The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem no
pde dormir. N6 (de 12), by Camilo Castelo Branco

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Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem no pde dormir. N6 (de 12)

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: November 28, 2008 [EBook #27350]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NO PDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco


PUBLICAO MENSAL


N. 6--JUNHO

LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
_96, Largo dos Clerigos, 98_

PORTO   EUGENIO CHARDRON
_4, Largo de S. Francisco, 4_
BRAGA

1874


PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA

62--Rua da Cancella Velha--62

1874


BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA


SUMMARIO

Subsidios para a historia da serenissima casa de Bragana--Os sales, pelo
exc.mo snr. visconde d'Ouguella--Manoelinho d'Evora--A morte de D.
Joo--Poetas e prosadores brasileiros--cerca de Joaquim 2.--Estupido e
infame ( Actualidade)--Carta ao snr. conselheiro Viale--Quinta essencia
de malandrim ( Actualidade)




SUBSIDIOS PARA A HISTORIA

DA

SERENISSIMA CASA DE BRAGANA


I


PEDRO DE ALPOEM

(Veja a pag. 93 do n. 3 das _Noites_)

CARTA DO DOUTOR PEDRO DE ALPOEM CONTADOR PARA O DUQUE DE BRAGANA

                                  _Muito illustre snr. duque de Bragana._

Obriga-me a escrever a v. exc. c d'est'outro mundo de verdades e
desenganos, sobre este negocio de tanta monta, e materia to importante
 honra, vida e estado vosso, e de todos estes reinos de Portugal, a
memoria de um av que tivestes muito conhecido no mundo[1], a quem em
tempo to necessitado de homens, qual elle foi na vida, por nossos e
vossos peccados, succedestes no casco da illustrissima casa, smente,
que no na lealdade portugueza, no corao real, no zelo da conservao
do reino que houvereis de herdar afamado no mundo todo. Os oleiros,
sapateiros, alfaiates, e os mesteres do pao vos furtaram a beno, e o
lugar, mostrando-se to inteiros, generosos e leaes n'este derradeiro
termo, que Portugal fez, e com que acabou por alguns annos, como se os
privilegios honrosos, ou os titulos illustres, e os morgados e reguengos
foram seus d'elles, e no vossos. E como se de rei natural (que podiam
ter e dar-vos) no fra sempre o melhor quinho o vosso, e dos mais
senhores fidalgos a quem favorecia, conversava, e sabia o nome, e com
quem distribuia a maior parte dos bens da sua cora, ficando elle
smente com o estado, e titulo real, com as obrigaes, e trabalhos de
nos defender a todos, e governar. Porque quem vir com curiosidade as
rendas da cora, e bens patrimoniaes dos reis nas alfandegas, nos
contos, e nas sizas da cidade de Lisboa, do Porto, e das mais, achar
esta verdade clara, a saber: que todo o bom, e grosso estava repartido,
e derramado em juros, tenas, morgados, reguengos, jurisdices de
vassallas, e vassallos, tudo desmembrado da cora real nos senhores, e
fidalgos do reino, de maneira que mais parecia o rei seu pai, ou
almoxarife d'elles, que rei, nem senhor. Oh! mal afortunados tempos!
Hora infeliz, e desaventurada, e lastima para sentir! Quem de todo no
perdeu o juizo com as razes castelhanas de portuguezes elches! 
possivel que chegaram estes mesmos senhores de bom sangue, de bom
entendimento, de sua livre vontade, e motu proprio, a escolher e a
negociar por todos os meios humanos e diabolicos extinguir-se com o
sceptro portuguez sua patria, nao, sua honra, fama, estados e suas
mesmas casas, vencidos de respeitos, odios e interesses! Mal me parece
que lhes lembrou aquella notavel resposta que o conde d'Ourem D. Nuno
Alvares Pereira deu a seus irmos em outro caso semelhante a este. O
qual, tendo guerras com Castella o mestre de Aviz que depois foi rei D.
Joo o primeiro de gloriosa memoria, e andando os irmos d'este valoroso
portuguez lanados da parte do rei de Castella, sendo commettido d'elles
por parte do rei castelhano com grandes promessas, e partidos que se
lanasse tambem com elles, respondeu: Nunca Deus queira que por
dividas, nem haveres eu seja traidor, nem ingrato  terra que me creou,
e aonde eu nasci. Os senhores fidalgos d'este nosso tempo por
interesses, e promessas falsas, assignadas em branco, no smente
venderam sua patria, mas pregoavam, e persuadiam esta seita castelhana
com tanta vehemencia, elles, suas mulheres, filhos e criados; e com
tanto desejo de nos verem a todos convertidos a ella, que Martim
Luthero, e os outros heresiarcas que o seguiram no zelaram mais seus
erros, e falsa doutrina para a verem perpetuada na igreja de Deus.

Ora, excellente senhor, quero-vos capitular brevemente os erros
gravissimos que n'este negocio commettestes, com os mais senhores
fidalgos d'esta conjurao, para que vendo-vos a vs, e a elles n'este
espelho claro no percaes alguma boa occasio, se a Deus der em algum
tempo, de cobrardes o nome portuguez que perdestes, tanto para cobiar,
e perderes o que ganhastes, vs, e os mais por todas as naes, at com
o mesmo rei, e nao a quem n'isso servistes; pois chegaram a chamar 
rua onde moravam os governadores quando fugiram de Setubal _la calle de
los traidores_. E no cuido que n'isto vos fao pequeno servio, e ao
bem commum.

Primeiramente o senhor cardeal dos quatro coroados, jurado rei em
Lisboa, lembrando-lhe a obrigao que tinha, e perigo entre mos de
conservar este pedao de terra que seus antepassados tomaram aos mouros,
e defenderam aos castelhanos, ha perto de 500 annos,  custa de muito
sangue derramado d'elles, e de seus vassallos em continuas guerras com
uns, e com outros, em tomando o sceptro, e vendo os tempos que corriam,
logo se acautelou para assegurar o reino em sua liberdade, e rei
natural, com perseguir ao snr. D. Antonio seu sobrinho, e a se temer de
Bragana, mandando-os afastar de si o mais que pde, e mettendo nos
braos os embaixadores de Castella, de quem se devia temer.

Dous erros infames commetteu esta leal cidade[2] em nossos tempos que
eternamente nunca lhe sahiro do rosto, se houver chronistas
desapaixonados: o primeiro foi consentir, e permittir a desaventurada
jornada de el-rei D. Sebastio, que no seu porto se embarcou francamente
sem haver um vereador, ou mester que acudisse a isto com uma honrada e
portugueza doudice. O segundo erro foi aceitar esta cidade ao cardeal
por seu rei, e dar-lhe posse do reino sem mais crtes, nem consulta das
outras cidades e povos to nobres, e mais naturaes do reino do que  a
mr parte da gente de Lisboa, recebendo esta cidade por herdeiro
legitimo e forado, sendo clerigo, e impotente, podendo (j que o
queria) elegel-o em nome de todo o reino por seu rei arbitrario, eleito
com protestao de por sua morte (que to perto estava  vista) ser
outra vez a eleio dos povos. Foi este to mau conselho, e tamanho erro
que bem parece faltar aqui um Joo das Regras que lembrasse e
requeresse.

Era este principe, como v. exc. sabe, irmo ultimo, e inferior em tudo
a cinco que teve, e muito aborrecido d'elles todos e de seus proprios
paes, de que no faltam ainda testemunhas vivas; por ser homem de baixos
espiritos e condies, tenoeiro, vingativo, para pouco, to inimigo da
nao portugueza, e de seu proprio sangue que por mostrar esta natureza
sua, perseguiu aos seus sobrinhos, affeioando-se aos castelhanos. Foi
este principe guardado com vida tantos annos, depois da morte de seus
irmos, sobrinhos e herdeiros do reino, que foram vinte e tantos, para
nos herdar, e governar com tantas desventuras, e mofinas que at o caso
da ilha da Madeira to affrontoso o vimos no seu governo e tempo. E para
ser deshonra de todos seus avs que com tanto animo, e esforo
offereceram sempre a vida e estados por nos no deixarem captivos de
castelhanos, lanando ainda muitos d'elles em seus testamentos e cartas
grandes maldies, e particularmente el-rei D. Manoel seu pai, a todos
seus successores, se em algum tempo pretendessem alliana d'este reino 
cora de Castella, como se pde vr nos cartorios da torre do tombo da
cidade de Lisboa, e de Evora.

Algum pouco tempo depois, este velho cobarde e cruel, depois de ser
rei, dizem que esteve inclinado a declarar a snr. D. Catharina, mulher
de v. exc. por herdeira e direita successora do reino,--parece que
receoso d'estas maldies ou remordido na consciencia de algum bom
espirito com que Deus nos falta. Depois de encarniado com as lagrimas
que via nos portuguezes por sua m e nativa inclinao, ajudado com as
pregaes de D. Jorge de Athaide, o algoz da crte, e de outros
discipulos occultos do duque de Ossuna, que pela unitiva desviava,
ajudando-se do padre D. Leo, do sobrinho dissoluto e da sobrinha, por
evitar guerras, se mudou este rei portuguez d'este santo proposito
assestando-se de maneira na devoo de Philippe, e odio dos mais
pretensores do reino que nem requerimentos dos mesteres, nem lagrimas
dos povos, nem desenganos de procuradores das cidades o demoveram nunca
d'este obstinado intento; antes vendo que o povo punha os olhos cheio de
esperana no snr. D. Antonio por sua rara humanidade, e por falta de no
verem outrem, todo o seu negocio n'este tempo foi proceder contra elle
com sentenas crueis, cartas, e editos infames, sendo sobrinho seu, e
filho do mais honrado irmo, e amigo que elle teve na vida, e a quem
tomava por terceiro quando queria que o rei D. Manoel seu pai o visse,
ou ouvisse. E para que v. exc. veja quo descoberto castelhano era com
os da conjurao que depois se descobriu e fez, um dia, estando em
pratica com alguns portuguezes elches, que trazia  ilharga, chegou a
dizer que lhe pesava de uma boa somma de mil cruzados de um alvitre que
applicava a obras pias, pelos no mandar gastar nos paos de Evora para
que quando entrasse o castelhano (a quem n'este caso chamou sobrinho)
tivesse logo na entrada bons aposentos onde se recrear.

D'el-rei D. Joo o segundo se conta que dizia muitas vezes  mesa entre
pratica quem me poder fazer entre Portugal e Castella um muro de
bronze que chegasse at o co, que nem os passarinhos de l voassem para
c, porque nenhum bem nos vem de l, e males muitos. Parece-vos,
excellente senhor, que se este santo rei l onde est descanando, e
ainda inteiro est seu corpo, ouvira estas palavras de um seu sobrinho,
e herdeiro, que ficra contente, e as approvra por acertadas?

Estes foram seus desenhos e intentos, nos quaes continuou sempre,
entretendo pouco e pouco com promessas falsas, que lhe daria principe
portuguez, e em paz at sua mortal doena, na qual fez um testamento to
catholico, to portuguez, to pio, to cheio de esmolas para mosteiros,
e viuvas pobres e com boa declarao do successor do reino que em quanto
o mundo durar ser escandalo para quem d'elle souber: porque to escasso
e cruel, to descuidado nas cousas do reino se mostrou, deixando por sua
alma como um pobre escudeiro para que tudo ficasse _in solidum_ a
Philippe, que chegaram at cantar pelas ruas de Lisboa e Santarem
publicamente aquellas oraes por sua alma que elle bem merecia, mas
porm nunca ouvidas da bocca dos christos e innocentes meninos, os
quaes diziam assim:

    _Viva el-rei D. Henrique nos
    infernos muitos annos,
    pois deixou em testamento
    Portugal aos castelhanos._

Ainda que por obra isto no foi verdade, de tal maneira deixou elle
estas cousas ordenadas, e sua teno declarada aos que deixava
commettido o negocio, que tinha razo o povo de lhe cantar estes
louvores.

Mas deixemos j de fallar nos escandalos que este Anti-Christo deu ao
reino: porque esperamos ainda em Deus, e na sua justia divina, que se
forem vivos alguns portuguezes dos que agora andam escondidos, e
perseguidos, e presos, quando Portugal resuscitar, que a sua ossada que
Philippe trasladou para Belem, acompanhada das que esto em Elvas, no
espinheiro de Evora, e em outras partes, sejam publicamente queimadas.

Os cinco traidores do governo, com titulo de defensores nossos, e
governadores do reino, herdando por morte d'este principe o odio que
elle tinha ao snr. D. Antonio, e  nao portugueza, de maneira
comearam logo, em tomando o governo, a guardar todos os respeitos a
Philippe, e a seus mexedores ou embaixadores, e nenhum aos pretensores
do reino, assim naturaes, como estrangeiros, que logo se viu, que
dominava n'elles o humor castelhano. Por onde com infame nome que ento
cobraram para seus descendentes, tero sempre a culpa do nosso
affrontoso captiveiro, e de todos os males que  sombra de boa guerra se
fizeram, e ainda fazem n'este triste reino.

Nem foi pequeno descuido, e pusillanimidade dos procuradores das
crtes, temendo isto d'antes, darem-lhes pacifica obediencia,
reconhecendo n'elles a magestade real, porque alm de n'isso abrirem mo
da occasio e posse que o tempo lhes offerecia de ser do povo a eleio
do rei, ou de quem os governasse at isto se determinar, mostraram
grande cobardia, vendo j n'elles o que d'antes temiam, e (tendo as
costas quentes em Santarem) no os mandarem todos aps o cardeal a juizo
a darem conta de suas damnadas tenes: porque,  f, se Santarem
desembainhava como o tempo pedia, a carnia comera em Almeirim por
estes traidores, e outros que  sua sombra estavam claramente j vistos
por falsos e castelhanos, e o reino despertra, e tornra sobre si para
que nunca viessemos a poder de castelhanos, nem ousariam entrar elles
c, se viram estes comeos sangrentos, porque so tambem s vezes
sadios, e necessarios...

D. Manoel de Portugal, e um Phebus Moniz requereram nas crtes que
tirassem os governadores suspeitos no governo, ou lhes acrescentassem
outros cinco; mas nada aproveitou para animarem os espiritos cobardes.
Confiaram de suas palavras; e que, postos em to alta dignidade com
titulo de nossos defensores, fariam como leaes o que eram obrigados 
patria e  justia; mas foi claro e grosseiro engano: por onde os
traidores cobraram tanto animo de o no verem em ninguem para lhes ir 
mo, e de se verem reconhecidos por suprema e real dignidade, que sem
mais temerem, nem fazerem caso de crtes, continuaram desembaraadamente
com a venda e entrega do reino como lhes ficra encommendado do rei
cardeal.

Mas para sua traio e maldade ser mais abonada e espantosa, n'este
mesmo tempo comearam a metter o insolente povo em pensamentos de
guerra, e defenso da patria para o desmaginarem dos temores, e
desconfianas que n'elles viam. Maldade foi esta nunca vista, nem lida
em historia antiga, nem moderna, porque, se nos metteram a todos nos
contractos, e partidos em que andavam com Castella, framos rendidos, ou
entregues com menos deshonras, e perdas. Porque no estava Philippe
desarrazoado nos partidos, e condies que nos commettia, ainda que
nunca as cumprira, como fez a elles; mas estes senhores, para melhor
fazerem seu proveito com este rei estrangeiro a quem pretendiam ganhar a
vontade, quizeram elles smente com os seus parentes e amigos ser os que
negociassem esta contractao para que o povo (que d'estas meadas no
tinha mais suspeitas e receios) na resistencia, e defenso que fizessem
lhes acrescentasse a elles merecimentos e servios para com sua
magestade. E, assim, que palliadamente se communicavam todos n'esta
conjurao com cartas, e correios muito tempo antes da morte do rei
cardeal. E depois d'ella (que  caso de grande espanto) correndo entre
elles esta linguagem de chamarem aos da conjurao _sisudos_, tendo por
nescios e doudos a todos os que, no sendo da sua liga, queriam antes
morrer valorosamente em defenso da patria que vl-a entregue por
traies e manhas, sem ordem nem justia, a seus inimigos com perpetua
infamia do nome portuguez, chamando aos taes por escarneo _os leaes_; de
maneira que n'este tempo em que o reino ardia em motins e confuses, em
temores e esperanas, suspenso e confuso do successo d'este negocio,
comearam suas senhorias a ratificar mais seus ardis, e traies com
mandarem cartas e provises por todo o reino ao estado ecclesiastico em
que pediam e recommendavam aos prgadores e curas das igrejas que
claramente dissessem ao povo nos pulpitos, e suas estaes que se
animassem  defenso do reino, apparelhassem armas e fortificaes nos
muros, porque elles tinham j mandado prover os arraiaes, e ordenado
fronteiros-mres, para o que passaram provises a fidalgos para isso
como foi a D. Diogo de Menezes na comarca do Alemtejo, D. Luiz de
Portugal na comarca de Thomar, etc. E assim, com estas falsas mostras de
leaes, alvoroaram o povo a falsas esperanas de liberdade e defenso
para de todo ficar perdido, e abatido no futuro. Possivel  que algum
dos cinco governadores tivesse santo e leal intento n'este desenho;
porque se affirma que alguns lhe resistiram, e que o arcebispo de Lisboa
no quiz que dentro da cidade se publicasse, nem prgasse este
apercebimento; mas elles todos juntos no fizeram mais n'este negocio da
liberdade portugueza que o acima dito, sem metterem mais cabedal ou
fazerem mais despezas para este effeito que de papel e tinta.  certo
que cuidaram que assim como Philippe com estas armas conquistra a
elles, e aos mais fidalgos do reino, assim tambem com papel e tinta nos
defenderiamos dos tudescos e italianos que elle trazia enganados, havia
dous annos, para o metter em Portugal.

Tinha entendido este cobioso rei por espias allems que c mandou
reconhecer os fortes do reino em vida do cardeal-rei[3], que smente
para bater os castellos da raia, se n'elles houvesse de entrar, havia
mister gastar toda a sua fazenda em polvora, porque se no tivesse por
si todas estas achegas, a saber: armas, polvora, chumbo, tirando-nos
tudo isto a ns n'este tempo, s Elvas com seu termo (aonde ha perto de
quatorze mil homens de p, e de cavallo) bastava para nos Olivaes, antes
de chegarem os castelhanos a bater nos muros, lhes consumir todas as
suas foras com a arcabuzaria portugueza. Os traidores dos governadores
os seguraram d'este perigo.

..........................................................................

Chegaram estes traidores a tanta cegueira e desavergonhamento, que,
tendo jurado todos no tomar voz por algum sem se dar primeiro sentena
pelos letrados deputados na causa, avocaram a si, e intentaram de que
vindo a Setubal ser juizes em caso to grave, to duvidoso, e dar
sentena por Philippe, para este fim se partiram de Almeirim para
Setubal, porto de mar, convocando a ella os mais fidalgos da conjurao
assim leigos, como ecclesiasticos, a saber: o meirinho-mr, D. Antonio
de Cascaes, D. Fernando de Linhares, D. Jorge de Athaide, o bispo
Pinheiro, e outros muitos que seriam perto de quarenta fidalgos
conhecidos[4]. Mandaram logo fechar todas as portas da villa de pedra e
cal da grossura do muro, deixando smente duas abertas com guarnies de
soldados postas n'ellas para que no entrassem dentro seno os da
conjurao. N'este tempo o conde portuguez do Vimioso (herdando o
espirito do conde D. Nuno Alvares Pereira, seu bisav) que em Almeirim
tinha j visto suas traies, os veio seguindo muito  pressa para vr
se podia impedir tanto mal quanto se temia. O que entendido por elles,
antes do conde chegar, mandaram dar rebate ao traidor Diogo da Fonseca,
seu guarda-mr na mesma villa, que por nenhum modo o deixasse entrar
dentro. E assim o esperou s portas com murres accesos para lhe
defender a entrada; mas, antes d'elle chegar, vendo estes traidores que
o povo da villa sabia isto, e se comeava a amotinar por parte do conde
portuguez, em que escorava grande parte de suas esperanas, tornaram a
mandar recado que deixassem entrar, em tempo que elle j vinha pelos
arrabaldes. Depois, entrado na villa, e vendo que este conde portuguez
com alguns procuradores das crtes, que  sua sombra se foram tambem l,
para lhes resistir a seus maliciosos intentos de quererem ser juizes, e
dar sentena, e que no podia isto ser pelas razes, e embargos que lhes
punham, usaram de outra inveno o ardil no menos desaforado que o
primeiro, querendo avocar a causa e litigio da successo do reino a
votos dos que ento se achavam presentes; e porque os procuradores das
crtes que ahi se achavam,  sombra do conde, eram leaes e muitos,
determinaram de reduzir n'este conselho e eleio os votos dos tres
estados--a saber: ecclesiasticos, fidalgos, e procuradores dos povos a
numero de tres votos smente, dizendo que no era tempo para mais vagar
(por ser j Elvas entregue a Philippe) seno de votarem todos Portugal,
ou Castella, por favas brancas e negras, os tres estados cada um por si;
e, para onde prevalecessem os dous estados nos votos, assim se fizesse.
E porque tinham por si os votos dos fidalgos, ao conselho acrescentaram
alguns homens novos a saber: Bernardim Ribeiro, e outros por se
segurarem mais n'este voto. Tinham tambem pela segunda liga o segundo
voto que era o do estado ecclesiastico presente que era o arcebispo de
Lisboa e capello-mr, D. Jorge de Athaide, o bispo Pinheiro; o terceiro
voto a que tinham reduzido todos os procuradores dos povos no lhe fazia
mau jogo, ainda que votasse, por Portugal. Esta panella assim mexida por
D. Christovo de Moura, e proposta no conselho pleno, no pareceu bem
aos leaes. E logo o conde portuguez acudiu, e resistiu a ella com os
procuradores de sua teno, protestando que a tal eleio no seria
valiosa, e que em caso to grave, e to importante a todo o reino, j
que o no queriam deixar nos pareceres dos letrados, seno dos votos,
que mandassem primeiro chamar os mais procuradores, e senhores do reino
para que o que alli se accordasse e resolvesse fosse com consentimento e
contentamento das partes. Mas como estes traidores do governo, e
fidalgos da conjurao estavam de muito tempo penhorados por Castella, e
no smente na villa, mas tambem nas mesmas casas do duque de Aveiro em
que se mostravam com muitos mosquetes, polvora e pellouros para fazerem
a sua mais a seu salvo, esperando d'hora em hora pelas gals de Philippe
que tinham mandado vir para este intento, a nenhuma cousa se demoveram
pelas protestaes, e requerimentos que lhes foram feitos sobre este
caso, estando to enfadados da tardana que as gals faziam em chegar,
que se ouviu um dia esta palavra ao turco D. Joo Mascarenhas indo pela
varanda que mandou tapar por se temer de algum pellouro bem merecido:
Ah! Philippe, que assim s vagaroso! E como Deus no queria que o
innocente e leal povo ficasse embaraado na consciencia com a sentena e
abominavel eleio do rei, cursaram tantos nortes e to rijos todo o
tempo que elles esperavam pela armada, que, depois de muitas consultas e
confuses de accordos, que houve um um dia o de apunhalarem quasi todos
os do conselho o conde portuguez.

Deixada a traa da sentena seguiram a da eleio, determinando fazer
este auto solemne dia de S. Pedro e S. Paulo, que era d'alli a dous
dias, para que ento se declarasse; e, sahindo os dous votos dos dous
estados por Castella, como tinham por sem duvida, acolheram-se todos a
uma gal e caravella da armada que tinham mandado vir de Lisboa a qual
tinham j apparelhada na bahia de Setubal. N'este mesmo dia mandou o
conde portuguez recado ao benigno rei D. Antonio que j era entrado e
recebido em Lisboa, que acudisse logo antes de se concluir a traio; o
qual sabido logo pelos mesmos da guarda dos paos, e pela gente leal que
havia na villa, comearam de se amotinar com gritos e ameaos publicos
no Sapal, defronte dos traidores, e tal que elles houveram por seu
accordo vr se podiam pr-se em salvo, e assim determinaram n'aquella
noite seguinte se embarcarem, deixando tudo em aberto para prem sello a
suas traies. No pde isto ser to secreto que tambem se no
entendesse dos soldados que logo os comearam a vigiar; e recearam de
maneira que, em anoitecendo, com muito risco de suas vidas, e tanto que
um se deitou por uma corda, outro se vestiu em um chiote, e se acolheu
sobre um asno, os mais buscaram mil invenes baixas, como elles eram
dos espiritos, para se irem embarcar. Estes foram Francisco de S,
alcaide-mr do Porto, D. Joo Mascarenhas, capito que foi do segundo
cerco de Diu, Diogo Lopes de Sousa, governador da casa do civel. Os da
villa vendo j com os olhos a traio, e engano em que os traziam,
bramiam como lees, desejando dar-lhes o pago de seu bom governo e
lealdade. A este motim acudiu o conde portuguez com animo de christo, e
leal como sempre o teve, o qual por muitos justos respeitos impediu no
se fazer carnia, entretendo com razes o impeto dos soldados por largo
espao da noite at se porem em salvo, e se embarcarem; porque, se elle
no fra, todos os da conjurao houveram de pagar aquella noite o que
deviam  patria, porque parece que de proposito os trazia alli seu
peccado juntos ao talho.

No faltou quem dissesse que o conde errava n'isto; mas a sua razo
convenceu a todos n'aquelle tempo, dizendo que mais fazia a nosso caso
fugirem elles que no matal-os em terra, o que soaria mal a quem
desapaixonadamente visse este negocio. Basta que os salvou, e deu
passaporte por terra a D. Christovo de Moura para se pr em salvo.

Bem visto fica n'este breve summario quaes foram os traidores em seu
officio e dignidades. No fallo em D. Joo Tello porque, quando se foi
juntar com elles em Setubal, em uma gal que tomou em Lisboa, entrando
pela barra, sabendo os quatro do governo que elle era o quinto, o
mandaram servir de bombardas arrazoadamente da torre d'Outo, por no
ser da sua teno a liga. Depois que o viram entrado pelas boccas dos
tiros, e isto visto e sabido pela villa, soffreram-no por dissimularem
at que seu peccado os levou de mar em fra, onde andaram em calmaria
dous dias  vista da villa, desmaiados, olhando se iam os da terra
prendel-os. Este s governador se foi quietamente para sua casa por ser
portuguez, onde morreu, dizem que de paixo de vr as injustias dos
traidores.

No principio d'esta conjurao j espigada, se foi v. exc. a Almeirim,
quando o rei-cardeal descobrira sua teno por Castella. E logo depois a
snr. D. Catharina com grande estado, e capella de musicos, acompanhada
com alguns poucos de ceifes enfronhados em libr de soldados de guarda
de vossa pessoa. J ento as cousas eram taes, que para responderdes a
quem ereis, e s obrigaes do estado bragano, no smente no vos
houvereis de temer, e ir medroso, mas ser to temido, e entrar na crte
com um brio portuguez, e com um corao to grande, que assombrasse o
cardeal, e matasse por dentro a todos os traidores que l andavam; e
entretivesseis vossos vassallos todos apparelhados a som de guerra, e
postos a piques para toda a desordem, e traio que visseis, ou no
rei-cardeal, ou nos pretensores de que vos receaveis. Porque, fallando
desapaixonadamente, vs s com vossos parentes, criados, e vassallos
tinheis bastantes foras para receber todo o poder, que Philippe tinha
apparelhado contra ns, e para obrigardes ao duque d'Alva a uma retirada
muito affrontosa. Mas faltou-vos o corao do conde D. Nuno Alvares
Pereira, vosso quarto av. No smente nada d'isto fizestes, seno,
quando o snr. D. Antonio,--apesar de aborrecido, desnaturado e
perseguido no smente do cardeal-rei seu tio, mas tambem dos traidores
do governo, depois de sua morte d'elle--com animo real que herdra do
infante D. Luiz, seu pai, se determinava defender-nos da ambio dos
estrangeiros, e traio dos naturaes, arriscar sua vida, e estado na
defenso do reino, antes que soffrer desordens na justia da successo,
e que todos os partidos honrosos vos fazia  conta de lhe seres
companheiro n'este santo proposito, nunca jmais o pde acabar comvosco
por mais que visseis os inimigos entrados pelo reino, e tomarem-vos os
vossos aposentos de Villa Viosa, e armazem d'armas; antes para a vossa
culpa ser causa mais de proposito, depois de desenganado de vossas
esperanas reaes mais parvoas, dadas pelos traidores do governo, os
deixastes em Setubal, e vos fostes a Portel ter consulta com os doudos
de vossos parentes do que fazieis, estando j as cousas sem remedio: bem
se vos podra dizer n'este tempo: Asno morto, cevada ao... Em vida do
cardeal-rei deverieis de cuidar em vs, e em ns. O estupido do conde
lavrador, e o arabe do arcebispo de Evora, e o raposa do commendador-mr
com os mais que se acharam presentes n'este vosso conselho, como havia
muito tempo que estavam feridos da peste castelhana, e peitados a seu
sabor com Philippe, accordaram em relao que vos lanasseis de fra do
jogo, e visseis os touros de palanque. Pela primeira lei de Solon
atheniense, perdida tendes a casa, e estado s por esta culpa. Mandava
esta lei, que quem nas dissenses e nos motins da cidade se no lanasse
de algum dos bandos e parcialidades, esperando ser de viva voz quem
vena, pelo mesmo caso lhe fossem confiscados todos os seus bens. Nada
d'isto tivestes; antes, conforme ao conselho, que vos deram, e tomaram
para si estes senhores vossos parentes, vos deixastes ficar n'essa vossa
villa desviada, que era o que Philippe desejava e vos pedia. Com esta
inveno tomou o turco Asia, Africa, e muita parte da Europa, pondo-se
os reis christos  mira quando este tyranno fazia guerra a algum
d'elles. Assim tomou Hungria, Bohemia, o imperio da Grecia, Rhodes, etc.

N'este tempo que v. exc. se apartou do bem commum, olhando smente
para si, o mesmo povo padecia a ultima desaventura de ferro e fogo, sem
ter armas, nem resistencia por todo o termo de Elvas, Olivena, Estremoz
e todos os outros lugares do Alemtejo. No quero particularisar mais as
culpas de v. exc. por no affrontar mais os ossos de quem come a terra.

Os fidalgos, morgados, e commendadores que em todas as idades foram os
nervos da republica, e por esta causa to privilegiados, e venerados do
povo, d'elles (ainda que poucos) se foram para o snr. D. Antonio depois
de levantado em rei, para segurar o jogo de ambas as partes, fazendo
d'alli o seu negocio com elle, e com Philippe, cosendo a dous cabos
(como j fez Veneza muitas vezes em liga da christandade, escrevendo, e
dando avisos ao turco contra a liga, e a liga contra o turco). Assim o
faziam estes senhores, pendendo ainda mais n'isto para Castella; e
tanto, que era grande vergonha, e espanto vr as cartas que se tomavam
cada hora, as espias dos fidalgos portuguezes que andavam  ilharga
d'este vencido rei, e entravam em seus conselhos de guerra; outros eram
capites d'armada, que tambem foi vendida tantas vezes, que se cada dia
se tirava um capito-mr, e se punha outro para no o arrematarem, o que
no aproveitou nada; tanto assim que o derradeiro capito (Gaspar de
Brito d'Elvas) que era leal, o qual pela no querer vender, o venderam a
elle os capites, ainda que escapou da morte.

Os outros fidalgos em geral, tirando os criados, inda no todos, d'este
senhor rei eleito, parecendo-lhes ainda mau conselho de se arriscarem a
alguma desgraa da guerra, e terem comprimento com sua patria sequer nas
mostras de fra, como todos estavam mettidos na conjurao castelhana, e
assegurada sua fazenda, e mercadoria, tomaram o conselho que v. exc.
tomou para si, escondendo-se pelos mattos em recintos, em bandos, como
zorzaes[5], esperando ouvir novas do mundo, como se conta de um
esforado em uma gal, que escondendo-se na escotilha, ou coberta ao
tempo da briga, depois de acabada, perguntou de l: Levam-nos, ou
levamol-os?

Outros, depois de tomado Cascaes, batendo-se j a torre de S. Gio,
ouvindo-se os tiros em Lisboa, se esconderam dentro na cidade com tanto
segredo e resguardo para no serem chamados; e obrigados a acudir a to
extrema necessidade, como padecia o reino, chegaram a mandar fechar as
portas de pedra e cal das casas onde se escondiam, mettidos com armas, e
cavallos dentro em casa, dando-lhes os seus de comer por janellas de
noite, parecendo-lhes que quando os reis, e republicas instituiram os
grandes, os fidalgos, e morgados, que foi para comerem, e vestirem
melhor, para jogarem mais grosso, e para terem muitos criados para
lograrem as delicias do mundo; e que, quando viesse o tempo da guerra e
do trabalho, no tivesse n'elles a republica brao e columna para se
defender e onde se encostar.

As escusas que elles davam n'este caso so para aceitar. Diziam estes
senhores que no podiam em boa consciencia seguir ao snr. D. Antonio,
porque era um alevantado, e filho no legitimo. No attentando, que
andando em prova a sua legitimidade, o alevantou em rei a leal villa de
Santarem em nome de todo o reino, tendo j Philippe tomado com a mo
armada Elvas, Olivena, Campo Maior, e Estremoz, no como alevantado
pelo povo, mas como tyranno, a quem elles seguiam sem nenhum escrupulo.
Tambem diziam, que o poder de Castella era to grande, que tocava em
doudice querer-lhe resistir. A isto respondem os contemplativos que no
nascia d'aqui a tosse. E porque fallemos portuguez claro: saber v.
exc. por que no queriam pelejar, nem defender o reino, e andaram com
estes contractos e traies? Foi fina cobardia, e puro medo, que os mais
d'elles trouxeram mettido nos tutanos, da destruio, e captiveiro
d'Africa, medo que damnificou o mui esforado e invencivel rei D.
Sebastio de saudosa memoria; elles o desampararam, e entregaram aos
alarves com suas judiarias, chamando-lhe doudo, e temerario, pondo-lhe
todas as culpas que quizeram, por encobrirem as suas, que a verdade 
esta; elle os conhecia muito bem, e tinha na conta que elles mereciam;
mas no lhe lembrou, em tempo que lhe ia mais a vida e honra. Era este
um rei a quem se no pde negar muito esforo, e muita liberalidade,
muito boa conversao, ainda que os padres da companhia o crearam fra
d'isto, e mancebo de muito raro entendimento; e, se os fidalgos que com
elle foram, o acompanharam ajudado com o animo e esforo que n'elle
viram, pelejra dobrado, ou a victoria fra nossa, ou a desventura no
fra tanta. Mas como estes senhores no sabiam mais que rasgar sdas,
lograr perfumes da India, aguas estilladas, passear as damas, inquietar
donas virtuosas e honestas, andar com a barba no ar, soberbos mais do
que Lucifer, cuidando que n'isso estava o ponto e ser da fidalguia, indo
armados d'esta cr e teno mais para bodas que para brigas: em vendo o
campo do Maluco, arraiaes calmosos, e armas pesadas e desacostumadas,
logo esmoreceram, cahindo-lhes o corao aos ps. Pelo que, ao primeiro
_S. Thiago_ que se deu, elles foram os primeiros que mostraram as costas
aos mouros, voltando  redea solta com tanta desordem e cobardia, que o
esquadro dos aventureiros, ou desaventurados, de p,  custa da vida
lhes deu lugar, e elles deram principio a todo o mal e destruio, que
logo se seguiu. Esta  a verdade pura e clara; o contrario  quererem
cobrir o co com uma joeira, tapar a bocca aos soldados, e pr a culpa
ao rei. Digam isto aonde se no sabe como elles se cruzaram diante dos
mouros, mettendo-se debaixo das carretas; sem algum esforo, e valentia
de leaes portuguezes, deixaram seu rei em Africa, sem saberem dar novas
d'elle, rendendo-se por captivos de negros desarmados. No captiveiro
houveram-se to vos, to deshonestos, to insensiveis de sua honra, e
fidalguia que muitos d'elles aceitaram resgate dos embaixadores de
Philippe com vergonhosos partidos sobre a successo do reino, que j
comeavam a vender.

Este mesmo ser e fidalguia tiveram na derrota de Alcantara, a saber:
escondendo-se, fugindo em tempo que seus avs se podiam desejar vivos
para lancearem castelhanos, e os lanar fra do reino. Por onde digo a
v. exc. que podemos affirmar com muita verdade que se acabou j a
fidalguia de Portugal; e, se Deus der n'elle rei natural, poder com
justia, e com boa consciencia fazer o que fazia Lycurgo, e faz o
gro-turco hoje em dia, que  tirar-lhe os contos de renda, os morgados,
e privilegios, arrazourando-os com os mecanicos, e comear-se outra
enxertia de fidalgos, fundada em merecimentos pessoaes, sem opinio de
geraes, nem appellidos, porque os _Castros_, os _Menezes_, _Mellos_,
_Mascarenhas_, _Tavoras_, _Barretos_, etc.[6], j no do fructo seno
de baixezas, cobardias, deshonestidades, e pouca christandade; e se
alguns ficaram bons, o nome e appellido se lhes houvera de tirar. No
fallo nos portuguezes _Coutinhos_ e _Britos_, a quem pelos honrar dou
logar entre os negros, em quem se achou tanta lealdade e esforo, que
at a torre da polvora em que estava a nossa defensa se no fiou seno
d'elles, e acompanharam o snr. D. Antonio at de todo se perderem em
Vianna. O povo, cuja voz se chama _vox Dei_, ainda que nunca foi ouvido,
conservou a f portugueza nas crtes, e fra d'ellas com pacto, esforo,
e desejo, pedindo, e buscando guerra: at as mulheres (que parece cousa
de espanto)! porque a ellas s vinha o mr mal d'ella.

..........................................................................

Os inconvenientes que se seguiram dos nossos governadores e fidalguia
portugueza ser isto que v. exc. v, e de el-rei de Castella ser to
comedido, e sujeito  razo, so os seguintes. Primeiramente: se seguiu
entrar o turco lutherano duque d'Alba em Lisboa com tanta crueldade e
deshonra nossa, que, chegando a Alcantara, com menos de dezeseis mil
homens, todos irmos, visinhos e companheiros, nos rompeu, e deshonrou a
todos para sempre, no por foras suas, mas por traies dos corruptos,
por promessas, dando o saco tres leguas de termo, com duas que tomaram
mais os soldados, estando por causa da peste a mais gente e fazenda
derramada pelas quintas fra de Lisboa. Entrando as suas gals pelo rio,
e soldadesca pelas ruas com tanta crueldade, disparando no triste e
rendido povo toda a mosquetaria, e artilheria do mar: indo n'este tempo
muitos contentes, triumphando entre elles de sua patria, e nao nas
gals--a saber: Diogo Lopes de Sequeira, D. Antonio de Cascaes, Luiz
Cesar, e outros muitos arrenegados, de volta com os leaes, a quem o
traidor castelhano tinha passado provises de marquezados, condados, e
contos de renda por este servio, to custoso no smente s pessoas,
mas tambem  honra d'estes senhores que lhe entregaram o reino. Mas,
assim como estas provises foram assignadas em branco, tambem foram
despachadas em branco; porque lhes sahiu em despacho na mesa da
consciencia (qual Deus sabe) que no era Philippe obrigado a cumprir
estes assignados; mas a v. exc. como principal parte n'este negocio,
como verdadeiro, e legitimo herdeiro d'estes reinos, segundo dizem e
assignaram alguns juristas doutos, despachou este seu rei muito bem com
lhe fazer uma mesura muito bem feita em Elvas, quando lhe foi beijar a
mo, e renunciar todo o direito que tinha no reino, e com o acompanhar
at  porta da sala, e com lhe lanar depois o habito _del tuson_ em
Thomar, que  de mui grossa renda, e estados, mas pago em _panem nostrum
quotidianum_, e em uns poucos de maravidis para vinho, e faa-me merc
que no mande cada dia recadar esta rao do pao com muita humildade
como cavalleiro _del tuson_, como lhe mandou dizer um dia em Abrantes o
mantieiro, ou vedor por um descuido que n'isto teve. Outra merc fez a
v. exc. de condestavel do annel d'este reino que santa gloria haja;
outra lhe fez muito maior em o ter na reputao que v. exc. merecia
pelo seu fraco juizo.

Os mais senhores, e fidalgos, de presumir  que tambem Philippe usou
com elles d'esta magnifica liberalidade castelhana. Porque a D. Antonio
de Cascaes fez o mesmo que a Tristo Vaz em satisfao de lhe entregar a
mr fora do reino, e renunciar quatro mil reis de juro que el-rei D.
Antonio lhe tinha dado por proviso.

Fim das razes: j v. exc., e os mais da conjurao comeam a vr o
erro, e desconcerto seu, e dizem entre si pela bocca pequenina:
Sofframol-o, pois o quizemos. Quando isto virem, lembrem-se quanto
differentes na verdade e liberalidade eram os despachos e mercs dos
reis portuguezes, naturaes de Portugal; pois com terem to poucos contos
de ouro, as viuvas dos seus criados, os orphos, os fidalgos pobres, em
gemendo, eram ouvidos, e despachados como filhos; se agora, estando o
rei  porta, os despachos de to grandes servios pessoaes, so os que
vmos, quaes sero depois que virar as costas? Que faro os tristes que
vieram da India, ou de Africa com servios de paes, dos irmos mortos, e
com vida gastada? iro caminho de Madrid, e Toledo rogar por terceiros
castelhanos que no sabem o que isto custa. Este  o primeiro
inconveniente que succedeu n'este caso.

O segundo erro foi ficarmos captivos e escravos da mais soberba,
odiosa, e aborrecida nao que ha no mundo todo; no smente aos
portuguezes a quem foram em tudo inimigos; e, no sem muita causa, tem
esta m nao tal fama, porque se tem isto claramente visto no caso de
Lisboa, e das mais terras por onde o arraial passou; a saber: fizeram
todos os roubos, estupros, e adulterios, homicidios, e tyrannias,
desaforamentos, commettidos por castelhanos de nao, sendo n'esta parte
mais comedidos, e humanos os tudescos, e allemes. Smente os
castelhanos fizeram tantas affrontas, crueldades, sacrilegios a homens
nobres, a mulheres honestas, a religiosos desarmados, at nas igrejas, e
mosteiros de freiras, como se viu na igreja de Bellas, no mosteiro de
Monchique, e Vairo[7]. Muito melhor nos fra morrer mil mortes, que
vr, nem chegar a taes tempos. Basta que cumpriram seus desejos nossos
inimigos capitaes, e chegaram a nos dizer nas barbas com muito gosto, e
soberba quando nos viam tristes: Teneis de tragar este bocado. E de
tal maneira nos tem o p no pescoo que nem para chorar nossas
desaventuras nos do licena; e, se no fra estarem ainda as cousas no
ar, sem assento, j os desterrados com titulo de despacho houveram de
ser tantos os occupados nas guarnies de Flandes, Napoles, e Italia,
que se no vira j mais portuguez de capa preta andar pelas ruas como se
costuma em Galliza.

O terceiro inconveniente no menos para sentir que os outros, o qual
vai ainda em crescimento,  que as donas illustres, e as fidalgas
portuguezas tidas sempre em tanta venerao, e respeito dos
estrangeiros, acreditadas por todo o mundo por muito castas e honestas,
at nos vestidos, vencidas da cobia dos _reales_, ou da desenvoltura
dos castelhanos, esquecidas de sua fama e honra, e do sentimento que
devem ter da desenvoltura de sua nao, maridos, e parentes, to
desenvoltamente os namoram, e se lhes entregam, que disparam em mulheres
de mancebia, que em outros tempos se estranhava muito, e que n'estas
senhoras se v agora publicamente. J no podem vr portuguezes, nem os
proprios maridos. So tantos os adulterios, e deshonestidades suas, que
os mesmos castelhanos e italianos andam espantados d'ellas, que chegaram
a dizer que se no podiam defender d'ellas, e que elles eram os
acommettidos. As visitaes do arcebispo de Lisboa mofinas so taes que
j chegou um cura a nomear algumas fidalgas por publicamente amancebadas
com castelhanos. Na noite de S. Joo d'este desaventurado anno de 81, se
acharam algumas senhoras mo por mo com os castelhanos a vr as
fogueiras. Tambem vo j tomando posse das carroas de Roma, e das
carretas de Sevilha como cortezs de Castella. Os casamentos com
soldados picaros foram infinitos nas estaes das igrejas de Lisboa.
Deus nos livre dos males, que estes nos vo ameaando, para que antes
d'estes lanarem raizes, tenhamos rei natural e portuguez, e que nos
ponha com Castella no andar em que esto os chinas com os tartaros, dos
quaes affirmam que fizeram um muro por arraia de trezentas leguas quasi,
ou como estamos com os mouros nos lugares d'Africa fronteiros, e para
isto se effectuar suavemente, inspire Deus no peito de v. exc., e dos
mais senhores fidalgos d'este reino animo, esforo e lealdade para que
se ao diante houver alguma occasio de se restaurar a liberdade
portugueza, ainda que seja com o soccorro de turcos e mouros, o aceitem,
e lancem mo d'elle; pois que, se o no fizerem assim, estou j vendo
que perderam todos seus estados, a patria, e muitos a vida. E sentirei
muito como portuguez leal saber l na outra vida, para a qual estou j
de caminho, que defendem os meus naturaes com mr esforo seu captiveiro
(mandando-lhe Deus remedio), do que mostraram em defender sua liberdade.

Muitas cousas das que n'esta carta vo, vi com meus olhos, antes de
condemnado a tratos, pelos quaes o lutherano de Paulo Coelho, meu
natural, e oppositor em Coimbra mandou pagar dinheiro aos que m'os
davam, e depois me sentenciaram que fosse degolado por final sentena,
que meus inimigos deram contra mim por amor de meu rei e patria; parte
d'estas cousas vi c em revelao, e outros muitos males que aos
principaes d'este reino esto ameaando, cujos nomes no digo, porque
cedo sahir um rol geral dos portuguezes herejes, e arrenegados,
juntamente com os dos leaes na f catholica de sua patria e nao: para
que, quando Portugal resuscitar, e Deus der n'elle rei natural, se saiba
na santa inquisio futura da lealdade portugueza a seita erronea que os
maus seguiram, e se faa justia d'elles, e de suas fazendas conforme as
santas leis d'estes reinos, ao qual Deus tem promettido de conservar
eternamente. Dada no Seio de Abraho a 20 de junho de 1581.

                                                           PEDRO D'ALPOEM.

    [1] D. Constantino de Bragana.

    [2] Lisboa.

    [3] Em um dos seguintes numeros daremos traslado da conta que os
    espias deram a Philippe II do seu exame em Portugal.

    [4] Provavelmente os avs dos quarenta fidalgos da restaurao.

    [5] Tordos ou estorninhos.

    [6] Todos os fidalgos d'estes appellidos arrebanharam as melhores
    commendas em tempo de D. Joo IV.

    [7] Em nenhum livro, ou ainda tradio oral se nos deparou esta
    novidade.




OS SALES


CAPITULO III

VOX POPULI

    A definio mais exacta da democracia  chamar-lhe o reinado da
    justia.

                                . . .

    Il n'y a que deux choses qui puissent sauver la socit: _la
    justice, et la lumire_.

                                                         BASTIAT.


O papel do veterano e operrio dizia assim:


O que  a democracia?

 o governo do povo pelo povo-- a omnipotencia soberana de toda a
nao-- o predominio do poder popular em qualquer governo.

Quanto mais um estado social se aproxima do ideal da justia, tanto
mais se confundem os interesses particulares com os interesses publicos.

A democracia , entre todas as frmas de governo, a que melhor
corresponde s exigencias da verdadeira justia social.

Mas no nos illudamos. Estudemos-lhe os perigos, e evitemos-lhe os
inconvenientes. Para que um paiz verdadeiramente democratico possa
crescer, engrandecer-se e prosperar, carece de certas e determinadas
condies. A democracia nunca surgiu, nem se manifestou na infancia das
sociedades.

Pelo contrario--a democracia exige uma civilisao largamente
desenvolvida, a completa ausencia das classes privilegiadas, a excluso
absoluta da nobreza hereditaria, uma certa homogeneidade nas populaes,
uma grande diffuso de luz--pela instruco--, o desejo real da paz
interna, e externa, e a intelligencia, e o trabalho, como unicas fontes
da riqueza, da prosperidade, e da considerao publica. So os perigos,
e a morte inevitavel da democracia os privilegios das castas, o espirito
de conquista, a ignorancia, a ociosidade, e a falta de educao em todos
os ramos, e nas diversas aptides de todos os homens, que compe uma
nao.

Os erros, e os vicios que sepultaram as republicas da antiguidade
servem-nos de luzeiro, e so o pharol, para nos indicarem as condies
em que a humanidade deve viver, nos rasgados horisontes do futuro.

No se illudam com a Roma pag. Nunca conheceu a democracia--nem nas
preconisadas frmas tribunicias da republica, nem nas grandezas, e no
fastigio do imperio.

As republicas podem ser, e algumas d'ellas teem sido, excessivamente
aristocraticas.

A democracia no pde nunca eslabelecer-se em Roma, por diversas e
ponderosissimas causas.

De passagem mencionaremos algumas d'ellas.

Durante cinco seculos, foi o governo de Roma a guerra declarada ou
latente, entre dous corpos sociaes inimigos. Era o antagonismo das
classes, era o espirito de conquista, era a falta de homogeneidade nas
populaes, era a variedade de crenas, era a hedionda e asquerosa
ociosidade das massas, era a escravido, repugnante e execranda,
decretada na lei, era a ignorancia do povo, que o trazia submerso nas
trevas espessas da peor das servides, e que lhe abria abysmos na
consciencia. Ora, a desigualdade de cultura intellectual  a agonia
lenta da democracia, e a arma mais poderosa da ignobil tyrannia do
poder.

Alumiemos o tugurio do proletario, levemos a luz da instruco at ao
antro mais recondito da desgraa.

Que as ondas de luz se diffundam, emittidas pelas ultimas classes
sociaes. Todos os despotismos fugiro espavoridos, porque so elles, na
sua pueril tyrannia e oppresso teimosa, os escravos das ridiculas e
insustentaveis tradies de pocas que passaram.

Interroguemos o seculo.

Perguntemos aos democratas: quem sois?

Somos milhares de familias, menos algumas--a classe media, e a
nobreza--que queremos um regimen de igualdade, em que honradamente
possamos viver do fructo do nosso suor, sem olhar com inveja nem
despeito para o patrimonio de ninguem. Vs, as classes privilegiadas,
vs, que vos dizeis distinctos pela casta, pela raa, pelos nomes que
sabeis de vossos avs, tendes arvores genealogicas, e apresentaes-nos
pergaminhos carcomidos pelos seculos.

Nascemos ns hontem por acaso?

Vimos de to longe como vs. Dizeis-vos catholicos por
excellencia--pois estudai, no genesis biblico da vossa crena, a origem
de todos ns. Os nossos brazes no datam de nenhum salteador afamado,
que responderia hoje, se existisse, em audiencia criminal, e soffreria,
pelos seus feitos e faanhas, a pena de priso cellular ou de degredo
para os climas africanos. Os nossos titulos de nobreza no os devemos a
complacencias cortezs, nem  officiosidade torpe e obscena de alguns
avoengos, derreados junto dos thronos, a levar da ante-camara para a
alcova as Messalinas, Pompadours e Dubarrys, que no sabiam, nem sabem
resistir  lascivia e impudicicia dos reis. No foi nos prostibulos, nem
nas encruzilhadas, que calaram os nossos avs as suas esporas de ouro.
Cingiram elles, com mais lustre e gloria, a espada de cavalleiros. Vem
de mais longe os nossos brazes, e esto gravados, por frma indelevel,
na superficie do globo.

Quereis vl-os? Examinai-os. Os titulos nobiliarchicos, que possuimos,
datam do primeiro homem, que cavou o solo, que accendeu o fogo, que
descobriu e bateu o ferro, que sulcou a terra com a relha do arado, que
desenterrou e fundiu metaes, e que devassou, no primeiro fragil lenho,
as vastas solides do oceano.

Fomos ns que metamorphoseamos este globo, triste, arido e deserto,
n'um paraiso esplendido e animado. Creamol-o segunda vez, para cumprir a
palavra de Deus, que nol-o deu para este fim: _ut operaretur eum_.

Se os cos celebram a gloria do Eterno, se, como clamava o psalmista, o
firmamento annuncia e proclama as obras do Senhor, a terra--que  a
nossa obra--narra a nossa propria gloria.

Fomos ns que lhe fendemos a crusta, que a semeamos, cultivamos,
aformoseamos, cobrimos de monumentos, que, como perolas desenfiadas,
rolaram pela vastido das campinas, e que lhe demos, como cinto da sua
propria formosura, essa rede infinda de estradas e canaes, que se
cruzam, e estendem por toda a amplido da esphera terrestre. Fomos ns
que descemos ao centro das suas entranhas, para lhe extorquir os seus
inapreciaveis, e inexhauriveis thesouros. No ha flr, que desabroche
nos campos, no ha espiga, que se erga robusta, em toda a vastido da
cultivada leziria, no ha fio de linho, nem de algodo, nem de sda, no
ha lamina de ferro, de ouro, ou de platina, no ha pedao de pedra,
prancha de madeira, capitel de columna ou mastro de navio, que no
conserve o cunho das nossas mos, e o perfume do nosso amor. Sim, o
perfume do nosso amor--porque o trabalho  a orao--e o perfume do
nosso amor  o incenso e a myrrha, que acompanham as nossas offerendas
ao Eterno.

Subi da galeria subterranea das minas at  cupula das sumptuosas
basilicas, e das calhedraes mais augustas e imponentes, sahi das
elegantes capitaes da civilisao moderna e devassai as praias selvagens
mais longinquas, encontrareis, em toda a parte, os passos dos filhos do
povo: _a democracia_.

Somos o lavrador, que prende os bois ao arado, e que sulca a terra
laboriosamente--o nosso insaciavel e inesgotavel thesouro. Somos o
segador, que ceifa o trigo, nas ardentes, e afflictivas calmas do estio;
o robusto ceifeiro, que corta, nos prados, esmaltados de papoulas e
boninas, o alimento constante dos rebanhos; o vinhateiro, que poda,
empa, e cava a vinha; o navegante, que se afadiga em transportar os
artefactos da creao humana; e o commerciante, que leva e faz circular
em todas as zonas habitadas--como o sangue nas arterias--os succos da
terra, e os productos das mais variadas industrias.

Ns somos o operario curvado sobre o tear, o mineiro, que vive
soterrado, e arranca das entranhas da terra o carvo, que alimenta a
machina, multiplicando os productos; o ferreiro, que forja e bate o
ferro; o carpinteiro, que aperfeioa e adelgaa a viga; o pedreiro, que
abre os caboucos, e levanta os muros do edificio; a fiandeira, que
estende na roca a estriga de linho; o tecelo, que faz o panno,
transformado em enxoval da familia; o soldado, que vela nos limites
sagrados do solo da patria; e o marinheiro, que atravessa os mares,
levando bem alto o pavilho, que  o emblema d'um povo, e o estandarte
sacrosanto do seu paiz.

Ns somos tudo. O nosso nome  _legio_.

Somos ns, que nutrimos, vestimos, e abrigamos a humanidade, e que lhe
damos a paz, a abundancia, o repouso moral, e a tranquillidade publica.
As artes, que alindam, e encantam a vida, as letras, que robustecem,
desenvolvem, e fortificam a alma, as sciencias, que a illuminam, e
esclarecem, somos ns, que as cultivamos, que as honramos, e
desenvolvemos. Quaudo fallamos, quando reivindicamos os nossos direitos
 sempre pela voz dos nossos apostolos.

Temos tido guerreiros para vencerem, poetas para cantarem as nossas
fadigas, e as alegrias modestas do nosso lar, e artistas para
commemorarem os nossos heroismos no trabalho, e esculpirem, no bronze,
as imagens dos grandes inventores.

Temos tido operarios, para crearem machinas maravilhosas, e astronomos
para nos narrarem as maravilhas dos cos, devassando os esplendores e
magnificencias do universo. As lentes, preparadas por ns, teem-nos
feito conhecer, pelo telescopio, os globos luminosos que giram no
espao, e teem descido comnosco, pelo microscopio, aos mundos
infinitamente pequenos.

Os raros talentos d'essas ociosas, e rachiticas aristocracias, d'essas
estereis, e inuteis classes privilegiadas, quando lhes estala a ultima
corda da lyra, nas tristes estrophes das suas sinistras e tenebrosas
lendas de familia, vem sentar-se na lareira do povo, e buscar ahi as
harmonias mais sonoras, mais suaves, e mais duradouras--as unicas que
ho de achar echo nos seculos do futuro--as lutas incessantes, pelo
progresso, em que lida a gerao actual. A sua derradeira cano  para
o povo: o canto do cysne  o hymno da democracia.

Ns somos a arvore gigante e immensa da humanidade, com as raizes
perdidas nos limbos do passado, com o tronco vigoroso, que resiste aos
embates dos tempos, com os festes de flres que desabrocham, e
emmurchecem passando, e com os fructos sazonados do presente, na
esperana das odorferas flres, que, com o seu calix radiante de vida,
ho de perfumar o espao no futuro.

Eis-aqui a democracia.

E quem so os seus adversrios junto d'esta frondosa e copada arvore da
humanidade?

So os cogumelos parasitas e venenosos, que vegetam  sombra d'este
cedro magestoso e secular.

Os privilegios e as castas so o absurdo, so a torpeza dos costumes,
so o desconhecimento completo do seculo que atrevessamos, so as
tristes relquias das pocas feudaes, so os distinctos das ridculas
nobiliarchias byzantinas, so a ignorancia e o odio ao trabalho, so,
finalmente, a proteco dada em premio, por feitos e aces, que, as
mais das vezes, tem sido um poderoso obstaculo ao progresso, e 
civilisao da humanidade.

As recompensas, as glorificaes, e as apotheoses, quando justas,
quando bem merecidas, quando conquistadas pela aptido, pela sciencia,
pela arte, pela industria, pela propria virtude ou pelas grandes
dedicaes, so vitalicias, e passam  posteridade com o nome que se
engrandeceu, e vem a historia esculpil-o nos marmores dos seus fastos.

A democracia, como hereditario, s reconhece um direito, um dever, e
uma nobilitao para o homem:  o trabalho.

 absolutamente necessario que se contem todos os partidarios sinceros
e leaes da justia, e que pela palavra, pelo livro, e pelo exemplo,
arrastem os indecisos, e abandonem o restante--os poderosos do
dia--aquelles, que no aprendem, nem esquecem nada.

Attendam a que chegou a hora, em que a menor hesitao, a menor duvida,
o menor passo irreflectido, ou a mais timida concesso, podem fazer
recuar, para muito longe, o reinado da justia--o governo do povo pelo
povo.

E povo somos ns todos, que vivemos debaixo do mesmo co, sujeitos s
mesmas leis, e que exercemos, na sociedade, funces e misteres
diversos, mas igualmente uteis e necessarios.

Hoje, ha uma s nobilitao:  o trabalho.

Trabalhemos todos para a revoluo nos espiritos--porque concorremos
para o advento da verdadeira liberdade, para o governo da justia
social, e para a emancipao da humanidade.

E assim realisaremos a democracia.

      *      *      *      *      *

Terminava aqui o papel, escripto pelo ancio, condecorado em Souto-Redondo.


O MANUSCRIPTO DO DESEMBARGADOR


IV

CARTHAGO

    Cturum, censeo Carthaginem esse delendam.

                          MARCUS PORTIUS CATO.

    L'histoire n'est pas seulement un drame, elle est une justice.

                                                        LAMARTINE.

    A philanthropia ingleza  puramente mercantil, assim como o so
    todas as suas virtudes, que deixam de o ser logo que se no
    conformam com os seus interesses.

                                                FREIRE DE CARVALHO.


Na deslumbrante e magnificente descripo da aurora biblica do nosso
globo, diz o Genesis, que o Espirito de Deus era levado sobre as aguas:
_Et Spiritus Dei ferebatur super aquas_.

Parece que a magestade divina escolhera este elemento, na sua esplendida
grandeza, para encetar a obra da creao.

Seja assim n'este modesto trabalho.

Busquemos os primeiros sales do nosso seculo nas solides immensas do
oceano. E a Carthago moderna, a nobre e fiel alliada de Portugal,  luz
sinistra do execrando bombardeamento de Copenhague, em 1807, ao claro
avermelhado dos primeiros foguetes do coronel Congrve, ensaiados no
acto da mais atroz e inaudita pirataria, mostrar-nos-ha o Bellrophon, o
Windsor Castle, e o Belfast, tres sales em que a f punica da
Gr-Bretanha se expandiu, no seio das ondas,  sombra das suas
flammulas, que so a divisa dos bastardos da raa latina.

Ha duas infancias na vida: a juvenil, e a senil. Perdoem ao homem, que
j v a sombra projectada na beira do fosso da sua ultima jazida, estes
echos longinquos, que vem ferir-lhe o tympano nas vesperas da sua
dissoluo physica.

Convm que nos entendamos:

A Carthago na designao latina, a Karkhdn no vocabulo grego, a
Kereth-hadeshot ou em pronunciao dialectica Karth-hadtha, segundo os
termos punicos e phenicios, finalmente a cidade nova pela traduco e
tradio da capital carthagineza significa, para mim, na actualidade, a
futura ruina da rainha dos mares, da soberba, orgulhosa e egoista
Albion. E nada mais.

Deixemos passar as correntes historicas.

A analyse verdadeira, justa e consciente d'uma s e severa critica atira
s faces dos romanos com esse ignominioso epitheto de _f punica_, que
s a elles cabe na antiguidade das ambies latinas, e no ardiloso
espirito dos Machiaveis da Italia, transmittido at ao ultimo papa. E a
mais ninguem.

Desde Romulo at Antonelli so vastas as concepes de perfidia,
erguidas, a principio, no capitolio, para ficarem mais tarde, como
tradio e doutrina, nos sales do vaticano.

Havia um dia em Roma, em que, ao commemorar o supplicio e resurreio de
Christo, subia s sumptuosas varandas da basilica de S. Pedro o
escolhido entre os bispos, arremessava o facho do incendio, o emblema do
inferno  praa publica, anathematisava os herejes, e invocava sobre
elles a colera do Eterno.

Era a f punica, na singela e curta interpretao de Scipio o Africano.

A igreja catholica, na ingenuidade d'estas crenas ferozes, segue as
tradies latinas, e a innocencia virginal de Scyla, de Mario, de Nero,
de Constantino, de Alexandre VI, de S. Domingos, e de todos os Simes de
Monforte, e de todos os Torquemadas da religio do operario nazareno.

Olhemos para Carthago.

Vejamos o que era a f punica.

A cidade phenicia assombrava Roma. Dobrava-se, porm, aquella diante do
orgulho da cidade de Romulo. Curvava-se submissa a raa semitica na
presena do povo indo-europeu. Carthago sujeitra-se  dura condio de
no defender os seus direitos, nem a sua propria independencia sem
authorisao de Roma. Aproveitou-se Massinissa, principe da Numidia,
d'este abjecto e humilissimo pacto, para avassallar o emporio das
riquezas d'Africa;--e quando a commisso, enviada pelo senado, voltava
ao Lacio, depois de ter fomentado e atiado a discordia, Cato--no seu
odio implacavel, e cego pela torpe e abjecta cubia, que o movia,
terminava constantemente os seus discursos com a celebre phrase, que
revelava toda a negrura d'aquella alma: E de mais  preciso destruir
Carthago--_Delenda quoque Carthago_.

E quando Carthago, confiando na lealdade romana, entregava e depunha
todas as suas armas e machinas de guerra, ficando indefesa, e
inerme--agradecia-lh'o com a mais hypocrita e pungente das ironias, o
consul Marcio Censorino, dizendo aos carthaginezes: Louvo-vos pela
vossa prompta obediencia em cumprir as ordens do senado. Sabei agora a
sua ultima vontade: manda-vos sahir de Carthago porque resolveu
destruil-a.

E mais tarde--ardia dezesete dias a cidade nova dos phenicios, por ordem
expressa do senado, e, na voragem e horror do incendio, saqueava a
soldadesca infrene as immensas riquezas, que sete seculos alli tinham
accumulado.

A f punica  uma calumnia historica, inventada pelos romanos, cujo odio
e ciume, sem repouso nem tregoa, sobreviveram  carnificina mais cruel e
hedionda de que rezam as chronicas e lendas da antiguidade.

Aceitemos, pois, Carthago como a imagem do aniquilamento, e da
destruio.

Seja a f punica, na inverso da phrase, o estigma e ferrete da lealdade
latina.

A Gr-Bretanha ser a Carthago do futuro, como , na sua machiavelica e
perfida politica, a Roma do passado, do presente e do porvir.

Alliana e alliados, na bocca de qualquer governo inglez, diz um
escriptor liberal, quando no so palavras enganadoras, so, pelo menos,
palavras sem sentido.

Sem sahirmos do seculo XIX, desde o porto da capital da Dinamarca at s
muralhas de Metz e trincheiras de Sdan, so longas e monstruosas as
provas da f britannica, e da lealdade ingleza. Hudson Lowe, o
carcereiro do Prometheo moderno--imagem do abutre roendo-lhe as
entranhas nos rochedos de Santa Helena, ser a ignominia e affronta
eternas dos algozes da Irlanda.

Estamos nas amuradas de Bellrophon.

Entremos no convez.

Antes do desenlace final d'esta tragedia antiga, que parece modelada por
Sophocles ou Euripides--escrevia Napoleo ao principe regente de
Inglaterra a seguinte carta:

                                                              Alteza Real.

Alvo das faces, que dividem o meu paiz, e da inimizade das grandes
potencias da Europa, acabei a minha vida publica, e,  semelhana de
Temistocles, venho sentar-me no lar do povo britannico. Abrigo-me 
sombra das suas leis, e para isso invoco vossa alteza real, como o mais
poderoso, o mais constante, e o mais generoso dos meus inimigos.

                                                              _Napoleo._

Responder com um asylo magnanimo, e grandioso a esta invocao escripta,
teria sido para a Inglaterra a mais nobre das vinganas, e a pagina mais
magestosa da sua historia.

Irrisoria illuso! A orgulhosa Albion no vive de gloria: vive de
dinheiro. Quem deixou mutilar a Polonia, quem escravisou a India, quem
fomentou a guerra civil nos Estados-Unidos, quem viu impassivel as
desgraas da Frana, e quem subjuga, pisa, e tortura a Irlanda, escolheu
adrede os leopardos, para insignia e emblema heraldico dos seus armazens
da _city_. A Inglaterra  a feira da Ladra da Europa. Seja assim para
honra da raa latina, onde no ha filhos espurios dos chatins do
Oriente.

Napoleo vestiu aquella farda dos caadores da velha guarda, como se
estivera em Marengo, Austerlitz ou Iena. Entrou com o general Becker, e
com os legionarios dedicados da sua heroica Iliada, n'um escaler--ultimo
refugio das suas glorias--e subiu para o brigue francez, que ia leval-o
 esquadra ingleza. Becker quiz acompanhal-o n'esta via dolorosa. No,
no, general, bradou-lhe o vencedor de Arcoli, cuidemos da Frana. Se
entrardes commigo no Bellrophon diro que me entregastes aos inglezes.
No quero que a Frana soffra a responsabilidade, a suspeita, e nem
sequer a apparencia d'uma traio tamanha.

A bordo do Bellrophon estava o commandante Maitlaud, os seus officiaes,
e toda a equipagem esperando o vencido de Waterloo. Dias depois entrava
na bahia de Plymooth o Bellrophon s ordens do almirante Keith, que o
recebeu com o respeito obrigado com que o visitra a bordo d'um ponto
inglez o almirante Hotham.

A Inglaterra aceitou a affronta e o escarneo das potencias alliadas.
Disseram-lhe estas no artigo 2. da sua famosa declarao: A priso de
Napoleo Bonaparte  confiada especialmente ao governo britannico.

Foi a Inglaterra o carcere, foi o traidor, e foi o algoz.

Aceitou tres papeis infames.

Entregou  Europa o banido, que lhe vinha pedir refugio e hospitalidade,
investiu-se na misso execranda de carcereiro, e gizou, com a sua fertil
imaginao, o carcere da aguia da Corsega, o antro onde ia sepultar o
genio das batalhas.

Cuspam na memoria, em parte talvez calumniosa, de Judas de Kerioth, no
drama sanguento de Jerusalem, e respeitem e curvem-se reverentes diante
dos suffetas da Carthago britannica.

Arrancaram-lhe a espada epica das cem batalhas, quando elle, abandonado
e indefeso, meditava encostado  proa do seu carcere fluctuante--e foi
preciso, que o genro do imperador da Austria, o antigo tenente de
Toulon, os encarasse face a face, para que os almirantes da velha Albion
estremecessem de vergonha, e corassem de pejo, satisfazendo-se, no seu
vil orgulho, com as adagas de Bertrand, Savary, Lallemand, Gourgand, e
de todos os outros legionarios d'esta phalange homerica.

Napoleo no sabia chorar. Passou impassivel por sobre quatrocentos mil
homens, que juncavam os gelos da Russia. Viu immovel os desastres de
Leipsick. Escutou silencioso, em Fontainebleau, o ruido surdo da
catastrophe quando o imperio desabava. Afastou-se de Waterloo sereno,
implacavel e severo como o destino--e nem uma lagrima deslisava por
aquellas faces, assentes n'um busto grego, e que pareciam rasgadas pelo
scopo de Phidias, como ornamento do mais vasto craneo, que a Providencia
ousou modelar.

Mas rebentou em pranto desfeito, e corriam-lhe as lagrimas como em
torrente caudal, ao lr os pormenores aviltantes da segunda occupao de
Paris.

No era o imperador, no era o general, no era o tenente d'artilheria,
no era o corso: era o ultimo dos francezes, se assim querem--que
chorava de vergonha e de raiva ao vr a nobre e formosa terra das
Gallias pisada vilmente pelos cossacos do Don, e pelos ignobeis escravos
do Czar de todas as Russias.

Virtude, tu no s mais do que um nome!--Estas palavras, attribuidas a
Bruto, e que so apenas a citao d'um verso da _Meda_ de Euripides,
vieram reboar em Sdan, e feriram, ainda n'esta gerao, as traies, as
insidias, e os ardis do segundo imperio, que cahiu a pedaos esphacelado
e podre sob as garras da aguia da Prussia.

O almirante Keith recebeu o ultimo protesto de Napoleo. Era o seu
testamento de vingana arremessado  posteridade.

Terminava assim:

Appello para a historia: dir ella que um inimigo, que durante vinte
annos combateu o povo inglez, veio, em liberdade, no seio do seu
infortunio, buscar um abrigo  sombra das suas leis--que demonstrao
mais brilhante podia elle dar da sua estima, e da sua confiana? Mas
como respondeu a tanta magnanimidade a Inglaterra? Simulou estender-lhe
mo hospitaleira, e quando o segurou nas garras, quando elle se lhe
entregou na grandeza da sua boa f--trahiu-o, e immolou-o.

O nome do heroe firmava este protesto. Foi com a mo habituada a
empunhar a espada da victoria, que o vencedor dos reis, escolhidos por
direito divino, escreveu: Napoleo.

Pouco depois, um vaso de guerra, o Northumberland arrostava as vagas do
oceano, levando a seu bordo o homem, que fra o terror do commercio da
Inglaterra, e o missionario inconsciente da liberdade europa.

E no meio d'uns rochedos de granito, na solido dos mares, na insulao
completa de todas as aspiraes d'aquella vasta e grandiosa
intelligencia, amarravam ao poste da mais tremenda perfidia o homem, que
o mundo inteiro acclamra imperador, e a quem a Inglaterra, mesquinha e
ridiculamente, nos seus odios e pavores vilissimos, regateava o _ave!
imperator!_ que duas geraes lhe votaram, mandando-o appellidar
seccamente: o general Bonaparte.

Detesto o heroe, mas choro ao lado do martyr. Curvo-me perante os altos
designios da Providencia, que levantou sobre os broqueis da victoria o
Attila moderno, o aoute de Deus--e vlo a fronte cheio de horror e de
indignao, quando considero este homem feito  imagem do Creador,
caminhando sobre cadaveres, na sua sde insaciavel de conquistas; e por
um rasto de sangue humano subia ao throno das monarchias do occidente,
depois de perdidas as illuses com que sonhra o imperio da Asia.

Morreu em Santa Helena, no seio dos mares, para alm das lutas
democraticas da Europa, o mais ambicioso dos conquistadores, e o maior
genio d'este seculo.

Alexandre lia Homero. Napoleo meditava os commentarios de Cesar. E
Alexandre, Annibal, Scipio, Cesar, Attila, Frederico II, e Carlos XII,
so pallidos meteoros, que fulgiram, e passaram diante d'este esplendido
luzeiro, d'esta magestade immensa, que, como o astro do dia, tingindo de
purpura o firmamento, vai immergir-se lentamente nas vastas solides do
oceano.

Hudson Lowe foi a synthese dos odios selvagens, e das cubias
inexcediveis da nao ingleza.

Por mais que a Inglaterra simule os enthusiasmos d'um povo livre, por
mais que apparente respeitos, e affirme sentimentos generosos, e
magnanimos--em quanto Santa Helena fr uma ilha e Hudson Lowe uma
verdade historica, temos ns todos, ns--raa latina--o direito, e o
dever de lhe atirar s faces, no soberano desprezo da nossa lealdade,
com um nome s:--o nome do Bellrophon.

Este vocabulo  o epitaphio sinistro, lugubre, e affrontoso da
generosidade britannica.

                                                       VISCONDE D'OUGUELLA.




MANOELINHO DE EVORA


 errada a presumpo historica de que o _Manoelinho_--pseudonymo
grutesco de uma assembla de revolucionarios--figurasse to smente nos
decretos expedidos durante o levantamento do povo eborense, acaudilhado
por Sezinando Rodrigues e Joo Barradas, em 1638.

Consigne-se de passagem que eu ainda no vi algum d'esses decretos, nem
D. Francisco Manoel de Mello, o mais detenoso historiador dos tumultos
de Evora, nos transmittiu traslado de algum.

Representaes a Filippe IV, e satyras aos portuguezes infamados de
hespanholismo, em fim a gazeta manuscripta, como ella podia
clandestinamente correr n'aquelle tempo, comeou a circular, em 1635,
logo depois, que a duqueza de Mantua chegou a Lisboa.

Entre os manuscriptos relativos  ultima decada do nosso captiveiro,
possuo dous.  um assignado por _Manoelinho menino_, em Evora, aos 29 de
agosto de 1637, poucos mezes antes do motim: _Uma carta que os meninos
de Evora mandaram ao bispo do Porto_.

Este bispo era D. Gaspar do Rego, nomeado n'aquella prelazia n'esse
mesmo anno, anteriormente bispo de Targa, muito affecto a Filippe IV de
Castella, e um dos tenacissimos alvitristas dos impostos sobre a sua
patria. O seu biographo padre Agostinho Rebello da Costa (_Descripo da
cidade do Porto_, pag. 83) exalta-lhe as virtudes prelaticias, a termos
de o sentar no refeitorio comendo com a sua familia, virtude que todos
ns possuimos pouco mais ou menos.

Mas nem essa lhe concediam os detrahidores que se chamavam os _Meninos
de Evora_; e eu no sei o que lhe fariam em 1640, se elle no tivesse
morrido em 13 de julho de 1639, fra da sua diocese em Lisboa, onde o
tinham chamado Miguel de Vasconcellos e os outros que se temiam do rugir
soturno do vulco popular.

Vai vr o leitor pela primeira vez, se me no engano, qual era a prosa
do _Manoelinho_. No proximo numero d'estas _Noites_, lhe darei amostra
das musas acamaradadas com os heroicos revolucionarios de Evora.

Eis a _carta_:

 noticia d'esta cidade chegou, reverendissimo bispo tyranno, ser v.
s. a origem de que este reino to catholico padea oppresses to
insoffriveis, como elle testefica no miseravel estado em que se v,
tomando-vos para executar a mais infame empresa que em nossos tempos
vimos, nem de nossos antepassados sabemos;--que at considerada
envergonha. Porque, quando a desventura chegasse a tanto, que, como por
prophecia, houvesse alguem de tyrannisar a patria, fosse o fidalgo
pobre, rico de filhos e falto de rendas; e ainda n'este, depois de
satisfeito, cessaria a ambio. Mas um prelado, a quem havia de faltar o
tempo para dar graas a Deus de o chegar a ser, e que aos pobres havia
de dizer: _tribuo vobis pro omnibus qu retribuis mihi_--gro maldade! e
com razo podem dizer por vs o que Plato por Dionisio: _Vidimus
monstrum in natura honimis_.

Que naus vistes entrar n'estes portos? Que frotas vistes vir l das
Indias? Que riquezas n'este pobre reino? E que farturas n'este nosso
Alemtejo que, como filho to mimoso de seus paes, sentiu como de
padrasto o po de vosso alvitre? Mas a verdade, Aquelle que  a mesma
verdade, diz no _Deuteronomio_, cap. 4: _Colligite ex vobis viros
sapientes, et nobiles_. A sciencia em vs  em tudo um retrato natural
da de Nero, que aprendeu todas tendo por mestre ao grande Seneca, e foi
um dos mais torpes tyrannos do mundo, at chegar a matar sua propria
mi, como vs agora quereis fazer  amada patria; porque em fim,
sciencia sem virtude, no vem a ser uma nem outra cousa; mas elle j
nenhuma professava, e vs professaes ambas, e no exercitaes alguma. A
nobreza conservam os que carecem d'ella, e o dar-lhe nascimento, na
benigna clemencia,  para que, convocando os animos, esqueam a baixeza
dos seus progenitores. E vs, pelo contrario, querereis dar vida s de
Antonio Fernandes, vosso pai, e de Anna Antonia, sua mulher... Os
extremos todos so maus. Temos rei catholico, no o faaes tyranno; 
principe benevolo, no o faaes cruel. Deixai Portugal ser pobre j que
vos deixou ser bispo. No vdes que por Targa ser de herejes, vos
fizeram do Porto? e que por o Porto no querer, vos faziam de Coimbra?
As cidades so como os parentes; corre-lhes a dr pelas veias como o
sangue a ellas. Ao menos estai advertido no salto em claro que haveis de
fazer por este arcebispado, tomando o p atraz como Sebastio de
Mattos[8], mas no seja d'estas partes. No sei se vos podero valer os
fros das casas de Luiz de Miranda. O cavalleiro, se lhe chamam tardo,
madruga; se desbocado, cala-se; se demasiado, tempera-se; se adultero,
abstem-se; se peccador, emenda-se; mas, se  traidor  patria, no ha
emenda nem desculpa. Sabei que a propriedade d'este reino foi sempre no
desobedecer nunca ao seu rei, nem deixar-se mandar de tyrannos, e que
vale mais pobre, dando pouco, que desesperado.

De muito atraz trazemos por criao a distribuio de tres cousas: a
alma para Deus, o melhor para ns, e a fazenda para el-rei; e quem se
viu n'isto, no duvda dar quartos, mas quintos para quintas; e por
vosso conselho no havendo n'este reino quintaes (digo de arvores, que
de canella j nem sabemos de que cr ) soffre-se mal. E se vs quereis
excessos para a patria, e permittir-se contra ella o favor que houve
Nuno Alvres para Pedralves traidor, a quem o co subverteu, haver
meninos em Evora para Gaspar do Rego se abrazar.

Por Ithaca, nobre ilha de asperos penedos, passou Ulysses immensos
trabalhos. Disfarado el-rei Codro para libertar a patria, se offerece 
morte; pela patria renunciou o imperio; e Mucio Scvola renunciou a
esperana da vida por a tirar  propria que como vs a perseguia[9]. E
os naturaes que a isto no se oppe vem a acabar n'ella, como Annibal em
Carthago e Catilina em Roma. Attendei ao que diz o apostolo: _Anna
militi nostr non sunt carnalia, sed spiritualia._ Sois christo, sois
sacerdote, sois prelado, sois natural do reino: dizei d'elle o que
n'elle vdes, informai das Necessidades; e, se no sabeis d'ellas, ahi
amam a caridade, vereis de quantas sois secretario, quantos fidalgos
padecem, quantos senhores acabam, quantas donzellas perecem. Falta o
ouro, a prata; o contracto, por que vs no faltaes, que nem Deus o quer
dar superfluo, nem o necessario se promette dar-se. Perguntando-se a
Alexandre para que queria ser senhor de todo mundo, respondeu: Todas as
guerras que se levantam so por uma de tres causas: ou por haver muitos
deuses, ou por haver muitos reis, ou por haver muitos tributos: quero
ser senhor de todo o mundo e rei para que no haja n'elle mais que um
Deus, nem se conhea mais que um rei, nem se pague mais que um tributo.

Elle era pago, e vs christo; elle rei, e vs bispo; elle creado na
terra, e vs na igreja; nunca ouviu o nome de Christo, e vs jurastes
defender o Evangelho. Parece que muito differe uma cousa das outras. Se
o fazeis por fama, j  geral, pois ns vos sabemos o nome. O vosso nome
 _flagellum patri_. Se o fazeis por interesse, j basta o que tendes;
se mais quizerdes, j c passamos signal; se ns podermos, com o mais
constar a pontualidade... Tende lastima de um reino que, sendo
antigamente um mar, se vai esgotando a Castella por um _Rgo_. Nosso
Senhor vos converta, e vos traga a nossas mos, para augmento d'este
reino, e vida e paz e quietao de seu rei. Evora 27 de agosto de 1637.
Por mandado do povo todo junto

                                                      _Manoelinho Menino_.

    [8] Este Sebastio de Mattos  o arcebispo de Braga que depois
    conspirou contra D. Joo IV, e morreu no carcere.

    [9] No nos parece clara a redaco, ou ha eliso de palavra no meu
    traslado.




A MORTE DE D. JOO

(POR GUERRA JUNQUEIRO)


 um livro de 330 paginas que eu li sem intermittencias.

A poesia  quasi sempre portugueza e dos mais altos quilates; mas a
substancia do livro  estrangeira.

Aquellas podrides, desenhadas do vivo com primorosa execuo, no
fermentam n'este paiz mais atrazado e menos devasso que o restante da
Europa.

 verdade que ha creaturas um tanto putridas nos hospitaes, e l se
dissolvem: peor seria, se no tivessem aquelle paradeiro onde a
misericordia humana lucta com a fatalidade da morte  beira do catre da
agonia.

O D. Joo portuguez, por via de regra, aos quarenta annos, tem a espinha
dorsal amollecida, cauterisa as frieiras e lima os callos. As Imperias,
entre ns, no acabam por tanger cornelim em companhia de ursos; mas tem
ursos e dromedarios, uns Tenorios farinaceos que lhes tornam a velhice
divertida e, s vezes, serodiamente honesta.

No obstante, eu, em Lisboa, conheci um D. Joo, que, tirante a chalaa
e o urso, era o D. Joo de Guerra Junqueiro.

Conheci-o gentil, capito de lanceiros, com um appellido dos mais nobres
do reino, bizarro, petulante, fatuo, bandarreando com os seus cavallos
oriundos da Lybia alli pelo Chiado. Amavam-no as burguezas e as
princezas. Amavam-no to doudamente que se perderiam, se no estivessem
perdidas quando elle as achava. Alli, em Lisboa, um D. Joo acha sempre
uma D. Joanna to boa como elle.

Era isto em 1849.

Onze annos depois, estando eu na _casa-da-saude_, vi entrar, no quarto
de certo doente, um homem maltrapido, com o nariz rubido, a cara
esvurmando brotoeja, os dentes ferruginosos, os beios esfoliados como
escama de sarda de barrica, os olhos broslados de malaguta, e a pupilla
oleosa. Era o capito de lanceiros, que vinha alli visitar um homem que
costumava dar-lhe um tosto para aguardente. E n'essa tarde levou o
tosto e roubou-lhe um relogio de prata, um caldeiro que valia um
quartinho!

--O meu relgio!--exclamava o pobre Sousa Netto-- o que me restava da
minha mocidade!

Sousa Netto orava pelos sessenta e seis; tinha gota, intervallos de
demencia, havia sido tambem D. Joo, e usava constantemente habito de
Christo no peito, mouras vermelhas nos ps, e um capacete de lontra na
cabea.

O outro, aquelle que encontrava Imperias no pao, esphacellou-se na
testada de uma taverna; os guzanos da cova de certo taparam os seus
narizes microscopicos quando o esquife o vasou nas entranhas da
natureza, mi carinhosa do co podre, do homem podre e de tudo que 
perfeito n'este mundo.

O homem espoliado do caldeiro ensandeceu a final, abrazado em
concupiscencias que resfolegavam em colcheias, em decimas, em sonetos,
que me recitava a mim e a Matheus de Magalhes com uns olhos tamanhos e
to accesos que parecia o diabo de Santa Thereza de Jesus.

Estes dous typos teem moldura no poema de Guerra Junqueiro.

      *      *      *      *      *

As mais nervosas e engraadas paginas de versos que eu tenho lido de
lavra portugueza so a parte d'este poema intitulado _Romanticismo_, e a
outra chamada _Os saltimbancos_. So trovoadas de talento. Paradoxos
assombrosos que vos tiram do diaphragma epilepsias de riso.

s vezes, maga uma especie de motejo que parece rebellar-se contra tudo
que grande parte da sociedade respeita. Vem alli de camaradagem com a
ironia implacavel do snr. Junqueiro o estylete sarcastico de lord Byron
e de Alfred de Musset; mas o nosso poeta avantaja-se na crueza das
invectivas contra o dogma, afistulando soberbos versos de um atheismo
que de certo lhe no est no corao, nem na educao nem nos
irreprehensiveis costumes. Tirante isto, ahi  tudo alegria; e at,
quando a musa philosopheia por transcendentes contemplaes, l surde a
palavra comica, o simile galhofeiro, esta cousa moderna que no tem
nome,--uma bella extravagancia que nos regosija. E assim  como se
querem os livros, porque l diz Aristoteles no 2. da _Ethica_, cap. 12,
que _a melancolia corrompe a natureza e faz pasmar o corao_.

      *      *      *      *      *

Este modo de poetar ser o _Ideal_ moderno? , com toda a certeza.
Quando eu era rapaz, o poeta ideal era o ethereo, o metaphysico, o
espiritualissimo. Por tanto, o ideal, segundo Taine, no tem que vr com
o ideal, segundo Lamartine. No livro do snr. Junqueiro, bem que os
carnalissimos assumptos alli poetisados no paream ideaes, abona-os o
indeclinavel legislador n'esta materia. A obra d'arte--diz Taine--pe o
fito em manifestar algum caracter essencial ou relevante, mais perfeita
e lucidamente do que os objectos reaes nol-o mostram. O artista, por
tanto, concebeu a ida d'esse caracter, e, a sabor da sua ida,
transformou o objecto real. Este objecto assim transformado, sahe
conforme  ida, ou, para melhor o dizer-- o ideal. Assim, pois, passam
as cousas do real ao ideal, quando o artista, ao reproduzil-as, as
altera a bel-prazer da sua ida, etc. (_L'Ideal dans l'Art_).

Quer dizer, ao que parece, que o ideal  uma modificao do real a
talante do artista; por maneira que o sobrepor miserias imaginarias s
miserias positivas--exulcerar desgraas inevitaveis com a imprecao de
desgraas ficticias-- o _Ideal_.

Em fim, so seitas, e o impugnal-as quando ellas ainda verdejam 
perigoso: o melhor  deixal-as apodrecer.

O que ha de ficar e sobreviver s escolas (porque o snr. Guerra
Junqueiro de certo no cr em Taine, e  _realista_ na maxima latitude
da palavra) so estas paginas da _Morte de D. Joo_, alumiadas pelos
relampagos do genio. Este livro ser lido por aquelles mesmos que o
malsinarem de propagador de peonha em calices de ouro.  a obra
prodigiosa de uns annos muito em flr. Quando a mo do tempo, a desgraa
dos annos, e algumas noites de meditao dolorosa, levarem  consciencia
do admiravel poeta a imagem da Justia, enquadrada na moldura fatal em
que ha seis mil annos a conhecemos na historia, ento os poemas do snr.
Guerra Junqueiro sero por igual bem versejados, mas muitissimo mais
consolativos para os infelizes que elle deplora com generoso corao.




POETAS E PROSADORES BRAZILEIROS


Seis livros de variada leitura me vieram aligeirar as horas da aldeia,
n'este inverno de junho; que no decantado Minho j no ha primavera nem
estio, nem melros nem rouxinoes. D'esta familia de cantores to gabados
nas eglogas de S de Miranda e Diogo Bernardes abalou-se a especie,
desde que o Minho, policiando-se do agro primitivo da sua natureza
alpestre, estronda com o caboucar das vias-ferreas e o estridor das
diligencias. De rouxinoes restam-nos apenas aquillo que os francezes
chamam _Roussignol  gland_, e _Roussignol d'Arcadie_. Estou a vr se me
desmente o meu presado amigo D. Antonio da Costa no seu promettido livro
das delicias do Minho.

Eu por mim, se quero convencer-me que estou na sazo do calor e das
flres, mando abrazar o fogo, accendo a machina do caf, espalho uma
abada de rosas no estrado, cubro-me com um cobertor, imagino que estou
no junho de Ferno d'Alvares do Oriente, e, com o nariz de fra, e
espirrando, exclamo, em nome do poeta:

    _...................... Pomona e Flora
    Seus dons vem pelos campos espalhando,
    Cantando espalha Fauno a voz sonra.

    Fazem doce harmonia os arvoredos
    Que o vento bole, e as aguas derivadas
    Das asperas entranhas dos penedos.

    As aves umas d'outras namoradas
    Enchem de saudosa queixa o monte
    N'um desconcerto alegre concertadas.

    Boninas varias vai regando a fonte
    Que convida, correndo manso e manso,
    O rouxinol, que suas maguas conte.

    A qualquer parte, pois, que os olhos lano
    Materia me offerece de alegria
    Tudo quanto co'a vista alegre alcano._

_Etc., etc._

E, ao mesmo tempo, vou aconchegando os ps do varandim do fogo, e
fazendo-me um estio interior de caf de Moka.

N'esta situao, deixa-se a natureza aos naturalistas; e a gente, que
vem ao campo em cata de brisas olorosas, no sahe de casa, e l sempre,
a fim de desviar a tentao ao suicidio inglez, que  a congesto
fulminante do _tdium vit_.

Tenho, pois, seis livros de escriptores brazileiros, a quem devo a
fineza de m'os enviarem a esta regio de getas.

Os IDYLLIOS do snr. doutor Caetano Felgueiras. As TETYAS, em prosa do
mesmo poeta. Os APONTAMENTOS DE VIAGEM do snr. J. C. da Gama e Abreu
(1. tomo). O PANTHEON MARANHENSE (1. tomo). SCIENCIAS E LETRAS.
APONTAMENTOS PARA A HISTORIA DOS JESUITAS NO BRAZIL (1. tomo). As tres
ultimas obras so do mesmo author, o snr. dr. Antonio Henriques Leal.

Ha annos que o snr. Felgueiras me enviou a sua EPISTOLA _a Machado de
Assis_. Era a revelao de um espirito antigo no affecto s maviosas
cousas do campo. Versos que recendem o tomilho e a madre-silva. Desenhos
correctos da corporatura gigante das arvores americanas. Rumorejos dos
meandros que serpejam na tige das boninas. O estridor das cascatas que
ruem estrepitosas. A suavidade dos jardins. O verde das arvores, e os
pomos a lourejal-as. E, depois, o espirito da alegria no sorriso da paz
a colher as benos que Deus cruza por sobre as almas modestas que se
alam at Elle, desde o estrado de seus ps, desde as magnificencias da
terra at aos estrellados silencios do co. Esta formosa poesia vem
entre os IDYLLIOS, que se lhes irmanam na alteza do pensamento e no
primor da phrase.

No me agradam por igual as suas prosas (TETYAS). Sobram ahi arabescos
de linguagem: muito rendilhado, muita filagrana, que enreda a ida, e
accusa o escopo muito moroso de Cellini. Sei que o snr. J. de Alencar
tem dado o exemplo d'este esmerilhar da phrase, que, a meia volta, se
desaira no amaneirado. Isto no  pobreza da lingua:  um luxo vicioso
da abundancia. Augmentemos, porm, quanto ser possa o concurso dos que
nos percebam, e imaginemos sempre que at os mais cultos nos agradecem a
simplicidade de Luiz de Sousa, o nitido puritanismo dos Castilhos, e a
correco ch, sem plebeismo, de Teixeira de Vasconcellos.

Os APONTAMENTOS DE VIAGEM do snr. Gama e Abreu  um livro muito bem
escripto, com resaltos de humorismo discreto, graa anecdotica a
interpr-se nos usuaes fastios das descripes de viagens; apreciaes
de Portugal na maior parte benevolas, e, por excepo, reparaveis; a
Frana e as suas recentes desventuras atiladamente compendiadas em
poucas paginas, que se revalidam com bem cabidas noticias historicas. 
um livro de cunho moderno, com o superior quilate da despreteno, sem
desvanecimento, por onde se nos antolha optima lio, bom discernimento,
critica despreoccupada, lhaneza de apreciao, e excellentes
predicamentos de espirito. Os subsequentes volumes ho de corresponder
ao titulo que amplia as viagens desde o _Amazonas ao Sena_, _Nilo_,
_Bosphoro_ e _Danubio_.

O PANTHEON MARANHENSE, do snr. dr. Henriques Leal, como do titulo se
transluz,  um selecto feixe de biographias de homens, que se
illustraram no Maranho, por prendas da intelligencia. Este livro 
tanto mais de estimar entre portuguezes quanto ns andamos arredados da
convivencia de escriptores brasileiros. O snr. Leal, que reside em
Lisboa, ha annos,  o escriptor a quem os seus conterraneos mais devem
no prego incessante das eminencias intellectuaes do Brazil.  vr o
esplendido, e, ainda mal, que incompleto, vestibulo que elle erigiu como
entrada para as obras completas de Gonalves Dias, o portentoso poeta, o
prosador inviolavel na pureza da dico.

Larga resenha da litteratura brazileira nos d o snr. Leal no seu livro
intitulado LOCUBRAES. Ahi se queixa judiciosamente das graves
iniquidades com que alguns syndicos, sem legitima alada na critica,
desdenham dos escriptores brazileiros, no lhes sabendo sequer o nome de
baptismo. Que quer o illustre escriptor? A necedade impa de petulancia.
A barateza dos prelos, a profuso dos periodicos e a mingua de
escriptores escorreitos abriram praa a todo o adventicio, tanto monta
que elle proceda das covas de Salamanca como do caf da Aurea. Gonalves
Dias, apoucado pela ignara bitola de um zoilo vsgo, tem dous
monumentos: um de marmore na sua patria, outro nos livros que so
d'ella, que so nossos, que os temos na memoria do corao desde a
mocidade. Mas a nossa mocidade era to amoravel com os seus
contemporaneos, quanto respeitosa com os antepassados. Ns no
ousariamos descrr dos mestres, e desacatar-lhes as cs aureoladas sem
que o longo estudo, sem que a consciencia nos dsse a intima certeza de
que no eramos to nescios e to ignorantes quanto hoje se faz mister
para abrir barraca de mordacidades, mascaradas em critica.

Derivemos d'este mau trilho para as placidas e serenas regies do livro
chamado APONTAMENTOS para a historia dos jesuitas no Brazil.

N'este complexo de rapidas biographias, narrativas, e, esclarecida
analyse das chronicas da companhia de Jesus, e onde a frma, a execuo
e o castio da linguagem se aprimoram mais, de envolta com a riqueza das
noticias histricas.  trabalho de mo experimentada, de consulta
detenosa, e juizo muito attento. Quando o tomo 2. me vier satisfazer o
desejo de o lr, formarei mais dilatado e completo conceito d'esta
importante publicao do abalizado escriptor.




CERCA DE JOAQUIM 2.

(RESPOSTA A UMA CARTA)


A carta, a que respondo, veio do Porto. E o periodo respondido reza
assim:


_.....Asseveram-me que o teu Plutarco, annunciado na ACTUALIDADE,  o
Joaquim de Vasconcellos, que tem batido  porta dos teus antigos
inimigos, pedindo factos e calumnias para urdir a tua biographia. Se
isto  to verdade como  verdadeira a pessoa que m'o afianou,
prepara-te para desprezar a affronta, e veste arnez de ao que rebata o
ferro do couce. Alguem lhe perguntou que motivo teve para te provocar;
respondeu que apenas te conhecia de vista; eu, porm, se a memoria me
no falha j te ouvi dizer que este Joaquim de Vasconcellos foi teu
hospede em S. Miguel de Seide, etc._


RESPOSTA

Tens boa memoria. Joaquim de Vasconcellos foi meu hospede em S. Miguel
de Seide; mas procedeu honradamente, e logo te direi a razo que tenho
para te affirmar que se houve briosamente na hospedagem que lhe dei.

Foi assim o gro caso. Um dia, no anno do 1870, me escreveu de Guimares
o maestro Francisco de S Noronha, prevenindo-me que viria a S. Miguel
de Seide apresentar-me um seu amigo de grande talento, notavel theorista
musical, educado em Allemanha, e litterato de muitas esperanas.
Alvoroou-me a noticia, tanto pela visita do celebre violinista, como
pela apresentao de um moo prendado das bellas cousas do corao e do
espirito, que todas brotam de seu onde o amor das amenidades litterarias
e das deleitaes da harmonia lhes aquece os germens.

Em uma alegre manh de julho chegaram os snrs. Noronha, e Vasconcellos a
esta casinha,  volta da qual os sylphos da poesia borboleteam, desde
que o visconde de Castilho e Thomaz Ribeiro por aqui estiveram.

Recebi o snr. Joaquim de Vasconcellos com quanta cordealidade e lhaneza
cabia nas minhas posses de aldeo. Dei-lhe o lugar de honra na minha
mesa. Ouvi-lhe attenciosamente por espao de dez horas as suas idas
republicanas, sem lh'as impugnar, e as suas theorias sobre musica sem
lh'as perceber, e os seus dislates em litteratura sem lh'os contrariar.

Ao cahir da tarde, o snr. Vasconcellos, que no podia demorar-se, fez-me
o obsequio de aceitar o meu cavallo, que teve a honra de o levar 
estrada do Porto. Ao despedir-se de mim, o meu affavel hospede
abraou-me com effuso de vehementissimo jubilo por me haver conhecido e
devido alegres horas to rapidamente passadas.

Devolveu-se um anno, sem que eu tornasse a vr o snr. Vasconcellos; no
obstante, a imagem d'este cavalheiro, uma vez por outra, acudia s
minhas reminiscencias d'aquelle dia to litterario, to cheio de
palavras, de systemas, em fim, de mutuas promessas, que me faziam
esperar d'aquelle moo alguma cousa menos cruel que um inimigo.

Eis que o snr. Vasconcellos d  luz um livro de critica  verso do
_Fausto_, pelo snr. visconde de Castilho; e, ainda antes de o lr, j eu
sabia que o meu hospede to graciosamente recebido, me insultava como
escriptor e como homem, enxovalhando-me com vilipendiosas aleivosias,
como se no bastasse ao seu injusto rancor malsinar-me de ignorante.

Aqui tens, meu caro amigo, repetido o assignalado successo do advento do
snr. Vasconcellos a esta quinta de Seide.

Como elle est escrevendo os escandalos da minha vida, que naturalmente
veio espionar quando c entrou, bom seria que elle dissesse que ca tenho
grandes infamias na minha historia lendaria, e uma das mais gradas foi
recebel-o em minha casa.

Falta-me explicar-te onde est o procedimento honroso do snr.
Vasconcellos na hospedagem que lhe dei. Est no seguinte: quando elle
sahiu da minha mesa, contaram-se as colheres de prata, e no faltava
nenhuma! Honra lhe seja!

                                                      Teu do corao,

                                                               _Etc._


_P. S._ Se o snr. Joaquim de Vasconcellos, depois da publicao d'esta
carta, entender que me deve pagar o aluguer da cavalgadura, o almoo e o
jantar, authoriso a thesoureira das Velhas do Camaro a receber a
importancia, e passar recibo.




ESTUPIDO E INFAME

( _ACTUALIDADE_)


Alguns rapazes sem habilidade, nem estudo que lhes supprisse a
incapacidade do engenho, appareceram ahi a pinchar na vaza das letras
como sapos de lameiro em tarde trovejada de julho. O mais sapo nas
_verdes podrides_, consoante o phrasear colorido do snr. Guerra
Junqueiro,  este marau da _Actualidade_.

Veio de Lisboa assoldadado para a imprensa do Porto, em servio de um
ignobil aventureiro. Pz o seu pulso  disposio do estomago, e aviltou
a probidade de homem no comeo da vida publica, prestando-se a dar
vaias,--_piadas_ no calo fadista do birbante que o estipenda--a
pessoas que pareciam respeital-o com o seu desprezo silencioso.

Fui eu, desde muito, insultado em livros e folhetos por este gandaieiro
da vadiagem lisboeta. Perguntei um dia quem era o enxovdo, e que razes
lhe teria eu dado para no perder lano de me offender. Responderam-me
que era um dos Bthylos do Joaquim Theophilo; e que um dia, o sordido
Anachreonte, que poetra amores de Gomorrha na _Viso dos tempos_,
desembura-se da mascarrada chlamyde, e dera  luz este safado _pinto_
que sahiu grlo do ovo.

J sabem d'onde elle vem.

Disseram-me, outro sim, que um escriptor brioso, chamado Santos
Nazareth, jogra com elle a bilharda nas pontas das botas em pleno
caf-Martinho; de modo que nenhuma pessoa medianamente briosa pde hoje
roar-lhe na cara a palma de uma luva. A parte, portanto, que
porvindouramente me houvesse de caber em despiques de pundonor,
essa--aviso  _Actualidade_--pertence  alada do meu gallego.

No sei se o publico portuense tem reparado que os seus bons escriptores
ou morrem ou fogem. O visconde de Benalcanfor, Ricardo Guimares,
aquelle florido talento que disputou a Lopes de Mendona as galanterias
do folhetim;--Ramalho Ortigo, o prosador elegantissimo, o fidalgo da
graa senhoril, a revelao mais assignalada que ainda tivemos do
espirito francez;--Alberto Pimentel, a quem se esto desentranhando em
fino ouro os minerios mais copiosos da vernaculidade; Sousa Viterbo,
dulcissimo poeta e prosador correcto, estes, que seriam para o Porto
bastantes padres de sua litteratura, passaram para Lisboa;--e Silva
Pinto, a escoria da cainada litterateira de Lisboa, baldeou-se no
Porto.

 sorte funesta!

Entra o homem na fiscalisao de uma sentina jornalistica; e, apenas me
v a sombra na pagina de um livro, insulta-me. Lano mo do ferro,
carmeio-lhe parte da l, almofao-lhe a carepa, e deixo-o. O leitor das
_Noites_ bem viu. Mostrei ao insolente que no sabia portuguez nem
francez; que no estava na plana dos criticos; que a sua ignorancia, com
alguma modestia, poderia grangear a caridade publica; emfim, este
sentimento da compaixo ia manietar-me, quando elle, sacudindo o aziar,
volveu a espojar-se-me na testada da casa.

O desgraado resvalou  ignominia. Como no teve que redarguir contra as
lagantadas litterarias que lhe verberei  ignorancia, ameaa-me com
devassar os actos da minha vida particular. So-lhe franqueados os
umbraes da minha vida. Pde entrar o infame.

Ahi est o homem que denigre e deshonra as pugnas litterarias.
Estrangulado pela critica severa, resfolegar ainda pela vilta da
calumnia.

Veja-se o n. 94 da _Actualidade_.

Ao mesmo passo (leia _trote_) que me insulta, espolia-me o ratoneiro.
Cotejemos, e veja-se que at lhe escasseia o brio para se desforar com
palavras de lavra sua. Em um folhetim meu, intitulado a _Cora de ouro_,
publicado em 1872, escrevra eu as seguintes linhas:... _Uns taes cujo
nome infame ha de sobreviver s produces gafadas, e cuja probidade 
to smente a necessaria para no serem enforcados, como dizia
Molire... Os magarefes da carne putrida que lhes sobeja nas alcovas..._
E vai elle, o _escroc_ litterario, com pouca alterao, como o leitor
ahi viu, faz suas, assignalando-as em grypho para lhes imprimir energia,
essas mesmas phrases.

Este bargante, se um dia vier a ganhar a vida esfaqueando a gente, rouba
primeiro a navalha  victima. Lacnaire foi muito mais intelligente e
honrado: era melhor escriptor, e comprava as facas com que escrevia as
suas locaes no redenho do proximo. E Pasquino, quando injuriava, era com
palavras proprias.

Supponhamos, porm, que o traste  originalmente insultador. Que motivos
lhe dei para o insulto? Dissera-lhe eu que elle estupidamente chamra
_trilogia_ a tres comicos. E defendeu-se elle d'essa arguio, que era o
ponto da contenda?

Veja o leitor a defeza. Primeiramente attribue a erro do typographo a
bestidade. Que villo! Se o artista, que lhe compz o artigo, tivesse
bastante dignidade ou independencia, devia desfazer-lhe o original na
cara. Eu de mim creio que na officina da _Actualidade_ no ha typographo
to soez como o gamenho que a redige.

Depois (veja o leitor a meio da columna) nega que houvesse escripto a
noticia como eu a interpretra. E escreve que eu _alludira ao seguinte
periodo de uma local_ do seu n. 28: _Esto em scena Robespierre, Marat
e Danton, a trilogia collossal_ (com tres _ll_.--Nem orthographia!)

E acrescenta:

_O chapado ignorante que s serve para fabricar descomposturas, no
percebeu o porqu da trilogia applicada aos tres nomes que representam
tres quadros distinctos da_ tragedia _da Revoluo._

Nega, pois, que chamasse _trilogia_ aos tres artistas; e o leitor mais
ou menos desmemoriado, ou indeciso a respeito da lealdade da minha
critica, fica talvez imaginando que eu distendra iniquamente as orelhas
elasticas da besta, calumniando-a.

Ah! no. Eu vou dar  respeitavel opinio publica o fiel traslado da
asneira em litigio.


Actualidade _n. 51 de 7 de abril de 1874._


BAQUET.--_Corre que esto escripturados, ou que vo sel-o, n'aquelle
theatro os actores Polla e Pinto de Campos, e actriz Maria das Dres, de
Lisboa._

_ uma esplendida acquisio para aquelle theatro a da TRILOGIA que
acima fica. Agouramos bellas noites ao publico e  empresa._

Que faz o leitor depois que leu isto? Vai extrahir da propria noticia
uma palavra composta de duas syllabas.  um passatempo que tem seu tanto
ou qu de philologico. Procuremos as duas palavras com pachorra, visto
que a temos para as charadas novissimas. Eu ponho em versaletes as
syllabas quando fr tempo. Vamos l:  uma esplendida acquisio (diz
elle) para aquelle theatro a trilogia que acima fiCA. AGOUramos _etc._
O publico depois de compor a torpissima palavra, entendeu mentalmente, e
de si comsigo, que o escriptor previa o que o leitor lhe faria na
reputao.


Agora, canalha! levanta-te d'ahi, e senta-te n'uma tripea! Antes que
faas da penna faca de sicario, converte-a em sovella.

E tu, divino Apollo, que uma vez escorchaste Marcyas, permitte que eu te
deponha nas aras este ftidissimo bode esfolado.




CARTA AO SNR. CONSELHEIRO VIALE


                                                    _Ill.mo e exc.mo snr._

No sei se v. exc.  assignante d'estas NOITES DE INSOMNIA. A certeza
affirmativa ser-me-hia por tanta maneira estimulo de desvanecimento que
eu no ouso preluzir-me a hypothese de que v. exc. contribue com dous
tostes para a minha gloria. Quero antes, absorvendo as fumaas da
vaidade, prefigurar-me que v. exc. nunca se apoucou at s futilidades
dos meus livros. Na modesta conjectura, pois, de que estes folhetos lhe
so menos conhecidos que as lyricas ineditas de Amphio, filho de
Jupiter e Antiope, afouto-me at  temeridade de enviar-lhe este n. 6
das _Noites_, solicitando da sua cortezia a graa de m'o lr desde
paginas 88 at paginas 94.

O bode que eu ahi offereo a Apollo,  imitao do _cultrarius_ dos
sacrificios antigos, chama-se fulano de Silva Pinto, e diz que foi
discipulo de v. exc. em historia antiga, depois de ter escripto que uma
actriz e dous actores eram uma _trilogia_.

Tenho a honra, exc.mo snr., de trasladar, para escarmento de to erudito
professor, as textuaes palavras d'este seu discipulo, estampadas no n.
94 da _Actualidade_: ..._Ns merecemos a honra de obter do professor
Viale officiaes informaes em aula de litteratura antiga._

Realmente, snr. conselheiro, este sujeito foi discipulo de v. exc. em
historia antiga? No caso affirmativo, deu-lhe v. exc. a tal citada
honra de o informar officialmente?

 de esperar que v. exc. me no responda; todavia ouso pedir-lhe que ao
menos se digne indicar-me como devo interpretar o seu silencio; a no
querer v. exc. antes, em carta confidencial ao seu discipulo, dizer-lhe
em grego: +chelen pinein+ ao mesmo tempo que eu c lh'o digo a
elle em portuguez.

Ponho  disposio de v. exc. a minha ignorancia com as informaes
officiaes de que sou digno, e a relevante bravura com que entro ao circo
qual outro _bestiarius_ (+thriomchs+), a arcar com esta besta-fera
que sahiu da escola que v. exc. to vantajosamente rege.

                                                               De v. exc.

Ill.mo e exc.mo snr. conselheiro Antonio Jos Viale

devoto humilimo e derreado admirador

                       _Etc._




QUINTA-ESSENCIA DE MALANDRIM

( _ACTUALIDADE_)


Trata-se de Silva Pinto.

Este pifio e latrinario jornaleiro da _Actualidade_, escreveu, no dia
11, que eu pedira que me apresentassem a Castellar, no theatro.

No dia 16 e 17, publicaram o _Commercio do Porto_ e o _Primeiro de
Janeiro_ a seguinte correspondencia:


    DECLARAO

    Constando ao snr. Camillo Castello Branco que uma local inserta na
    _Actualidade_, de 11 do corrente, com a epigraphe--Elle--se refere 
    entrevista que o referido senhor teve com o snr. Emilio Castellar no
    theatro do Principe Real, d'esta cidade, na qual se inverte a
    verdade dos factos, apressamo-nos, como testemunhas presenciaes, a
    declarar com toda a imparcialidade como as cousas se passaram.

    Achando-nos n'um dos intervallos do espectaculo em companhia do snr.
    Camillo Castello Branco, junto  varanda que separa a orchestra da
    plateia, appareceu alli o snr. D. Marcos Arguelles a convidar o snr.
    Camillo para uma entrevista com o notavel orador, o snr. Castellar.
    O snr. Camillo, depois de agradecer as attenes do snr. D. Marcos,
    pediu-lhe escusa, apresentando para isso algumas razes muito dignas
    e a circumstancia de no estar n'aquelle momento com um vestuario
    proprio para uma tal apresentao. O snr. D. Marcos continuou,
    porm, a insistir e, como o snr. Camillo persistisse na sua recusa,
    disse-lhe por ultimo que, se era preciso, ia chamar o consul
    hespanhol para o convidar, e que o snr. Castellar j estava no salo
     sua espera para o comprimentar. Foi ento que o snr. Camillo se
    resolveu a aceitar o convite do snr. D. Marcos.

    Eis aqui a narrao fiel de tudo quanto alli se passou, com relao
    a este facto e que est em completa contradico com a local da
    _Actualidade_, se com effeito o que n'ella se affirma, se refere ao
    snr. Camillo Castello Branco.

    Porto, 15 de junho de 1874.

                                       _Joo Pereira d'Albuquerque._

                                       _Antonio Nicolau d'Almeida Junior._

Ahi fica o perfil do mariola, e a torpe vida que se vive n'aquella
gazeta.

No dia seguinte, a _Actualidade_ injuriava a probidade d'essas duas
assignaturas que me honraram com o seu testemunho.


J ouvi dizer a certas pessoas incautas que este Silva era um bom
rapazinho, forado pela fome a rabiscar diffamaes.

No pde ter bondade quem, de animo frio, divulga aleivosias: o mais que
pde ter  fome.

Desista o snr. Silva de trocar calumnias por meios-bifes, que eu lhe
prometto obter-lhe entrada no asylo dos _Garotos desamparados_; e, desde
j, escrevo ao snr. David, da rua de Santo Antonio, para que o vista de
novo; e, pois que a sua hyndiocrasia  o couce, recommendarei que lhe
deixe bem folgada a retranca.


FIM DO 6. NUMERO


Nota de transcrio:

As palavras rodeadas pelos sinais + + esto em grego no original.
Nesta verso electrnica no  possvel representar os caracteres gregos
pelo que as palavras foram substitudas pela transliterao para
caracteres latinos.





End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
no pde dormir. N6 (de 12), by Camilo Castelo Branco

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To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
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The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
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     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


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