The Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by 
Jlio Csar Machado

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Da Loucura e das Manias em Portugal

Author: Jlio Csar Machado

Release Date: November 11, 2010 [EBook #34275]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS ***




Produced by Pedro Saborano





DA

LOUCURA EM PORTUGAL




Lallement frres, Typ. Lisboa, 1871




                             DA  LOUCURA

                                E DAS

                          MANIAS EM PORTUGAL

                         ESTUDOS HUMORISTICOS

                                 POR

                          JULIO CESAR MACHADO




                               LISBOA
                  LIVRARIA DE A. M. PEREIRA--Editor
                        50--Rua Augusta--51
                                1871




RILHAFOLES




I

Os doidos


Tudo  alegre,  entrada: flores e arvores. D'ali a nada,--da porta para
dentro parece j que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle
jardim!... Apagam-se as cres, escurece o co, ouve-se estalar a casca
das arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; j os olhos
no so outra cousa seno buracos luzidios; cavam-se as faces,
parecem caretas os sorrisos, no teem os gestos significao, as feies
so vagas, a frma tem contornos indecisos; tudo so personalidades
phantasticas, existencias ficticias; linguagem que no se entende; gente
estranha, que d ida dos habitantes da lua!...

Alguns danam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e
transpem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles,
envolvendo-lhes a ida como n'um crepusculo!... Parece que se esto
avistando ali as vises de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que
conversavam uns com os outros e que se entendiam pelo piscar dos
olhos... Como essas taes conversas no fundo das nuvens, assim  desusado
e insolito quanto por l se ouve!

s vezes chega a parecer-nos que  natural tudo aquillo; que o ser como
ns somos e portar-se como nos portamos-- ser affectado,  ser pedante;
que assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio,
assim deve haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem
vulgar no poderia dar; que so elles quem tem juizo; melhor do que
juizo, talento: a finura, o guindado, a quinta essencia do espirito; que
em ns ha simplesmente mudana de convenes; que elles esto mais perto
do estado natural; que tudo vae da maneira de ver as cousas e de as
julgar; da opinio dos homens e do genio e moda dos tempos; que tambem o
amor j foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de
beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito
nupcial de Pris; na Grecia, creana a quem ensinavam gracinhas
anacreonticas; brio, nas orgias de Roma; na idade media, fada,
estrella, anjo; mais tarde tendo azas como os desejos; e sendo hoje um
casamento commercial, um dote de noiva, cem contos de ris em
inscripes!...

Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que  um entrudo, tambem
vare de mascaras, de modas, de elegancia e de fallas; e que o estylo
dos pobresinhos doidos, comquanto diverso do dos tempos em que vamos de
tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil, mais colorido, e mais
exacto!...

Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta
e sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanas
idiotas. Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o
numero dos alienados era de trezentos; ultimamente tem crescido por
frma que foi preciso augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o
edificio de recolhidas na travessa de S. Bernardino, onde vo
pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha pensionistas e indigentes.
Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e pagam, conforme as
commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800 ris, 480 ris,
ou 240 ris por dia, tendo os seus quartos em repartio separada; os da
1., 2. e 3. no mesmo pavimento; os da 4. em sala commum.

Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a
requerimento de particular,--com attestado do medico, auto de
investigao, e, se so pobres, certido do parocho,--e ficam quinze
dias em observao; findos elles, ou a doena no se verifica e so
immediatamente despedidos, ou, verificada a alienao, colloca-se o
doente na repartio que o director lhe destina, e segue o tratamento.

O tratamento! Isto ,--o estudo, a observao constante, as
experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar  razo
e ao sentimento das cousas aquellas pobres cabeas canadas de sonhos,
de lutas, de prazer s vezes, de amarguras, de esperanas, de
enganos!... Vl-os como medico, como philosopho, e como
moralista,--unica maneira de poder assenhorear-se-lhe dos segredos. So
doidos; mas de onde provm cada uma d'aquellas loucuras,--a de um, que
nunca perde a pista do caracter que tem, e em tudo que diz e no que
faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que no pde
juntar idas; a d'aquelle, que conserva a lembrana do que fez durante
os accessos, e pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este,
que perdeu de todo a memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo,
excepto de logares, ou de datas!?

Ah!  preciso vl-os, por aquelles corredores interminaveis e
singularmente alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada
passo por alguma janella se avistam campos e se descobre a cidade; 
preciso vl-os nos vae-vens de uma carreira e de uma fallacia, que
no cana nunca, para um lado, para o outro, d'aqui, d'alm, accionando,
gritando, fallando--este a si mesmo, aquelle a ninguem, um  parede,
outro ao co!... Reis, sabios, escriptores, millionarios, todas as
ambies, todos os orgulhos, todas as preoccupaes, todas as vaidades.
L vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se intitulam:

                             Elogio
                     exma. sra. D. L. de S. F.
                no dia natalicio de seu nascimento
                     dividido em tres partes.
                   Passado, presente e futuro.

Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo:

                         _Grande globo
                                do
                          Grande enredo_

                 Jornal das mentiras purificadas
                         e saidas do funil
                 estampadas calligraphicamente em
                        papel, respeitando
                   as dignissimas auctoridades.

Alguns tem grande habilidade, habilidade util e sria, so pintores,
trabalham nas officinas, e fazem os differentes servios do hospital,
dos banhos, e da quinta.  entrada, entre o gabinete do director e a
secretaria, est logo a primeira aptido aproveitada,--o continuo, que 
um doido! Leva papeis, traz papeis, d recados; est ali a toda a
hora, desempenha perfeitamente, e no ganha nada.--Que lio... a
continuos!...

Por isso, quando se chega ali e a gente o v, aquelle curioso porteiro,
homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,--todo grave, cortez,
benevolo--no deixa de vir  ida que, se lhe der na vineta, elle pde
abrir a porta para se entrar... e no a querer abrir depois para se
sair; e vae uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do
carvoeiro... O carvoeiro tinha l ido para tratar de negocio, e foi
entrando por ali dentro at o apanhar um guarda que o tomou por hospede
novo, a quem se devia dar um banho, como  costume quando para ali
entram.

--Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda.

--Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado.

-- muito bom. Para se ficar limpinho. V, v!

--_Num quero_, dizia o carvoeiro. _Leba de xalaxas! Nunca tomei banhos
na minha bida! Arreda para l!_

-- uma ceremonia, replicava o guarda; s uma ceremonia.  optimo para a
saude, e de grande aceio.

O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o
seu banhosito n'uma d'aquellas magnificas tinas de marmore, admirado
ao mesmo tempo de tantas attenes que tinham com elle n'este
estabelecimento do estado.

Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem
elles todos e no se ouve por l outra cousa.

--manh, disse-lhe o guarda.

--manh!?! redarguiu o homem.

--Sim proseguiu o guarda! habituado quellas exigencias e provido sempre
de paciencia e de fallas dces para se entender com os enfermos. manh,
quando o sr. director passar a visita, provavelmente d-lhe alta, e vae
vocemec passear.

--_Paxar a bixita!_ uivou o carvoeiro. _Eu n'um estou doido, dmo!_

E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam
pelo... que no era,--at que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o
mandou para a rua, mudado tambem--como aquelles seus compatriotas do
poo, de quem j de uma vez contei a historia,--porque tambem tinha...
lavado a cara!

A casa  triste; no poderia deixar de sl-o, porque a imaginao v
sempre em Rilhafolles o _lasciate ogni speranza_, um beco sem saida, o
mais fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o
chicote dos enfermeiros... Entretanto ella  o menos triste que uma
casa d'essas pde ser, pelas condies especiaes em que est collocada,
o ar e a luz, e tambem pela dedicao notavel do director o sr.
Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. 
preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado
carinho so ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos
elles, dizem-o, disseram-m'o a mim uns poucos.

E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um
corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se
prope em todas as legislaturas, e anda constantemente a ensaiar
discursos.--Um, que nos diz que  coronel, e d'ali a nada que 
marechal, e um instante depois que  elle o proprio marechal Saldanha,
conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do dia.--Um piloto da
barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembranas do mar e cae
n'uma melancolia profunda.--Um, que foi porteiro do sr. baro de Santos,
conta como foi que endoideceu, e  a verdade: indo a Loures enterrar
junto de uma arvore duzentos mil ris de economias, e achando-se depois
roubado.--Um moo, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cartes
do chamado _jogo da gloria_, e manda ao pae o dinheiro que ganha n'isso.
Um mathematico, bom latinista, que tem o curso do seminario de Santarem,
enche o quarto de papelada e a papelada de calculos:--Diga-me,
pergunta-lhe o director, o senhor j prgava l no seminario?--Pois
est visto, responde elle; como prgo aqui; a mesma coisa.--Um, alegre
e risonho, philosopho sem o cuidar, corao que ainda no saiu da
infancia, nascido para ser alvo de qualquer ajuntamento, mostra-nos por
uma janella os campos, os cabeos virentes, os seus palacios, e algum
particular gracioso e ainda no observado d'aquelles sitios que todos
lhe pertencem.--Outro vae-se comsigo s pousar a um canto.--O famoso
Bertholo do Cadaval, que uma noite com uma faca na mo poz em susto a
villa inteira, conserva-se de collete de foras, pallido e sinistro, com
vontade sempre de matar alguem.

E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de
passagem, quando me vem tomar apontamentos:

--No faa caso, no escreva o que elles dizem; so doidos!...




II

As doidas


N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se
primeiro as que ainda tem alguem n'este mundo; as que no esto
abandonadas de todo pela sorte  hediondez da sua desgraa, e a quem a
familia, ou algum parente, paga o quarto em que vivem. Essas so as
felizes; ainda tem l de vez em quando quem as visite, quem lhes
leve algum presentinho, quem lhes d um dinheirito qualquer para
apetites--comprar marmelada quasi sempre. So as felizes, essas; so as
fidalgas,--_as fidalgas de Rilhafolles!..._

Passam n'aquelle corredor enorme--que o espectaculo monstruoso d'ellas
torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras
fallando s enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as,
entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra s visitas
ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente.

Esta, olha para ns com serenidade e indifferena, e parece dizer
com a vista que tudo  sempre o mesmo n'este mundo e que no ha ver
n'elle nada de novo--grito melancholico, que tem atravessado as edades;
ida triste e fria.

Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma
chimera,--corao ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi
tudo,--odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha
nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua ida fixa,
como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das
foras ignoradas da natureza e lhe dem voz e mando no mundo dos
espiritos.

Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de
alguem.  moa e bonita; o alguem era bonito e moo. At aqui tudo 
risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a
d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem no tinha
outra riqueza seno ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem
era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto no quer ella
dizel-o; e  como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas
caixinhas,--to fechadas que ninguem as podia abrir,--que os pescadores
das _Mil e uma noites_ achavam s vezes e de que sahia fumo escuro pelas
fendas!

A d'alm, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxo: levantando-se,
deitando-se, vindo  porta, estorcendo-se, caindo prostrada:
reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida,
pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se,
compondo-se, suspirando, anceiando,  uma mulata; tem duzentos contos de
ris de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras
tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue
apenas  sua inquieta phantasia.  uma mulher esbelta, opulenta de
frmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisaes
colossaes como as que a terra produzia quando era nova e que
absorviam em si umas poucas de existencias!...

As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver
visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e
continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel
ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se
tambem sero...--se as doentes tambem sero enfermeiras?

Vo andando de chave na mo, e apresentam ao director uma ou outra
doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas
essas empregadas, e corrigem um pouco pela sua presena a impresso
penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro.

As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcanar do
director ordem de saida: que j  tempo, que  de mais, que no podem j...

--manh! respondem ellas sempre. manh.

E as pobres doidas ficam-se sorrindo quella palavra:--manh!

Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella no faz
seno costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e danam, e
ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo,
tranquillamente, prudentemente, como se fra o sol no meio da noite,
a aco no meio da ida, a raso no meio da loucura!

Outra falla ssinha, e ri. De que est a fallar sempre? De que est
sempre a rir? Est a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa
de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam
contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua
adorao; e que, se se dirigem mais homenagens s casadas do que s
solteiras,  porque o marido  um obstaculo que ninguem supprime, e d,
por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedicao. Est 
janella a olhar para os campos e a farejar tormenta em tudo--no
voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter
conhecido a vida,  sua custa;--a peor maneira de conhecer as coisas. s
vezes no  segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem
apanha; previnem-me disto.

Ai! a tafula! a tafula! L armou o seu chapeu com bocados de chita e
papel de todas as cres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da
campainha.  a catita!  a janota! Pobre e desgraada elegante, que tem
a mania das modas, prga uma saia ao meio da outra para figurar vestido
de cauda grande, quer ver-se nos espelhos, quer que a achem galante,
que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de
tal, que tambem deu uma _soire_ onde estava a primeira sociedade, que a
sua _toilette_ era primorosa, que est j em vesperas de partir para o
campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa
comnosco, e d ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os
anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compe a
manga, e pucha a camisinha, e, cuidando s vezes que se est danando os
_Lanceiros_, faz-nos a cortezia.

Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece  porta de um quarto
onde esto algumas mais tranquillas a costurar e a fazer _crochet_. Olha
para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo
isso, pergunta-lhe se me conhece.

--Parece-me que conheo, responde ella.

O director diz-lhe o meu nome.

-- isso mesmo; j vi o retrato n'um livro.

 da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez
d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,--o
chamado Ericeira, o capito Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos
fins do ultimo outomno procurou-me uma manh um homem baixo,
vermelho, atochado, de cabea grande, sobrancelhas fartas, perna curta,
tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do
meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido
um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;--era o
pobre capito. Conversmos um pouco de tempo; elle fallava com
difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos at o
vero, na ida de que eu fosse  Ericeira este anno; morreu tres mezes
depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...

A pobre menina tem um parecer agradavel; no alegre, mas suave e
resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de
tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo  natural, assim no olhar
como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e
cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; so versos certos,
euphonicos, mas em que no se percebe nunca a ida e em que as palavras
baralham tudo:

    Amei, infanta e leda como a aurora
    Dos sonhos d'esse infante adormecido;
    Ao rei o teu gemido, o teu trovar,
    Ao throno o teu sondar encanecido.

    Harpejo d'alma, lhana, feiticeira,
    Gotejo em teu rollar mil alegrias,
    E colho em cada nota que desfiro
    Insomnias do porvir, crueis magias.

Felizmente ellas no teem a consciencia da miseria humana que as esmaga;
e vo vivendo, vivendo at chegarem a velhas, algumas.

A que, de todas, me produziu mais viva impresso foi uma formosa
rapariga que no quer fallar, e que tem levado a teima por diante
atravez de todas as diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um
canto; parecendo no reparar no que se passava em redor d'ella, de olhos
no cho, com a cabea encostada s mos, ar de recolhimento profundo e
invencivel.  o primeiro exemplo de mutismo por teima que tenho visto; e
irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe no sei o qu na esperana
de que ella responderia. O director, que se prestou com a mais
amavel paciencia a todas as minhas curiosidades, disse-lhe:

--Vamos; levante-se; esto fallando comsigo!

Ella poz-se de p.  uma rapariga alta, bem feita, de cabea lindissima,
a mais bonita cabea de mulher que se pde vr, brilhante, inspirada,
olhos grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello
negro e farto, feies accentuadas, expresso dominadora; certa graa
aspera; o que quer que seja de caa brava; a bellesa crua, como fructa
verde; uma formosura dos montes e das serras, ardente e pittoresca!

Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcanar d'ella
que se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos
fortes; e havia j conseguido, na vespera exactamente do dia em que l
estive, que, ao sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: Ai
Jesus! Taes so as duas unicas palavras que essa pobre creatura tem
dado desde que ha uns poucos de mezes para ali entrou; um ai, e o nome
por excellencia, o nome divino, que diz todas as agonias e todas as
esperanas, emblema da humanidade e symbolo de todos os emblemas que a
alumiam: = Jesus!...

Havia j tres horas que andavamos por aquelles corredores e por
aquellas salas; e, ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair
no pude deixar de dizer ao sr. dr. Abranches:

--Emfim!

Mas o director sorriu-se, e retrocou:

--Falta-lhe ver os idiotas.




III

Os idiotas


Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa
confiana que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos
empregados de Rilhafolles,-- inevitavel o olhar, de quando em quando,
como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de nos
formar sequito, com um molho de chaves na mo.

Tem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e
dotados de inexhaurivel fonte de branduras--estou persuadido; mas do s
vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como
piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei,
mas que o sentimento febril de terror--que invencivelmente se apodera de
quem ali se encontra, sem estar habituado a ir l--transforma em
indicios de uma perfidia atroz!

Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortmos por uns
corredores que se me figuraram mais escuros, e descemos por uma
escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava
tempo a pensar,--um diacho de escada que acordava idas phantasticas de
corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e procisses
pintadas, quartos, com poos e ganchorras, para ir dar a outros quartos
de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gavies e
serpentes;--lendas de pedra que s os doidos entendam bem, mas que nos
dem a pensar a ns que tambem pde succeder o ficarmos l...

Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me s vezes
que me olhava elle tambem de soslaio.  o terror, horror, pavor, de
Rilhafolles. Sentimento especial que s ha ali, que s ali se conhece.
Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em
que foi director d'este hospital convidou de uma occasio a jantar
dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.

--Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.

--No, nunca vi.

--Pois has de ver.  curioso.

Pozeram-se  mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas
finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.

O sujeito olhava para elles pouco  vontade, pensando de si para si
no nadinha imperceptivel que separa a razo da loucura...

Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como  que costumava fazer
para levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um
pouco vago que tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram--e
que parecia de alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e
respondeu:

--No custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me
para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfiana, e, to
depressa c as apanho, em ellas querendo ir-se embora j acham as portas
fechadas.

O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a ida de
que aquelle convite tambem fosse um lao.  sobremesa puchou pelo
relogio, pediu desculpa de no se poder demorar, levantou-se  pressa,
despediu-se, e ao chegar ao pateo largou a correr.

 que, alm do estonteamento em que se fica ao vr aquelles desgraados,
ha uma vertigem peor ainda-- a que resulta de os ouvir.

Quando chegmos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos
elles como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo
riscos na terra com o dedo. No lhes importa ar puro, nem horisonte;
que o terreno seja vasto ou no seja, que haja verdura ou no, que
estejam presos ou livres, para elles  o mesmo. Fincam os cotovellos nos
joelhos, encostam a cara s mos, e vo dando  cabea como os bonecos
da feira, n'um movimento sempre igual.

Ha l uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no servio
dos banhos,--um sobretudo, que  popularissimo, o que tem voz de
tiple--mas esses so a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos
idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, so modelos de
cortezia benevola, perguntam com affectuoso interesse  se a gente
gosta da agoa sobre o quente, recommendam, com agrado que captiva, que
se toque a campainha em querendo que elles appaream de novo, e estacam
de bocca aberta em avistando o bello sexo! Ah! esses so os idiotas
tafues, os idiotas como se quer. No servem para muito; mas, bem
aproveitados, at podiam servir para se encostar s esquinas pelo Chiado
fra, ou espcar s portas das salas nos bailes,--como janotas!

O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e  um melomano de
no se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue
logo:

--Se gosto de musica! Mas eu como musica, senhor, musica  que eu
como!...

E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar
faluas, larga a tocar coisas incalculaveis.

Mas isso so idiotas  maneira do que manda o diccionario da lingua
portugueza de Fonseca--_Idiota_, adj. es. de 2 g. _ignorante, sem
estudos_. E disse. A natureza, porm, vae um pouco mais longe do que o
diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presena de
uma aluvio de desgraados que ha em Rilhafolles, no como o da flauta,
que falla e toca, mas dos que no fallam: no pensam: no ouvem: chiam,
guincham, riem, e babam-se. Esses so um pouco mais do que
_ignorante e sem estudos_, e a gente ao vel-os tem vontade de segurar a
cabea, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes Heliogabalo
levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que lhe
devia,--tal  o medo que se sente de que ella estale e se quebre como a
taa do Cesar idolatra,--com a differena de que estes manes, que so as
idas e as paixes, em se caindo em idiota... no voltariam nunca mais!...

Esto para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensaes, parados e
quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do nariz,
capazes de ficar encostados  parede o dia todo...

Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber
para onde, nem se perceber para o qu; existencia vasia; vida sem drama;
o horror sem lances.

Um, est gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, panudo,
bonacheiro,--certo ar de paspalhice, immobilidade de figura decorativa.

Este, sentado no cho, junta um montinho de folhas, e depois dispe-as a
seu modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a
Sibylla de Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido.
Depois, vergando a cabea, fica a olhar para ellas...

J estiveram alguma vez ao p de uma cova aberta no cemiterio? Chega a
parecer que os cadaveres so as almas dos tumulos, e que o sepulchro 
que morre em no tendo ossos dentro.

Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que
ser feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabeas, e parece
que elles  que no existem j.

No se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta  o
_formica leo_ d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos,
e alguns no ouvem? se o destino os seccou como o sol secca os
regueiros!...

Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem
cabea de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos
hombros: uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com casto
figurando um sagu; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um
palhao morto!...

Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congesto cerebral;
e est para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como s creanas;
recommendam-lhe que no metta os dedos no nariz, e que no ande de
joelhos pelo cho para no estragar as calas. Elle ouve, e esquece-se.

Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a
rir sosinhos...

A _macaca_ apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. No tem
outro. Quando a mandam chamar, diz-se: Chamem a macaca; os guardas
acenam-lhe e dizem-lhe:--Anda c, macaca! Ella vem. Toda a gente que
foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para
ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo
pela peior das portas,--pela porta de Rilhafolles. Era enfesada,
cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial; ali lhe tem crescido o
corpo, ha dezeseis annos. No pede de comer, nem lhe importa isso.
Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de
sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vo metter na boca. Quando
vo dar-lh'as, come-as,--sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento
de qu? Quem imagina que o ar no dia de manh j no seja respiravel, e
que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se d para ella com as sopas.
 abrir a bocca, e l lhe iro parar. Est gorda, agora, com os seus
vinte e quatro annos. O director diz que est magnifica; e queria que eu
lhe apalpasse a cabea para vr at que ponto  molle. Consideram
geralmente l em Rilhafolles que ella est muito bem; saudavel e feliz.
E dahi,--talvez! Pobre _macaca_! Desraizada do mundo, e plantada na vida
como uma cebola de jacintho na agua!...

Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros--no
sei se se vem. Toda a gente faz alguma coisa, elles no fazem nada;
toda a gente pensa alguma coisa, elles no pensam em coisa alguma; at
os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes
faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:--elles no se
lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha  mais do que elles! a
aranha arranja a teia, elles no arranjam nada!... De fra d'aquella
casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religio, a politica, a honra,
o crime, as desordens da turba: elles no sabem nada d'isso; esto
exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos
furiosos!




IV

Os furiosos


Estes j no tentam dissimular o estado em que se acham,--triste prova
de que no conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia
vivaz e animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente
mettidos pelas orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida,
saltam-lhes por entre os beios cordos pela febre, como por um
arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!...

Tem idas, mas fugitivas, sem ligao, quebradas. Grande agitao,
grandes accionados, grandes berros. Ora vem, ora vo. Fallar sem
descano,--para um--para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga.
Ir s grades; segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade
visivel de apanhar alguma cousa  unha, de poder deitar-nos a mo.
Mas,--nem mesa, nem cadeira: nem, s vezes, uma tigela para despedaar...

--Anda c! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo
agrado felino, o risinho da hyena,--a morrerem de desejo de nos
saccudir de encontro s grades.

Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos ns que os roubmos.
Outros, de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se...
Alguns tem ainda o sentimento da ambio, querem grandezas,--d'essas
mesmas grandezas pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares
de ir n'um andor--e gritam que so magnates e figures: a tal ponto 
profunda nas creaturas a vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda
conservam a ida de alardear possana! Mas j no tem sequer, como os
outros, papel doirado, para fazerem coras; nem ha coberta na
enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores...

Donde provm o mal?

Quem poder sabel-o! De alguma paixo desordenada, enorme, extrema. Quem
nos diz at que a loucura n'aquelle grau, a loucura d'aquella qualidade,
no seja simplesmente a paixo levada ao excesso?... Esto ali durante
as horas do ataque, as horas da furia, fechados nos quartos, quasi s
escuras para que a claridade lhes no fira a vista. No decorrer do anno,
ligeiro para ns, pesado e cruel para elles, quantos dias de agitao e
de tortura,--com as mos atadas, os braos presos, as raes da
comida diminuidas; e as grades, as grades frias e negras, por unico
horisonte e unica companhia!...

J no ha ver ali a gordura pag; so magros quasi todos, e parecem
velhos: a loucura ainda envelhece mais do que as paixes; abatem-os,
dissecam-os as furias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente
acorda; um ou outro tem a mo finissima, mo de quem no faz nada, de
quem no trabalha ha annos; de outras vezes parecem os ossos da morte
com pelle por cima... em ar de luva!

Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias
insondaveis da desesperao. S a me de algum ou a mulher, vo
vl-o; unicas dedicaes n'este mundo que no abandonam as angustias
persistentes. L esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em
Portugal, e sua esposa ali foi todos os dias vel-o e fazer-lhe
companhia--colhendo no ceu a palma do combate terrestre e vendo
sorrir-se para ella e abraal-a meigamente aquelle ente querido, que
havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que
parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na
eternidade a alma que n'esta vida teve dedicao pelo infortunio!

Mas, em geral, como se os olhos humanos no devessem contemplar o
espectaculo d'aquella dr horrivel, poucos so os que teem quem os
visite, e ali se conservam at que um dia o padre do hospital v junto
d'aquella enxerga resar-lhes ao ouvido, e, na hora em que vo emfim
libertar-se do mundo, fazer a diligencia de que elles repitam as oraes
que lhes disser...

Todos ali, mais ou menos, se entreteem e se divertem. S elles no. So
os poetas da casa;--sonhar, soffrer. Mesmo se teem officio,  raro
aquelle que pode aproveital-o uma hora ou outra,--e isso mesmo 
arriscado s vezes. L vi, quando fomos visitar as officinas, um que
dizem ser excellente marceneiro e de quem me mostraram um trabalho
curioso:--uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe, um nicho de madeira
para Santa Philomena,--santa com que tinha grande devoo uma enfermeira
de Rilhafolles, que fra educada n'um convento de freiras de Leiria, e
que morreu ultimamente doida n'este mesmo hospital onde fra empregada.
As outras enfermeiras, em obsequio  memoria da sua antiga companheira,
conservam o culto  santa.

O nem sempre amavel marceneiro estava logo  entrada das officinas com o
banco e a ferramenta, na occasio em que o director o convidou a
mostrar-nos as suas obras.

--Mostrar o que? berrou elle; e logo se lhe injectaram os olhos; e
travando de um pedao de taboa partiu-a, batendo com ella no banco.

--Bem, bem! disse o director. Hoje ests muito zangado; deixemo-nos
d'isso! E virou logo comigo pelo mesmo caminho.

Uma circumstancia interessante  a placidez do director, o desembarao
com que anda por entre os doidos, e a bondade e descano com que os
trata.  isto resultado do seu genio, e em parte tambem de querer dar
exemplo aos empregados de que no deve ter-se medo dos doidos, porque o
medo aconselha cobardemente toda a especie de crueldade. Em vez de
injurias e de chicotadas, como se usava d'antes para com os pobres
furiosos, sem se lembrar ninguem de que mais humana seria a lei que de
vez os condemnasse  morte, emprega-se o geito, a doura, o bom modo,
para no espatifar brutalmente, e apagar de todo aquelles restos de
intelligencia, que s vezes s de passagem est nublada.

Todos mais ou menos se entretem ali e se divertem alguma vez, menos os
furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial.

De ordinario os doidos que representam,--dos mais quietos, j se v, e
dos que costumam estar dias, semanas, mezes s vezes sem dar signaes
de alienao--dizem os seus papeis regularmente, mas falta-lhes
expresso de physionomia, gesto, movimento, olhar, tudo que auxilia e
completa a phrase. So espectaculos mais curiosos do que recreativos.

At os idiotas podero bailar nos arraiaes ao som da flauta do
companheiro:--os furiosos, no; arredados de tudo e de todos, ho de ir
gritando, extorcendo-se, rugindo na solido atroz do seu carcere!...

O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, at nas creaturas que
perderam o juizo, no os abandona ainda assim. Querem sair, sair!

As mulheres so mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario
agitam-se durante horas, depois caem prostrados no somno lethargico que
succede  furia. Ellas, fallam e berram, dias, noites inteiras, e
tornam-se mais notaveis nos insultos, no descomposto do fato, e at nas
tendencias malfazejas--atirando sempre que podem uma tigella contra as
grades, e os cacos  cara de quem vae.

Algumas so verdadeiramente horriveis.

Uma gira todo o dia--mas todo o dia!--descala, em roda do quarto.
Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena
na jaula. Depois,  noite, pem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e
enrosca-se.

Uma rapariga de Coimbra, que no falla seno de um retrato, tem de estar
de collete porque marinha pelas grades.

Aquella, de Lamego, que d pancadas em quem apanha, atira com o po em
pedaos--para as almas!

Esta, de Guimares,--com certo ar de astucia machiavelica no fundo da
loucura--est doida um dia sim, um dia no. No dia em que no est
doida, trabalha.  uma alienao  maneira das sezes.

--Como est? pergunta-lhe o director.

--Sempre estou boa! responde ella.

--Ah! E ento?

--Ento sardinha com po!

E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaa, quer saltar, terrivel,
hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as
caretas da loucura.

Um moo esbelto e forte conserva-se de gravata de coiro, para no poder
dobrar o pescoo--porque se morde.--Um velho grita por tal frma, que s
vezes, de noite, as patrulhas de Arroios tem ido, sem saber o que , em
procura do sitio de onde vem aquelles ais...

Passados dias,--por no haver trazido apontamentos dos furiosos na
primeira visita que fiz a Rilhafolles,--tive de voltar ali.

A tarde declinava, e os ultimos raios do sol iam a despedir-se
d'aquellas tristes paredes. Ao passar com o sr. dr. Guilherme
Abranches, que teve ainda a bondade de me acompanhar, por um d'aquelles
corredores que serpenteiam ali em todas as direces, vi dois homens
sentados  porta de um quarto.

--Esto de guarda ao cadaver! disse-me o director.

Entrmos no quarto, vi um embrulho no cho, como que o corpo de um homem
amortalhado,--um boneco, suppuz eu,--e duas tochas ao lado.

No era boneco, era deveras um cadaver.

Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os
seus, mandou o presidente da _Sociedade hebraica_ dois homens para
envolverem o cadaver n'um lenol, deposital-o n'um quarto isolado, de
cara e ventre para baixo, sem caixo, e ficarem de guarda  porta. Como
era sabbado--dia santo para elles--no lhe mechiam em quanto no fossem
nove horas. Haviam pedido, para a noite, caf, po, manteiga, genebra e
cigarros. Na madrugada deviam partir para levarem o cadaver e enterral-o
no alto do Varejo.

Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. J
no ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixo, os arrancos
de desespero e de furia dos companheiros. Estes esto mortos tambem,
de alguma maneira; mas  de mais, e  pouco! Se aquelles braos que se
agitam, se aquellas vozes que estrugem, se aquelles dentes que rangem
so a materia--que  da alma?...

........................................................................

 saida, o jardim  triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas
ptalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta
a cabea, estremece-se ao ver o ceu, como contraste--por cima d'aquella
miseria continua!...




V

Telha


Tambem os ha c por fra!

Mansos, com falla, sem _collete_, passando a vida  procura do
motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar
com o _deficit_, da perfeio no amor, do circulo bicudo...

Avista-os a gente por essas ruas, sequiosos de barulho, persuadidos
de que tem para cumprir uma misso, exercer um sacerdocio, defender uma
causa, fazer tremular victorioso um estandarte; e observa com estranhesa
que, sem se saber de onde vem nem o que querem, sem que alguem jmais
os visse entrar n'uma escola ou comprar um livro, desprezem o mundo que
os quiz empregar n'alguma cousa, e embirrem em ser tribunos unicamente,
tribunos e heroes, prgando umas celebreiras no tom de quem salva a patria!

Pasma-se de ver outros atravessando a vida com ares de
visinho--descarapuado e de chinellas--sem mais bagagem do que a sua
insolencia, altivos e petulantes, por entre a risota da multido.

Alguns, pobres moos, levados da esperana, vivendo mal, aoitados pela
sorte, emmagrecendo na luta; rindo sempre na bochecha da vida positiva,
deitando a lingua de fra entre desdens s exigencias e riscos d'ella;
desprezando o dinheiro, nervo de todas as cousas, que aplaina e floreja
o caminho, torna facil estudar, d independencia ao espirito;
sustentando-se de theorias; compondo maximas e conceitos d'este
genero:-- o homem que faz o titulo, e no o titulo que faz o
homem;--e pondo-se a caminho pela vida adiante, p c, p l, como quem
vae com botas de andar leguas, para ficarem estatelados na estrada
sem solas e sem palmilhas. E para que, tudo isso? Para querer  fora
viver de litterato, n'uma terra em que as letras se vendem mais baratas
que os tremoos, e cair agonisante, sem gloria e sem fortuna, em dres
sem grandeza, dres que do riso aos mais!

J de creana, s vezes, deixam perceber o que d'ali sair! Um, pondera
em menino que o sol no tem prestimo; e que a lua, sim: porque faz sol
de dia, quando no  preciso, e de noite a lua d claridade.

Vae crescendo, vivendo, engordando; quer a familia fazer-lhe casamento
com uma viuva; mas o rapaz scisma, e diz:

-- melhor no casar com esta.

--Porqu?

--Tem o dobro da edade que eu tenho!

--E depois?

--E depois,  muito. Quando eu tiver cincoenta annos, vem ella a ter cem!

O pae fica embuchado, e medita.

Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico.
Quer endireitar o paiz. Para elle ha uma ida s e uma s
palavra--supprimir. No fervor da crise das economias vae de uma vez a
uma reunio politica, onde se discutem os maiores problemas.  n'um
terceiro andar. Muito escura a escada. Do-lhe um rolinho. Aceita;
desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um bocadinho
de rlo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois s
escuras,--pensando sempre em economias...

Quantos! Quantos andam por essas ruas!...

Este, quer  fora parecer inglez.  filho de virtuosos burguezes
nacionaes, e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande--como
qualquer de ns; mas tem a preoccupao constante do _shoking_, usa bota
de duas solas, cala sal e pimenta, encarquilhada sobre o p, collete
inglezado, gravata de seda frouxa com as pontas pendentes,
caadeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente na mo um
bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos ns, muitos ns...
Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor,
refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pra no meio das
praas a examinar os monumentos; defuma o fato com carvo de pedra, para
parecer que veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a
estatua de D. Jos, examinando, estudando, tomando apontamentos,
medindo, comparando, admirando, criticando com gestos expressivos, sem
perder tempo;--_time is money!_ E passeia; e corta; e gira; e vae
indo, inglezmente, at ao alto de S. Joo. Esto abertas de par em par
as portas do cemiterio... Entra, segue uma das ruas, examinando as
inscripes das campas; escolhe um tumulo que lhe parea commodo, e
senta-se. No ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler o _Times_.
O _Times_ est n'uma das algibeiras da caadeira. L o _Times_ com
imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um raminho de
cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. 
noite; vae para casa,--acabou de ser inglez at ao outro dia!

Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores se
chamam piteireiros, pareceu esconder-se. Os amigos, companheiros das
sucias, estranharam que assim se despedisse do vinho sem dizer--agua
vae. Elle respondia sempre, e responde--que j no bebe, que lhe fazia
mal, que ia a soffrer por causa d'isso, que no vale a pena... Engana os
outros, mas, o que  mais singular, engana-se a si. Em casa, fechado e
sosinho, pe-se  mesa com uma garrafa e dois copos. Depois, como se
fallasse com alguem:

--Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo!

E, disfarando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si
proprio:

-- muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se insistes,
um copo de Collares.

-- Collares picado o que posso offerecer-te!

E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos.

--Deixa-o sempre levar aos beios. No  traioeiro, e acompanha o
queijo amavelmente.

--Mas nota bem que quero fazer-te uma saude!?

--Ds-me muito gosto.

--Uma saude com um copo de Xerez generoso.

--O Xerez contende commigo. Vinho aguardentado e febril. Conservemo-nos
n'este...

--Mais um copo, visto isso, de Collares; e passaremos ao Porto, que
de certo no te faz nervoso como os vinhos brancos?

--Est dito. Acceito o Porto. De que anno o tens?

--No bebas datas. Contenta-te que seja bom. Que te importa o anno?!

E uma garrafa de Porto vae muito lampeira, em cima da mesa, fazer
companhia  do Alemtejo e  de Collares.

-- tua saude! diz elle, enchendo dois copos.

-- tua saude! prosegue, bebendo ambos.

Ah! Quantos, quantos!

Alguns at de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam a
parecer serias; os folicularios, inaptos ou calumniadores; inaptos no
reparam que se cortam no proprio gume da arma; calumniadores, no vem o
tribunal da Boa Hora e tem-o diante de si;--uns exaltados ridiculos, a
arder em aspiraes phantasticas;--uns pimpes de palavra, sempre em
prologo de valentia, pernada c, pernada l, quatro leguas  roda da
sala em passo gymnastico, preparando casos, annunciando heroismos,
vociferando contra este e aquelle, resolvendo castigar, destruir,
arrazar: _tutto parole, parole, parole!_--Um que quer cantar sem voz, e
me os ouvidos das pessoas por casas particulares, festas,
concertos, cantando tudo, dizendo que d o _d_, e no dando cousa
nenhuma seno cabo da paciencia  gente!

O jogador tenoeiro, que vae de queda em queda--como outros vo de
bamburrio em bamburrio--para cair no abysmo, para que se lhe devore a
ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada  porta, para que
a mo da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!...

O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e
massa com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como
pingos de chuva da rama de um choro...--O que attribue tudo aos
jesuitas, no scisma, no dorme, no sonha seno com jesuitas. Tudo
a mo de Roma, a mo de Roma...--O que, em apanhando piano, principia
logo a tocar com um dedo horas a fio.

Os sexagenarios maganes, que armam terceira mocidade, postia como a
cabelleira e a dentadura, e vo, bem retocados, em conquista...

A antithese d'esses:--velhos precoces, j enfastiados de tudo em
meninos: aventuras que no so visiveis sem lente; escandalos que Plato
consideraria chchos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se fra
me dos sete peccados mortaes e excedesse as orgias de Babylonia.
No sabe a gente, ao ouvil-os, se est no Azul se no meio do cho! Aos
vinte annos j no danam, e usam luneta cr de fumo nos olhos
fatigados... do gaz do Martinho!

Um no pensa seno em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da
namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior s vezes,--quer
trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos;
qualquer coisa; exemplo:.--As ginjas so talvez melhores  sobremesa,
do que para prato de meio. Conceitos!--Outro, leva o anno inteiro a
scismar como ha de disfarar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a
cara, o que ha de pr no nariz...--Outro, conversa muito alto,
n'este estylo que lhe parece optimo:--Diga-me se no  anomalo,
acephalo, hybrido, atravs da civilisao e do progresso, ver as naes
atrophiarem-se em carnificina,  maneira dos povos barbaros, ou dos
tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da superstio e da
ignorancia. O meu amigo  ecletico?

E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para no
cumprir, nunca vo a horas--o maior dos erros, exemplo aquelle
diplomata que chegou tarde  morte do seu principe e foi dar com a
rainha a fazer papelotes!--que se esquecem de tudo, ou antes no se
esquecendo--pensando n'outra coisa, diversa sempre da que esto fazendo,
da que esto dizendo. Gente que baralha tudo, troca, atropella, estraga;
trapalhes de officio e de geito. Um deita rap no ch em vez de
assucar; outro cuida que est no botequim, e pe um tosto no pires
quando toma caf na casa alheia; outro nas conferencias do Casino ia j
a estender o brao para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se o no
pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que tem, ficam
parados  porta do correio geral  espera de que passe alguem que lhes
diga como elles se chamam, e irem ento reclamar a carta; a correr,
antes que lhes esquea o nome outra vez!..: _Telha_, pois que?--_telha_,
e rija!...

Digamos o peior;--quasi todos ns temos um pouco d'isso. Ha
principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda
a gente anda com _telha_...

Quem ha,--dos que pensam,  claro, e dos que, por assim dizer, costumam
tomar o pulso ao espirito, que no se tenha sentido em certos dias como
que exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma
remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de
saudades da patria que perdeu... A terra parece triste ento,
embebe-se o animo na nostalgia do cu, quer a ida voar para l, e
consegue-o s vezes... De noite, quando no se pde dormir, mas est
tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda, vem-se brilhar as
flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos n'alma suspiros
e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos perde o
olhar certas creaturas que s ns sabemos bem quem sejam... O mundo
ento chama a isso s vezes ser poeta; e  ainda, talvez,--a _telha!_...




VI

Enguios


Quente... quente...

J esto a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram,
com quem viveram, parente, amigo, visinho...

O diccionario de Moraes explica-o assim:--Enguio  o mal que se causa
de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente. At
aqui, o mais notavel  elle chamar aos tortos accidentes. L se
avenham.--Consiste,--continua--em ficar acanhado. Esto satisfeitos?
Eu, no. Procuremos mais, procuremos sempre;--no verbo enguiar o mesmo
auctor exprime-se assim:--Dizem que o torto olhando para alguem
enguia-o. Passar a perna por cima da cabea (d'outrem) enguia; isto ,
faz que desmedre, que se faa pcco e pobre.

D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e
incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da
creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e
cousa pouca, que moem e affligem os enguiados,--gente nervosa,
delicada e phantastica.

Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A
influencia do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o
vento sul, torna-os tristes a chuva. Ficam, s vezes, horas sem fallar e
sem vr. Parecem acordar na primavera pelo canto dos passaros e pela
doura do ar; e ouvem tudo ento, as vozes que passam no murmurio das
ondas, na rama das arvores, ouvem o que se diz ao longe, ouvem o que no
se chegou a dizer,--ouvem-se a si, unicamente a si; a voz do enguio,
que falla dentro d'elles, e compe, e ordena, e retem, e impelle...

Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia
preso ao cho, e no pde dar um passo emquanto o creado no vem dar-lhe
um alentado empurro que lhe quebre o enguio. Volta-se ento para o servo:

-- Jos?

--Senhor.

--Tu deste-me a corda inteira?

--Dei, sim senhor.

--Toda, toda?

--Dei-lhe a corda toda, sim senhor.

--Est bom!

Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para
as vinte e quatro horas, como um relogio de algibeira. Se o empurro foi
brando, a machina pra a qualquer hora do dia e precisa nova corda.

Um irmo d'este (os enguios so familiares e hereditarios, o que 
ainda mais pasmoso!) no pde comer a sobremesa sem dar tres voltas em
redondo ao prato.

Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartio onde 
empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodo, faz todos os
dias antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor
a porta, que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros:

Um.

Dois.

Tres.

Depois, seguro de que tudo ir bem, sbe e entra.

Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a
quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu caf
ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que no
envenenava os freguezes. Achava n'aquelle caf, do antigo Nobrega, hoje
Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades
sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete
annos o botequim fechou, elle acabou de jantar, foi muito lepido
pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafsinho,--encontrou as portas
fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se
d'elle; os jornaes contaram o caso.

Alguns so beatos. Tem uma religio l d'elles;--a religio do enguio.
No querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje
de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora
decotadas; mas em S. Carlos impem-se crueldades gothicas, e quando
apparecem as bailarinas, to frescas e to pouco vestidas que at o
beato Antonio haveria arriscado um olho, como o meu amigo leitor ou
eu, fecham elles ambos.--Conheci um que, quando lia n'um jornal a
palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.--Ha
outro que no pde passar diante de um nicho de santo sem que
immediatamente leve as mos ao rosto e o esfregue, como para se lavar
das impurezas que o santo no deve presencear. Como fosse em certo dia
guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio,
largou immediatamente as redeas e pz-se a lavar o rosto em scco. O
cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por
felicidade no deu cabo do enguiado e do amigo que elle levava em
sua companhia.

Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude
em que esto quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes
ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no
ar, s com as mos ambas encostadas  bordinha do colxo, como se faz ao
saltar para a cama; no o conseguiu, como podem crr, e deu muitos
trambulhes.

Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguio de
pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo no
consentia por ter d de obrigar os moleques a estarem para ali
espcados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um
creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto.

Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido  rico;--faz casas
para no morrer. L diz o proverbio campesino--ninho feito, pga
morta. Avarento, sordidamente miseravel, s  grandioso em fazer
predios. Suppe que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando
sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a
capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e
cal!

Aquelle est j por tal modo aferrado a manias que chega s vezes a
parecer criminoso, e sente que d cabo da intelligencia quebrando-lhe os
raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das
apprehenses. Tem sete filhas; quatro esto casadas; duas principiaram a
namorar os que hoje so seus maridos no circo Price; as outras duas no
Gymnasio. Esto ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas,
pobres e desgraadas; elle tem a scisma de que s tres que esto
solteiras no convm irem ao Gymnasio, e suspira por vr aberto o circo
Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando 
entrada uma prece, no sei que lrias piedosas que s elle entende...

Que dana! que dana!

Os d'aqui tem scisma com o sair da escada sem pr primeiro o p
direito.--Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas,
contando que ho de ter ddiva ou insulto, e receiando que venha insulto
em vez de ddiva.--Os d'acol pedem a beno  me, e emquanto ella no
estender a mo seis vezes no lh'a beijam.--Uns tem terror s aranhas;
outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes no passam em
certas ruas seno do mesmo lado sempre.--Alguns, brutos com toda a
gente, so timidos com as creanas. As creanas tem o que quer que
seja de maravilhoso. J o Ferno Lopes, na _Chronica de D. Joo I_, cita
uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de
Portugal. Os enguiados que leram esta chronica ficaram tendo pelas
creanas uma venerao profunda; os que no a leram--tambem. Batia na
mulher todos os sabbados  noite um saloio, ao voltar da taberna--para
onde ia to depressa lhe pagavam a fria. A mulher, coitada,
conformra-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabra por se
costumar com aquella renda. N'isto foi me. Apesar de todos os sabbados
estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tsa
semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:

--Porque  que tu j me no bates?

E o saloio, enguiado, desejando romper e quebrar por uma vez com a
priso imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se,
escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o bero:

--Tenho medo de acordar o pequeno!...

De tudo, entretanto, o mais trivial  no se poder vr um corcunda sem
ficar enguiado. Parece que, sobretudo em jejum  desastroso. Os
corcundas sabem isto; sabem-o  legua; no sabem outra cousa; esto
fartos de o saber; e por isso so to joviaes. Andam sempre a
rir-se do mundo e a enguial-o o mais que podem! O melhor do caso,
porm,  que um corcunda neutralisa o outro. Eis a raso porque nunca
desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observao de haver
encontrado dois corcundas de brao dado. So inimigos capitaes. Um
d'estes dias foi encontrado um sujeito--se eu lhes dissesse o nome
riam-se!--encerrado n'um portal  espera que passasse um corcunda para o
desenguiar de outro que havia visto.

Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma
moeda de dez ris que tenha tocado na giba de um corcunda.
Mas--para obter o remedio--quantas difficuldades! quantas astucias!
quantas subtilezas! O corcunda est sempre prevenido e no se deixa
tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem
posto a policia em bolandas--smente para garantir a giba do contacto
impudico da moeda preservativa.

Ha quem affirme que os vesgos so ainda peiores que os corcundas, e que
a sua influencia  de maior malignidade. Felizmente o Mascar promette
acabar com elles,--e no haver mais enguiados por este accidente!...

Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguio,--sujeitos de
pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabea
nas costas da cadeira; pees para quem esto de reserva as topadas nas
pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias,
que farejam na malicia da sorte inquietaes para todas as horas do dia;
consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.

So sujeitos a enguios os homens pequenos e os grandes homens; homens
grandes no corpo e na fora;--homens grandes no espirito; phantasistas,
poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os
ignorantes; tem enguios os pastores; e os reis--ha uns
tempos--andam muito enguiados!...

Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular
harmonia! Toda a cautella  pouca em no se indispr a gente com elles,
nem com o acaso;--os enguios so como as paredes, tem ouvidos; e l se
entendem, l se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma
pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Mu! Ahi
est que n'este instante a penna no quer tomar tinta e est a
espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.--Vou
mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borro no
papel...--Basta! Talvez que este borro resuma, melhor do que eu
podesse fazel-o, o systema dos enguios. No escrevo mais.




VII

Agouros


Agouro e enguio no so a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente
o sentido natural destas palavras, que tem todavia uma significao
diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo
canto, gesto, e pasto das aves (_ex avium cantu, gestu, vel pastu
futura divino_) e por extenso conjecturar de qualquer modo.
N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes
insignificantes--a que chamamos agouros--queremos predizer o futuro.

O terror--de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras
vezes--torna videntes certas creaturas. Mudam de cr,  mesa, se
espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede
levantarem com o p os limos, que cobrem as borboletas do mar;
atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o leno nas
urzes; vem imagens, conhecidas nos montes de nuvens negras que um
relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles at a materia muda
tem lingua. Ouvem presagios no gro de areia que o vento leva, no tremer
das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que
reflecte as figuras, na herva que balana ao peso de uma formiga...
Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes ce chuva, no
canto do gallo fra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do co...

Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas  direita e
 esquerda; golpes mortiferos; desgraas precipitadas;--a fatalidade
delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico.
Vivem de cabea baixa e braos encruzados, agitando n'alma questes
insoluveis, corre-lhes nas veias com preguia um sangue fraco que
arranja o que se chama agora anemia; doena em que ninguem fallava, e
que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a
quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear
commodamente  sombra glacial das extensas galerias dos castellos do
norte, e para quem a vida  um supplicio atroz,--condemnados de manh ao
Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas
ventanias.

Tem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vo
seguindo na vida como a Electra dos gregos, devota e severa,
confiando s cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio s leis da
fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;--dir-se-hia que, como
outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pescoo ao cutello
resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse...
Os artistas principalmente,--os que so dignos d'este nome, os notaveis,
os verdadeiros artistas--tem supersties indestructiveis e muitas
vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes raso. Ha
exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhs de maro, humida e
ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio de Janeiro, e a
quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que no
era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do
contracto, dizia-me em frente do Tejo:

--Adeus. Sinto que no vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio
funesto.

As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,--um pouco mais
singular ainda do que o agouro!

Da maior parte das vezes, as supersties dirigem-se unicamente a evitar
o mal e aplanar o caminho; mas, o peior , que, a poder de se darem a
perros para assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em
miseria ou em asneira.

Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, l
arranjou ser deputado--mas o que no arranjou  fallar, porque os
agouros o impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador 
saber ouvir e callar; que, por pouco que se falle, l succede um dia
dizer-se o contrario do que se havia dito tempo antes; que os
adversarios abusam d'isso e ficam causticando o sujeito; que a fora das
maiorias consiste em votar sem abrir o bico; que assim como o nauta
dextro caa a vla, e muda o rumo ao leme conforme sopra o vento de um
lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convm variar a
proposito conforme as circumstancias,--com socego, e sem bulha. E
tudo isto lh'o diz o azeite quando se entorna, e o espelho quando se
quebra, e uma aranha no tecto, e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe
avisos:--Calla-te, calla-te. As fallas so de prata, e o silencio  de
ouro. Calla essa boca!...

Outro no se move, no vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame
prvio de tudo que o crca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a
agouros; no sabe mais nada,  certo, no sabe das suas cousas nem trata
d'ellas--mas sabe d'aquillo. No permitte que lhe cosam a fazenda em
cima do corpo, que  signal de desmedrar, emmagrecer, definhar, dar
 casca;--no corta o cabello em quarto minguante com receio de que lhe
no torne a crescer; evita quando est na cama cortar as unhas e olhar
para um espelho ao mesmo tempo, indicio de estar jogado aos dados;--no
permitte que em sua casa deitem lixo fra de noite,--pobreza
imminente;--no pde vr sem sobresalto duas facas em cruz, desordem
fatal;--e por cousa alguma morar em casa de esquina,--morte ou ruina!

Este, se v um ladro na vla--sabe que vae ter carta.--Aquelle, em
caindo uma thesoura e espetando os bicos no cho, espera uma m visita.

Muitos no se desfazem de pombos. Ou no os ter nunca, ou tel-os sempre;
o mais a que chegam  dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da
Asceno do Senhor.

Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu casamento,--porque,
se os ouvem, ou no casam ou morrem. Diz-se que quem ce de cama ao
domingo, nunca mais se levanta.--No campo, em os martyrios de um jardim
dando muita flr, julga-se breve a morte do dono da casa.

Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios.
A vida de Isidoro--o nosso popular actor Isidoro, do theatro da
Trindade-- um pinhal de agouros. Vamos vl-os com cautella; se
tem medo, tragam luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado
n'uma _sexta feira_, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender
o officio de tecelo na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero
_treze_; trabalhou dois annos no tear numero _treze_; depois de official
foi obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que
commetteu na _sexta feira_ de Passos de 1845, e ficou tendo o numero
vinte e seis, que  duas vezes _treze_. Assentou praa no 2. batalho
movel em 1846, e durante oito annos foi numero _treze_. Representou pela
primeira vez em theatro particular a _treze_ de junho de 1846; em
theatro publico n'uma _sexta feira_, 30 de novembro de 1849. Foi
escripturado para o Porto e embarcou para l no dia _treze_ de maio de
1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma _sexta feira_, 11 de maro
de 1853. E--para corar este catalogo de _memoranda_--casou em dia de S.
Bartholomeu!... Por entre este capharnaum de vaticinios tem lidado,
triumphado, mais invulneravel do que o capito de Homero--que o no foi
no calcanhar.

No s  dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o  a tera. O
actor Santos,--depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve
entre elle e Francisco Palha--no quiz apparecer pela primeira vez
no tablado da Trindade n'uma tera feira que se destinra para primeira
recita de _Frou-frou_. Mas j estavam afixados os cartazes, alugados os
camarotes: que remedio havia de dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera,
segunda feira, ao palco; representava-se a _Flor de Ch_; no ultimo acto
vestiu-se de china; na ultima scena, perdido entre os comparsas, danou
com elles o _can-can_ com que terminava a pea. Na noite immediata
representou _Frou-frou_; era a segunda vez que apparecia ao publico da
Trindade; no o sabia ninguem, mas sabia-o elle! Os agouros contentam-se
assim.

O quarto treze nas hospedarias est de voluto quasi sempre. Agora j
principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze no se
alugar unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze
repetido, e j no se v por cima da porta seno 12--12.

Treze pessoas  mesa, prophetisa que isso custar a vida brevemente a
algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um
amigo meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e
lhe explicaram ser indispensavel a sua presena  mesa para se
principiar a jantar. O rapaz allegava que no tinha vontade de comer,
que acabra de jantar com os paes n'aquelle instante. Debalde! No
o largaram seno ao caf.

Na vida aventureira dos mares tem sido sempre triviaes estes medos que
vem das tradies e das prophecias. Deixam s vezes de ser tolice, para
ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e
mais nobres. Teve-os Moyss no cimo do monte quando avistou na baixa do
valle os hebreus revoltosos, j com saudades da escravido e das
cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo  que avistou a
terra da promisso, mas no conseguiu pr l o p--e morreu  beira da
realisao da sua ida...

A illustrao dos officiaes de marinha de hoje j quasi no admitte os
agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando no 
capello do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.--Mulato a
bordo,  salceirada frequente, e por vezes--na linguagem maritima--vento
de _gaveas nos terceiros_ e de _traquete na passadeira_.--Cadaver ao
mar, predispe para _tareia_ e tem de se aguardar vigilante o salto do
vento para evitar o empandeiramento do velame.

s vezes veem como que disfaradas, as predices, nos brinquedos das
creanas. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles
armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, 
signal de rebolio, signal de guerra. De outras vezes, se fingem
conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio...  certo?
No ? Como quizerem. Os agouros, para mim, so _o tinha de ser_:
consolao--de quem no tem outra!...




VIII

Feitios


Feitio  o sortilegio, a fascinao, o olhado. -se victima de qualquer
mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas--sem outra culpa
s vezes seno a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um
bem:--falta, porque se aspirou a elle; receia-se semsaboria: ella
que chega porque a attrahimos. O pulsar inquieto e ancioso do corao 
uma especie de bulha de passos que faz com que fuja a creatura ou a
coisa a que se quer bem. D a sorte po duro a quem tem sede, e agua a
quem tem fome; vivem na abundancia os que esto fartos, e quem for s
rico de appetite--pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as seras que
o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que a
chuva innundou j... Feitios! O ir boiando contra a mar pelo rio do
tempo adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da
lampada, o amante acordou e fugiu... Voltou-se Orpheu para ver
Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no inferno. O feitio
 um demonio pequeno com um grande archote nas mos, levantando-o entre
as pessoas e o objecto que as seduz: d-lhes claridade, d-lhes fulgor,
e,  proporo que se est mais perto, principia o demonio a pernear,
salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam mais
distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma
appario scintillante! A imaginao popular precisa de casos
extraordinarios para se entreter, e no gosta seno do que fr
maravilha, do que estiver superior  humanidade, do que ella no
entender... No se v na _Iliada_ andarem sempre os deuses a fazer
costas aos heroes? Assim  na vida. Tem cada qual um auxilio
sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;--este as
romagens  senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonana, de Porto Salvo ou
da Guia: mas a uma d'ellas de sua feio, e no a outra, porque o que
acredita na Senhora da Guia, no d nada pela do Cabo; aquelle, em
perdendo coisa, no ha fazer com que a procure sem resar um responso a
Santo Antonio;--o outro tem scisma com o passar de noite defronte de um
espelho, por ser possivel ver-se morto, ou ver outra imagem em vez
da sua...

Apesar de mil precaues, quando as pessoas menos o cuidam l est
alguem na sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feitio, ou a
deitar-lhes uma sorte. Ninguem o v; ninguem o ouve; e o feitio l vae
saindo das resas, dos ensalmos, das pragas, das oraes, do esconjuro...

    Alguidar, alguidar
    Que foste feito ao luar,
    Debaixo das sete estrellas,
    Com cuspinhos de donzellas
    Te mandei eu amassar...

As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do
mal, que eram madrinhas. Vinham uns ao mundo para as venturas, para a
desgraa outros, conforme o querer do ceu ou da natureza. Mas as fadas
nos ultimos tempos foram deitando, como se l diz, os bracinhos de fra,
e andavam de mais por este mundo.  bom ter fadas, mas com moderao;--e
era isso o que ellas no queriam perceber, assolando o paiz a ponto de
levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da poesia to
desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se
usassem em Lisboa nem em seu termo--obra de feitios, nem de ligamento,
nem de descantaes, nem de viadeira, nem de carantulas, nem
outrosim medir cinta, nem cantar janeiras, nem maias, nem lanar cal s
portas, nem furtar aguas, nem lanar sortes.

Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a
mania de que os astros tinham grande influencia nas aces, idas, ou
inclinaes humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo
de fazer folhinhas de porta e de algibeira, uma carregao de petas que
offerecem  gente como chegadas directamente dos planetas. Que em tal
mez ha de morrer um grande personagem:--sempre morre, e seria um
transtorno se assim no succedesse, n'uma terra como esta em que se
aponta a dedo quem no  conselheiro!--que no mez de tal ha de correr
uma noticia falsa: que no mez d'isto ho de nascer muitas creanas, no
mez d'aquillo haver questes com o papa: no mez d'aquell'outro se far
um emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cair o ministerio,
ou se dissolver a camara. Prophecias certissimas! Feitios
irremediaveis! Foram-se as fadas, vieram os almanaks!...

Ao que os medicos s vezes chamam nervoso chama o povo feitios.
Mulher pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a
doena que ninguem entende, chorando e rindo ao acaso, torcendo os
dedos por qualquer coisa, quebrando o leque, rasgando por gosto, moendo
e ralando as pessoas de quem mais gostar,--tem feitio. As artistas, ou
porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso, ou porque a arte
as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr. Emilia das Neves,
pontualissima aliaz em ir aos ensaios,--ensaia todavia os papeis em casa
mais do que no tablado;  entre as quatro paredes da sua sala que ella
calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as quedas.
Antes do _Gladiador de Ravenna_ se representar, j as criadas da famosa
actriz--por espreitar s portas e escutar--sabiam de cr o papel de
Tusnelda. A sala  a grande preparao;--o tablado  o dever; a sala  o
feitio. Depois nos bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista
tem a sua invocao: uns benzem-se simplesmente, outros affagam um coral
torcido, outros tomam a figa de um breloque, para evitar o quebranto.

Os feitios s vezes so brincalhes. Ahi est o nosso Isidoro, de quem
fallamos por occasio dos Agouros, que tambem  mimoso dos feitios.
Abriu os olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal
da Graa,  direita o sitio chamado a Gloria, e  esquerda a rua do
Paraiso!...

Conhecem o Matta? Quem ha que o no conhea! O Matta cosinheiro, o Matta
pastelleiro, o Matta artista,--o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam.
Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco  tudo. No sei
que lhes faa. Quizera explicr-lhes isto de maneira que me entendessem
bem; assim como no ha nada que nos faa admirar dos tolos como ser
incomprehensivel, assim a clareza  tudo para pessoas de juizo; e eu sei
a quem me dirijo. Vamos.--Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco.
Quem uma vez na vida pelo menos no frigiu uns ovos, no fez um
biffe, ou no assou um coelho, no sabe dar valor a isto. Ha muito quem
conhea os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que seja
incapaz de uma inspirao de espeto ou de caarola--por nunca haver
posto o avental branco. Com elle  que o Matta se tem achado no meio dos
perigos do seu destino e das alternativas a que esto sujeitos seus
frageis dias,--os vapores que o carvo exhala e que lhe vo minando a
saude, comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de to perniciosos
resultados para os pulmes e para a vista. E elle sempre alli como o
soldado entre as balas,--com a differena de que para elle todos os
dias que Deus d so de combate, e combate que no d postos nem
condecoraes! E dirige e tempra, e tira e pe,--mas de avental; mesmo
que no se trate seno de dar a voz de commando,--de avental sempre:
alis, tudo se perde, entra na comida o _bispo_,--unico que no tem nem
ter partido,--aga-se o mlho, ou estraga-se a gela, a gela que elle
por assim dizer reformou, essa querida gela que data do
paraiso,--porque a serpente no seduziu Eva com uma ma, como se
espalhou; ainda no havia mas: a ma  muito mais moderna; seduziu-a
com gela: gela que se apanhava da rezina das arvores. E no lhe
fallem de tirar o avental, em se tratando de jantar grande,--porque o
no tira;  ao avental branco que elle deve tudo; o avental branco  o
seu pae,  o seu feitio!...

Ha aguas beneficas, aguas que do virtude, e outras que transformam a
gente, como a que a Sabia d ao marido curioso, no auto da _Ciosa_, de
Antonio Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado
que teve e possa ver como ella o recebe: Toma esta agua e o que vae n'ella
    lava teu rosto com ella,
    tornar-te-has na compostura
    e fegura
    do que se foi.

No mar tambem ha feitios, e  por causa d'elles que se parte a verga da
gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e
secca, encalha o navio ou tem de voltar para traz.

Dizem que ha sitios no mar,--o cabo da Boa Esperana, por exemplo,--em
que, s vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras inteiras, de
feitio; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar alto  o
gemido das almas dos capites de navios que se perderam ali e andam a
cumprir fado at que as aguas lhe levem o corpo  terra e encontrem
emfim sepultura.

Os feitios no mar representam a attraco do elemento, o
magnetismo da natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Tem
caprichos perigosos. Em estando alguem para se afogar j na vespera se
pem a danar por cima das ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar,
e mal vae ao piloto em os feitios dando no barco.

At se conta que D. Sebastio est ainda hoje a dormir no fundo do mar,
por lhe haverem dado feitio; que as proas dos navios que vo passando
lhe quebram de tempos a tempos um pedao do tecto do palacio em que elle
est guardado; que acorda n'essas occasies, estende os braos, quer
chamar, mas lhe tapam a boca para que no grite, e elle adormece
outra vez...

As vozes do povo so, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto
vae-se  capella da Senhora da Verdade, por traz da S, pede-se que faa
ouvir nas vozes do povo o que se quer saber, e  volta, de ouvido 
escuta, repara-se se diz _sim_ ou _no_ quem vae passando.--Em Lisboa,
pelas festas de junho, pe-se a herva pinheira  meia noite ao relento
na esperana de se conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se
ella deita espiga.--Queimam-se cinco ris na fogueira, do-se depois de
esmola a um pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido
como se chama o homem da esmolinha. Da alcachofra, dos bochechos, do ovo
no copo d'agua,  quasi inutil fallar-lhes.--Quem tiver sete filhos est
em mau caso: ou o ultimo se ha de chamar Mauricio, e um irmo ser
padrinho,--ou nascer defeituoso.--Enrolam-se tres papelinhos, com seu
nome cada um, bem enrolados, e enrolados bem irmos; deita-se um  rua:
outro para traz da porta: debaixo do travesseiro o outro. Este  que ha
de ser o nome do noivo. Extrae-se toda a casca a uma fava,--metade da
casca a outra, e junta-se s duas uma fava com casca; mettem-se as tres
entre os colxes. De manh, tira-se uma; se traz casca, vem vestida
e a pessoa vir a ser rica: se no traz,  nua e a pessoa vem a ser
pobre; se traz metade da casca, a pessoa ser remediada...

O peor dos feitios, porm,  leitoras! o feitio mais arriscado, 
morenas,--o feitio mais perigoso,  loiras,  o amor,--sois vs!
Aquella de quem a gente gosta, e aquella que gostar de ns!




IX

Encantos


Os encantos veem de longe. Circe, a encantadora por excellencia,
converteu em porcos os companheiros de Ulysses:

    _Carminibus Circe socios mutavit Ulyssis_

Para quem combatera na guerra dos dez annos no deve ter sido uma
methamorphose muito agradavel!--O grande impostor do Simo magico,
contemporaneo dos apostolos, para mostrar o seu poder egual ao dos
deuses quiz voar por cima de Roma--como o nosso Bartholomeu Loureno por
cima de Lisboa. S. Pedro, que assistia  experiencia, fez por intermedio
das suas oraes que caisse das alturas e se despedaasse...

Nos tempos modernos em Portugal os grandes encantos teem sido os das
mouras. Querem muitos que ellas hajam ficado no nosso paiz desde a
dominao mourisca, e vivam escondidas nas covas e no mar--para melhor
guardarem os seus thesouros, que constam de perolas, esmeraldas, rubis,
saphiras, cordes de ouro, brincos, anneis, pulseiras, e broches de
diamantes de um primor de desenho superior ao do florentino Cellini.
Parece que saem de madrugada para arejar em terra os bens, e
desapparecem aos primeiros raios do sol, apagando-se-lhes logo a riqueza
e voltando outra vez a guardar  sombra a sua formosura e as suas joias.
Pretendem outros que ellas se recolhem antes do cantar do gallo, e 
meia noite se lhes acaba o encanto e o poder,--como diz Garrett na _D.
Branca_:

    E ai! se o gallo cantou, que  meia noite
    Encantos quebram, e o poder lh'acaba.

Muitas vivem nas fontes.--Algumas tem ido  India n'uma casca de
ovo. No campo ainda se usa hoje quebrar a casca dos ovos para que as
encantadas ruins no embarquem nellas, e vo chupar o sangue de meninos
por baptisar.--Algumas tem-se fingido encantadas, para as desencantarem
melhor.  sombra dos encantos tem havido muita casta de obra, e no
poucas se serviram d'isso para apanhar marido. L o indica bem a trova
da Encantada: o cavalleiro vae  caa e encontra no arvoredo uma
donzella que lhe diz achar-se ali por sete annos e um dia, e completar
n'esse dia o fadario. Offerece-lhe elle saltar para o cavallo, e d-lhe
a escolher:

    Ou nas ancas ou na sella
    Onde fr mais honra minha.

Ella trepa. Partem. Vo seguindo. E l pela estrada adiante, ella larga
a rir, a rir...--Estava a zombar d'elle. Era to encantada como eu!...

No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,--no
mar--ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra.  o
reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das
nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas,
provavelmente, do que as sereias pags, que encantavam Ulysses com
o soltarem a voz deliciosa, e o faziam torcer-se todo, preso ao mastro
do navio; mas descendentes, mas netas d'ellas,--e, o que  mais,
mulheres como as outras, dos bicos dos ps  cabea! Conta-se o caso de
no sei que moo, que deixou uma d'ellas para ir casar com a filha de um
capito mr de aldeia; durante o jantar das bodas, o noivo ergueu
casualmente o olhar e viu um psinho alvejante e nu a sair do
tecto;--affirmou-se, conheceu que era o p da sua encantada, aquelle
bonito p que elle beijra tantas vezes, e entendeu logo de si para si o
que queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar um padre,
confessou-se, pediu os Sacramentos, e dispoz-se a bem morrer.  meia
noite expirou, depois de recommendar muito que o enterrassem em certo
sitio...

Ha quem diga que so mais bonitas do que as fadas, e querem outros que
sejam feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos
ficam parecendo olhos de peixe. No deixa de haver harmonia n'estas
opinies desencontradas; porque, variavel como a onda que a encobre, a
encantada no mar deve ora ser horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e
pura como a agua transparente. Refere-se que em tempos iam todas as
manhsinhas  praa fazer compras; eram conhecidas por terem sempre
molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que
andavam de olhos no cho sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com
moedas de dez ris furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de
coisa certa. Mostra-se perto das Berlengas o sitio em que fallou uma;
appareceu, ao sair do luar, com um espelho na mo, e gritou aos marujos
que no tivessem medo porque estavam perto de terra: mas em elles lhe
vendo a cara no tornavam a ver terra nunca mais e o caso foi que ali se
perderam todos n'essa noite...

Teem genio proprio do elemento em que vivem; graciosas e crueis;
amantes e perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o
que tambem era a balda das nymphas. Quando os affogam j ouvi dizer que
no  por mal; at s vezes se apaixonam por elles, e l acham maneira
de os consolar por esses mares de Christo da travessura de lhes roubar a
existencia humana.

No podem ficar em terra alm da hora marcada, e os amores que por c
tem acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradio de um rapaz
padeiro que morreu doido por causa de encantamentos, e de
encantadas,--que ora lhe appareciam  borda dos regatos a pentear
os _cabellos de oiro_, ora  tona d'agua nos poos, ora nas ondas do
mar; at que, uma occasio em que elle estava dormindo encostado a um
muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra...

Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher
da rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:--mas
conservaram-se sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber,
e, to depressa puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso j
l vae. Hoje, as banhistas fazem-lhes concorrencia. A _Deuza dos Mares_,
a _Flor de Lisboa_, e os vapores do sr. Burnay, assustaram-as.
Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho liquido j no saem c
para cima seno os mudos,... que so os peixes!...

De que provm, o encanto das mulheres? No ha sabel-o. At a formosura
poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, tem muito quem as gabe e
pouco quem se apaixone por ellas. Os defeitos s vezes so o grande
segredo do seu poder,--porque a graa precisa de ser picante.  como com
as flores; roseira que no tenha espinhos ha s a do Japo; d rosas
bonitas,--mas sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje est onde a gente
o pe--n'uma creatura, n'uma vaidade, n'uma paixo, n'uma mania.
Para uns  a mulher; para outros  o dote. Para alguns, uma
particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra s
vezes--como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor
especial; em Hespanha magestade catholica, em Portugal fidelissima
na Monomotapa senhor do sol e da lua!... Ha um supremo encanto que
transforma tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz
reparo:--a vontade.

Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas--tem ella o encanto
de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado
Manuel Corra, que em 1838 viveu no Rio de Janeiro, guiou ssinho um
navio, que a tripulao abandonra, no meio da tormenta navegando sete
dias at fundear no porto de Santos!

O encanto toma differentes frmas e esconde-se s vezes nos objectos de
apparencia inanimada,--nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo:
trastes perfidos e caoistas... Em estando para chover j a bengalla o
adivinha com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se
muito lampeira  hesitao em que uma pessoa est:--depois, em se
apanhando fra de penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica
encharcado pe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a rir... Pelo
contrario, em o sol estando com tenes de tirar d'ali a nada a caraa
de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva d logo
por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de
elle ter tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua--no chovendo,
e ficando o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo
do brao. Ha encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva;
representam a vida debaixo dos seus principaes aspectos,--a borrasca e a
bonana, a tormenta e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o
ceu, e a bengalla volta-se para o cho; elle levanta-se, e ella
curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que vem de cima,
ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do que
vae c por baixo!

O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer.
Chorar na barriga da me  annuncio de que se ha de ser feliz n'este
mundo--Mas, se a me, em conversa, contar a alguem que o filho lhe
chorou no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce ano ou gigante. Qualquer
das coisas no  boa. Os gigantes em Portugal saem sempre
inferiores--haja vista aquelle do Minho, que esteve ha annos em
exposio na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer
profisso, mas um tanto chcho para gigante. Depois a vida que levam 
de mau fadario; nem namorar podem, por no haver donzellas que se
exponham a affrontar seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma
escada de mo para se lhes fazer festas na cara!

Ser ano tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um
metro de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixo pequenino; mas
no se pde dizer que seja muito bonito, e  arriscado a desordens,
porque s vezes, mesmo sem querer, l do uma cabeada nos callos
de quem vae passando...

Em as meninas tendo comicho no nariz  aviso de que n'esse dia um rapaz
lhes ha de dar um beijo;--em lhes comendo a palma da mo, j a gente
sabe que est para receber dinheiro, mas  preciso no coar e fechal-a
logo;--a orelha direita quente, esto a dizer bem de ns: quente a
esquerda, alguem nos corta na pelle.--Na madrugada de S. Joo quem fr
lavar a cara  fonte, fica bonito:--e quem nadar n'essa noite alcana o
que quizer, levado na onda que d fortuna e indo ao porto onde os amores
sorriem...

Os dois encantos negros so as almas penadas e os lobis-homens. A
preta Domingas, que vendia fava rica, enviuvra; ao lado da sua casa
morava um sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da fora d'elle em
malandrinices. Alta noite o sapateiro trepava-se-lhe  chamin e gemia
lamentosamente:

--_Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o teu
difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho
sapateio..._

--Pois no ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a
preta. Eu lhi pagar, ao vijinho sapateio!

E pagou. E o sapateiro foi arrecadando a moeda, dizendo com
modestia que no era pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela
noite velha, ora por dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia
pagando at que uma vez se canou do encanto e lhe redarguiu:

--Qui a tu'alma v p'ra o ceu, qui a tu'alma v p'r inferno, eu j no
dou mais rial ao vijinho sapateio!

E o caso foi que desde ento a alma do sapateiro  que principiou a
penar deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e
nunca mais lhe deu vintem.

As almas penadas so d'esta qualidade; e tambem defuntos, que por
lhes faltar alguem  palavra dada--vagam n'este mundo, at que lhes
satisfaam as ultimas vontades.

Lobis-homens so pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario,
mudados em animaes; em lobo, em co, em gato, em burro... To depressa
apanham encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo,
mudam-se n'elle, e espojam-se tambem. Isto ,--espojavam-se. Isso no
continua, e at j ouvi dizer que succede agora ao contrario, para
variar, e que tem por ahi apparecido seu burro--mudado em homem.




X

Sonhos


Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar
n'um inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar
talvez a monotonia da agua dormente--_mare mortuum_! Querem casos,
avisos, phantasmas a trepanar-lhes a cabea com desvarios nem possiveis
nem faziveis... A antiguidade espantava-se com o assoviar das
serpentes, com o espirrar das luzes, com os vapores negros que saem da
terra, com o roncar das Eumenides; a ns que somos a civilisao e o
progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, _desgosto e feridas_: com
dados, _perder os bens_: com espelho, _traio_: com favas, _doena_:
com herana, _miseria_: com padre, _morte_!

Alguns, no sei porque,--pode ser que por fazerem o mesmo
acordados--sonham s com o que no tem, que so o que no podem ser,
que fazem o que no fizeram nem faro; Job d jantares, Creso pede meia
libra, Adozinda bebe, Alda sae fra d'horas; fica tudo mudado;
fazem-se em ortigas as violetas; Manuel Mendes engana Rebolo e
Michaella; D. Quichote  farcista, e o Pana  poeta; a alegria aeria,
crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada n'uma
chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praa, gente que
torce sempre o nariz--limite de seu horisonte--a tudo que vae pelo
mundo, chegam no sonho a ser benevolos; est tudo de pernas para o ar; o
Apollo de Belvedere  _piteireiro_: a Venus de Milo assa castanhas,
Antinuo usa uma palla n'um olho, Dante  corcunda, Polichinelo est de
capa de asperges!...

Porque ser que se sonha?! Chega a parecer que a alma no est nas
pessoas: que est de fora, e  uma espcie de fio electrico que nos traz
suspensos da mo de Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem
com mais facilidade, outros com menos  direco que lhes 
dada,--obedecer  ser virtuoso, e ser criminoso  no querer ir para
onde o pucham. Quando a gente dorme, ser porque Deus em vez de segurar
o fio o deixe bambo:--qualquer brisa do ceu n'essa occasio faz fluctuar
e emmaranhar-se toda esta meida de fios que prende as creaturas, e
acerta s vezes de encontrar a nossa a alma de quem no conhecemos,
trazendo-nos idas e imagens que no tem parentesco com as imagens
e as idas do costume, extravagancias que s se do nos sonhos, e que
fazem que a gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio!

Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.--Que a ultima
coisa em que se pensa,  a primeira com que se vae sonhar.--Outros
affirmam que em se querendo escolher o sonho  justamente quando elle
no vem, e certo est em o evitando;--principios um pouco alheios aos do
Evangelho, e que parecem querer dizer: No procures e encontrars; no
batas e abrir-te-ho!

A maneira de dormir deve ter n'isto influencia. Cama desengonada e
velha, que verga e range, ameaando queda; a porta do quarto cheia de
fendas; por cima da cabea da gente os ratos a passear no soto,
saltando, roendo; depois, o dormir de boca aberta, com a lingua de fra,
de bruos... Como ha de ter sonhos felizes e cr de rosa um estafermo
n'essas condies?

As crendices populares de Portugal so geralmente bonitas, e parece
sentir-se n'ellas que vieram at ns do genio poetico dos arabes; as dos
sonhos porm so quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres
luzes na alcova fazem sonhar com morte ou com casamento.--E cr-se
entre ns firmemente em sonhos, e todos os dias se ouve alguem
attribuir-lhes a fortuna:--os que costumam ser desgraados, j se v,
que os felizes no tenham medo que a attribuam nunca seno aos seus
merecimentos!--E baralham tudo, o que sonham e o que scismam despertos;
e adoecem das noites que passam, agitadas, febris; e queixam-se ora de
vises, ora de insomnias:--e s vezes, vae a ver-se, e o seu mal  ter
pulgas no quarto!

Mas contam, commentam, improvisam, e do parte  visinhana das
apparies que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam, e
apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de saguo
para saguo,--com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a
loucura!

 a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que
nos faz ser um povo bisonho, a scismar no se sabe em qu, mal humorado,
merencorio e fusco, _gatos pingados_ por natureza! Os que no teem
desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos
livres. A falta de tormentos,--os sonhos. Em no havendo causas grandes,
as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem no tropea n'um tronco
de arvore, escorrega n'uma casca de laranja,--e vae de ventas ao
cho do mesmo modo.

--No sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!

--Ai! Com cominhos!

--So pragas!  praga que me rogaram.

--Credo!  facil ser!

E d-se credito.

Se alguem lhes affianar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril
de polvora sem pegar fogo--estou que no acreditam ao ponto de se
deixarem ficar para assistir ao caso,--mas que sonhar com uma concha
seja signal de _perder o credito_, com um copo de agua de _prompto
matrimonio_, com damascos de _grande alegria_, com guitarra
_prazeres dispendiosos_, e com papagaio _descoberta de um segredo_, quem
se atrever a pl-o em duvida?!

Em Portugal o povo at tem resas para os sonhos,--por tal frma os males
imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles--como succedeu
ao outro que cuidava ver uma cabea na bandeira da porta, e foi
pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a orao a Santa Helena? Vou
dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e
metade em prosa; conforme m'a disseram, que no me custou pouco a
conseguil-o:

    Gloriosa Santa Helena
    Filha da rainha Irena
    Moira foste, christ vos tornaste.
    Nas ondas do mar andaste,
    Com as onze mil virgens vos encontraste.
    Com ellas po e queijo ceaste.
    Ao crucifixo vos encostaste
    Tres cravos que tinha lhe tiraste.

    O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo
    dste-o ao vosso irmo Constantino em Roma para com elle vencer a
    batalha da f: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha
    gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae
    em sonhos o que pretendo saber. Se  como desejo, dizei-o em roupas
    lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:--se assim no
    , tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras
    e aguas turvas, _Amen_.

Os somnambulos so a maravilha por excellencia, a _rara avis_ dos
dormentes. A dormir fallam, a dormir vo de uma casa para a outra pelo
seu p. Muita gente tem medo d'elles;--principalmente desde o caso de
Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse
em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter
mulher que passeiasse  noite pelos telhados; e quando, poucas noites
depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita  cosinha--foi
atraz d'ella. Cupertino no tinha criada: e vinha o gallego pela manh
lavar a loia;--estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa
limpou-os todos, depois engraixou as botas do marido, e foi
deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia no lhe disse nada do que se
passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o
gallego.

--Isto no a cana, dizia entre si. Trabalha a dormir!

Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno,
interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos
acontecimentos politicos do paiz; e era um instante em quanto caa o veu
a todas as intenes, conferencias, e mysterios. Cupertino no cabia em
si de contente. De uma occasio dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte
pergunta:

-- menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande?

Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte--comprou o bilhete e
sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; no tinha mais do que
perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz.

De repente, porm, appareceu carrancudo, turbido, umbroso....
Constara-lhe que a mulher andava, como se l diz, de cabea no ar. 
noite perguntou-lhe--quando ella estava a dormir, j se v:

-- verdade que tu andas de cabea no ar?

--Ando.

--Por causa de quem?

--Do primo Jos Maria.

-- possivel! E porque  isso?

--Porque elle  bonito, e tu s feio.

Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo.

A grande preoccupao popular so os pesadelos,--sonhos negros,
carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraa
que causmos.---No  um sonho, Elvira, so remorsos! como se diz na
_Nova Castro_. Vises atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances
mysteriosos, creanas que morreram sem baptismo... At se diz que os
primeiros momentos da morte so ainda apenas dormir, e que se sonha. Os
chronistas referem o caso de se haver D. Pedro I levantado depois
de morto, para confessar um peccado que no tinha dito.

Acordada, sonha a gente s vezes; e  bem bom. A musica, por exemplo,
faz sonhar; evoca  roda de ns um mundo ideal, por onde andam os sonhos
a dar voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos,
reanimando-se as lembranas que o tempo apagra, cicatrisando feridas
com os sons, e acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se est a
ver o que se ouve, n'um nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que
se v!

Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda  ser feliz--quando no se possa
sel-o de outra frma. Sempre so horas de ganho sobre os enfados e
cruezas da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se
alcana. S tem o contra de que o sonho no dure. No adro da egreja da
Graa havia uma sepultura, que os frades depois levaram para os
claustros, que dizia assim: Aqui jaz Manuelinho, mercador, de 15 annos,
que morreu espertando.-- o perigo de acordar. Acorda-se do sonho--e s
vezes da felicidade!




XI

Sinas


Portugal  a terra das sinas,--historias quentes e coloridas como o
paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanas pequenas...
e as grandes, ao p do amigo lar.

Quem nascer nos fins de janeiro ser sujeito a paixes amorosas (como os
gatos): de 13 de fevereiro a 20 de maro, nascem os que ho de ser
gastronomos:--de 21 de maro a 19 de abril, os engenhosos e prudentes,
com signal visivel no corpo e ameaados pela ferocidade de algum
animal:--de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de casar rico, dar uma
grande queda (talvez essa!) e ser careca:--de 21 de maio a 22 de junho,
os de sentimentos humanitarios:--de 23 de junho a 22 de julho, gente
destinada a demandas, e a viver at os 73 annos;--de 23 de julho at 25
de agosto, os bonitos que ho de casar com mulher que soffra de
esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou
aguas do mar, felizes nos negocios, achando algum thesouro
escondido (o do Lavradio, por exemplo!):--de 24 de agosto a 21 de
setembro, os que ho de exercer cargos do governo (entre ns toda a
gente!); as senhoras ficaro solteiras, apesar de grande numero de
namoros, e ho de gostar muito de cres espantadas:--de 24 de agosto a
21 de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos
ruivos:--de 22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se
emprehende, honradez, passar melhor em terras estranhas do que na
patria; mulheres elegantes com uma queimadura n'um dos ps:--de 24 de
outubro a 22 de novembro, teimosos, inclinados  astrologia;
mulheres robustas, de beios grossos e dentes grandes;--de 23 de
novembro a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado 
navegao; mulheres com falta de cabello;--de 22 de dezembro a 20 de
janeiro, genio iracundo, mentiroso, vo; costume de fallar s; pouco
saudaveis; mulheres tafulas, que ho de ser mordidas por algum bicho,
brancas, de olhos castanhos, gostando de bailes, tendo muitos namoros,
quasi todos militares.

Taes so as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;--tudo.
Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vem do que nos
succeder depois de nascer... ou antes. A mo o dir. Na mo ha
muito. A mo diz tudo. Tudo se encontra e reconhece n'ella,--e j se v
que  d'ahi que provm dizer-se s vezes:

--Disponha de mim, at onde estiver na minha mo!

Ou:

Peo-lhe isto, por ser coisa que est na sua mo!

Procurmos por exemplo os peccados mortaes:

Soberba, dedos compridos, seccos, aguados;--avareza, mo dura e
encarquilhada;--luxuria, mos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos
na base;--ira, mo esverdeada e aspera, de unha curta;--inveja, mos
compridas e ossudas;--preguia, mo branda e macia:

Ter bem claro o M da palma da mo  signal de existencia quieta; as
linhas confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mo
direita para isto  melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se  que
isto no  mais uma velhacada das muitas da mo direita, que anda sempre
a chamar as attenes e a armar intrigas para pr na sombra a irm, que
logo pelo nome principia a perder, coitada, a pobre mo _esquerda_!

A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter
poesia se fosse dita e sentida de outra frma. Comprehende-se que
quem estiver canado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietaes
que o devoram, a querer ler no firmamento. O astro de Saturno por
exemplo tem o que quer que seja de curioso na aureola que o cerca sem
lhe tocar, diadema que no se lhe segura na fronte; ha n'isso alguma
coisa parecida com a esperana, nimbo de luz que brilha no escuro das
magoas, cora e prisma que nos resplende por cima da cabea e afasta os
raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle annel no
passa de ser mais um satelite--e a esperana  um dos nossos tambem,
nuvem de guarda que nos vae consolando com as vises...

A sina  o invencivel, o que est marcado, o que no pde deixar de
cumprir-se,--apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se
gosta tanto s vezes de certas mulheres que no so formosas? Porque
motivo se deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para
ir ter paixes devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os
defeitos, a quem em certa maneira chega a odiar-se dentro do amor que se
lhe tem?!

 a sina, e em tudo  o mesmo: no tem visto ramitos novos a brincarem
no tronco centenario dos chores, e a era a abraar-se aos muros
negros e rachados? No dizem que as abelhas do Oriente gostam de ir
fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? No se v os passaros
armarem o ninho no colmo das choupanas desertas?  a sina da naturesa
material, que tem sina tambem como a natureza intelligente!

Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de
continuar a sel-o, horrorisa-se com a ida de ter bexigas. A sabedoria
das naes diz-lhe que  bom dar duas vezes o brao  lanceta, por mais
bonito que o brao seja; que no basta a vaccina da infancia; que  util
entregar-se, termo medio, de sete em sete annos quella operao.
Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irm Anna--sem ver
apparecer nada: a vaccina no pegou; tentativa abortada; ahi tem de
voltar  obra porque adiante de tudo est a formosura. Segunda
representao de vaccina:--trinta segundos; depois, j se v, da meia
hora de preliminares: a paciencia  um facto; ha uma drsinha, ha tres
borbulhinhas vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha
febre, ha tudo: d'esta vez pegou; est segura a formosura. D'alli a dois
annos tem bexigas. Diz o povo:

--Era a sua sina!

As trovas dizem-a s vezes; concertos na eira  desgarrada, cantigas do
fado  guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes so quasi
sempre fatidicos; l se diz na _Chronica de D. Sebastio_ por Fr.
Bernardo da Cruz que na expedio de Africa um tal musico chamado
Madeira foi pelo mar cantando  viola a el-rei um romance que dizia:
Hontem eras rei e hoje nem casa tens, trova em que vinha saindo a
sina, e que fez tal impresso nos animos que logo se lhe disse que
mudasse para outra mais alegre.

Ninguem lhe escapa; dizem que no ha fugir-lhe--nem pessoa nem bicho,
porque at os animaes teem a sua sorte escripta:--a sina do porco,
por exemplo,  ser comido! Ser comido, haja o que houver; no serve para
mais nada; o boi  para a lavoura, o cavallo para a guerra, as aves para
o ar: o porco  para a pucilga; as aves so poeticas, o boi  laborioso,
o cavallo  nobre, o porco  feio, immundo, e sem prestimo se no para o
espeto e para a salga. Ser comido, ser comido;  a sina d'elle!

Que se tora o caminho, que se evite o atalho, que se fuja  estrada,
no ha outra saida, dizem, seno ir cada um para a sua sorte. Pde
zombar, pde no crer;--a sua sina l est, ironica s vezes, maliciosa,
cassoista. Um moo elegante e pallido que durante um tempo foi
grandemente amado como se l diz  direita e  esquerda, fez um dia a
crte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mos de que ha
memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;--o mancebo detestava as
mos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que
to peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mos. A poder
de esforos conseguiu de uma occasio que ella o deixasse ir fallar-lhe
tres minutos, tres minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua
respeitosa adorao, quando se ouviu bater  porta. O susto traz
complicaes medonhas, e a senhora por no saber o que fizesse--deixou-o
esconder debaixo de um soph! Entrou o nosso homem das mos grandes,
conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no soph, e poz-se a ler. O
outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma cala justa 
perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma bulha. O
das mos grandes, sempre lendo, disse:

--Que  isto?  o co que est ahi debaixo? Anda c, _t_, _t_, anda c
tollo...

E deitou o brao de fora deixando pender a mo, a mo enorme, vermelha...

O outro lembrou-se que qualquer suspeita n'aquellas alturas podia
perdel-o; e de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mo; aquella mo
phenomenal de que elle tanto se rira sempre!...

Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas  cruel, mas  fatal, s
vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da
vida o amor surprehende um homem e o prega na parede como se fra uma
borboleta, est feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, vir
sempre tarde. Os poetas podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas 
isto, simplesmente isto--uma borboleta pregada, a querer fugir, a querer
dar s azas sem poder--porque, de cada vez que as quer librar,
alarga ainda mais a ferida e no lhe serve de nada!

A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a
_buena-dicha_. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a
assistir s festas do logar e  feira na inteno de verem as moas e
escolherem noiva se as do seu sitio lhes no agradam, mudam de ida e de
rumo se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle
mensageiro da primavera que annuncia as folhas--e dizem que annuncia
tambem outras coisas,--canto um pouco extravagante, canto de duas notas,
o canto do cuco!

A sina vae de gerao em gerao. De Aben-Afan diz Garrett no poema de
_D. Branca_:

              Por onde o traz seu fado?
    Oh! negra sina entrou n'essa familia...

Querem dizer que todos vem ao mundo destinados j para o que ho de
ser; por este systema, a vontade, o juizo, e a educao, no tem fora
alguma; nascem uns para padres, outros para sachristes, estes para
ricos, aquelles para pobres; at se diz que muitos nascem para ladres,
e que no podem deixar de o ser: ia  casa de pasto do antigo Simo um
freguez, que a unica coisa que no furtava era a m fama que tinha.
Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O Simo
tinha muito d d'elle, por entender que no fazia com aquillo seno
obedecer  sua sina; deu ordem para no se lhe dizer nada, e de uma vez
quando o homem pediu a conta teve o gosto de ler:--Pratos 800 ris.

--Que  isto! exclamou. Ento vocs mettem os pratos na conta?

--Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado.

A sina  o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que so os
cimentos do commercio da vida, do resultado certo. At o tempo faz
sempre justia, e apesar de destruir, por maiores que sejam, os
monumentos, apesar de arrasar thronos e imperios, respeita certos nomes
e conserva-os levantados como pharoes no horisonte da historia e do
pensamento. A felicidade no pde estar seno em se ser gente de bem.
Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio fadista a
que se chame _sina_, parece-me uma impiedade e uma tolice!




XII

Coisa m


Coisa m!

Coisa m se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser
preferivel  ruindade humana;--que mais vale dar uma topada ou uma
canellada do que encontrar certas caras!

Coisa m  a lua de maro; a lua marcina, como lhe chamam no
campo--que nem deixa saber se haver trigo ou milho emquanto ella no
passar; coisa m  a terra esquentadia e delgada, a terra que aperta e
no produz, defronte mesmo de cho fresco, cho de barro, ao p de
varzea; coisa m  o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que
passasse tres vezes o Douro e o Minho; o leno de assoar que nos deram
sem que recebessem cinco ris em troca...

Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; so laos,
armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que no
ha objecto que no tenha morador, que no tenha inquilino, que no
tenha coisa m em si; espiritos malignos que espreitam pelos poros com
o seu olhinho gasio, fazem caretinhas  alegria em que uma pessoa esteja
e rompem em risota perante as maguas que nos pesam... Demonios hostis,
pequerruxinhos, invisiveis, que esto sempre  caa de nos pregar pea...

Anda, s vezes, mezes a fio coisa m com a gente--que nem que fosse um
co escondido de que s se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo
chapeu novo,  sabido que ha de chover.--Fato que se vista pela primeira
vez, no deita ao sol posto sem lhe succeder precalo; anda um
homem com calafrios na golla, e acrescimos nas abas, passam
pressentimentos nas pernas, e apertam-se as fivellas com susto do que se
est passando...

Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno,
capote das rapaziadas e das aventuras,--que de extensas marchas na
estrada da vida! Esses trastinhos  que so amigos, esses  que nos
sabem do feitio, e que se ageitam bem ao corpo.

Que differena com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde
te porei! Se na cidade toda no houver mais do que uma porta pintada de
fresco, l ha de vir caso urgente que leve uma pessoa a ir por ali
roar-se e arranjar divisas na manga como um sargento; ou um diabrete de
algum preguito que tenha estado annos n'aquella umbreira sem fazer mal a
ninguem, at que nos apanhe com um farpo formidavel!

Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do
trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo
 porta, na esperana de que o visinho se compadea d'elle,--ou, o que
ainda  peor, que de noites tem o homem de ir dormir fra de casa por
no ter comsigo a chave do trinco! Noites de aventura forada, noites
sem graa e sem gosto, quasi sempre a chover, e o pobre diabo a
vagabundar e a ir bater quem sabe onde!?

Que, diga-se a verdade e no deitemos toda a carga ao lombo da chave do
trinco--no  s ella que tem coisa m, so todas as chaves. Em sendo
preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e
toca a procurar d'aqui, a buscar d'acol, e vae e gira e anda e volta,
at que vo achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta!

Em antigas relaes de autos da f e sentenas da Inquisio ha mil
historias de coisa m,--poos que atiram para fra com o que se lhes
deita; hervas de maleficio que se mettem de proposito debaixo dos
ps da gente, pedregulhos em que mora ferrabraz, satanaz, caiphaz...

s vezes  o mau olhado. Est a coisa m nos olhos, no feitio, na luz
e influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehenses, de
inquietaes, a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar...
Por isso faziam bem os egypcios,--nunca houve povo com mais juizo!--que
cortavam as curiosidades e as manias com a religio, e fizeram da noite
origem de tudo quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite.
Armar em dogma e em artigo da f a escurido que envolve as coisas,
e adoral-a por no saber que explicao lhe dar.

Que s vezes succede que a coisa m possa parecer boa. Ahi est que
havendo em Portugal superstio para com os tortos, j um poeta dos
principios do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no
poema da _Monocla_; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e
zanagas, e em que se diz de Cames como quem d de vez com o segredo da
sua gloria:

    De um olho claudicava de tal arte
    Que celebre se fez em toda a parte.

Tudo vae da disposio d'animo, do interesse, e da optica. Um
agiota, sempre certo no Terreiro do Pao, da uma hora s tres,
debaixo da arcada, emprestava dinheiro--n'uns tempos de crise politica e
financeira, de que o paiz ficou guardando m lembrana--a 9 por cento.

Dizia-lhe um amigo:

-- homem! Isso  esfollar de mais! Olha l o ceu no te castigue. Deus
v tudo, e estou que no te perda essa!

--Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que fao. O 9 visto l de
cima parece um 6.

Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em
que as contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series; desde
o saltar da cama at ao deitar  noite como que se vae caindo de
barranco em barranco; parece estar-se destinado como o Sybarita a que
at a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para nos
sentarmos. No se pde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto
do torneio da vida que todos de manh esperam soffregos, ou no traz
carta ou traz ms novas;--sae-se para a rua sem haver escovado o
fato;--as pessoas a quem se procura, em morando alto no esto em
casa;--ao voltar da esquina est  porta da taberna um bebedo a comprar
castanhas, e entorna por cima da gente o copo que tem na mo;--
n'esse dia quasi sempre que um homem se constipa, rompe a espirrar duas
horas, e fica sem o boto do collarinho...

Em Portugal as classes cultas so to dadas  superstio das series
como o povo; em lhes succedendo um revez no descanam emquanto no
chegam mais dois; tres  o numero.--Decorrem dias, semanas, mezes, sem
haver incendio; mas, em tocando a fogo, dizem que  certo no parar
n'aquelle, e os gallegos ficam logo de p no ar para irem buscar outra
vez a bomba.

 da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha
aqui a tudo que seja casos sombrios, dias nefastos, e cousas
relamborias.  sabido! Precisamos absolutamente de tudo que for mofino e
tetrico. Indifferentes, preguiosos, desenchabidos, de tudo isto nos
consolamos com tanto que venha de tempos a tempos alguma celebreira
carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou de Castilho 
raro o que saiba um verso, mas qualquer ser capaz de recitar entre a
pera e o queijo o fado de Joo Brando!

Ha sitios de que se gosta, sem sequer s vezes saber porque; cada casa
tem por assim dizer uma alma, e d-se uma pessoa bem, mas muito bem,
muito melhor que n'outras, n'uma certa; ha um recanto do jardim,
que cheira mil vezes bem depois d'estes chuviscos do outomno, e onde a
gente gosta de estar ao cair da tarde espreitando o ceu por entre a rama
das arvores;--ha at simples objectos, coisitas de nada, que exercem
attraco nos animos e nos do gosto em os ver... Mas l est, l est
no fundo a coisa m;--e esses objectos a que mais se quer sero os que
ho de perder-se mais depressa,--e os sitios queridos, a casa, o
quintal, a arvore, tem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo
contra vontade!

E o mesmo succede a tudo que tiver coisa m;--o amor, a formosura, a
mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas melhores que
ha; e tambem as que mais depressa fogem,--que at tem azas como os
anjos, e voam como as andorinhas!

Nas familias portuguezas o terror pela coisa m tem variado muito, e
chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem
sabia fallar francez. No se queria matar os meninos com estudos; o
estudar fazia mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim
desgraado de homens notaveis,--Euripides despedaado por uma matilha de
ces, Cicero degolado, Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a
mercador, outro a cadete, o mais gordinho ia para padre. Em todo o
caso--nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz:

-- um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... At me dizem que
falla francez!

--Srio? perguntavam todos.

--Ha quem o ouvisse.

Depois, e j no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta
quando appareceram os primeiros em Lisboa.

-- um bregeiro, dizia-se. No  limpo de mos...

--Sim, sim.

--Deixa andar a me a pedir esmola...

--Sim senhor.

--At anda de chale-manta!

--O qu?!

--Palavra de honra.

Se formos a observar, em quasi tudo conforme as pocas e as manias ha
coisa m--e em tudo a coisa m pde ser evitada ou combatida. J
ouvi contar de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da
sorte e por saber os perigos que resultam das cartas de amores--sempre
que escrevia alguma punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se
alguem de casa lh'a apanhasse, pudesse a obra passar por brincadeira. A
mania de se julgar perseguido pela sorte  uma loucura como outra
qualquer, muito frequente em Portugal e tanto mais perigosa que se
manifesta por gradaes insensiveis. Comea pela melancholia, vae
azedando o genio, -se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado
de ferocidade que pde dar com um homem em doido furioso.

Coisa m  querer trabalhar e no ter em qu; querer amar e no ter a
quem; querer remar e no ter braos. O _politico_ que passa a vida a
recusar pastas que no lhe offerecem--diz que o paiz tem coisa m; o
beberro que troca as pernas--accusa de ter coisa m o vinho de mais
que bebeu.

Coisa m  a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente no
tem!...




XIII

As mulheres de virtude


O meu amigo leitor conheceu j a felicidade? Por mim, conheo-a pouco, e
de vista--apenas. No poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a
que horas est em casa. Creio que sae a miudo, e no se sabe nunca
quando recolhe. L uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, v-a
dignar-se sorrir para si, e est-se quasi a tocar na mo em signal
de estima; mas ella pede cem contos de ris  gente, e como uma pessoa
no os traz comsigo... nem com outro--a marota da felicidade volta-lhe
as costas e d s de Villa Diogo!

De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores
para a quadra em que j no ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude
na vespera de nos dar a riqueza, como succedeu l ao

         _Pero Pico
    que viveu pouco e pobre
    e finou rico!_

As bruxarias so destinadas aos que no querem perceber que a vida
seja isto e porfiam em comprar a sorte a retalho, nas cartas e em
philtros, s _mulheres de virtude_. As _mulheres de virtude_ so as
_chirogromanas_, as _chiromantes_, as _cartemantes_ de Portugal. As
crendices populares do-lhes grande fama e muita da nossa gente e da
melhor as vae consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem
elixires para attrair o amor e artificios para encantar; e sabem das
cartas tudo que vae pelo mundo.

Ainda no ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a priso de duas
_mulheres de virtude_, me e filha, apanhadas na occasio em que saiam
de uma casa na rua dos Correeiros, onde tinham ido exercer as
ladras funces da sua industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas
onde entravam. Haviam roubado quatrocentos e tantos mil ris, alm de
roupas a titulo de serem lavadas em agua benta. Vendiam frasquinhos com
liquidos especiaes para conservar o amor, e ensinavam s mulheres
casadas que dssem d'isso aos maridos na comida para elles nunca se
enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim molhado n'um
cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o policia,
esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas
ameaaram-o de lhe salgarem a porta  meia noite de sexta feira em
que fosse lua nova.

As senhoras portuguezas em geral so dadas a supersties; vivem
condemnadas pela educao e pelos costumes do paiz  inaco, captivas
no lar domestico, creadas na solido--mais profunda sempre que a do
homem, que se distrae alguma vez nos negocios e vae-vens da vida.
Depois, e isto em qualquer paiz, a faculdade mais desenvolvida nas
mulheres no costuma ser a logica; em desejando uma coisa, j lhes
parece justa; em a receando, j se lhes figura provavel:--acreditam
todas na fatalidade--e a fatalidade  a me da bruxaria.

Por isso vo s vezes, s escondidas, l a um beco escuro e immundo que
lhes ensinou no se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma
escada que range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela
senhora fulana, a senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha
com bigodes, ou uma grande verruga no queixo, que traz para ali um pires
com agua e a lamparina da noite com azeite, resa um credo em cruz em
cima do pires que tem agua, e molha no azeite o dedo minimo da pessoa,
dizendo tres vezes o nome d'ella e resando:

         _Deus te fez,
         Deus te creou,
         Deus te desolhe
         De quem mal te olhou.
    Se  torto ou excommungado,
    Deus te desolhe do seu mal olhado._

Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a
cliente,--fregueza, victima,--assustando-a com a vista, com os modos,
vo resmungando de frma que mal se perceba--Sant'Anna teve a Virgem, a
Virgem teve Jesus: assim como isto  verdade, Deus te desolhe do teu mal
olhado! Se o pingo do azeite fr ao fundo, tem olhado; como no vae,
no tem--e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer
obstaculos, descobrir de onde vem o mal e acabar com elle;--quer
dizer que cumpre principiar a mugir o caso e a roubar dinheiro 
consultante. Precisam um dia de uma coisa, no outro dia de outra. Hoje
um lenol, manh um annel de ouro, depois um crte de seda preta para
fazer um vestido e ir offerecer  egreja uma promessa...--Sei tudo isto
por uma mulher que esteve como criada em casa de uma d'ellas.

Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um leno de assoar,
vellas de cra, e--como diz o povo--_para compr_, um pouco de cabello.
O cabello  o ponto romantico da gerigonsa. O cabello d amor,
lembrana, consolao; o cabello d fora, o cabello ampara e vivifica.
Havia um homem em Alcantara que morreu velhissimo, que levava sempre o
amor conjugal a limites extremos--o que no o impediu de casar por duas
vezes. Tinha o vicio das mulheres de virtude, e ellas aconselharam-lhe
por tal frma o ter cabello da pessoa amada que o homem resolveu--para
conservar sempre fresca e amorosa a lembrana das duas mulheres que
haviam feito a felicidade da sua existencia--aproveitar as tranas de
cabellos que lhes tinha cortado piedosa e successivamente quando tivera
a desgraa de as perder, e mandar fazer daquillo um chin. Cobria o
topete com o cabello de ambas. Os cabellos no eram bem da mesma
cr--mas isso no fazia nada ao caso e o ponto era no o abandonarem
nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chin de
virtude!...

Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,--mas que s d por
isso quem fr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e s podem
soltar-se quando o que as prendeu desdisser a orao. Saem de noite
correndo e saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados,
logo que digam a sua prece de segredo, que acaba por estas palavras:
Va, va, por cima de toda a folha! O marido de uma, que no
sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta noite,
espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a
resa, e teve occasio de observar com que rapidez ella cortou logo o
espao por ares e ventos. Foi-se s ervas, esfregou-se tambem, e comeou
de dizer a orao; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de por cima
de toda a folha! disse:--Va, va, por baixo de toda a folha!
Sentiu-se levado por fora occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a
rasgar-se, por baixo das arvores e por baixo dos silvados...

Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiana tanto ou mais que a
si proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas
lhe esto chupando o sangue--accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me
que a boa bruxa  a de nascena, e no a que aprende.

Ora as _mulheres de virtude_ so bruxas que aprendem. Vae aquella arte
de me para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram s
vezes papeis de credito. No teem s virtude, teem talento, teem saber:
at se lhes chama _sabias_. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir
seres privilegiados para a instruirem, quer queira, quer no; a
sibylla de Gumas, Orpheo, Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na
cara do sujeito, ou no Gall, capaz de cortar o cabello  escovinha ao
genero humano para lhe apalpar melhor as bossas. De tudo isto a _mulher
de virtude_  o que tem havido melhor!

Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra.
Dilata-se-lhes a palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo,
do  cabea, batem o p no cho, guincham, resam, praguejam, misturam
nomes de santos e nomes de bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e
choram... A pessoa que as consulta, senhora quasi sempre, estremece
com aquelle olhar de fascinao, com aquellas palavras de sortilegio...
Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como se fossem animados;
ou ento, ao envez, parece zombarem do que se passa e  como se a dama
piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fra, o az de espadas
tivesse olhos, nariz e bca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como
que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de
contente, hurra, arrepela-se, esperneia  proporo que saem as
cartas... E como se o espirito da verdade fallando pela boca d'ella
estivesse a patentear o quadro das vicissitudes da vida intima,
apalpando o presente, avistando o futuro... O valete de ouros  o
_amante_, o cinco de copas so _lagrimas_, o az de paus _fandangos_
(amores), sete d'espadas _desgosto formal_, az de ouros _prenda_, tres
de copas _com certeza_, dois de paus _a caminho_, quatro de paus
_priso_, e a espadilha _affirma_!

 um horror. No  uma tolice, no  um disparate, no  uma
estupidez-- um horror. E a desgraa de familias, a guerra na vida de
casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror!

Vae esta gente procurar torturas quellas casas que vendem a
inquietao, a angustia, as noites raladas de ciume, de despeito e
de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade em tudo--na
mobilia que se compe de uma bilha quebrada e de uma cadeira cxa, nas
rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no
fogareiro ao meio da casa com uns carvesitos quasi afogados na cinza,
no galo grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de caf e
clara d'ovo, no sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de
alecrim, no espelho, na thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no
palavrorio de resa que precede o _botar a falla_:
--Credo--cruzes--canhoto--temos bruxaria--saramago--mostarda--alho
e arruda--maravalhas e palhas de alhos!

Tudo isto faria rir se no fosse funesto, e no tivesse tanta influencia
na gente portugueza, dada a melancholias sem razo, melancholias do
acaso, saboreando tudo que  chocho e amargo. Fizeram-nos falta os
conventos, casas por excellencia para a indole sombria que temos. Todas
essas allucinaes de que lhes tenho fallado, _telha_, _enguios_,
_encantos_, _agouros_, _feitios_, _sonhos_, _sinas_, _coisa m_,
provem da falta de educao. Ou se tem f em Deus, ou nas _mulheres de
virtude_. Quem duvida est s escuras; o principio de ver  crer; crer
no renascer das folhas; na volta da quadra florida; crer que a dor
no  sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas
que saram. A f no  bem o dia, mas  o fim da noite;  a luz a
chegar-se  alma. Toda a nossa mania e o nosso mal  no termos f seno
em duas coisas,--em enguios e em economias! O mesmo _deficit_ de que
tanto por ahi se falla,  um enguio publico, enguio official! Assim
somos. Enguios e economias! Tristes e pobres;--duas vezes tristes!


FIM




INDICE DOS CAPITULOS

                                       PAG.
       I--Os doidos...................   5
      II--As doidas...................  23
     III--Os idiotas..................  41
      IV--Os furiosos.................  59
       V--Telha.......................  77
      VI--Enguios....................  97
     VII--Agouros..................... 117
    VIII--Feitios.................... 135
      IX--Encantos.................... 155
       X--Sonhos...................... 175
      XI--Sinas....................... 193
     XII--Coisa m.................... 213
    XIII--As mulheres de virtude...... 231






End of the Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by 
Jlio Csar Machado

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS ***

***** This file should be named 34275-8.txt or 34275-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/3/4/2/7/34275/

Produced by Pedro Saborano

Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
