nos brandos peitos faz abalo
    Hum peito magoado e descontente,
    Que obriga a quem o ouve a consol-lo;

    No quero mais seno que largamente,
    Senhor, me mandeis novas dessa terra;
    Que alguma dellas me fara contente.

    Porque se o duro Fado me desterra
    Tanto tempo do bem, que o fraco esprito
    Desampare a priso onde s'encerra;

    Ao som das negras goas do Cocito,
    Ao p dos carregados arvoredos
    Cantarei o que n'alma tenho escrito.

    E por entre estes horridos penedos
    A quem negou Natura o claro dia,
    Entre tormentos asperos e medos,

    Com a trmula voz, cansada e fria,
    Celebrarei o gesto claro e puro,
    Que nunca perderei da phantasia.

    O Musico de Thracia, ja seguro
    De perder sua Eurydice, tangendo
    Me ajudar ferindo o ar escuro.

    As namoradas sombras, revolvendo
    Memorias do passado, me ouviro;
    E com seu chro o rio ir crescendo.

    Em Salmono as penas faltaro,
    E das filhas de Belo juntamente
    De lagrimas os vasos s'enchero.

    Que se amor no se perde em vida ausente,
    Menos se perder por morte escura:
    Porque, emfim, a alma vive eternamente,

    E amor he effeito d'alma, e sempre dura.

      *      *      *      *      *


ELEGIA III.

    O poeta Simonides fallando
    Co'o Capito Themistocles hum dia,
    Em cousas de sciencia praticando;

    Hum'arte singular lhe promettia,
    Qu'ento compunha, com que lh'ensinasse
    A lembrar-se de tudo o que fazia;

    Onde to subtis regras lhe mostrasse,
    Que nunca lhe passassem da memoria
    Em nenhum tempo as cousas que passasse.

    Bem merecia, certo, fama e gloria
    Quem dava regra contra o esquecimento,
    Que sepulta qualquer antigua historia.

    Mas o Capito claro, cujo intento
    Bem differente estava, porque havia
    Do passado as lembranas por tormento;

    Oh illustre Simonides! (dizia)
    Pois tanto em teu engenho te confias,
    Que mostras  memoria nova via;

    Se me dsses hum'arte, qu'em meus dias
    Me no lembrasse nada do passado,
    Oh quanto melhor obra me farias!

    S'este excellente dito ponderado
    Fosse por quem se visse estar ausente,
    Em longas esperanas degradado;

    Oh como bradaria justamente,
    Simonides, inventa novas artes;
    No midas o passado co'o presente!

    Que se he forado andar por vrias partes
    Buscando  vida algum descano honesto,
    Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;

    E se o duro trabalho, he manifesto
    Que por grave que seja, ha de passar-se
    Com animoso esprito e ledo gesto;

    De que serve s pessoas o lembrar-se
    Do que se passou ja, pois tudo passa,
    Seno d'entristecer-se e magoar-se?

    S'em outro corpo hum'alma se traspassa,
    No como quiz Pythagoras na morte,
    Mas como quer Amor na vida escassa;

    E s'este Amor no mundo est de sorte,
    Que na virtude s d'hum lindo objecto
    Tee hum corpo, sem alma, vivo e forte;

    Onde este objecto falta, qu'he defecto
    Tamanho para a vida, que ja nella
    M'est chamando  pena a dura Alecto;

    Porque me no crira a minha Estrella
    Selvatico no mundo, e habitante
    Na dura Scythia, e no mais duro della?

    Ou no Caucaso horrendo, fraco infante
    Criado ao peito d'huma tigre Hircana,
    Homem fra formado de diamante;

    Porque a cerviz ferina e inhumana
    No submettra ao jugo e dura lei
    Daquelle que d vida quando engana.

    Ou em pago das goas qu'estilei,
    As que passei do mar, foro do Lete,
    Para que m'esquecra o que passei.

    Porque o bem que a esperana va promette,
    Ou a morte o estorva, ou a mudana,
    Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.

    Ja, Senhor, cahir como a lembrana,
    No mal, do bem passado he triste e dura,
    Pois nasce aonde morre a esperana.

    E se quizer saber como se apura
    Em almas saudosas, no s'enfade
    De ler to longa e misera escriptura.

    Soltava Eolo a redea e liberdade
    Ao manso Favonio brandamente,
    E eu a tinha ja slta  saudade.

    Neptuno tinha psto o seu tridente;
    A proa a branca escuma dividia,
    Com a gente maritima contente.

    O cro das Nereidas nos seguia;
    Os ventos, namorada Galata
    Comsigo socegados os movia.

    Das argenteas conchinhas Panopa
    Andava por o mar fazendo mlhos,
    Melanto, Dinamene, com Ligea.

    Eu, trazendo lembranas por antolhos,
    Trazia os olhos n'goa socegada,
    E a goa sem socgo nos meus olhos.

    A bem-aventurana ja passada
    Diante de mi tinha to presente,
    Como se no mudasse o tempo nada.

    E com o gesto immoto e descontente,
    Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,
    Por no mostrar meu mal a toda a gente,

    Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido
    Em puro amor tivestes, e inda agora
    Da memoria o no tendes esquecido;

    Se por ventura fordes algum'hora
    Adonde entra o gro Tejo a dar tributo
    A Tethys, que vs tendes por Senhora;

    Ou ja por ver o verde prado enxuto,
    Ou ja por colher ouro rutilante,
    Das Tagicas areias rico fruto;

    Nellas em verso erotico e elegante
    Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;
    Pde ser que algum peito se quebrante.

    E contando de mi memorias tristes,
    Os pastores do Tejo, que me ouvio,
    Ouo de vs as mgoas que me ouvistes.

    Ellas, que ja no gesto m'entendio,
    Nos meneios das ondas me mostravo
    Qu'em quanto lhes pedia consentio.

    Estas lembranas, que me acompanhavo
    Por a tranquillidade da bonana,
    Nem na tormenta triste me deixavo.

    Porque chegando ao Cabo da Esperana,
    Como da saudade que renova,
    Lembrando a longa e aspera mudana;

    Debaixo estando ja da estrella nova
    Que no novo Hemispherio resplandece,
    Dando do segundo axe certa prova;

    Eis a noite com nuvens s'escurece;
    Do ar subitamente foge o dia;
    E todo o largo Oceano s'embravece.

    A mchina do mundo parecia
    Qu'em tormentas se vinha desfazendo;
    Em serras todo o mar se convertia.

    Lutando Boreas fero e Noto horrendo.
    Sonoras tempestades levantavo,
    Das naos as velas concavas rompendo.

    As cordas co'o ruido assoviavo;
    Os marinheiros, ja desesperados,
    Com gritos para o ceo o ar coalhavo.

    Os raios por Vulcano fabricados
    Vibrava o fero e aspero Tonante,
    Tremendo os Polos ambos de assombrados.

    Amor alli, mostrando-se possante,
    E que por algum medo no fugia,
    Mas quanto mais trabalho, mais constante;

    Vendo a morte presente, em mi dizia:
    Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,
    Nada do que passei me lembraria.

    Emfim, nunca houve cousa que mudasse
    O firme amor intrinseco daquelle
    Em quem alguma vez de siso entrasse.

    Huma cousa, Senhor, por certa asselle,
    Que nunca amor se affina, nem se apura,
    Em quanto est presente a causa delle.

    Dest'arte me chegou minha ventura
    A esta desejada e longa terra,
    De todo pobre honrado sepultura.

    Vi quanta vaidade em ns s'encerra,
    E nos proprios quo pouca; contra quem
    Foi logo necessario termos guerra.

    Huma Ilha que o Rei de Porc tem,
    E que o Rei da Pimenta lhe tomra,
    Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.

    Com huma grossa armada, que juntra
    O Viso-Rei, de Goa nos partimos
    Com toda a gente d'armas que se achra.

    E com pouco trabalho destruimos
    A gente no curvo arco exercitada:
    Com morte, com incendios os punimos.

    Era a Ilha com goas alagada,
    De modo que se andava em almadias:
    Emfim, outra Veneza trasladada.

    Nella nos detivemos ss dous dias,
    Que foro para alguns os derradeiros,
    Pois passro da Estyge as ondas frias.

    Qu'estes so os remedios verdadeiros
    Que para a vida esto apparelhados
    Aos que a querem ter por cavalleiros.

    Oh Lavradores bem-aventurados!
    Se conhecessem seu contentamento,
    Como vivem no campo socegados!

    D-lhes a justa terra o mantimento;
    D-lhes a fonte clara d'goa pura;
    Mungem suas ovelhas cento a cento.

    No vem o mar irado, a noite escura,
    Por ir buscar a pedra do Oriente;
    No temem o furor da guerra dura.

    Vive hum com suas rvores contente,
    Sem lhe quebrar o somno repousado
    A gr cobia d'ouro reluzente.

    Se lhe falta o vestido perfumado,
    E da formosa cr de Assyria tinto,
    E das toraes Attalicos lavrado;

    Se no tee as delicias de Corinto,
    E se de Pario os marmores lhe falto,
    O pyropo, a esmeralda e o jacinto;

    Se suas casas de ouro no s'esmalto,
    Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
    Onde os cabritos seus comendo slto.

    Alli lhe mostra o campo vrias cres;
    Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;
    Alli se affina o canto dos pastores.

    Alli cantra Tityro e Sileno.
    Emfim, por estas partes caminhou
    A sa Justia para o ceo sereno.

    Ditoso seja aquelle que alcanou
    Poder viver na doce companhia
    Das mansas ovelhinhas que criou!

    Este bem facilmente alcanaria
    As causas naturaes de toda cousa;
    Como se gera a chuva e neve fria:

    Os trabalhos do sol, que no repousa;
    E porque nos d lua a luz alha,
    Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:

    E como to depressa o ceo roda;
    E como hum s os outros traz comsigo;
    E se he benigna ou dura Cythera.

    Bem mal pde entender isto que digo,
    Quem ha de andar seguindo o fero Marte;
    Que sempre os olhos traz em seu perigo.

    Porm seja, Senhor, de qualquer arte,
    Pois postoque a Fortuna possa tanto,
    Que to longe de todo o bem me aparte;

    No poder apartar meu duro canto
    Desta obrigao sua, em quanto a morte
    Me no entrega ao duro Radamanto;

    Se para tristes ha to leda sorte.

      *      *      *      *      *


ELEGIA IV.

    Despois que Magalhes teve tecida
    A breve historia sua, que illustrasse
    A Terra Santa Cruz, pouco sabida;

    Imaginando a quem a dedicasse,
    Ou com cujo favor defenderia
    Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;

    Tendo nisto occupada a phantasia,
    Lhe sobreveio hum somno repousado,
    Antes que o sol abrisse o claro dia.

    Em sonhos lhe apparece todo armado
    Marte, brandindo a lana furiosa,
    Com que fez quem o vio todo enfiado;

    Dizendo em voz pezada e temerosa:
    No he justo que a outrem se offerea
    Obra alguma que possa ser famosa,

    Seno a quem por armas resplandea
    No largo inundo com tal nome e fama,
    Que louvor immortal sempre merea.

    Disse assi: quando Apollo, que da flama
    Celeste guia os carros, de outra parte
    Se lhe presenta, e por seu nome o chama,

    Dizendo: Magalhes, postoque Marte
    Com seu terror t'espante, todavia
    Comigo deves s de aconselhar-te.

    Hum Varo sapiente, em quem Thalia
    Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,
    Defender tuas obras poderia.

    He justo que a escriptura na prudencia
    Ache s defenso; porque a dureza
    Das armas he contrria da eloquencia.

    Assi disse: e tocando com destreza
    A cithara dourada, comeou
    A mitigar de Marte a fortaleza.

    Mas Mercurio, que sempre costumou
    Pacificar porfias duvidosas,
    Co'o Caduco na mo, que sempre usou,

    Determina compor as perigosas
    Opinies dos deoses inimigos
    Com suaves razes e ponderosas.

    E disse: Bem sabemos dos antigos
    Heroes, e dos modernos, que provro
    De Belona os gravissimos perigos,

    Como to bem mil vezes concordro
    As armas com as letras; porque as Musas
    A muitos na milicia acompanhro.

    Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas
    Guerras o estudo deixo grande espao;
    Que as armas jamais delle so escusas.

    N'huma mo livros, n'outra ferro e ao;
    Aquella rege e ensina; est'outra fere:
    Mais co'o saber se vence, que co'o brao.

    Pois, logo, hum Varo grande se requere,
    Que com teus des (Apollo) illustre seja,
    E de ti (Marte) palma e glria espere.

    Este vos darei eu, em quem se veja
    Saber e esfro no sereno peito,
    Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.

    Deste as Irmas em vendo o bom sogeito,
    Todas nove nos braos o tomro,
    Criando-o co'o seu leite no seu leito:

    As Artes e as Sciencias lh'ensinro;
    Inclinao divina lh'influro
    s virtudes moraes, que logo o ornro.

    Daqui nos exercidos o seguro
    Das armas no Oriente, onde primeiro
    Hum soldado gentil instituro.

    Alli taes provas fez de Cavalleiro,
    Que, de Christo magnanimo e seguro,
    A si mesmo venceo por derradeiro.

    Despois, ja Capito forte e maduro,
    Governando toda a Aurea Chersoneso,
    Lhe defendeo co'o brao o debil muro.

    Porque vindo a cerc-la todo o pso
    Do poder dos Achens, que se sustenta
    De alheio sangue, em furia todo acceso;

    Este s que a ti, Marte, representa,
    O castigou de sorte, que vencido
    De ter quem vivo fique se contenta.

    E logo qu'este Reino defendido
    Deixou, segunda vez com maior glria
    Para o ir governar foi elegido.

    Mas no perdendo ainda da memoria
    Os amigos o seu govrno brando,
    Os imigos o damno da victoria;

    Huns com amor intrinseco esperando
    Esto por elle, e os outros congelados
    O esto com frio medo receando.

    Vde pois se serio debellados
    Por seu claro valor, se l tornasse,
    E dos Indicos mares degradados.

    Porqu'he justo que nunca lhe negasse
    O conselho do Olympo alto e subido
    Favor e ajuda com que pelejasse.

    Aqui s pde ser bem dirigido
    De Magalhes o estudo: este s deve
    Ser de vs, claros deoses, escolhido.

    Assi Mercurio disse; e em termo breve
    Conformados se vem Apollo e Marte;
    E voou juntamente o somno leve.

    Acorda Magalhes, e ja se parte
    A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,
    Tudo o que nelle poz sciencia e arte.

    Tee claro estylo, e engenho curioso,
    Para poder de vs ser recebido,
    Com mo benigna, de nimo amoroso.

    Pois se s de no ser favorecido
    Hum alto esprito fica baixo e escuro;
    Este seja comvosco defendido,

    Como o foi de Malaca o debil muro.

      *      *      *      *      *


ELEGIA V.

    Aquelle mover de olhos excellente,
    Aquelle vivo espirito inflammado
    Do crystallino rosto transparente;

    Aquelle gesto immoto e repousado,
    Qu'estando n'alma propriamente escrito,
    No pde ser em verso trasladado;

    Aquelle parecer, que he infinito
    Para se comprender d'engenho humano;
    O qual offendo em quanto tenho dito;

    Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,
    E tanto a engrandecer-me a phantasia,
    Que no vi maior glria que meu dano.

    Oh bem-aventurado seja o dia
    Em que tomei to doce pensamento,
    Que de todos os outros me desvia!

    E bem-aventurado o soffrimento
    Que soube ser capaz de tanta pena,
    Vendo que o foi da causa o entendimento!

    Faa-me quem me mata, o mal que ordena,
    Trate-me com enganos, desamores;
    Qu'ento me salva, quando me condena.

    E se de to suaves desfavores
    Penando vive hum'alma consumida,
    Oh que doce penar! que doces dores!

    E se huma condio endurecida
    Tambem me nega a morte por meu dano,
    Oh que doce morrer! que doce vida!

    E se me mostra hum gesto lindo humano,
    Como que de meu mal culpada se acha,
    Oh que doce mentir! que doce engano!

    E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,
    Mostrando refrear o pensamento,
    Oh que doce fingir! que doce cacha!

    Assi que ponho ja no soffrimento
    A parte principal de minha glria,
    Tomando por melhor todo tormento.

    Se sinto tanto bem s co'a memoria
    De ver-vos, linda Dama, vencedora;
    Que quero eu mais que ser vossa victoria?

    Se tanto a vossa vista mais namora,
    Quanto eu sou menos para merecer-vos;
    Que quero eu mais que ter-vos por senhora?

    Se procede este bem de conhecer-vos,
    E consiste o vencer em ser vencido,
    Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?

    S'em meu proveito faz qualquer partido,
    S na vista d'huns olhos to serenos,
    Que quero eu mais ganhar que ser perdido?

    Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,
    A merecer no chego seu tormento,
    Que quero eu mais, que o mais no seja menos?

    A causa, pois, m'esfora o soffrimento;
    Porque, a pezar do mal que me resiste,
    De todos os trabalhos me contento;

    Que a razo faz a pena alegre, ou triste.

      *      *      *      *      *


ELEGIA VI.

    Entre rusticas serras e fragosas,
    Compostas d'asperissimos rochedos,
    De salitradas lapas cavernosas;

    Onde gretando os humidos penedos
    Orvalhados de neve branca e fria,
    Brotando esto de si mil arvoredos;

    Huma floresta fez verde e sombria
    A natureza experta, que rodeia,
    Como elevado muro, a serrania.

    Neste formoso stio se recreia
    O lascivo Cupido entre as boninas,
    Que sempre hum brando Zephyro meneia.

    Da candida cecem, das clavellinas,
    Da salva, mangerona e das mosquetas,
    Das rubicundas flores hyacinthinas,

    Muitas capellas tece, que de setas
    Lhe servem contra peitos de donzellas,
    A quem d'inveja traz sempre inquietas.

    No so d'huma s cr as flores bellas;
    Que humas esmalta verde, outras rosado,
    Entre as azues crescendo as amarellas.

    Dos agrestes loureiros rodeado,
    Faz o valle huma sombra deleitosa,
    Quando apparece o sol mais levantado.

    E por cima da relva bem graciosa
    As gottas de crystal quasi imitando
    Esto do aljofar puro a luz formosa.

    As crystallinas fontes, que brotando
    Por entre alvos seixinhos se derivo,
    Das rvores os troncos vo banhando.

    Entre as limpidas goas, qu'inda esquivo
    O formoso pastor que se perdeo,
    Preso das falsas mostras que o captivo,

    Cresce a por cuja causa s'esqueceo
    A linda Cythera de Vulcano,
    Quando presa d'Amor se lhe rendeo.

    Na brancura do rosto soberano,
    Inda as crueis feridas apparecem
    Do javali cerdoso e deshumano.

    As rosas que de sangue resplandecem,
    As candidas boninas marchetadas,
    Qual roxo esmalte  vista bem se offrecem.

    Do matutino orvalho rociadas,
    As flores rutilantes e cheirosas
    Esto como por cima prateadas.

    Os humidos botes abrindo as rosas,
    Que os agudos espinhos vo cercando,
    No prado se vem rindo deliciosas.

    A mellifera abelha, susurrando
    Por cima das boninas que rodeia,
    Est co'o som das goas concertando.

    Do trmulo regato a branda areia
    De jacinthos se cobre e de vieiras,
    Qu'encrespo da corrente a branca veia.

    Os lamos s'abrao co'as videiras
    De sorte, que s'enxrga escassamente
    Se so os cachos seus, se das parreiras;

    E pendendo por cima da corrente,
    Outro formoso bosque debuxando
    Esto no fundo della brandamente.

    Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando
    Do perfido cunhado a crueldade,
    Mgoas em melodias transformando.

    A solitaria rla com soidade
    Desfaz o rouco peito, ja cansada
    De que no move a morte a piedade.

    A domestica Progne anda banhada
    No sangue de seus filhos, em vingana
    Da triste Philomela profanada.

    De competir co'o merlo no descana
    O garrulo calhandro, qu'enrouquece
    Por no perder callado a confiana.

    Em quanto o pobre ninho ajunta e tece
    O sonoro canario, modulando
    Engana a grave pena que padece.

    Alguns versos s'escuta derramando
    O vrio pintasirgo, to saudaveis,
    Que produzem memorias d'amor brando.

    Por os direitos troncos ha notaveis
    Epigrammas; alguns d'antigua historia,
    Que contra o duro tempo so duraveis.

    Huns de cruel tormento, outros de glria,
    Conforme a liberdade do qu'escreve,
    Estranhos casos mostro  memoria.

    O que neste lugar contente esteve,
    Contente declarou seu pensamento,
    E os prazeres tambem que nelle teve.

    Mas outros, declarando o sentimento
    Que dos olhos destila tristes goas,
    Deixro mil lembranas de tormento.

    Abrazando-se alguns em vivas frgoas,
    Escrevro do bosque em muitas partes
    Gostos d'Amor agora, agora mgoas.

    Porque, cruel menino, o premio partes
    A quem sers[2] tyranno se lho negas,
    E injusto e desigual, se lho repartes?

    Porqu'enganas as almas que to cegas
    Arrastas apos ti, de error captivas?
    Porque a crueis rigores as entregas?

    Para que contra hum peito assi t'esquivas,
    Que humilde se sujeita a teu cuidado,
    Com enganos de sombras fugitivas?

    Levas, como a menino, hum pobre a nado,
    N'huma apparencia falsa embevecido,
    Quando co'os braos corta o mar inchado.

    Querendo-se tornar, v-se perdido;
    Ja grita que se affoga; e tu zombando,
    Da praia entre os penedos escondido!

    O triste, que conhece ir-se affogando,
    No meio da arriscada zombaria
    Por divino soccorro est clamando.

    Mas eu de que m'espanto, se dizia
    Hum sabio que d'enganos se temesse
    O que tomasse a hum cego tal por guia?

    Nunca nelle a firmeza permanece;
    Se nos d gsto algum, muda-se logo;
    Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.

    Anda co'os coraes sempre em hum jgo;
    Humas vezes os faz de pedra fria,
    Outras os faz de neve, outras de fogo.

    Tornando ao bosque meu que descrevia,
    Despois de ter contado da frescura
    Que nelle to pomposa apparecia,

    Referir quero agora huma aventura
    Que nelle ao vo Narciso aconteceo,
    Digna de se chorar com mgoa pura.

    Castigo foi que o moo mereceo
    Por se mostrar esquivo com aquella,
    Qu'em viva pedra Juno converteo.

    Ardia em fogo d'alma a va donzella,
    Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,
    Quando ella mais se abraza, mais congela.

    E quando a fraca Nympha mais de siso
    Mostrava hum signal certo de firmeza,
    Ento se provocava o moo a riso.

    Ja d'huma profundissima tristeza
    A descora o rigor que a consumia.
    Como diz desfavor mal com belleza!

    O gelado pastor folgava e ria;
    Mas vendo-a de seu gsto andar contente,
    Por no a contentar s'entristecia.

    He tal o seu rigor, que no consente
    Que seja o gsto proprio festejado;
    Antes disso se mostra descontente.

    Mas o cego Cupido, d'affrontado,
    Em vingana da f que desprezou,
    Fez que fosse de si mesmo enganado.

    Casualmente hum dia se chegou
    A beber n'huma fonte crystallina,
    Que de si nova sde lhe causou.

    Vendo a sua figura peregrina
    Que a fonte dentro em si representava,
    Se perdeo por imagem to divina.

    Como ja, d'enlevado, no cuidava
    Nos enganos que a sombra lhe fazia,
    Vendo o formoso rosto, suspirava.

    Por as avaras goas se metia;
    E quanto mais molhava os tenros braos,
    Ento mais vivamente o fogo ardia.

    Vendo-se assi prender em duros laos,
    Ao sentimento obriga a paciencia,
    Dando, fra de si, ao vento abraos.

    Embevecido todo n'apparencia,
    Sem saber de cuidado o que sentia,
    No fez ao doce engano resistencia.

    Ao ver-se longe mais, mais perto via
    O peregrino gesto; e se chegava,
    Ento para mais longe lhe fugia.

    Vendo, emfim, como em tudo o remedava
    Cahio no torpe engano que tivera,
    A tempo que de si ja preso estava.

    A belleza que a tantas morte dera,
    De si mesma se abraza e se captiva.
    Quo longe ento de si ver-se quizera!

    Ella se abranda propria; ella se esquiva;
    E sendo ella somente a que se amava,
    Ella se chama ingrata e fugitiva.

    A formosura, pois, que namorava,
    Com tal difficuldade era seguida,
    Qu'estando dentro em si, mui longe estava.

    A solitaria Nympha, qu'escondida
    Ja nas cavernas concavas se via,
    Dos males que lhe ouvio foi commovida.

    Das namoradas mgoas que dizia
    O namorado moo, ella somente
    Os ultimos accentos repetia.

    Elle vendo-se estar alli presente,
    As crystallinas goas accusava
    De que ellas o fazio descontente.

    Outras vezes  fonte, quando a olhava,
    Ja cego, e sem juizo, agradecia
    A figura que dentro lhe mostrava.

    Mas vendo qu'ella em nada se dohia
    De seu grave tormento, grita e chora.
    Quanto erra quem de sombras se confia!

    Ja lhe pede que saia para fra.
    Ignorando que sempre fra esteve
    A belleza que nelle proprio mora.

    Despois que longo espao se deteve
    Nestes queixumes seus to lastimosos,
    Que com to longo ser, julgou por breve;

    Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,
    Do valle se despede e da espessura,
    Dando soluos da alma vagarosos.

    Entregue na vontade da ventura,
    Ou, por melhor dizer, de seus enganos,
    Ao centro se arrojou da fonte pura.

    Dest'arte feneceo em tenros anos
    Narciso, dando exemplo  formosura
    De que tema, se he tal, tambem seus danos.

    Sentimento mostrou da sorte dura
    O namorado Jupiter, mudando
    Ao moo em flor purpurea, qu'inda dura.

    Aquellas claras goas rodeando,
    Onde por seus amores se perdeo,
    Est despois da morte acompanhando.

    Tanto no seu engano procedeo,
    Que no sabe na morte inda apartar-se
    Dos erros que na vida commetteo.

    Bem pde o corao desenganar-se,
    Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,
    No costuma na morte resfriar-se.

    Porque despois do corpo sepultado,
    Priso onde s'encerra o fraco esprito,
    Eternamente chora o seu cuidado.

    E das escuras goas do Cocito
    A rapida corrente refreando,
    Celebra o lindo gesto n'alma escrito.

    L se est co'os favores recreando;
    E se foi desprezado, l padece,
    As duras esquivanas lamentando.

    Nem dos avaros olhos l s'esquece,
    Que de formoso verde a terra esmalto,
    Por no ver os do triste qu'endoudece.

    Assi que os desfavores nunca falto,
    At despois da morte perseguindo
    Hum triste corao que desbarato.

    Triste de quem em vo lhe vai fugindo!

[2] Este terceto foi viciado na cpia e depois, ao que parece, corrigido
por mo estranha. A versificao est certa, mas o sentido he absurdo:
e se a verdadeira lio no he:

    Porque, cruel menino, o premio partes
    De modo que es tyranno, quando o negas,
    E injusto e desigual, quando o repartes?

no podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._

      *      *      *      *      *


ELEGIA VII.

    Ao p d'hum'alta faia vi sentado,
    N'hum valle deleitoso e bem florido,
    A Almeno, pastor triste e namorado.

    Outro no mundo pde haver nascido
    Mui queixoso de Amor; porm no tanto,
    Como este amante, por amar perdido.

    Ja Venus hia recolhendo o manto
    Escuro com que a terra se mostrava,
    Para ajudar d'Almeno o triste pranto.

    Apollo sbre os montes derramava
    Seus dourados cabellos, que fazio
    Ao triste inda mais triste do qu'estava.

    As flores por o prado s'estendio.
    E das que finas mais ero as cres,
    Brancas, roxas, as Nymphas mais colhio.

    Ja guiavo seus gados os pastores,
    Que, deixando-os no campo deleitoso,
    Com ellas praticavo s d'amores.

    Mas era esta alegria hum perigoso
    Estado para Almeno entristecido;
    E por isso a deixava pressuroso,

    Buscando outro lugar: contra Cupido
    Claramente exclamava, e o arguia
    De contrrio, d'astuto e fementido.

    De quando em quando a frauta que tangia.
    Numeros dava ao ar to docemente,
    Que as aves provocava a melodia.

    Cego assi desta dor, deste accidente,
    Com os olhos em lagrimas banhados,
    Postos no ceo, dizia tristemente:

    Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,
    Porque mos dste tu para offender-te,
    Quando livre vivia nestes prados?

    No vs quanto me negas merecer-te
    O bem que me mostravas, se deixasse
    Ferir meu corao para soffrer-te?

    Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?
    Ou qual me has promettido, que hajas dado?
    Ou qual dste, que muito no custasse?

    Mostra-me quem puzeste em tal estado,
    Que pudesse viver de ti contente,
    Ou quem de ti no fosse lastimado?

    Inimigo cruel de toda a gente,
    Ja no quero teu bem, s meu mal quero;
    Se de ti nem meu mal se me consente.

    Inda que de teus bens ja desespro,
    No desprzo dos males o tormento;
    Antes o prezo mais, quando he mais fero.

    Arrebatado deste pensamento
    Hia o triste pastor com hum contino
    Pranto, que lhe avivava o sentimento.

    Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,
    Qu'era de Amor plantado; e parecendo
    Lhe est menos humano que divino.

    Nelle a dor sua esteve suspendendo:
    Porm no, como cervo, est ferido,
    Reparo ao mal que leva pretendendo.

    Apparecia o stio to flordo,
    Que provocava a no vulgar espanto,
    Entre huns altos ulmeiros escondido.

    D'hum crystallino orvalho tinha o manto,
    Quando entrou nelle o misero pastor,
    E as tenes explicou neste seu canto.

     bellas rosas, vs que sois amor,
    He por dita humildade, ou he baixeza,
    O ter apar de vs murta, que he dor?

    Papoulas conversais, que so tristeza!
    No desprezais o cardo, que he tormento!
    Admittis a hortela, sendo crueza!

    Dos goivos longe vejo o sentimento;
    Dos jasmins perto estou vendo o perigo;
    Dos malmequeres vejo o soffrimento.

    Deste me temerei como inimigo;
    Mas traz por armas salva, que he razo:
    Com ella acabar tambem comigo.

    As minhas vem a ser huma affeio,
    Que so os puros cravos misturados
    Co'a vontade sujeita, que he limo.

    Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!
    Ai crespa mangerona, que es prazer!
    Vs ss devieis adornar os prados.

    No pdem dous oppostos juntos ser:
    Onde se pe giesta, que he lembrana,
    Junto do rosmaninho, que he 'squecer?

    Bem peza do leve lamo a mudana;
    Do roxo goivo anima o pensamento
    Do cypreste odorifero a esperana.

    O trevo, que he sentido apartamento,
    Crca o mangerico, que se interpreta
    Memoria a quem offende o esquecimento.

    Mais importuna que o jardim de Creta,
    A ameixieira a flor est soltando:
    A segurelha vejo, que he discreta.

    As hervas que daqui irei tomando,
    So a pura cecem, qu'he saudade;
    Cravos, medo de ver qual de amor ando.

    E, de ter mui perdida a liberdade,
    Tomarei madresylva entendimento;
    Legao tomarei, porqu'he verdade.

    Marmeleiro me d arrependimento:
    Por a salva, que he gsto, tomarei
    Coentro opposto ao meu contentamento.

    Conhecimento firme nunca achei,
    Que violetas so; e, quando o houvera,
    Qual meu damno ento fra, bem o sei.

    Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera
    Ver-vos aqui menor, pois sois victria,
    Que de mi alcanou chamma severa!

    Mas se quereis que tenha alguma glria,
    Por galardo d'amar e ser sujeito,
    Perderei de tormentos a memoria.

    Porm, pois mo negais, de todo engeito
    A palma, qu'he ventura; e na parreira,
    Qu'he'sperana perdida, me deleito.

    Entretanto co'a flor da laranjeira,
    Qu'he desafio duro e arriscado,
    Posso arguir da hora derradeira.

    Ja no se quer deter o meu cuidado
    Com a roma descanso: a brevidade
    Das maravilhas s tee desejado.

    E vs, ovelhas minhas, sem piedade
    Vos apartae de mi, se algum desejo
    Tendes de ter do pasto mais vontade.

    Se muita de me verdes em vs vejo,
    Toda a minha de ver-vos hei perdido
     fora do poder d'amor sobejo.

    Lograe do Tejo o placido ruido;
    Ss lograe estas veigas florecidas:
    Pois se perde o pastor vosso querido,

    No gosteis de com elle ser perdidas.

      *      *      *      *      *


ELEGIA VIII.

    Belisa, unico bem desta alma triste,
    Descanso singular de minha vida,
    Throno donde o poder d'Amor consiste;

    Formosa fera, a quem est rendida
    D'Amor a que he mais livre liberdade,
    Ganhada mais, se mais por ti perdida;

    Quo contrrio parece na beldade,
    Que os coraes captiva com brandura,
    Alguma ndoa haver de crueldade!

    Quo contrrio parece em formosura,
    Que deixa muito atraz quanto he humano,
    Esquiva condio, ou alma dura!

    Quo mal parece em quem s co'hum engano
    Pde dar vida ao corao sujeito,
    Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!

    Quo mal parece que hum amor perfeito
    No seja d'outro igual remunerado,
    Inda que seja, acaso, contrafeito!

    Quo mal parece estar desesperado
    Quem tanto por ti soffre e tee soffrido,
    Devendo estar de penas alliviado!

    Porm peor parece quem rendido
    No for a hum parecer que tudo rende,
    Por mais qu'em seu rigor viva offendido.

    E inda peor parece quem defende
    O ser essa belleza sempre amada,
    Por mais qu'em vo se canse o que a pretende.

    Se quem te mostra amor te desagrada,
    S pdes pretender o no ser vista,
    Mas no despois de vista o ser deixada.

    Quo mal sabe o valor de tua vista
    Quem cuida que o que della acaso alcana
    Pde achar corao que lhe resista!

    Quo bem pareceria huma esperana
    Ja concedida a meu amor ardente,
    No sempre huma mortal desconfiana!

    Se hum padecer por ti constantemente
    Pudesse ser reparo a quem mais te ama,
    Inda esperar pudera o ser contente.

    Mas eu temo que aquella immensa chama
    Com que a teu bello imperio me levaste,
    Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.

    Se a Olympica belleza assi imitaste,
    Que brandamente move hum amor puro,
    Porque to dura condio tomaste?

    Qual elevado, qual soberbo muro
    Este mal, que m'occupa o pensamento,
    Contado, no tornra menos duro?

    Tu, qu'es a causa s de meu tormento,
    Tu, que somente podes gloriar-me,
    Queres que as minhas queixas leve o vento?

    Tu, que me pagarias com matar-me,
    Inda a morte me negas vezes tantas?
    Ai, que me deras vida em morte dar-me!

    Usa piedade, tu, que o mundo espantas
    Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,
    Se acaso a v-lo brandos os levantas.

    Estende-se na terra o negro manto,
    E  noute d alegria a luz alheia;
    Mas nos meus olhos tristes dura o pranto.

    Torna a manha despois alegre e cheia
    Da luz que o chro enxuga  bella Aurora;
    Mas do meu chro nunca enxuga a veia.

    Lagrimas ja no so qu'esta alma chora,
    Mas amor he vital que dentro arde,
    E por a luz dos olhos salta fra.

    Como inda a morte quer que mais aguarde?
    No tarde ja, mas corra a mal to fero.
    Mas ja por mais que corra vir tarde.

    Nem no supremo trance de ti 'spero
    Qu'inda com ver o estado em que me has psto
    Queiras, crua, entender quanto te quero.

    Ai! se volveres esse bello rosto
    Ao lugar triste em que morrer me vires,
    No por desgsto teu, mas por teu gsto,

    No quero de ti, no, que alli suspires,
    Nem que de dar-me a morte te arrependas,
    Mas que os olhos de ver-me ento no tires.

    Assi nunca pastor a quem te rendas,
    Te faa conhecer o que me fazes,
    Para que com teu mal meu mal entendas!

    Como ja agora no te satisfazes
    Das penas deste amor, que por querer-te,
    De teu merecimento so capazes?

    Pois quem com outro merito render-te
    Presume, (oh raro monstro de belleza!)
    Muito mais longe est de merecer-te.

    Este si, que merece a gr crueza
    Com que tu d'acabar-me a vida tratas,
    Pois diante de ti, de si se preza.

    Se cuidas que com isto desbaratas
    O meu constante amor, porque no viva,
    Elle mais vive quando mais me matas.

    Se o dar-me morte tens por glria altiva,
    Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina
    A matar mais de branda que d'esquiva.

    S'esta alma tua julgas por indina
    Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,
    Do descoberto mal a faze dina.

    Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,
    A poder reduzir-te a ser piedosa?
    Ou m'acaba de todo, ou me responde.

    Mas por mais que te mostres rigorosa,
    Deixar meu pensamento m'he impossivel,
    Igualmente que a ti no ser formosa.

    E por mais qu'esta dor seja terrivel,
    Somente o contemplar a causa della,
    Inda que a faz maior, a faz soffrivel

    Porm chegando a no poder soffr-la,
    Perdendo a vida; quando a morte chame,
    No perderei o gsto de perd-la.

    He justo qu'eu por ti mil mortes ame:
    Mas v tu se te illustra, quando offensa
    Minha mortal o teu valor se chame.

    Bem vs que huma beldade to immensa
    De vencer-me tee glria bem pequena,
    Pois s render-me tomo por defensa.

    Mas ja que amor to puro me condena,
    Contente fico assaz desta victoria;
    Que no me do meus males tanta pena,

    Quanto o serem por ti me d de glria.

      *      *      *      *      *


ELEGIA IX.

    A vida me aborrece, a morte quero:
    Ser eterno o meu mal, segundo entendo,
    Pois na mor esperana desespro.

    Sem viver vivo, por morrer vivendo
    Por no verdes, Senhora, como eu vejo,
    Quanto de mi por vs me ando esquecendo.

    Seja-me agradecido este desejo;
    Ingrata no sejais a quem vos ama
    Com puro e honestissimo despejo.

    A culpa que me pondes, ponde-a  fama,
    Que prega de vs celeste vida
    Que os coraes d'amor divino inflama.

    Humana, quando no agradecida,
    Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,
    Antes que a alma do corpo se despida.

    Mas que posso eu fazer, pois ja no posso
    Hum tormento domar to forte e duro,
    Homem formado s de carne e de osso?

    Em minha f segura me asseguro;
    Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,
    Se resulta d'amor sincero e puro.

    Essa beldade santa me faz guerra;
    Por ella hei de morrer, inda que veja
    Tornar o brando rio em dura serra.

    Que cousa tenho eu ja que minha seja?
    Quem no deseja a vossa formosura,
    No pde assegurar que o ceo deseja.

    De qu'eu sempre a deseje estae segura:
    Neste desejo meu nunca mudana
    Ho de ver as mudanas da ventura.

    A vida tenho posta na balana
    Da glria singular, do damno esquivo;
    Que o perd-la por vs he mor bonana.

    Se vos offendo, cuido que no vivo:
    Olhae se muito mais que de offender-vos,
    Das esperanas do viver me privo.

    O que temo somente he s perder-vos;
    O que quero somente he s adorar-vos;
    O que somente adoro he s querer-vos.

    Querer-vos sem deixar de venerar-vos;
    Desejar-vos somente por servir-vos;
    Por servir a amor vil no desejar-vos:

    Somente ver-vos, e somente ouvir-vos
    Pretendo; e pois somente isto pretendo,
    Deveis a estes sentidos permittir-vos.

    Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,
    Como se fra pouco isto somente!
    Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?

    Se o no merece o meu amor decente;
    Se morte por amar-vos se merece,
    Morra eu, Senhora; e vs ficae contente.

    Se vos aggrava quem por vs padece;
    Se vos vee a offender quem vos quer tanto,
    Quem desta sorte errou no desmerece.

    Que quando os olhos da razo levanto
    Ao ceo d'essa rarissima belleza,
    De no morrer por ella s m'espanto.

    Deixae-me contentar desta tristeza,
    E fazer de meus olhos largo rio;
    Se algum pde abrandar vossa dureza.

    Correndo sempre as lagrimas em fio,
    Farei crescer as hervas por os prados,
    Pois ja d'outra alegria desconfio.

    No monte darei pasto a meus cuidados;
    E sero de mi sempre entre os pastores
    Esses divinos olhos celebrados.

    Aprendero de mi os amadores
    Aquillo que se chama amor sublime,
    Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.

    E nenhum havera que a pena estime
    Mais soberana por a causa della,
    Que a que teve at ento no desestime;

    E qu'inveja no mostre  minha estrella.

      *      *      *      *      *


ELEGIA X.

    Que tristes novas, ou que novo dano,
    Qu'inopinado mal incerto sa,
    Tingindo de temor o vulto humano?

    Que vejo? as praias humidas de Goa
    Ferver com gente attonita e turbada
    Do rumor que de boca em boca va!

    He morto D. Miguel (ah crua espada!)
    E parte da lustrosa companhia
    Que alegre s'embarcou na triste Armada:

    E d'espingarda ardente e lana fria
    Passado por o torpe e iniquo brao,
    Que nossas altas famas injura.

    No lhe valeo escudo, ou peito d'ao,
    No nimo d'avs claros herdado,
    Com que temer se fez por longo espao.

    No ver-se em de redor todo cercado
    D'irados inimigos, qu'exhalavo
    A negra alma do corpo traspassado.

    No as fortes palavras que voavo
    A animar os incertos companheiros,
    Que timidos as costas lhe mostravo.

    Mas ja postos, nos termos derradeiros,
    (Rotos por partes mil e traspassados
    Os membros, no valor somente inteiros)

    Os olhos (de furor acompanhados,
    Qu'inda na morte as vidas amedrento
    Dos duros inimigos espantados)

    Postos no ceo, parece que presento
    A alma pura  suprema Eternidade,
    Por quem os ceos e a terra se sustento.

    E pedindo dos erros, que na idade
    Immatura e innocente ja fizera,
    Perdo  pia e justa Magestade,

    As rosas apartou da neve fria;
    E, como debil flor, a quem fallece
    O radical humor de que vivia,

    Nas mos do Coro Angelico, que dece,
    S'entrega; e vai lograr a vida eterna,
    Que com morte to justa se merece.

    Vai-te, alma, em paz  gloria sempiterna;
    Vai, que quem por a Lei sacra e divina
    A slta, quelle a d que o ceo governa.

    Mas se de tal valor foi morte dina,
    A ausencia que do gsto nos salta,
    A perptua saudade nos inclina.

    Deixa pois tu, formosa Cythera,
    Do gentil filho e neto de Cyniras
    O pranto por a morte horrida e fa.

    E tu, dourado Apollo, que suspiras
    Por o crespo Jacintho, moo charo,
    Por quem a clara luz ao mundo tiras;

    Vinde e chorae hum moo em tudo raro,
    No de ferino dente vulnerado,
    Nem de risco sujeito a algum reparo:

    Mas s de ferro imigo traspassado;
    Que sem duvida incerta, ou frio medo,
    A vida poz nas mos de Marte irado.

    Tambem tu, moo Idalio, assiste quedo;
    Deixa de dar o venenoso mel
    A beber por os olhos, triste e ledo.

    Pois os formosos olhos de Miguel
    Ja cobertos se vem do escuro manto
    Da lei geral a todos mais cruel.

    E vs, filhas de Thespis, que co'o canto
    Podeis bem mitigar a dor immensa
    Dos irmos generosos e alto pranto;

    No consintais que fao larga offensa
     grande integridade, a que se devem
    goas no s, do damno recompensa.

    Que ja diante os olhos me descrevem,
    Quando as bocas da Fama voadora
    Ao patrio e claro Tejo as novas levem,

    A profunda tristeza; qu'em hum'hora
    Tal posse tomar dos altos peitos,
    Que delles o discurso lance fra.

    Alli de dor os coraes sujeitos
    Ho de lanar de si toda a memoria
    D'exemplos claros, solidos respeitos.

    Mas, porm se igualais a vida  glria,
     claro Dom Philippe, e pretendeis
    Deixar-nos de aces vossas larga historia;

    Eu no vos persuado a que estreiteis
    O corao na Estoica disciplina,
    Onde livre d'affectos vos mostreis.

    Que mal a natureza determina
    Medo, esperanas, dores e alegria,
    Como o Cynico velho nos ensina.

    Immanidade estupida (dizia
    O Sulmonense canto) e vil rudeza,
    He no sentir affectos que a alma cria.

    Porm se o sentir nada for bruteza,
    E se paixo devida se consente,
    Tambem o sentir muito he ja fraqueza.

    Em vs hum soffrer alto s'exprimente,
    Qual nos fortes Vares foi conhecido,
    Como em estranha, em Lusitana gente.

    Bem conheo que o corpo assi perdido,
    Como de illustre tumulo carece,
    Ser de brutas feras consumido.

    Mas consola-me, emfim, que se parece
    Ao grande bisav, que por a vida
    Real, a sua  Maura lana offrece.

    Em pedaos a gente enfurecida
    O corpo alli lhe deixa; e com mo dura
    Lhe nega a sepultura merecida.

    Facil he a perda aqui da sepultura:
    Diogenes prudente, e Theodoro
    Pouco sentem do corpo essa jactura.

    Assi formoso e inteiro, assi decoro
    Adorna quem o tee, como o tomou,
    Quando se ouvir o extremo som canoro.

    Mas ai! qual terror subito occupou
    O vosso claro peito,  Portuguezes?
    Qual pavido temor vos congelou?

    Que lanadas, que golpes, que revzes
    Vos fizero fazer tamanha injria
    Aos fortes Lusitanicos arnezes?

    Ou ja de Capito sobeja incuria,
    Ou fraqueza? No: qu'elle sustentava
    Com seu peito dos barbaros a furia.

    Ou ja do ferreo cano a fra brava
    Com estrondos que atroo mar e terra,
    Os coraes ardentes congelava?

    Ah! quem vos fez que os impetos da guerra
    No sustentasseis com valor ousado,
    Desprezando o temor que a vida encerra?

    A vida por a Patria e por o Estado
    Pondo nossos avs, a ns deixro,
    Em terra e mar, exemplo sublimado.

    Elles a desprezar nos ensinro
    Todo temor. Pois como agora os netos
    Subitamente assi degenerro?

    No pdem, certo, no, viver quietos
    Com feia infamia peitos generosos,
    Ja em publicos lugares, ja em secretos.

    Mortos d'Esparta os Hroes valerosos
    Da fera multido, fazendo extremos,
    Taes Epitaphios tinho gloriosos:

    _Dirs, Hspede, tu, que aqui jazemos
    Passados do inimigo ferro, em quanto
    s santas Leis da Patria obedecemos._

    Fugindo os Persas vo com frio espanto,
    Mas acho as mulheres no caminho,
    Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.

    Pois do damno fugs, vendo-o visinho,
    Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizio)
    Outra vez no materno e escuro ninho.

    Vde quaes com mais glria ficario,
    Se aquelles que morrro por o Estado,
    S'estes a quem mulheres injurio?

    Mas tu, claro Miguel, que ja acordado
    Deste sonho to breve, ests naquella
    Trre do ceo, seguro e repousado;

    Onde, com Deos unida a forte e bella
    Alma, com teus Maiores reluzindo,
    Trocaste cada chaga em clara estrella;

    Co'os ps o crystallino ceo medindo,
    Nada d'essas altissimas Espheras,
    Nem da terreste aos olhos encobrindo;

    Agora hum curso e outro consideras,
    Agora a vaidade dos mortaes,
    Que tu tambem passras se vivras,

    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

      *      *      *      *      *


ELEGIA XI.

    Se quando contemplamos as secretas
    Causas, por que este mundo se sustenta,
    E o revolver dos ceos e dos planetas;

    E se quando  memoria se presenta
    Este curso do sol to bem medido,
    Que hum ponto s no mngua, nem s'augmenta;

    Aquelle effeito, tarde conhecido,
    Da lua na mudana to constante,
    Que minguar e crescer he seu partido;

    Aquella natureza to possante
    Dos ceos, que to conformes e contrarios
    Caminho, sem parar hum breve instante;

    Aquelles movimentos ordinarios,
    A que responde o tempo, que no mente,
    Co'os effeitos da terra necessarios;

    Se quando, emfim, revolve subtilmente
    Tantas cousas a leve phantasia,
    Sagaz escrutadora e diligente;

    Bem v, se da razo se no desvia,
    Aquelle unico Ser, alto e divino,
    Que tudo pde, manda, move e cria.

    Sem fim e sem princpio, hum Ser contino;
    Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,
    Por mais que o difficulte humano atino:

    Hum saber infinito, incomprehensibil;
    Huma verdade que nas cousas anda,
    Que mora no visibil e invisibil.

    Esta potencia, emfim, que tudo manda,
    Esta Causa das causas, revestida
    Foi desta nossa carne miseranda.

    Do amor e da justia compellida,
    Por os erros da gente, em mos da gente
    (Como se Deos no fsse) deixa a vida.

    Oh Christo descuidado e negligente!
    Pondera-o com discurso repousado;
    E ver-te-has advertido facilmente.

    lha aquelle Deos alto e increado,
    Senhor das cousas todas, que fundou
    O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;

    No do confuso caos, como cuidou
    A falsa Theologia, e povo escuro,
    Que nesta s verdade tanto errou;

    No dos atomos leves d'Epicuro;
    No do fundo Oceano, como Thales,
    Mas s do pensamento casto e puro.

    lha, animal humano, quanto vales,
    Pois este immenso Deos por ti padece
    Novo estylo de morte, novos males.

    lha que o sol no Olympo s'escurece,
    No por opposio de outro Planeta;
    Mas s porque virtude lhe fallece.

    No vs que a grande mchina inquieta
    Do mundo se desfaz toda em tristeza,
    E no por causa natural secreta?

    No vs como se perde a Natureza?
    O ar se turba? o mar batendo geme,
    Desfazendo das pedras a dureza?

    No vs que cahe o monte, a terra treme?
    E que l na remota e grande Athenas
    O docto Areopagita exclama e teme?

    Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,
    Por o mal em qu'eu s sou o culpado,
    A tamanhas affrontas, tantas penas?

    Por mi, Senhor, no mundo reputado
    Por falso, e violador da sacra Lei?
    A fama a ti se pe do meu peccado?

    Eu, Senhor, sou ladro, tu justo Rei.
    Pois como entre ladres eu no padeo?
    A pena a ti se d do qu'eu errei?

    Eu servo sem valor, tu immenso preo,
    Em preo vil te pes, por me tirares
    Do captiveiro eterno que mereo?

    Eu por perder-te, e tu por me ganhares
    Te ds aos soltos homens, que te vendem,
    S para os homens presos resgatares?

    A ti, que as almas sltas, a ti prendem?
    A ti summo Juiz, ante Juizes
    Te accuso por o error dos que te offendem?

    Chamo-te malfeitor; no contradizes:
    Sendo tu dos Prophetas a certeza,
    Dizem que quem te fere prophetizes.

    Rim-se de ti; tu choras a crueza
    Que sbre elles vir: a gente dura,
    Por quem tu vens ao mundo, te despreza.

    O teu rosto, de cuja formosura
    Se veste o ceo e o sol resplandecente,
    Diante quem pasmada est a Natura,

    Com cruas bofetadas da vil gente,
    De precioso sangue est banhado,
    Cuspido, atropellado cruelmente.

    Aquelle corpo tenro e delicado,
    Sbre todos os Santos sacrosanto,
    A aoutes rigorosos desangrado;

    Despois coberto mal d'hum pobre manto,
    Que se pegava s carnes magoadas
    Para dobrar-lhe as dores outro tanto.

    Magoavo-no as chagas no curadas,
    Hum tormento causando-lhe excessivo
    Ao despir por as mos crueis e iradas.

    As venerandas barbas de Deos vivo
    De resplandor ornadas, s'arrancavo
    Para desempenhar a Ado captivo.

    Com cordas por as ruas o levavo,
    Levando sbre os hombros o tropho
    Da victoria qu'as almas alcanavo.

     tu, que passas, homem Cyreno,
    Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,
    Que agora, como humano, enfraqueceo.

    lha que o corpo afflicto do marteiro,
    E dos longos jejuns debilitado,
    No pde ja co'o pso do madeiro.

    Oh no enfraqueais, Deos incarnado!
    Essas qudas, que tanto vos mago,
    Supportae Cavalleiro sublimado.

    Aquellas altas vozes, que l so,
    Dos Padres so, que o Limbo tee escuro,
    E ja de louro e palma vos coro.

    Todos vos brado que subais o muro
    Da cidade infernal, e que arvoreis
    Em cima essa bandeira mui seguro.

    Oh Santos Padres! no vos apresseis;
    Pois muito mais a Deos, que a vs, custro
    Essas duras prises em que jazeis.

    Aquellas mos que o mundo edificro,
    Aquelles ps que pzo as estrellas,
    Com durissimos pregos s'encravro.

    Mas qual ser o humano qu'as querellas
    Da angustiada Virgem contemplasse,
    Sem se mover a dor e mgoa dellas?

    E que dos olhos seus no destillasse
    Tanta cpia de lagrimas ardentes,
    Que carreiras no rosto sinalasse?

    Oh quem lhe vra os olhos refulgentes
    Convertendo-se em fontes, e regando
    Aquellas faces bellas e excellentes!

    Quem a ouvra com vozes ir tocando
    As estrellas, a quem responde o ceo,
    Co'os accentos dos Anjos retumbando!

    Quem vra quando o puro rosto ergueo
    A ver o Filho, que na Cruz pendia,
    Donde a nossa saude descendeo!

    Que mgoas to chorosas que diria!
    Que palavras to miseras e tristes
    Para o ceo, para a gente espalharia!

    Pois que sera, Virgem, quando vistes
    Com fel nojoso, e com vinagre amaro
    Matar a sde ao Filho que paristes?

    No era este o licor suave e claro,
    Que para o confortar ento darieis
    A quem vos era, mais que a vida, charo.

    Como, Virgem Senhora, no corrieis
    A dar as puras tetas ao Cordeiro,
    Que padecer na Cruz com sde vieis?

    No era s, no, esse o verdadeiro
    Poto, que vosso Filho desejava,
    Morrendo por o mundo em hum madeiro;

    Mas era a salvao que alli ganhava
    Para o misero Ado, que alli bebia
    Na fonte que do peito lhe manava.

    Pois,  pura e Santissima Maria,
    Que, emfim, sentistes esta mgoa, quanto
    A grave causa della o requeria;

    D'essa Fonte sagrada e peito santo
    M'alcanae huma gotta, com que lave
    A culpa que me aggrava e pesa tanto.

    Do licor salutifero e suave
    M'abrangei, com que mate a sde dura
    Deste mundo to cego, torpe e grave.

    Assi, Senhora, toda criatura
    Que vive e vivir, e no conhece
    A Lei de vosso Filho, a abrace pura;

    O falsissimo herege, que carece
    Da graa, e com damnado e falso esprito
    Perturba a Santa Igreja, que florece;

    O povo pertinaz no antiguo rito,
    Que s o destrro seu, que tanto dura,
    Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;

    O torpe Ismaelita, que mistura
    As Leis, e com preceitos to viciosos
    Na terra estende a seita falsa e impura;

    Os idolatras maos, supersticiosos,
    Varios de opinies e de costumes,
    Levados de conceitos fabulosos;

    As mais remotas gentes, onde o lume
    Da nossa F no chega, nem que tenho
    Religio alguma se presume;

    Assi todos, emfim, Senhora, venho
    A confessar hum Deos crucificado,
    E por nenhum respeito se detenho.

    E d'hum e d'outro o vcio ja deixado,
    O seu Nome, co'o vosso nesse dia,
    Seja por todo o mundo celebrado;

    E respndo os ceos: JESUS, MARIA.

      *      *      *      *      *


ELEGIA XII. ACROSTICA.

    Juizo extremo, horrifico e tremendo,
    E Juiz sempiterno, alto e celeste,
    Significar a terra, humedecendo.
    Ver-se-ha nella hum suor que manifeste
    Como em carne vem Deos, para que o veja
    Homem toda esta mchina terreste;
    Rei justo, que dos corpos e almas seja
    Juiz; e quando o mundo cego e inculto
    Sbre espinhos crueis deitado seja,
    Todo vo simulacro e gentil culto
    Ousar engeitar a gente; e guerra
    Far co'o mar o fogo, e cru tumulto.
    Immensa luz, que as carnes desenterra,
    Lanar fra as portas vas do Averno,
    Hum Justo e outro alando  santa terra.
    Outros, que so os maos, no fogo eterno
    Deitar, descobrindo-se os segredos,
    E sendo claro todo feito interno.
    Desfeitos sero montes e penedos,
    E ser tudo pranto e estridor duro;
    Obras de grande dor e tristes medos.
    Ser tornado o sol de todo escuro,
    E destruida a mchina do mundo,
    Sem luz as luzes todas do Orbe puro;
    Altos sero os valles, e em profundo
    Lugar se abatero os altos montes;
    Vibrar mares vento furibundo:
    Haver s de chammas vivas fontes:
    De trombeta tremenda som terribil,
    Ouvido, fara pallidas as frontes.
    Responder dos maos gemido horribil.

      *      *      *      *      *




EPISTOLAS.


EPISTOLA I.

    Quem pde ser no mundo to quieto,
    Ou quem ter to livre o pensamento,
    Quem to exprimentado, ou to discreto,
    To fra, emfim, de humano entendimento,
    Que ou com pblico effeito, ou com secreto,
    Lhe no revolva e espante o sentimento,
    Deixando-lhe o juizo quasi incerto,
    Ver e notar do mundo o desconcrto?

    Quem ha que veja aquelle que vivia
    De latrocinios, mortes e adulterios,
    Que ao juizo das gentes merecia
    Perptua pena, immensos vituperios,
    Se a Fortuna em contrrio o leva e guia,
    Mostrando, emfim, que tudo so mysterios,
    Em alteza d'estados triumphante,
    Que por livre que seja no s'espante?

    Quem ha que veja aquelle, que to clara
    Teve a vida, qu'em tudo por perfeito
    O proprio Momo s gentes o julgra,
    Inda quando lhe visse aberto o peito,
    Se a m Fortuna, ao bom somente avara,
    O reprime, e lhe nega seu direito,
    Que lhe no fique o peito congelado,
    Por mais e mais que seja exprimentado?

    Democrito dos deoses proferia
    Que ero ss dous; a Pena, e o Beneficio.
    Segredo algum ser da phantasia,
    De qu'eu achar no posso claro indicio.
    Que se ambos vem por no cuidada via
    A quem os no merece, he grande vcio
    Em deoses sem-justia e sem-razo.
    Mas Democrito o disse, e Paulo no.

    Dir-me-heis, que s'este estranho desconcrto
    Novamente no mundo se mostrasse,
    Que por livre que fosse e mui experto,
    No era d'espantar se m'espantasse.
    Mas que se ja de Socrates foi certo
    Que nenhum grande caso lhe mudasse
    O vulto, ou de prudente, ou de constante,
    Exemplo tome delle, e no m'espante.

    Parece a razo boa; mas eu digo
    Deste uso da Fortuna to damnado
    Que quanto he mais usado e mais antigo,
    Tanto he mais estranhado e blasphemado.
    Porque, se o Ceo, das gentes to amigo
    No d  Fortuna tempo limitado,
    No he para causar mui grande espanto,
    Que mal to mal olhado dure tanto?

    Outro espanto maior aqui m'enleia,
    Que com quanto Fortuna to profana
    Com estes desconcertos senhoreia,
    A nenhuma pessoa desengana.
    No ha ninguem, que assente, nem que creia
    Este discurso vo da vida humana,
    Por mais que philosophe, nem qu'entenda,
    Que algum pouco do mundo no pretenda.

    Diogenes pisava de Plato
    Com seus sordidos ps o rico estrado,
    Mostrando outra mais alta presumpo
    Em desprezar o fausto to prezado.
    Diogenes, no vs que extremos so
    Esses que segues, de mais alto estado?
    Pois se de desprezar te prezas muito,
    Ja pretendes do mundo fama e fruito.

    Deixo agora Reis grandes, cujo estudo
    He fartar esta sde cubiosa
    De querer dominar e mandar tudo,
    Com fama larga e pompa sumptuosa.
    Deixo aquelles que tomo por escudo
    De seus vicios e vida vergonhosa
    A nobreza de seus antecessores,
    E no cuido de si que so peores.

    Aquelle deixo, a quem do somno esperta
    O gro favor do Rei que serve e adora,
    E se mantee dest'aura falsa e incerta,
    Que de coraes tantos he senhora.
    Deixo aquelles qu'esto co'a boca aberta
    Por s'encher de thesouros de hora em hora,
    Doentes desta falsa hydropesia,
    Que quanto mais alcana, mais queria.

    Deixo outras obras vas do vulgo errado,
    A quem no ha ninguem que contradiga,
    Nem de outra cousa alguma he governado,
    Que d'huma opinio e usana antiga.
    Mas pergunto ora a Cesar esforado,
    Ora a Plato divino, que me diga,
    Este das muitas terras em que andou,
    Aquelle de venc-las, que alcanou?

    Cesar dir: Sou digno de memoria:
    Vencendo povos varios e esforados,
    Fui Monarca do mundo; e larga historia
    Ficar de meus feitos sublimados.
    He verdade: mas esse mando e glria,
    Lograste-o muito tempo? Os conjurados
    Bruto e Cassio diro que, se venceste,
    Emfim, emfim, s mos dos teus morreste.

    Dir Plato: Por ver o Etna e o Nilo
    Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,
    S por ver e escrever em alto estilo
    Da natural sciencia e muitas artes.
    O tempo he breve, e queres consumi-lo,
    Plato, todo em trabalhos? e repartes
    To mal de teu estudo as breves horas,
    Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?

    Pois quanto des que vive ja apartada
    A alma desta priso terreste e escura;
    Est em tamanhas cousas occupada,
    Que da fama, que fica, nada cura.
    E se o corpo terreno sinta nada,
    O Cynico dir se por ventura
    No campo, onde lanado morto estava,
    De si os ces, ou as aves enxotava.

    Quem to baixa tivesse a phantasia,
    Que nunca em mores cousas a metesse,
    Qu'em s levar seu gado  fonte fria,
    E mungir-lhe do leite que bebesse,
    Quo bem-aventurado que sera!
    Que por mais que a Fortuna revolvesse,
    Nunca em si sentiria maior pena,
    Que pezar-lhe de a vida ser pequena.

    Veria erguer do sol a roxa face,
    Veria correr sempre a clara fonte,
    Sem imaginar a goa donde nace,
    Nem quem a luz occulta no Horizonte.
    Tangendo a frauta donde o gado pace,
    Conheceria as hervas do alto monte,
    Em Deos creria simples e quieto,
    Sem mais especular algum secreto.

    D'hum certo Trasilao se l e escreve
    Entre as cousas da velha antiguidade,
    Que perdido gro tempo o siso teve
    Por causa d'huma grave enfermidade;
    E em quanto, de si fra, doudo esteve,
    Tinha por teima, e cria por verdade,
    Qu'ero suas, das naos que navegavo,
    Quantas no porto Preo ancoravo.

    Por hum Senhor mui grande se teria,
    (Alm da vida alegre que passava)
    Pois nas que se perdio no perdia,
    E das que vinho salvas se alegrava.
    No tardou muito tempo, quando hum dia
    Huncrito, seu irmo, que ausente estava,
     terra chega; e vendo o irmo perdido,
    Do fraternal amor foi commovido.

    Aos Medicos o entrega, e com aviso
    O faz estar  cura refusada.
    Triste! que por tornar-lhe o antigo siso
    Lhe tira a doce vida descansada.
    As hervas Apollineas d'improviso
    O torno  saude ja passada.
    Sisudo Trasilao, ao charo irmo
    Agradece a vontade, a obra no.

    Porque despois de ver-se no perigo
    Do trabalho a que o siso o obrigava,
    E despois de no ver o estado antigo,
    Que a louca presumpo lhe apresentava:
    Oh inimigo irmo, com cr de amigo!
    Para que me tiraste (suspirava)
    Da mais quieta vida e livre em tudo,
    Que nunca pde ter nenhum sisudo?

    Por qual Senhor algum eu me trocra,
    Ou por qual algum Rei de mais grandeza?
    Que me dava que o mundo se acabra,
    Ou que a ordem mudasse a natureza?
    Agora me he penosa a vida chara;
    Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.
    Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso
    Que na doudice s consiste o siso.

    Vdes aqui, Senhor, bem claramente
    Como a Fortuna em todos tee poder,
    Seno s no que menos sabe e sente;
    Em quem nenhum desejo pde haver.
    Este se pde rir da cega gente;
    Neste no pde nada acontecer;
    Nem estara suspenso na balana
    Do temor mao, da perfida esperana.

    Mas se o sereno Ceo me concedra
    Qualquer quieto, humilde e doce estado,
    Onde com minhas Musas s vivra,
    Sem ver-me em terra alheia degradado;
    E alli outrem ninguem me conhecra,
    Nem eu conhecra outro mais honrado,
    Seno a vs, tambem como eu contente;
    Que bem sei que o serieis facilmente:

    E ao longo d'huma clara e pura fonte,
    Qu'em borbulhas nascendo, convidasse
    Ao doce passarinho, que nos conte
    Quem da chara consorte o apartasse;
    Despois, cobrindo a neve o verde monte,
    Ao gasalhado o frio nos levasse,
    Avivando o juizo ao doce estudo,
    Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.

    Cantra-nos aquelle, que to claro
    O fez o fogo da rvore Pheba,
    A qual elle em estylo grande e raro
    Louvando, o crystallino Sorga enfra;
    Tangra-nos na frauta Sanazaro,
    Ora nos montes, ora por a ara;
    Passra celebrando o Tejo ufano
    O brando e doce Lasso Castelhano.

    E comnosco tambem se achra aquella,
    Cuja lembrana, e cujo claro gesto
    N'alma somente vejo, porque nella
    Est em essencia puro e manifesto;
    Por alta influio de minha estrella
    Mitigando o rigor do peito honesto,
    Entretecendo rosas nos cabellos,
    De que tomasse a luz o sol em vellos;

    E em quanto por Vero flores colhesse,
    Ou por Inverno ao fogo accommodado,
    O que de mi sentra nos dissesse,
    De puro amor o peito salteado;
    No pedra ento eu, que Amor me dsse
    Do insano Trasilao o doudo estado;
    Mas que alli me dobrasse o entendimento,
    Por ter de tanto bem conhecimento.

    Mas por onde me leva a phantasia?
    Porqu'imagino em bem-aventuranas,
    Se to longe a Fortuna me desvia,
    Qu'inda me no consente as esperanas?
    Se hum novo pensamento Amor me cria
    Onde o lugar, o tempo, as esquivanas
    Do bem me fazem to desamparado,
    Que no pde ser mais qui'maginado?

    Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou
    Contra mi, porque mais me magoasse:
    Amor a hum vo desejo me obrigou,
    S para que a Fortuna mo negasse.
    O tempo a tal estado me chegou;
    E nelle quiz que a vida se acabasse;
    Se ha em mi acabar-se, o qu'eu no creio;
    Que at da muita vida me receio.

      *      *      *      *      *


EPISTOLA II.

    Como nos vossos hombros to constantes
    (Principe illustre e raro) sustenteis
    Tantos negocios arduos e importantes,
    Dignos do largo Imperio, que regeis;
    Como sempre nas armas rutilantes
    Vestido, o mar e a terra segureis
    Do pirata insolente, e do tyrano
    Jugo do potentissimo Othomano;

    E como com virtude necessaria,
    Mal entendida do juizo alheio,
     desordem do vulgo temeraria
    Na santa paz ponhais o duro freio;
    Se com minha escriptura longa e vria
    Vos occupasse o tempo, certo creio
    Que com vagante e ociosa phantasia
    Contra o commum proveito peccaria.

    E no menos sera reputado
    Por doce adulador, sagaz e agudo,
    Que contra meu to baixo e triste estado
    Busco favor em vs que podeis tudo,
    Se contra a opinio do vulgo errado
    Vos celebrasse em verso humilde e rudo.
    Diro, que com lisonja ajuda peo
    Contra a miseria injusta que padeo.

    Porm, porque a verdade pde tanto
    No livre arbitrio, (como disse bem
    Ao Rei Dario o moo sabio e santo,
    Que foi reedificar Hierusalem)
    Esta m'obriga a qu'em humilde canto,
    Contra a teno que a plebe ignara tem,
    Vos faa claro a quem vos no alcana;
    E no de premio algum vil esperana.

    Romulo, Baccho e outros que alcanro
    Nomes de semideoses soberanos,
    Em quanto por o mundo exercitro
    Altos feitos, e quasi mais que humanos,
    Com justissima causa se queixro
    Que no lhes respondro os mundanos
    Favores do rumor justos e iguaes
    A seus merecimentos immortaes.

    Aquelle, que nos braos poderosos
    Tirou a vida ao Tingitano Anteo,
    E a quem os seus trabalhos to famosos
    Fizero Cidado do claro ceo;
    Achou que a m teno dos invejosos
    No se doma, seno despois que o vo
    Se rompe corporal: porque na vida
    Ninguem alcana a glria merecida.

    Pois logo, se Bares to excellentes
    Foro do baixo vulgo molestados,
    O vituperio vil das rudas gentes,
    He louvor dos Reaes, e sublimados.
    Quem no lume dos vossos Ascendentes
    Poder pr os olhos, que abalados
    Lhes no fiquem da luz, vendo os maiores
    Vossos passados, Reis e Imperadores?

    Quem ver aquelle Pae da Patria sua,
    Aoute do soberbo Castelhano,
    Que o duro jugo s, co'a espada nua,
    Removeo do pescoo Lusitano,
    Que no diga:  gro Nuno, a eterna tua
    Memoria causar, se no m'engano,
    Que qualquer teu menor tanto s'estime,
    Que nunca possa ser seno sublime?

    Nisto no fallo mais, porque conheo
    Que da materia se me baixa o engenho.
    Mas, pois a dizer tudo m'offereo,
    E dias ha que no desejo o tenho,
    Sendo vs de to alto e illustre preo,
    A vida fostes pr n'hum fraco lenho,
    Por largo mar e undosa tempestade,
    S por servir  Regia Magestade.

    E despois de tomar a redea dura
    Na mo, do povo indomito qu'estava
    Costumado a larguezas, e  soltura
    Do pezado govrno que acabava;
    Quem no ter por santa e justa cura,
    Qual do vosso conceito s'esperava,
    A to desenfreada enfermidade
    Applicar-lhe contrria qualidade?

    No he muito, Senhor, se o moderado
    Govrno se blasphema e se desama;
    Porque o povo  largueza costumado,
     lei serena e justa, dura chama.
    Pois o zelo em virtude s fundado
    De salvar almas da Tartarea flama
    Com a goa salutifera de Christo,
    Poder por ventura ser malquisto?

    Quem quizesse negar to gr verdade,
    Qual he o seu effeito santo e pio;
    Negue tambem ao sol a claridade,
    E certifique mais que o fogo he frio.
    Se o successo he contrrio da vontade
    Nas obras que so boas, e ha desvio;
    Est nas mos dos homens comettellas,
    E nas de Deos est o successo dellas.

    Sei eu, e sabem todos que os futuros
    Vero por vs o Estado accrescentado,
    Sero memoria vossa os fortes muros
    Do Cambaico Damo bem sustendado:
    Da ruina mortal sero seguros,
    Tendo todo o alicerce seu fundado
    Sbre orfas amparadas com maridos,
    E pagos os servios bem devidos.

    Qumanha infamia ao Principe he perder-se
    Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,
    Tanto por glria grande deve ter-se
    Se accrescentado e prspero o deixou.
    Nunca consentio Roma ennobrecer-se
    Com triumphos alguem, se no ganhou
    Provincia com que o Imperio s'augmentasse,
    Por maiores victorias qu'alcanasse.

    Pde tomar o vosso nome dino
    Damo, por honra sua clara e pura,
    Como ja do primeiro Constantino
    Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.
    E tu, Rei, que no Reino Neptunino,
    L no seio Gangetico a Natura
    Te aposentou, de ser to inimigo
    Deste Estado no ficas sem castigo.

    Bem viste contra ti nadantes aves
    Cortar a espumosa goa navegando;
    Ouviste o som das tubas, no suaves,
    Mas com temor horrifero soando;
    Sentiste os golpes asperos e graves
    Do Lusitano brao nunca brando.
    No soffreste o gro brado penetrante,
    Que os troves imitava do Tonante.

    Mas antes dando as costas e a victoria
     Bragancez ventura no corrido,
    Dste bem a entender quo grande glria
    He de tal vencedor o ser vencido.
    Quem faz obras to dignas de memoria
    Sempre ser famoso e conhecido,
    Onde os altos juizos o estimarem,
    Qu'estes ss tee poder de fama darem.

    No vos temais, Senhor, do povo ignaro,
    To ingrato a quem tanto faz por elle;
    Mas sabei qu'he signal de serdes claro
    O ser agora to malquisto delle.
    Themistocles, da patria sua amparo,
    O forte e liberal Cimon, e aquelle
    Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,
    Testimunhas sero de quanto digo.

    Pois ao justo Aristdes hum robusto,
    Votando no ostracismo costumado,
    Lhe disse claro assi: Porque era justo
    Desejava que fosse desterrado.
    Pachitas por fugir do povo injusto
    Calumnioso, dando no Senado
    Conta de Lesbos, qu'elle ja mandra,
    Se tirou co'o seu ferro a vida chara.

    Demosthenes, lanado das tormentas
    Populares,  Pallas! foi dizendo,
    Que de tres monstros grandes te contentas,
    Do drago e moucho, e do vil povo horrendo!
    Que glrias immortaes houve, qu'isentas
    Do veneno vulgar fossem, vivendo?
    Pois mil exemplos deixo de Romanos,
    E vs tambem sois hum dos Lusitanos.

      *      *      *      *      *


EPISTOLA III.

    Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte
    Dero o nome augusto e sublimado
    Daquelle Cavalleiro que na morte,
    Por Christo, foi de settas mil passado;
    Pois delle o fiel peito, casto e forte,
    Co'o nome Imperial tendes tomado,
    Tomae tambem a setta veneranda
    Que a vs o Successor de Pedro manda.

    Ja por ordem do Ceo, que o consentio,
    Tendes o brao seu, reliquia chara,
    Defensor contra o gladio que ferio
    O povo que David contar mandra.
    No qual, pois tudo em vs se permittio,
    Presagio temos, e esperana clara,
    Que sereis brao forte e soberano
    Contra o soberbo gladio Mauritano.

    E o que hum presagio tal agora encerra,
    Nos faz ter por mais certo e verdadeiro
    A setta, que vos d quem he na terra
    Dos celestes thesouros Dispenseiro:
    Que as vossas settas so na justa guerra
    Agudas, e entraro por derradeiro
    (Cahindo a vossos ps povo sem lei)
    Nos peitos que inimigos so do Rei.

    Quando vossas bandeiras despregava
    Albuquerque fortissimo com glria
    Por as praias de Persia, e alcanava
    De Naes to remotas a victoria;
    As settas embebidas, que tirava
    O arco Armusiano (he larga historia)
    Nos ares, Deos querendo, se viravo,
    Pregando-se nos peitos que as tiravo.

    O querido de Deos, por quem peleja,
    O ar tambem e o vento conjurado
    Ao atambor lhe acodem, porque veja
    Que o que a Deos ama, he de Deos amado:
    Os contrarios revis  Madre Igreja
    Atroaro co'o tom do Ceo irado.
    Que assi deo ja favor maior que humano
    A Josu Hebreo, Teodosio Hispano.

    Pois se as settas tiradas da inimiga
    Corda, contra si s nocivas so,
    Que faro, Rei, as vossas que tee liga
    Com a que ja tocou Sebastio?
    Tinta vem do seu sangue, com que obriga
    A levantar a Deos o corao,
    Crendo bem que as que vs despedireis,
    No sangue Sarraceno as tingireis.

    Ascanio, (se trazer me he concedido
    Entre santos exemplos hum profano)
    Rei do Imperio, despois to conhecido,
    De Roma, e s reliquia do Troiano,
    Vingou com setta e nimo atrevido
    As soberbas palavras de Numano;
    E logo foi dalli remunerado
    Com louvores de Apollo, e celebrado.

    Assi vs, Rei, que fostes segurana
    De nossa liberdade, e que nos dais
    De grandes bens certissima esperana;
    Nos costumes, e aspecto que mostrais,
    Concebemos segura confiana
    Que Deos, a quem servis e venerais,
    Vos fara vingador dos seus revis,
    E os premios vos dar que mereceis.

    Estes humildes versos, que prego
    So destes vossos Reinos com verdade,
    Recebei com benigna e Real mo,
    Pois he devida a Reis benignidade.
    Tenho (se no merecem galardo)
    Favor sequer da Regia Magestade:
    Assi tenhais de quem ja tendes tanto,
    Com o nome e reliquia, favor santo.

      *      *      *      *      *


EPISTOLA IV.

    Senhora, s'encobrir por algum'arte
    Pudera esta occasio de meu tormento,
    No creias que chegra a declarar-te
    Este meu perigoso pensamento.
    Mas por mais que te offenda, no sou parte
    No crime de tamanho atrevimento:
    Elle he d'amor; e delle fui forado
    A que te declarasse o meu cuidado.

    Se merece castigo a confiana
    Com que descubro agora o que padeo,
    Aqui prompto me tens; toma a vingana
    Que por to grave culpa te mereo.
    Bem me podes negar toda esperana,
    Mas eu no desistir deste como;
    Porque tempo e Fortuna no so parte
    Para deixar hum'hora s de amar-te.

    Ja que ver-te os meus olhos alcanro,
    Descansem neste bem com alegria,
    Pois ja com ver os teus tanto ganhro,
    Quanto, estando sem v-los, se perdia.
    Que glria querem mais, se a ver chegro
    Aquella pura luz que vence ao dia?
    Qual mor bem ha no mundo que querer-te,
    Se no ha mais que ver despois de ver-te?

    Minhas dores mortaes, bella Senhora,
    Tirro a virtude ao soffrimento;
    E fazendo-se mais em qualquer hora,
    Levando vo traz ti meu pensamento:
    Porm soberbos vejo desde agora,
    Por a causa gentil de seu tormento,
    Minha alma, meu desejo, meu sentido,
    Porque  tua belleza se ho rendido.

    A par de tua rara formosura
    Se desconhece o mor merecimento;
    A tua claridade torna escura
    Do sol a clara luz em hum momento.
    Se Zeuxis ao formar bella figura,
    A vista em ti pudera pr attento,
    Mais alto original houvera achado
    Para admirar o mundo co'o traslado.

    Aquelles qu'escrevro mil louvores
    De formosura, graa e gentileza,
    Todos foro, Senhora, huns borradores
    De tua perfeitissima belleza.
    Agora se v claro em teus primores
    Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;
    E qu'ero os seus cantos prophecias
    Do que havias de ser em nossos dias.

    V, pois, se vinha a ser culpavel falta
    Em mi o no render-te amante a vida,
    E se deixar d'amar glria to alta
    Era digno da pena mais crescida.
    Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta
    Co'o castigo de culpa assi atrevida:
    E quando della caia, maior glria
    Tera o Tejo, que o P, com sua historia.

      *      *      *      *      *




OITAVAS.


GLOSA DO SONETO 14.

    Despois que a clara Aurora a noite escura
    Com novo resplandor foi desfazendo,
    E Phebo por os montes e espessura
    Os seus dourados raios estendendo;
    Se buscava nos valles a verdura
    O manso gado a luz serena vendo,
    Quando a frvida ssta ja abrazava,
    _Todo animal da calma repousava._

    Ja por fugir do sol o fogo ardente,
    As sombras os rebanhos vo buscando;
    Os tenros cabritinhos juntamente
    Apos as mansas mes hio saltando;
    Tangendo as suas frautas docemente
    Os pastores, estavo enganando
    A gr chamma solar qu'ento ardia;
    _S Liso o ardor della no sentia._

    Tristes lembranas tanto o traspassavo,
    Que a dura ssta nelles s passava;
    O tempo qu'em prazer outros gastavo,
    Em celebrar seu mal elle o gastava;
    As festas que com jogos celebravo,
    Elle com suspirar as celebrava:
    Nada buscava mais, mais no queria
    _Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._

    Os repetidos jogos dos pastores,
    As lutas entre a rama repetidas,
    Em nada lhe divertem suas dores;
    Mas antes n'alegria as v crescidas.
    Como o repouso roubo os amores
    s almas que para elles so nascidas,
    Elle, todo o repouso qu'esperava,
    _Consistia na Nympha que buscava._

    Com o chro, que ja corria em fio
    Por o pallido rosto, augmenta as fontes,
    Que levo goa estranha ao claro rio
    Que os valles vai regando entre altos montes.
    Com suspiros a quem o ecco pio
    Responde de apartados horizontes,
    Os ventos parecia qu'enfreava,
    _Os montes parecia que abalava._

    Que s queixas de seus doces pensamentos
    Se movessem os montes mais constantes,
    Se parassem os mais veloces ventos,
    Qu'estavo, que corrio circumstantes,
    Bem se devia  dor de seus tormentos,
    E inda que fosse em peitos de diamantes;
    Que hum peito de diamante abrandaria
    _O triste som das mgoas que dizia._

    Porm elle as dizia a outro peito,
    Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:
    A f lh'encarecia, a que sogeito
    O tinha em pena eterna o amor puro;
    Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito,
    Quanto mais offendido, mais seguro:
    A Nympha mais segura tudo ouvia,
    _Mas nada o duro peito commovia._

    As lstimas aqui tanto crescro,
    Que s'em montes de Hircania s'escuitro,
    Tigres nos seios seus mover pudero,
    E pedras nos seus cumes abrandro.
    Mas se no peito as tristes vozes dro
    Daquella fera humana que buscro,
    Elle d'as admittir se retirava;
    _Que na vontade de outro psto estava._

    Desenganado ja da triste sorte,
    De que mal fino amor se desengana,
    Com a desperana s de sua morte
    Aquellas penas ltimas engana.
    Deixando na espessura o claro Norte,
    Para elle de outra luz mais soberana,
    A hum valle aberto ento sahir procura,
    _Cansado ja de andar por a espessura._

    Deixando as suas cabras que pascessem
    Naquelle verde prado as frescas flores;
    Porque os Satyros leves o soubessem,
    E os sylvestres Faunos amadores;
    Tambem porque os pastores o entendessem,
    Todo o processo e fim de seus amores
    Escreveo (sem em nada haver mudana)
    _No tronco d'huma faia por lembrana._

    Por lembrana no tronco d'huma faia,
    Que vai sahindo ao ceo de puro altiva
    Na verde, prateada e aurea praia,
    Por onde o claro Tejo se deriva;
    Porque tambem ao ceo sua dor saia
    Sbre aquella corrente fugitiva,
    Escrita no papel da natureza;
    _Escreve estas palavras de tristeza:_

    Natercia, Nympha bella, por quem vivo
    Em tal tormento, tempo algum me olhou;
    Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo
    Daquelle brando olhar que m'enganou,
    O amor tornava em desamor esquivo;
    E d'hum tormento tal a outro passou.
    Em cousas to sujeitas a mudana
    _Nunca ponha ninguem sua esperana._

    Para dar proveitosos desenganos
    Dos enganos que so de Amor effeitos,
    E dos dous sexos publicar, humanos,
    A origem das mudanas de seus peitos;
    Estas letras aqui por longos anos
    Digo a coraes a amar sujeitos
    Em peito varonil, que de ventura,
    _Em peito feminil, que de natura..._

    Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado
    Cahio ao p da faia em qu'escrevia,
    No podendo seguir o comeado,
    Porque a alma ja do corpo lhe sahia.
    Tres vezes, com accento mal formado,
    Para exemplo futuro repetia:
    Amantes, entendei que a mr belleza
    _Somente em ser mudavel tem firmeza._

      *      *      *      *      *


GLOSA DO SONETO 194.

    _C nesta Babylonia adonde mana_
    Hypocrisia, engano e falsidade;
    C donde ousada toda carne humana
    A todo arbitrio vive da vontade;
    C donde enrouqueceo da Lusitana
    Musa o furor heroico e suavidade;
    C donde se produz por cega via
    _Materia a quanto mal o mundo cra_;

    _C donde o puro Amor no tee valia_,
    Porque Baccho o tee hoje desterrado;
    C donde a frecha d'ouro no feria,
    Seno cabello preto e alfenado;
    C donde a loura trana no se via,
    Nem o rosto de sangue matizado;
    C donde nada val a glria humana,
    _Que a me, que manda mais, tudo profana_;

    _C donde o mal se affina, o bem se dana_,
    Se algum a terra em si quer produzir;
    C donde a falsa gente Mahometana
    A glria toda funda em adquirir;
    C donde multiplica a mo tyrana,
    Professa em mais crescer, matar, mentir;
    C donde o fazer bem he villania,
    _E pde mais que a honra a tyrannia_;

    _C donde a errada e cega Monarchia_
    De fabulosas leis est vivendo,
    E  fra d'hum amor engrandecia
    O nefando Alcoro em qu'est crendo;
    C donde nada val a Poesia,
    E s'est da lei della escarnecendo;
    C donde a fidalguia Mahometana
    _Cuida qu'um nome vo a Deos engana._

    _C nesta Babylonia, onde a Nobreza_
    Da Lusitana gente se perdeo;
    E do gro Sebastio toda a grandeza
    Irreparavelmente se abateo;
    C donde algum mentir no he baixeza,
    E os meritos esmola (assi cresceo
    Da cobia mortal a semrazo)
    _Co'o esfro e saber, pedindo vo._

    _s portas da cobia e da vileza_
    Estes netos de Agar esto sentados
    Em bancos de torpissima riqueza,
    Todos de tyrannia marchetados.
    He do feio Alcoro summa a largueza
    Que tee para que sejo perdoados
    De quantos erros commettendo esto
    _C neste escuro cos de confuso._

    _Cumprindo o curso estou da natureza_,
    Illustre Dama, neste labyrintho;
    Mas quem usa comigo mais crueza,
    He tua condio, que n'alma sinto.
    Acabe-se algum dia tal tristeza,
    E este sentido mal qu'em versos pinto:
    E pois n'alma he sentido e corao,
    _Ve se m'esquecerei de ti, Sio._

      *      *      *      *      *


A SANTA URSULA.

    D'huma formosa virgem desposada,
    Que d'outras onze mil, tambem formosas,
    Entrou no claro Olympo acompanhada,
    Com coras de lyrios e de rosas;
    De Christo Esposo seu to namorada,
    Que delle as quiz fazer todas esposas;
    Amor, vida e martyrio cantar quero,
    Fiado no favor que della espero.

    Alcana, Ursula bella, (que diante
    De to bello esquadro foste por guia)
    De teu suave Amor, que de ti cante
    O seu amor que no teu peito ardia.
    Meu verso para ti mais se levante,
     Christifera,  heroica companhia;
    Tanto se mostre aqui mais soberano,
    Quanto o divino Amor excede o humano.

    E vs, unica Me e Virgem pura,
    Pois sois das que tal ordem escolhro,
    Que fostes, sois, sereis guarda segura
    Da pureza que a Deos offerecro;
    Neste canto me dae melhor ventura
    Do que atgora as Musas vas me dero:
    Vossas servas sero de mi servidas,
    Cantadas suas mortes, suas vidas.

    Serenissima Infante, produzida
    Do gro Tronco Real, sublime Planta;
    No titulo, nas obras e na vida,
    Retrato natural de Ursula Santa,
    Desta virgem, tambem de Reis nascida,
    Ouvi com ledo rosto o que se canta;
    Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:
    No lhe tire seu preo o meu defeito.

    No tempo que Cirico se sentava
    Na Cadeira de Pedro pescador,
    De que com sa doutrina apascentava
    As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;
    Teve Bretanha hum Rei, que professava
    A Lei que deo no mundo o Redemptor,
    Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,
    Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.

    De virtudes hum novo exemplo e raro,
    Em idade e belleza florecia
    Ursula, por quem Noto era mais claro,
    Que por todo o poder que possuia;
    Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,
    Com quem todas as graas repartia;
    Prudente, honesta e docta a maravilha,
    De to ditoso pae ditosa filha.

    Aquella que por o ar com ligeireza
    As pennas de mil azas abre e cerra,
    E que com velocissima presteza
    Com outros tantos ps corre por terra;
    Aquella, que de sua natureza
    No cuida em quanto diz se acerta ou erra,
    E d'huma em outra boca se derrama:
    Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;

    Hia por todo o mundo divulgando
    Extremos desta virgem soberana,
    Aquella formosura celebrando
    Com que Amor cego a tanta vista engana:
    Mais hia a d'alma sua publicando,
    Porqu'era mais divina do que humana:
    Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,
    Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.

    Ouvidos seus louvores, muitas vezes
    Desejou desta virgem fazer nora
    Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,
    Idolatras ento, cegos agora.
     povo cego e leve! as torpes fezes
    Aparta do ouro puro e lana fra,
    Torna-te ao teu pastor, perdido gado!
    lha que vs sem elle mal guiado.

    Hum filho deste Rei (de quem dizia
    Que ser de Ursula sogro desejava)
    Movido do rumor que della ouvia,
    Ja dentro no seu peito a namorava.
    Alli seu amor, delle, lhe offrecia;
    Alli por o amor della suspirava.
    Suspira elle por ella; ella suspira
    Tambem por outro amor que nunca vira.

    Mandou o Rei Inglez Embaixadores
    Com pompa Regia e lustre sumptuoso,
    (Do grande Reino seu grandes Senhores)
    A Noto, Rei no tanto poderoso.
    Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores
    Ardia toda do celeste Esposo)
    Para esposa do filho, que sabia
    Que ja d'amores della todo ardia.

    O Rei Breto se achava descontente
    Com a nova embaixada de Inglaterra:
    Receia que se nella no consente,
    O gentio lhe mova cruel guerra:
    Porque sendo mais rico e mais potente,
    Assi no largo mar, como na terra,
    Quando desprezos visse de seu rgo,
    Podia pr Bretanha a ferro e fogo.

    Sbre este no errado pensamento
    Do medo de perder seu senhorio,
    Novo discurso tinha e novo intento,
    Com que se achava mais medroso e frio.
    Estranhava o fazer ajuntamento
    Da catholica filha co'hum gentio;
    Pois nem a Lei de Christo o permittia,
    Nem Ursula fiel o admittiria.

    Estando o pae em tal angstia psto,
    Divinamente a filha ja inspirada,
    Lhe assegurava com sereno rosto
    Que consentir podia na embaixada;
    Dizendo que se o Inglez levava gsto
    D'ella com seu herdeiro ser casada,
    Primeiro lhe mandasse dez donzellas,
    Do Reino as mais illustres, as mais bellas.

    Que mil daria a cada virgem destas,
    E que a ella outras mil tambem daria,
    Todas de claro sangue, e em vista honestas.
    (Dest'arte a conta de onze mil fazia)
    Que por trez annos dilao nas festas,
    Alm do ja pedido, lhe pedia;
    E naos e mantimentos, porque todas
    Fossem com ella a Roma antes das bodas.

    Alli sua pureza e virgindade
    Queria com solemne e sacro voto
    Consagrar  divina Potestade,
    Que o ceo e a terra fez de proprio moto.
    E que deixasse a va gentilidade
    Seu filho, para genro ser de Noto,
    Para que neste espao doutrinado
    Fosse na F de Christo, e baptizado.

    Com estas condies Ursula disse
    Ao charo pae, que, a ser dellas contente,
    Podia responder; e despedisse
    A proposta daquelle Rei potente:
    Ou porque ouvindo-as elle desistisse,
    Podendo-se acceitar difficilmente;
    Ou porque, quando as virgens concedesse,
    Comsigo a seu Senhor onze mil dsse.

    Oh Divino saber, quo soberano
    Conselho he sempre o teu! quo remontado!
    Oh quanto o mor saber te cede humano,
    Por mais que de razes v mais ornado!
    Ja dos idolos deixa o cego engano
    O Principe, da virgem namorado;
    Ja terno pede ao pae quanto ella pede;
    Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.

    Ja para ti,  virgem bella e branda,
    Com huma singular velocidade,
    Juntar se via d'huma e d'outra banda
    De feminil nobreza tenra idade.
    As naos apparelhar o Rei ja manda;
    Ja nellas se recolhe a Virgindade;
    Ja do para Bretanha ao vento velas.
    O corao do noivo vai com ellas.

    Ja vem a tomar porto onde esperava
    Ursula alvoroada em gr maneira;
    Que para as receber alli se achava,
    Como senhora no, mas companheira.
    Quo falsa era a Lei dellas lhes mostrava,
    A de Christo quo pura e verdadeira.
    Ja se baptiza huma e outra Dama;
    Damas Ursula ja do ceo lhes chama.

    A Fama, que no sabe repousar,
    Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;
    A gente que concorre no tee par,
    Por ver a nunca vista maravilha.
    Outros vem por servir e acompanhar
    A Virgem de Rei nora, de Rei filha.
    Movem-se muitos Bispos de Bretanha;
    Pantalo em vida e morte os acompanha.

    Por ti, deixando o Reino, co'a familia
    E quatro filhas suas, s'embarcou,
    Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;
    (Hum filho tinha mais que mais levou)
    Gerasina, Rainha de Sicilia,
    E com devido amor te acompanhou;
    Qu'he justo que comtigo vo Rainhas,
    Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.

    Ja se partem as bellas peregrinas,
    As mos ao claro Empyreo levantadas;
    Ja rompem, ja, por ondas crystallinas
    As naos de formosura carregadas.
    Quando, dizei,  goas Neptuninas,
    Fostes de tal belleza navegadas?
    Nunca, despois que a terra descobristes,
    A tal frota por vs caminho abristes.

    Com vento sempre igual, com mar bonana,
    Sem perigos alguns, sem algum pejo,
    Ceyla foro tomar, porto de Frana,
    Onde pouca demora fazer vejo.
    O corao da virgem no descana,
    Saudosa do fim de seu desejo;
    Manda que levem ferro, soltem linho
    Que leve por o mar o negro pinho.

    O vento nova posse vai tomando
    Das virgens que lhe so encommendadas:
    Com tal prosperidade vo voando,
    Que ja deixo atraz ondas salgadas:
    Ja nas doces do Rheno esto entrando,
    Onde tee suas vidas limitadas:
    Huma cidade vem  lingua da goa,
    Que de v-las morrer no teve mgoa.

    Ah Colonia cruel, que no t'encobres
    A to formosos olhos, que seguros
    As altas trres vio que descobres,
    Lustrosos edificios, fortes muros!
    Permitte o largo Ceo que fama cobres
    De ser to dura me de peitos duros?
    Duros peitos, que a tantos, limpos de rro
    Viro abrir sem dor com impio ferro!

    Estando neste porto a bella Armada
    Tomando o necessario mantimento,
    Para poder seguir sua jornada,
    E dar terceira vez o treu ao vento;
    Sendo parte da noite ja passada,
    A virgem l no seu retrahimento,
    Quando estava dormindo toda a frota,
    A Christo orou assi, branda e devota:

    Amor, divino Amor, Amor suave,
    Amor, que amando vou toda rendida;
    Com quem no ha na vida pena grave,
    Sem quem glria real no ha na vida;
    Amor, que do meu peito tens a chave,
    Amor, de cujo amor ando ferida,
    Quando verei, Amor, o que desejo,
    Para que veja, Amor, o que no vejo?

    Amor, que d'amor cheio e de brandura,
    D'amor enches est'alma saudosa;
    Amor, sem cujo amor e formosura,
    No pde nunca haver cousa formosa;
    Amor, com cujo amor anda segura
    Huma vida to fraca e duvidosa,
    Quando verei, Amor, o que desejo,
    Para que veja, Amor, o que no vejo?

    Amor, que por amor te dispuzeste
    A restaurar o mundo errado e triste;
    Amor, que por amor do ceo desceste;
    Amor, que por amor  Cruz subiste;
    Amor, que por amor a vida dste;
    Amor, que por amor a glria abriste,
    Quando verei, Amor, o que desejo,
    Para que veja, Amor, o que no vejo?

    Amor, que mais e mais sempre te augmentas
    No corao que l comtigo trazes;
    Amor, que d'amor puro te sustentas
    No fogo em que tu mesmo arder me fazes;
    Amor, que sem amor no te contentas,
    De tudo com amor te satisfazes,
    Quando verei, Amor, o que desejo,
    Para que veja, Amor, o que no vejo?

    Amor, que com amor me captivaste;
    (Se livre pde ser quem no captivas)
    Amor, qu'em taes prises m'asseguraste
    As esperanas d'antes fugitivas:
    Amor, que suspirando m'ensinaste
    A derramar por ti lagrimas vivas,
    Quando verei, Amor, o que desejo,
    Para que veja, Amor, o que no vejo?

    Quando verei hum dia em que offerea
    Por ti ao cruel ferro o peito forte,
    E cercada de virgens apparea
    Na tua soberana e eterna Corte;
    Onde l cada huma te merea,
    C passando comigo a propria morte;
    E todas dando o sangue juntas, todas
    Celebremos comtigo eternas bodas?

    Faze-me ja, Senhor, esta vontade
    Que tenho de te ver, que sempre tive,
    Des que me deo lugar a tenra idade,
    E lume de razo nesta alma vive.
    No queiras, meu Amor, que a saudade
    Sem tal bem a mi s da vida prive;
    Que se muito se alarga este destrro,
    Por ella irei a ti, no por o ferro.

    Desata o meu espirito saudoso,
    Do n mortal em que se vai detendo,
    Primeiro que tres vezes pressuroso
    O sol os doze Signos v correndo.
    Espao he que tomei, meu doce Esposo,
    Para outro esposo meu ir entretendo:
    Mas a meu amor crendo, de ti creio
    Que acabes com a vida o meu receio.

    Inda neste fervente e justo rgo
    Ursula suspirando procedia,
    Quando d'hum resplandor como de fogo
    Divina voz ouvio, que assi dizia:
     virgem, que soubeste fazer jgo
    Do que no mundo tee maior valia,
    Entende que da volta que fizeres,
    Aqui quero que seja o que tu queres.

    Tanto que tal resposta do Ceo teve,
    No quiz do que esperava perder hora:
    Ja lhe parece larga a noite breve,
    E que ja tarda muito a bella aurora.
    Em descobrindo Apollo o carro leve,
    Do porto de Colonia sahio fra.
    Ja Basila em breve tempo toma:
    E a p d'alli partiro para Roma.

    O Pastor summo, Cirico santo,
    As sahe a receber, e as acompanha
    Com gzo espritual, com grande espanto
    De ver em tal idade f tamanha.
    Dizer se pde mal, mal cuidar quanto
    Se goza o Real sangue de Bretanha,
    Os veneraveis Templos visitando
    Daquelles que tambem foi imitando.

    Na propria noite deste proprio dia
    Que Roma ver as virgens mereceo,
    A quem de Pedro a Barca ento rega
    Revelou o que rege a terra e ceo
    Que martyrio tambem receberia
    Onde Ursula co'as mais o recebeo:
    Deixa contente o gro Pontificado,
    Desejoso de ser martyrizado.

    Por mais que todo o Clero soffre mal
    Mover-se por aquellas Estrangeiras,
    Movido da Vontade divinal
    O bom Pastor se vai com as Cordeiras.
    Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:
    Tres Bispos deixo vagas tres Cadeiras,
    De Luca, Ravicana e de Ravenna:
    Mauricio me ficava ja na penna.

    Despois de n'goa entrar, donde sahro,
    Com to formoso sol tantas estrellas,
    Ja as ancoras debaixo acima tiro,
    E de cima ja abaixo solto vellas.
    Estas naos l adiante outras naos vro,
    Que fazendo-se vem na volta dellas;
    Conhecro-se logo as duas frotas:
    Ambas d'hum Reino so, ambas devotas.

    Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,
    Vinha de Ursula bella o bello esposo,
    Que reinar no queria ja na terra,
    Do ceo ja namorado e saudoso.
    Do seu primeiro amor venceo a guerra
    A fra d'outro amor mais poderoso:
    Amando ja em seu Deos a esposa bella,
    Para o poder achar, buscava a ella.

    A me, ja convertida, traz comsigo;
    O pae, ja Christo feito, fallecra,
    Com que soube evitar o gro castigo
    Que, morrendo Gentio, no soubera.
    Amor celeste, como aqui no digo
    O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)
    Por meio d'huma virgem foste meio
    Com que gente copiosa a Christo veio.

    Vinha mais nesta nova companhia
    Florencia, irma do Rei, da me cuidado;
    Florencia, qu'em belleza florecia,
    Como flor em jardim bem cultivado.
    Tambem a frota Bispos dous trazia,
    Hum Marcello, Clemente outro chamado:
    O primeiro ja em Grecia bago teve;
    Do segundo o Bispado no s'escreve.

    Outra Virgem viuva alli mais vinha,
    Que desposada sendo em tenra idade,
    Antes das bodas enviuvado tinha,
    E promettida a Christo a castidade.
    Esta do mesmo Rei era sobrinha,
    Filha da Imperatriz da gr cidade,
    Onde por culpa nossa, ou pouca dita,
    Seu throno agora tee o fero Scita.

    Estes, que adverte repetida historia
    Deixro s por Deos altos Estados,
    Com outros, de que he menos a memoria,
    Foro divinamente amoestados
    Que todos, para entrar juntos na glria,
    Ao cro virginal fossem juntados,
    Com quem na terra Martyres serio,
    E no ceo para sempre reinario.

    Sera estranho o gzo que sentro
    Aquellas bem nascidas almas santas,
    Quando juntas alli todas se vro
    De partes to remotas, e de tantas.
    Sem estorvos, que d'antes o impedro,
    As duas, mais que todas, bellas plantas
    Alli abraos se do sem algum pejo,
    Ambas conformes ja n'hum s desejo.

    Alli faria o Rei acatamento
    A quem deixou da Barca o gro govrno;
    E elle, conforme a seu merecimento,
    Responderia com amor paterno.
    No faltaria em tal recebimento
    Prazer exterior, prazer interno;
    Inda que nos estados differentes,
    Todos serio huns em ser contentes.

    O vento as brancas velas no enchia,
    Corria o frio Rheno ento mais quedo;
    Antes para Colonia no corria,
    Porque as virgens no fossem l to cedo.
    Parece que ja claro conhecia
    (Oh cro virginal, sereno e ledo!)
    Que l vos esperava a impia morte.
    Agora,  Musa, conta de que sorte.

    Aquelle que na frma de serpente
    Deixou aos dous primeiros enganados,
    Invejoso de ver que tanta gente
    Se convertia  Lei dos Baptizados;
    No carao entrou manhosamente
    De dous gentios Principes damnados,
    Da soberba Roma Cavaleria,
    Por encurtar a F que s'estendia.

    A Fama os assegura com certeza
    Que a virgem a Colonia ja voltava,
    Com toda a casta juvenil belleza
    Que por amor do Ceo peregrinava.
    Fizero avisar com gr presteza
    A hum parente, que Julio se chamava,
    Soberbo Capito dos Hunnos feros;
    Que todos para todas foro Neros.

    Eis logo o cego Principe gentio,
    Com gente innumeravel de seu mando,
    A praia a tomar vem do mesmo rio
    Por onde as virgens vinho navegando.
    Ja descobrem aquelle, este navio
    Os qu'esto do mais alto atalaiando:
    s armas veloz corre o bruto povo,
    Por de novo as tingir no sangue novo.

    Vindo a frota a surgir junto do muro,
    Onde lhe parecia estar segura,
    (Oh virgens que buscais? lugar seguro
    Adonde vos espera a sepultura!)
    Entra com mo armada o povo duro
    Por esta peregrina formosura:
    Ja comea a provar os aos fortes;
    Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.

    Ja nu todas as virgens offrecio
    O delicado collo, o tenro peito:
    Era para caber quantas cahio,
    Todo largo lugar lugar estreito.
    Do puro sangue os rios que corrio,
    Outro vermelho mar ja tinho feito.
    Tu s, Crdula,  morte t'escondeste;
    Mas despois a buscaste e recebeste.

    Cirico o primeiro, bem constante,
    A vida ao ferro offrece sem espanto:
    O moo Rei Inglez cahio diante
    Daquelles castos olhos que amou tanto.
    Espera, brando esposo, hum breve instante;
    Espera a tua doce esposa, em tanto
    Que outro Amor outro golpe lhe prepara;
    E juntos entrareis na Patria chara.

    Em qual terra,  crueis, em qual cidade,
    Entre quaes gentes mais a furor dadas,
    Se no usou d'amor e de piedade
    Com formosas donzellas desarmadas?
    Como belleza tanta e tal idade
    Vos deixou arrancar vossas espadas?
    Ah lobos carniceiros, tigres bravos,
    Filhos da crueldade, d'ira escravos!

    De quantos animaes sustenta a terra
    Nunca tanta crueza foi usada;
    Inda que tenho huns com outros guerra,
    Nunca do macho a femia he lastimada:
    Anda a cerva co'o cervo por a serra,
    A novilha do touro acompanhada,
     leoneza o leo defender preza:
    Vs ss quebrais as leis da natureza?

    Pudero outros olhos por ventura
    De lagrimas divinas escusar-se,
    Vendo, cuberta ja de nvoa escura,
    A luz de tantos bellos apagar-se?
    Vendo a purpurea rosa, a cecem pura
    Em to formosas faces descorar-se?
    As tranas d'ouro vendo, espedaadas,
    Por debaixo dos ps andar pizadas?

    Na fra desta furia accesa e brava
    O Tyranno cruel a vista ergueo
     virgem, qu'invencivel animava
    As almas que juntra para o Ceo.
    Assi ja envolta em sangue como andava,
    Da sua formosura se venceo;
    E com doces razes, que Amor ensina,
    A venc-la d'amor se determina.

    Fingindo se arrepende do passado,
    (E de fingi-lo se arrepende azinha)
    Sua vida lhe offrece e seu Estado,
    Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.
    O seu amor lhe pede confiado;
    O seu amor que dado a seu Deos tinha:
    Pede-lhe o seu amor; antes no seu,
    Porque ja dado o havia a quem lho deu.

    Usa de mil lisonjas, mil enganos,
    Por conseguir o seu desejo bruto.
    A flor logra (dizia) de teus anos,
    Colhe d'essa belleza o doce fruto:
    No ds materia nova a novos danos,
    No pagues verde  morte o seu tributo:
    Olha que tens em mi (no so cautelas)
    Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.

    No faas mentirosa a natureza
    Que d d'amor em ti grande esperana.
    Que se pde alcanar d'essa belleza,
    Se ja piedade della no s'alcana?
    Aos tigres, aos lees deixa a braveza,
    E deixa aos meus soldados a vingana.
    Se por ver-me cruel queres ser crua,
    Ja te vingas de mi em cousa tua.

    Volve esses olhos ja com mais brandura;
    Esses olhos, d'Amor doce morada:
    Delles no faa em mi a formosura,
    O qu'em tantos ja fez a minha espada.
    Se queres derribar minha ventura,
    Que delles estar vejo pendurada,
    Acabarei de ver quo pouca tenho,
    Pois donde a matar vim a morrer venho.

    Como do rgo meu no te aproveitas,
    Quando o teu risco a me rogar te obriga?
    Ou no conheces bem a quem engeitas,
    Ou m'engeitas por mais que seja e diga.
    Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?
    Mais proprio era chamar-te dura imiga.
    Mas no consente Amor nome to duro
    Em parecer to brando e to seguro.

    Os raios desses olhos ja serenos
    Enxuguem desse rosto as puras rosas;
    O triste suspirar ja se menos
    Nestas concavidades saudosas.
    No fao grande mal males pequenos;
    Que no soffre esperanas vagarosas
    Quem anda costumado em seus amores
    A medir por seu gsto seus favores.

    Que gsto podes ter de maltratar-me,
    Vendo-me do passado arrependido?
    Attenta que mais ganhas em ganhar-me,
    Do que neste destro tens perdido.
    Se queres insistir em desprezar-me,
    Ver-me-has, sbre amoroso, enfurecido.
    No me declaro mais, porque no quero
    Que o medo faa o que d'amor espero.

    Ah perfido amador! deixa o teu rro.
    No vs quanto enganado e cego andas?
    Aquella a quem no vence o duro ferro,
    Como a podem vencer palavras brandas?
    Manda a sua alma ja deste destrro,
    Com essas que a seu doce Esposo mandas.
    No a detenhas mais em teus amores,
    Se dobrar-lhe no queres suas dores.

    Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,
    Tomava a bella virgem por affronta,
    E que quanto d'amor mais se accendia,
    Ella delle fazia menos conta;
    No concavo arco que na mo trazia,
    Huma setta embebeo d'aguda ponta,
    E o peito lhe passou de banda a banda.
    Assi rendeo o esprito a virgem branda.

    Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;
    As azas abre ja, ja a luz derrama;
    Va com desusada ligeireza
    Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.
    Vers baixa do mundo a mr alteza;
    Vers qu'engana mais a quem mais ama;
    E l do teu Amor, c suspirado,
    O fructo colhers to desejado.

    Em paz te vae,  alma pura e bella,
    Mais bella inda no sangue que verteste;
    Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella
    Formosa Regio, alta e celeste.
    Coroada de glria immortal, nella
    Com Christo logrars, a quem te dste
    Com tantas e to bem nascidas almas,
    (Formosura do Ceo) onze mil palmas.

      *      *      *      *      *




COMEDIAS.


INTERLOCUTORES.


DO PROLOGO.

    O MORDOMO, ou DONO DA CASA.
    MARTIM CHINCHORRO.
    AMBROSIO, Escudeiro.
    LANAROTE, Moo.


DA COMEDIA.

    ELREI SELEUCO.
    A RAINHA ESTRATONICA.
    O PRINCIPE ANTIOCHO.
    LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho.
    FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica.
    HUM PORTEIRO DA CANA.
    HUMA MOA DA CAMARA.
    HUM PHYSICO, ou MEDICO.
    SANCHO, Moo do Physico.
    ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos.



      *      *      *      *      *


ELREI SELEUCO.

COMEDIA.




PROLOGO.

_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._

Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz
representar huma Fara; e diz, que por no se encontrar com outras ja
feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi
arrazoado satisfazer. E diz que quem se della no contentar, querendo
outros novos acontecimentos, que se v aos soalheiros dos Escudeiros da
Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em
casa do Boticario; e no lhe faltar que conte. Porm diz o Autor que
usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto  obra, se no parecer
bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha
puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que
responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vs outros estudastes
para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber
da Fara, em que ponto vai. Lanarote?

MOO.

Senhor.

MORDOMO.

So ja chegadas as figuras?

MOO.

Chegadas so ellas quasi ao fim de sua vida.

MORDOMO.

Como assi?

MOO.

Porque foi a gente tanta, que no ficou capa com friza, nem talo de
apato, que no sahisse fra do couce. Ora viero huns embuadetes, e
quizero entrar por fra; ei-lo arrancamento na mo: dero huma pedrada
na cabea ao Anjo, e rasgro huma meia cala ao Ermito; e agora diz o
Anjo que no ha de entrar, at lhe no darem huma cabea nova, nem o
Ermito at lhe no prem huma estopada na cala. Este pantufo se perdeo
alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que no quero nada do
alheio.

MORDOMO.

Se elle fra outra pea de mais valia, tu botras a consciencia pela
porta fra, para o metteres em tua casa.

MOO.

Oh! se o elle fra, mais consciencia sera torn-lo a seu dono, quem o
havia mister para si.

MORDOMO.

Ora vem c: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos
c Auto com grande fogueira; que se venha sua merc para c, e que traga
comsigo o Senhor Romo d'Alvarenga, para que sbre o Canto-cho botemos
nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lanarote? ir-lhe-has abrir a
porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuido de entrar por
fra.

_Indo-se o Moo diz:_

Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma
bolsa com hum par de reales, que so bons para Escudeiro hypocrita; que
so pouco, e valem muito?

MORDOMO.

Moo, que ests fazendo que no vs?

MOO.

Senhor, estou tardando, e porm estou cuidando que se agora fra aquelle
tempo, em que corrio as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para
humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?

MORDOMO.

Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dir.

_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moo, e diz o Mordomo:_

No ha mais mao conselho, que ter hum villo destes mimoso, porque logo
passo o p alm da mo, e zombo assi da gravidade de seu amo. Mas
tornando ao que importa; vossas mercs he necessario que se cheguem huns
para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que ho de vir; que
de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, ser bom
mandar fazer outro alvalade; e mais, que me ho de fazer merc, que se
ho de desembuar, porque eu no sei quem me quer bem, nem quem me quer
mal: este s desgsto tee hum Auto, que he como offcio de Alcaide; ou
haveis deixar entrar a todos, ou vos ho de ter por villo ruim.

_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_

MARTIM.

Entre v. m.

AMBROSIO.

Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou
diante. Beijo as mos a v. m. A verdade he esta, passear em casa
juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; alm
disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de
fazer consciencia.

MORDOMO.

Senhor, o descanso dizem l, que se ha de ter em quanto homem puder,
porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu p, que seu
nome he.

MARTIM.

Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho
traz mais somno comsigo que huma prgao comprida.

MORDOMO.

Senhor, por bom mo vendro, e eu o tomei  cala de sua boa fama. E se
tal he, eu acho que, por outra parte, no ha tal vida, como ouvir hum
villo, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma
pera-po, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como
Apostolo, mais piedosa que huma lamentao.

MARTIM.

Para estes taes he grande pea rapaz travesso com mlho de junco, porque
no andem mais ao coscorro, mais roucos que huma cigarra, trazendo de
si enfadamento.

MOO.

O l Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro.
Ora sus, ha hi quem d mais? que ainda vos veja todas a mim s
rebatinhas: ora sus, venho de mano em mano, ou de mana em mana.

MORDOMO.

Moo, falla bem ensinado.

MOO.

Senhor, no faz ao caso; que os erros por amores tee privilegio
de Moedeiro.

AMBROSIO.

 rapaz, no me entendes? Pergunto-te se tardaro muito por entrar.

MOO.

Parece-me, Senhor, que antes que amanhea comearo.

AMBROSIO.

Oh que salgado moo! Zombas de mi? Vem c. Donde es natural?

MOO.

Donde quer que me acho.

AMBROSIO.

Pergunto-te onde nasceste.

MOO.

Nas mos das parteiras.

AMBROSIO.

Em que terra?

MOO.

Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida
daquella hora, que no havia palmo de terra nella.

MARTIM.

Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para
ver com que disparate respondes.

MOO.

A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.

MARTIM.

Vem c. De teu tio! E isso como?

MOO.

Como? Isto, Senhor, he adivinhao, que vossas mercs no entendem. Meu
pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamo aos filhos sobrinhos; e
daqui me ficou a mi ser filho de meu tio.

MARTIM.

Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?

MORDOMO.

Aqui me veio s mos sem pis nem nada; e eu por gracioso o tomei; e
mais tee outra cousa, que huma trova fa-la to bem como vs, ou como
eu, ou como o Chiado.

AMBROSIO.

No! quant disso ns havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto
se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?

MORDOMO.

Vem c, moo: dize aquella trova que fizeste  moa Briolanja, por amor
de mi!

MOO.

Senhor, si, direi; mas aquella trova no he seno para quem a entender.

MARTIM.

Como! To escura he ella?

MOO.

Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu no sei escrever
seno com carvo; e porm diz assi:

    Por amor de vs, Briolanja,
    Ando eu morto,
    Pezar de meu av torto.

MARTIM.

Oh como he galante! Que descuido to gracioso! Mas vem c: que culpa te
tee teu av nos desfavores que te tua dama d?

MOO.

Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, no pezarei eu antes dos
meus parentes, que dos alheios?

MORDOMO.

Pois ouo vossas mercs a volta; que he mais cheia de gavetas, que
trombeta de Serenissimo de la Valla.

MOO.

A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de
mergulho a entendero. E por isso mandem assoar os engenhos, e meto
mais huma sardinha no entendimento; e pde ser que com esta servilha lhe
calar melhor: e todavia palra assi:

    Vossos olhos to daninhos
    Me tratro de feio,
    Que no ha em meu corao
    Em que atem dous reis de cominhos.
    Meu bem anda sem focinhos
    Por vs morto,
    Pezar de meu av torto.

MARTIM.

Ora bem: que tee de ver os cominhos com o teu corao?

MOO.

Pois, Senhores, corao, bofes, bao e toda a outra mais cabedella, no
se podem comer seno com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era
tendeira; e este he o verdadeiro entendimento.

MARTIM.

E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me d tu a
entender; que ella no d nada de si.

MOO.

Nunca vossas mercs ouviro dizer: _Meu bem e meu mal lutro hum dia;
meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a
quda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por
ficarem to esfarrapados, que lhe no podio botar pedao; por conselho
dos Physicos lhos cortro por lhe nelles no saltarem erpes; e daqui
ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto.

AMBROSIO.

Tu fazes ja melhores argumentos, que moos de estudo por dia de S. Nicolao.

MARTIM.

Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moo he natural para Logico.

MOO.

Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas no to fria como vossas mercs.

MORDOMO.

Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moo, mete-te aqui por
baixo desta mesa, e ouamos este Representador, que vem mais amarrotado
dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira
da arca de cedro.

MARTIM.

Senhor, elle parece que aprende a cirurgio.

AMBROSIO.

Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos
verdes.

MORDOMO.

Emfim, parece figura de Auto em verdade.

_Entra o Representador._

    He lei de direito, assaz verdadeira,
    Julgar por si mesmos aquillo que vem;
    Peloque, se cuido que zombo de alguem,
    Eu cuido que zombo da mesma maneira.

E assi a qualquer parece que est mais dobrado, sem nenhum conhecer seu
proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o
dito todo de ponto em claro: mas no sou de culpar, porque no ha mais
que tres dias que mo dero. Mas em breves palavras direi a vossas mercs
a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo at  ponta. Entraro logo
primeiramente quinze donzellas que vo fugidas de casa de seus paes, e
vo com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos,
metidos em hum covo, cantando: _Quem os amores tee em Cintra_; e
despois de cantarem faro huma dana de espadas; cousa muito para ver:
entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo
Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e seme-los-ha
pela casa, de que nascer muito mantimento ao riso. E nisto fenecer o
Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma
alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-ho vossas mercs cada hum para suas
pousadas, ou consoaro c comnosco disso que ahi houver. Parece-me que
nenhum diz que no. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque
atgora zombei de vs, por me forrar do rro da representao, como quem
diz, _digo-to, antes que mo digas._

AMBROSIO.

Ora vos digo, Senhores, que se as figuras so todas taes, que acertario
em errar os ditos; aindaque me parece que este o no fez, seno a ser
mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor inveno que eu vi;
porque jagora representaes, todas he darem por praguentos; e so to
certas, que he melhor err-las, que acert-las.

MORDOMO.

Parece-me que entro as figuras de siso: vejamos se so to galantes na
prtica, como nos vestidos.


      *      *      *      *      *


_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._

REI.

    Senhora, desque a ventura
    Me quiz dar-vos por mulher,
    Me sinto emmeninecer;
    Porqu'em vossa formosura
    Perde a velhice seu ser.
    Hum homem velho, cansado,
    No tee fra, nem vigor,
    Para em si sentir amor:
    Se no he qu'estou mudado
    Com ser vosso n'outra cr.
    Muito grande dita tem
    A mulher que he formosa.

RAINHA.

    Senhor, grande: mas porm
    Se a tal he virtuosa,
    Quer-lhe a ventura mor bem.

REI.

    Si, mas porm nunca vemos
    A natureza esmerar
    Adonde haja que taxar;
    Que quando ella faz extremos,
    Em tudo quer-se extremar.
    Eu fallo como quem sente
    Em vs est calidade,
    Pelo que vejo presente;
    E se me esta mostra mente,
    Mente-me a mesma verdade.
    Huma s tristeza tenho
    Que no tee a meninice,
    Que no mor contentamento
    O trabalho da velhice
    Me embaraa o sentimento.

RAINHA.

    Senhor, novidades tais
    Far-me-ho crer de verdade...

REI.

    Novidades lhe chamais!
    Folgo, Senhora, que achais
    Na velhice novidades.

RAINHA.

    Senhor, dias ha que sento
    Em o Principe Anticho
    Certo descontentamento:
    Dera alguma cousa a trco
    Por saber seu sentimento.
    Vejo-lhe amarello o rosto,
    Ou de triste, ou de doente:
    Ou elle anda mal disposto,
    Ou l tee certo desgsto
    Que o no deixa ser contente.
    Mande, Senhor, vossa Alteza
    A cham-lo por alguem,
    Saberemos que mal tem,
    Se he doena de tristeza,
    De que nasce, ou de que vem.

REI.

    Certo qu'eu me maravilho
    Do que vos ouo dizer.
    Que mal pde nelle haver?
    Ide dizer a meu filho
    Que me venha logo ver.

RAINHA.

    Se curar no se procura
    Huma cousa destas tais,
    Vem despois a crescer mais.
    Quando ja no se acha cura,
    Toda a cura he por demais.

_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._

PRINCIPE.

    Leocadio, se es avisado,
    E no te falta saber,
    Saber-me-has dar a entender,
    Quem ama desesperado,
    Que fim espera de haver?

PAGEM.

    Senhor, no.
    Mas porm porque razo
    Lhe avem sab-lo, ou de que?

PRINCIPE.

    Pergunto-te a concluso;
    No me perguntes porque.
    Porque he minha pena tal,
    E de to estranho ser,
    Que me hei de deixar morrer;
    E por no cuidar no mal
    O no ouso de dizer.
    Que maneira de tormento
    To estranho e evidente,
    Que nem cuidar se consente!
    Porque o mesmo pensamento
    Ha medo do mal que sente.

PAGEM.

    No entendo a Vossa Alteza.

PRINCIPE.

    Assi importa  minha dor.

PAGEM.

    E porque razo, Senhor?

PRINCIPE.

    Para que seja a tristeza
    Castigo do meu temor.
    Porque ordena
    O Amor, que me condena,
    Que se haja de sentir,
    E sem dizer nem ouvir.
    Bem-aventurada a pena
    Que se pde descobrir!
    Oh caso grande e medonho!
    Oh duro tormento fero!
    Verdade he isto, qu'eu quero?
    No he verdade, mas sonho
    De que acordar no espero.
    Quero-me chegar a ElRei
    Meu pae, que ja m'est vendo.
    Mas onde vou? No m'entendo.
    Com que olhos eu olharei
    Hum pae, a quem tanto offendo?
    Que novo modo de antolhos!
    Porque neste atrevimento
    Devra meu sentimento
    Para elle no ter olhos,
    Nem para ella pensamento.

_Chega aonde est ElRei, e diz:_

REI.

    Filho, como andais assi?
    Que tanto desgsto tomo
    De vos ver como vos vi!

PRINCIPE.

    No sei eu tanto de mi,
    Que possa saber o como.
    Dias ha ja, Senhor, que ando
    Mal disposto, sem saber
    Este mal que possa ser;
    Que se nelle estou cuidando,
    Quasi me vejo morrer.

REI.

    Pois, filho, ser razo
    Que meus Physicos vos vejo.

PRINCIPE.

    Os Physicos, Senhor, no;
    Que os males qu'em mi esto,
    So curas que me sobejo.

RAINHA.

    Deite-se; que na verdade
    Hum corpo, deitado e manso,
    Descansa  sua vontade.

PRINCIPE.

    Senhora, esta enfermidade
    No se cura com descanso.

RAINHA.

    Todavia, bom ser
    Que lhe fao huma cama.

PRINCIPE.

    (Hum coxim abastar,
    Que assi no descansar
    O repouso de quem ama.)

REI.

    Vamos, filho, para dentro,
    Em quanto a cama se faz:
    Repousae como capaz;
    Que a mi me d c no centro
    A pena que assi vos traz.

_Vo-se, e vem huma moa a fazer a cama e diz:_

MOA.

    Mimos de grandes Senhores,
    E suas extremidades,
    Me ho de matar de amores,
    Porque de meros dulores
    Adoecem.
    Ento logo lhes parecem
    Aos outros, que so mamados;
    E os que so mais privados,
    Sbre elles estremecem.
    Certo (e assi Deos me ajude!)
    Que so muito graciosos,
    Porque de meros viosos,
    No podem com a saude.
    Mas deixallos,
    Porque elles daro nos vallos,
    Donde mais no se erguero,
    Inda que lhe dem a mo
    Os seus privados vassallos.

_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_

PORTEIRO.

    Traz, traz.

MOA.

                Jesu! Quem'st ahi?

PORTEIRO.

    Ja vs, mana, ereis mamada:
    Para vos levar furtada
    Nunca tal ensejo vi.
    E vs estais descuidada!

MOA.

    E meus descuidos que fazem?

PORTEIRO.

    Vossos descuidos? cadella!
    Ah minh'alma! Sois to bella,
    Qu'esses descuidos me trazem
    Dous mil cuidados  vela.
    Pois sou vosso ha tantos annos,
    Mana, tirae os antolhos,
    E vereis meus tristes dannos.

MOA.

    No tenhais esses enganos.

PORTEIRO.

    Nem vs tenhais esses olhos;
    Que de vossos olhos vem
    Esta minha pena fera.

MOA.

    De meus olhos? Assim era.

PORTEIRO.

    Moa, que taes olhos tem,
    Nenhuns olhos ver devra.

MOA.

    E porque?

PORTEIRO.

             Porque cegais
    A quantos olhos olhais,
    Postoque por vs padecem.
    Olhos, que to bem parecem,
    Porque no os castigais?

MOA.

    Deos d siso, pois de vs
    Tirou o que aos outros deu.

PORTEIRO.

    Desatae-me l esses ns.
    Que mais siso quero eu,
    Que no ter siso por vs?

MOA.

    Fallais d'arte; eu vos prometo
    Que a resposta vem  vela.
    Isso he lho de panella.
    Quanto ha ja que sois discreto?

PORTEIRO.

    Quanto ha ja que vs sois bella?

MOA.

    Dais-me logo a entender
    Que eu sou feia, a meu ver.

PORTEIRO.

    E isso porque o entendeis?

MOA.

    Porque? Porque me dizeis
    Que s de meu parecer
    Vos procede o que sabeis.

PORTEIRO.

    He verdade.

MOA.

                   Pois bem sento
    Que o vosso saber he vento.
    Fica a cousa declarada,
    Meu parecer no ser nada.

PORTEIRO.

    Olhae aquelle argumento:
    Alm de bella, avisada!
    Oh nem tanto, nem to pouco!
    Vde vs o que fallais.

MOA.

    Cego no saber andais.

PORTEIRO.

    No siso, mas no to louco
    Como vs, mana, cuidais.
    Ora dizei, duna m:
    Que no amais, quem vos ama?

MOA.

    Ouvistes vs cantar ja,
    _Velho malo, em minha cama?_
    Ja m'entendereis.

PORTEIRO.

                       Ha, ha.
    Senhora, estais enganada;
    Que com huma capa e espada,
    E com este capuz fra...

MOA.

    Ora bem: tirae-o ora,
    E fazei huma levada.

PORTEIRO.

    No: se m'eu hoje alvoro,
    Achar-me-heis d'outra feio.

_Aqui tira o capuz e diz:_

PORTEIRO.

    Tenho m disposio?
    Estas obras so de moo,
    Se as mostras de velho so.

MOA.

    Tendes mui gentis meneios.

PORTEIRO.

    No, Senhora; fao extremos.

MOA.

    Passeae ora, veremos
    Se tendes to bons passeios.

PORTEIRO.

    Tudo, Senhora, faremos.

MOA.

    Virae ora a essoutra mo.

PORTEIRO.

    Esta disposio vde-a;
    Que tenho gentil feio.

MOA.

    Tendes vs mui boa redea.
    Soffreis ancas?

PORTEIRO.

                   Isso no.

MOA.

    Por certo que tendes graa
    Em tudo quanto fizerdes.
    Fazei mais o que souberdes.

PORTEIRO.

    No sei cousa que no faa,
    Senhora, por me quererdes.

MOA.

    Tendes vs muito bom ar.

PORTEIRO.

    Mais qu'isto faz quem quer bem.

MOA.

    I-vos asinha, que vem
    O Principe a se deitar.

PORTEIRO.

    Nunca huma pessoa tem
    Hum'hora para fallar!

_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_

PRINCIPE.

    Seja a morte apercebida,
    Porque ja o Amor ordena
    A dar a meu mal sahida;
    Porque o fim da minha vida
    O seja da minha pena.
    No tarde, para tomar
    Vingana de meu querer,
    Pois no se pde dizer
    Que no tee ja que esperar,
    Nem com que satisfazer?
    Os Physicos vem e vo,
    Sem saberem minhas mgoas,
    Nem o pulso me acharo;
    E se o querem ver nas goas,
    As dos olhos lho diro.
    Se com sangrias tambem
    Procuro ver-me curado;
    O temor de meu cuidado
    O mais do sangue me tem
    Nas veias todo coalhado.
    Quero-me aqui encostar,
    Que ja o esprito me cae.
    Leocadio, vae-me chamar
    Os Musicos de meu Pae;
    Folgarei de ouvir cantar.

_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_

PRINCIPE.

    Senhora, qual desatino
    Me trouxe a tanta tristura?
    Foi, Senhora, por ventura
    A fra do meu destino,
    Como vossa formosura?
    Bem conheo que no posso
    Ter to alto pensamento;
    Mas disto s me contento,
    Que se paga com ser vosso
    O mor mal de meu tormento.

_Entro os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_

ALEXANDRE.

    Senhor, de que se acha mal
    O Principe, ou que mal sente?

PAGEM.

    Senhor, sei que est doente;
    Mas sua doena he tal,
    Qu'entender se no consente.
    Os Physicos vem e vo,
    Huns e outros a meude,
    Sem o poderem dar so.
    Quanto mais cura lhe do,
    Ento tee menos saude.
    O Pae anda em sacrificios
    Aos deoses, que lhe dem
    A saude que convem;
    Dizendo que por seus vicios
    O mal a seu filho vem.
    Eu suspeito qu'isto so
    Alguns novos amorinhos,
    Que tera no corao.

ALEXANDRE.

    Amores! com quem sero,
    Que lhe no dem de focinhos?

PORTEIRO.

    Senhores, que lhe parece
    Da doena de Anticho?

ALEXANDRE.

    Diga-lha quem lha conhece.

PAGEM.

    Que toma morrer a trco
    De callar o que padece.

PORTEIRO.

    Isso he estar emperrado
    Na doena; que he peor.
    Tee-no os Physicos curado?

ALEXANDRE.

    Oh! que de mal del amor
    No ha, Seor, sanador.

PORTEIRO.

    Fallais como exprimentado;
    Qu'eu cuido que esta fadiga,
    Que o faz com que desespere;
    Y por mas tormento quiere
    Que se sienta, y no se diga.

ALEXANDRE.

    Pois, Senhor meu, isso asselle,
    Porque a pena, que sabeis,
    Que eu cuido que est nelle,
    Dar-lhe-ha penas crueis,
    Pues no hay quien la consuele.

PORTEIRO.

    Folgo, porque m'entendeis.

PAGEM.

    Hemo-nos, Senhores, de ir,
    Porque nos est 'sperando.

PORTEIRO.

    Pois eu tambem hei de ir;
    Que no me posso espedir
    Donde vejo estar cantando.

PRINCIPE.

    Cantae, por amor de mi,
    Alguma cantiga triste;
    Que todo meu mal consiste
    Na tristeza em que me vi.

PORTEIRO.

    Mande-lhe cantar hum chiste.

ALEXANDRE.

    Chiste no, que he deshonesto,
    E no tee esses extremos:
    Outro canto mais modesto;
    Porm no sei que diremos.

PAGEM.

    Gaoleo o dir presto.

PORTEIRO.

    D licena V. Alteza
    Que diga minha teno?

PRINCIPE.

    Dizei: seja em canto-cho.

PORTEIRO.

    Pois crede qu'he subtileza.
    Qu'os Anjos a comero.
    Digo esta:
    _Enforquei minha esperana,
    E o Amor foi to madrao,
    Que lhe cortou o barao._

ALEXANDRE.

    No me parece essa boa.

PORTEIRO.

    Haja eu perdo,
    Porque no a entendero.

ALEXANDRE.

    Entender!

PORTEIRO.

                   Bof qu'he boa:
    No lhe cahis na feio?

ALEXANDRE.

    Dizei ora outra melhor,
    Com que nos atarraqueis.

PORTEIRO.

    Ora esperae, e ouvireis:
    Se a esta no dais louvor,
    Quero que me degolleis.

Cantiga.

    Com vossos olhos Gonalves,
    Senhora, captivo tendes
    Este meu corao Mendes.

ALEXANDRE.

    Essa parece mui taibo,
    Porque mostra bom indicio.

PORTEIRO.

    Vs cuidareis qu'eu que raivo.

ALEXANDRE.

    Todavia tee mao saibo.
    Ora mal lhe corre o offcio.

PRINCIPE.

    T, no v mais por diante
    A zombaria, que he m:
    Cantae qualquer dellas ja;
    Qu'esse Porteiro he galante,
    Ninguem o contentar.

_Aqui cnto, e em acabando, diz o_

PAGEM.

    Parece que adormeceo.

PORTEIRO.

    Pois ser bom que nos vamos.

ALEXANDRE.

    Senhor, quer que nos vejamos?

PORTEIRO.

    Senhor vir-me-ha do ceo:
    Releva-me que o faamos.

_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_

RAINHA.

    Frolalta, como ficava
    Anticho em te tu vindo?

FROLALTA.

    Ficava-se despedindo
    Da vida qu'ento levava,
    E assi seus dias cumprindo.

RAINHA.

    Oh grave caso d'amor!
    Desesperada affeio!
    Oh amor sem redempo,
    Que alli te fazes maior
    Onde tens menos razo!
    No mais alto e fundo pgo
    Alli tens maior porfia:
    Razo de ti no se fia.
    Quem a ti te chamou cego,
    Mui bem soube o que dizia.
    Por ventura hia chorando?

FROLALTA.

    Chorando hia e chamando
    Ao Amor, Amor cruel;
    E em, Senhora, se deitando
    Lhe cahio este papel.

RAINHA.

    Que papel?

FROLALTA.

             Este, Senhora.

RAINHA.

    Amostra, que quero l-lo.
    Agora acabo de cr-lo;
    Que ao que mostra por fra,
    Aqui lhe lanou o sello.

_Aqui l o papel e diz:_

RAINHA.

    Oh estranha pena fera!
    Desditosa vida chara!
    Oh quem nunca c viera,
    E com seu Pae no casra,
    Ou em casando morrra!

FROLALTA.

    Aindaque eu pca so,
    Senhora, tudo bem vejo.
    Attente, que na eleio
    O que lhe pede o desejo
    No consente o corao.

RAINHA.

    Frolalta, pois qu'es discreta
    Nada te posso encobrir;
    Porque, se queres sentir,
    A huma mulher discreta
    Tudo se ha de descobrir.
    O dia qu'entrei aqui,
    Que a Seleuco recebi,
    Logo nesse mesmo dia
    No Principe filho vi
    Os olhos com que me via.
    Este principio soffri-lho,
    Para ver se se mudava;
    Antes mais se accrescentava:
    Eu amava-o como filho,
    E elle d'outr'arte me amava.
    Agora vejo-o no fim
    Por se me no declarar.
    E pois ja que a isso vim,
    A morte que o levar,
    Me leve tambem a mim.
    Porque ja que minha sorte
    Foi to crua e desabrida,
    Que me no quer dar sahida;
    Sejamos juntos na morte,
    Pois o no somos na vida.
    Oh quem me mandou casar,
    Para ver tal crueldade!
    Ninguem venda a liberdade,
    Pois no pde resgatar
    Onde no tee a vontade.
    Que no ha mor desvario,
    Que o forado casamento
    Por alcanar alto assento;
    Que, emfim, todo o senhorio
    Est no contentamento.
    No sei se o v ver agora,
    Se ser tempo conforme,
    Ou se imos a deshora.

FROLALTA.

    Despois iremos, Senhora,
    Que agora dizem que dorme.

_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_

PHYSICO.

    Su madrasta oy nombrar,
    Y el pulso se le alter:
    Esto no entiendo yo,
    Porque para le alterar
    El corazon le oblig.
    Pues que el corazon se altere,
    Es porque en un momento
    Algun nuevo vencimiento
    De aficion terrible le hiere,
    Que causa tal movimiento.
    Pues que aficion cabe as
    Con madrasta? Digo yo,
    Dos razones hay aqui:
    La una dice, que s,
    La otra dice, que no.
    Empero yo determino
    De exprimentar la verdad,
    Y hacer una habilidad,
    Que declare es agua,  vino
    Esta su enfermedad.
    Porque toda esta maana
    Tengo estudiado su mal,
    Sin ver causa efectual
    De su dolencia inhumana,
    Ni otra de su metal.
    Llamar quiero este asnejon;
    Mas aun debe de dormir,
    Segun que es dormilon.
    Sancho?  Sancho?

SANCHO.

                    Ah Seor.

PHYSICO.

    Ea, aun ests dormiendo?

SANCHO.

    Estoyme, Seor, vestiendo.

PHYSICO.

    Pues vellaco y sin sabor,
    No me respondes dormiendo?
    Vestios presto, ladron.
    Oh qu mozo, y qu ventura!

SANCHO.

    (Mas qu amo y qu cabron!)
    Embeme ac el ropon,
    Que no hallo mi vestidura.

PHYSICO.

    Que embie el ropon ac?
    Parece que os desmandais.

SANCHO.

    Que vaya, Seor? ha, ha.
    Que buenos dias hayais.

_Entra o moo embrulhado em huma manta, e diz:_

PHYSICO.

    Di como vienes as
    Con la manta, y para qu?

SANCHO.

    Yo, Seor, se lo dir:
    Por venir presto vest
    Lo que mas presto me hall:
    Porque viendo que l me llama,
    Dormiendo yo sin afan,
    Salt presto de la cama,
    Que parezco un gavilan,
    Hermoso como una dama.

PHYSICO.

    Mas es tu bovedad tanta,
    Que vienes desta facion?

SANCHO.

    De mi vestido se espanta?
    De noche sirve de manta,
    Y de dia de ropon.

PHYSICO.

    Embime ElRey  llamar
    Otra vez.

SANCHO.

               Y  m?

PHYSICO.

                           Y  ti!

SANCHO.

    Y l qu presta all sin m?

PHYSICO.

    Qu puedes tu aprovechar?

SANCHO.

    Yo se lo dir de aqui:
    Si por la ventura quiere
    Para que le d consejo,
    Cuando doliente estuviere;
    Digo, coma, si pudiere,
    Y beba buen vino anejo;
    Porque este es el licor
    Que d fuerza, y es sabroso;
    Que segun dicen, Seor,
    _Vinum loetificat cor
    Hominis_, y le es provechoso.

PHYSICO.

    Ya sabes la medicina,
    Que Avicena nos refiere.

SANCHO.

    Pues, Seor! porque es divina.
    Pero ElRey qu le quiere,
    Qu manda,  qu determina?

PHYSICO.

    El Principe est doliente.

SANCHO.

    Oh mesquino! Y qu mal ha?

PHYSICO.

    Y  ti, necio, que te v?

SANCHO.

    O Seor, que es mi pariente!

PHYSICO.

    Gracioso el bovo est.
    Y pues dme por tu f:
    Llorars si se muriere?

SANCHO.

    No, Seor, no llorar;
    Empero, Seor, har
    La peor cara que pudiere.

PHYSICO.

    Ea, bovo, v corriendo,
    Y ensilla la mula ayna.

SANCHO.

    Vngala ensillar mejor.

PHYSICO.

    Oh velhaco, y sin sabor!

SANCHO.

    Yo por cierto no lo entiendo.
    Pero una medicina
    Le he de pedir, Dios queriendo,
    (Porque ando atribulado,
    Y no s parte de mi
    Con este nuevo cuidado)
    Para un sayo esfarrapado,
    Que me dicen hay all.

PHYSICO.

    Ora ensilla; y nunca viva,
    Pues sufro tus desatinos.

SANCHO.

    Seor, pasion no reciva:
    _Ya cavalga Calanos
    A la sombra de una oliva._

_Aqui sahe bolindo com a almofaa, e acorda o Principe e diz:_

PRINCIPE.

    Oh bella vista e humana,
    Por quem tanto mal sostenho!
    Oh Princeza soberana!
    Como? nos braos vos tenho,
    Ou este sonho m'engana?
    Pois como, sonho, tambem
    Me queres vir magoar?
    E para me atormentar
    Mostras-me a sombra do bem
    Para assi mais m'enganar?
    Assi que, com quanto canso,
    Ja no posso achar atalho,
    Pois que o somno quieto e manso,
    Que os outros tee por descanso,
    Me vem a mi por trabalho.
    Pois ha hi tantos enganos
    Que condemno minha sorte;
    No o tenho ja por forte,
    Se  volta de tantos danos
    Viesse tambem a morte.

_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_

REI.

    Andae e vde se achais
    O rasto deste segredo,
    Que me dizem que alcanais;
    Ainda que tenho medo
    Que lhe seja por demais.

PHYSICO.

    Plega  Dios que aqueste sea
    Para salud y remedio
    Desta dolencia tan fea.
    Yo buscar todo el medio,
    Que presto sano se vea.

_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_

PHYSICO.

    Aflojen, Seor, sus ais.
    Como se halla en su penar?

PRINCIPE.

    Como me acho perguntais?
    E como se pde achar
    Quem sempre se perde mais?

PHYSICO.

    (La respuesta abre el camino.)
    Imagina de contino?

PRINCIPE.

    No tenho outro mantimento,
    Nem outro contentamento,
    Seno o em que imagino.

_Aqui entra a Rainha e diz:_

RAINHA.

    Como se sente, Senhor?
    Tee a febre mais pequena?

PRINCIPE.

    Responda-lhe minha pena.

PHYSICO.

    (Conocido es su dolor.
    Ora sea en hora buena,
    Tomada est la tristeza
     las manos.) Qu senti?
    (Usar de subtileza.)

_Diz contra ElRei:_

    Cmpleme que solo yo
    Platique con Vuestra Alteza.

REI.

    Cheguemos-nos para c.

RAINHA.

    No deve desesperar,
    Qu'em fim, se bem attentar,
    Para tudo o tempo d
    Tempo para se curar.

PRINCIPE.

    Que cura poder ter
    Quem tee a cura, Senhora,
    No impossivel haver?

RAINHA.

    Ficae-vos, Senhor, embora,
    Que vos no sei responder.

_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_

REI.

    Neste mal, que no comprendo,
    Que meio dais de conselho?

PHYSICO.

    Seor, nada entiendo dello;
    Y supuesto que lo entiendo,
    Yo quisiera no entendello.

REI.

    Porque?

PHYSICO.

            Porque he entendido
    Lo mas malo de entender,
    Para lo que puede ser,
    Porque anda, Seor, perdido
    De amores por mi muger.

REI.

    Santo Deos! que! tal amor
    Lhe d doena to fera!
    Que remedio achais melhor?

PHYSICO.

    Forado ser que muera,
    Porque no muera mi honor.

REI.

    Pois como! a hum s herdeiro
    Deste Reino no dareis
    Vossa mulher, pois podeis;
    Que tudo faz o dinheiro?
    Pois este no o engeiteis;
    Dae-lha, porque eu espero
    De vos dar dinheiro e honra,
    Quanto eu para elle quero.

PHYSICO.

    No tira el mucho dinero
    La mancha de la deshonra.

REI.

    Ora bem pouco defeito!
    He pequice conhecida,
    Quando deixa de ser feito;
    Porque com elle dais vida
    A quem vos dara proveito.

PHYSICO.

    Cuan facilmente aporfia
    Quien en tal nunca se vi!
    Del consejo que me di,
    Vuestra Alteza que haria
    Si agora fuese yo?

REI.

    A mulher que eu tivesse
    Dar-lha-hia. Oxal
    Que elle a Rainha quizesse!

PHYSICO.

    Pues dla, si le parece,
    Que por ella muerto est.

REI.

    Que me dizeis?

PHYSICO.

                 La verdad.

REI.

    Sem dvida, tal sentistes?

PHYSICO.

    Sin duda, sin falsedad.
    Pues, Seor, ahora tomad
    Los consejos que me distes.

REI.

    Certamente, qu'eu o via
    Em tudo quanto fallava.
    Como o vistes? porque via?

PHYSICO.

    Nel pulso, que se alterava
    Si la via,  si la oia.

REI.

    Que maneira ha de haver?
    Qu'eu certo me maravilho,
    Possa mais o amor do filho,
    Do que pde o da mulher.
    Finalmente hei-lha de dar,
    Que a ambos conheo o centro.
    Quero-o ir alevantar,
    E iremos para dentro
    Neste caso praticar.

_Diz contra o Principe:_

    Levantae-vos, filho, d'hi
    O melhor que vs puderdes,
    E vindo-vos para aqui;
    Porque, emfim, o que quizerdes
    Tudo havereis de mi.

PAGEM.

    Ah Senhores, oul, ou?

PORTEIRO.

    Viestes em conjuno
    A melhor que pde ser:
    Haveis aqui de fazer
    A tosquia a hum rifo.

PAGEM.

    Deixae-me, Senhor, dizer:
    Haveis isto de acabar,
    Corao, hi bugiar,
    No esteis preso en cadenas,
    Que pois o amor vos deo penas,
    Que vos lanceis a voar.

PORTEIRO.

    Por certo que bem comprou.

PAGEM.

    Ora sabeis o que vai?
    Antiocho que casou
    Com a mulher de seu Pai,
    E o mesmo Pae o ordenou.

PORTEIRO.

    Isso como?

PAGEM.

                   No o sei;
    Porque dizem que a amava,
    E que s por ella andava
    Para morrer; e ElRei
    Deo-a a quem a desejava.

PORTEIRO.

    Se o casa por querer bem
    Com a moa, a quem elle ama,
    Direi eu que a mim me inflama
    O amor mais que a ninguem.

PAGEM.

    Pois pedi-lhe a nossa dama.

PORTEIRO.

    Por So Gil, que ei-los c vem,
    Elle pela mo com ella.

_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mo, e diz:_

REI.

    Que mais ha hi que esperar?
    Olhae qu'estranheza vai!
    O muito amor ordenar,
    Ir-se o filho namorar
    D'huma mulher de seu Pai!
    Querer bem foi sua dor,
    Negar-lha ser crueldade;
    Assi que ja foi bondade
    Usar eu de tal amor,
    E de tal humanidade.
    Ella deixou de reinar
    Como fazia primeiro
    Por se com elle casar;
    E por amor verdadeiro
    Tudo se pde deixar.
    Eu que nella tinha psto
    Todo o bem de meu cuidado,
    Deixei mais que ella ha deixado;
    Que mais se deixa no gsto,
    Que no poderoso estado.
    Mas ja que tudo isto vemos,
    Hajo festas de prazer,
    As que melhor posso ser;
    Porqu'em to grandes extremos,
    Extremos se ho de fazer.
    Hajo cantos para ouvir,
    Jogos, prazeres sem fundo;
    Porque, se quereis sentir,
    Deste modo entrou o mundo,
    E assi ha de sahir.

_Aqui vem os Musicos e cnto, e depois de cantarem, sahem-se todas as
figuras, e diz_

MARTIM CHINCHORRO.

Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos;
ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor
festa que pde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das
figuras nos acolheremos. Moo, accende esse mlho de cavacos, porque faz
escuro, no vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruo
e as canastras.

ESTACIO DA FONSECA.

No, Senhor, mas o meu Pilarte ir com elles com hum par de ties na
mo; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvo-se desta
pousada; e no tenho isto por palavras, porque essas e plumas, o vento
as leva.

      *      *      *      *      *




OS AMPHITRIES,

COMEDIA.


INTERLOCUTORES.

    AMPHITRIO.
    ALCMENA, sua mulher.
    CALLISTO.
    FELISEO.
    SOSEA, moo de Amphitrio.
    BROMIA, sua criada.
    BELFERRO, Patro.
    AURELIO, Primo de Alcmena.
    HUM MOO DE AURELIO.
    JUPITER.
    MERCURIO.


OS AMPHITRIES,

COMEDIA.




ACTO PRIMEIRO.


SCENA I.

_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._

ALCMENA.

    Ah Senhor Amphitrio,
    Onde est todo meu bem!
    Pois meus olhos vos no vem,
    Fallarei co'o corao,
    Que dentro n'alma vos tem.
    Ausentes duas vontades,
    Qual corre mores perigos,
    Qual soffre mais crueldades,
    Se vs entre os inimigos,
    Se eu entre as saudades?
    Que a ventura, que vos traz
    To longe de vossa terra,
    Tantos desconcertos faz,
    Que se vos levou  guerra,
    No me quiz leixar em paz.
    Bromia, quem com vida ter,
    Da vida ja desespera,
    Que lhe poders dizer?

BROMIA.

    Que nunca se vio prazer,
    Seno quando no se espera.
    E por tanto no devia
    De ter triste a phantasia;
    Porque Vossa Merc creia,
    Que o prazer sempre salteia
    Quem delle mais desconfia.
    Eu tenho no corao,
    Do Senhor Amphitrio
    Venha hoje alguma nova:
    No receba alterao,
    Que a verdadeira affeio
    Na longa ausencia se prova.

ALCMENA.

    Dizei logo a Feliseo
    Que chegue muito apressado
    Ao caes, e busque mo
    De saber se algum recado
    Do porto Persico vo:
    E mais lhe haveis de dizer,
    (Isto vos dou por offcio)
    D'alguma nova saber,
    Em quanto eu vou fazer
    Aos Deoses o sacrificio.


SCENA II.

BROMIA.

    Saudades de minh'ama,
    Chorinhos e devoes,
    Sacrificios e oraes,
    Me ho de lanar n'huma cama,
    Certamente.
    Ns mulheres de semente
    Somos sedenho mui tosco:
    Com qualquer vento que vente,
    Queremos foradamente
    Que os Deoses vivo comnosco.
    Quero Feliseo chamar,
    E dizer-lhe aonde ha de ir.
    Mas elle como me vir,
    Logo ha de querer rinchar,
    De travesso.
    Eu que de zombar no cesso,
    Por ficar com elle em salvo,
    Lano-lhe hum e outro remsso;
    Aos seus furto-lhe o alvo;
    E ento elle fica avesso.
    Porque o melhor destas danas,
    Com huns vindios assi,
    He traz-los por aqui
     cheiro das esperanas,
    Por viver.
    Ha-os homem de trazer
    Nos amores assi mornos,
    S para ter que fazer;
    E despois ao remetter
    Lanar-lhe a capa nos cornos.
    Feliseo, se estais  mo,
    Chegae c, vem como hum gamo:
    Bem sei que no chamo em vo.


SCENA III.

_Feliseo e Bromia._

FELISEO.

    Chamais-me? tambem vos chamo;
    Porm eu ouo, e vs no:
    Senhora, que me matais,
    Se vs ja nunca me ouvis,
    Ou me ouvis, e vos callais,
    Dizei: porque me chamais
    Se me vs a mim fugis?

BROMIA.

    Eu vos fujo?

FELISEO.

                    Fugis, digo,
    De dar a meus males cabo.

BROMIA.

    Sabei que desse perigo
    No fujo como de imigo,
    Fujo como do diabo.

FELISEO.

    Dae ao demo essa teno,
    Usae antes de corts,
    Cahi vs nesta razo.

BROMIA.

    Do p'rigo fogem os ps,
    Do diabo o corao.

FELISEO.

    Dizeis-me que nessa briga
    Do meu corao fugis.

BROMIA.

    Ainda qu'eu isso diga...

FELISEO.

    Ah minha doce inimiga!
    Bem sinto que me sentis.
    Mas para que me chamais?

BROMIA.

    Manda-vos minha Senhora
    Que chegueis daqui ao cais,
    E algumas novas saibais
    D' Amphitrio nesta hora.

FELISEO.

    Quem as no sabe de si,
    D'outrem como as sabera?

BROMIA.

    No as sabeis vs de mi.

FELISEO.

    M trama venha por ti,
    Duna feiticeira m!
    Porque no me lhas direito,
    Cadella, que assi me cortas?

BROMIA.

    Porque vos quero dar portas;
    Que s'eu olhar d'outro geito,
    Trarei cem mil vidas mortas.

FELISEO.

    E pois para que me andais
    Enganando ha cem mil annos?

BROMIA.

    Dou-vos vida com enganos.

FELISEO.

    Nesses enganinhos tais
    Acho crueis desenganos.

BROMIA.

    Quant'esses vos quero eu dar:
    Vs cuidais que estais na sella?
    Pois podeis-vos descer della;
    Qu'eu nunca vos pude olhar.

FELISEO.

    Jogais comigo  panella?
    Tendes-me ha tanto captivo,
    E desenganais-me agora?
    Tudo isto he o que privo.
    Assi que he isso, Senhora,
    Dochelo morto, dochelo vivo?
    Se me vs desenganais
    No cabo de tantos annos,
    Direi, se licena dais,
    Dais-me vida com enganos,
    Desenganos, ja chegais.
    Mas se isso havia de ser,
    Dizei, m desconhecida,
    Destrro de meu viver,
    Que vos custava dizer
    Amor, vae buscar tua vida?

BROMIA.

    Zombais? Fallais-me coprinhas?

FELISEO.

    Rir-vos-heis se vem  mo:
    Copras no, mas isto so
    Ansias y pasiones minhas
    Dos bofes e corao.

BROMIA.

    Is-vos fazendo d'huns sengos.....

FELISEO.

    Perdneme Dios si peco.

BROMIA.

    Nesses dentinhos framengos
    Conheo que sois hum pco
    De todos quatro avoengos.

FELISEO.

    Tudo vos levo em capelo,
    Ja qu'estais tanto em agrao.
    Porm, fallando singelo,
    A furto desse mao zlo,
    Quereis-me dar hum abrao?

BROMIA.

    Ora digo que no posso
    Usar comvosco de fero:
    Tomae-o.

FELISEO.

              Ja o no quero,
    Porque esse abrao vosso,
    Sabei que he engano mero.

BROMIA.

    Oh! vs sois d'huns sensabores...
    Abrao pedis assim?
    S'eu remango d'hum chapim...

FELISEO.

    Tudo isso so favores:
    Zombae, vingae-vos de mim.

BROMIA.

    Vs de furioso touro
    As garrochas no sentis.

FELISEO.

    Vedes, com isso s mouro:
    Quando cuido que sois ouro,
    Acho-vos toda ceitis.

BROMIA.

    Emfim, sanha de villo
    Vos fez perder hum bom dia.

FELISEO.

    Jagora o eu tomaria;
    Quereis-mo dar?

BROMIA.

                     Ora no.
    Cocei-vos eu todavia.

FELISEO.

    Pois, Senhora, a quem vos ama
    Sois to desarrazoada,
    Quero tomar outra dama;
    Que no digo os d'Alfama
    Que no tenho namorada.

BROMIA.

    Deixae-me.

FELISEO.

                 Vs me deixais.

BROMIA.

    Deixae-me.

FELISEO.

               Zombais de mi?

BROMIA.

    Deixae-me. Pois m'engeitais,
    Eu me ausentarei daqui
    Onde me mais no vejais.

FELISEO.

    Boa est a zombaria!

BROMIA.

    No so essas minhas manhas.

FELISEO.

    Porm is-vos todavia?

BROMIA.

    Voyme  las tierras estraas.
    Ad ventura me guia.


SCENA IV.

_Feliseo s._

    Phantasias de donzellas,
    No ha quem como eu as quebre;
    Porque certo cuido ellas,
    Que com palavrinhas bellas
    Nos vendem gato por lebre.
    Esta tee l para si
    Qu'eu sou por ella finado;
    E cr que zomba de mi;
    E eu digo-lhe que, si,
    Sou por ella esperdiado.
    Preza-se d'humas seguras;
    E eu no quero mais Frandes:
    Dou-lhe trela s travessuras,
    Porque destas coaduras
    Se fazem as chagas grandes.
    Qu'estas, que ando sempre  vela,
    Estas vos digo eu que coo;
    Porque de firmes na sella,
    Crem que falso a costella,
    E fico pelo pescoo.
    Que quando estas damas tais
    Me cacho, ento recacho.
    Mas disto agora n mais.
    Quero-me ir daqui ao cais
    Ver se algumas novas acho.


SCENA V.

_Jupiter e Mercurio._

JUPITER.

    Oh grande e alto destino!
    Oh potencia to profana!
    Que a setta d'hum menino
    Faa que meu ser divino
    Se perca por cousa humana!
    Que m'aproveito os ceos,
    Onde minha essencia mora
    Com tanto poder, se agora
    A quem me adora por deos,
    Sirvo eu como a senhora?
    Oh quo estranha affeio!
    Quem em baixa cousa vai pr
    A vontade e o corao,
    Sabe to pouco d'Amor,
    Quo pouco Amor de razo.
    Mas que remedio hei de ter
    Contra mulher to terribil,
    Que se no pde vencer?

MERCURIO.

    Alto Senhor, teu poder
    O difficil faz possibil.

JUPITER.

    Tu no vs qu'esta mulher
    Se preza de virtuosa?

MERCURIO.

    Senhor, tudo pde ser;
    Que para quem muito quer,
    Sempre a affeio he manhosa.
    Seu marido est ausente
    Na guerra, longe daqui;
    Tu, qu'es Jupiter potente,
    Tomars sua frma em ti;
    Que o fars mui facilmente.
    E eu me transformarei
    Na de Ssea, criado seu;
    E ao arraial me irei,
    Onde logo saberei
    Como se a batalha deu.
    E assi poders entrar,
    Em lugar de seu marido;
    E para que sejas crido,
    Poders tambem contar
    Quanto eu l tiver sabido.

JUPITER.

    Quem arde em tamanho fogo
    Tira-lhe a virtude a cr
    De subtil e sabedor;
    E quem fra est do jgo
    Enxrga o lano melhor.
    Mas tu, que dos sabedores
    Tanto avante sempre ests,
    Se deos es dos mercadores,
    S-lo-has dos amadores,
    Pois tal remedio me ds.
    Ponha-se logo em effeito;
    Que no soffre dilao
    Quem o fogo tee no peito;
    E tu vae logo direito
    Aonde anda Amphitrio.


SCENA VI.

_Feliseo e Callisto._

FELISEO.

    Ad bueno por aqui,
    To longe do acostumado?

CALLISTO.

    Mais longe vou eu de mi,
    D'ir perto de meu cuidado.

FELISEO.

    No andar vos conheci.

CALLISTO.

    E vs onde vos lanais,
    Com vossa contemplao?

FELISEO.

    Eu chego daqui ao cais
    A saber de Amphitrio:
    No sei se vou por demais.

CALLISTO.

    Porque por demais dizeis?

FELISEO.

    Porque nada alli ha certo.

CALLISTO.

    Novas l no as busqueis,
    Que aqui as tendes mais perto.

FELISEO.

    Pois dae-mas ja, se as sabeis.

CALLISTO.

    Hum navio he ja chegado
     barra, que vem de l;
    Traz de Amphitrio recado,
    Diz que o deixa embarcado
    Para se vir para c.
    Tee vencido aquelle Rei;
    E diz, segundo lhe ouvi,
    Qu'esta noite ser aqui.

FELISEO.

    Essas novas levarei
    A Alcmena, que torne em si,
    Porque ella tee maior guerra
    Co'os temores de perdello,
    Qu'elle co'o Rei dessa terra.

CALLISTO.

    Onde amor lanar o sello,
    Nenhuma cousa o desterra.
    Porqu'inda que o pensamento
    Vos fique, Senhor, em calma,
    Por morte ou apartamento;
    Sempre vos l fico n'alma
    As pgadas do tormento.

FELISEO.

    Isso he hum segredo mero,
    A que o amor nos obriga:
    Por isso em caso to fero,
    Senhor, nunca ninguem diga,
    Ja lho quiz, e no lho quero.
    Eu quiz bem a huma mulher,
    Que vs conhecestes bem,
    E, com muito lhe querer,
    Casou-se.

CALLISTO.

              Oh! e com quem?
    Que ainda o no posso crer.

FELISEO.

    Com hum Mercador, que veio
    Agora do Egypto, rico.

CALLISTO.

    Isso traz goa no bico.
    Esse homem he parvo, ou feio?

FELISEO.

    Pois vdes? disso me pico.
    E em pago desta traio,
    Afra outros mil descontos
    Que traz comsigo a affeio,
    Sempre os signaes destes pontos
    Trarei no meu corao.

CALLISTO.

    Viste-la mais?

FELISEO.

                 Senhor, vi,
    Na janellinha da grade;
    Passei, e disse-lhe assi:
    Casada sem piedade,
    Porque no a haveis de mi?

CALLISTO.

    Que vos disse?

FELISEO.

                 L no centro
    Lh'enxerguei pouca alegria;
    E como quem lhe dohia,
    Metendo-se para dentro
    Disse: Ja pas folia.

CALLISTO.

    Ah m sem conhecimento!
    Quem lhe dsse mil chofradas!

FELISEO.

    Senhor, como so casadas,
    Caso-se co'o esquecimento
    Das cousas que so passadas.

CALLISTO.

    Lembranas de vos deixar
    Picar-vos-ho como tojos.

FELISEO.

    Senhor, haveis d'assentar
    Que onde amor vos quer matar,
    Siempre all miran los ojos.
    Hum motete lhe mandei
    Hum dia, estando com febre,
    S da paixo que tomei.

CALLISTO.

    Pois vejamos quem tee lebre.

FELISEO.

    Senhor, eu vo-lo direi.

Mote.

    Vs por outrem, e eu por vs;
    Vs contente, e eu penado;
    Vs casada, eu cansado.
    Polos santos de minha dona!

CALLISTO.

    Senhor, vs s o fizestes?

FELISEO.

    Si, que ninguem me ajudou.

CALLISTO.

    Se vs s o compuzestes,
    Crede, que extremos dissestes.
    Nunca Orlando tal fallou.
    Senhor, fizestes-lhe p?

FELISEO.

    Senhor, si; e todo hum anno...
    Vs zombais, se no m'engano?

CALLISTO.

    No, mas dou-vos minha f
    Que nunca vi to bom panno.

FELISEO.

    Ora olhe vossa merc.

Volta.

    Olhae em quo fundos vaos
    Por vossa causa me affgo,
    Que outro me ganha no jgo,
    E eu triste pago os paos.
    Olhos travessos e maos,
    Inda eu veja o meu cuidado
    Por esse vosso trocado.

CALLISTO.

    No mais, qu'isso me degola.

FELISEO.

    Senhor, eu haja perdo.

CALLISTO.

    Fizestes esse rifo
    Em algum jgo de bola?
    E foi-lhe elle ter  mo?

FELISEO.

    Digo-vos que o vio, e lho leo
    Hum moozinho d'escola.

CALLISTO.

    Est isso assi do ceo.
    Sabe ella jogar a bola?

FELISEO.

    No.

CALLISTO.

         Pois no vos entendeo.
    Ora eu ja cheguei a ler
    Petrarca, e crede de mi
    Que nunca tal cousa vi.
    Onde mora o bom saber,
    Logo d sinal de si.
    Onde _casada_ puzestes,
    Dizei, porque no dissestes
    _La que yo vi por mi mal._

FELISEO.

    Renunciava o metal;
    Qu'em rifeszinhos como estes,
    Ha-se-de pr tal com tal.
    Que a trova trigo-tremez
    Ha de ser toda d'hum pano;
    Que parece muito Ingrez
    N'hum pelote Portuguez
    Todo hum quarto Castelhano.
    Ouvi outra tambem minha,
    Que fiz a certa teno,
    Clara, leve, bonitinha,
    De feio, que esta trovinha,
    He trovinha de feio.
    Como eu hum dia me visse
    Morto, e a mo na canda,
    E ella no me acodisse;
    Fiz-lhe esta, porque sentisse
    Que dava os fios  ta.
    E o propsito he
    Andar eu hum dia s;
    E para que houvesse d
    De mi e de minha f,
    Lamentei-lhe como J.

CALLISTO.

    Andastes, Senhor, mui bem.

FELISEO.

    Ora, Senhor, attentai,
    E vde o saibo que tem;
    Se he para a ver alguem.

CALLISTO.

    Ora dizei.

FELISEO.

              Ei-la vai.

Trova.

    Corao de carne crua,
    V-lo teu amor aqui,
    Que esmorecido por ti
    Jaz no meio desta rua?

CALLISTO.

    Na rua, Senhor, jazia?
    E era em tempo de lama?

FELISEO.

    Senhor, quem falla a quem ama,
    De si mesmo se no fia:
    Haveis de mentir  dama.

CALLISTO.

    Volta disso?

FELISEO.

                 Singular,
    Seno que he muito sentida;
    Far-vos-ha, Senhor, chorar.

CALLISTO.

    Oh! diga, por sua vida!

FELISEO.

    Farei o que me mandar.

Volta.

    Porque no has delle mgoa,
     dura mais que ninguem,
    Que anda o triste, que no tem
    Quem lhe d huma vez d'goa?
    No lhe negues teu querer,
    Pois te no custa dinheiro;
    Que, emfim, por derradeiro
    A terra te ha de comer.

CALLISTO.

    Tal trova nunca se vio.
    Agorentaste-la ja?

FELISEO.

    Senhor, no; ainda est
    Como a sua me pario;
    E no est muito m.

CALLISTO.

    He trova, que tee por seis;
    No a posso mais gabar.
    Mas, pois, tal cousa fazeis,
    Senhor, no m'ensinareis
    Donde vem to bem trovar?

FELISEO.

    No he a cousa to pequena,
    Como, Senhor, a fizestes,
    Essa que agora dissestes.
    Mas porm vou dar a Alcmena
    Estas novas que me dstes.
    Despois, Senhor, nos veremos;
    Ficae ja roendo esse osso.

CALLISTO.

    O roer, Senhor, he vosso.

FELISEO.

    Pois eu, por mais que zombemos,
    Hei de ser vosso e revosso.

CALLISTO.

    Oh!.. Escusae-vos d'extremos,
    Qu'isso, Senhor, me atarraca.
    Mas ns nos encontraremos,
    E sbre isso envidaremos
    Dous reales mais de saca.




ACTO SEGUNDO.


SCENA I.

_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na frma de Amphitrio,
Mercurio na de Sosea escravo._

JUPITER.

    Mercurio, pois sou mudado
    Nesta frma natural,
    lha e nota com cuidado,
    Se est em mi o pintado
    Apparente co'o real.

MERCURIO.

    Quem to proprio se transforma.
    Tenho por opinio,
    Que na tal transformao
    Lhe prestou natura a frma,
    Com que fez Amphitrio.

JUPITER.

    Pois tu no gesto e na cr
    Ests Ssea escravo seu.

MERCURIO.

    Muito mais faras, Senhor.

JUPITER.

    No o faz seno o Amor,
    Que nisto pde mais qu'eu.

MERCURIO.

    Ja, Senhor, te fiz meno
    Como deo Amphitrio
    A ElRei Terela a morte;
    Que, na guerra igual, a sorte
    Pde mais que o corao.
    E despois de ser tomada
    Toda a Cidade, com gloria
    D'Amphitrio bem ganhada,
    Como em sinal de victoria,
    Esta copa lhe foi dada.
    Por ella bebia ElRei,
    Em quanto a vida queria;
    E eu, porque te cumpria,
    A seu escravo a furtei,
    Que n'huma caixa a trazia.
    Esta poders levar
    A Alcmena, por lhe mostrar
    Verdadeiro, o que he fingido;
    E dest'arte sers crido,
    Sem mais outro ardil buscar.

JUPITER.

    Pois tudo tens ordenado
    Por to nova e subtil arte;
    Como me vires entrado,
    Irs dar este recado
    A Phebo de minha parte:
    Que faa mais devagar
    Seu curso neste Hemispherio.
    Que o que soe acostumar;
    Qu'esta noite hei de ordenar
    Hum caso de alto mysterio.
    E  Esphera mais alta
    Mandars que fixa esteja,
    Porque a noite maior seja:
    Porque sempre o tempo falta,
    Onde a alegria he sobeja.
    E ters tamanho tento,
    Que como isto se ordenar,
    Venhas aqui vigiar,
    Porque meu contentamento
    Ninguem mo possa estorvar.

MERCURIO.

    Seja feito sem debate
    Tudo como te convem.

JUPITER.

    Pois no parece ninguem,
    Como homem de casa bate,
    E muda a falla tambem.

MERCURIO, _batendo  porta_.

     de la casa, en buena hora,
    Darmehan de cenar aqui?

BROMIA _dentro_.

    Ssea parece que ouvi:
    Alviaras, minha Senhora,
    Que na falla o conheci.


SCENA II.

_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._

ALCMENA.

    Zombais, Bromia, por ventura?

BROMIA.

    Senhora, no zombo, no.

ALCMENA.

    Vejo eu Amphitrio,
    Ou a vista me afigura
    O qu'est no corao?

JUPITER.

    Olhos, diante dos quais
    Desejei mais este dia,
    Que nenhuma outra alegria,
    Senhora, nunca creais
    Que lhe minta a phantasia.

ALCMENA.

    Oh presena mais querida
    Que quantas formou Amor!
    Isto he verdade, Senhor?
    Acabe-se aqui a vida,
    Por no ver prazer maior.

JUPITER.

    Pois esta hora de vos ver
    Alcanar, Senhora, pude;
    Para mais contente ser,
    Conformem co'este prazer
    Novas de vossa saude.

ALCMENA.

    Vida foi pezada e crua
    A saude qu'eu sostinha;
    Qu'em quanto, Senhor, a tinha,
    Temer perigo na sua,
    Me fez descuidar da minha.

MERCURIO.

    Y pues, mi Seora Alcmena,
    Pese al demonio malvado,
    No dir  un su criado,
    Vengais Ssea norabuena?

ALCMENA.

    Sejais, Ssea, bem chegado.

BROMIA.

    Bem mal cri eu, que pudesse
    Ver-te, Ssea, hoje aqui.

MERCURIO.

    Pues tambien yo no cre
    Que en mi vida te viese,
    Segun las muertes que vi.

ALCMENA.

    Muito, Senhor, folgarei
    Com novas do vencimento.

JUPITER.

    De tudo quanto passei,
    Por vos dar contentamento,
    Em summa vos contarei.
    Trago, Senhora, a victoria
    Daquelle Rei to temido,
    Com fama clara e notoria.
    Porm maior foi a gloria
    De me ver de vs vencido.
    Sem me terem resistencia,
    Os Grandes me obedcero,
    Como ElRei morto tivero:
    Em sinal de obediencia
    Esta copa me trouxero.
    ElRei por ella bebia:
    (Ella, e tudo o mais he nosso)
    Por onde claro se via,
    Que tudo me obedecia,
    Pois tinha nome de vosso.

MERCURIO.

    Si, mas luego de rondon
    La fortuna di la vuelta.

ALCMENA.

    Como?

MERCURIO.

            Fu gran perdicion,
    Porque en aquella revuelta,
    Me hurtaron mi jubon.
    Pero bien me lo pagaron,
    Cuando comigo rieron;
    Que aunque me despojaron
    Si uno de seda llevaron,
    Otro de azotes me dieron.

ALCMENA.

    Senhor, no posso gostar
    De gsto, que he to immenso,
    Seno muito devagar:
    Faa-me merc d'entrar,
    E contar-mo-ha por extenso.


SCENA III.

_Mercurio e Bromia._

MERCURIO.

    Yo tambien te contaria,
    Bromia, si quedas atrs,
    Que una noche... enojartehas?

BROMIA.

    Que?

MERCURIO.

          Soaba, que te tenia...
    No me atrevo  decir mas.

BROMIA.

    Dize.

MERCURIO.

          Pardies, no dir.
    Soaba...

BROMIA.

            Bem: que sonhavas?

MERCURIO.

    Que cuando en la cama estavas
    Que yo... enfin record.

BROMIA.

    Pois tudo isso receavas?

MERCURIO.

    Sabe Dios qu yo ac siento:
    Sola una alma vive en dos,
    La cual anda dentro en vos.

BROMIA.

    E que quer ella c dentro?

MERCURIO.

    Tambien eso sabe Dios.


SCENA IV.

MERCURIO.

    Bem se poder enganar
    Bromia, segundo ora estou,
    Como Alcinena s'enganou;
    Mas cumpre-me ir ordenar
    O que meu Pae me mandou.
    E porque seja guardada
    Esta porta e vigiada
    De toda a gente nascida,
    Me ser cousa forada,
    Ser to depressa a tornada,
    Quo prestes fao a partida.


SCENA V.

SOSEA, _cantando_.

     Amphitrion esforzado
    Bravo v por la batalla,
    Siete cabezas llevaba,
    De las mejores que ha hallado.

_Falla._

    Quien viene de tierra agena,
    Y de la muerte escap,
    La razon le permiti
    Que cante como sirena,
    Como agora hago yo.
    Y pues canto tan gentil,
    Fuera llanto si muriera.
    Quiero cantar como quiera,
    Una y otra, y mas de mil,
    Que digan desta manera:

_Canta._

    Dongolondron, con dongolondrera,
    Por el camino de Otera,
    Rosas coge en la rosera,
    Dongolondron, con dongolondrera.

_Falla._

    Cuando yo vengo  pensar
    Que uno matarme quisiera,
    No hago sino temblar,
    Porque creo si muriera,
    No pudiera mas cantar.
    Porque estando  un rincon
    De la casa ad qued,
    Senti muy grande ronron,
    Y mirando, que mir?
    Vi que era un gran raton.
    Empero yo nunca sigo,
    Sino consejos muy sanos;
    Que en estes casos levianos,
    Quien desprecia el enemigo,
    Mil veces muere  sus manos.
    Pero mi Seor alli
    Mat al Rey de los Glipazos:
    Yo como muerto le vi,
    Juro  mi f, que le d
    Mas de dos mil cuchillazos.
    Y por me librar de afan,
    Me voy siempre  cosa hecha
    Probar mi mano derecha;
    Que aquel es buen capitan,
    Que del tiempo se aprovecha.
    Que quien ha de pelear,
    Ha de buscar tiempo y hora.
    Pero quiero caminar,
    Que me muero por contar
    Todo aquesto  mi Seora.


SCENA VI.

_Mercurio e Ssea._

MERCURIO.

    Mil vezes comigo vejo,
    Para que meu Pae se affoute;
    Pois em to pequeno ensejo
    Lhe mandei talhar a noute
     medida do desejo.
    E pois que como possante,
    A mi tudo se reporta,
    Chego agora neste instante
    A estorvar qu'este bargante
    Me no chegue a esta porta.

SOSEA.

    No s que miedo,  locura,
    Neste pecho se me cria:
    Por Dios que se me afigura,
    Que ha mucho que es noche escura,
    Sin que venga el claro dia.
    Mas sabed, que pienso yo
    Que el sol que no se acord
    De con el dia venir,
    Que  noche cuando cen
    Algun buen vino bebi,
    Que le hace tanto dormir.

MERCURIO.

    Ja sentes comprida a noute,
    Qu'eu assi mandei fazer?
    Pois mais te quero dizer,
    Que sentirs muito aoute,
    Se c quizeres vir ter.
    Porm, pois este bargante
    Tee medroso corao,
    Quero-me fingir ladro,
    Ou phantasma, e por diante
    No ir, se vem  mo.
    E com tudo se passar,
    A falla quero mudar
    Na sua de tal feio,
    Que couces, e porfiar,
    Lhe fao hoje assentar
    Que sou Ssea, e elle no.

_Falla Castelhano._

    No veo pasar ninguno,
    En quien yo me pueda hartar.

SOSEA.

     quien oigo aqui hablar?
    Mande Dios no sea alguno
    Que me quiera aporrear.

MERCURIO.

    La carne de algun humano
    Me seria muy sabrosa.

SOSEA.

    Oh qu voz tan temerosa!
    Hombres comes,  mi hermano?
    No es mejor otra cosa?
    Carne humana es muy mezquina.
    Oh no comas deso, no!
    Antes carne de gallina.
    Pero se mas se avecina,
    Qu mas gallina, que yo?

MERCURIO.

    Una voz de hombre ahora
     la oreja me vol.

SOSEA.

    Psete quien me pari:
    La voz traigo boladora?
    Ella quisiera ser yo.
    Pues mi voz pudo volar
    Do la pudieses oir;
    Por contigo no reir,
    Me debiera de prestar
    Las alas para huir.

MERCURIO.

    Qu buscas cabe esa puerta,
    Hombre? S que eres ladron.

SOSEA.

    Ay que el alma tengo muerta!
    Oh Jpiter me convierta
    Las tripas en corazon!

MERCURIO.

    Quien eres? quieres hablar?

SOSEA.

    Soy quien mi voluntad quiere.

MERCURIO.

    Piensas que puedas burlar?

SOSEA.

    Y t pudesme quitar
    Que yo sea quien quisiere?

MERCURIO.

    Osas hablar tan osado,
    Don vellaco bovarron?
    D, quien eres?

SOSEA.

                     Un criado
    Del Seor Amphitrion,
    Por nombre Ssea llamado.

MERCURIO.

    Pienso que el seso perdiste.
    Como te llamas, mal hombre?

SOSEA.

    Ssea soy, si no me oiste.

MERCURIO.

    Como? en persona tan triste
    Osas d'ensuciar mi nombre?
    Estos puos llevars,
    Pues tener mi nombre quieres.
    Quiresme dicir quien eres?

SOSEA.

    O Seor, no me ds mas,
    Que yo ser quien t quisieres.

MERCURIO.

    Con tan nueva falsedad
    Andais por esta Ciudad,
    Delante de quien os mira?
    Pues si sois Sosea, tomad.

SOSEA.

    Si me ds por la verdad,
    Que me hars por la mentira?

MERCURIO.

    Y qu verdad es la tuya?
    Que te quiero dar castigo.

SOSEA.

    Si no soy Ssea que digo,
    Que Jpiter me destruya.

MERCURIO.

    Mirad el falso enemigo:
    Tomad este bofeton,
    Que yo soy Ssea, y no vos.

SOSEA.

    Tu Ssea?

MERCURIO.

             Ssea por Dios,
    Escravo de Amphitrion.

SOSEA.

    De modo que tiene dos?

MERCURIO.

    No tendr, aunque t quieres;
    Que  mi solo conoci.

SOSEA.

    Pues luego de quien soy yo?

MERCURIO.

    Si t no sabes quien eres,
    Quieres que yo lo sepa? No.

SOSEA.

    Enfin, has me de hacer crer
    Que yo no soy quien ser solia?

MERCURIO.

    Quien solias t de ser?

SOSEA.

    Tregoas me has de prometer,
    Dirteloh sin profia.

MERCURIO.

    Prometo.

SOSEA.

              No me dars?

MERCURIO.

    No, si no fuere razon.

SOSEA.

    Pues, hermano, t sabrs
    Que mi amo Amphitrion...

MERCURIO.

    Tu amo? Pues llevars.
    Mi amo es, que tuyo no.

SOSEA.

    Ay que un brazo me quebr!

MERCURIO.

    Mas que luego te matase.

SOSEA.

    Ojal Dios ordenase
    Que t ahora fueses yo,
    Y yo que te desmembrase!

MERCURIO.

    Esa tu tema tan loca,
    Puos te la han de quitar.
    Dime, di, verguenza poca,
    Qu hablas?

SOSEA.

                    Qu puedo hablar,
    Si me has quebrado la boca?

MERCURIO.

    Di quien eres, sin fatiga.

SOSEA.

    Soy un hombre, en quien t ds.

MERCURIO.

    Dme pues, qu nombre has.

SOSEA.

    Como quieres t que diga,
    Para que no me ds ms?

MERCURIO.

    No me has de hablar contrahecho.

SOSEA.

    Toda mi vida pasada
    Ssea fuy, y con despecho
    Ahora soy... qu? No nada;
    Que tus manos me han deshecho.

MERCURIO.

    Cuyo eres, pues las sientes,
    Dejando consejos vanos?
    La verdad; que si me mientes,
    Ds con la lengua en los dientes,
    Y yo dyte con las manos.

SOSEA.

    No conoces Amphitrion?

MERCURIO.

    Hombre sin seso te llamo.
    Tan fuera ests de razon!
    Piensas de m, bovarron,
    Que no conozco  mi amo?

SOSEA.

    En su casa conociste
    Uno, que es Ssea llamado,
    Hombre despreciado y triste?

MERCURIO.

    Desa suerte lo dijiste?
    Yo soy triste y despreciado?
    Pues sabe que te lleg
     la muerte tu fortuna.

SOSEA.

    Pues logo si yo no soy yo,
    Aunque nadie me mat;
    Soy luego cosa ninguna.
    Oh dioses, que desconcierto!
    Yo por ventura soy muerto,
     murime la razon?
    Yo no soy de Amphitrion?
    l no me mandou del puerto?
    Yo s que no estoy loco.
    De mi madre no naci?
    No ando? No hablo aqui?

MERCURIO.

    Pues sosiega ahora un poco,
    Que yo tambien dir de m.
    Yo no s que yo soy yo?
    Yo no te d con mis manos?
    Mi Seor no me llev
     la guerra, ad mat
    Aquel Rey de los Thebanos?

SOSEA.

    Yo eso muy bien lo s.
    Empero t qu hacias
    Cuando la batalla vias?

MERCURIO.

    Escucha: yo lo dir,
    Y cesaran tus porfas.
    Cuando mi Seor andaba
    Peleando, y derramaba
    La sangre de algun mezquino;
    Con una bota de vino
    Yo la mia acrescentaba.

SOSEA.

    (Dice lo que yo hacia)
    Con todo, saber queria
    Sola una cosa, si puedo:
    Tu pecho entonces sentia?

MERCURIO.

    Del beber grande alegria,
    Y del pelear gran miedo.

SOSEA.

    Y despues?

MERCURIO.

                 Muy reposado
     dormir me ech de grado,
    Desde el sol hasta la luna.

SOSEA.

    (Todo lo tiene contado.
    Enfin, tengo averiguado
    Que yo no soy cosa ninguna)
    Pues de todo en un instante
    Me has echado de m fuera,
    Aconsjame si quiera,
    Quien ser daqui adelante,
    Pues no soy quien de antes era.

MERCURIO.

    Cuando yo no ser quisiere
    Ese, que t ser deseas,
    Despues que ya Ssea no fuere,
    Darteh, si te pluguiere,
    Licencia que todo seas.
    Y acgete luego, amigo,
     buscar tu nombre, digo,
    Pues Dios vida te dej;
    Que el Ssea queda comigo.

SOSEA.

    Pues contigo quedo yo,
    Dios quede, hermano, contigo.
    Ahora quiero ir all
    Ad mi Seora est,
    Contarle como es venido
    Mi Seor. Mas, oh perdido!
    Si un otro yo tiene all,
    Todo lo tern sabido.

MERCURIO.

    Ah hombre.....

SOSEA.

                   Mi voz son.

MERCURIO.

    Aonde vuelves ahora?

SOSEA.

    Por Dios no s onde v,
    Porque si yo no soy yo,
    Ni Alcmena es mi Seora.

MERCURIO.

    Adonde vas?

SOSEA.

                 Con mensaje
    Del Seor Amphitrion
    Para Alcmena.

MERCURIO.

                    Ad, salvaje?
    Pues quebraste la omenaje,
    Ah vers tu perdicion.
    Yo doyte consejos sanos,
    Y porfias otra vez?

SOSEA.

    Altos dioses soberanos!
    Pues me no valen las manos,
    Aqui me valgan los pies.            _Foge._

MERCURIO.

    Desta arte ensean aqui
     hurtar el nombre ageno?


SCENA VII.

SOSEA.

    Ay Dios, como me acog!
     Jpiter alto y bueno,
    Cuan cerca la muerte vi!
    Quirome ir  mi Seor
    Contarle cuanto h pasado;
    Y l me dir de grado,
    Si yo soy su servidor,
    En que cosa me h tornado.




ACTO TERCEIRO.


SCENA I.

_Jupiter e Alcmena._

JUPITER.

    Toda a pessoa discreta
    Ter, Senhora, assentado,
    Que hum bem muito desejado
    Se ha de alcanar por dieta,
    Para ser sempre estimado.
    E quem alcanado tem
    Tamanho contentamento;
    Por conserv-lo convem
    Que tome por mantimento
    A fome de tanto bem.
    E por isso hei de tomar
    Este tempo to ditoso
    Para a frota visitar;
    E despois quando tornar,
    Tornarei mais desejoso.
    Que pois to bom captiveiro
    Me tee presa a liberdade,
    Eu lhe prometto em verdade
    Que torne ainda primeiro,
    Que mo pea a saudade.

ALCMENA.

    Aindaque se possa ir
    Mais asinha do que creio,
    Como hei d'eu consentir
    Que se haja de partir
    Na mesma noite que veio?

JUPITER.

    Forada he minha tornada,
    Mas muito cedo virei;
    Porque desque foi chegada
    A este porto a Armada,
    Ainda a no visitei.

ALCMENA.

    Pois, Senhor, to pouco estais
    Com quem vistes inda agora?
    Faa-se como mandais.

JUPITER.

    Vs me vereis c, Senhora,
    Primeiro do que cuidais.


SCENA II.

_Amphitrio e Sosea._

AMPHITRIO.

    Emfim tu, que ests aqui,
    Estavas ja l primeiro?

SOSEA.

    Seor, crea que es ans.

AMPHITRIO.

    Eu nunca entendi de ti,
    Qu'eras tambem chocarreiro.

SOSEA.

    Seor, yo que estoy presente,
    No soy Ssea su criado?

AMPHITRIO.

    Creio que no certamente,
    Porque Ssea era avisado,
    E tu es mui differente.

SOSEA.

    Pues, Seor, si en m se v
    Que no soy quien de antes era,
    Vulvome.

AMPHITRIO.

                E para que?

SOSEA.

    Ver se  dicha me qued
    Durmiendo por la galera.

AMPHITRIO.

    Pois me queres fazer crer
    Huma doudice to rasa,
    Mais quero de ti saber:
    Como no entraste em casa
    D'Alcmena minha mulher?

SOSEA.

    Aunque Ssea quisiese,
    La verdad no negar:
    Aquel yo que all est,
    No quiso que  casa fuese
    Estotro yo, que iba all.
    Y con furia tan crecida
     m se vino aquel hombre,
    Que yo me puse en huida,
    Y ans le dej mi nombre,
    Por me dejar l la vida.

AMPHITRIO.

    Quem seria to ousado,
    Que tanto mal te fizesse?

SOSEA.

    Yo mismo Ssea llamado,
    Que  casa era ya llegado,
    Antes que de ac partise.

AMPHITRIO.

    Tu chegaste antes de ti?
    Este he gentil disparate.

SOSEA.

    Pues mas le digo daqui,
    Que vengo huyendo de m,
    Porque yo mismo no me mate.

AMPHITRIO.

    Ero dous, ou era hum s,
    Quem te fez assi fugir?

SOSEA.

    Psete quien me pari:
    Digo, que era un solo yo:
    Mil veces lo h de decir?
    Puede ser que naceria
    De aquel hombre otro alguno,
    Como aquel de m nacia;
    Porque aunque fuese l uno,
    Por mas de cuatro tenia.
    l tenia mi aparencia,
    Empero yo nunca vi
    Tal fuerza, ni tal potencia:
    Esta sola diferencia
    Le tengo hallado de m.

AMPHITRIO.

    Pudeste delle saber
    Cujo era?

SOSEA.

                Quien? aquel yo?
    Tuyo, Seor, dijo ser.

AMPHITRIO.

    Nunca eu tive mais que hum s,
    E esse no quizera ter.

SOSEA.

    Pues, Seor, si el bien doblado
    Te le muestra agora Dios,
    Debe ser de ti alabado;
    Pues de uno solo criado
    Te ha hecho agora dos.

AMPHITRIO.

    Antes para que conheas,
    Que cousa he mao servidor,
    Me pezar se assi for;
    Que de to ruins cabeas,
    Quantas mais, tanto peor.
    E ja que so to incertos
    Teus ditos para se crer;
    Muito melhor deve ser
    Que deixe teus desconcertos,
    E va ver minha mulher.


SCENA III.

ALCMENA.

    Que fado, que nascimento
    De gente humana nascida,
    Que d'escasso e avarento,
    Nunca consentio na vida
    Perfeito contentamento!
    Amphitrio, que mostrou
    Hum prazer to desejado
    A quem tanto o desejou;
    Na noite, que foi chegado,
    Nessa mesma se tornou!
    De se tornar to asinha
    Sinto tanto entristecer
    O sentido e alma minha,
    Que certo que me adivinha
    Algum novo desprazer.
    Mas parece este que vem,
    Se no estou enganada:
    Se elle he, venha com bem,
    Pois que com sua tornada
    To transtornada me tem.


SCENA IV.

_Amphitrio, Alcmena e Sosea._

AMPHITRIO.

    Com que palavras, Senhora,
    Poderei engrandecer
    To sublimado prazer,
    Como he ver chegada a hora,
    Em que vos pudesse ver?
    Certo gro contentamento
    Tive de meu vencimento;
    Mas maior o hei de mim,
    De me ver psto no fim
    De to longo apartamento.

ALCMENA.

    Ja eu disse o que sentia
    De vinda to desejada.
    Mas diga-me todavia:
    Como no foi ver a Armada,
    Que me disse hoje este dia?

AMPHITRIO.

    Della venho eu inda agora
    Desejoso de vos ver,
    Muito mais que de vencer.
    Mas que me dizeis, Senhora,
    Que hoje me ouvistes dizer?

ALCMENA.

    Se no estava remota,
    Certamente que lhe ouvi,
    Quando hoje partio daqui,
    Que tornava a ver a frota.
    Porque era forado assi.

AMPHITRIO.

    Ssea.

SOSEA.

           Seor, aqui estoy yo.

AMPHITRIO.

    Tu ouves tal desconcrto?

SOSEA.

    Grandes orejas gan,
    Pues estando en casa oy
    Quien estava all nel puerto!

AMPHITRIO.

    Quando dizeis, que m'ouvistes?

ALCMENA.

    Hoje, quando vos partistes.

AMPHITRIO.

    Donde?

ALCMENA.

             Daqui, de me ver.

AMPHITRIO.

    Nunca vi grande prazer,
    Que no tenha os cabos tristes.
    Quantos males d'improviso
    Que causo grandes mudanas!
    Que mulher de tanto aviso,
    Agora minhas lembranas
    A tee fra de juizo!

ALCMENA.

    Quereis-me fazer cuidar
    Que poderia sonhar
    O que pelos olhos vi?
    Nunca vos eu mereci
    Quererdes-me exprimentar.

AMPHITRIO.

    Postoque he para pasmar
    Ver hum caso to estranho,
    Todavia hei de attentar,
    Se poderei concertar
    Hum desconcrto tamanho.
    Quando dizeis que vim c?

ALCMENA.

    Esta noite que passou.

AMPHITRIO.

    Dae-me alguem que aqui se achou,
    Que me visse.

ALCMENA.

                   Esse que hi est,
    Ssea que comvosco andou.

AMPHITRIO.

    Ssea, podes-te lembrar,
    Que hontem me vistes aqui?

SOSEA.

    Nunca yo supe de m
    Que me pudiese acordar
    De aquello que nunca vi.

ALCMENA.

    Ora eu creo, e he assi,
    Que ambos vindes conjurados,
    Para zombardes de mi;
    Mas eu darei hoje aqui
    Sinaes que sejo provados.

AMPHITRIO.

    Que sinaes pde ahi haver
    De mentira to notoria,
    Que nem foi, nem pde ser?

ALCMENA.

    Donde vim eu a saber
    Novas de vossa victoria?

AMPHITRIO.

    Que novas?

ALCMENA.

                   Dir-vo-las-hei,
    Assi como mas contastes:
    Que na batalha matastes
    Aquelle soberbo Rei,
    E tudo desbaratastes:
    No fazendo resistencia
    N'huma batalha to crua,
    Dando-vos obediencia,
    Vos dero huma copa sua,
    Lavrada por excellencia.

AMPHITRIO.

    Ssea he culpado s
    Nestes acontecimentos.

SOSEA.

    Seor, son encantamientos,
    Porque aquel hombre, que es yo,
    Le contaria estos cuentos.

AMPHITRIO.

    Quem he esse, que vos deu
    Taes novas, saber queria?

ALCMENA.

    Quem mo pergunta.

AMPHITRIO.

                          Quem? Eu!
    Quereis-me fazer sandeu?

ALCMENA.

    Mas vs me fazeis sandia.

AMPHITRIO.

    Ora quero perguntar:
    Que fiz sendo aqui chegado?

ALCMENA.

    Puzemos-nos a cear.

AMPHITRIO.

    E despois de ter ceado?

ALCMENA.

    Fomos-nos ambos deitar.

AMPHITRIO.

    Nunca queira Deos que possa
    Achar-se na minha honra
    Nenhuma falta nem mossa:
    Seja isto doudice vossa,
    Antes que minha deshonra.

SOSEA.

    Bien lo supe yo entender,
    Que era esto encantaciones;
    Y ahora me habr de crer
    Que dos Sseas puede haber,
    Pues hay dos Amphitriones.

ALCMENA.

    Com me quererdes tentar
    To torvada me fizestes,
    Que me no pde lembrar
    Que vos mandasse mostrar
    A copa que me hontem dstes.

AMPHITRIO.

    Eu? copa? Se isso ahi ha,
    Que estou doudo cuidarei.

SOSEA.

    Seor, bien guardada est.

ALCMENA.

    Bromia?

BROMIA, _de dentro_.

             Senhora.

ALCMENA.

                         Dae c
    A copa que hontem vos dei.

SOSEA.

    Pues yo par otro yo,
    Y vs otro Amphitrion,
    No es mucha admiracion,
    Si la copa otra pari,
    Ni aun fuera de razon.


SCENA V.

_Amphitrio, Alcmena, Sosea e Bromia._

BROMIA.

    Eis-aqui a copa vem,
    Testimunho da verdade.

AMPHITRIO.

    Oh estranha novidade!

ALCMENA.

    Poder-me-ha dizer alguem
    Que o que digo he falsidade?

AMPHITRIO.

    Ssea, quando hontem c vinhas,
    Poder-me-has negar, ladro,
    Que lhe dste as novas minhas,
    E mais a copa que tinhas
    Guardada na tua mo?

SOSEA.

    Seor, que no pude, no,
    Ver  mi Seora Alcmena:
    Si aquel eso ac orden,
    No lleve este yo la pena
    Del mal que hizo el otro yo.

AMPHITRIO.

    Ora eu no sei entender
    Tal caso, nem lhe acho fundo:
    Com tudo venho a dizer,
    Que ha tantos males no mundo,
    Que tudo se pde crer.
    Se vos trouxer quem vos diga
    Como esta noite dormi
    Na nao, crereis que he assi?

ALCMENA.

    Nenhuma cousa me obriga
    A que no creia o que vi.

AMPHITRIO.

    Se o Patro aqui vier,
    Que he homem d'autoridade,
    Crereis o que vos disser?

ALCMENA.

    Sim, que ninguem pde haver
    Que me negue esta verdade.

AMPHITRIO.

    Eu estou em concruso
    D'hoje desembaraar
    To enleada questo:
     nao me quero tornar
    A trazer c Belferro.
    Ssea, at minha tornada
    Fica nesta casa em vela;
    Qu'eu armarei tal cilada
    A quem ma a mim tee armada,
    Que venha hoje a cahir nella.


SCENA VI.

_Alcmena e Bromia._

ALCMENA.

    Oh mulher triste e suspensa
    Da mais alta confuso
    Que nunca vio corao!
    Em que mereces a offensa,
    Que te faz Amphitrio?
    Sempre de mi foi amado,
    Tanto quanto em mi se sente,
    Co'o corao to liado,
    Que se de mi era ausente,
    Nelle o via figurado.
    E pois mulher, que cumprisse
    Melhor qu'eu fidelidade,
    No a vi, nem quem me visse
    Que dos limites sahisse
    Hum pouco da honestidade.
    Pois porque he to maltratada
    Innocencia to singella?
    Que a pena mais apertada,
    He a culpa levantada
    Ao corao livre della.
    Mas ja que minh'alma est
    Sem culpa do que padeo,
    Seja o que for; qu'eu conheo
    Que a verdade me por
    No qu'eu pola ter mereo.
    Bromia?

BROMIA.

           Senhora.

ALCMENA.

                         Hi mandar
    A Feliseo, que v
    Meu primo Aurelio chamar;
    Que lhe quero perguntar
    Que conselho me dar.
    E pois que Amphitrio
    Vai buscar somente quem
    Lhe ajude a sua teno,
    Quero eu ter aqui tambem
    Quem me defenda a razo.




ACTO QUARTO.


SCENA I.

_Jupiter, Alcmena e Sosea._

JUPITER.

    Gro desconcrto tee feito
    Amphitrio com Alcmena!
    Qualquer delles tee direito:
    Eu sou o que veno o preito,
    E ambos pgo a pena.
    Quero-me ir l desfazer
    To trabalhosa demanda,
    Por nos tornarmos a ver;
    Porque, emfim, quem muito quer
    Com qualquer desculpa abranda.
    E pois ja que a affeio
    Ha de mudar to asinha,
    Quero ir alcanar perdo
    Da culpa, que sendo minha,
    Parece d'Amphitrio.

ALCMENA.

    Parece que torna c
    Amphitrio, que ja se hia:
    No sei a que tornar.
    Seno se lhe peza ja
    Dos enganos que tecia.

JUPITER.

    Senhora, no haja error
    Que tantos males me faa,
    Porque se o contrrio for,
    Pequeno ser o amor,
    Que manencria desfaa.
    E pois com tanta alegria
    De tantos perigos vim,
    Pezar-me-ha se achar no fim,
    Que huma leve zombaria
    Vos possa aggravar de mim.

ALCMENA.

    Com palavras de deshonra
    No se ha de tratar quem ama;
    Nem zombaria se chama,
    Por exprimentar a honra,
    Pr em tal perigo a fama.
    Bem tive eu para mim,
    Que era aquillo experiencia.

JUPITER.

    Errei no que commetti:
    Bem me basta a penitencia
    De quanto me arrependi.
    E se fiz algum error,
    Com que vosso amor se mude
    De quem vo-lo tee maior;
    No exprimentei virtude,
    Mas exprimentei amor.
    Que se com caso to vrio
    Folguei de vos agastar,
    Foi amor accrescentar;
    Porque s vezes hum contrrio
    Faz seu contrrio avisar.
    Daqui vem, que a leve mgoa
    Firmeza e affeies augmenta,
    Como bem se v na frgoa,
    Onde o fogo se accrescenta,
    Borrifando-o com pouca goa.
    Se hum mal grande se alevanta
    N'hum corao que maltrata,
    A affeio se desbarata;
    Porque onde a goa he tanta
    O fogo d'amor se mata.
    E pois tive tal teno,
    Perdoae, Senhora, a culpa
    Deste vosso corao.

ALCMENA.

    No se alcana assi perdo
    D'erro que no tee desculpa.

JUPITER.

    Ora pois assi tratais
    Quem em tanto risco ps
    O amor que vs negais,
    Eu m'ausentarei de vs
    Onde mais me no vejais.
    Que, pois desculpa no tem
    Corao que tanto quer,
    Vou-me; que no ser bem
    Que quem vs no podeis ver,
    Que possa mais ver ninguem.
    Se algum'hora meu cuidado
    Vos der dor, em que pequena;
    Peo-vos, pois fui culpado,
    Que vos no peze da pena
    De quem vos foi to pezado.
    E despois que a desventura
    Puzer este corao
    Debaixo da sepultura,
    As letras na pedra dura
    Vossa dureza diro.
    Isto vos hei de dizer,
    Que m'ensinou minha dor:
    Se quizerdes leda ser,
    Nunca exprimenteis amor
    Em quem vo-lo no tiver.
    Deixae-me ir; no me tenhais.

ALCMENA.

    Amphitrio, no choreis!
    Amphitrio!

JUPITER.

                   Que quereis,
    Ou para que nomeais
    Homem, que ver no podeis?

ALCMENA.

    Amphitrio, s'eu causei
    Com manencria pequena
    Cousa, com que o magoei;
    Eu quero cahir na pena
    Dessa culpa que lhe dei.

JUPITER.

    Sempre serei magoado
    Se vossa m condio
    Me no perda o passado.

ALCMENA.

    Perdo, e peo perdo
    De lhe no ter perdoado.

SOSEA.

    No le perdone, Seora,
    Hasta que con devocion
    Tambien me pida perdon;
    Que bien se me acuerda ahora
    Que me ha llamado ladron.

JUPITER.

    Ssea?

SOSEA.

           Seor.

JUPITER.

                      Vae buscar
    O Piloto Belferro;
    Dir-lhe-has, se desembarcar,
    Que me parece razo
    Que venha hoje c cear.

SOSEA.

    Si, Seor, voy  la hora.

JUPITER.

    De nenhuma qualidade
    Cure de fazer demora.
    E ns vamos-nos, Senhora,
    Confirmar nossa amizade.


SCENA II.

MERCURIO.

    Grandes revoltas vo l.
    Grandes acontecimentos!
    Cumpre-me que esteja c,
    Em quanto meu pae est
    Em seus desenfadamentos.
    Porque vi Amphitrio
    Vir da nao mui apressado;
    E tendo corrido e andado,
    No pde achar Belferro,
    Que lhe era bem escusado.
    Parece-me que vir
    Ver se lhe abre aqui alguem;
    Mas, porm, se chega c,
    Ja pde ser que se v
    Mais confuso do que vem.


SCENA III.

_Mercurio e Amphitrio._

AMPHITRIO.

    Quiz-nos nossa natureza
    Com tal condio fazer,
    Que ja temos por certeza
    No haver grande prazer,
    Sem mistura de tristeza.
    Este decreto espantoso,
    Que instituio nossa sorte,
    He tal e to rigoroso,
    Que ninguem antes da morte
    Se pde chamar ditoso.
    Com esta justa balana
    O Fado grande e profundo
    Nos refreia a esperana,
    Porque ninguem neste mundo
    Busque bem-aventurana.
    Eu, que cuidei de viver
    Sempre contente de mi
    Com tamanho Rei vencer,
    Venho achar minha mulher
    De todo fra de si.
    Mas d'outra parte, que digo?
    Que s'he verdade o que vi,
    E o que ella diz he assi;
    Virei a cuidar comigo
    Qu'eu sou o fra de mi.
    Quero ver se a acho ja
    Fra de to seccos ns.
     de casa?

MERCURIO.

                    O de all?
    Quien sois?

AMPHITRIO.

                  Abre.

MERCURIO.

                           Santo Dios!
    Pues no os conocen ac.

AMPHITRIO.

    Oh que gentil desvario!
    Abri-me ora se quizerdes.

MERCURIO.

    No har, que en m confio
    Que de fuera dormiredes,
    Que no comigo, amor mio.
    (Que cancion para oir!)

AMPHITRIO.

    Ah Ssea! zombas de mi?
    (Ora quero-me fingir
    Que ainda o no conheci,
    Por ver se me quer abrir)
    Ah Senhor, no abrireis?

MERCURIO.

    Qu quereis, hombre, por Dios?

AMPHITRIO.

    Duas palavras de vs.

MERCURIO.

    Tengo dicho mas de seis,
    E ahora me pedis dos?
    De fuera podeis dormir,
    Que entrar no podeis ac.

AMPHITRIO.

    Ora acabae, abri l.

MERCURIO.

    Digo que no quiero abrir:
    Dije dos palabras ya.

AMPHITRIO.

    Ora sus, bargante, abri.

MERCURIO.

    Si no te vuelves de aqui,
     gran peligro te ofreces.

AMPHITRIO.

    Velhaco, no me conheces.
    Ou ests fra de ti?

MERCURIO.

    Bonito venis, amor.
    Quien sois, que hablais tan osado?

AMPHITRIO.

    Abre, que sou teu Senhor.

MERCURIO.

    Vulvase de esotro lado,
    Y conocerleh mejor.

AMPHITRIO.

    Ssea moo.

MERCURIO.

                  As me llamo,
    Hulgome que lo sepais;
    Empero digo que os vais,
    Que Amphitrion es mi amo;
    Vos id buscar quien seais.

AMPHITRIO.

    Pois quero saber de ti:
    Eu quem sou?

MERCURIO.

                    Y quien sois vs?
    Como os llaman?

AMPHITRIO.

                      Abri.

MERCURIO.

     vos os llaman Abri?
    Pues, Abri, andad con Dios.

AMPHITRIO.

    Quem ha, que possa soffrer
    Em sua honra tal destro,
    Que para me endoudecer
    Me tee negado a mulher,
    E agora me nega o moo?

MERCURIO.

    Mira el encantador
    Como se lastima y llora,
    Y fuese tomar ahora
    La forma de mi Seor,
    Para engaar mi Seora.
    Pues esperad, y no os vais,
    Por un espacio pequeo;
    Vern quien representais,
    Y l os har que volvais
    El falso gesto  su dueo.

AMPHITRIO.

    Vae, velhaco, e chama c
    Esse falso feiticeiro;
    Que se elle l dentro est,
    Esta espada julgar
    Qual de ns he o verdadeiro.


SCENA IV.

_Amphitrio, Sosea e Belferro._

BELFERRO.

    Ora ninguem presumra
    Que tinhas to pouco siso;
    Pois vs achar d'improviso
    To bem forjada mentra,
    Que me faz cahir de riso.
    Hum moo, que alevantou
    Tal graa, nunca nasceo:
    Porque vos jura que achou
    Que ou elle em dous se perdeo,
    Ou de hum dous se tornou.

SOSEA.

    Patron, que no burlo, no:
    En uno son dos unidos,
    Y en dos cuerpos repartidos;
    Yo soy l, y l es yo,
    De un padre y madre nacidos.

BELFERRO.

    Esse tu que l ests,
    To velhaco he como ti?

SOSEA.

    Mas aun pienso que es mas:
    Por delante y por detrs
    Todo se parece  m.
    Y fue gran merced de Dios
    Ayuntar  m mas uno,
    Que peor fuera de nos,
    Si Dios me hiciera ninguno,
    Que no de uno hacer dos.

BELFERRO.

    Assi que, se te perdeste
    Vieste a cobrar mais hum:
    Mui gentil conta fizeste,
    Pois que perdido soubeste
    Que eras dous, sendo nenhum.

SOSEA.

    Pues teneis por abusion
    Verdad tan clara, y tan rasa,
    Aunque pone admiracion;
    Quiera Dios, que all en casa
    No halleis otro Patron.

AMPHITRIO.

    O Patro, que fui buscar,
    Parece que vejo vir:
    No sei quem o foi chamar;
    Mas que me ha de aproveitar
    Se me no querem abrir?
    Ah Belferro!

BELFERRO.

                     Ah Senhor!
    Ja sinto que fui culpado;
    Porque quem he convidado,
    Se to vagaroso for,
    Merece no ser chamado.

AMPHITRIO.

    A vs quem vos convidou?

BELFERRO.

    Ssea, por mandado seu.

AMPHITRIO.

    Disso, Patro, no sei eu;
    Que Ssea ja me negou,
    E ja se no d por meu.
    E se alguem vos foi dizer
    Qu'eu vos chamo  minha mesa;
    Mal vos dara de comer
    Quem de todo lhe he defesa
    A casa, e mais a mulher.

BELFERRO.

    Quem he esse to ousado,
    Que vos isso faz, Senhor?

AMPHITRIO.

    Ssea, creio que enganado
    Por algum encantador,
    Que a honra me tee roubado.

BELFERRO.

    Se elle aqui comigo vem,
    Isso como pde ser?

AMPHITRIO.

    Ah! que a ra que vou ter,
    To cega a vista me tem,
    Que mo no deixava ver.
    Porque razo, cavalleiro,
    No me abris quando vos mando?
    Vs fazeis-vos chocarreiro?

SOSEA.

    Yo Seor? y como? y cuando?

AMPHITRIO.

    Quereis-lo saber primeiro?
    Esperae, dir-se-vos-ha,
    Mas ser por outro son.

SOSEA.

    Ah Seor Amphitrion,
    Porque matndome est,
    Sin delito, y sin razon?

AMPHITRIO.

    Agora que vos eu dou
    Me chamais Amphitrio,
    E para me abrirdes no?

BELFERRO.

    Este moo em que peccou?
    Porque pena sem razo?
    No mais por amor de mi.

AMPHITRIO.

    No, que no sou seu Senhor;
    Eu sou hum encantador.
    No o dizeis vs assi,
    Ladro, perro, enganador?

SOSEA.

    Porque fuy presto  llamar
    Por su mandado al Patron,
    Me quiere ahora matar?

AMPHITRIO.

    Quem vo-lo mandou buscar?

SOSEA.

    Si no hay otro Amphitrion,
    Vuestra merced sin dudar.

AMPHITRIO.

    Eu te mandei?

SOSEA.

                   Si Seor,
    Si otro no.

AMPHITRIO.

                 Outro ha aqui,
    Por quem tu zombes de mi?
    Pois s desse encantador
    Me quero vingar em ti.

SOSEA.

    Oh Jpiter,  quien bramo
    Por su bondad que me vala!
    Pues porque Ssea me llamo,
    Yo mismo, y despues mi amo,
    Me dieron venida mala!




ACTO QUINTO.


SCENA I.

_Jupiter, Belferro, Sosea e Amphitrio._

JUPITER.

    Quem he o to atrevido,
    Que aqui ousa de fazer
    To revoltoso arruido
    Com meus moos, sem temer,
    Que fui sempre to temido?
    Quem aqui faz unio,
    Toma mui grande despejo.

BELFERRO.

    Oh grande admirao!
    Vejo eu outro Amphitrio,
    Ou he sonho isto que vejo?

SOSEA.

    No mirais la encantacion,
    Que aquel hizo  mi Seor?
    El que sale, Belferron,
    Es el cierto Amphitrion,
    Que estotro es encantador.

JUPITER.

    Ssea?

SOSEA.

              Mi Seor, ya v.

JUPITER.

    Patro, s por vs espero.

SOSEA.

    No os lo dicia yo,
    Que este era el verdadero,
    Y esse que all queda, no?

AMPHITRIO.

    Bargante, aonde te vs?
    Fazes teu Senhor sandeu?
    Pois espera, e levars.

JUPITER.

     l, tornae por detrs,
    No deis no moo, que he meu.

AMPHITRIO.

    Vosso?

JUPITER.

              Meu.

AMPHITRIO.

                      Pde isto haver,
    Que outrem minhas cousas tome?
    Vs galante haveis de ser,
    O que me tomais o nome,
    Casa, moos e mulher.
    Eu vos farei conhecer
    Com quem tendes esse trato.

JUPITER.

    Ssea?

SOSEA.

            Seor.

JUPITER.

                      Vae dizer,
    Que apparelhem de comer,
    Em quanto este doudo mato.

BELFERRO.

    Oh Senhor, no seja assim,
    Haja em vs concrto algum!
    E seno, pois aqui vim,
    Farei que s tome em mim
    Os golpes de cada hum.

JUPITER.

    Patro, vossa boa estrella
    Me fara deixar com vida
    Quem me no merece tella.

AMPHITRIO.

    No a tenho eu merecida,
    Pois que vos deixo com ella.

BELFERRO.

    O homem que for sisudo,
    N'huma to grande questo
    Ha de tomar por escudo
    A justia, e a razo;
    Que estas armas vencem tudo.
    E pois essa natureza
    Muitos homens faz iguais,
    D qualquer de vs signais
    De quem he, para certeza
    Da frma que ambos mostrais.

JUPITER.

    Sou contente de mostrar
    Polos sinaes que vos dou,
    Que so estes sem faltar.

AMPHITRIO.

    Que sinaes podeis vs dar,
    Para que sejais quem sou?

JUPITER.

    Estes, que logo vereis
    Se so vos, se de raiz.
    Patro, vs sde juiz,
    Que vs logo enxergareis
    Qual mais verdade vos diz.

BELFERRO.

    Eu no sinto onde consista
    A cura desta doena,
    Que ha to pouca differena,
    Que aquelle em que ponho a vista,
    Por esse dou a sentena.
    Mas, Senhor, vs que ordenastes
    Que o juiz disto fosse eu,
    Quando se a batalha deu,
    Dizei, que m'encommendastes
    Que ficasse a cargo meu?

JUPITER.


    Dei-vos cargo, qu'estivesse
    Toda a Armada a bom recado,
    E, se mal nos succedesse,
    Que para os vivos houvesse
    O refugio apparelhado.

BELFERRO.

    Ora vs quantos dobres
    Esse dia m'entregastes?

AMPHITRIO.

    Tres mil; e vs os contastes.

BELFERRO.

    Ambos sois Amphitries
    Pelos sinaes que mostrastes.

JUPITER.

    Para ser mais conhecida
    A teno deste sandeu,
    Vde est'outro sinal meu,
    Que he neste brao a ferida
    Que me ElRei Terela deu.

BELFERRO.

    Mostrae vs, Senhor, tambem.

AMPHITRIO.

    Aqui o podeis olhar.

BELFERRO.

    Oh cousa para espantar!
    Que ambos a ferida tem
    D'hum tamanho, em hum lugar!


SCENA II.

_Jupiter, Amphitrio e Sosea._

SOSEA.

    Dice mi Seora Alcmena
    Que no se ha de as de estar
    Con un bobo  razonar,
    Que se le enfria la cena.

JUPITER.

    Belferro, vamos cear.

AMPHITRIO.

    Belferro, no me deixeis.
    Como? tambem me negais?

JUPITER.

    Andae, no vos detenhais,
    Vamos comer, se quereis,
    No ouais hum doudo mais.

AMPHITRIO.

    Ah maos! assi me ordenais
    Offensa to mal olhada?
    Eu farei, se m'esperais,
    Com que todos conheais
    Os fios da minha espada.

JUPITER.

    As portas prestes fechemos,
    No entre este doudo c.

SOSEA.

    De fuera se dormir:
    Entre tanto que cenemos,
    Puede pasearse all.


SCENA III.

AMPHITRIO _s_.

    Oh ira para no crer,
    Em que minh'alma se abraza,
    Que me faz endoudecer,
    E no me ajuda a romper
    As paredes desta casa!
    E porque? No tenho eu
    Foras, que tudo destrua?
    Pois que tanto a salvo seu,
    Outrem acho que possua
    A melhor parte do meu;
    Eu irei hoje buscar
    Quem me ajude a vir queimar
    Toda esta casa sem pena,
    Donde veja arder Alcmena,
    Com quem a vejo enganar.


SCENA IV.

_Aurelio e Moo._

AURELIO.

    No hallo  mis males culpa,
    Para que merezca pena
    La causa que me condena.

MOO.

    Essa est gentil desculpa
    Para hoje dar a Alcmena!
    Tee-no mandado chamar,
    E elle est to descuidado!

AURELIO.

    Moo, queres-me matar?
    Que desculpa posso eu dar
    Melhor qu'este meu cuidado?

MOO.

    E no ha mais que fazer?
    Com isso a boca me tapa
    Para mais nada dizer?

AURELIO.

    Ora d-me c essa capa
    E vamos ver o que quer:
    No trates de mais razo,
    Pois no ha quem te resista.
    Que vejo? outra novao!

MOO.

    Que he?

AURELIO.

             Ou me mente a vista,
    Ou eu vejo Amphitrio.

MOO.

    Eu ouvi a Feliseo,
    Quando c trouxe o recado,
    Como elle era chegado,
    E quiz-me dizer que veo
    Do siso desconcertado.

AURELIO.

    Isso quero eu ir saber,
    Pois que tal cousa se sa.


SCENA V.

_Aurelio e Amphitrio._

AURELIO.

    Senhor, pde-se dizer
    Que a vinda seja mui boa?

AMPHITRIO.

    Essa no pde ella ser.

AURELIO.

    Porque no?

AMPHITRIO.

                 Porque he roubada
    Minha honra sem temor,
    E minha casa tomada,
    E vossa Prima enganada
    Por hum grande encantador.

AURELIO.

    Isso he certo?

AMPHITRIO.

                      E manifesto:
    E tudo tee ja por seu
    Adltero e deshonesto:
    Tee-me tomado o meu gesto,
    E faz-lhe crer que sou eu.

AURELIO.

    Contais hum caso d'espanto!
    E pois no podeis entrar,
    Defendei-me por em tanto,
    Que eu hei l de chegar
    Para ver quem pde tanto,


SCENA VI.

AMPHITRIO _s_.

    Se ver deshonra to clara
    Me no tivera o sentido
    Totalmente endoudecido,
    Que gravemente chorra
    Ver to grande amor perdido!
    E quando vejo a verdade
    Do nosso amor e amizade
    Desfeita com tanta mgoa
    Enchem-se-me os olhos d'goa,
    E a alma de saudade.
    Assi que quiz minha estrella,
    Para nunca ser contente,
    Que agora, estando presente
    Viva mais saudoso della,
    Que quando della era ausente.
    Esta porta vejo abrir
    Com impeto demasiado,
    Que poderei presumir,
    Que vejo Aurelio sahir,
    Como homem desatinado?


SCENA VII.

_Amphitrio, Aurelio, Belferro e Sosea._

AURELIO.

    Oh estranha novidade!
    Oh cousa para no crer!

BELFERRO.

    Venho cego de verdade,
    Que no pudero soffrer
    Meus olhos a claridade.

SOSEA.

    Oh triste, que vengo ciego
    Con rayos, y con visiones!
    Y destas encantaciones,
    Si nuestra casa arde en fuego,
    Han se de arder mis colchones.

AURELIO.

    Vamos a Amphitrio
    Contar-lhe cousas tamanhas.

AMPHITRIO.

    Que vai l? que cousas vo?

AURELIO.

    Maravilhas to estranhas,
    Que me treme o corao.
    Porque aquelle homem, que assi
    Tantos enganos teceo,
    Como era cousa do Ceo,
    Tanto qu'eu appareci,
    Logo desappareceo.
    E em desapparecendo
    Com ruido grande e horrendo,
    Toda a casa allumiou;
    E de arte nos inflammou,
    Que nos vimos acolhendo
    Do raio que nos cegou.
    Estes acontecimentos
    No so de humana pessoa.
    Vs ouvis a voz que soa?
    Escutae, estae attentos;
    Vejamos o que prega.

JUPITER, _de dentro_.

    Amphitrio, qu'em teus dias
    Vs tamanhas estranhezas,
    No t'espantem phantasias,
    Que s vezes grandes tristezas
    Parem grandes alegrias.
    Jupiter sou manifesto
    Nas obras de admirao,
    Que por mi causadas so:
    Quiz-me vestir em teu gesto,
    Por honrar tua gerao.
    Tua mulher parir
    Hum filho de mi gerado,
    Que Hercules se chamar,
    O mais valente e esforado,
    Que no mundo se achar.
    Com este, teus successores
    Se honraro de serem teus;
    E dar-lhe-ho os escriptores,
    Por doze trabalhos seus,
    Doze milhes de louvores.
    E dessa illustre fadiga
    Colhers mui rico fruito:
    Enfim, a razo me obriga
    Que to pouco delle diga,
    Porque o tempo dir muito.

      *      *      *      *      *




FILODEMO,

COMEDIA.


INTERLOCUTORES.

    FILODEMO.
    VILARDO, seu moo.
    DIONYSA.
    SOLINA, sua moa.
    VENADORO.
    MONTEIRO.
    DORIANO, amigo de Filodemo.
    HUM PASTOR.
    HUM BOBO, filho do pastor.
    FLORIMENA, pastora.
    DOM LUSIDARDO, pae de Venadoro.
    DOLOROSO, amigo de Vilardo.
    TRES PASTORES.


ARGUMENTO.

Hum Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de Dinamarca, como
por largos amores e maiores servios, tivesse alcanado o amor de huma
filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma gal, por
quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados  costa
de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe
grande tormenta, que sem nenhum remedio, dando a gal  costa, se
perdro todos miseravelmente, seno a Princeza, que em huma taboa foi 
praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte
pario duas crianas, macho e femia; e no tardou muito que hum pastor
Castelhano, que naquellas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos
meninos, lhe acudio a tempo que a me ja tinha espirado. Crescidas,
emfim, as crianas debaixo da humanidade e criao daquelle pastor, o
macho que Filodemo se chamou  vontade de quem os baptizra, levado da
natural inclinao, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde por
musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, irmo de seu
Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre ambos
havia. E como de seu Pae no tivesse herdado nada mais que os altos
espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que
incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque ellas
nada engeito, lhe no queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho
de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caa,
andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos seus; e indo dar
em huma fonte, onde estava Florimena, irma de Filodemo (que assim lhe
pozero o nome) enchendo huma talha de goa, se perdeo de amores por
ella, que se no soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava,
at que seu Pae o no foi buscar. O qual informado pelo pastor que a
crira (que era homem sabio na Arte Magica) de como a achra e como a
crira, no teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e
prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha,
irma de Filodemo pastor; e tambem pela muita renda que tinha e de seu
Pae ficra, de que elles ero verdadeiros herdeiros. Das mais
particularidades da Comedia, fara meno o Auto, que he o seguinte.




FILODEMO,

COMEDIA.




ACTO PRIMEIRO.


SCENA I.

_Filodemo e Vilardo._

FILODEMO.

    Moo Vilardo?

VILARDO.

                      Ei-lo vae.

FILODEMO.

    Fallae era m, fallae,
    E sahi c para a sala.
    O villo como se cala!

VILARDO.

    Pois, Senhor, sahi a meu pae,
    Que quando dorme no fala.

FILODEMO.

    Trazei c huma cadeira:
    Ouvis, villo?

VILARDO.

                    Senhor, sim.
    (Se m'ella no traz a mim.
    Vejo-lh'eu ruim maneira.)

FILODEMO.

    Acabae, villo ruim.
    Que moo para servir
    Quem tee as tristezas minhas!
    Quem pudesse assi dormir!

VILARDO.

    Senhor, nestas manhzinhas
    No ha hi seno cahir:
    Por demais he trabalhar
    Qu'este somno se me ausente.

FILODEMO.

    Porque?

VILARDO.

           Porque ha d'assentar
    Que se no for com po quente,
    No ha de desaferrar.

FILODEMO.

    Ora hi pelo que vos mando,
    Villo feito de fermento.      _Sahe Vilardo._
    Triste do que vive amando
    Sem ter outro mantimento,
    Qu'estar s phantasiando!
    S hua cousa me desculpa
    Deste cuidado que sigo,
    Ser de tamanho perigo,
    Que cuido que a mesma culpa
    Me fica sendo castigo.

_Vem o moo, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_

FILODEMO.

    Ora quero praticar
    S comigo hum pouco aqui;
    Que despois que me perdi,
    Desejo de me tomar
    Estreita conta de mi.
    Vae para fra, Vilardo.
    Torna c: vae-me saber
    Se se quer ja l erguer
    O Senhor Dom Lusidardo,
    E vem-mo logo dizer.      _Vai-se o moo._
    Ora bem, minha ousadia,
    Sem azas, pouco segura,
    Quem vos deo tanta valia,
    Que subais a phantasia
    Onde no sobe a ventura?
    Por ventura eu no nasci
    No mato, sem mais valer,
    Que o gado ao pasto trazer?
    Pois donde me veio a mi
    Saber-me to bem perder?
    Eu, nascido entre pastores,
    Fui trazido dos currais,
    E d'entre meus naturais
    Para casa dos Senhores,
    Donde vim a valer mais.
    E agora logo to cedo
    Quiz mostrar a condio
    De rustico e de villo!
    Dando-me ventura o dedo,
    Lhe quero tomar a mo!
    Mas oh! qu'isto no he assi,
    Nem so villos meus cuidados,
    Como eu delles entendi;
    Mas antes, de sublimados,
    Os no posso crer de mi.
    Porque como hei eu de crer
    Que me faa minha estrella
    To alta pena soffrer,
    Que somente pola ter
    Mereo a gloria della?
    Seno se amor, d'attentado,
    Porque me no queixe delle,
    Tee por ventura ordenado
    Que merea o meu cuidado,
    S por ter cuidado nelle.


SCENA II.

_Vilardo e Filodemo._

VILARDO.

    O Senhor Dom Lusidardo
    Dorme com todo o convento;
    E elle com o pensamento
    Quer estar fazendo alardo
    De castellinhos de vento!
    Pois to cedo se vestio,
    Com seu damno se conforme,
    Pezar de quem me pario;
    Que ainda o sol no sahio:
    Se vem  mo, tambem dorme.
    Elle quer-se levantar
    Assi pela manhzinha!
    Pois quero-o desenganar:
    Nem por muito madrugar
    Amanhece mais asinha.

_Filodemo._

    Traze-me a viola c.

VILARDO.

    (Voto a tal que me vou rindo.)
    Senhor, tambem dormir.

FILODEMO.

    Traze-a, moo.

VILARDO.

                    Si, vir,
    Se no estiver dormindo.

FILODEMO.

    Ora hi polo que vos mando:
    No gracejeis.

VILARDO.

                   Eis-me vou:
    Pois, pezar de So Fernando!
    Por ventura sou eu grou?
    Sempre hei d'estar vigiando?      _Sahe._

FILODEMO.

    Ah Senhora, que podeis
    Ser remedio do que peno,
    Quo mal ora cuidareis
    Que viveis e que cabeis
    N'hum corao to pequeno!
    Se vos fosse apresentado
    Este tormento em que vivo,
    Crerieis que foi ousado
    Este vosso, de criado
    Tornar-se vosso captivo?


SCENA III.

_Filodemo e Vilardo._

VILARDO.

    Ora eu creio, se he verdade
    Qu'estou de todo acordado,
    Que meu amo he namorado;
    E a mi d-me na vontade
    Que anda hum pouco abalado.
    E se tal he, eu daria
    Por conhecer a donzella
    A rao d'hoje este dia;
    Porque a desenganaria,
    Somente por ter d della.
    Havia-lhe perguntar:
    Senhora, de que comeis?
    Se comeis d'ouvir cantar,
    De fallar bem, de trovar,
    Em boa hora casareis.
    Porm se vs comeis po,
    Tende, Senhora, resguardo;
    Qu'eis-aqui est Vilardo,
    Qu'he como hum camaleo,
    Por isso, bus, fazei fardo.
    E se vs sois das gamenhas,
    E houverdes d'attentar
    Por mais que por manducar,
    Mi cama son duras peas,
    Mi dormir siempre es velar.
    A viola, Senhor, vem
    Sem primas, nem derradeiras:
    Mas sabe o que lhe convem?
    Se quer, Senhor, tanger bem,
    Ha de haver mister terceiras.
    E se estas cantigas vossas
    No forem para escutar,
    E quizerdes espirar;
    Ha mister cordas mais grossas,
    Porque no posso quebrar.

FILODEMO.

    Vae para fra.

VILARDO.

                    Ja venho.

FILODEMO.

    Qu'eu s desta phantasia
    Me sostenho e me mantenho.

VILARDO.

    Quamanha vista que tenho,
    Que vejo a estrella do dia!      _Sahe._


SCENA IV.

FILODEMO, _cantando_.

    Ad sube el pensamiento,
    Seria una gloria inmensa
    Si all fuese quien lo piensa.

_Falla._

    Qual espirito divino
    Me far a mi sabedor
    Deste meu mal, se he amor,
    Se por dita desatino?
    Se he amor, diga-me qual
    Pde ser seu fundamento,
    Ou qual he seu natural,
    Ou porque empregou to mal
    Hum to alto pensamento.
    Se he doudice, como em tudo
    A vida me abraza e queima,
    Ou quem vio n'hum peito rudo
    Desatino to sisudo,
    Que toma to doce teima?
    Ah Senhora Dionysa,
    Onde a natureza humana
    Se mostrou to soberana!
    O que vs valeis me avisa,
    Mas o qu'eu peno m' engana.


SCENA V.

_Solina e Filodemo._

SOLINA.

    Tomado estais vs agora,
    Senhor, co'o furto nas mos.

FILODEMO.

    Solina, minha Senhora,
    Quantos pensamentos vos
    Me ouvirieis lanar fra?

SOLINA.

    Oh Senhor, quo bem que sa
    O tanger de quando em quando!
    Bem sei eu huma pessoa,
    Que haja huma hora, e boa,
    Que vos est escutando.

FILODEMO.

    Por vida vossa, zombais?
    Quem he? quereis-mo dizer?

SOLINA.

    No o haveis vs de saber,
    Bof se me no peitais.

FILODEMO.

    Dar-vos-hei quanto tiver,
    Para taes tempos como estes.
    Quem tivera voz dos Ceos,
    Pois escutar me quizestes!

SOLINA.

    Assi parea eu a Deos,
    Como lhe vs parecestes.

FILODEMO.

    A Senhora Dionysa
    Quer-se ja alevantar?

SOLINA.

    Assi me veja eu casar,
    Como despida em camisa
    Se ergueo por vos escutar.

FILODEMO.

    Em camisa levantada!
    To ditosa he minha estrella?
    Ou mo dizeis refalsada?

SOLINA.

    Pois bem me defendeo ella
    Que vos no dissesse nada.

FILODEMO.

    Se pena de tantos annos
    Merecer algum favor,
    Para cura de meus dannos
    Fartae-me desses engannos,
    Que no quero mais de Amor.

SOLINA.

    Agora quero eu fallar
    Neste caso com mais tento;
    Quero agora perguntar:
    E de siso his vs tomar
    Hum to alto pensamento?
    Certo he minha maravilha,
    Se vs isto no sentis
    Bem: vs como no cahis
    Que Dionysa qu'he filha
    Do Senhor a quem servis?
    Como? Vs no attentais
    Os Grandes, de qu'he pedida?
    Peo-vos que me digais
    Qual he o fim que esperais
    Neste caso, em vossa vida.
    Que razo boa, ou que cr
    Podeis dar a esta affeio?
    Dizei-me vossa teno.

FILODEMO.

    Onde vistes vs amor
    Que se guie por razo?
    Se quereis saber de mi
    Que fim, ou de que theor
    O pretendo em minha dor;
    S'eu neste amor quero fim,
    Sem fim me atormente Amor.
    Mas vs com gloria fingida
    Pretendeis de m'enganar,
    Por assi mal me tratar:
    Assi que me dais a vida
    Somente por me matar.

SOLINA.

    Eu digo-vos a verdade.

FILODEMO.

    Da verdade fujo eu,
    Porque se o Amor me deu
    Pena de tal qualidade,
    Assaz me custa do meu.

SOLINA.

    Flgo muito de saber
    Que sois amante to fino.

FILODEMO.

    Pois mais vos quero dizer,
    Que s vezes no imaginar
    No ouso de m' estender.
    Na hora que imaginei
    Na causa de meu tormento,
    Tamanha gloria levei,
    Que por onas desejei
    De lograr o pensamento.

SOLINA.

    Se me vs a mi jurardes
    De me terdes em segredo
    Huma cousa... mas hei medo
    De logo tudo contardes.

FILODEMO.

    A quem?

SOLINA.

               quelle enxovedo.

FILODEMO.

    Qual?

SOLINA.

            Aquelle mao pezar,
    Que ant'hontem comvosco hia.
    Quem se fosse em vs fiar!
    O que vos disse o outro dia,
    Tudo lhe fostes contar.

FILODEMO.

    Que lhe contei?

SOLINA.

                      Ja lh'esquece?

FILODEMO.

    Por certo qu'estou remoto.

SOLINA.

    Hi, que sois hum cesto roto.

FILODEMO.

    Esse homem tudo merece.

SOLINA.

    Vs sois muito seu devoto.

FILODEMO.

    Senhora, no hajais medo:
    Contae-m'isso, e far-me-hei mudo.

SOLINA.

    Senhor, o homem sisudo,
    Se em taes cousas tee segredo,
    Saiba que alcanar tudo.
    A Senhora Dionysa
    Crede que mal vos no quer:
    No vos posso mais dizer.
    Isto tende por balisa
    Com que vos saibais reger.
    Qu'em mulheres, se attentais,
    O querer est visibil;
    E se bem vos governais,
    No desespereis do mais,
    Porque, emfim, tudo he possibil.

FILODEMO.

    Senhora, pde isso ser?

SOLINA.

    Si, que tudo o mundo tem:
    Olhae no o saiba alguem.

FILODEMO.

    E que maneira hei de ter
    Para crer tamanho bem?

SOLINA.

    Vs, Senhor, o sabereis;
    E ja que vos descobri
    Tamanho sogredo aqui,
    Huma merc me fareis
    Em que me vai muito a mi.

FILODEMO.

    Senhora, a tudo me obrigo
    Quanto for em minha mo.

SOLINA.

    Pois dizei a vosso amigo
    Que no gaste tempo em vo,
    Nem queira amores comigo.
    Porque eu tenho parentes,
    Que me podem bem casar;
    E mais que no quero andar
    Agora em boca de gentes
    A quem s'elle vai gabar.

FILODEMO.

    Senhora, mal conheceis
    O que vos quer Duriano:
    Sabei-o, se o no sabeis,
    Qu'em sua alma sente o dano
    Do pouco que lhe quereis;
    E que outra cousa no quer,
    Que ter-vos sempre servida.

SOLINA.

    Pola sua negra vida,
    Isso havia eu bem mister.

FILODEMO.

    Vs sois desagradecida!

SOLINA.

    Si, que tudo so enganos
    Em tudo quanto fallais.

FILODEMO.

    No quero que me creais:
    Crede o tempo; que ha dous anos
    Que vos serve, e inda mais.

SOLINA.

    Senhor, bem sei que m'engano;
    Mas a vs, como a irmo,
    Descubro este corao:
    Sabei que a Duriano
    Tenho sobeja affeio.
    Olhae que lhe no digais
    Isto que vos aqui digo.

FILODEMO.

    Senhora, mal me tratais:
    Inda que sou seu amigo,
    Sabei que vosso sou mais.

SOLINA.

    E ja que vos confessei
    Aquestas fraquezas minhas,
    Que ha tanto que de mi sei;
    Fazei vs nas cousas minhas
    O qu'eu nas vossas farei.

FILODEMO.

    Vs enxergareis, Senhora,
    O qu'eu por vs sei fazer.

SOLINA.

    Como me deixo esquecer!
    Aqui estivera agora
    Fallando t anoitecer.
    Vou-me; e olhae quanto val
    O que passou entre ns.

FILODEMO.

    E porque vos ides vs?

SOLINA.

    Porque parece ja mal
    Estar aqui ambos ss.
    E mais vou vestir agora
    A quem vos d to m vida.
    Ficae-vos, Senhor, embora.

FILODEMO.

    Nessa ide vs, Senhora,
    Que ja vos tenho entendida.


SCENA VI.

FILODEMO _s_.

    Ora se pde isto ser
    Do qu'esta moa me avisa,
    Que a Senhora Dionysa,
    Por me ouvir, se fosse erguer
    Da sua cama em camisa!
    E diz que mal me no quer.
    No queria maior gloria;
    Mas o que mais posso crer,
    Que nem para lhe esquecer
    Lhe passo pela memoria.
    Mas ter Solina tambem
    Em Duriano o intento,
    He levar-me a lenha o vento;
    Porque s'ella lhe quer bem,
    Para bem vai meu tormento.
    Mas foi-se este homem perder
    Neste tempo, de maneira,
    Por huma mulher solteira,
    Que no me atrevo a fazer
    Que hum pequeno bem lhe queira.
    Porm far-lhe-hei hum partido,
    Porqu'ella no se querelle:
    Que se mostre seu perdido,
    Inda que seja fingido,
    Como lh'outrem faz a elle.
    E ja que me satisfaz,
    E tanto nisto se alcana,
    D-lhe fingida esperana:
    Do mal que lhe outrem faz,
    Tomar nella vingana.


SCENA VII.

VILARDO _s_.

    Ora boa est a cilada
    De meu amo com sua ama,
    Que se levantou da cama
    Por ouvi-lo! Est tomada:
    Assi a tome m trama.
    E mais crede que quem canta,
    Ainda descantar;
    E quem do leito, onde est,
    Por ouvi-lo se levanta,
    Mor desatino far.
    Quem havia de cuidar,
    Que dama formosa e bella
    Saltasse o demonio nella,
    Para a fazer namorar
    De quem no he igual della?
    Que me dizeis a Solina?
    Como se faz Celestina,
    Que por no lhe haver inveja
    Tambem para si deseja
    O que o desejo lh'ensina!
    Crede que se me alvoro,
    Que a hei de tomar por dama;
    E no ser gro destro,
    Pois o amo quer a ama,
    Que a moa queira o moo.
    Vou-me; que vejo l vir
    Venadoro, apercebido
    Para a caa se partir:
    E voto a tal, que he partido
    Para ver e para ouvir.
    Que he razo justa e rasa
    Que seu folgar se desconte
    Em quem arde como brasa;
    Que se vai caar ao monte,
    Fique outrem caando em casa.


SCENA VIII.

VENADORO _s_.

    Aprovada antiguamente
    Foi, e muito de louvar
    A occupao do caar,
    E da mais antigua gente
    Havida por singular.
    He o mais contrrio officio
    Que tee a ociosidade,
    Me de todo o bruto vcio:
    Por este limpo exercicio
    Se reserva a castidade.
    Este dos grandes Senhores
    Foi sempre muito estimado;
    E he grande parte do estado
    Ter monteiros, caadores,
    Como officio qu'he prezado.
    Pois logo porque razo
    A meu pae ha de pezar
    De me ver ir a caar?
    E to boa occupao
    Que mal me pde causar?


SCENA IX.

_Venadoro e o Monteiro._

MONTEIRO.

    Senhor, venho alvoroado,
    E mais com muita razo.

VENADORO.

    Como assi?

MONTEIRO.

                 Que me he chegado
    O mais extremado co,
    Que nunca caou veado.
    Vejamos que me ha de dar.

VENADORO.

    Dar-vos-hei quanto tiver;
    Mas ha-se d'exprimentar,
    Para se poder julgar
    As manhas que pde ter.

MONTEIRO.

    Pde assentar qu'este co,
    Que tee das manhas a chave.
    Bem feito? Em admirao.
    Pois em ligeiro? He huma ave.
    Em commetter? Hum leo.
    Com porcos? Maravilhoso.
    Com veados? Extremado.
    Sobeja-lhe o ser manhoso.

VENADORO.

    Pois eu ando desejoso
    D'irmos matar hum veado.

MONTEIRO.

    Pois, Senhor, como no vae?

VENADORO.

    Vamos, e vs mui ligeiro
    O necessario ordenae;
    Qu'eu quero chegar primeiro
    Pedir licena a meu pae.




ACTO SEGUNDO.


SCENA I.

DURIANO.

Pois no creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pr p em ramo verde, t
lhe dar trezentos aoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos
cruzados com ella, porque logo lhe no mandei o setim para as mangas,
fez de mim mangas ao demo. No desejo eu de saber, seno qual he o
galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe
farei botar ao mar quantas esperanas lhe a fortuna tee cortado 
minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a
mar com a lua: bolsa cheia, amor em goas vivas; mas se vasa, vereis
espraiar este engano, e deixar em scco quantos gostos andavo como o
peixe na goa.


SCENA II.

_Filodemo e Duriano._

FILODEMO.

 l! c sois vs? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me
sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos
tire como huma alma.

DURIANO.

Oh maravilhosa pessoa! Vs he certo que vos prezais de mais certo em
casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem  mo, os
pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vs sabeis. Pois
sabeis, Senhor Filodemo, quaes so os que me mto? Huns muito bem
almofaados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezo de
brandos na conversao, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo
que no daro meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gbo mais
Garcilasso que Bosco; e ambos lhe sahem das mos virgens; e tudo isto
por vos meterem em consciencia que se no achou para mais o gro Capito
Gonalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo
faro altos espiritos: e eu no trocarei duas pescoadas da minha etc.,
depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e
fingir-se-me bebada, porque o no parea, por quantos Sonetos esto
escriptos polos troncos dos rvores do vale Luso, nem por quantas
Madamas Lauras vs idolatrais.

FILODEMO.

T, t, no vades avante, que vos perdeis.

DURIANO.

Aposto que adivinho o que quereis dizer?

FILODEMO.

Que?

DURIANO.

Que se me no acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a
herege de amor.

FILODEMO.

Oh que certeza tamanha, o muito peccador no se conhecer por esse!

DURIANO.

Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinio! Mas
tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he
cousa de vossa saude, tudo farei.

FILODEMO.

Como templar el destemplado? Quem poder dar o que no tee, Senhor
Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: no pde ser que a natureza no
faa em vs o que a razo no pde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porm
he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis
para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo
andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lanarem em vs.
Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que no he
servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o no
consinta, eu no pretendo della mais que o no pretender della nada,
porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como
a ave Phenix, que de si s nasce, e no de outro nenhum interesse.

DURIANO.

Bem praticado est isso; mas dias ha que eu no creio em sonhos.

FILODEMO.

Porque?

DURIANO.

Eu vo-lo direi: porque todos vs-outros os que amais pela passiva,
dizeis que o amor fino como melo, no ha de querer mais de sua dama que
am-la; e vir logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a
trezentos Plates, mais afado que as luvas de hum pagem d'arte,
mostrando razes verisimeis e apparentes, para no quererdes mais de
vossa dama que v-la; e ao mais at fallar com ella. Pois inda achareis
outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defendero a
justa por no emprenhar o desejo; e eu (fao-vos voto solemne) se a
qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous
pratos, eu fico que no ficasse pedra sbre pedra: e eu ja de mi vos sei
confessar que os meus amores ho de ser pela activa, e que ella ha de
ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de,
v v. m. co'a historia por diante.

FILODEMO.

Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dvida entre os
Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mo,
bem trinta ou quarenta legoas pelo serto dentro de hum pensamento,
seno quando me tomou  traio Solina; e entre muitas palavras que
tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantra da cama por me
ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia.

DURIANO.

Cobras e tostes, sinal de terra: pois ainda vos no fazia tanto avante.

FILODEMO.

Finalmente, veio-me a descobrir, que me no queria mal, que foi para mi
o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a
soffrer por sua causa, e no tenho agora sogeito para tamanho bem.

DURIANO.

Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser so. Se vos
deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca
chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanas ao leme;
que eu vos fao bom que s duas enxadadas acheis goa. E que mais
passastes?

FILODEMO.

A maior graa do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vs; e
me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vs merecesseis.

DURIANO.

Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor?
porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que
dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella
quer que eu caia.

FILODEMO.

Nem eu no quero que lho queirais, mas que lhe faais crer que lho quereis.

DURIANO.

No... quant dessa maneira me offereo a romper meia duzia de servios
alinhavados s panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais
fiel amante que nunca calou esporas; e se isto no bastar, salgan las
palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feio, que digo que
sou hum Mancias, e peor ainda.

FILODEMO.

Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro,
irmo da Senhora Dionysa, he fra  caa; e sem elle fica a casa
despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu
passatempo he enxertar e dispr, e outros exercicios d'agricultura,
naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem  medida do desejo, vamo-nos
l; e se puderdes fallar, fazei de vs mil manjares, porque lhe faais
crer que sois mais esperdiado d'amor que hum Braz Quadrado.

DURIANO.

Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas,
com que vosso feito venha  luz.


SCENA III.

_Dionysa e Solina._

DIONYSA.

    Solina, mana.

SOLINA.

                     Senhora.

DIONYSA.

    Trazei-me c a almofada;
    Que a casa est despejada,
    E esta varanda c fra
    Est melhor assombrada.
    Trazei a vossa tambem
    Para estarmos c lavrando;
    Em quanto meu pae no vem,
    Estaremos praticando,
    Sem nos estorvar ninguem.

SOLINA.

    Este he o mesmo lugar
    Onde estava o bem logrado,
    Tal que de muito enlevado
    Se esquecia do cantar
    Por se enlevar no cuidado.

DIONYSA.

    Vs, mana, sois mui ruim!
    Logo lhe fostes contar
    Que me ergui polo escutar.

SOLINA.

    Eu o disse?

DIONYSA.

               Eu no o ouvi?
    Como mo quereis negar?

SOLINA.

    E pois isso que releva?
    Que se perde nisso agora?

DIONYSA.

    Que se perde! Assi, Senhora,
    Folgareis vs que se atreva
    A cont-lo l por fra?
    Que se lhe meta em cabea
    Alguma parvoa teno?
    Que faa, se vem  mo,
    Algua cousa que parea?

SOLINA.

    Senhora, no tee razo.

DIONYSA.

    Eu sei mui bem attentar
    Do que se ha de ter receio,
    E do que he para estimar.

SOLINA.

    No he o demo to feio
    Como alguem o quer pintar;
    E no se espera isso delle,
    Que no he ora to moo.
    E Vossa Merc asselle
    Que qualquer segredo nelle
    He como huma pedra em poo.

DIONYSA.

    E eu que segredo quero
    Co'hum criado de meu pae?

SOLINA.

    E vs, mana, fazeis fero?
    Ao diante vos espero,
    Se adiante o caso vae.

DIONYSA.

    O madrao! quem o vir
    Fallar de siso co'ella...
    Ento vs, gentil donzella,
    Folgais muito de o ouvir?

SOLINA.

    Si, porque me falla nella;
    E eu como ouo fallar
    Nella, como quem no sente,
    Folgo de o escutar,
    S para lhe vir contar
    O que della diz a gente;
    Qu'eu no quero nada delle.
    E mais, porque est fallando?
    No m'esteve ella rogando
    Que fosse fallar com elle?

DIONYSA.

    Disse-vo-lo assi zombando.
    Vs logo tomais em grosso
    Tudo quanto me escutais.
    Parvo! que v-lo no posso.

SOLINA.

    Ella alli, e o co co'o osso!
    Inda isto ha de vir a mais.
    Pois que tal odio lhe tem,
    Fallemos, Senhora, em al;
    Mas eu digo que ninguem
    Merece por querer bem
    Que a quem lho quer, queira mal.

DIONYSA.

    Deixae-o vs doudejar.
    Se meu pae, ou meu irmo,
    O vierem a aventar,
    No ha elle de folgar.

SOLINA.

    Deos meter nisso a mo.

DIONYSA.

    Ora hi polas almofadas,
    Que quero hum pouco lavrar;
    Por ter em que me occupar;
    Qu'em cousas to mal olhadas
    No se ha o tempo de gastar.

SOLINA.

    Que cousa somos mulheres!
    Como somos perigosas!
    E mais estas to viosas
    Qu'esto  boca _que queres_
    E adoecem de mimosas!
    Se eu no caminho agora
    A seu desejo e vontade;
    Como faz esta Senhora,
    Fazem-se logo nessa hora
    Na volta da honestidade.
    Quem a vira o outro dia
    Hum poucochinho agastada,
    Dar no cho com a almofada,
    E enlevar a phantasia,
    Toda n'outra transformada!
    Outro dia lhe ouviro
    Lanar suspiros a mlhos,
    E com a imaginao
    Cahir-lhe a agulha da mo,
    E as lagrimas dos olhos.
    Ouvir-lhe-heis  derradeira
    A ventura maldizer,
    Porque a foi fazer mulher.
    Ento diz que quer ser Freira;
    E no se sabe entender.
    Ento gaba-o de discreto,
    De musico e bem disposto,
    De bom corpo e de bom rosto.
    Quant ento eu vos prometo,
    Que no tee delle desgsto.
    Despois, se vem a attentar,
    Diz que he muito mal feito
    Amar homem deste geito;
    E que no pde alcanar
    Pr seu desejo em effeito.
    Logo se faz to Senhora,
    Logo lhe ameaa a vida,
    Logo se mostra nessa hora
    Muito segura de fra,
    E de dentro est sentida.
    Bof, segundo vou vendo,
    Se esta postema vier,
    Como eu suspeito, a crescer,
    Muito ha que della entendo
    O fim que pde vir ter.


SCENA IV.

_Duriano e Filodemo._

DURIANO.

Ora deixae-a ir, que  vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como
hei de fazer; que no ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.

FILODEMO.

Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a d  Senhora
Dionysa; que me vai nisso muito.

DURIANO.

Por mulher de to bom engenho a tendes?

FILODEMO.

E porque me perguntais isso?

DURIANO.

Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta
mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.

FILODEMO.

No lhe digais que vos disse nada, porque cuidar que por isso lhe
fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fao
 vossa teno.

DURIANO.

Deixae-me vs a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes
vintes, que vs; e eu vo-la farei hoje vir a ns sem gafas; e vs
entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la l vem.

FILODEMO.

Olhae l: fazei que a no vdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a
nosso caso.

DURIANO.

Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia
no la espero remediar. Pois no devia assi de ser, polos santos
Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos,
ando s vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen
aflojar cuando mas duelen.)


SCENA V.

_Solina e Duriano._

SOLINA, _com a almofada_.

    Aqui anda passeando
    Duriano, e s comsigo
    Pensamentos praticando:
    Daqui posso estar notando
    Com quem sonha, se he comigo.

DURIANO.

    Ah quo longe estar agora
    Minha Senhora Solina
    De saber que estou bem fra
    De ter outra por senhora,
    Segundo o amor determina!
    Porm se determinasse
    Minha bem-aventurana
    Que de meu mal lhe pezasse.
    At que nella tomasse
    Do que lhe quero vingana!...

SOLINA.

    (Comigo sonha por certo.
    Ora quero-me mostrar,
    Assi como por acrto:
    Chegar-me-hei mais ao perto,
    Por ver se me quer fallar.)
    Sempre esta casa ha d'estar
    Acompanhada de gente,
    Que no possa homem passar!

DURIANO.

     traio vindes tomar
    Quem ja feridas no sente?

SOLINA.

    Logo me a mi parecia
    Que era elle o que passeava.

DURIANO.

    E eu mal adivinhava
    Que me viesse este dia,
    Que ha tantos que desejava.
    Se huns olhos por vos servir,
    Com o amor que vos conquista,
    Se atrevro a subir
    Os muros da vossa vista,
    Que culpa tee quem vos vir?
    E se esta minha affeio,
    Que vos serve de giolhos,
    No fez rro na teno,
    Tomae vingana nos olhos,
    E deixae o corao.

SOLINA.

    Ora agora me vem riso.
    Assi que vs sois, Senhor,
    De siso meu servidor?

DURIANO.

    De siso no, porque o siso
    Me tee tirado o amor.
    Porque o amor, se attentais,
    N'hum to verdadeiro amante
    No deixa siso bastante;
    Seno se siso chamais
    A doudice to galante.

SOLINA.

    Como Deos est nos Ceos,
    Que se he verdade o que temo,
    Que fez isto Filodemo.

DURIANO.

    Mas f-lo o dmo; que Deos
    No faz mal tanto em extremo.

SOLINA.

    Bem. Vs, Senhor Duriano,
    Porque zombareis de mim?

DURIANO.

    Eu zombo?

SOLINA.

                    Eu no m' engano.

DURIANO.

    S' eu zombo, inda em meu dano
    Vejais vs mui cedo a fim.
    Mas vs, Senhora Solina,
    Porque me querereis mal?

SOLINA.

    Sou mofina.

DURIANO.

                   Oh! real.
    Assi que minha mofina
    He minha imiga mortal.
    Dias ha qu'eu imagino
    Qu'em vos amar e servir
    No ha amador mais fino;
    Mas sinto que de mofino
    Me fino sem o sentir.

SOLINA.

    Bem derivais: quant assi
     popa o dito vos veio.

DURIANO.

    Vir-me-ha de vs, porque creio
    Que vs fallais dentro em mi,
    Como esprito em corpo alheio.
    E assi que em estas pis
    A cahir, Senhora, vim;
    Bem parecer entre ns,
    Pois vs andais dentro em mim,
    Que ande eu tambem dentro em vs.

SOLINA.

    He bem: que fallar he esse?

DURIANO.

    Dentro na vossa alma, digo,
    L andasse, e l morresse!
    E se isto mal vos parece,
    Dae-me a morte por castigo.

SOLINA.

    Ah mao! Como sois malvado!

DURIANO.

    Mas vs como sois malvada,
    Que de hum pouco mais de nada
    Fazeis hum homem armado,
    Como quem 'st sempre armada!
    Dizei-me, Solina, mana.

SOLINA.

    Qu'he isso? Tirae l a mo:
    Oh! vs sois mao cortezo.

DURIANO.

    O que vos quero m'engana,
    Mas o que desejo no.
    No ha aqui seno paredes,
    As quaes no fallo, nem vem.

SOLINA.

    Est isso muito bem.
    Bem: e vs, Senhor, no vdes
    Que poder vir alguem?

DURIANO.

    Que vos custo dous abraos?

SOLINA.

    No quero tantos despejos.

DURIANO.

    Pois que faro meus desejos,
    Que querem ter-vos nos braos,
    E dar-vos trezentos beijos?

SOLINA.

    Olhae que pouca vergonha!
    Hi-vos d'hi, boca de praga.

DURIANO.

    Eu no sei certo a que ponha
    Mostrardes-me a triaga,
    E virdes-me a dar peonha.

SOLINA.

    Ora ide rir  feira,
    E no sejais dessa laia.

DURIANO.

    Se vdes minha canseira,
    Porque lhe no dais maneira?

SOLINA.

    Que maneira?

DURIANO.

                     A da saia.

SOLINA.

    Por minha alma, hei de vos dar
    Meia duzia de porradas.

DURIANO.

    Oh que gostosas pancadas!
    Mui bem vos podeis vingar,
    Qu'em mim so bem empregadas.

SOLINA.

    Ao diabo, que o eu dou.
    Como me doeo a mo!

DURIANO.

    Mostrae c, minha affeio,
    Que essa dor me magoou
    Dentro no meu corao.

SOLINA.

    Ora hi-vos embora asinha.

DURIANO.

    Por amor de mi, Senhora,
    No fareis huma cousinha?

SOLINA.

    Digo que vades embora.
    Que cousa?

DURIANO.

                  Esta cartinha.

SOLINA.

    Que carta?

DURIANO.

                 De Filodemo
    A Dionysa vossa ama.

SOLINA.

    Dizei, que tome outra dama,
    E d os amores ao dmo.

DURIANO.

    No andemos pola rama.
    Senhora, (aqui para ns)
    Que sentis della com elle?

SOLINA.

    Grandes alforges sois vs!
    Pois hi-lhe dizer que appelle.

DURIANO.

    Fallae, que aqui 'stamos ss.

SOLINA.

    Qualquer honesta se abala,
    Como sabe que he querida.
    Ella he por elle perdida:
    Nunca n'outra cousa falla.

DURIANO.

    Ora vou-lhe dar a vida.

SOLINA.

    E eu no lhe disse ja
    Quanta affeio lh'ella tem?

DURIANO.

    No se fia de ninguem,
    Nem cr que para elle ha
    No mundo tamanho bem.

SOLINA.

    Dir-vos-hia de mim l
    O que lh'eu disse zombando?

DURIANO.

    No disse, por S. Fernando!

SOLINA.

    Ora ide-vos.

DURIANO.

                    Que me va!
    E mandais que torne? Quando?

SOLINA.

    Quando eu c vir lugar,
    Vo-lo mandarei dizer.

DURIANO.

    Se o quizerdes buscar,
    No vos deve de faltar,
    Se no faltar o querer.

SOLINA.

    No falta.

DURIANO.

              Dae-me hum abrao
    Em sinal do que quereis.

SOLINA.

    T, que o no levareis.

DURIANO.

    De quantos servios fao
    Nenhum pagar me quereis?

SOLINA.

    Pagar-vos-ho algum'hora,
    Que isso a mi tambem me toca;
    Mas agora hi-vos embora.

DURIANO.

    Essas mos beijo, Senhora,
    Em quanto no posso a boca.


SCENA VI.

_Solina que traz a almofada, e Dionysa._

SOLINA.

    Ja Vossa Merc dir
    Qu'estive muito tardando.

DIONYSA.

    Bem vos detivestes l.
    Bof que estava cuidando
    Em no sei que.

SOLINA.

                   Que ser?
    Aqui somos. (Quant agora
    Est ella transportada.)

DIONYSA.

    Que rosnais vs l, Senhora?

SOLINA.

    Digo que tardei l fra
    Em buscar esta almofada.
    Que estava ella agora s
    Comsigo phantasiando?

DIONYSA.

    Bof que estava cuidando
    Qu'he muito para haver d
    Da mulher que vive amando.
    Que hum homem pde passar
    A vida mais occupado:
    Com passear, com caar,
    Com correr, com cavalgar,
    Frra parte do cuidado.
    Mas a coitada
    Da mulher sempre encerrada,
    Que no tee contentamento,
    No tee desenfadamento,
    Mais que agulha e almofada?
    Ento isto vem parir
    Os grandes erros da gente:
    Foro mil vezes cahir
    Princezas d'alta semente.
    Lembra-me que ouvi contar
    De tantas affeioadas
    Em baixo e pobre lugar,
    Que as que agora vo errar
    Podem ficar desculpadas.

SOLINA.

    Senhora, a muita affeio
    Nas Princezas d'alto estado
    No he muita admirao;
    Que no sangue delicado
    Faz amor mais impresso.
    Mas deixando isto  parte,
    Se m'ella quizer peitar,
    Prometto de lhe mostrar
    Huma cousa muito d'arte,
    Que l dentro fui achar.

DIONYSA.

    Que cousa?

SOLINA.

                  Cousa d'esprito.

DIONYSA.

    Algum panno de lavores?

SOLINA.

    Inda ella no deo no fito?
    Cartinha sem sobre-escripto,
    Que parece ser de amores.

DIONYSA.

    Essa he a boa ventura?

SOLINA.

    Bof que mo pareceo.

DIONYSA.

    E essa donde nasceo?

SOLINA.

    No meu cesto da costura:
    No sei quem m'alli meteo.

DIONYSA.

    Mostrae-ma; no hajais medo,
    Mana. Eu que vos descobri...

SOLINA.

    E se ella vem para mi,
    Logo quer ver meu segredo?
    No a veja: v-se d'hi.
    Ei-la-ahi.

DIONYSA.

                Cuja ser?

SOLINA.

    No sei certo cuja he.

DIONYSA.

    Si; sabeis.

SOLINA.

                No sei, bof.

DIONYSA.

    Ora a carta mo dir.

SOLINA.

    Pois leia Vossa Merc.

_Abre Dionysa a carta, e l-a._

Se para merecer minha pena me no falta mais que viver contente della,
ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo
triste, seno por no ser para to doce tristeza. Se tendes por offensa
commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a no
commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos  medida das
affeies, e as affeies  medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu
amor pde ser pouco, nem fazer menos: se este no bastar para
consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter
mereo; e seno muitas graas ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que
com t-lo se paga o trabalho de soffr-lo.

SOLINA.

    Quanta parvoice diz!

DIONYSA.

    Ora muito boa est!
    Como vs, mana, sois m!
    No sejais vs to biliz;
    Que bem vos entendo ja.
    Cuja he?

SOLINA.

              E eu que sei?

DIONYSA.

    Pois quem o sabe?

SOLINA.

                         O dmo.

DIONYSA.

    Certo que he de quem temo;
    Que os ditos que nella achei
    So todos de Filodemo.
    Este homem, que atrevimento
    He este que foi tomar?
    Qual ser seu fundamento?
    Que mil vezes me faz dar
    Mil voltas ao pensamento.
    No entendo delle nada.
    Mas inda qu'isto he assi,
    Disso que delle entendi,
    Me sinto to alterada,
    Que me arreceio de mi.
    Eu inda agora no creio
    Que he verdade este amor;
    Mas praza a Deos, se assi for,
    Que inda este meu arreceio
    Se no converta em temor.

SOLINA.

    Ja vs, ja sdes,
    Peixes, nas redes.
    Senhora, quem mais confia,
    Mais asinha a cahir vem:
    Natural he o querer bem;
    Que o amor n'alma se cria,
    Sem o sentir quem o tem.
    Filodemo, no que ouvi,
    Tee-lhe sobeja affeio;
    E postoque o creia assi,
    Ou eu sonhei, ou ouvi.
    Que era d'alta gerao.
    Logo na phisionomia,
    Nas manhas, artes e geito,
    Mostra mui grande respeito:
    Nem to alta phantasia
    No se pe em baixo peito.

DIONYSA.

    Tudo isso cuido, e vi
    Mil vezes miudamente;
    Mas estas mostras assi
    So desculpas para mi,
    E no para toda a gente.

SOLINA.

    O seu moo vejo vir
    A ns, seu passo contado:
    Este he muito para ouvir,
    Que diz que me quer servir
    D'amores esperdiado.


SCENA VII.

_Vilardo, Solina e Dionysa._

VILARDO.

    Senhora, o Senhor seu pae,
    Mesmo de Vossa Merc,
    Ja l para casa vae:
    Por isso, Senhora, andae,
    Que elle me mandou n'hum p;
    E diz que fosse jantar
    Vossa Merc mesmamente.

SOLINA.

    E ja veio do pomar?

DIONYSA.

    Oh quem pudra escusar
    De comer, nem de ver gente!
    (Nenhuma cr de verdade
    Tenho do que m'elle manda.)

VILARDO.

    S'ella sem vontade anda,
    Eu lh'emprestarei vontade,
    Empreste-m'ella a vianda.

SOLINA.

    Va, Senhora, por no dar
    Mais em que cuidar  gente.

DIONYSA.

    Irei, mas no por jantar;
    Que quem vive descontente
    Mantem-se de imaginar.

VILARDO.

    Pois tambem c minhas dores
    Me no deixo comer po;
    Nem come minha affeio
    Seno sopadas d'amores,
    E mil postas de paixo.
    Das lagrimas caldo fao,
    Do corao escudella;
    Esses olhos so panella
    Que coze bofes e bao,
    Com toda a mais cabedella.


SCENA VIII.

_O Monteiro, um pastor e um bobo._

MONTEIRO.

    Perdeo-se por esta brenha
    Venadoro, meu Senhor,
    Sem que novas delle tenha:
    Queira Deos que inda no venha
    Desta perda outra maior.
    Contra esta parte daqui
    Des pos hum cervo correo,
    Logo desappareceo:
    Como da vista o perdi,
    O gosto se me perdeo.
    Eu, e os mais caadores,
    Corremos montes e covas;
    Fallamos com lavradores
    Deste valle, e com pastores,
    Sem acharmos delle novas.
    Quero ver nestes casais
    Que cobre aquelle arvoredo,
    Se acharei pastores mais,
    Que me dem alguns sinais
    Que me posso tornar ledo.

_Chama._

     dos casaes,  de l:
    Ah pastores, no fallais?

PASTOR.

    Quien sois,  lo que buscais?

MONTEIRO.

    Ouvis? Chegae para c.

PASTOR.

    Dicid vos lo que mandais.

BOBO.

    No vayais ad os llam,
    Padre, sin saber quien es.

PASTOR.

    Porque?

BOBO.

             Porque este es
    Aquel ladron que hurt
    El asno del Portugues.
    Y se vais ad estan,
    Os juro al cuerpo sagrado
    De San Pisco, y San Juan,
    Que tambien os hurtarn,
    Que sois asno mas honrado.

PASTOR.

    Djame ir, que me llam.

BOBO.

    No, por vida de mi madre;
    Que si all vais, muerto so',
    Y desta vez quedo yo,
    Sin asno, triste! y sin padre.

MONTEIRO.

    Vinde, que vo-lo encommendo,
    E em vossas mos me ponho.

BOBO.

    No vais, que dijo _en comiendo_.
    Encomiendoos al demonio!      _(Ao Monteiro.)_
    Y esso es lo que andais haciendo?

PASTOR.

    Djame ir ad est,
    Que no es cosa que me espante.

BOBO.

    No quereis sino ir all?
    Pues echadle pan delante,
    Puede ser amansar.

PASTOR.

    Dios os guarde! Qu cosa es
    Esa por que voceais?

MONTEIRO.

    Dar-m'heis novas, ou sinais
    D'hum Fidalgo Portugues,
    Se passou por onde andais?

BOBO.

    Yo so' Hidalgo Portugues:
    Que manda su Seoria?

PASTOR.

    Cllate: oh que nescio es!

BOBO.

    Padre, no me dejars
    Ser lo que quisiere un dia?
    Ah Santo Dios verdadero!
    No ser lo que otros son?
    Digo ahora que no quiero
    Ser Alonsico, el vaquero.

PASTOR.

    Cllate ya, bobarron.

BOBO.

    Ya me callo: ahora un poco
    He de ser lo que yo quisiere.

PASTOR.

    Seor, diga lo que quiere,
    Porque este mochacho es loco,
    Y muero porque no muere.

MONTEIRO.

    Digo, que se por ventura
    Sabeis o que ando buscando:
    Hum Fidalgo, que caando
    Se perdeo nesta espessura
    Apos hum cervo andando.
    Tenho esta parte corrida,
    Sem delle poder saber:
    Trago a alegria perdida;
    E se de todo a perder,
    Perca-se tambem a vida.
    Porque s polo buscar
    Tenho trabalhos asss.

BOBO.

    (Yo no puedo callar mas.)

PASTOR.

    (Como no puedes callar?
    Qutate all para tras.)
    Cuanto por aquesta tierra,
    No siento nueva ninguna.

MONTEIRO.

    Oh trabalhosa fortuna!

PASTOR.

    Mas detras daquesta sierra
    Hallareis, por dicha, alguna;
    Que unas choas de vaqueros
    Portugueses all estan;
    Y ah muchas veces van
    Cazadores Cavalleros:
    Puede ser que lo sabran.

MONTEIRO.

    Quero-me ir l saber.
    Ficae-vos a Deos, pastor.

PASTOR.

    Dios os livre de dolor.

BOBO.

    Y  nos d siempre comer
    Pan y sopas, qu'es mejor.
    Mirad lo que os notifico:
    En aquel valle, acull,
    Anda paciendo un burrico,
    Hidalgo, manso, y bonico;
    Puede ser que ese ser.

PASTOR.

    Calla, y acaba de andar.

BOBO.

    Ya ando.

PASTOR.

              Quieres callar?
    Bobo, que tan poco sabe!

BOBO.

    No diceis que ande y acabe?
    Ando, y no quiero acabar.




ACTO TERCEIRO.


SCENA I.

_Florimena, pastora, com hum pote que vai  fonte._

FLORIMENA.

    Por este formoso prado
    Tudo quanto a vista alcana
    To alegre est tornado,
    Que a qualquer desesperado
    Pde dar certa esperana.
    O monte, e sua aspereza,
    De flores se veste ledo;
    Reverdece o arvoredo,
    Somente em minha tristeza
    Est sempre o tempo quedo.
    Junto desta fonte pura,
    Segundo a muitos ouvi,
    D'altos parentes nasci:
    Foi como quiz a Ventura,
    Mas no como eu mereci.
    O dia que fui nascida,
    Minha me do parto forte
    Foi sem cura fallecida;
    E o dia que me deo vida
    Lhe dei eu a ella a morte.
    Do mesmo parto nasceo
    Meu irmo, que entre os cabritos
    Comigo tambem viveo;
    Mas, assi como cresceo,
    Crescro nelle os espritos.
    Foi-se buscar a cidade;
    Teve juizo e saber;
    Eu fiquei, como mulher,
    E no tive faculdade
    Para poder mais valer.
    A hum pastor obedeo
    Por pae, que d'outro no sei;
    E, pola me que matei,
    A huma cabra conheo,
    De cujo leite mamei.
    Mas porm, ja qu'este monte
    Me obriga e meu nascimento,
    Quero, pois quer meu tormento,
    Encher a talha na fonte
    Que co'os olhos accrescento.

_Finge que enche a talha._


SCENA II.

_Venadoro e Florimena._

VENADORO.

    Pois que me vim alongar
    Dos caminhos e da gente,
    Fortuna, que o consente,
    Se devia contentar
    De me ter to descontente.
    Porm, segundo adivinho,
    Por to espsso arvoredo,
    Por to aspero rochedo,
    Quanto mais busco o caminho,
    Tanto mais delle me arredo.
    O cavallo, como amigo,
    Ja cansado me trazia:
    Mas deixou-me todavia;
    Que mal pudera comigo
    Quem comsigo no podia.
    Quero-me aqui assentar
     sombra, nesta hervinha,
    Porque canso ja de andar;
    Mas inda a fortuna minha
    No cansa de me cansar.
    Junto desta fonte pura
    No sei quem cuido qu'est;
    Mas no corao me d
    Que aqui me guarda a Ventura
    Alguma ventura m.
    Ou ganhado, ou bem perdido,
    Faa, emfim, o que quizer,
    Qu'eu o fim disto hei de ver?
    Que ja venho apercebido
    A tudo quanto vier.
    Oh que formosa serrana
     vista se me offerece!
    Deosa dos montes parece;
    E se he certo que he humana,
    O monte no a merece.
    Pastora to delicada,
    De gesto to singular,
    Parece-me qu'em lugar
    De perguntar pola estrada,
    Por mim lhe hei de perguntar.
    Atqui sempre zombei
    De qualquer outra pessoa
    Que affeioada topei;
    Mas agora zombarei
    De quem se no affeioa.
    Serrana, cuja pintura
    Tanto a alma me moveo,
    Dizei-me: Por qual ventura
    Andareis nesta espessura,
    Merecendo estar no ceo?

FLORIMENA.

    Tamanho inconveniente
    Andar na serra parece?
    Pois a ventura da gente
    Sempre he mui diferente
    Do que, ao parecer, merece.

VENADORO.

    Tal resposta he manifesto
    No se parecer co'as cabras.
    Pois no vos parece honesto
    Saberdes matar co'o gesto,
    Seno inda com palabras?
    No mato tudo he rudeza.
    Ha tal gesto e discrio?
    No o creio.

FLORIMENA.

                  Porque no?
    No supprir natureza
    Onde falta criao?

VENADORO.

    Ja logo nisso, Senhora,
    Dizeis, se no sinto mal,
    Que do vosso natural
    No era serdes pastora.

FLORIMENA.

    Digo, mas pouco me val.

VENADORO.

    Pois quem vos pde trazer
     conversao do monte?

FLORIMENA.

    Perguntae-o a essa fonte;
    Que as cousas duras de crer,
    Hum as faa, outro as conte.

VENADORO.

    Esta fonte, que est aqui,
    Que sabe do que dizeis?

FLORIMENA.

    Senhor, mais no pergunteis.
    Porque outra cousa de mi
    Sabei que no sabereis.
    De vs agora sabei,
    O que no tendes sabido:
    Se quereis goa, bebei;
    Se andais por dita perdido,
    Eu vos encaminharei.

VENADORO.

    Senhora, eu no vos pedia
    Que ninguem m'encaminhasse;
    Que o caminho qu'eu queria,
    Se o eu agora achasse,
    Mais perdido me acharia.
    No quero passar daqui;
    E no vos parea espanto
    Qu'em vos vendo me rendi;
    Porque quando me perdi,
    No cuidei de ganhar tanto.

FLORIMENA.

    Senhor, quem na serra mora
    Tambem entende a verdade
    Dos enganos da cidade:
    V-se embora, ou fique embora,
    Qual for mais sua vontade.

VENADORO.

    Oh lindissima donzella,
    A quem a ventura ordena
    Que me guie como estrella!
    Quereis-me deixar a pena,
    E levar-me a causa della?
    E ja que vos conjurastes
    Vs e Amor para matar-me,
    Oh no deixeis d'escutar-me!
    Pois a vida me tirastes,
    No me tireis o queixar-me!
    Qu'eu, em sangue e em nobreza
    O claro Ceo me extremou;
    E a Fortuna me dotou
    De grandes bens e riqueza,
    Que sempre a muitos negou.
    Andando caando aqui,
    Apos hum cervo ferido,
    Permittio meu fado assi,
    Que andando dos meus perdido,
    Me venha perder a mi.
    E porqu'inda mais passasse
    Do que tinha por passar,
    Buscando quem m'ensinasse,
    Por que via me tornasse,
    Acho quem me faz ficar.
    Que vingana permittio
    A fortuna n'hum perdido!
    Oh que tyranno partido,
    Que quem o cervo ferio,
    V como cervo ferido!
    Ambos feridos n'hum monte,
    Eu a elle, outrem a mi:
    Huma differena ha aqui,
    Qu'elle vai sarar  fonte,
    E eu nella me feri.
    E pois que to transformado
    Me tee vossa formosura,
    Hum de ns troque o estado.
    Ou vs para o povoado,
    Ou eu para a espessura.

FLORIMENA.

    Dos arminhos he certeza,
    Se lhe a cova alguem ujar,
    Morar fra, antes d'entrar:
    D'estimar muito a limpeza
    Pola vida a vai trocar:
    Tambem quem na serra mora
    Tanto estima a honestidade,
    Que antes toma ser pastora,
    Que perder a honestidade
    A trco de ser Senhora.
    Se mais quereis, esta fonte
    Vos descubra o mais de mim:
    O que ella vio, ella o conte;
    Porque eu vou-me para o monte,
    Porque ha ja muito que vim.


SCENA III.

VENADORO.

     linda minha inimiga,
    Gentil pastora, esperae!
    Pois que tanto amor me obriga,
    Consenti-me que vos siga;
    V o corpo onde alma vae.
    E pois por vs me perdi,
    E neste estado Amor ps
    Os olhos com que vos vi,
    Pois os deixaste sem mi,
    Oh no os deixeis sem vs!
    Porque a Fortuna me disse
    Que nas serras, onde andais,
    Em estes extremos tais,
    No era bem que vos visse
    Para no ver de vs mais.
    E pois Amor se quiz ver
    Da livre vida vingado,
    Em que eu sohia viver;
    Faa em mi o que quizer,
    Que aqui vou ao jugo atado.


SCENA IV.

_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._

LUSIDARDO.

    Oh Santo Deos verdadeiro,
    A quem o mundo obedece!
    Meu filho no apparece.
    E que me dizeis, Monteiro?

MONTEIRO.

    Digo-lhe que m' entristece.
    Qu'eu corri por esses montes,
    Bem quinze leguas, ou mais,
    E busquei polos casais,
    Por serras, montes e fontes,
    Sem ver novas, nem sinais.
    Toda a gente que levou,
    Buscando-o, muito cansada
    Pelo mato anda espalhada;
    Mas ainda ninguem tomou,
    Que soubesse delle nada.

LUSIDARDO.

    Oh fortuna nunca igual!
    Quem me fara sabedor
    De meu filho e meu amor?
    Que se he muito grande o mal,
    Muito mor he o temor.
    Quem tolhe que no achasse
    Algum leo temeroso
    N'algum monte cavernoso,
    Que sua fome fartasse
    Em seu corpo to formoso?
    Quem ha que saiba, ou que visse,
    Que das montanhas erguidas
    Algum monstro no sahisse,
    E com seu sangue tingisse
    As hervas nellas nascidas?
    Oh filho! vai-me a lembrar
    Quantas vezes os mandava
    Que deixasseis o caar!
    No cuidei de adivinhar
    O que Fortuna ordenava.
    Eu irei, filho, buscar-vos
    Por esses montes, por hi,
    Ou a perder-me, ou cobrar-vos;
    Que morte que quiz matar-vos,
    Quero que me mate a mi.
    Onde fostes fenecido,
    Seja tambem vosso pae;
    Ser-me-ha acontecido,
    Como a virote que vae
    Buscar outro que he perdido.
    Vs s haveis de ficar,
    Filodemo, encarregado
    Para esta casa guardar;
    Que de vosso bom cuidado
    Tudo se pde fiar.
    Ide-vos a fazer prestes,
    Mandae cavallos sellar;
    Pois ach-lo no pudestes,
    Ir-m'heis buscar o lugar
    Onde da vista o perdestes.


SCENA V.

_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._

_Canta._

    Los mochachos del Obispo
    No comen cosa mimosa,
    Ni zanca d'araa, ni cosa mimosa.

_Falla._

    De su sayo colorado
    Tan lozano me vesti,
    Que yo ya no soy yo,
    Ya por otro estoy trocado;
    Que este sayo me troc.
    Oh qu asno Portugues,
    Que loco por Florimena,
    Dese zamarra agena,
    Y dame por enters
    Una zamarra tan buena!
    Como yo vi la bobilla
    Andar con l en questiones,
    Y parrsele amarilla,
    Djele: Florimenilla,
    Andais en dongolondrones?
    l me dijo: Matalote,
    No tengais dello desmayo.
    Y en esto, como un rayo,
    Tomme mi capirote,
    Y dime su capisayo.
    Capirote, en buena f,
    Si vos, cuando en mi entrastes,
    Capisayo vos tornastes,
    Que yo por eso cantar,
    Pues ans me mejorastes.

_Canta._

    Lyrio, lyrio, lyrio loco,
    Con qu? Con capirotada.
    Por hablar con la golosa
    De amores, mirad la cosa!
    Zamarrilla tan hermosa,
    Que me ha dado tan honrada,
    Con qu? Con capirotada.

_Falla._

    Yo entonces respond:
    Seor, dame pan y queso,
    Mas despues que lo entend,
    Dije  ella: Dale un beso,
    Que l me di zamarra  m.
    Ahora me mirarn
    Cuantos  la eglesia fueren;
    Y aquellos que no me quieren,
    Ahora me rogarn.
    Sabeis porque no querr?
    Porque estoy ahidalgado;
    Y cuando fuere rogado,
    Cantando responder,
    Que ya estoy otro tornado.

_Canta e baila._

    Soropicote, picote, mozas,
    Ahora quiero amores con vosotras.


SCENA VI.

_O Pastor e o Bobo._

PASTOR.

    Hijo Alonsillo.

BOBO.

                     Hijo Alonsillo.

PASTOR.

    No me quieres escuchar?

BOBO.

    Pues djame suspirar.

PASTOR.

    Escchame ahora, asnillo,
    Lo que te quiero mandar.
    Vte al valle de las rosas,
    Y di  Anton del Lugar
    Que si puede ac llegar,
    Porque tengo muchas cosas
    Que importan para le hablar.
    Porque es aqui llegado
     este valle un hombre honrado,
    Mancebo de casta buena,
    Que amores de Florimena
    Le traen loco y penado.
    Dice que quiere casar
    Con ella, que su tormento
    No le deja reposar;
    Y que venga festejar
    Tan dichoso casamiento.

BOBO.

    Dicid, padre, tambien vos,
    No quereis casar comigo?
    Casemos ambos ads.

PASTOR.

    V, y haz lo que te digo.

BOBO.

    Responde, padre, por Dios.

PASTOR.

    V luego, y vuelve apresado.
    Anda. No quieres andar?

BOBO.

    Pues que me habeis empujado,
    Juro  mi de desandar
    Todo cuanto tengo andado.

PASTOR.

    Trabajoso es este insano!
    Nunca hace lo que quereis.

BOBO.

    Ora no os apasioneis,
    Mi padrecico lozano:
    Que burlaba, no lo veis?

PASTOR.

    Vte dahi.

BOBO.

              Hme aqui.

PASTOR.

    V donde te dije.

BOBO.

                        Ya vengo.
    Oh que padrasto que tengo,
    Que asi me manda por ahi,
    Siendo camino tan luengo!




ACTO QUARTO.


SCENA I.

_Dionysa e Solina._

DIONYSA.

    Oh Solina, minha amiga,
    Que todo este corao
    Tenho posto em vossa mo;
    Amor me manda que diga,
    Vergonha me diz que no.
    Que farei?
    Como me descobrirei?
    Porque a tamanho tormento
    Mais remedio lhe no sei,
    Que entreg-lo ao soffrimento.
    Meu pae muito entristecido
    Se vai pela serra erguida,
    Ja da vida aborrecido,
    Buscando o filho perdido,
    Tendo a filha c perdida!
    Sem cuidar,
    Foi a casa encommendar
    A quem destruir lha quer:
    Olhae que gentil saber,
    Que vai comigo deixar
    Quem me no deixa viver.

SOLINA.

    Senhora, em tanto desgsto.
    No posso meter a mo;
    Mas como diz o rifo,
    Mais val vergonha no rosto,
    Que mgoa no corao.
    E bof, se eu tanto amasse,
    E visse tempo e sazo,
    Sem seu pae, sem seu irmo,
    Que a nuvem triste tirasse
    De cima do corao.

DIONYSA.

    Ah mana! que tenho medo,
    Que s'eu em tal consentisse
    Que logo o mundo o sentisse,
    Porque nunca houve segredo,
    Que, emfim, se no descobrisse.

SOLINA.

    Se eu tantas dobras tivesse
    Como quantas houve erradas,
    Sem que o mundo o soubesse,
     f qu'eu enriquecesse,
    E fosse das mais honradas.

DIONYSA.

    Sabeis que tenho em vontade?

SOLINA.

    Que podeis, Senhora, ter?

DIONYSA.

    Fallar-lhe, s para ver
    Se he por ventura verdade
    O que dizeis que me quer.

SOLINA.

    Bof, mana, dizeis bem,
    E eu o mandarei chamar,
    Como para lhe rogar
    Que hum annel, que l me tem,
    Que mo mande concertar.

DIONYSA.

    Dizeis mui bem.

SOLINA.

                    Vou-me l
    Chamar o seu moo  sala;
    E s'este parvo vem c,
    Com elle hum pouco rir,
    Que sempre amores me fala.
    Vilardo, moo?


SCENA II.

_Vilardo e Solina._

VILARDO.

                   Quem chama?

SOLINA.

    Vem c, moo; eu te chamo.
    Qu'he de teu amo?

VILARDO.

                      Ah que dama!
    Perguntais-me por meu amo,
    E no por hum que vos ama?

SOLINA.

    E quem he esse amador,
    Que quer ter comigo passo?
    Ser elle algum madrasso?

VILARDO.

    Eu sou o mesmo, que o amor
    Me quebra pelo espinhasso.
    E mais vs sabei de mi,
    Se eu a diz-lo me atrevo,
    Que desque esses olhos vi,
    Que yo ni como, ni bebo,
    Ni hago vida sin ti.
    E mais para namorado
    No sou ora to madrao.

SOLINA.

    Sois muito desmazelado.

VILARDO.

    Mas antes, de delicado
    Caio pedao a pedao.
    E mais eu soffrer no posso
    Que me faais tanto fero,
    Qu'estou ja posto no osso,
    Porque sou vosso e revosso,
    Por vida de quanto quero.

SOLINA.

    Feros est cheia a rua.
    Ora estou bem aviada!

VILARDO.

    Cupido, por vida tua,
    Que a no faas to crua,
    Pois que te no fao nada!
    Amor, Amor, mas te pido,
    Que quando se for deitar,
    Que le digas al oido:
    Devieis-vos de lembrar
    Neste tempo de hum perdido.

SOLINA.

    E tu ja fazes coprinhas?
    Ainda tu trovars?

VILARDO.

    Quem eu? Por estas barbinhas,
    Que se vs virdes as minhas,
    Que digais que no so ms.

SOLINA.

    Ora, pois me quereis bem,
    Dizei-me huma.

VILARDO.

                     Ei-la aqui;
    E veja o saibo que tem;
    Porque esta trovinha assi,
    Saiba qu'he trova do assem.

_Trova._

    Passarinhos, que voais
    Nesta manha to serena,
    Sabei que s minha pena
    Pde encher mil cabeais.

SOLINA.

    O rifo est salgado.
    Essa pena te dou eu?

VILARDO.

    Vs e Amor, que de malvado,
    Me tee melhor empennado,
    Que nenhum virote seu.
    Pois se me ouvreis cantar!

SOLINA.

    E tu es tambem cantor?

VILARDO.

    Canto melhor que hum aor.
    Quereis que vos venha dar
    Musiqueta de primor,
    E que vos mande tanger
    Muito melhor que ninguem?

SOLINA.

    Ja isso quizera ver.

VILARDO.

    Querer-me-heis, se o eu fizer,
    Algum pedao de bem?

SOLINA.

    Querer-te-hei trinta pedaos.

VILARDO.

    E esse querer dar fruito,
    Que me tire destes laos?

SOLINA.

    E que fruito?

VILARDO.

                     Dous abraos.

SOLINA.

    Esse fruito custa muito.

VILARDO.

    Esse he o amor qu'em vs ha?
    Pezar de minha me torta!

SOLINA.

    Ora hi, chamae logo l
    Vosso amo que venha c,
    Porque he cousa que importa.

VILARDO.

    Logo?

SOLINA.

            Logo nessas horas.

VILARDO.

    No estarei aqui mais?

SOLINA.

    No. Ainda ahi estais?
    Vs haveis mister esporas.

VILARDO.

    Irei, porque me mandais.


SCENA III.

_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._

PASTOR.

    Mas de un mez es ya pasado
    Que en esta sierra andais;
    Y es caso mal mirado
    Que andeis guardando ganado
    Por una que tanto amais.
    Y si os determinais
    En querer casar con ella,
    Juro  mi que nada errais;
    Y si eso es para habella,
    En vano cabras guardais.
    Ya me distes vuestra f
    (Sbenlo estas tierras todas):
    Yo con ella me enga,
    Que luego mandar llam
    Quien festejase las bodas.
    Y agora dicis con pena,
    Que es dura cosa casar:
    Pues volveos hora buena,
    Que no habeis de engaar
    Con palabras Florimena.

VENADORO.

    Quem se ha de ter corao
    Para tamanho temor?
    Que em mim pegando esto.
    De huma parte a razo.
    E d'outra parte o Amor.
    Tambem vejo que perdella
    Ser minha perdio;
    Que bem me diz a affeio,
    Que pouco fao por ella,
    Pois no desfao em quem so.

PASTOR.

    Digoos, si por bajeza
    Dicis que no os conviene,
    Daros h una certeza,
    Que en sangre y en nobleza,
    Tanto como vos la tiene.

VENADORO.

    Pastor, digo que daqui
    Farei tudo que quizerdes;
    E se mais quereis de mi,
    Digo que vos dou o si
    Para tudo o que quizerdes.

PASTOR.

    Dios os d su bendicion;
    Y pues que casais con ella,
    Yo os afirmo en conclusion,
    Que aun de vos y mas della
    Vern gran generacion.
    Yo me voy por ella, hijo,
    Tomadla asi mal compuesta;
    Vern quien haga la fiesta;
    Que en placer y regocijo
    Nos festeje esta floresta.


SCENA IV.

VENADORO _s_.

     ribeiras to formosas,
    Valles, campos pastoris,
    Porque vos no revestis
    De novas flores e rosas,
    Se minha gloria sentis?
    Porque no seccais, abrolhos?
    E vs, goa, que regando,
    Os olhos his alegrando,
    Correi, que tambem meus olhos
    D'alegres esto manando.
    Ah pastora, em quem espero
    Poder viver descansado!
    Comtigo guardarei gado,
    Que ja eu sem ti no quero
    Nenhuma alteza d'estado.
    Diga o que quizer a gente,
    Tudo terei n'huma palha,
    Porque est claro e evidente
    Que no ha honra que valha
    Contra a vida descontente.


SCENA V.

_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que
traz Florimena._

PASTOR.

    Pues el amor os obliga
     que hagais tan buena liga,
    Tomando  Dios por testigo,
    Daqui os la entrego, amigo,
    Por muger y por amiga.

VENADORO.

    Consentis nisto, Senhora?

FLORIMENA.

    Senhor, em tudo consento.

VENADORO.

    Oh grande contentamento!

FLORIMENA.

    Saiba que nunca tgora
    Lhe houve inveja ao tormento.

PASTOR.

    Asi lo dices, bobilla?
    Oh! mala dolor os duela!
    Pero no es maravilla
    Quien consiente ansi la silla,
    Consienta tambien la espuela.


SCENA VI.

_Torno a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro,
que ando em busca de Venadoro._

LUSIDARDO.

    Tres dias ha ja que ando
    Por esta larga espessura
    A Venadoro buscando;
    E o que delle vou achando
    He como quer a Ventura.

MONTEIRO.

    Senhor, cuido que l vejo
    Huns lavradores cantar.

LUSIDARDO.

    Hi diante perguntar.

MONTEIRO.

    Cumprido he seu desejo,
    Se a vista no m'enganar.

LUSIDARDO.

    Como assi?

MONTEIRO.

                     Elle no v
    Aquelle pastor louo
    Com huma moa pela mo?
    Se Venadoro no he,
    Nem eu o Monteiro so.

PASTOR.

    Quien veo all asomar,
    Que se viene  nuestras bodas?

BOBO.

    No los dejemos llegar,
    Que nos vernan  roubar,
    Juro  mi, las migas todas.

LUSIDARDO.

    Oh Venadoro, meu filho!
    Es tu este?

VENADORO.

                    Tal estou,
    Que cuido que este no sou.

LUSIDARDO.

    Certo que me maravilho
    De quem tanto te mudou.
    Como estais assi mudado
    No rosto e mais no vestido!

VENADORO.

    Ando ja n'outro trocado,
    Tanto, que fiquei pasmado
    De como fui conhecido.
    E se Vossa Merc vem
    Para me levar daqui,
    Mais ha de levar que a mi;
    E ha de ser quem me tem
    Todo transformado em si.

BOBO.

    Eso porque lo entendeis?
    Por las migas por ventura?
    Voto  tal no llevareis:
    Por mas y por mas que andeis
    No hareis tal travesura.

VENADORO.

    Esta formosa donzella
    Em mi teve tal poder,
    Que folguei de me perder;
    Pois, emfim, vim achar nella
    O que no cuidei de ser.
    Tanto em mi pde este amor,
    Que a tenho recebida;
    E se o rro grave for,
    Aqui quero ser pastor:
    Deixe-me ter esta vida.

LUSIDARDO.

    He certo tal casamento?

VENADORO.

    Tenha-o por cousa segura.

LUSIDARDO.

    Oh grande acontecimento!
    Dest'arte sabe a ventura
    Aguar hum contentamento!

PASTOR.

    igame, Seor,  mi,
    Como hombre sabio, discreto,
    Porque acaeci as,
    Y lo que supo hasta aqui
    Lo puede tener por cierto.
    Muchos aos son corridos
    Que en esta fuente abierta,
    En estos valles floridos
    Hall dos nios nascidos,
    Y  su madre casi muerta.
    Los nios chicos cri,
    (Y desto cierto me arreo)
    Y  la madre sepult;
    Y despues un gran deseo
    De saber esto tom.
    Como yo fuese enseado
    De chico  la mgica arte
    Por mi padre, que es finado;
    Muy conoscido y nombrado
    Soy por tal en toda parte.
    Yo con yervas de la sierra,
    Animales y otras cosas
    Har, si el arte no se yerra,
    Que desciendan  la tierra
    Las estrellas luminosas.
    Soy, en fin, certificado
    Que la madre de los dos
    Fu Princeza de alto estado.
    Y por un caso nombrado
    La trajo  esta tierra Dios.
    El macho, como creci,
    Deseoso de otro bien,
     la Corte se parti:
    La hembra es esta por quien
    Vuestro hijo se perdi.
    Y si mas quiere, Seor,
    De mi arte, prestamente
    Dello le har sabedor;
    Mas ha de ser de tenor
    Que no lo sepa la gente.

LUSIDARDO.

    Mas vamos-nos, se quereis,
    Que no soffro dilao,
    A minha casa, e ento
    L disso me informareis,
    Que caso he de admirao.
    E vs, filho, no cuideis
    Que a gloria de vos achar
    No he tanto d'estimar,
    Qu'em qualquer 'stado que esteis,
    No folgue de vos levar.




ACTO QUINTO.


SCENA I.

_Solina, Dionysa e Filodemo._

SOLINA.

    Eis Filodemo l vem:
    Asinha acudio ao leme.

DIONYSA.

    Isso he de quem quer bem;
    Mas no sei se o vio alguem,
    Porque quem espera teme.
    Agora me quizera eu
    Daqui cem mil leguas ver.

FILODEMO.

    Folgra eu assi de ser,
    Porqu'este cuidado meu
    Fra mais de agradecer.
    Que quando por accidente
    A Fortuna desastrada
    Vos apartasse da gente
    N'hum deserto, onde somente
    Das feras fosseis guardada;
    L por ferro, fogo e goa
    Buscar minha morte iria;
    A voz ronca, a lingua fria,
    Tamanho mal, tanta mgoa
    s montanhas contaria.
    L, mui contente e ufano
    De mostrar amor to puro,
    Poderia ser que o dano,
    Que no move hum peito humano,
    Que movesse hum monte duro.

DIONYSA.

    Nesse deserto apartado
    De toda a conversao
    Merecieis degradado
    Por justia, com prego
    Que dissesse: _Por ousado_.
    E eu tambem merecia
    Metida a grave tormento,
    Pois que, como no devia,
    Vim a dar consentimento
    A to sobeja ousadia.

FILODEMO.

    Senhora, se me atrevi,
    Fiz tudo o que Amor ordena;
    E se pouco mereci,
    Tudo o que perco por mi,
    Mereo por minha pena.
    E se Amor pde vencer,
    Levando de mi a palma,
    Eu no lho pude tolher;
    Que os homens no tee poder
    Sbre os affectos da alma.
    E ainda que pudera
    Resistir contra o mal meu.
    Saiba que o no fizera;
    Que pouco valra eu,
    Se contra vs me valra.
    No deve logo ter culpa
    Quem se venceo d'armas tais:
    Assi que nisto, e no mais,
    Tomo por minha desculpa
    Vs mesma que me culpais.
    E se este atrevimento
    Com tudo for de culpar,
    Acabae de me matar;
    Que aqui tenho hum soffrimento
    Que tudo pde passar.
    E se esta penitencia,
    Que fao em me perder,
    Algum bem vos merecer,
    Fique em vossa consciencia
    O que me podeis dever.
    Que dizeis a isto, Senhora?

DIONYSA.

    Eu que vos posso dizer?
    Ja no tenho em mi poder,
    Segundo me sinto agora,
    Para poder responder.
    Respondei-lhe, vs Solina,
    Pois que a vs me entreguei.

SOLINA.

    Bof no responderei:
    Veja ella o que determina.

DIONYSA.

    No o vejo, nem o sei.

SOLINA.

    Pois eu tambem no sei nada.

DIONYSA.

    Porque?

SOLINA.

              Do que eu fizer,
    Se despois se arrepender,
    Dir qu'eu fui a culpada.

DIONYSA.

    Eu s quero a culpa ter.

SOLINA.

    Senhora, por no errar,
    No quero que fique em mim.
    Esta noite no jardim
    Ambos podem praticar
    Como isto venha a bom fim.
    L podero ajustar
    Entr'ambos o parecer;
    Qu'eu no m'hei nisso de achar,
    Que no quero temperar
    O que outrem ha de comer.

DIONYSA.

    Vs vdes a torvao,
    Que l nessa casa vae?

SOLINA.

    D-me c no corao
    Que he vindo o Senhor seu pae
    Com o Senhor seu irmo.

DIONYSA.

    Filodemo, hi-vos embora,
    Fallae depois com Solina.

SOLINA.

    Vamos-nos tambem, Senhora.
    Receber seu pae l fra;
    No venha sentir a mina.


SCENA II.

_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._

VILARDO.

Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre ando rugindo as sedas.

DOLOROSO.

Avante, que bem sei que o no dizeis polas sedas de Veneza.

VILARDO.

Ja sabeis que esta nossa Solina he to Celestina, que no ha quem a
traga a ns.

DOLOROSO.

Logo parece moa brigosa, que por d c aquellas palhas, dar e tomar
quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher
de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes
so como homens sisudos; se de noite se acho em algum arruido, onde
posso fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia
quem ha de cuidar que hum to honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem
pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados.

VILARDO.

Mui gentil comparao he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi
zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous
meus amigos, que logo ho de vir aqui ter comnosco.

DOLOROSO.

Que tal he a musica que determinas de lhe dar? No seja de siso; porque
ser a maior parvoice do mundo, porque no concerta com a parvoice que
tu finges.

VILARDO.

A musica no he seno das nossas; mas fao-te queixume, que nem com hum
co de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.

DOLOROSO.

Nem as achars seno alugadas; mas eu no sou de opinio que teus amores
te custem dinheiro. Ora ja l apparecem os outros companheiros, e eu
tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto  popa, porque
daqui iremos  porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum
certo requerimento.

VILARDO.

Vossas Mercs vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem
temperadas?

DOLOROSO.

Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justia entretanto.

VILARDO.

Ora sus: fazei como se temperasseis cabea de pescada com seu figado e
bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa
nova.

_Neste passo se d a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro
pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor
diz Vilardo:_

Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.

DOLOROSO.

Justia, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui no ha outro valhacouto que
nos valha, que pr os ps ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras.


SCENA III.

O MONTEIRO _s_.

Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quo gracioso sera
quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoo, porque
no podessem entender nelle Meirinhos, Almotacs da limpeza, trabalhos,
esperanas, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora
notae bem de quantas cres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo:
perdeo-se Venadoro na caa, eis a casa toda envolta como rio: o pae
enfadado, a irma triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fra do
couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como
camaleo, decepado dos ps e das mos, por huma serranica d'Alentejo; e
veio acaso a sahir de maneira fra da madre, que a recebeo por mulher; e
rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranas de seu pae;
pois tanto tomou ao p da letra o que Deos disse: _Por esta deixars teu
pae e me_. E attentae isto por me fazer merc: cuidareis que este caso
era _solus peregrinus_: sabei que os no d a fortuna seno aos pares,
como qudas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de
seda, moa sem fel como pombinha, que nos annos no tinha feito inda o
enequim; mais formosa que huma manha do S. Joo, mais mansa que o Rio
Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum
pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversao se
poder soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida,
com tanto que dissesse o prego o porque; porque vos no fieis em
castanhas (no sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola
manga a falla da garganta; mas, com tudo, no ha quem se tenha) seu pae
a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que
perdra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes
nos cabeaes se desejar ave de penna.


SCENA IV.

_Duriano e o Monteiro._

DURIANO, _como cantando_.

Ti ri ri, ti ri ro.

MONTEIRO.

Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos so esses? Onde he c a ida
agora?

DURIANO.

Vou assi como parvo, porque o melhor he no saber homem nada de si.

MONTEIRO.

Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo
que ficou s em casa?

DURIANO.

Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se no he isso
caso para sahir com elle a desafio.

MONTEIRO.

Porque?

DURIANO.

Porque no basta que lhe d a Fortuna gostos to medidos sbre o funil,
que lhe pe nos braos Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou
cabellos ao vento, seno ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe
vem a descobrir, que he filho de no sei quem, nem quem no.

MONTEIRO.

Esses so outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja
sbre isso no sei que fbulas.

DURIANO.

Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que no he menos que Principe, e peor ainda.
Nunca ouvistes dizer de hum irmo do Senhor Dom Lusidardo que aggravado
del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?

MONTEIRO.

Tudo isso ouvi ja.

DURIANO.

Pois esse galante, em satisfao de muitas mercs que ElRei de Dinamarca
lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moa; e como
era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher
abalo, desejou ella de ver gerao delle; seno quando, livre-nos Deos!
se lhe comeou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos no se
desistem em nove dias, seno em nove mezes, foi-lhe a elle ento
necessario acolher-se com ella, porque no colhessem a ella com elle:
acolheu-se em huma gal; e vde la Princeza em huma galera nueva, con el
marinero  ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano
Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos  costa
d'Hespanha, no os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella
buscavo: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a
gal  costa, onde feita pedaos, morrro todos desastradamente, sem
escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece
que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e me negra.
Sahio finalmente a moa na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria
huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher
pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde,
despois de ter perdido toda a esperana de ter algum remedio, dero-lhe
as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espao lanou duas
crianas, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreio da
delicada mulher no pudesse sustentar tantos e to desacostumados
trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar,
deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa
de seus nascimentos a vida lhe tirro, como acontece a viboras. E como
as crianas fossem destinadas ao que vdes, no faltou hum pastor que as
criasse, que alli veio ter, dando a me a alma a Deos: de maneira que,
por no gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia
he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.

MONTEIRO.

Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo
namorar a filha do Senhor que serve: no haver logo por mal o Senhor
Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos.

DURIANO.

Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se
parece natural com seu irmo, e Florimena com sua me.

MONTEIRO.

Dae-me a entender, como se creo to de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de
quem isso contou.

DURIANO.

No caso no ha dvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou
todo o caso; e fez ao pastor muitas mercs, e mandou fazer muitas festas
solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o
mesmo parentesco tee com a Senhora Dionysa, esto fra de crer tamanho
contentamento; cuido que zombo delle.

MONTEIRO.

Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu
matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo:
dissimulemos.


SCENA V.

_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mo, e Filodemo a
Dionysa._

LUSIDARDO.

    Quem no ficar pasmado
    De ver que por tal caminho
    Tee a Ventura ordenado
    Filodemo, meu criado,
    Vir ser meu genro e sobrinho!
    Quem no pasmar agora
    De ver a ventura minha,
    Que tee tornado n'hum'hora
    Florimena, huma pastora,
    Ser minha nora e sobrinha!
    Dem-se graas ao Senhor,
    Cujo segredo he profundo;
    Pois que vemos que quiz dar
    A ventura e o amor
    Por prazeres deste mundo.

      *      *      *      *      *




CARTAS.




CARTAS.


CARTA I.

Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a no vi;
porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se
deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me no
fao tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos no lembro,
determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos
vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante
mo vos pago com novas desta, que no sero ms no fundo de huma arca
para aviso de alguns aventureiros, que cuido que todo o mato he
ouregos, e no sabem que c e l ms fadas ha.

Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo,
mandei enforcar a quantas esperanas dera de comer at ento, com prego
pblico: _Por falsificadoras de moeda_. E desenganei esses pensamentos,
que por casa trazia, porque em mim no ficasse pedra sobre pedra. E assi
posto em estado, que me no via seno por entre lusco e fusco, as
derradeiras palavras que na nao disse, foro as de Scipio Africano:
_Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. Porque quando cuido, que sem
peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de
ms linguas, peores tenes, damnadas vontades, nascidas de pura inveja,
de verem _su amada yedra de s arrancada, y en otro muro asida_.... Da
qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendio em odios que
disparavo lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de
hum leito. Ento ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude
de Achilles, que no podia ser cortado seno pelas solas dos ps; as
quaes de mas no verem nunca, me fez ver as de muitos, e no engeitar
conversaes da mesma impresso, a quem fracos punho mao nome, vingando
com a lingua o que no podio com o brao. Emfim, Senhor, eu no sei com
que me pague saber to bem fugir a quantos laos nessa terra me armavo
os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado
que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade
Prgador. Da terra vos sei dizer que he me de villes ruins, e madrasta
de homens honrados. Porque os que se c lano a buscar dinheiro, sempre
se sustento sobre goa como bexigas; mas os que sua opinio deita  las
armas Mouriscote, como mar corpos mortos  praia, sabei que antes que
amadureo, se secco. Ja estes que tomavo esta opinio de valentes s
costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos,
que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem ao
effeito da obra, salvo-se com dizer que se no podem fazer tamanhas
duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra
Joo Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufies,
verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la
viva sangre. Callisto de Siqueira se veio c mais humanamente, porque
assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel
Serro, que, _sicut et nos_, manqueja de hum olho, se tee c provado
arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que
elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era
c tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes so
obrigatorias a huma carta, como marinheiros  festa de S. Frei Pero
Gonalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que no ha
cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lanar pedao. Pois as que
a terra d? alm de serem de rala, fazei-me merc que lhe falleis alguns
amores de Petrarca, ou de Bosco; respondem-vos huma linguagem meada de
hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lana goa
na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentir
hum estomago costumado a resistir s falsidades de hum rostinho de
tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com goa,
vendo-se agora entre esta carne de sal, que nenhum amor d de si. Como
no chorar las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que s
mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente
ter alada com barao e prego, que no receiem seis mezes de m vida
por esse mar, que eu as espero com procisso e palio, revestido em
pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe iro entregar as chaves da
cidade, e reconhecero toda a obediencia, a que por sua muita idade so
ja obrigadas. Por agora no mais, seno que este Soneto[3]
que aqui vai, que fiz  morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em
sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a
qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece
melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandra para a mostrardes l a
Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver;
mas a occupao de escrever muitas cartas para o Reino, me no deo
lugar. Tambem l escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua:
se lha no derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde.

Vale.

[3] He o Soneto 12.

      *      *      *      *      *


CARTA II.

Esta vai com a candeia na mo morrer nas de v. m.; e se dahi passar,
seja em cinza; porque no quero que do meu pouco como muitos. E se
todavia quizer meter mais mos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e
valha sem cunhos.

    La mar en medio y tierras, he dejado
     cuanto bien cuitado yo tenia:
    Cuan vano imaginar, cuan claro engao
    Es darme yo  entender que con partirme
    De m se ha de partir un mal tamao!

Quo mal est no caso quem cuida que a mudana do lugar muda a dor do
sentimento! E seno, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido.
Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes
cuidados jogo meus pensamentos  barreira, tendo-me ja, pelo costume,
to contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo
uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho
eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno,
por no parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro,
sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a
tristeza no corao, he como a traa no panno.

    E por to triste me tenho,
    Que se sentisse alegria,
    De triste no viviria.
    Porque a tal sorte vim,
    Que no vejo bem algum
    Em quanto vejo,
    Que no nasceo para mim;
    E por no sentir nenhum,
    Nenhum desejo.

Porque cousas impossiveis, he melhor esquec-las que deseja-las. E por isso

    S, tristeza, vos queria,
    Pois minha ventura quer
    Que s ella
    Conhea por alegria;
    E que se outra quizer,
    Morra por ella.

Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) diz ao triste que se
alegre. Pois no v que alheios contentamentos a hum corao
descontente, no lhe remediando o que sente, lhe dbro o que padece.
Vs, se vem  mo, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de
bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza,
nunca mais soube jogar a outro fito. E porque no digais, que no sou
gente fra do meu bairro, vdes, vai huma volta feita a este mote, que
escolhi na manada dos engeitados; e cuido que no he to dedo queimado,
que no seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:

    No quero, no quero
    Jubo amarello.

    Se de negro for,
    To bem me parece,
    Quanto me aborrece
    Toda alegre cr:
    Cr que mostra dor,
    Quero, e no quero
    Jubo amarello.

Parece-vos que se pde dizer mais? No me respondais: Quem gabar a
noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que
no he to pequena habilidade. E porque vos no parea, que foi mais
acertar, que quer-lo fazer; vdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto
que se no v a pasmar.

    Perdigo perdeo a penna,
    No ha mal, que lhe no venha.

    Em hum mal outro comea,
    Que nunca vem s nenhum;
    E o triste que tee hum,
    A soffrer outro se offrea;
    E s pelo ter conhea,
    Que basta hum s que tenha,
    Para que outro lhe venha.

Que graa ser esperardes de mim propositos em cousa que os no tee
para comigo? Pois ainda que queira, no posso o que quero; que hum sentido
remontado, de no pr p em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada
hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece
he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque
lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mgoa he,
v-lo-has e no o papars. Por fugir destes inconvenientes,

    Toda a cousa descontente
    Contentar-me s convinha
    De meu gsto:
    Que o mal, de que sou doente,
    Sua mais certa mzinha
    He desgsto.

Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que no podes haver, d-o pola tua alma. O
mal sem remedio, o mais certo que tee, he fazer da necessidade virtude:
quanto mais, se tudo to pouco dura, como o passado prazer. Porque,
emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este
proposito, pouco mais ou menos, se fizero humas voltas a hum mote
d'enchemo, que diz por sua arte zombando, mais que no de siso (que
toda a galantaria he tir-la donde se no espera), o qual crede que tee
mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida,
e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera
dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi:

    Dava-lhe o vento no chapeiro,
    Quer lhe d, quer no.

    Bem o pde revolver,
    Que o vento no traz mais fruito;
    E mais vento he sentir muito
    O que, emfim, fim ha de ter.
    O melhor, he melhor ser,
    Que o vento no chapeiro,
    Quer lhe d, quer no.

Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do
bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte at
matar, mata. No sei se sereis marca de voar to alto; porque para tomar
a palha a esta materia, so necessarias azas de Nebri. Mas vs sois
homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos
sei dar he:

    Que esperana me despede,
    Tristeza no me fallece,
    E tudo o mais me aborrece.
    Ja que mais no mereceo
    Minha estrella,
    S a tristeza conheo,
    Pois que para mi nasceo,
    E eu para ella.

No mundo no tee boa sorte, seno quem tee por boa a que tee. E
daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira:

    Vivo assi ao revs,
    Tomando por certa vida
    Certa morte,
    Com que flgo em que me ps;
    Pois minha sorte he servida
    De tal sorte.

Huma cousa sabei, que o mal, inda que s vezes o vejais louvar, no ha
quem o louve com a boca, que o no tache com o corao.

    Ajuda-me a soffrer
    Vida to sem soffrimento,
    E to sem vida,
    Ver que, emfim, fim ho de ter
    Desgsto e contentamento
    Sem medida.

Attentae que no so maos confeitos de enforcado, para os que esto com
o barao na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejo
differentes na vida, so conformes na morte; porque vemos

    Que no ha to alta sorte,
    Nem ventura to subida,
    Ou desastrada,
    A quem o asspro da morte
    No sopre o fogo da vida.

    A seu fim todas cousas vo correndo;
    Nem ha cousa, que o tempo no consuma,
    Nem vida, que de si tanto presuma,
    Que se no veja nada, em se vendo.

    Que o mais certo que temos,
    He no termos nada certo
    C na terra.
    Pois para seus no nascemos;
    Se o seu nos d incerto,
    Nada erra.

Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo
recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e no se
acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:

    Forou-me amor hum dia, que jogasse;
    Deo as cartas, e az de ouros levantou;
    E sem respeitar mo, logo triumphou,
    Cuidando que o metal, que me enganasse.

    Dizendo, pois triumphou, que triumphasse
    A huma sota de ouros, que jogou,
    Eu ento por burlar quem me burlou,
    Tres paos joguei, e disse que ganhasse.

Principes de condio, ainda que o sejo de sangue, so mais enfadonhos
que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias
de seus avs, onde no ha trigo to joeirado, que no tenha alguma
hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a
hum convento. Duas cousas no se soffrem sem discordia; companhia no
amar, mandar villo ruim sbre cousa de seu interesse. No se pde ter
paciencia com quem quer que lhe fao o que no faz. Desagradecimentos
de boas obras destruem a vontade para no faz-las a amigo, que tee
mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos c
nomeados.

Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o corao est
triste: panno he, que no toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a
claridade do sol, e o rosto do corao. Nada d quem no d honra no que
d: no tee que agradecer, quem, no que recebe, a no recebe; porque
bem comprado vai o que com ella se compra. No se d de graa o que se
pede muito. Estai certo, que quem no tee huma vida, tee muitas. Onde
a razo se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que
louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que
se no guardro, podendo. No ha alma sem corpo, que tantos corpos faa
sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes
os homens cuido que a ganho, ahi a perdem. Onde ha inveja, no ha
amizade; nem a pde haver em desigual conversao. Bem mereceo o engano,
quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver
no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual,
perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le
duele. Ora temperae-me l esta gaita, que nem assi, nem assi achareis
meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de
si, e com razo;

    Pois somente nos he dada
    Para que ganhemos nella
    O que sabemos.
    Se se gasta mal gastada,
    Juntamente com perdella
    Nos perdemos.

Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais
fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quo breve he,

    Ponderemos e vejamos
    Que ganhamos em viver
    Os que nascemos:
    Veremos, que no ganhamos,
    Seno algum bem fazer,
    Se o fazemos.

E por isso respeitando,

    Que o por vir tal ser,
    Enthesouremos;
    Porque ao certo no sabemos
    Quando a morte pedir
    Que lhe paguemos.

Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo
mais aborrecida que a verdade, tee-se em menos conta que a virtude. Mas
com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem  vontade, acarreta mil
pensamentos vos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma
cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonana,
como ella; porque quando lhe menos lembra, ento lhe arranca as amarras,
dando com os corpos  costa; e, se vem  mo, com as almas no inferno,
que he bem ruim gasalhado.

    E pois todos isto temos,
    No nos engane a riqueza,
    Por que tanto esmorecemos,
    Traz que vamos;
    Ja que temos por certeza
    Que quando mais a queremos,
    A deixamos.

    Gastmos em alcan-la
    A vida; e quando queremos
    Usar della,
    Nos tira a morte logr-la:
    Assi que a Deos perdemos,
    E a ella.

Porque ja ouvirieis dizer: _Ninho feito, pga morta_. Que me dizeis ao
contentamento do mundo, que toda a dura delle est emquanto se alcana?
Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razo, porque
acabado de alcanar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o
contentamento que deo. Esperae, por me fazer merc, que lhe quero dar
humas palavrinhas de proposito.

    Mundo, se te conhecemos,
    Porque tanto desejamos
    Teus enganos?
    E se assi te queremos,
    Mui sem causa nos queixamos
    De teus danos.

    Tu no enganas ninguem;
    Pois a quem te desejar,
    Vemos que danas:
    Se te querem qual te vem,
    Se se querem enganar,
    Ninguem enganas.

    Vejo-se os bens que tivero
    Os que mais em alcanar-te
    Se esmerro;
    Que huns vivendo, no vivro,
    E outros, s com deixar-te,
    Descansro.

    Se esta to clara f
    Te pe claros teus enganos,
    Desengana:
    Sobejamente mal v,
    Quem com tantos desenganos
    Se engana.

    Mas como tu sempre mores
    No engano em que andamos,
    E que vemos,
    No cremos o que tu podes,
    Seno o que desejamos
    E queremos.

    Nada te pde estimar
    Quem bem quizer conhecer-te
    E estimar-te;

    Qu'em te perder ou ganhar,
    O mais seguro ganhar-te
    He perder-te.

    E quem em ti determina
    Descanso poder achar,
    Saiba que erra;
    Que sendo a alma divina,
    No a pde descansar
    Nada da terra.

    Nascemos para morrer,
    Morremos para ter vida,
    Em ti morrendo:
    O mais certo he merecer
    Ns a vida conhecida,
    Ca vivendo.

    Emfim, mundo, es estalagem,
    Em que pouso nossas vidas
    De corrida:
    De ti levo de passagem
    Ser bem ou mal recebidas
    Na outra vida.

 fuera,  fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em
enfadonho, de que me parece me no livrar, nem ainda privilegio de
Cidado do Porto. E pois me vendo a vs, soffrei-me com meus encargos. E
porque no digais que sou herege de amor, e que lhe no sei oraes,
vdes, vai huma: _Di, Juan, de qu muri Blas?_ com hum p  Portugueza,
e outro  Castelhana: e no vos espanteis da libr, que eu em qualquer
palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi:

    Di, Juan, de que muri Blas,
    Tan nio y tan mal logrado?
    Gil, muri de desamado.

    Dime, Juan, quien se enga,
    Que con amor se engaase,
    Pensando que el bien hallase,
    Adonde el mal cierto hall?
    Despues que el engao vi,
    Que hizo desenganado?
    Gil, muri de desamado.

    Travou com elle pendena,
    Em ter razo confiado;
    Mas Amor, como he letrado,
    Houve contr'elle a sentena:
    E co'aquella differena,
    Disse entre si o coitado:
    Gil, morreo de desamado.

    Quem tee razo to cerrada,
    Que no saiba, sendo rudo
    E sem respeito,
    Que sem Deos he tudo nada,
    E nada com elle tudo
    Sem defeito?

    E sendo isto assi to certo,
    Como todos confessamos
    E sabemos;
    No troquemos pelo incerto
    O em que to certo estamos,
    Pois o vemos.

A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton,
porque del dicho al hecho, v gran trecho. E de saber as cousas a passar
por ellas, ha mais differena, que de consolar a ser consolado. Mas assi
entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehend-lo, e poucos a
emend-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mos huma
quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc.

      *      *      *      *      *

_O seguinte fragmento de uma composio satyrica em prosa e verso, em
que Luis de Cames descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa
se festejou a successo de Francisco Barreto no governo daquelle Estado,
appareceo na 3. edio das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas,
e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das
divisas que tirro os Justadores, que todos elles ero ou sacerdotes de
Baccho, ou parvos, ou homens perdidos._

.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave
em que foi convertida Alcithoe com as irmas, por desprezarem os
sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal rro cahisse, no
queria ser convertido em to baixo animal e to nojoso, dizia a sua
letra assi em Castelhano:

    Si yo desobedeciere
     tu deidad santa y pura,
    En al mudes mi figura.

Alguns praguentos quizero dizer que esta letra era maliciosa, e que no
queria dizer tanto desejar este galante de ser mudado em al, como que
desejava almudes deste licor. Mas he muito grande falsidade, que sendo a
letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella palavra, com que
molhava as suas quem tirava a divisa. Do que o innocente Autor, despois
ficou para se enforcar. Mas outro galante, que de fino bebado ja passava
os limites do bom e costumado beber, tirou por divisa huma palmeira;
rvore, que entre os Antigos significava victoria; e ao p della alguns
ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia a letra assi:

    Ficae vencidas, sem gloria,
    Vs vides e vs parreiras;
    Porque os ramos das palmeiras
    So os que tee a victoria.

Tambem aqui no faltro praguentos, que quizero dizer que este devoto,
deixando ja atraz Portugal, commettia com valeroso animo Orracas e
Fullas, tendo em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que fuja de ms
linguas, ou de mal costumadas gargantas?

Outro galante, a quem fazia mal ao estomago beber o vinho agoado, tirou
por divisa huma pea de chamalote sem goas, que apresentava Baccho; e
dizia a letra, como por parte do mesmo Baccho:

    Sem goas, Senhor, levaio
    Se for bom,
    Que las aguas de Moncaio
    Frias son.

Aqui no tivero praguentos que dizer, por ser opinio de physica, serem
melhores os mantimentos simples, que os compostos.

Outro, que no beber lanava a barra inda mais alm que os acima
escritos, tirou por divisa huma salamandra, passeando por cima de humas
brazas de fogo; e a letra dizia:

    En el fuego vivo yo.

Mas o pintor errando as letras, acertou de pr: _De fuego la bebo yo_.
Donde os praguentos quizero adivinhar que este galante bebia Orraca de
fogo. O demonio foi fazer tal rro, para delle sahir tamanho acrto.

Outro devoto, que desque estava quente, dizia dos companheiros,
quaesquer que fossem, o que de cada hum saba, sem respeito, tirou por
divisa hum demoninhado, lanando os olhos em alvo, escumando e apontando
com o dedo para hum frasco de vinho; e dizia a letra:

    Se fallar demasiado,
    No mo tachem, porque, emfim,
    Aquella alma falla em mim.

Sendo atqui introduzidos os religiosos de Baccho, pedro dous d'outra
religio que tambem os deixassem jogar as canas, e que elles tirario
tal divisa, com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo entrados
ambos juntos, por certa conformidade que havia entre ambos, trouxero
pintados nas bandeiras cada hum seu par de pombas; e dizia a letra:

    Se como vs ha hi par,
    Vs o podereis julgar.

Certo, que atqui chegou a malicia dos homens, porque to subtilmente
quizero interpretar a innocencia desta letra, que tomro a derradeira
syllaba da primeira regra, e ajuntro-na com a primeira da derradeira,
que vem a dizer _parvos_; e dissero que juntos significavo isso
aquelles dous innocentes. Mal peccado! to errada anda a maldade humana,
que logo tee por parvos aos que sabem pouco!

Outro homem entrou tambem por adherencia nas canas, o qual dizem que
tinha partes maravilhosas; porque era to perfeito em suas cousas, que o
seu comer havia de ser o melhor temperado e o mais suave do mundo; e os
seus vestidos ero sempre dos mais finos pannos e sitins, que se
podessem descobrir; e esta perfeio at nos amores e amizades se lhe
estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas de conversao, e
com as amigas hum fingir que queria o que no queria. E, emfim, at no
jogar usava daquellas manhas todas, as que para ganhar ero necessarias.
E tinha mais hum revez da fortuna recebido, que se lhe estendia desde a
ponta do nariz at huma orelha. Este Senhor tirou por divisa huma camisa
toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; e a letra dizia assi:

    Pontos de honrado e sisudo
    Sempre na vida quiz ter;
    Apontado no viver,
    Apontado mais que tudo
    Em meu vestir e comer.
    Pontos subtis no meu gsto,
    Mais subtis no conversar:
    Tanto me vim a apontar,
    Que apontado trago o rosto,
    E as cartas para jogar.

Muitos outros homens illustres quizero ser admittidos nestas festas e
canas, e que se fizera memoria delles, conforme suas qualidades; mas
infinita escritura fra, segundo todos os homens da India so
assinalados; e por isto esses bastem para servirem de amostra do que ha
nos mais.

FIM.


      *      *      *      *      *




NOTAS.




NOTAS.

Pag. 16. V. 17. _No do sol, mas da candea._] Todas as ed.; mas he lio
viciosa, porque se a luz do sol no he sombra daquella idea, que em Deos
est mais perfeita, menos o ser a da candea. Exclue o poeta uma e outra
destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto c nos
seduz e encanta. Corrigimos portanto:

    *No do sol, nem da candea.*


P. 67. V. 4. _De mim to longe._] Todas as ed.; mas he rro, porque o
poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e
pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si to longe? Corrigimos:

    *De si to longe.*


P. 123. V. 25.

    _Vs na minha gloria posto.
    Eu na vossa sepultura._]

Todas as ed. Mas he justamente o contrrio:

    *Vs na vossa gloria posto,
    Eu na minha sepultura.*


P. 124. V. 9.

    _Mas se esse rosto fingido
    Quizereis representar,
    Houvera por bom partido
    Dar-lho a alma do sentido
    Para a gloria do lugar._]

Assim ando corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos:

    *Mas se esse rosto fingido
    Quizero representar,
    E houvero por bom partido
    Dar-vos a alma do sentido
    Para a gloria do lugar:
    Vreis etc.*


P. 148. V. 1. _Vai o bem fugindo etc._] Estas endeixas, que
evidentemente so do poeta, ando na 1. e 2. edio das Rimas; na 3.
aindaque apontadas no index, foro supprimidas por descuido: ns as
restituimos.


P. 164. V. 23. _E amor he effeito d'alma._] Todas as ed. Parece que deve
ser _affeito d'alma_.


P. 183. V. 7. _Sem saber do cuidado o que sentia._] Todas as ed.; mas he
rro: corrigimos:

    *Sem saber de cuidado o que sentia;*

isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia.


P. 185. V. 20. _Ao p d'uma alta faia etc._] Esta que inadvertidamente
aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edies,
propriamente no he seno uma Egloga, que se deve ajuntar s mais.


P. 185. V. 24. _To queixoso d'Amor_] Faria e Sousa. He vicio:
corrigimos: _Mui queixoso d'Amor_.


P. 186. V. 8. _As roxas brancas Nymphas_] Faria e Sousa. He corrupo de
texto: corrigimos:

    *Brancas, roxas, as Nymphas mais colhio,*

porque se entende flores.


P. 188. V. 15. _Junto do rosmaninho, que he crescer_] Faria e Sousa. He
corrupo de texto: corrigimos:

    *Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.*


P. 191. V. 25. _Ai que me deras vida a morte dar-me_] Faria e Sousa. He
corrupo de texto: corrigimos:

    *Ai que me deras vida em morte dar-me.*


P. 197. V. 23. _E como debil flamma a quem fallece O radical humor de
que vivia_] Faria e Sousa. He corrupo de texto; porque o radical humor
s pode faltar as plantas: corrigimos:

    *E como debil flor etc.*


P. 215. V. 15.

    _Por qual, Senhor, algum eu me trocra. Ou por qual algum rei de
    mais grandeza_]

Faria e Sousa. No julgamos correcto o dizer: _por qual algum_: devem
portanto estes versos ler-se como nas primeiras edies:

    *Por que Rei, por que duque eu me trocra,
    Por que Senhor de grande fortaleza?*


P. 220. V. 30.

    _Se o successo he contrrio da vontade As obras que so boas, e o
    desvio_]

Faria e Sousa. He corrupo de texto: corrigimos:

    *Se o successo he contrrio da vontade
    Nas obras que so boas, e ha desvio etc.*


P. 221. V. 41. _Quanto de infamia_] Faria e Sousa. Qumanha infamia, 3.
ed. Esta ultima nos parece ser a lio do poeta.


P. 222. V. 29. _Populares a Pallas._] Todas as ed. He vicio de texto:
corrigimos:

    *Populares ( Pallas) etc.*


P. 223. V. 17. _E pois que tudo em vos se permittio_] Faria e Sousa. _No
qual, pois tudo em vs etc._] 3. ed. Preferimos esta lio, que nos
parece ser a do poeta.


P. 224. V. 11.

    _O querido de Deos por quem peleja
    O ar tambem, e o vento socegado,
    Ao atambor acode, porque veja
    Que quem a Deos ama, he de Deos amado_

Assim se lio estes quatro versos na 3. edio. Manoel de Faria corrigio:

    _Oh querido de Deos, por quem peleja
    O ar tambem, e o vento socegado!
    Ao tambor acode, porque veja
    Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado._

Mas esta apostrophe, por elle introduzida, no tem aqui lugar; porque o
poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas
praias da Persia conseguia victoria daquellas naes to remotas, as
settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravo no
ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravo; e contina,
observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o
vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja
que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido
natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos ero imitao
dest'outros de Claudiano:

    _O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris
    Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether,
    Et conjurati veniunt ad classica venti._

julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e no accommod-los
ao seu intento, metteo aqui esta exclamao forada, sem nem ao menos
saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: _Yo dudo si esta
exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian._ E assim
estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Ns seguimos a
lio antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue
vicio de cpia, corrigimos:

    *O querido de Deos, por quem peleja,
    O ar tambem e o vento socegado
    Ao atambor lhe acodem, porque veja
    Que o que a Deos ama, he de Deos amado.*


P. 225. V. 3. _Com louvores de Apollo celebrado._] Todas as ed.; mas
aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:

    *Com louvores de Apollo, e celebrado.*


P. 228. V. 1. _Depois que a clara aurora a noite escura._] Esta glosa do
Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente no he
obra do poeta: por inadvertencia as conservmos nesta edio.


P. 257. L. 7. _Que so muito e valem pouco._] Todas as ed.; mas o que o
poeta quer dizer, he que um par de reales so cousa pouca, mas para um
escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:

    *Que so pouco, e valem muito.*


P. 258. L. 17. _Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal._] Todas as
ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:

    *Que tal dizem, que he?*


P. 259. L. 1. _E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como
Apostolo, mais piedosa que huma lamentao._] Todas as ed.; mas he
vicio: corrigimos:

    *Que vem podre de amor etc.*


P. 259. L. 8. _Ol, Senhores._] Lio vulgar. He viciosa: corrigimos:

    *Ol, Senhoras.*


P. 286. V. 1. _Mas qu amo y cararon._] Lio vulgar. He grande estrago
de texto: corrigimos:

    *Mas qu amo y qu cabron!*


P. 369. V. 11. _Esperai, dir-vo-lo-ha._] Faria. He rro: deve ler-se:

    *Dir-se-vos-ha.*


P. 370. V. 14.

    _Pois s desse encantador
    Me quero vingar de ti._]

Lio vulgar: he viciosa: corrigimos:

    *Pois so desse encantador
    Me quero vingar em ti.*


P. 374. V. 48. _E se mal vos succedesse._] Lio vulgar: he rro de
cpia ou de impresso: corrigimos:

    *E se mal nos succedesse.*


P. 386. L. 11. _O qual informado pelo pastor que a achra, (que era
homem sabio na arte magica) e como a crira._] Lio vulgar; mas a
orao esta imperfeita: corrigimos: *O qual informado pelo pastor etc.;
de como a achra e como a crira.*


P. 402. V. 17. _E levar-me a lenha o vento._] Lio vulgar: He viciosa,
porque falta a clausula da orao: corrigimos:

    *He levar-me a lenha o vento.*


P. 418. L. 5. _Pois no devia assi de ser posantos e vanselos._] Lio
vulgar. Estranha corrupo de texto: corrigimos:

    *Pois no devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.*


P. 418. V. 6. _Que os amos e os cangrejos._] Lio vulgar. He viciosa:
corrigimos:

    *Que o amor e os cangrejos.*


P. 447. V. 16.

    _Que das montanhas erguidas
    D'algum monte no sahisse._]

Lio vulgar. No he menos notavel esta corrupo: corrigimos:

    *Que das montanhas erguidas
    Algum monstro no sahisse.*


P. 453. V. 20. _Se tanto amasse._] Lio vulgar; mas aqui ha vicio de
texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma
exprimir-se. Corrigimos:

    *Se eu tanto amasse.*


Pag. 467. V. 12.

    _Que quando por accidente
    Da fortuna desastrado
    Fosse apartado da gente
    N'um lugar onde somente
    Das feras fosse guardado:
    E por ferro, fogo e goa
    Buscar minha morte iria._]

Lio vulgar. Mas a corrupo de texto no pde ser mais visivel.
Comtudo no difficil atinar-se com o sentido do poeta.

Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomra ver-se dalli cem mil
leguas, pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que
isso desejava tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria
occasio de fazer por ella uma fineza, que fosse mais de agradecer; e
vem a ser, que quando ella por algum caso da fortuna fosse apartada da
gente n'um deserto onde no tivesse por guarda, seno as feras; por
ferro, fogo e goa l iria elle buscar a sua morte. E porque no pde
ser outro o sentido do poeta, corrigimos:

    *Que quando por accidente
    A fortuna desastrada
    Vos apartasse da gente
    N'um deserto, onde somente
    Das feras fosseis guardada;
    L por ferro, fogo e goa
    Buscar minha morte iria etc.*


P. 475. L. 20. _Que estas cidras no se desistem em nove dias, seno em
nove mezes._] Lio vulgar. No ha maior corrupo de texto. Que tem as
cidras que desistir? Que o poeta no disse um tal absurdo, he fra de
toda a dvida. O que elle disse foi isto:

*E porque estes sirgos no se desistem em nove dias, seno em nove
mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.*

Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando passa ao
estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como diz
o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras.


P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a
tres dias de purgatorio, passei tres mil de ms linguas, peores tenes,
damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem _su amada yedra de
si arrancada, y en otro muro asida..._ Aqui ha lacuna porque falta o
verbo da orao.


P. 489. V. 28.

    _A quem no assopre a morte
    Nem sopre o fogo da vida._]

Lio vulgar; mas a do poeta he:

    *A quem o asspro da morte
    No sopre o fogo da vida.*


P. 490. L. 26. _Tres cousas no se soffrem sem discordia; companhia,
namorar, mandar villo ruim sobre cousa de seu interesse._] Todas as ed.
Mas o vicio he palpavel: corrigimos: *Duas cousas no se soffrem sem
discordia; companhia no amar, mandar villo ruim sobre cousa de seu
interesse.*




INDEX.


REDONDILHAS &c.

    Pag.

    100 A alma que est offrecida
     61 A dor que a minha alma sente
    113 A morte, pois que sou vosso
     71 Amor loco, amor loco
     57 Amor que todos offende
     63 Amores de huma casada
     66 Apartro-se os meus olhos
    126 Aquella captiva

    107 Campos bem-aventurados
     99 Catharina bem promette
     98 Cinco gallinhas e meia
    136 Coifa de beirame
    103 Com razo queixar-me posso
     76 Com vossos olhos, Gonalves
     38 Conde, cujo illustre peito
     33 Corre sem vela e sem leme
     93 Crescem, Camilla, os abrolhos

     53 Da doena em que ora ardeis
     62 D'alma e de quanto tiver
     28 Dama d'estranho primor
     56 De atormentado e perdido
     70 De dentro tengo mi mal
     65 De pequena tomei amor
     76 De que me serve fugir
     70 De vuestros ojos centellas
     54 Deo, Senhora, por sentena
     91 Deos te salve, Vasco amigo
     60 Descala vai pela neve
    102 Descala vai para a fonte
    143 D la mi ventura

     63 Enforquei minha esperana
     80 Esconjuro-te, Domingas
    101 Esperei, ja no espero
     46 Este mundo es el camino

     67 Falso cavalleiro ingrato
    101 Ferro, fogo, frio e calma
    125 Foi-se gastando a esperana

     78 Ha hum bem que chega e foge

    132 Irme quiero, madre

    112 Ja no posso ser contente
    119 Justa fue mi perdicion

    105 Mas porm a que cuidados
    140 Menina formosa
     52 Menina formosa e crua
     75 Menina, no sei dizer
    129 Menina dos olhos verdes
    118 Minh'alma, lembrae-vos della

     86 Na fonte est Leonor
     57 No estejais aggravada
     89 No posso chegar ao cabo
     74 No sei se m'engana Helena

    104 Ojos, herido me habeis
     55 Olhae que dura sentena
     94 Olhos em que esto mil flores
     78 Olhos, no vos mereci
     79 Os bons vi sempre passar

     69 Para que me dan tormento
    145 Pastora da serra
     43 Peo-vos que me digais
     83 Pequenos contentamentos
     84 Perdigo perdeo a penna
     80 Perguntais-me quem me mata
     85 Pois a tantas perdies
     73 Pois damno me faz olhar-vos
     72 Pois he mais vosso que meu
     92 Porqu no miras, Giraldo
     64 Puz o corao nos olhos

     60 Qual ter culpa de ns
     77 Quando me quer enganar
     87 Que diabo ha to damnado
    122 Qu ver que me contente
    103 Quem disser que a barca pende
     58 Quem no mundo quizer ser
    128 Quem ora soubesse
     94 Quem se confia em huns olhos
     21 Querendo escrever hum dia

    123 Retrato, vs no sois meu

    134 Saudade minha
     81 Se a alma ver-se no pde
     68 Se de meu mal me contento
     41 Se derivais da verdade
    137 Se Helena apartar
     83 Se me desta terra for
    128 Se me levo agoas
     45 Se n'alma e no pensamento
     35 Se no quereis padecer
     51 Se vossa Dama vos d
     45 Sem olhos vi o mal claro
    117 Sem ventura he por demais
    116 Sem vs, e com meu cuidado
     59 Senhora, pois me chamais
     73 Senhora, pois minha vida
     40 Senhora, s'eu alcanasse
     95 Sois formosa e tudo tendes
      9 Sbolos rios que vo
     30 Suspeitas, que me quereis

    141 Tende-me mo nelle
    121 Todo es poco lo posible
    109 Trabalhos descansario
    110 Triste vida se me ordena
    131 Trocae o cuidado
    118 Tudo pde huma affeio
     98 Tudo tendes singular

    148 Vai o bem fugindo
     72 Vde bem se nos meus dias
    115 Vejo-a n'alma pintada
     79 Venceo-me Amor, no o nego
    132 Ver e mais guardar
    138 Verdes so os campos
    139 Verdes so as hortas
     90 Vi chorar huns claros olhos
    135 Vida da minha alma
     68 Vs, Senhora, tudo tendes
    146 Vs sois huma Dama
    122 Vos teneis mi corazon
     88 Vossa Senhoria creia
     82 Vosso bem querer, Senhora

SEXTINAS.

    152 A culpa de meu mal s tem meus olhos
    151 Foge-me pouco a pouco a curta vida
    154 Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia
    155 Sempre me queixarei desta crueza

ELEGIAS.

    194 A vida me aborrece, a morte quero
    185 Ao p d'hum'alta faia vi sentado
    160 Aquella que de amor descomedido
    175 Aquelle mover de olhos excellente
    190 Belisa, unico bem desta alma minha
    172 Depois que Magalhes teve tecida [4]
    177 Entre rusticas serras e fragosas
    208 Juizo extremo, horrifico e tremendo
    164 O poeta Simonides fallando
    157 O sulmonense Ovidio desterrado
    196 Que tristes novas, ou que novo damno [5]
    202 Se quando contemplamos as secretas

      [4] A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhes
          Gandavo dedicado o seu livro intitulado: _Historia da
          Provincia de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos
          Brasil_. Impresso em Lisboa 1576.

      [5]  morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D.
          Henrique de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi
          dirigida a seu irmo D. Philipe de Menezes.

EPISTOLAS.

    217 Como nos vossos hombros to constantes [6]
    223 Mui alto Rei a quem os ceos em sorte [7]
    210 Quem pde ser no mundo to quieto [8]
    225 Senhora se encobrir por alguma arte

      [6] A D. Constantino de Bragana, Viso-Rei da India.

      [7] Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastio
          no anno de 1575.

      [8] A D. Antonio de Noronha, sbre o desconcrto do mundo.

OITAVAS.

    232 C nesta Babylonia adonde mana
    228 Despois que a clara Aurora a noite escura
    234 D'huma formosa virgem desposada

COMEDIAS.

    255 ElRei Seleuco
    301 Os Amphitries
    385 Filodemo

CARTAS.

    481 Carta 1.
    484 Carta 2.

    503 NOTAS






End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Cames
 Tomo III, by Lus Cames

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMES ***

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