The Project Gutenberg EBook of A Guerra, by Jaime de Magalhes Lima

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Title: A Guerra
       Depoimentos de Herejes

Author: Jaime de Magalhes Lima

Release Date: October 14, 2008 [EBook #26915]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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JAIME DE MAGALHES LIMA


A GUERRA

DEPOIMENTOS DE HEREJES


F. FRANA AMADO, EDITOR
COIMBRA. 1915.




A GUERRA




Composto o impresso na Tipografia Frana Amado,
Rua Ferreira Borges Coimbra.


JAIME DE MAGALHES LIMA


A GUERRA

DEPOIMENTOS DE HEREJES



COIMBRA
F. FRANA AMADO, EDITOR
1915.




Prologo


Um direito o nosso tempo conquistou plenamente--o direito de heresia.
Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do sculo XVIII at hoje.
Pela sua vitria se esforou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por
momentos imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram
com a rapidez e mgoa com que invarivelmente se desfazem iluses e
esperanas mal fundadas.

O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as
ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenes estabelecidas,
todos os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religio,
da filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quanta afirmao o
nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida
puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no
govrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade
independente de restrico e de crtica--sse logrou, porm, prevalecer
atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito
multiplos e vigorosos despotismos, sempre fceis em renascer das
prprias cinzas. Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas,
as que se adoram nos templos como as que se lisongeiam nos palcios, 
legtimo duvidar da crena religiosa como da crena poltica, podemos
sem ofensa dos homens e respeitando a nossa conscincia desconfiar de
muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por
diversa corrupo, podemos duvidar da justia, e at da dignidade, de
muito orgulho nacional, pervertido por ntima ruindade.  isso to
legitimo, de uma to genuina fidelidade  razo, como o desdem das iras
olimpicas de Jupiter, ou a revolta contra as fogueiras da Inquisio, ou
a libertao da tirania de todos os cesares, sejam les coroados por
direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da
soberania popular. Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos
de nos libertar das suas glrias, disse Mazzini. E isso, que algum dia
poderia parecer blasfemia do revolucionrio, encerra hoje apenas uma
modesta e incontestada insinuao e autorizao de livre exame. Muito
heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converter em
ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornar em
merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade,
muita prudncia foi loucura, muita loucura foi acerto.

O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os coraes, onde
coraes encontrou, ainda os mais dbeis, foi um ensejo tremendo dsse
direito de heresia que uma lenta e progressiva insistncia anterior
havia constitudo e estabelecido firmemente em o nosso espirito; foi um
ajuste de contas correspondente  magnitude sem precedentes da guerra
que le soltou. Verdadeiras religies politicas e sociais, como a ordem,
a riqueza, o nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as
egrejas, o imprio, e at o prprio cristianismo, foram chamadas a uma
reviso sevra dos respectivos valores e a uma determinao dos seus
caracteres e responsabilidades; e dessa reviso sairam profundamente
alteradas na sua nobreza, na sua razo e pureza, e na sua mais humilde
utilidade. Palavras que eram um paldio transfigurram-se em espctros,
muito resplendor se apagou, muita treva se iluminou, muito poder se
arruinou, muito fetichismo se desfez.

De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a
uma influncia incalculvel no futuro das sociedades humanas, colhi
nestas folhas umas breves notas, na esperana, seno na certeza, de que
no pouco podero esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de
angustia, os que as meditrem.

Umas foram j impressas no _Dirio de Noticias_, de Lisboa; outras, o
maior nmero, vem agora a pblico pela primeira vez. E de tal modo me
alarguei ceifando em sera alheia, que, constituindo as notas que se
referem  _Arte de Gastar_ uma verso qusi completa do magnfico
opsculo do sr. E. J. Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor
sr. Humphrey Milford a autorizao necessria para a traduo, que le
bondosamente me concedeu, com uma gentileza pela qual confesso aqui o
meu reconhecimento.

No vo os tempos para profecias. To profundo  o tumulto em que o
mundo se atropela desvairado, que todas so perigosas e se arriscam a um
desmentido rpido e radical.

Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do
respeito da justia entre os homens e as naes. Mas no teremos que nos
surpreender se, chegada a hora da paz e da vitria, forem os primeiros
despotas aqueles mesmos que clamaram pela libertao dos oprimidos e no
seu clamor conduziram os exercitos s batalhas.

No teremos de que nos surpreender, se esse for o eplogo desta inaudita
desgraa. Em primeiro logar, a guerra  s por si uma escola de
despotismo para vencedores e vencidos; , como agora aconteceu em todos
os paises interessados no conflito, sem excepo, a suspenso absoluta
de todas as liberdades e direitos individuais, a absorpo de todas as
foras e de todas as actividades sociais, uma violncia sem limites,
involvendo vidas e bens em uma temerosa vertigem do estado. De uma tal
situao ficam resduos; de semelhante incndio restaro, pela fora das
cousas, runas fumegantes. O que era temporrio tornar-se- facilmente
permanente, mu foi ter-se fundado; o que se decretra para salvao da
republica, astuciosamente se continua para vantagem das dinastias e das
oligarquias. Houve uma fermentao cuja vitalidade reanimou muitos
elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vo muito alm do periodo
que a levantou, compreendendo por simples contgio muita cousa que lhe
era estranha.

Depois, convm no esquecer que a torrente dos impulsos econmicos
pesar duramente na vida das naes empenhadas na guerra.

A ruina foi de uma vastido insondvel. A riqueza que por diversos modos
se aniquilou na guerra, excedeu quanto os clculos podem atingir e
quanto os nmeros podem somar. No h arimtica possvel para volumes
desta largueza e complexidade.

Finda a guerra, sses valores perdidos ho-de, naturalmente, procurar
uma restaurao pura e simples, uma reintegrao de posse, por processos
e em termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E
sse estado econmico, que foi uma das causas mais poderosas desta
calamidade que nos aterra,  fundamentalmente desptico, e nem por outro
modo tem probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade
na imprensa inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo no _Hibbert
Journal_ sbre a tirania das cousas que so meramente cousas, mostrou
como a mecnica e os maquinismos, primitivamente destinados ao servio
dos homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor. O militarismo
e o industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em
uma fonte comum. Ambos esclarecem a inclinao dada ao esprito humano
pelo culto do maquinismo, que to extensamente se tornou dominante na
vida espiritual do mundo ocidental. Ganha terreno a suspeita de que o
industrialismo deve afinal ser contado, em si e por si, entre as causas
positivas da guerra. Acrescentando a riqueza, a ostentao e o orgulho
dos povos, no servir para acentuar as suas rivalidades, para cavar
mais fundas as suas invejas, e para inflamar as suas paixes
predatrias?

Ora no  de crr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus
despotismos, abdique de boa mente do seu imprio e renuncie s armas com
que o sustenta, mrmente depois de ter sido o soldado mais forte da
guerra, que se fez mais nas fbricas e nas fundies monstruosas do que
nos campos de batalha, onde os soldados empregram os engenhos de morte
que as oficinas e os laboratrios criavam e lhes mandavam.

Se ao industrialismo, de sua natureza desptico, que com grande cpia de
alegaes ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgncias
financeiras, ansiosas por uma organizao econmica fcil e
abundantemente colectvel, se houverem de ser consideradas as
necessidades fiscais dos estados esmagados com dvidas fabulosas que se
contraram rapidamente, mas que levam anos a saldar, muitos anos e muito
penosos, no ser de estranhar que a guerra, no seu seguimento imediato,
robustea aquela constituio do trabalho que, seguramente, por uma j
longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais perfeita negao da
liberdade, a mais fatal das opresses.

Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a
formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa  certa desde j nos
resultados da guerra. Podem as instituies polticas e os sistemas
econmicos ser arquitetados e fundados como melhor convenha aos
caprichos dos reis,  fortuna dos homens,  sapincia diplomtica e aos
seus sortilgios cabalisticos. Pde ser que, afinal, a guerra parea,
nos seus efeitos concretos, radicalmente contrria aos sonhos de
liberdade que inflamaram os seus incendios e precipitaram as suas
hecatombes. Mas determinou uma renovao da conscincia, uma filosofia,
uma moral, um modo de ser economico, um renascimento ntimo, que so de
durar e crescer, invulnerveis s artes dos imperadores e ao poder dos
vendilhes, superiores ao seu domnio.

A catstrofe de 1914 no foi na realidade um acontecimento que mudou o
mundo. Foi uma grande mudana do mundo que rematou em um grande
acontecimento, cujo final ainda no  conhecido de homem algum[1]. Foi
essencialmente uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e
sero transitrias as alteraes ou a persistncia da ordem material do
mundo.

O poder de revelao deste cataclismo excede muito a fora de destruio
das edificaes materiais que pulverisou. A verdade  que entramos em
relaes com um novo mundo que at aqui nos foi desconhecido. Poderes
espirituais at hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo
invisiveis, smente porque a sua aco se ocultava aos homens emquanto
les andavam imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste
mesmo momento em que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo,
destruindo tudo na sua passagem, ameaa converter em p e cinzas o nosso
bem-estar--eis que os cegos vem e os surdos comeam a ouvir.
Obscuramente pressentimos a aproximar-se a vitoria do esprito sbre o
cos. Quasi podemos dizer que uma scentelha desprendendo-se da
tempestade universal nos revelou subitamente um novo aspecto do mundo...
Alm do inferno que se desencadeou sbre a terra, distinguimos a
presena de um Poder mais alto, sbre o qual o inferno no prevalece; e
 a ste poder mais alto que o futuro pertence. A sua aco  sempre a
mesma--no indivduo, na nao e na humanidade. Afirma a vida contra a
morte e a integridade daquilo que vive contra as foras que o
dissolveriam. Vimos ste Poder incarnando em uma longa sucesso de
aparies que nos surpreendem.  precisamente nesta antecipao da sua
conquista final no futuro que encontramos a inolvidvel significao da
guerra presente[2].

Progresso, s no esprito existe. O materialismo de que a Alemanha foi
neste momento um estupendo representante, esplendido em seu gnero,
valer tanto ou to pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro
pensamento. Parecia dominar como filosofia na hora presente. Tinha a
seu favor uma certa fora. Estamos em um mundo material, e os que
estudam o organismo corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma
espcie de concluso de que le  a existncia inteira. Por isso erram.
A matria  muito importante, mas por modo algum  a totalidade do
universo. H dois aspectos do universo, o espiritual e o material, e um
tem de ser aproveitado pelo outro. No pde admitir-se que o aspcto
material domine; tem de servir as necessidades do esprito. A nota do
universo material  repetio; a nota do universo espiritual ou psiquico
no , porm, repetio, mas progresso. Isto se v na histria do nosso
prprio mundo--primeiro os animais inferiores, depois os animais
superiores, e por fim o homem. O que depois disto vir, no o sabemos
ainda, mas estamos longe da perfeio. Deve ser qualquer cousa melhor. O
prprio homem se tornar melhor sbre a terra. E, assim como para o
indivduo, o progresso da evoluo no tem fim. Temos de compreender que
somos todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de ns,
ou para cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta
 a nota do universo espiritual. O seu resultado  a vida, e a vida cada
vez maior. A soma de vida no universo parece crescer continuamente,
emquanto a soma de matria e energia no cresce; esta  constante. A
inteligncia pde crescer; pde crescer a felicidade; pde o
conhecimento espiritual atingir alturas presentemente inacessiveis[3].

Apliquemos  crise presente stes princpios, que so universais.
Procuremos um balano exacto e consciencioso das alteraes que a guerra
trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus
lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa
nas sociedades cultas, como jmais se viu, uma acentuao de tendncias
de liberdade, de justia, de amor e de religiosidade que acrescentram
em propores assombrosas os tesouros da vida do esprito, nico
progresso possvel, nico que importa o domnio da matria, mesmo quando
a materialidade se reputa fortalecida e inexpugnvel pela solidez das
suas filosofias e sistemas, pelo poder das armas e da riqueza, e pela
prepotncia triunfante e orgulhosa sbre as infinitas escravides que a
servem e so a sua mais funda aspirao e o seu mais eficaz instrumento
de reinar.

Mais prolongada no tempo e nas conseqncias, sobretudo infinitamente
mais fecunda do que a breve e incerta jornada militar, poltica e
econmica em que tiver de rematar os combates, ser a jornada moral e
religiosa a que a guerra nos conduziu. No h poderes do mundo que a
perturbem. Porventura ser mais activa quando les menos a favorecerem.
A necessidade de reaco acelera-a e fortifica-a.

Talvez ento, quando fr a seu termo, as guerras nos paream, alm da
futilidade que hoje so, uma infantilidade cruel, de que nos
lembraremos com a mesma opresso do corao que nos mortifica, se na
mente nos passa a recordao dos ninhos que na meninice destruimos e das
vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada  edade da
razo a _Eneida_ ser porventura um conto para crianas, e os herois que
nos exaltaram perder-se-o em trevas distantes como aquelas em que
entrevemos a rudeza da edade da pedra.




Convulses dum enfrmo


Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou  Russia uma declarao
de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e
gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado
por longos anos de paz empregados em abrandar a fria insacivel dos
seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignao
que um pensamento monstruosamente scelerado meditra e consumava um
crime contra a civilizao, o maior e o mais odioso que jmais se
sonhra e praticra na histria da humanidade. Declaradamente se
armavam, havia qusi meio sculo, os grandes poderes militares da
Europa; engrandeciam os exrcitos, acrescentavam as armadas, acumulavam
os canhes, amontoavam munies e edificavam fortalezas por modo nunca
visto. Mas a confiana na autoridade e eficcia do velho preceito que
nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma
segurana profunda e a tranquilidade, como certeza, de que to
dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um cro de louvores
 glria da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia
pela sua fascinao e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma
inviolabilidade formidvel a quem os soubesse fabricar e usar.

Depois, no estava demonstrado que a guerra importava a ruina de
vencedores e vencidos, e era de todo incompatvel com a sustentao e
prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com
enorme esfro haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os
economistas e os homens de boa f e melhor razo no tinham provado que
s por demncia, e jmais por convenincia ou glria de uma nao, fsse
ela qual fsse, se poderiam desencadear ou consentir to insensatos e
pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos
negcios, emquanto as armas significavam a mais slida das garantias da
amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos
impenitentes, que tambm os havia e no cessavam de agourar desgraas,
tendo por fatal a hora terrvel de uma guerra europeia, o mundo ia
remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas
devassides, convencido de que a bonana, uma perene bonana orgiaca,
era de ora em diante a lei da vida.

De facto, a guerra, lanando o fogo subitamente a todos os paioes,
surpreendia-o. Era a subverso das suas melhores crenas. No podia
cr-la.

Quem ousava lanar a terra inteira nessa insondvel voragem?!...

A guerra, no primeiro momento dsse aflitivo e desvairado despertar, era
unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as naes,
alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e
empedernidas e ignobilmente vidas e crueis, de todo desprendidas do
zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes
fazia ignorar; e a traio aos arrebatamentos da ventura em que viviamos
era executada e proclamada pelo brao e pela bca de trs imperadores,
um caduco na senilidade prpria dos seus anos, o outro demente de raa e
de vaidade, e o terceiro no muito so, sujeito a acessos de melancolia.
Eram les que na mais atroz loucura gerada de imaginrias ambies
lanavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual
escravos do trabalho, que realmente se amavam e no tinham motivos para
se desamarem, e antes sentiam razes poderosas para se auxiliarem e
unirem. Eram les os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de
desolao e de cadveres o cho que Deus nos dera e ns queriamos para
criar e cultivar o po, e os filhos e a arte e a religio, toda a
fortuna, toda a dignidade e toda a glria da nossa espcie.

Poucos dias, porm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e
averso, e uma vaga conscincia comeou a mostrar que sob o impulso e
comando dos imperadores e dos generais, sob as cobias das castas
militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, seno
legitimando-as, entre o estrpito dos cavalos e dos canhes, havia o
conflito das raas, uma diversidade e uma incompatibilidade de
aspiraes que se excluiam e por condio estavam sem remisso
destinadas a chegarem  agudeza dos combates em que se encontravam.
Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitrias dos alemes na
Blgica para que uma luz sbita mudasse todos os apectos. As primeiras
atrocidades que os exrcitos da Alemanha cometeram, perante o
desrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfdia
cnica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade trada,
construndo fortalezas ocultas e pondo espies onde com amizade eram
acolhidos, perante o morticnio de velhos e crianas, o insulto e
injria das mulheres e a destruo e saque dos mais preciosos tesouros
do esprito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava
a fria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados.
E, assistindo  ressurreio dos sentimentos e processos que ha longos
sculos tinham movido as hordas teutnicas, de tenebrosa e amaldioada
fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os
com o esprito religioso de abnegao e bondade que animava o slavo, com
o respeito, decro e dignidade que  honra e brazo do mundo britnico,
e com a gentileza e rectido que em toda a conjunctura caracteriza o
esprito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um ms
de hostilidades, a experincia estava feita e o desengano acabado, e o
primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que
pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Gr
Bretanha e de todo o mundo culto:--No  um conflito meramente
material,  tambm um conflito espiritual. Das suas ltimas
conseqncias se ver que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que
contm promessa e esperana, que conduz  emancipao e mais completa
liberdade de milhes que constituem a massa do gnero humano.

Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sbretudo
corao para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que,
envolvido no tropel das ambies polticas e das rivalidades militares,
o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a
incompatibilidade, irreconcilivel e ardente, entre a fra e o direito,
entre a brutalidade e o respeito, moderao e tolerncia, entre as
cobias da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a
crena, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa f e a
deslealdade, entre o orgulho e a modstia, entre a candura e a
corrupo, entre o Deus do sacrificio  caridade e  bondade e o Deus
das batalhas, da avareza e do dio. Nem sequer era uma disputa de
doutrinas e de sistemas; era e  uma oposio violenta de temperamentos,
uma divergncia de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si
antipticos at  excluso mtua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin
contra Bismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um
Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor
inflexvel de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a f, a
graa, a justia e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o
despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de
previso e astucia e os ltimos viessem servidos pelo estudo, pelo
metodo e por subtil engenho.

Aos pensadores e erditos no foi difcil esclarecer-nos, demonstrando
que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrrias,
agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora
angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se,
com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuio
penetrante do gnio muito cedo apontou a distncia que havia entre o
carcter germnico e as tendncias britnicas. J em 1859 Ruskin falava,
em carta a um amigo, do intenso egoismo e ignorncia do pintor alemo
moderno (na sua obra) que era indizvel no que tinha de ofensivo. A
eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez
profunda a toda a beleza rial, inchada em abominveis caricaturas
daquilo que les imaginam ser o carcter germnico, a absorpo de todo
o amor de Deus ou do homem na impacincia de aplauso feriam-no e
repugnavam-lhe. Na Frana ainda le achava certa paixo de beleza,
embora no fsse seno na faina de um aougue ou na concupiscncia; mas
o alemo era por demais vo para se deliciar no quer que fsse.

Nem tinha mudado de sentir em 1874, no obstante muito haver mudado a
reputao do valor alemo nas coisas do mundo. Ento escrevia:--As
benos so apenas para os dces e misericordiosos, e um alemo no pode
ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras
signifiquem. Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade,
no ha sma de saber que possa jmais fazer modesto um alemo. De modo
que, quando os alemes se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza,
roubam-lhe os quadros (de que no podem compreender nem um trao), e
inteiramente arruinam o pas moral e fsicamente, deixando atraz de si
misria, vicio e dio profundo, onde quer que os seus malditos ps hajam
pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em Frana--esmagaram-na,
roubaram-na, deixaram-na na misria do desespero e da vergonha, e fram
para casa a lamber os beios e a cantar Te-Deus.

O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem
pblico muito popular nos Estados Unidos da Amrica, disse-lhe que o
povo alemo se tornra feliz e prospero pelos velhos mtodos de duro
trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomra os mercados da
Inglaterra, porque o ingls insistia nas suas frias, nos seus dias
livres em cada semana e nos sports. Querendo glorificar o temperamento
alemo e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida
inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o
caracter e tendncias dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer;
nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte
que so maravilha. Quer o outro frias que lhe so indispensveis para a
contemplao e intimidade da natureza e para cultivar aspiraes
apolineas; e disto fez uma religio.

Renovaram-se as lies do passado; e pelos factos presentes
compreendem-se hoje em toda a extenso os clamores, escritos e pregaes
dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais
ficar de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento
fundamental  de uma simplicidade incomparvel:--A Alemanha tem nos
destinos do mundo uma alta e divina misso, espalhar a sua cultura,
levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura
germnica e pela cultura germnica, e o processo nico de cumprir sse
destino religioso  o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilao
radical de todos os povos que no sejam da opinio do missionario
vencedor ou no se sujeitem  sua desptica vontade e imprio. A
cultura, no seu derramamento, comearia esmagando a Frana que, sendo a
inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinao do seu
esprito,  a primeira que  Alemanha cumpre suprimir para capazmente
desimpedir o caminho.

Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito lm ou fora
dos seus princpios. Concluia pela prussificao de toda a Alemanha,
afagada, soprada e insinuada no sangue teutnico e nos afins por
nascimento ou inclinao, por todas as universidades, todos os prlos e
todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo,
por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos
com matrcula em Hamburgo.

Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso
foi necessrio arrazar, como alegremente se arrazou, at aos alicerces,
aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era
vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do
tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte,
ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos scincia
de laboratrio e mais scincia do corao, e no sabia mentir, intrigar,
corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. No falta entre os
seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixo a situao, termine
por confessar que os alemes deixaram de ser uma nao de pensadores,
poetas a sonhadores e agora s procuram o domnio e explorao da
natureza... Conservaram um harmonioso equilbrio entre o desenvolvimento
econmico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os
gregos? No; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caram
sbre a vida nacional. Na nao como no indivduo, vemos com o
crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral.

Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, no
adorou pouco a fra e uma robustez pag, nem sse poupou  cultura
alem o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua obscuridade
e nausea, que todos os deuses aprenderam a temer. Se alguem quizesse
vr a alma germnica demonstrada ad oculos, que observasse o gosto
germnico, as artes e os modos germnicos. Que grosseira indiferena
pelo gosto! Para todo o leitor que tivesse um terceiro ouvido,
dizia, eram uma tortura os livros escritos em alemo, sem tom, sem
ritmo nem cadncia. O prprio alemo lia mal, negligentemente
arrastado.

Para ser lgico, o alemo tinha de descer a toda essa dureza e de varrer
do esprito tudo o que no significasse meramente a fra e poder de
subjugar fsicamente. Outra coisa no era de prevr. As virtudes da
caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos
encantos das academias, embora sse comrcio de sentir e pensar e dizer,
que s em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e
muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua
felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, merc da sua
natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha  arte da
brutalidade e da chacina sbiamente organizadas e condecoradas. E esta
Alemanha bismarkina, militarisada at  medula dos ossos, materialisada
em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influncias idealistas,
fazendo da disciplina, obedincia, ordem e comodidades a razo ltima da
nossa existncia, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem
mantidos, de plo luzidio e msculos titnicos, prontos  voz e dceis
ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a
bandeira que arriou da catedral gtica e dos paos da cidade, tingindo-a
de novas cres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo
lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura.

No sabe a Alemanha explicar que haja naes civilizadas contra ela
unidas com os povos da Rssia, semi-brbaros no seu conceito. Como
sujeitam a Europa ao risco da sua invaso e predomnio, chamando-os e
admitindo-os, em p de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos
palacios?!... Pasma desta infidelidade  sua cultura e outra cousa no
compreender, pois, destituda de todo o sentimento verdadeiramente
cristo, no percebe os laos que juntam os povos educados no Evangelho,
fazendo do Evangelho a razo suprema da existncia; e outros no h que
mais profundamente o sigam e nle creiam do que a Gr-Bretanha e a
Rssia, apezar de viverem sob institues polticas opostas em
largussima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos ntimos do
amor, trocados pelos regalos do estomago, no atinge que aquilo que os
povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater,  exactamente
a cultura alem, esta aspirao que reduziu a fortuna e contentamento da
humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar
agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remdios, mdicos e bons
hospitais nas doenas, habitaes esmeradas, e gaz, electricidade,
caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematgrafos, telefones e
gramofones, e quanto, e smente quanto, se paga a dinheiro nos mercados
e se encomenda nas fbricas, sendo tudo isso regido por uma poltica e
por uma mecanica administrativa que na preciso matemtica em nada
difere das mquinas de ao e que pelas suas potentes alavancas reduziu o
homem  msera condio de matria prima, questo de nmero, volume e
qualidades fsico-qumicas, tal qual o minrio que se tirou das
profundezas da terra. No concebe que foi o extremo fastio dessa
cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os
homens, sse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as
raas que o adoram, outro no suportam e o vem ameaado: no concebe
que entre exrcitos que, como o alemo, deixam, por onde passam, uma
esteira infinita de garrafas vasias, e os que, como o da Russia, probem
o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores
rendimentos do tesouro pblico, no concebe que s isso seja informao
suficiente de que interesses morais esto em jogo no que aparentemente
os incautos tomaro apnas pela guerra das ambies dos reis e das
castas polticas e militares. Nem por sombras imaginar que estas lutas
de vida ou de morte so as convulses de uma civilizao enferma de
inanidade religiosa e de gso, cansada do peso da cultura absurda das
materialidades, cada em um desespero febril de libertao dos germens
mrbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em
tormento.

Se me quizerem contraditar, dir-me ho que a religio, e muito em
especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais
profundos e os estudiosos mais penetrantes. No pouco tero les
concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia
racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo.

O que  incontestvel, reconhea-se. Simplesmente convm advertir e
ponderar que a scincia religiosa alem, alis assombrosa,  uma
cousa, e a emoo religiosa inglesa e o ascetismo russo so outra
cousa; e o que nas margens do Reno  um valor intelectual, concluso de
silogismos, demonstrao de textos e arquivos, elemento de compreenso
do mundo e dos homens,  fora dali, em terras suas inimigas, um valor
moral, fundamento e motivo de proceder nas relaes individuais e
sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem
duvida salutar e benfica, que se cultiva de mistura com todas as outras
culturas,  em paragens prximas uma fra to misteriosa como
soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fras
a que o homem est sujeito. E ai estar a razo pela qual a Alemanha,
sendo pas de muita religio e teologia escolstica, prticamente pouca
religio encontrou, e essa muito acanhada e escassa, frtil em
disciplina e activa em poltica, mas to pobre de f que autorizou e
reclamou, em proclamao dos seus sacerdotes mais graduados, a vingana
a que a ustria devia sujeitar a Srvia porque um principe fra
assassinado.

Um nosso prelado que conhece o serto africano e a tem exercido a sua
misso sacerdotal com uma dedicao exemplar, contava-me h pouco que o
negro prefere o domnio portugus ao domnio alemo, porque, no lcido
instinto que o no engana, considera que, quando o preto tem culpa,
ajoelha, pe as mos, e o branco, se  portugus, perda, e, se 
alemo, castiga sem d nem piedade, como se perdo no lhe houvesse
implorado.

Isto compreendeu o negro e no o compreendeu o alemo no aviltamento
moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericrdia no teve lugar;
e por isso  bem de crr que o negro compreenderia o que o alemo no
alcana, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o
inunda de sangue e de dr,  a guerra entre os que perdoam, quando os
delinqentes ajoelham, e os que no sabem perdoar, nem mesmo em face da
mais submissa humildade e contrio.

Alguma cousa nos diz que no esto em rro aqueles que anunciam como
fruto desta guerra tremenda uma renovao de todo o nosso modo de ser
social. Ousarei at acrescentar que essas conseqncias ltimas da
guerra, mais do que esboadas, acentuando-se j clarissimamente em
pontos essnciais, so certas e inevitveis, independentemente da
vitria das armas. Desde a lio formidvel da queda do imprio romano,
abdicando das suas velhas fras morais, das que considerava fundamentos
da sua austra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder
mais alto,  inspirao crist, desde ento nunca mais o materialismo,
culto ou inculto, e o idealismo, ingnuo ou refletido, se encontraram em
conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as
derrotas, no acabasse por arrastar os homens e os conduzir  alegria e
 felicidade em reinos superiores  sordidz do mundo, mesmo quando essa
sordidz fsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde
que esta alma acorde, confundir, por fra ou por arte, pela
irresistibilidade que  a sua essncia, aquela outra alma de baixa
servido terrena que lhe repugna.

Anunciam os augures polticos que esta guerra traz comsigo a libertao
das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais
do que uma conquista de meras liberdades polticas e de independncia
dos povos, recordando a dissoluo do imprio romano, seguida da
fragmentao medieval, e aproximando-a da revoluo iminente dos
imprios modernos nas suas tendncias descentralisadoras, j amplamente
e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, no estar muito afastado
da realidade quem supozer a poltica levada neste pendor pelo surdo
impulso de fras morais e religiosas, pela presso das exigncias da
mentalidade caracterstica da nossa era.  liberdade do pensamento,
emancipada de toda a espcie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo
estudo, pela experincia e pela reflexo, corresponde a pulverizao das
crenas e das aspiraes, a infinita variedade do modo de ser
intelectual, moral, religioso e esttico do nosso tempo, demandando com
a legitimidade da reviso e contestao de toda a f a legitimidade e
direitos de tolerncia de todo o esprito nas suas manifestaes
especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicolgicas
fundamentais, a diversidade  extrema e reclama liberdades correlativas,
a assegurar-lhe a expanso. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns
pedem Deus, Ptria e Rei e outros exigem Liberdade, Igualdade e
Fraternidade, podemos estar certos de que de cada lado no se apuram
algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na
ptria as mesmas feies, que dem ao rei o mesmo trono, que encerrem a
liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e
sintam pelo mesmo corao a fraternidade. Ora  desagregao do
pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisao dos poderes
polticos que no podem subsistir na antiga integridade e extenso sem a
unidade de tendncias mentais, constantemente contrariados, minados e
trados por obscuras mas indomveis rebeldias. Se vmos um estupendo
imprio, como o da Gr-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira,
irmmente querida e amada, as raas mais diversas e as mais diversas
aspiraes,  porque para sse milagre poltico, sem precedente na
histria, se criou um povo em cujo gnio, por uma arte que  maravilha
de espontnea perfeio, se conciliam praticamente as maiores e
desusadas liberdades com a coincidncia em uma unidade, para a qual
provavelmente s se encontrar justificao na comunidade de amor 
prpria liberdade e no propsito ntimo de a manter e defender.

Sendo, porm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo
evidente que no conseguiu le at hoje reproduzir-se, particularmente
no continente da Europa, onde  extrema desagregao do pensamento, de
todo carecido de unidade, se junta a extrema opresso dos imprios, de
todo avessos a suportarem independncias, o conflito tem de seguir seus
trmites para abolir uma unidade forada que a unidade psicolgica no
autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade h de encontrar
as solues convenientes. Os ingleses no exageram, quando dizem que
combatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a
vitria de princpios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados
 idade da razo.

O que sses povos vo fazer dssa liberdade, at onde a levam, para que
a querem e em que a aplicaro, o que ela vai demolir e o que ela vai
construir, no  fcil prev-lo, como no  fcil prever que destino as
estaes reservam  planta que hoje nasce bafejada do sol e manh se
verga e esmorece aoitada do temporal. Mas dsde j se torna manifesto
que estamos em vsperas de uma profunda reaco, pois que por efeitos de
reaco chegmos  convulso presente. Desde j se adivinha que a
negao da cultura alem, e negada est seja qual fr a sorte das armas,
sendo ela a cultura e a ambio meditada e tenaz de toda a especie de
materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas
materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr.
Inge, prgando h pouco em Londres, na abadia de Westminster, e
discorrendo sobre as conseqncias da guerra, definiu o que entre os
pensadores comea a distinguir-se nitidamente, dizendo: Teremos de nos
contentar no futuro com uma vida mais ch e, espero, com um mais alto
pensar. Se assim fr, veremos a verdade daqule velho e belo proverbio
espanhol, de que Deus nunca bate com ambas as mos. As nossas perdas
seriam ganhos.

Mesmo entre ns, alguma coisa se passar de conseqncias talvez
larguissimas, e porventura altamente benficas, apezar da crise dolorosa
a que nos sujeitam.

 sabido que os rendimentos das alfndegas chegaram a baixar em
propores assustadoras. Significa isso a privao de muita coisa que
sempre nos ser indispensvel e que por qualquer modo teremos de criar
ou substituir, e significa tambm a absteno de muita outra coisa que
sempre nos foi suprflua, s por vcio se divulgou e  urgente suprimir.
Se esta situao persistir, a que modificaes obrigar a economia do
pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecer que por
urgncia das presses econmicas cheguemos a um nacionalismo e a uma
simplicidade aos quais nenhum incentivo moral pde levar-nos, e em favor
dos quais se esfalfaram em vo a arte mais s, o mais bem inspirado
patriotismo e mais modesto bom senso?

Evidentemente, a alma dos povos no se vence e aniquila e transmuda com
aquela prontido que os canhes mostram ceifando os exrcitos e
arrazando as cidades. No consente mutaes instantneas.

manh, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que
comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuaro no
seu trabalho, nas suas paixes, nos seus vcios e nas suas virtudes,
como se lhes permanecesse intacto e sem alterao o carcter. Mas novos
stros se ergueram, brilham e lentamente iluminaro e penetraro o mundo
com a sua luz, e nele criaro inumerveis vidas novas. O materialismo
com todas as suas edificaes e fortalezas afunda-se no occaso, e o
idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas no
morto, surge glorioso a revestir a terra desolada.




Ganhos e perdas


Os factos da conscincia no esperam os feitos das armas para
reconhecerem e declararem as suas vitrias e derrotas. Pondo em pouco as
conseqncias militares e polticas da guerra, desenhe-se como houver de
se desenhar a diviso da terra, reparta-se como houver de se repartir a
distribuio da fra e dos canhes, muito antes disso e
independentemente dos seus destinos e designios j as aspiraes e
crenas dos homens definiram e anunciaram tendncias e propsitos que da
guerra nasceram ou na guerra encontraram terreno propcio, j marcaram
no seu rol vencedores e vencidos, j proclamram suas determinaes
inflexiveis.

No so poucos, e sbre tudo no so pequenos, os vencidos da
conflagrao tremenda em que o mundo se agita.

Dela sai j gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a cora e
desprestigiado, o poder magnifico do socialismo que durante longos anos
fez proslitos, adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhes,
apaixonou as multides, dominou, convenceu e pz ao seu servio os reis
e os sapientes, toda a grandeza e autoridade poltica e moral, o saber,
a virtude e a fra.

Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como,
por que modos e at onde influia na felicidade dos homens e com a
abastana assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocra
para base dos seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se
o companheiro e o aliado submisso de todos os despotismos e de todas as
crueldades. No nos poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma
injuria; a todo o morticinio, a toda a opresso e a todo o insulto o
temos visto associado, sem um lamento, sem um gesto de repulso, escravo
dedicado de um patriotismo todo constituido e s constituido de cobias
e odios, por completo desconhecendo o que seja e para que sirva a
fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade estranha, todo o
Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo econmico moralmente
acanhada, reduzindo a vida a uma repartio de comodidades e a uma
cevadeira de necessidades fsicas e apetites meramente sensuais, o
socialismo podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de
previdncia, de agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago
e grandes regalos, mas era uma mecanica que s considerava o corpo,
deixava intacto isto que chamamos alma e, nada dizendo ao nosso corao,
consentia-lhe que alimentasse a ruindade de sentimentos cujas furias a
guerra soltou; at mesmo assistiu, mais do que indiferente, complacente,
seno contente,  prolongada cultura dessa ruindade, que as obsesses de
grandeza poltica reputavam um auxiliar eficaz de seus desvairados
sonhos.

Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um
despotismo, a abdicao voluntria ou forada da liberdade individual na
omnipotncia do estado, no tinha razo para desamar quaisquer
despotismos seus irmos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas
suas afirmaes, menos a palavra liberdade.

Mas a liberdade no lhe perdoava, jmais lhe perdoou, cedo comeou a
apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida 
pura miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o
despotismo e a opresso militar, passa-o ao bando das traidores e
herejes. As sombras dos Proudhon, dos Bakounine, dos Tolstoi, dos
Rclus, como a figura profetica de Kropotkine sorriem tristemente 
desgraa presente e  ruina, mais do que nunca confiadas em que s a
gloria da sua crena poder resgatar-nos da mortificao. Quantos
apregoavam que os governos so essncialmente um mal, seja qual fr a
frma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos abominaram a
coaco e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas enxovias e
na perseguio e no desprezo dos homens, quantos s esperaram a
felicidade das sociedades e a redeno das suas penas fundando-as no
imperio da conscincia moral isenta de toda a violncia e
constrangimento, sentem renovada e avigorada a sua f e exaltam-se na
vitria que lhe facultam as calamidades, espalhadas pelos seus
adversarios das alturas dos seus tronos e dos seus tribunais, semeando a
ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a desolao, com uma impiedade
inflexivel, obedientemente e brilhantemente servida pelo esforo irado
dos exrcitos e pela soberba enfatuada e corrompida das magistraturas.
Filho legitimo do liberalismo dos nossos avs, o anarquismo, na sua alta
expresso filosfica, que no nas suas aberraes criminosas, v de
sbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando
sbre o naufrgio e confuso da inconsistente e ilusria bondade do
socialismo.

Nem para ns, na estreiteza da nossa descurada mentalidade,  novo o
problema. Ha muito lhe ouvramos o rebate a que responderam as
imprecaes impacientes daqueles a quem le surpreendia, pondo-lhes em
risco bens e grandezas.

H vinte anos, Antnio de Serpa,--um talento culto, homem de superior e
nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus
contemporneos fizeram justia e que o desleixo ptrio se apressou a
esquecer,--escrevia um opusculo sobre O Anarquismo.

Foi quase um escndalo. Comentado o propsito, antes da publicao, com
o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa,
mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicao, quando se
tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, alis
muito chos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em
advogado do mais perigoso pensamento revolucionrio! Muita gente o
imaginou e lamentou, sem poder explicar sse estranho desvairamento. O
estudioso e observador da evoluo poltica, que outra coisa no foi
nesse incidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos
ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento
das doutrinas e referindo-as aos factos e s lies da experincia,
determinando posies, relaes e conseqncias, desapaixonadamente e
lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexo, em um
esprito de pura justia, perfeita sinceridade e elevado idealismo, sse
passava ignorado das multides que apenas o tinham visto e compreendido
nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeao de
funcionrios pblicos. Entre o antigo e o novo homem a distncia era
grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o
ministro, no estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem
por ltima homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe
o valor pela posio social que ocupava e no pelos merecimentos que o
engrandeciam.

Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porm, um amigo e
contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastido de
esprito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, , e est para
durar--Oliveira Martins.

A sse tempo, era ste o adepto e propagandista do muito falado e
querido socialismo do Estado, grande progresso fabricado nas
universidades da Alemanha, frtil em promessas de renovao das
sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatrio seria
Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de
negaes. Vieram para a imprensa as discusses dsses dois ilustres
antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen econmico, e no
foram sem influncia nas vicissitudes polticas e na administrao
pblica dessa poca e nas que at nossos dias se lhes teem seguido. O
socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituio
poltica nacional, embora o mais das vezes se revele to pobre de ideais
como incapaz na aplicao. Quase s temos a agradecer-lhe a boa vontade,
perdoando-lhe os agravos.

Se hoje, porm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos
as suas simpatias pela aspirao essncial do anarquismo, e a coragem
com que, sem receio das interpretaes equivocas, veiu em defeza dos
seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de
blasfmia e escndalo no se nos afigura mais do que uma tnue apologia
de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinao, timida e
at nem sempre isenta de injustia.

Outros e inesperados aspctos se nos deparam.

Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vria
insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo,
reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma
horrorosa fatalidade de que o seu inimigo  cumplice, descobre-lhe as
deformidades e aponta-as  maldio dos povos. As munies dos exercitos
converte-as le em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e
emprega.

O principio da maxima liberdade social e poltica, e correlativamente a
reduo ao minimo dos poderes do Estado e das sujeies do govrno
poltico, isso que  na realidade o princpio anarquista na sua pureza,
conseqncia lgica de toda a aspirao liberal que criou as sociedades
modernas, avigorou-se na guerra com extraordinrias foras. A Revoluo
Francesa recrudesce exaltada em novas glrias e a sua bandeira de
Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos
andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filsofos do
absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prgadores e
ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida,
ei-la de repente restituida  sua unidade, beleza e caridade, reanimando
em esperana as multides prostradas pelas agonias, dres e impotncia
que foram a obra sinistra dos seus inimigos.

O que no disseram da Revoluo Francesa o imperialismo restaurado pelo
prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literrio inflamado pelo
baixo materialismo que desnaturou e atraioou as teorias evolucionistas,
e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo
zeloso das coisas prticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e
Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenas,
fraquezas a que urgia acudir com a proscrio do sentimentalismo,
levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificao da cobia e
sensualidade, desdenhando de toda a obrigao de generosidade e pureza.
Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se ento; e todos
para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja
navegao o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior
segurana para um alto e ponderado comrcio de carregaes de
prosperidades, regalos, comodidades e mercncias.

Nessa construo, era a Scincia que lhe animava e inspirava o impulso,
emquanto lhe traava os planos, libertando de toda a debilidade da
Religio que arruinra, segundo ela cria, os edifcios de outras eras
tenebrosas, barbara, nociva, perigosssima superstio com sua fatal
insnia de ascetismos, desprendimentos e estril consagrao ao que no
 dste mundo.

Hoje, os exrcitos que por suas paixes e crenas cobrem de sangue a
terra e sacrificam milhes de vidas, clamam alto que combatem pela
liberdade, pela independncia das pequenas nacionalidades, pela
aniquilao do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo
reino do cristianismo entre os homens.  a rehabilitao total do
esprito que inflamou a Revoluo Francesa;  a justificao ardente e
cara do idealismo poltico e religioso amaldioado e acusado de
sentimentalismos mrbidos e por demais esquecido e atraioado;  a
ressurreio e louvor de todo sse romantismo brilhantemente e
exuberantemente fecundo, que afinal, atravs de todos os seus fulgores e
errores, significou com uma eloqncia inaudita o descontentamento do
imprio da sordidez na humanidade, a viso de sociedades melhores e de
almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que
dolorosamente nos dominavam e turbavam--dsse romantismo que, em obras
de gnio, foi acto de F, Esperana, Caridade e Beleza, por vezes louco
mas jmais vil.

Por essas crenas que h um sculo cobriram de vtimas a Europa e que
afadigamente, desde a reaco de 1870, renegmos e esquecemos, morrem
hoje alguns milhes de soldados. Um incidente histrico que da
capacidade militar da Prssia fez a lei do mundo culto, corrompendo o
senso moral e poltico dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos
que lhe deram causa, interrompeu a civilisao iniciada pela Revoluo
Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada
passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas.
Fecha-se agora o perodo de quarenta anos de reaco.

 parte condies tcnicas e a magnitude de uma organizao de fras
militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e
ostenta, a situao do principio do sculo XIX e a do principio do
sculo XX inteiramente coincidem. O impulso ntimo no mudou; apenas se
encontra robustecido pela experincia recente e aturada e tambm pelo
desengano da convenincia e insolncia do despotismo armado a primor e
acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes
muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anmico, mais estpido
e senil do que cruel, que pelas crtes apodrecidas da Europa a Revoluo
Francesa desapiedadamente combateu e derrubou.

Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para
onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta
cruzada, evidentemente, vai na frente. Se no foi a sua espada mais
poderosa, foi de certeza a sua conscincia mais penetrante. O dio
alemo no se ilude; apontando apopltico  Inglaterra, aponta ao
inimigo.

Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitria
nem um s instante, prga a guerra santa.  uma batalha de ideias e de
ideais, diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais
eloqntes adversarios da guerra da frica do Sul e  h cincoenta e
seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. Krupp pde fazer
armas, mas no pde fazer homens. Estes professores de chacina,
prgadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em
bases scientficas e advogam a runa das catedrais e o terror dos
no-combatentes, homens, mulheres e crianas--estes homens trabalharam
durante quarenta anos e  o resultado da sua obra que ns combatemos. E
o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moo de talento e
justa fama, por sua vez nos diz que se h qualquer cousa vital na
nacionalidade e no imprio, no h derrota que os (aos ingleses)
esmague. A vitria no ser decidida pelas massas dos homens ou pelo
tamanho dos canhes, mas por uma certa concepo da nacionalidade e do
imprio. Os imprios morrem, no por um perigo externo, mas porque o
corao do imprio no  suficientemente forte para lhes sustentar o
corpo. Podem os homens queixar-se de que a tica crist  frouxa, mas
no podem tirar-lhes do sangue a influncia crist.

No somos uma nao crist, mas no podemos negar o nosso amor por
Cristo. Ha certa essncia de cristianismo no sangue ingls que lhe
deu domnio sbre os outros povos, sentimento de justia e
magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo  contradio das
cousas resolvida e conciliada na uno de uma perene bondade.

E a filosofia e a histria, o meditado conhecimento dos factos,
confirmando a intuio do sacerdote, como ste confirmra as afirmaes
do poltico que pela bca do primeiro ministro da Inglaterra assegurar
ao mundo que no se tratava de um conflito meramente material, mas
tambm de um conflito espiritual, no nos induziro em sentimentos
diversos dos que as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador
fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que 
Benjamim Kidd, resumindo as concluses dos mestres da sua classe, julga
que a Alemanha s poder ser vencida por um idealismo mais alto e uma
crena e uma determinao que sejam mais fortes do que aquelas que nesta
guerra a sustentam.

O ideal que anima a Alemanha moderna representa a mais antiga doutrina
poltica do mundo--a doutrina do estado predatrio como encontrou a sua
expresso histrica mais subida no imprio da Roma pag. Exprime, em
resumo, a negao dos princpios caractersticos com os quais os
progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo
antigo cau. Mas exprime essa negao protegida com scincia, recursos e
organizao, como Roma nunca possuiu.

Todavia, a histria da civilisao ocidental durante dois mil anos no
 seno a histria do esmagamento e pulverizao desta doutrina, em toda
a frma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder
militar. A significao subjacente de todas as frmas do progresso no
Ocidente durante vinte sculos  que sse progresso ergueu a concepo
do direito a uma altura que  universal, Fez o direito independente e
superior a todos os interesses do estado, seja qual fr a pretenso ou
misso em que possam basear-se, seja qual fr a escala em que possam
representar-se, e seja qual fr a fra em que possam apoiar-se. A
doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito,
foi sempre o desafio s lutas estupendas que constituem a histria da
civilisao ocidental, e sempre cau sob o impulso de uma civilisao
mais alta.

Cabem  Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua
histria e o seu domnio fizeram da Gr-Bretanha a mais complexa
psicologia poltica e a mais poderosa fra do mundo moderno. A natureza
da sua fra escapa inteiramente  compreenso dos espritos presos no
absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela
que em contacto com o mundo durante sculos e nas suas humilhaes e
desastres, como nas vitrias de um imprio de 450 milhes de individuos
da raa humana, aprendeu a grande lio universal--isto , que h uma s
raa, uma s cr e uma s alma na humanidade, posto que para o saber
queimasse s vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da
responsabilidade humana acima de todas as teorias dos intersses dos
estados e dos imprios. Foi ela que, por sua glria e fortuna da
humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoo invencvel aquele
intolervel pso da moralidade de escravos da tica civilisada que
Nietzsche flagelou; e foi ela tambm que mais do que nenhuma outra
nao, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualvel dessa
democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados
direitos e h pouco no passava de uma falncia e uma vergonha, no
conceito presunoso e insolente dos administradores e senhores da
caserna besuntada de metafsica que fica para l do Reno, segundo a
sugestiva expresso de Ea de Queiroz, to pitoresca como profunda e
vagamente proftica.

Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeies que o
desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitrio,
amesquinhado pela insuficincia da aspirao que o alenta e acusado de
intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e
instrumento dcil, havendo quebrado a espinha dorsal, nos termos em
que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnstico tem corrido na
imprensa--e sendo o socialismo a mais scientfica das concepes de
governo e a mais engenhosa arte de governar os homens e os trazer
contentes, com le caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de
estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar
a abastana, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma.
Se  grande e edificante a humilhao do orgulho militar, frustrado na
sua omnipotncia pela averso dos povos, no  menor nem nos ensina
menos a humilhao do orgulho scientfico e filosfico que com le se
emparceirra em uma s jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha
afrontava a terra inteira com o seu saber, to arrogante, poderoso e
altivo como as armas com que ameaava levar diante de si e sumir nos
arrebatamentos invencveis da sua cultura as naes e as gentes de todo
o globo. Arvorou-se em emprio de todo o saber e de todo o pensar. S
dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a
procurmos em suas terras e a pagmos por exagerados preos.

De facto, nunca se viu um povo to bem preparado com aquilo que a razo
pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das foras em
aco no universo. Nunca ninguem penetrou to lucidamente os segredos
das coisas, nunca ninguem soube to completamente as suas qualidades, e
nunca ninguem as aproveitou em igual extenso e com mais minucioso e
sbio metodo. A preparao militar da Alemanha, to falada e to gabada
e temida, era apenas uma das faces da sua preparao em absoluto. Estava
preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas,
nas instituies, no comrcio, nas oficinas, sbre tudo nas suas
oficinas. Era um prodgio sem precedentes, um inaudito fenmeno de
previso, de ordem, de ateno, compreenso e satisfao de todas as
necessidades, das maiores s mais pequeninas, de antecipao de todos os
confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de
toda a riqueza econmica, de toda a fra concebivel e possivel dos
indivduos e das comunidades. E nada disto, que era e  um assmbro,
impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela,
lhe abalasse o edifcio formidvel, e para o fazer se sujeitasse ao
maior e mais angustioso dos sacrificios.

Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza
porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade
apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza.
Foi isso que le odiou, foi isso que o ofendeu e fez lanar no combate,
incitado por uma vaga mas impetuosa intuio da urgncia de certa
necessidade de humilhao do orgulho da razo, da scincia, da
filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas
multplices tradues prticas.

Fabricra a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de
presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada
animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com
todas as qualidades de liberdade e bondade que o corao no dispensa. O
resultado ser que, levado o conflito  agudeza em que de perto o
sentimos, ficmos desconfiados para largos anos, provavelmente para
largos sculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratrios, aquela
scincia, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda
aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem
nobreza, que admirmos, copimos e nos era afianada como a ltima e
definitiva palavra da civilizao, sero bem pouco, os mseros vencidos
de uma outra civilizao muito mais ingnua, muito menos sbia, muito
menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor,
muito mais crist, numa palavra. E a glria imarcescvel desta
civilizao confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente
e fraca, embora erguida em dourados baluartes.

Facto singular e notvel--h muito a Alemanha se queixava de pobreza de
homens pblicos e diplomatas; at mesmo no estava segura de abundar em
capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que
mais autoridade e experincia tinham para o afirmar, e isso era
confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a
situao poltica do Imprio; e isso se acentuou com uma evidncia
concludente nas negociaes que precederam a guerra e em todas as que se
lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alem uma incapacidade
suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligncias uma
pleiade de homens pblicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo 
altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a Frana e a Russia
nada lhe ficavam devendo em demonstraes brilhantes de inteligncia e
carcter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de
batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.

Parece que toda a scincia alem, com a exactido matemtica dos seus
apurados clculos e processos, abandonou ou ignorou qualquer factor
essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza,
equilibrio e beleza de faculdades que s o latino nas suas tradies,
mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma
expontaneidade, com uma naturalidade que so maravilha e a mais solida
presuno da sua eternidade. Aqueles que jmais descreram das
humanidades contra a scincia, que o mesmo  dizer da vida contra a
mecnica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na
sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor econmico,
renovaram a f entre as vicissitudes desta guerra, e  bem de crer que
vo privar o germanismo do lugar que usurpara s humanidades, e tem de
lhes restituir, na educao das novas geraes.

Scincia era ainda, e na derrota da scincia vai envolvida, toda aquela
psicologia entrincheirada em fortalezas histricas que havia de
justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e poltica
que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia,
romantismo, sentimentalismo, negao do esprito scientfico, filosofia
da cobardia, desgraa e atrofia das raas que os deixassem prevalecer e
s pela guerra alcanariam manter a energia.

A prpria guerra se encarregou, porm, de desvanecer toda a velha lenda
da necessidade e benefcios das guerras.

No primeiro mpeto da insnia em que se precipitou, foi como uma
pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanas de um
mundo para sempre livre de batalhas sanguinrias, tal qual o viamos j
prximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o
advento da idade de ouro pelos profetas e apstolos que nos convenciam e
fascinavam. A persuaso que ultimamente se divulgara de que a guerra
significava, lm duma aco crudelissima, um negcio pssimo, a _grande
iluso_; toda a erdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma
futilidade, quando no era puramente a cobia sordida e cega dos que
mandavam e no tinham medida nem lei em suas ambies; essa aurora de
tempos novos pareceu escurecida para no mais brilhar, quando os
primeiros fumos dos canhes atoldaram.

Desenganassem-se os ingnuos, pensou-se; a guerra era condio
imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores
que fssem as razes e o sentimento que a condenavam, mais podiam os
instintos que a alimentavam. O presente era a demonstrao clara da
subsistncia dessa doutrina de morte.

Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que no fsse com
aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a
insistncia na dvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que
alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexo reanimou e
fortaleceu as tendncias dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi
certo--facto primacial e de extremas conseqncias, que a guerra, ainda
h cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita
unanimamente, tornra-se no pensamento dos nossos dias uma
monstruosidade, uma aberrao e um crime, to indignadamente apontados e
abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos.

Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua
defesa pde dominar a rebelio dos que a detestam e esperam ban-la. No
esqueceu todas as alegaes a seu favor que colhera no correr dos
sculos; todas aduziu e nenhuma pde prevalecer. Corrigia o egoismo,
avigorava a disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o
sentimento da honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a
adversidade, para a tristeza e para a dr, desenvolvia a obedincia ao
dever, semeava a coragem, a dedicao e a generosidade? Nem assim
conseguia restaurar o imprio perdido! Poderes mais altos lentamente se
haviam constituido, e ao mais pequeno spro a piramide, que parecia
invulnervel a toda a injria dos tempos, como os tumulos dos faraoos,
esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova do fogo e do
sangue, a prova da morte, tornou-se insuficinte e insignificante para
julgar os homens. A escala dos valores toda se havia alterado; quanto
era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e costumava
encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais nobre
amplitude nas inevitveis e constantes provaes da vida. Se o
desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o
esfro, a consagrao ao dever,  amizade,  ptria e ao lar eram
virtudes sem as quais os homens se despenhavam na abjeco, no
careciamos, para as possuir, de as cultivar no dio, na cobia, na
brutalidade, na impiedade, na ruina e nas atrocidades sanguinrias; o
trabalho, a desgraa, a fatalidade das coisas, a cegueira do destino e
do mundo csmico, o sentimento da responsabilidade religiosa bastavam
para nos experimentar e educar. A adversidade de todos os dias, que no
cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pr em
prova toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de
outra eramos capazes. O _Cavador do Millet_, no seu campo safaro, s com
a sua enxada e o peito descoberto, amesquinhra e derrubra dos seus
pedestais os Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente
apregora que era chegado o tempo de converter as espadas em charruas.

Aps as hesitaes do primeiro momento, a guerra, sem embargo da
largueza e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida
e aquela mesma futilidade, aquela mesma maldio, desgraa e estril
crueldade que anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentena de
proscrio no conceito dos homens empenhados em nos libertarem dos seus
trgicos horrores.

Fossem quais fossem os canhes que tivessem de orgulhar-se de soltar o
ltimo grito de morte, vencida estava e est aquela espcie de
civilizao que nos conduziu a esta catstrofe infernal e a preparou e
pretende justific-la. Pde essa civilizao restabelecer-se da desordem
em que agonisa e, cobrando nimo, restaurar cidades, oficinas e
governos, com todos os seus enganos, traies e angstias, com todas as
suas fadigas, prazeres, ruins ambies e opresses; pde, claudicante e
ignorando a prpria misria, continuar incerta e cega na jornada dos
seus muitos e lgubres progressos at de novo naufragar na imensidade
dos seus inumerveis desastres. Mas acordou um inimigo que no lhe
perdoar; despertou a conscincia das suas terrveis enfermidades, e com
ela descerrou a viso de reinos de liberdade, de amor e de simplicidade
que fascinam. Aps a guerra, o mundo ser outro, seno de facto, porque
os factos so lentos em render-se, ao menos pelo sentir que  tenaz e
seguro nas conquistas.

Porque, na realidade, esta guerra no foi apenas a conflagrao dos
poderes da terra, por tremenda que essa conflagrao nos parea; no foi
unicamente um incidente histrico da expanso das raas, ainda que
muitas envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de
tudo isso, um acto de contrio dos erros do nosso desvairado corao,
por muito distante e obscuro que parea o seu domnio sbre o tumulto
dos exrcitos; mais do que desengano e desiluso de uma traioeira paz e
ventura, foi o castigo da confiana em fras mentirosas, foi um
profundo _peccavi_ cuja expiao sofremos no mais angustioso dos transes
e cuja absolvio temos de procurar em um mundo fundado em uma outra
alma muito diferente daquela, por demais corrompida, a que loucamente
nos haviamos entregado. Outras aspiraes, outras crenas e todo o seu
modo de ser externo tero de nos inspirar para nossa fortuna e alegria.
Muita coisa que criamos morta ha de resuscitar; e muita coisa que
supunhamos eterna ha de desvanecer-se para sempre.




Reviso de valores


O facto mais notvel da guerra nos mezes, j longos, por que se tem
dilatado, no  de certo nem a novidade da ttica e da estrategia, nem
as subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente
aproveita e emprega com xito brilhante, nem o calibre dos canhes, ou a
rapidez dos movimentos, ou a audcia e artes dos que voam nos ares e se
perdem nas nuvens to facilmente como navegam por baixo das ondas e se
ocultam nas profundezas do mar. Tudo isso  muito curioso, sem embargo,
para as imaginaes infantis, mas difere do que antigamente se fazia
apenas naquelas minguadas propores em que os brinquedos das lojas de
Paris diferem dos que alegravam as mocinhas de Corinto antes de Cristo
vir ao mundo. As jornadas de Joffre em automvel no sero cousa muito
diversa no carcter e conseqncias das que na mesma Galia, igualmente
insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legies de Cesar com
seus estupendos pulmes aquecidos a trigo e centeio, e em certo modo
sobrepujando aos pulmes de ao nutridos de essncias explosivas que
hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e
engrenagens fomos ns capazes de ajustar e pr em movimento, com espanto
das multides ingnuas e alegria e proveito, no exguo, dos fundidores
e capitalistas e fabricantes, possuidores de privilgios registados e
possudos por uma febre e uma impudncia de especular e ganhar to
despejadas e poderosas que no carecem de registo, nem de garantias
especiais do estado, para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas
no final, apezar de toda a complexidade em que nos embrenhmos, no
ostentamos ambies e talentos superiores aos muitos e famosos que
fizeram a guerra qusi exclusivamente fiados na fra do seu brao; e
nem to pouco consagramos as proezas e chacina a fins mais nobres do que
aqueles de estreme e insacivel cobia que exaltaram os generais de
outras eras. Como guerreiro, o mundo  o que sempre foi desde que se
conhece histria, um assassino cruel e sordido.

Ser mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve
alterao de valores, foi toda em proveito de aptides degradantes. Com
uma guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espies, a
astcia, a dissimulao e a habilidade de ferir sem correr risco de ser
ferido tomaram em larga extenso o logar que era ocupado pela coragem,
pela firmeza de nimo, pela deciso, pela energia, pela grandeza e
lealdade da luta a peito descoberto. O carcter de negcio, conta, e
clculo e previso, alis de supremo alcance, apagou muita beleza da
imprudncia, da ousadia e do desprendimento. As batalhas no so j o
heroismo espetaculoso do passado, disse um general celebre pelos seus
escritos, Homero Lea. Os exrcitos de hoje e os de manh so uma
sombria mquina gigantesca destituida de heroismo melodramtico... uma
mquina que leva anos a formar em suas partes separadas, que leva anos a
uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce e
irresistivelmente. O mais seguro dos combates modernos  obra de
trevas, um requinte de traies e de surprezas, uma mecnica annima,
acautelada e perversa, que raro consente um gesto de generosa
magnanimidade, raro conduz a revelar quem oferea com uma clara
abnegao a prpria vida, quem se inflame procurando dar a morte ao
inimigo da sua ptria e da sua crena. Entre a guerra moderna, intima e
exteriormente mascarada de couraas, e a guerra dos tempos heroicos,
fundada na fortaleza do mpeto, ha a distancia que vai de um
arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma orao, e de um negcio
a um sacrifcio. Sempre a ganncia, a soberba, a perfidia, o dio e a
baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a
iseno;  certo. Mas a influncia relativa do valor de cada um dsses
diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuzo da glria das
batalhas. O vulgar e o nfimo prevalecem. At nisto teria havido a
insinuao de um certo materialismo que invariavelmente prefere a
torpeza lucrativa s contingncias de uma franca e determinada
honestidade.

Isso, porm, so cambiantes superficiais que no atingem a essncia da
guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em
couraados, com catapultas ou com canhes de 42, continua a ser a mesma
multido de dedicaes e de abjeces, a mesma jornada da honra
escoltada de infmias, em regra mais rendosa para a ignomnia do que
gloriosa para a dignidade.

Facto de superior significao que esta guerra tenha a considerar e a
guardar como ensinamento, seno como profecia divina, um s teremos a
apontar, e sse de incalculvel magnitude--a amizade em que no dia de
Natal se fundiram os dios dos adversarios que momentos antes friamente
se trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais,
por espontaneidade do corao, decretaram um armistcio, to rpido no
tempo como douradouro na inspirao, para soltarem palavras de paz e
afeio, que lhes transbordavam do peito, e para converterem em olhares
de intimidade e ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade
sanguinaria em que um tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os
soldados voltaram s fileiras, o fogo recomeou, o sangue jorrou, e de
novo se cobriu de cadaveres a terra. Mas alguma cousa indestructvel se
edificra e permanecia de p, inviolvel; uma luz se acendra, que no
podia apagar-se, de paz, de comunho e de carinho; uma saudade se
ateira precipitando as naes e os exrcitos em caminhos novos, para
outros combates.

No foi, sem dvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali
venceu e aniquilou o nacionalismo nas suas estreitezas e prejuzos, que
lhe encobrem a sua legitimidade, lgica, elevao e grandeza, e por
vezes as pervertem, transmudando em averso o amor do prximo e a
amizade do vizinho. No foi o desfazer das naes, das fronteiras e dos
lares, a absorpo e a utopia em uma patria indistincta da humanidade.
Foi todavia a graduao do internacionalismo na escala dos valores em
uma altura superior quela que anteriormente lhe havia sido designada;
foi a consagrao de uma abenoada exaltao que cresceu e pde mais do
que a insnia sanguinria de aniquilao mtua, foi um prego eloqnte
lanado aos quatro ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a
repetir-lhes que os homens no querem a guerra e a aborrecem, e
unicamente pela avidez dos que os governam, escravisam, fascinam e
iludem so arrastados s batalhas que o corao amaldia. Foi a
confisso tcita, mas iniludvel e de uma eficcia incalculvel, das
determinaes de uma conscincia que sente dissipar-se a diviso das
raas e das naes--no porque a suprime, mas exactamente porque,
reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feies das raas, a
ama no vizinho como em ns mesmos, unindo-nos na comunidade de
interesses e afeies por aquilo que  o nosso comum amor, em vez de nos
massacrar na concorrncia das ambies, no desrespeito da
individualidade tnica especfica, na intolerancia, em tudo quanto pde
distinguir-nos e de facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos
separar e tornar inimigos.

Os menos desconfiados das aparncias e incitamentos da primeira
impresso, vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando
calamidades e atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticnio das
mulheres e das crianas at  ruina das catedrais--que jmais podero
ressurgir na inteireza do seu esplendor e poesia, jmais podero rehaver
os bafejos dos alentos msticos que em extasis divinos as sonharam e
ergueram e pelo sangue de mrtires e pelo gnio dos obreiros lhes haviam
dado a aureola de uma arte e tradies irreparveis, das que vivem uma
s vez, filhas de uma s alma, e no renascem, se as ultrajou a malvadez
dos homens atnitos na turbao de um mpeto sinistro!--os menos
desconfiados dos incitamentos da primeira impresso de pronto descreram
dos sinais de paz que h pouco viam com alvoroo no horisonte. Logo se
abandonaram ao desalento e tiveram como no subsistentes a solidez e
progressos daquele internacionalismo que era a vitria da conscincia
dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os conflitos das suas
diversas tendncias, necessidades e divergncias, e conduzindo a uma
lenta substituio da hostilidade pela cooperao que, paulatinamente
mas incessantemente, se infiltrra no esprito das raas e se traduzia
em ligaes cada vez mais estreitas, em um comrcio material e moral
cada vez mais assduo e penetrante, e na dissoluo paralela de suas
reservas, dissenes, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas
hesitaes o que no dia de Natal se passou entre exrcitos inimigos em
campanha, de sbito tornados irmos por mandados desconhecidos, mais
altos do que a voz dos generais rutilantes de gales; mas, se a grandeza
milagrosa dsses comandos invisveis no lhes assegura que alguma causa
de novo se fundou na terra e que no foi apenas um sonho de visionarios
a convico dos que antes da guerra encontravam na expanso do
internacionalismo os fundamentos e a esperana do renascimento poltico
e social das comunidades, meditem paralelamente o que na escala dos
valores sofreram o patriotismo e a diplomacia, e isso lhes dir por
outra forma e por outras palavras o que a trgua e os sorrisos do dia de
Natal no lhes tiverem significado. A seu modo e precisamente, pela
anlise da histria, pelo exame dos factos polticos e pela verificao
das ideias e opinio dominantes, isso lhes dir o que porventura lhes
haja escapado na inspirao misteriosa e vaga dos transportes do
corao, nsse desdenhado e at execrado sentimentalismo que, no
conceito dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando
no  a desgraa, a dissoluo da energia, teve todavia a fra de
desarmar exrcitos e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes,
indemnes de debilidades afectivas, haviam juntado e edificado para uma
obra de extermnio.

O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes,
e  novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por
um resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, dios e egoismos,
corrompeu-se, ou melhor, no tem sabido purgar-se de faltas grandes e
crueis, como aconteceu  religio do cristianismo, embora as faltas do
patriotismo no sejam usadas pelos agnosticos contra le, do mesmo modo
por que les procedem para as faltas da religio, o que talvez possa
derivar de que os agnosticos esto compreendidos nas faltas do
patriotismo e so alheios s faltas da religio. Compreenderam-se em
uma s divindade e apostolado as virtudes e as degeneraes e
deformidades do patriotismo; porque o patriotismo pode tornar-se no
moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os estados, como as igrejas,
podem comear por uma cobia de fra, por impulsos de infalibilidade, e
da passarem, atravs de uma perverso de lealdade,  perda conseqnte
da honra e ao esfacelamento da etica. Um cristo no pode pedir a sua
moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores espirituais;
o unico patriotismo que le pode respeitar  o que obedece ao Deus da
verdade e da rectido. E este patriotismo, porque  moral,  capaz de
ser internacional. Um patriotismo que no pode ser internacional que no
pode encontrar logar para uma mais larga lealdade  humanidade ou uma
mais profunda lealdade  igreja, acaba sempre por ser criminoso. No
fundo de todas as doenas do patriotismo h sempre o esprito do dio.
O verdadeiro patriota  o que cr, no em um s patriotismo, mas em
todos, que respeita a nacionalidade dos outros e sada a lealdade onde
quer que a encontre. No fomos suficientemente patriotas no passado.
Realmente, no acreditamos no patriotismo.  insensato, mesquinho e
despiedoso o patriotismo que antes de bem combater no soube bem viver,
que s na guerra sente as obrigaes e todas as esquece e desconhece na
paz. Nos anos angustiosos de sombria luta de classes que ns chamamos
os anos caquticos da paz, vivemos vidas baixas, egoistas, acanhadas e
crueis. De ano para ano as cidades alargam horrivelmente as suas ruas e
tocas nesta linda Inglaterra, (como de resto em todo o mundo), que 
nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas pela qual no estamos
prontos a viver; de ano para ano so oprimidos os pobres, rebaixados os
humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos cus o clamor de
milhes que se submergem emquanto ns opulentamente nos divertimos. E
imaginamos ser patriotas! At no tributo da vida humana a chacina da
guerra  pequena, comparada com os acidentes constantes que resultam das
doenas que se podiam evitar, da mortandade de crianas a que se podia
atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorncia, da
pobreza, da embriaguez e vicio.[4]

Companheira e a melhor serva dsse patriotismo e nacionalismo de
antagonismos sangrentos, rapacidade e conquista--misria e orgulho dos
govrnos destitudos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal
responsvel da desolao e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na
guerra uma completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para
sempre convencida de uma monstruosa traio a Deus e aos homens,  paz e
 riqueza da terra, condenada e confundida pelo cataclismo que na sua
corrupo e debilidade fundamentais provocou, aplaudiu e consumou,
perdeu o prestgio dos seus concilibulos e segredos, e so mais os
incrdulos que a proscrevem do que os fieis que a amparam. H muito
suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e tenebrosa nas maquinaes,
isso induzia a desconfiar da sua justia e boa f, embora fsse o meio
de lhe ocultar os propsitos e habilidades, e no raro as cobias, a
sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais ou
menos consciente e nunca escrupuloso--agora, ao dar conta pblica das
suas faanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas
anteriores.

Singular ironia do destino e no sem uma particular significao, um dos
homens que muito antes da guerra se identificra mais inteiramente com o
movimento que,  falta de melhor expresso, poderemos chamar
anti-diplomtico, era um hereje da sua igreja, um deputado do parlamento
ingls, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais puramente
aristocrtica que pde conceber-se, nascido em um palacio rial, filho do
secretrio particular da rainha, descendente de fidalgos com uma elevada
posio na crte e no seu pas, pagem de honra da rainha durante cinco
anos e em seguida, durante qusi dez anos, dedicado ao servio
diplomtico no estrangeiro e no ministerio dos negcios estrangeiros da
Gr-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa no podia exigir-se
para discutir a situao, valor e tramites da diplomacia, seus
beneficios e seus males e agravos.

Ora ste homem, que se distinguira j por duas obras de valor, _O Camelo
e o Fundo da Agulha_, severo estudo da degradao que a posse da riqueza
importa, e a _Decadncia da Aristocracia_, onde ps a claro a fraqueza
da prpria classe a que pertencia, sse publicista de sinceridade e
talento provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou
_Democracia e Fiscalizao dos Negcios Estrangeiros_. A procurava
acautelar-nos contra os perigos a que a cerrada e voluntria obscuridade
da diplomacia trazia sujeitos os destinos, aspiraes e esforos das
democracias. No creio, escrevia ento, que na poca presente haja
questo mais importante do que a considerao do problema que resolver
como  que a opinio pacfica, moderadora e progressiva da democracia
pde penetrar tanto nos negcios internacionais como nos negcios
nacionais, e como  que um estado democrtico pde descobrir os meios
prprios para se exprimir no governo da nao.

At que ponto fram profticos os seus pressentimentos e temores, qual a
importancia do problema que le punha acima de todos os outros problemas
polticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado h pouco por um
redactor de _The Christian Commonwealth_, pde renovar o seu pensamento
com a autoridade e desenvolvimento prprios de quem o viu justificado
por factos de uma trgica evidncia.

No supe que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O
desastre foi devido principalmente a erros polticos. Mesmo depois que a
guerra comeou, temos tido muitas provas de que realmente no houve
quebra na boa vontade do povo deste pas ou de qualquer outro. As
narraes pateticas, feitas pelos homens em campanha, das relaes
afetuosas entre les e o inimigo no dia de Natal mostram claramente
que a guerra no  entre os povos; sentem a necessidade de ser amigos e
facilmente seriam amigos, se os que os governam no estivessem em
guerra. O sentimento do povo  perfeitamente so; a guerra no foi
causada por dio ou clera que o povo de um pais sentisse contra o povo
de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a
moralidade internacional e que  realmente a moralidade
intergovernamental. Baseia-se neste facto a sua oposio  guerra. A sua
crtica  principalmente poltica. Contesta que haja uma quebra moral da
parte do povo... carecemos de nos libertar do segredo diplomtico e
garantir a fiscalisao democrtica nos negcios estrangeiros, o que s
por intermdio do parlamento pde fazer-se. Diplomacia aberta  em
certo modo uma frase que no convm. Do que o pas carece  de conhecer
inteiramente os seus compromissos e obrigaes com os pases
estrangeiros e ter informao definida das linhas gerais da poltica que
se segue relativamente s relaes com o estrangeiro. No precisa de
interferir na responsabilidade do executivo... H na diplomacia uma
tradio de segrdo, um ar de guardar segrdos misteriosos do estado,
que nos veio de idade-mdia e que tem por efeito deixar as cousas
inteiramente nas mos de homens pblicos ciumentos de toda a interveno
estranha. O que mais lastima, todavia,  a poltica do silncio oficial
sobre materias que se tornam de uma importncia vital. Um completo
segrdo  em nossos dias praticamente impossvel. O povo sustenta-se de
palestras ociosas, rumores e falsas referncias dos jornais. No est
sem informaes mas est mal informado. A culpa no  dos ministros, 
dos prprios parlamentos que se movem em um crculo vicioso: porque os
seus membros no so informados dos negcios externos, poucos se
interessam por les e os estudam, cem cada vez mais nas mos dos grupos
que os regulam. Mas a guerra abalou a confiana nestes grupos, e a
ocasio  oportuna para mudanas que os acontecimentos mostraram de tal
modo imperativas. As questes de poltica estrangeira esto destinadas
a prender a ateno dos povos nos anos mais prximos, e toda a
considerao de senso-comum e de prudncia, para nada dizer da
democracia, prescreve uma alterao do sistema que caiu. No  que a
direco dos negcios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos
ministros ou que deixe de haver negociaes que necessitem de reserva
emquanto proseguem. Mas carecemos de mais bastas oportunidades de
discusso, de submetter ao parlamento todos os tratados, compromissos e
obrigaes, de democratisar o servio diplomtico. Porque a exiguidade
da retribuio dsses servios tornaram-nos praticamente o apangio de
reduzidissimas classes abastadas, e homens de talento, criados na f
democrtica, que compreendem e podem interpretar o sentimento popular,
so excluidos justamente por no possuirem aquelas qualificaes
adventcias. Precisamos de alargar a rea da seleco.

Evidentemente, a guerra no importou a falncia absoluta da diplomacia.
Entre as naes ter de haver as inteligncias e ajustes que so
indispensveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da
humanidade, e essas relaes no podem deixar de ter seus interpretes
prprios e instruidos, e seus planos e modos de proceder. No est
inutilisada a engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande
perda de vidas e bens e com infinita cpia de atribulaes e de dres.
Mas est humilhada, desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua
insensatez, egoismo, estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior
do corao ter de dar o lugar a quem a substita com menos soberba,
mais modstia, e sobretudo mais conhecimento e respeito das aspiraes
dos povos que a sua arte est destinada a servir e que ela cegamente
sacrificou s ambies pervertidas de reduzidas aristocracias e 
voracidade insondvel das oligarquias mercantes.

Porque a democracia  um facto. J nem h fra nem astcia interessada
que lhe estorvem a expanso. A diplomacia que vivia encerrada em seus
palcios, fra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que
arregimentava apenas para seu uso e capricho, ter de descer a este
campo comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas
aspiraes e das tendncias dos homens e dos povos seus irmos. De
soberana passa a cativa, ao cativeiro das obrigaes polticas e morais
que so a condio da dignidade e da utilidade, da arte de ser e viver
nobremente, em paz e dando a paz.

Um artigo do _Daily Chronicle_, procurando as razes por que a
Inglaterra e os Estados Unidos da Amrica teem vivido em paz h cem
anos, emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava
explicao insuficiente do notabilssimo facto os laos de parentesco
que unem os povos dessas duas naes. Embora sem dvida concorram para
essa extraordinaria fortuna,  certo que a identidade da raa dos
Estados Unidos e da Inglaterra est profundamente limitada e prejudicada
pela insinuao de sangue estranho, e no pde dar razo bastante de to
slida e prolongada amizade. Causa mais eficaz poder encontrar-se
nestas ideias de liberdade pessoal, direitos civis, obedincia  lei e
confiana nos mtodos judicirios, que so a herana comum do passado do
povo americano e do povo britnico. Ambos sses pases realisaram os
processos de pacificao dentro das suas fronteiras, e esto por
conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a
experimentrem os mesmos processos em relao aos negcios externos.
Ambos sses pases, posto que viris e marciaes, esto livres do
militarismo que escurece a vida civil em muitos pases europeus. Estes
foram, indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem
anos.

H entretanto para ste grande resultado uma outra causa muito mais
importante e decisiva do que aquelas que fram apontadas.  que de
facto, a Gr-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos so na realidade
governados pela opinio pblica.

E essa mesma opinio pblica, hoje mais do que nunca pacfica,
conquistando progressivamente o governo das naes, reclama o seu
direito de assistncia na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter
que brilhantemente revelou onde tem podido dominar.

Na verdade, por muito poderosas foras que a diplomacia e o
internacionalismo nos paream, afinal so instrumentos doceis de fras
superiores das quais dependem, como todos os demais elementos da
constituio social das naes e as suas afirmaes. O internacionalismo
dissemina-se e avigora-se, e a diplomacia muda de modos, gestos e
processos, aparentemente; no fundo no so senhores dos seus destinos,
jmais o fram, e  apenas o esprito cristo que os autorisa ou condena
e lhes prescreve novas obrigaes. A poltica em todos os seus aspectos
muitas vezes se convence de que pde ignor-lo, fugir-lhe e
desobedecer-lhe, mas no h crise nem convulso social que o no
desperte e no lhe revele imediatamente a eternidade da aco, seu
invencvel poder e a sua indomvel expanso. E esta guerra mais
evidentemente do que nenhuma outra o demonstrou.

Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente
grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira
guerra de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da
nossa religio. Por outras palavras, s agora a Europa compreendeu que,
se as naes so crists, no pde haver guerra entre elas. Isto bem o
souberam Atanasio e Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo
de Constantino at agora esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua
proteco a igreja e, largamente, sob o seu governo, no acontecimento
conhecido como a converso de Constantino, muitos dos princpios do
Evangelho se obscureceram. Durante sculos, a igreja estava pronta a
abenoar exrcitos e armadas. Shakespeare julgou apropriado fazer
proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam Henrique V a
declarar guerra  Frana. Mas em nossos dias diz-se que um papa, instado
para abenoar as armas, respondera:--Dou a minha beno  paz. E um
arcebispo--_alterius orbis papa_--solenemente declarava toda a guerra
obra do demnio. Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente
que toda a guerra  contraria ao esprito e animo de Cristo.  um lucro
efectivo. No foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o
cristianismo nunca foi aplicado s relaes internacionais. O que faliu
foi uma civilisao que no era crist[5].

Romain-Rolland, nos artigos que publicou no _Journal de Genve_ e
correram mundo vertidos em diferentes linguas, anunciados como um prego
proftico, disse que as duas fras morais cuja fraqueza esta guerra
mostrou mais claramente, fram o cristianismo e o socialismo. Estes
apstolos rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de
repente nos mais ardentes nacionalistas. Herv, os socialistas alemes,
e Frank, morto em combate, por amor do militarismo, ele que era o
campeo da unio franco-alem, todos sem excepo se pozeram 
disposio dos seus governos e lhes coadjuvaram as mentiras e os odios
tendo a coragem de morrer pela f alheia, os que no tiveram animo de
morrer pela sua prpria f. Os representantes do Principe de Paz,
sacerdotes, pastores e bispos, foram para as batalhas aos milhares, a
levar-lhes, mosquete em punho, os divinos mandamentos:--No matars e
amars o prximo. Em cada vitoria, ou seja de austriacos, alemes ou de
russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, Cada um tem o seu Deus e
cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o defenderem e
destruirem o Deus dos outros. No exrcito francs andam vinte mil
sacerdotes, os jesuitas pem-se  disposio do govrno alemo, os
cardeais lanam proclamaes de guerra, e o os jornais contam, sem
qualquer expresso de pasmo, a scena paradoxal na estao do caminho de
ferro de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moos
ordinandos que iam para os seus regimentos, cantando todos juntos a
marselheza. Pio X, a quem o rompimento de guerra apressou a morte,
segundo se cr, que no poupou os seus anatemas aos sacerdotes
inofensivos que acreditaram em a nobre quimra do modernismo, que fez
le contra aqueles prncipes e criminosos governantes cuja ambio
desmedida votou o mundo  misria e  morte?

Tudo isso seriam, em seu juzo, sinis de fraqueza do cristianismo,
porventura a demonstrao da sua falncia, pela incapacidade manifesta
de resolver em seus termos e aspiraes o conflito tremendo a que se
associou, atiando-o em vez de o apagar.

Eu creio, porm, que no elevado talento e superior inspirao de
Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificao entre o
cristianismo e as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficincia
da organizao das igrejas e nos seus muitos rros a decadncia do
imprio de um princpio cuja expanso e penetrao teem sido constantes
desde a hora da sua revelao, cujo poder mais do que nunca nos domina e
fascina, e cuja lei cada vez mais lucidamente se mostra a soluo unica
e a unica redeno dos males e angstias que afligem a humanidade.

Havendo-se mostrado inferiores  misso que as crira e fra sua razo
de ser, seu alicerce, e glria dos seus templos e mrtires, as egrejas
crists veem-se sujeitas em nossos tempos a gravssimas provaes. Por
todo o mundo associadas com o mando, ainda mesmo com o mais desptico e
deshumano; tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo,
abenoando-os bastas vezes e trabalhando para lhes acomodar o esprito
dos fiis, de ordinrio prontas em promover o culto da riqueza e do
podr; qusi invariavelmente afastadas, seno inimigas, do
desenvolvimento da democracia que, sendo a traduo poltica dos seus
princpios, elas insistiram em desconhecer, aceitando-a em ltimo
extremo e deplorando-a com mgoa, como indisciplina, subverso, opresso
e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe dvidas, temores e
embaraos; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e partilhando-lhes
do luxo, do que afeioadas s fadigas e penas dos humildes, e
amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingncia da emancipao
das graas dos poderes polticos que as propenses do pensamento moderno
impozeram, privando-as dos benefcios de uma antiga absorpo da
autoridade civil, subsistente durante longos sculos e por diversos
modos efectiva, expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no
forum e no templo; mais combatentes, coercitivas, do que apostlicas,
mais amigas de mandar, e de facto mandando, entre errios e espadas, do
que confiadas em cativar pela pobreza, pela iseno de toda a violncia,
pela verdade e pelo amor; de uma scptica complacncia com o fariseismo
e hipocrisia que se lhes roja pelos altares, inteiramente descuidadas em
corrigir as supersties dos seus rebanhos; afeioadas a uma caridade
realmente abundante de deligncias, desinteresses e esmolas, mas
intimamente e logicamente inseparvel de todas as aristocracias e
hierarquias, muitssimo avara de concesses de direitos e de quanto
possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a interveno;
no tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para depois
lhe dar remdio  merc de incertas generosidades to prdigas em
paliativos como timidas em prevenes; havendo deixado que os ritos
predominem sobre o esprito e que do esprito se desprenda o simbolismo
cuja suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de
expresso da alma os convertemos em feitios; mais zelozas em apurar
regras e manter uma disciplina estreita e mecanica do que exaltadas em
respeitar, defender e propagar a pureza dos princpios; desatentas ao
inimigo que lhes invadia os domnios, no percebendo ou tomando em pouco
o que o desenvolvimento da imprensa diria lhes importava, pois,
trazendo-nos a casa todos os dias o po espiritual que cada um escolhe
ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o procurvamos, nos
dias de descanso das fadigas profissionais:--as igrejas, no geral,
decairam por inrcia e atrofiaram-se em uma dureza estril, quando, por
desgraa ainda maior, no se transviaram totalmente cedendo  cegueira
de aspiraes traioeiras, esquecidas da f e da esperana divinas e da
adorao dos homens, que para as servirem as tinham edificado e
cimentado com o seu sangue. Devotos no lhes faltavam; muitos tiveram e
teem. Faltaram-lhes crentes, o que  diferente; e, chegadas a uma
conjuntura como a presente, porque crentes no tinham, quedaram-se
impotentes, com grande copia de bons desejos, palavras excelentes e
muitas lagrimas, mas sem nenhuma influncia de aco.

Di a Deus o que  de Deus, e a Cesar o que  de Cesar foi talvez o
preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os
fundamentos e desvairou as gentes. Da corrompida interpretao dsse
princpio veio que, devidido o mundo e a conscincia em duas metades,
uma para Deus e outra para Cesar, completamente se perdeu a noo da
dependncia em que Cesar estava de Deus, e impensadamente se dispensou a
observncia das obrigaes correlativas; no mais se cuidou de
subordinar Cesar a Deus, (os imperadores contam com o auxilio de Deus
para os seus negcios e invocam-no como quem est seguro da honestidade
e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino seu, prprio e para
todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da cora o desregramento,
a violncia, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrana de que, se
Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma humanidade
redimida em Cristo, para operar uma perptua e infinita renovao do
mundo, para sobrepr o reino de Deus ao reino de Cesar, at onde a
fraqueza humana pde consentir que le seja sobreposto. Assim cairam no
rgido convencionalismo dogmtico e em uma moral inaltervel, fixa,
excelente e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a le
adaptada, sempre tarda em se aperfeioar, por demais segura da sua
sumidade, por vezes propensa a indulgncias com a cobardia religiosa,
sem mesmo hesitar em abenoar exrcitos que, sendo portadores do dio e
da morte, so a negao de Cristo, e at mesmo pondo sob a proteco da
cruz as mquinas dos caminhos de ferro que so levitas e servidores
horrendos de desapiedadas cobias.

Mas, porque isto acontecia s igrejas prisioneiras da sua debilidade
religiosa e de uma timidez mental singular, freqentemente tambm e
infelizmente muito preocupadas dos seus privilgios, comodidades, pompas
e domnio, nem por isso o cristianismo e a religio esmoreciam, nem por
isso cessavam na conquista da terra que  sua e les possem cada vez
mais inteiramente; a presso dos factos, facultando insistentemente o
reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a misso
sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos
primeiros dias, no tinha fras para indicar, derramar e, muito menos,
manter. Os horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem
do cristianismo e da cultura. Sentem que esta espcie de cristianismo e
esta espcie de cultura que pdem produzir uma guerra terrivel como
aquela de que estamos sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da
natureza da impostura. Mas, por muito ms que as cousas sejam, no h
necessidade de desesperar. Um novo cristianismo e uma nova cultura
surgem--o cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a cultura dos
profetas e dos poetas. Se esto contados os dias de uma falsa religio,
no direi que a religio morreu. Se os combates e a crueldade tomam o
logar da cultura, procurarei outra na nascente. Foi nestes termos que
Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanas da hora
presente.

De todas as amarguras, misrias, ansiedades e combates das sociedades
modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada
sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, no foi a falncia
do cristianismo e da religio frouxamente guardados em suas igrejas onde
durante prolongados sculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos
os altares e espalharam a sua luz. Quer em esprito e abstraco, quer
na soluo dos problemas prticos, o que dos conflitos sociais do nosso
tempo resulta  a vitria da religio e do cristianismo em toda a
latitude, como promessa unica de salvao. Cresceram fra das suas
igrejas, com diferentes nomes e diferentes rubricas, sob diversissimas
invocaes, mesmo sob as que se propunham nega-los e, inscientemente,
imaginando afugenta-los, destrui-los e substitui-los, os propagavam e
defendiam; cresceram, porm, continuamente e, sendo divinos, nunca como
agora se mostraram necessidade terrena mais urgente e remdio mais
seguro das nossas enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior
altura, erguidos no s pelos impulsos ingnuos do amor, que  e sempre
foi todo o seu ser e substncia, mas tambm pela fra da razo e da
logica, pela meditao e pela reflexo, pelas concluses da inteligncia
e pela investigao das leis da vida, pelas demonstraes da
experincia, pelas lies da histria desapaixonada e isenta de toda a
obsecao de sectarismo.

A f e a razo, durante dilatados sculos inimigas, identificaram-se em
iguais aspiraes e certezas, e transformaram a velha oposio e
discordia em auxlio mtuo, no servio da mesma paixo de verdade, no
reconhecimento da mesma indigncia do poder de conhecer, na contemplao
do mesmo mistrio, na justificao do mesmo amor e no respeito da mesma
regra que dsse princpio deriva. Religio, scincia e filosofia que
fram atrozmente irreconciliveis, resolvendo nas fogueiras, nas
masmorras, nos cadafalsos e nas praas suas divergncias e conflictos,
caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se amparam para uma mesma
jornada. J a ninguem surpreende que um publicista de superior reputao
se detenha a proclamar o valor religioso do livre pensamento,
significando por livre pensamento a livre e honesta actividade do
esprito. A igreja catlica da idade-mdia, disse le justificando a
sua tse, a igreja protestante da Reforma, consideravam a scincia seu
inimigo. Raciocinar sbre as cousas santas era uma espcie de impiedade.
Tinham de ser aceites como inquestionveis desde que vinham de uma
igreja infalvel, em um caso, e de um livro infalvel, em outro caso. O
pensamento no tinha parte na religio, e o livre pensamento ainda
menos, por modo algum; a religio era inteiramente uma f, e receiava
que essa f podesse definir-se como um estudante a definiu--aquela
qualidade pela qual cremos em cousas que sabemos serem totalmente
destitudas de verdade. Mas a igreja de hoje, no seu melhor modo,
acolhe bem o pensamento porque com le est mais segura de si.
Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que lhe resta
est fra de questo. Olhando mais ao esprito do que  letra, considera
o pensamento no meramente um neutral mas um aliado. Comea a vr que
voltar as melhores fras do esprito cndida e reverentemente para as
profundezas da crena  s por si um acto religioso. E esta nova amizade
foi auxiliada por uma mudana de atitude da propria scincia... Um sinal
da realidade da nossa f  que no mais nos arreceiamos de a trazer para
o campo largo da razo... Vemos as maiores fras do mundo, a religio e
a scincia, levadas para qualquer cousa como um terreno comum.

A religio tornou-se objecto mais do esprito que da letra. As materias
de menor importncia, ritos e formas do governo da igreja e muitos
dogmas, vo perdendo a sua fra porque nada tem da essencia da vida;
mas as cousas grandes, os artigos cardiais da nossa f, a crena na
sabedoria e no amor de Deus e na divina mediao de Cristo, a crena em
o nosso dever com os nossos irmos, so, pensa ele, mais profundamente
sentidos e mais sinceramente possudos do que nunca. A scincia abdicou
da sua velha arrogancia e est preparada para se apresentar de cabea
curvada, como um humilde investigador nos palcios do Oculto.

So aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e
no govrno das naes testemunham esta unidade da scincia e da religio
e o seu valor social. To numerosos j que claramente se juntam em uma
torrente, no meio da qual o mais subido parecer pequenino e vulgar. Se
um homem da estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida
de apostolado poltico, o mais nobre e religioso que pde conceber-se,
confessa publicamente que, se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a
poltica e se consagraria a prgar o Evangelho de Cristo, ouvimos nas
suas palavras, no o desengano de um profeta mas a desiluso de uma
poca que, ardentemente empenhada em livrar a terra e os homens dos
martrios que os crucificam, errou a estrada e foi procurar em
mesquinhas artes e em artificios estreitamente humanos uma salvao que
les no continham. So a condemnao final de toda a idolatria
materialista dos valores econmicos e a certeza de que s a inspirao
religiosa  capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza da nossa
inteligncia e as suas dbeis construces no fram capazes de fundar.

Ha poucos anos, em 1911, um escritor ingls, A. E. Fletcher, antigo
director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno
livro, de sumo interesse e eloquente clareza, intitulado _O Sermo da
Montanha e a Poltica prtica_. Pretendia que no podemos realizar
imediatamente os ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direco da
sua realizao, e os nossos movimentos podem estar de harmonia com as
leis da natureza humana. E afirmava e defendia que essas leis foram
supremamente compreendidas por Jesus Cristo, e so totalmente falseadas
pelos que adoram Mamon e Belial.

Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho  uma
lei prtica, realizvel e progressivamente realizada nas cousas da
terra, e em particular na poltica, examinando a possibilidade de
aplicao das bemaventuranas do cristianismo confiando a terra 
simplicidade,  misericrdia e  doura, e demonstrando-o, no por
engenhosos sistemas e subtis abstraes mas pelos exemplos histricos
mais vulgares, vinha por fim a afirmar que  possivel governar uma nao
pelos princpios estabelecidos no Sermo da Montanha e que  smente em
quanto assim procedemos que a sociedade pde elevar-se dos tipos mais
baixos aos mais altos. Podemos ir para diante no esprito do
cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinio  que
vamos para diante. Cr que em tempo algum da histria do seu pas (e dos
demais pases, porque no diremos ns?), a legislao social proseguiu
de modo que mais satisfaa do que durante os ultimos anos. Os homens
pblicos podem no ter tido a conscincia de que, adoptando uma
legislao humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste
o facto de que essa evoluo prosegue. Para o compreendermos bastar
lembrar o que a legislao social e poltica tem sido desde o como do
sculo desenove--o que ela fez protegendo as crianas, de que infernos
vem arrancando os trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a
dignidade, que lutas titnicas sustentou para isso, que barreiras
formidveis de prejuzos e vis intersses lhe foi necessrio transpr e
vencer. E que princpio, que fra realizava sses milagres seno o
cristianismo que dos livros sagrados se derramra nos cdices das
doutrinas e das instituies polticas?

Se em matria de cristianismo a guerra determinou alterao de valores,
seria sem dvida para ampliar, se amplivel fsse, a preponderncia
daquele valor inabalvel e eterno que no cristianismo se contem,
sobretudo para o fazer repassar mais profundamente a conscincia dos
homens, definitivamente convencidos da necessidade de um predomnio
maior ainda, infinitivamente mais profundo, dos princpios do Evangelho
considerados na sua influncia prtica, na sua ilimitada aplicao 
disciplina e conduta da vida.

Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra,
Filipe Snowden, dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as
fras unidas da democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado
a catstrofe da presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se
por tal forma que as fras da democracia, da religio e dos pacifistas
no tiveram tempo de mobilisar-se antes que as intrigas dos
militaristas, monarcas e diplomatas soltassem as frias da guerra.
Sempre acreditra e confessra que, se as naes da Europa continuassem
na poltica internacional dos ultimos quinze anos, provocando
hostilidades por uma concorrncia doida nas despezas de armamentos, o
resultado no podia ser seno a guerra. Mas, fsse qual fsse a causa da
guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a
responsabilidade. Desinteressando-se das questes internacionais,
deixaram que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os
militaristas e os diplomatas, todos destitudos de simpatia pelas
aspiraes democrticas e levados por interesses econmicos e outros
opostos aos trabalhadores do mundo. Tivessem-se os trabalhadores
apossado do govrno das relaes internacionais, e debalde se teria
provocado a guerra e as suas calamidades, de cuja responsabilidade os
trabalhadores no podiam livrar-se.

Sem dvida, o argumento do poltico experimentado e habituado a confiar
no podr da organizao poltica ter seu fundamento e verdade. No est
longe de se conformar com a opinio dos que viram na guerra o naufrgio
dos partidos socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as
naes. Mas para os estranhos s artes da actividade poltica prtica,
medianamente propensos a esperar das suas tramas a fortaleza que s no
vigor das tendncias do esprito encontram, o mais provvel ser que no
fsse a deficincia de direco dos trabalhadores que deixou proseguir a
guerra; antes teria acontecido que a insuficincia do esprito
anti-militarista entre os trabalhadores no permitiu que les se
acautelassem e defendessem o mundo contra essa inqualificvel
monstruosidade. Para os que mais esperam da inspirao interior que do
engenho prtico, a responsabilidade dos trabalhadores est amplamente
atenuada pela sua misria material e indigncia moral correlativa. A
civilizao moderna, fazendo-os escravos de uma escravido de que a
custo e com muitas penas se vo libertando, tudo lhes podia ensinar
menos o cristianismo de cuja negao eram as vtimas revoltadas.

Faltou-lhes a fra ntima que havia de pressentir e combater os manejos
srdidos das chancelarias, dos palcios e das casernas. Teria sido a
debilidade religiosa, inevitvel na sua condio, e no um simples erro
de organisao, que deu causa  sua inrcia e  sua rendio perante
poderes que abominam. A previso que os ha-de salvar e salvar-nos de
iguais catstrofes no futuro s subsistir quando a energia religiosa a
guiar e exigir. No ha capacidade prtica, seja ela qual fr, que seja
suficiente para a substituir.

Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu
Eduardo Carpenter, encanecido em sua inquebrantvel misso de amor,
quando o gnio bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de
todo isento de ira injuriosa dos tmidos e vacilantes, que, para pr
termo a esta peste da guerra, _no h seno um remdio_, e  o geral
abandono dste sistema de vivermos do trabalho dos outros, poder
parecer-nos que simplifica em extremo e reduz a propores demasiado
mesquinhas um conflicto de propores gigantescas que  uma dr e uma
agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos capricho da destreza do
filsofo ou uma violncia sagaz nesta segurana com que le pretende
fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra uma
anormalidade to complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos,
ligeiramente que seja, de pronto nos convencemos de que nem a afirmao
do profeta se afasta dos limites e da lgica dos factos averiguados, nem
os seus vaticnios so outra cousa seno a voz deste cristianismo que em
renascimento assombroso se faz ouvir e  juz em todo o sistema das
relaes sociais, desde a nfima humildade de um servo que nos comove
at  soberba das potestades da terra que nos ameaam.

Essa  a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros,
negao formal do cristianismo, ou se siga entre os indivduos ou entre
as naes, e isso mesmo o tem sido desde o princpio do mundo. Fram
para isto as primeiras guerras primitivas, para apreender gados e
colheitas, para apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores
podessem subsistir; e so a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir
concesses de borracha, minas de ouro, minas de diamantes em que o
trabalho de gente de cr seja explorado at ao extremo mais amargo;
apossar-se de colonias e terras distantes, onde empresas capitalistas
gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de cr) possam realisar
dividendos imensos, pela subida do minrio ou de outros productos
industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no caminho
destas avidas e deshumanas ambies:--tais so os fins das guerras de
hoje. E ns no vemos a causa do mal porque le est to perto de ns,
porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes
capitalistas e comerciais, que hoje so os representantes das naes, se
funda em o mesmo princpio. Como indivduos, o nosso unico fim 
encontrar algum trabalhador ou grupo de trabalhadores cujo trabalho
valorse o que ns podemos apropriar... Um parasitismo sem disfarce e
sem vergonha  a ordem, ou a desordem dos nossos dias. A rapacidade dos
animais de preza mal se oculta em a nossa vida social, transparentemente
velada todavia por uma aguada de sentimento cristo e por uma rede de
instituies filantrpicas para suposto benefcio das muitas vtimas que
ns espoliamos.

Que h pois que admirar se ste princpio de rapacidade e guerra
intestina que governa a nossa condio, se esta cobia vulgar que nos
cobre o corpo de jias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros,
sem considerar aqueles a quem arrancmos sses confortos, que h pois
que admirar se por fim resultam na rapacidade e violncia sbre o vasto
teatro do drama das naes, e nas letras vermelhas da guerra e do
conflito, escritas atravs dos continentes? De nada serve dizermos com
uma presumida piedade que estamos em campo para banir a guerra e o
militarismo, animando ns entretanto em nossa prpria vida e em a nossa
igreja, ligas do imprio e outras instituies, o mais sordido e egoista
mercantilismo, que em si  essncialmente uma guerra, apenas uma guerra
de um gnero muito mais insignificante e mais cobarde do que aquele que
se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e dos
canhes. No, no h outro meio; e s pelo abandono geral do sistma
comercial e capitalista presente ser banida a peste da guerra[6].

stes so os acanhados e mseros termos a que as frias da guerra se
reduzem, esta  a palpitao do seu imundo ventre--uma derrogao do
princpio cristo, perfeitamente idntica em suas causas e efeitos a
qualquer outra das que quotidianamente praticamos em nossa existncia e
que o hbito nos velou com uma empedernida inconscincia. Apont-la em
uma tal simplicidade  uma revelao salutar, grande e fecunda esmola.
Acusados e pelo prprio pungir da acusao saberemos o que o
cristianismo significa na hora presente, at onde chegam as suas benos
e anatemas, e conheceremos, com um profundo suspiro de alvio, que
influncias imponderveis nos subjugam, que novas fras lenta e
latentemente se criaram, e que espcie de revoluo, ou, melhor, de
resurreio nos anunciam.

spero e obscuro se mostra, porm, o caminho da vitria, porque ao mesmo
tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida
fortaleza, deixa-nos incertos sbre o valor das fras que podem
edific-la. E aquilo de que mais espervamos, a razo, o desenvolvimento
da inteligncia na humanidade, o conhecimento da histria e a observao
minuciosa e exacta da evoluo das sociedades, todo sse honesto labor
das universidades, da imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos
por qualquer meio se tornaram verdadeiros pastores das nossas almas,
tudo isso que  um assombro da capacidade mental dos homens, tudo foi
vo para evitar as provaes a que um destino sinistro nos conduziu.

Se a razo s por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como sse
que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na _Grande Iluso_, largamente
comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e
renovado no _Prussianismo e a sua Destilao_, isso bastava para que a
paz e a guerra fssem um pleito findo.

Compendiando muitos sculos da histria da humanidade e os factos
essnciais da vida poltica e econmica dos nossos dias, definindo e
conjugando o que vaga e fragmentriamente todos sentiamos e pensavamos,
o prego de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a
grande iluso  a crena de que as cousas de maior valor na vida,
aquelas que representam os fins das sociedades humanas, s podem
alcanar-se pelo desenvolvimento da fra poltica e militar dos
estados, pela extenso do seu territrio e pelo domnio dos seus
govrnos. Esta doutrina, proeminente e caracterstica na Prussia,
tornra-se afinal comum a toda a Europa por virtude de um deplorvel
contgio. Para a debelar no bastavam combinaes diplomticas e a
reviso de fronteiras; nascida de certas tendncias de esprito, s por
tendncias opostas poderia ser vencida. Foram os professores, as
academias e os publicistas que durante cinqenta anos a propagaram; e s
por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. No seria
pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua calamitosa
sujeio. Era vr o que tinha acontecido com as guerras da religio;
debalde sacrificaram milhes de vidas, quando tentaram sustentar as
crenas pela fra, e s terminaram, dando a toda a f a liberdade,
quando o esprito a conquistou, quando a fermentao intelectual e a
estimativa dos valores morais, a sua discusso pacfica e a sua
comparao, demonstraram a inanidade da fra na sustentao dos
altares. Assim acontece e se verifica que o combate pelos ideais no
pde mais tomar a forma de combate entre as naes, porque as questes
morais esto dentro das prprias naes e cruzam as fronteiras
polticas. No h estado algum moderno que seja completamente catlico
ou protestante, liberal ou autocrtico, aristocrtico ou democrtico,
socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais do mundo
moderno proseguem entre os cidados do mesmo estado em uma cooperao
intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros
estados, e no entre os poderes publicos dos estados rivais. Poltica e
economicamente se tem estabelecido uma situao paralela em que a
estratificao das sociedades se sobrepe aos artificios das divises
nacionais. O mundo tende a repartir-se, no pela fra das espadas mas
pela coeso dos espritos e dos intersses.  impossivel, diz Baty,
citado por Norman Angell, ignorar a significao dos congressos
internacionais no s do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo,
do feminismo, de toda a espcie das artes e scincias, que to
claramente marcam os seus sinais nas pocas de frias. A nacionalidade,
como fra de limitar, cede perante o cosmopolitismo... Encontramos a
aproximar-se uma situao em que a fra da nacionalidade ser
distintamente inferior  coeso de classe, e na qual as classes se
organizaro internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos da sua
fra. O que Norman Angell repete, acentuando que por mil modos a
associao atravessa os limites dos estados, que so puramente
convencionais, e torna uma inpcia scientifica a diviso biolgica do
gnero humano em estados independentes e combatentes. Ningum pensa em
respeitar um _mujik_ russo porque pertence a uma grande nao, ou em
desprezar um fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nao
pequena. Viremos a compreender que as divises reais psquicas e
morais no so entre as naes, mas entre as concepes opostas da
vida.

Dada a lei de acelerao a que as sociedades humanas evidentemente
obedecem, a predominancia e imprio da nova concepo das relaes entre
os povos ser em breves anos uma realidade. E a aco dessa lei
efectua-se com uma rapidez vertiginosa. A idade do homem sbre a terra
tem sido diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A
certos respeitos, desenvolveu-se mais nestes ltimos duzentos anos do
que em todas as pocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanas em dez
anos do que primitivamente em dez mil. Quem pde prevr os
desenvolvimentos de uma gerao?.

Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e no muda, nem que a
natureza humana no  susceptvel de mudar. A histria  a negao
radical de semelhante afirmao, que no passa de refugio infantil de
retardatrios. Do canibalismo  cooperao, do duelo aos tribunais, dos
autos de f  liberdade religiosa, do heroismo divinisado ao esprito
militar combatido como um crime, a humanidade renasceu; e, se
exteriormente  bem diferente do que foi na sua origem, intimamente
anima-a um esprito que desconhece e repele aquele de pura animalidade
que algum dia foi sua razo de ser. Civilisou-se; de bandos famintos,
devastadores e crueis, passou  comunidade moral e religiosa, e a
civilisao desenvolveu-se na razo inversa da fortaleza do esprito
militar.  medida que os homens perdem a tendncia de combater,
cresce-lhes a tendncia para trabalhar, e  trabalhando juntos, e no
combatendo-se, que os homens progridem. S pelo hipnotismo de uma
terminologia que se tornou obsoleta o esprito militar, muito a custo e
decando, continuamente se sustenta.

De resto, h muito  sabido e demonstrado que as guerras so instrumento
de degradao das raas. Matam os melhores, a flr da espcie, os mais
sos e corajosos, e deixam confiada aos dbeis e menos aptos a
procriao das novas geraes. Na guerra com a Alemanha, a prpria
Inglaterra, apezar de toda a resistncia do esprito da sua raa, corre
o risco de perder as suas melhores qualidades. Combatendo o prussianismo
pde prejudicar-se na diligncia de o vencer pela adopo das suas armas
e pelo abandno das virtudes que a tornaram grande, a aptido de
iniciativa, a confiana no prprio esfro, a sua obstinada resistncia
 interveno do estado (j enfraquecida), a sua impacincia com a
burocracia e a lista vermelha (tambm j a decar), tudo o que se
involve na sua geral rebeldia de arregimentao. A fra empregada
para aperfeioar a cooperao entre as partes, para facilitar a troca,
promove o progresso; a fra que combate essa cooperao, que procura
substitur pela coaco o benefcio mtuo da troca, que  em certo modo
uma frma de parasitismo, promove o retrocesso.

A luta entre as naes  um anacronismo. Poucos compreendem at que
ponto a fra fsica foi substituda nas cousas humanas pela presso
econmica--usando ste termo no seu justo sentido, no s como a disputa
do dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar,
considerao social e tudo o mais. O esprito primitivo no compreendia
um mundo em que as cousas no fssem todas reguladas pela fra. Mesmo
os grandes espritos da antiguidade no acreditavam que o mundo podesse
ser laborioso, seno quando a grande massa se tornasse laboriosa pelo
uso da fra fsica, isto , pela escravatura. Tres quartas partes dos
que nos dias mais florescentes de Roma povoavam o que agora  a Itlia,
eram escravos, acorrentados no campo quando trabalhavam, acorrentados 
noite nos dormitrios e, os que eram porteiros, acorrentados aos
portais. Era uma sociedade de escravos--escravos para combate, escravos
para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais e, acrescenta
Gibbon, o prprio imperador era um escravo, o primeiro escravo nas
cerimnias que le prescrevia. Sendo grandes e penetrantes muitos dos
espritos da antiguidade, nenhum deles mostrou uma larga concepo de
uma condio social em que a coaco fsica fsse substituda pelo
impulso econmico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade,
quando disse que, se o martelo e a lanadeira podessem mover-se por
si, a escravido seria desnecessria). Dissessem-lhes que havia de
chegar tempo em que o mundo trabalharia muito mais activamente sob o
impulso de uma causa abstracta chamada interesse econmico, e les
considerariam semelhante assero como a de meros tericos sentimentais.
Nem temos necessidade de irmos to longe; se ha sessenta anos
afianssemos a um senhor de escravos americanos que pelo trabalho livre
le havia de ter mais algodo do que pela escravatura, por certo se
riria da nossa credulidade. Sem dvida, por efeito da lei de acelerao
a que as sociedades humanas andam sujeitas,  de todos os tempos, mas
principalmente da nossa poca, esta derrota da guerra pela economia,
esta substituio do combate pela coadjuvao, que se tornou o meio mais
seguro e rendoso no s de vivermos em paz, o que j seria muito, mas
tambm de acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que,
por isso mesmo que satisfaz a ambio, por isso  comum e abrange o
esprito mais elevado e o mais mesquinho, por isso se torna uma fra
universal em todo o sentido.

Do anacronismo e futilidade da guerra foi j convencido por mestres
competentes todo o mundo culto, qusi todo o mundo que sabe lr. E
todavia a guerra persiste, porque, para a banir, a razo no basta, s o
corao purificado e exaltado pelo esprito cristo  capaz de consumar
sse prodigioso renascimento.

Mas como, por que modo podero essas foras prevalecer? Por que meios
poder tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos
sse esprito cristo que agora despertado por uma catstrofe estupenda
se ergue como uma aurora de redeno? Onde encontrar armas para
combater o inimigo, a satnica sensualidade que fundou o mundo moderno
em ambies trpes e em materialidades e que,  evidente, no abdicar
do seu reino passada a tormenta? Como  que um pensamento religioso s
por si ha-de destroar os poderes da terra enriquecidos, armados e
incessantes na avidez? Pelas ligas e tribunais de paz, pelos ajustes
diplomticos, pela reduo dos armamentos, por todos sses retalhos de
papel que se rasgam ao primeiro mpeto, como a Alemanha rasgou o
compromisso que a obrigava a respeitar a neutralidade da Blgica?!...
No  todo sse impulso cristo um arrebatamento de idealismo destinado
a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as igrejas em
suas fortalezas seculares no poderam subjugar os homens e sujeita-los 
lei de Cristo, como  que de esforos dispersos e boas intenes h-de
tirar-se uma fra que domine os estados e lhes trace a sua regra?

Ferrero, o historiador da _Grandeza e Decadncia de Roma_, diz-nos no
ltimo volume de sua obra que, emquanto em Roma,  volta de Augusto, a
pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o
futuro, dependia dela, se exgotava em discrdias furiosas e em
tentativas contraditrias para afeioar o futuro a seu modo, sse futuro
por si mesmo se fazia no grande imprio, e muito diferente daquilo que
se tinha pensado. Emquanto Augusto se dava a tantas penas para
reorganizar em Roma o govrno aristocrtico, acontecia que por si
mesmas, pouco a pouco, e pelos esforos de milhes de homens
inconscientes do resultado final, as regies do imprio que mais
diferiam pela lngua, pela raa, pelas tradies, pelo clima, mtuamente
se penetraram e chegaram a uma unidade econmica muito compacta;
interesses materiais que infinitamente se encadeavam, tinham-nas mais
estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legies de Roma
ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por sse trabalho
interior, invisivel, de que ningum tinha conscincia, que o ajuntamento
acidental dos territrios feito pela conquista e pela diplomacia se
tornava verdadeiramente um s corpo, animado de uma vontade nica.

Solues congneres e paralelas dos problemas da vida das naes e da
constituio psicolgica dos povos vem apontadas e defendidas com uma
grande clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra.
Dedicado  _Workers' Educational Association_, e por isso posto em
termos de ser compreendido alm do mundo dos letrados e erditos,
colaborado por professores eminentes das universidades de Cambridge e
Oxford, mais cingido aos factos do que enlevado na seduo de abstraes
e idealismos, procura sse excelente trabalho esclarecer-nos sbre a
crise que a guerra representa nos destinos da democracia, e com um exito
manifesto muito instrue os menos versados nas questes polticas, mas
nem por isso menos interessados e dedicados na determinao final de uma
situao das naes da Europa, que ter de ser de larguissimas
conseqncias na fortuna ou na desgraa dos povos que elas compreendem.

Considera sse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domnio
da lei, direitos civis universais e a abolio da guerra, h dois
processos.

Um consiste na presso dos governos e nos seus ajustes e convenes, em
tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criaes e aspiraes de
tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e
em muitas outras ingenuidades correlativas, to cativantes na candura da
sua f como dbeis na eficcia. Evidentemente, todas naufragam na
impossibilidade de serem sancionadas pela fra, quando a loucura ou a
perversidade dos homens as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem,
onde esto os exrcitos que tornam soberanas e uma realidade as decises
dos tribunais? Quando uma nao, armada e grande, afrontar as obrigaes
dos _retalhos de papel_ e os rasgar, quem tornar de bronze a vontade
dos tribunais e converter em mrmore a precria consistncia do papel?
Um revoltado bastar para atraioar as intenes mais firmes e felizes,
e para inundar a terra de uma chuva de sangue e de fgo.

Todos sses engenhosos contratos podem ser alivio por algum tempo e
preparar o caminho para progressos ulteriores, mas s por si no podem
dar segurana alguma permanente, nenhuma justificao satisfatria para
o abandno de meios defensivos, da parte dos vrios govrnos soberanos e
em bem das suas naes.

Sem dvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem,
nem por isso so de desprezar sses ajustes e contratos. Pelo contrrio,
merecem ser promovidos e aproveitados. Smente convm no lhes atribuir
valr que no comportam, ou esperar da sua aco uma fortaleza que as
suas faculdades no atingem. Pois, de resto, significam altos
beneficios; pressupem a supremacia do Direito sbre a Fra no esprito
colectivo da humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo
que pde chamar-se o ideal civil contra o ideal militar, no em a
maioria dos estados mas em todos os estados suficientemente poderosos
para desafiar a violncia. Pressupem um mapa do mundo traado
definitivamente em linhas que satisfaam as aspiraes nacionais dos
povos. Pressupem um _status quo_ que se mantem, no simplesmente, como
o de 1915, porque  um facto legal e a sua perturbao seria
inconveniente para os govrnos existentes, mas porque  meramente
equitativo. Pressupem uma base democrtica de direitos civis e
representao idntica entre todos os estados componentes. Pressupem,
finalmente, uma opinio pblica educada, incomparavelmente menos
egoista, menos ignorante, menos flutuante, menos materialista, e menos
estreitamente nacional do que aquela que at aqui tem prevalecido.

O outro processo pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de
extremos de esperana e desiluso, um trilho longo e enfadonho. E a
velha estrada larga da civilisao, no os atalhos atravs dos campos.
Espera resultados duradouros, no da cooperao mecnica dos govrnos,
mas do crescimento de um direito civil orgnico, pela educao das
prprias naes no sentimento do dever e da vida comum. Espera, no o
estabelecimento definido do Estado do mundo em nossos dias, mas smente
uma refutao definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mtua
das naes. Espera a expresso do govrno do mundo na ordem externa,
daquilo que podemos chamar o _princpio da Repblica_, do grande
princpio de lord Acton, do estado composto de naes livres, do estado
como um corpo vivo, que vive pela unio orgnica e livre actividade dos
seus diversos membros. E encontra o seu imediato campo de aco no
alargamento da profundeza e extenso das obrigaes civis entre os povos
das grandes, livres, justas, supranacionais repblicas, cujo patriotismo
foi edificado, no por preceito e doutrina, mas sbre o firme fundamento
das mais antigas lealdades.

Os problemas derivados do contacto das raas e das naes nunca podem
ser resolvidos nem pela aco prudente dos indivduos nem por conflito e
guerra; s tem soluo em uma poltica deliberada e recta no seio de
cada estado, no reconhecimento por ambas as partes de exigncias mais
altas do que os seus interesses seccionais--as exigncias de direitos
civis comuns e do intersse da civilisao. Nisto, na unio e
colaborao das diversas raas e dos diversos povos,  que o princpio
da Repblica encontra o seu campo peculiar de operao. Sem ste
princpio... o mundo ser o caos que hoje [7].

Eis a a lei suprema da histria--a preponderncia da actividade
interior e inconsciente dos povos sobrepondo-se s lucubraes, aos
decretos, s legies,  vontade e  vaidade e inanidade dos capites e
dos imperadores, e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes
movimentos da humanidade. Roma e a constituio jurdica e moral do
mundo latino que dela nasceu e  seu espelho, foi apenas o maior exemplo
da inflexibilidade dessa lei do desenvolvimento das raas, duas vezes
repetido naquele lugar, primeiro criando a unidade poltica da
civilisao, e depois refazendo-a, quando, decrpita, carecia de ser
renovada pela unidade religiosa. A face das cousas parece mudar mas
smente a sua face muda; em sua essncia permanecem sujeitas  mesma
lei, idntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, de
fronteiras a dentro das naes como em toda a largueza dos continentes.

Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misrias o mundo,
ser nicamente por sses esfros de milhes de homens inconscientes
do resultado final, por sse trabalho interior, invisvel, de que
ningum tem conscincia, por efeito dessa misteriosa disseminao.
Quando as leis escritas a definirem e reconhecerem, ser porque de facto
a sua vitria a isso as obrigou. No sero elas que lhe ho-de dar ou
roubar o seu domnio.

Quarenta anos de materialismo brutal, inflamado por um mesquinho e
desvairado orgulho scientfico, terminam hoje na guerra a sua
obscurecida fama e glria, aquela por demais terrena que ao seu esprito
correspondia e que era a nica a que a sua fascinao podia conduzir.
Esse materialismo ci pela fragilidade das suas edificaes, porque s
produzia dres onde prometia alegrias, s acumulava ruinas onde
ostentra traioeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo
inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistncia, um trabalho
subtil lhe minra os fundamentos: aniquilivam-no aqules mesmos que o
haviam gerado e nutrido, os apstolos e os seus fiis, os filsofos e os
pensadores, a inspirao dos poetas, as academias, e sobretudo as
multides que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e
de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experincia de
agudos instintos os benefcios e os males das doutrinas e das crenas,
conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as
amaldiam ou engrandecem. So sses poderes invisveis e imponderveis,
que habitam no corao das multides annimas, que nos dirigem e do a
vida e a morte, nos indivduos como nas sociedades. S sses podero
libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danao; e as igrejas valero
ento o que valer a sua obedincia ao princpio cristo, e os estados
sero um flagelo, se em aco o negarem, ou uma fortuna, se o
respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relaes entre as
naes.




Da arte de gastar e suas responsabilidades


Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se no suspeitavam;
hbitos que anteriormente nos pareciam to inocentes e naturais que
nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos.
Parece que se torna necessaria mais reflexo; e, posto que nos seja
impossvel achar remdio simples para ruins efeitos, sabemos que,
comeando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o
caminho de melhores hbitos.

Ser esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar
desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte,
quanto  futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas
despesas? No  bem para uma nao que uma quarta parte dos seus
rendimentos se gaste de um modo inconstante. No  bem para uma nao
que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a
produzir cousas que se vem e sentem destitudas de valor, mal uma crise
o vem pr em prova. De resto, os ricos no so os nicos que no seu
gastar esto em falta; tambm os pobres teem os seus poucos luxos
inuteis. Mas so os ricos, e no os pobres, que individualmente teem
maior responsabilidade na errada direco do trabalho, emquanto so les
que individualmente possuem maior poder de gastar e so, por
conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por
que ho-de usar sse poder.

A isto vem, em suas concluses finais, o opsculo precioso que, sob o
titulo de _Spending in War Time_, o professor E. J. Urwick publicou, em
Oxford, na coleco de _Papers for War Time_, dirigida por W. Temple.

Inspirada na convico de que esta guerra  o resultado e a revelao
dos princpios anti-cristos que dominaram a vida da cristandade do
ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as naes carecem de se
arrepender, essa coleco  uma crtica penetrante e serena de muitas
angustias em que a indigncia e a perverso religiosa nos lanaram, e 
simultneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a
ansiedade de melhores dias definiu e pz, no sem esperana de solues
por igual prprias a satisfazer as investigaes da conscincia moral e
as necessidades da vida prtica. Os que seguem a Cristo, esto unidos
entre si em uma comunho superior a todas as divises de nacionalidade e
de raa; os deveres cristos e de amor e de perdo prendem-nos tanto em
tempo de guerra como em tempo de paz. E os cristos teem de reconhecer
a insuficincia da mera compulso para vencer o mal, e de guardar a
confiana suprema nas fras espirituais, particularmente no poder e no
mtodo da Cruz. Disso depende, no conceito dos que se associaram 
misso de que os opusculos daquela coleco so inteligente testemunho e
instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.

Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfro com o fim de
aplicarmos em todas as relaes da vida a aspirao de comunho e
fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos,
vir a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios econmicos que
o destino lhe facultou, como serve ou contrara os princpios cristos e
o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraa a
soluo dos conflitos econmicos que a guerra exacerbou e revelou com
uma dolorosissima evidncia.

O problema ser de minguado alcance para todos aqueles a quem a
exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e
extenso das despesas. Esses gastam o que no podem deixar de gastar
para se sustentarem, quando freqntemente, e por desgraa, no so
reduzidos ao extremo de no gastarem sequer aquilo de que careciam para
o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios
indispensveis. Mas no acontece assim com outros, ainda numerosos, de
facto representando uma fra poderosa na actividade das sociedades; e
stes, tendo mais do que o necessrio para o sustento, ficam por isso
com uma larga margem para a livre distribuio de grande parte dos seus
haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente esto
sujeitos s responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.

E stes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente?
Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades
em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus
regalos, ignorando a indigncia dos oprimidos e famintos? Ou, para
acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipaes habituais as
somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legies de
indigentes, condenando  misria, pela cessao do trabalho, aqules que
lhes serviam as dissipaes, provendo-lhes o luxo e as futilidades,
disso auferindo o po de cada dia e para isso tendo sido educados por
longos anos de prtica e especialisao, que no raro os tornaram
inaptos para outras profisses?

A situao  de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os
que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hbitos
ou tomem por caminho novo, j no fugiro a semeiar privaes,
alongando-as a uns porque no lhes do o po que deveriam dar-lhes, e
causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos
ultimos, negando-lhes o que at a lhes davam e em certo modo prometiam
dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam.

A conjuntura  opressiva, e fmos ns, por nossa vontade, que lhe demos
causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorvel abandono a
toda a casta de apetites. Organisamos e distribumos as nossas despesas
sem cuidarmos das responsabilidades econmicas que elas importam,
constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a n pela
perturbao em que a guerra desfez muita fico e muita iluso. Seriam
as nossas despesas como essas doenas latentes, graves, fatais, que se
escondem em aparncias de sade e artes de bem trajar, e que uma febre
acidental revela aos que em sua negligncia no as tinham previsto nem
sentido, aterrando-os ento pela iminncia de perigos mortais e pela
presena de prpria misria. Por uma incria que  o indcio da
lastimosa leveza de conscincia moral e religiosa de que nos deixamos
possuir, viemos a regular ordinriamente as despesas e toda a
distribuio dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos
e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe
discutiamos. Desprendemos-nos da considerao das conseqncias
ulteriores da aplicao dos nossos haveres; jmais ponderamos, como
obrigao e dever, que gnero de trabalho les criavam, quantos
trabalhadores alimentavam e em que condio os mantinham, que influncia
social exerciamos por sse modo, que bem-estar ou que misria dependia
de ns, que instabilidade e perigos conseqntes eram os companheiros
obrigados das nossas obras e tendncias. Vamos em uma leviana e
traioeira certeza de que gastando, seja como fr, beneficiamos o
comrcio e acrescentamos a riqueza e o trfego, unicamente porque demos
emprego a muitos braos.

Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipao significam
o sustento de muita gente. Smente esquecemos, e o mais das vezes
ignoramos inteiramente, porque,  falta de vigor moral bastante, isso
escapa  nossa ateno e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a
conscincia, smente no perguntamos que especializao de trabalho e de
capital os nossos hbitos determinam, que espcie de constituio
econmica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz
padecer os homens que lhe esto sujeitos. Pois  evidente que ser, por
exemplo, muito diversa em seus riscos a situao de costureiras
empregadas a fazer vestidos de baile, para sse trabalho amestradas, e a
situao dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de
trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroo mercantil ou qualquer outro,
cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital
que lhes era destinado, desaparece; emquanto s em ultima misria e na
maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e
cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se
suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. So
infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigncias de
retribuio do cavador do que do ourives; entre les h toda a distancia
que vai das necessidades essnciais da existncia aos caprichos
acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos
casos a impossibilidade de mudar de profisso ao sabor dos mercados,
porque o desenvolvimento de certas aptides implica, em geral, o
afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades,
compreender-se- quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o
gnero de trabalho que lhes reclamamos e o gnero de mercadoria que lhes
pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a
produzir.

Ns, os da gente fina e boa gente, lisongeamos-nos, diz o sr. Urwick,
crendo que, s pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um
assinalado servio  indstria, _beneficiando o comrcio e dando
emprego_. Isto, como todo o economista sabe,  realmente um sofisma. Mas
 o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade
reside no facto de conter uma semi-verdade.  essa semi-verdade que
agora temos a considerar; o sofisma apreci-lo hemos dentro em breve. 
indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a
inclinao da indstria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos,
estimula por isso os patres e os operrios a fazerem sapatos e a
proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra
cousa. No sustenta ou mantm a indstria dos sapatos no sentido
rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem
espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferncia a fazerem sacos.
No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme
de dinheiro se est gastando em panos de _khaki_, resultando da que
correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital
(incluindo a de alguns antigos fabricantes de calado)  dirigida para a
produo dos uniformes de _khaki_. Ora esta direco do trabalho e do
capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem
para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que d causa a
que os trabalhadores e o capital dos patres se tornem altamente
especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por
conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda 
mais verdadeiro na direco do trabalho devido s despezas da gente
rica; em geral, requer-se por exemplo maior especializao da parte dos
fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos
fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com
todos os trabalhadores de uma alta especialisao (e com o capital
altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com les
operam)  que no podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro
trabalho. O costureiro hbil no pode mudar e coser _khaki_; o ourives
hbil no servir de muito para fabricante de espingardas ou para
construtor de cabanas.  por isso que hoje os grupos de pacientes mais
dignos de d so justamente aqueles trabalhadores que durante anos
dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e
dependem literalmente de ns, neste sentido--fmos ns que os convidamos
a abrirem lojas e a exercerem um comrcio prprio para satisfazer as
nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e s por este
modo. So, por conseguinte, os _nossos_ trabalhadores, os _nossos_
dependentes, to literalmente como se fssem os nossos criados; e no
momento em que cessamos ou altermos os nossos hbitos de gastar, esto
arruinados.

De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente,  muito bom
dizer:--Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as
despezas suprfluas. Mas logo surgem duvidas e perguntam:--E os
trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas
suprfluas de que ho-de viver?...

A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma
perigoso. Os embaraos economicos presentes so a derivao lgica de
uma errada constituio econmica anterior. Talvez pelas condies do
indstrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os
trabalhadores e quem les servem e os emprega, talvez por essa mecnica
de uma absurda diviso do trabalho, que fez que de ordinario no
saibamos onde se criou o po que comemos, nem quem o fabricou, nem quem
fiou e teceu o linho e a l que nos cobrem, o certo  que absolutamente
se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de
todo deixamos que prevaleam nesta materia tendncias, principios e
processos que resultam no s em desamor dos que de ns dependem
imediatamente, mas at na instabilidade e muita dissipao da prpria
riqueza. Imaginamos que sustentamos os trabalhadores gastando
dinheiro com as cousas que les fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou
consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem,
a no ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e
indstria so em geral sustentados s por um modo--pela criao actual
de riqueza real para les usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e
criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os
trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, s a ns nos
sustentamos,  custa de quem criou o po, seja le quem fr. E isto
aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o
conceber; mas a materia  bastante simples. Os dois processos de fazer
riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a
consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, so
exactamente anlogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os
comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar,
a seqncia natural dos acontecimentos  que ns ou outros o havemos de
comer. Mas comer o jantar no habilita, de modo algum, o cosinheiro a
preparar outra refeio, e no o sustenta, a le, nem  sua cosinha.
Isso s se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou
podemos comparar a despeza  exploso de uma arma. A exploso  a
conseqncia natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada;
mas a exploso no concorre para carregar de novo a arma, isso s se
obtem produzindo novas munies. Se a exploso tem algum valor, pertence
le a um resultado totalmente diferente, que por sua vez est
inteiramente dependente do seu fim ou direco. Assim com os nossos
gastos. Podem ter efeitos benficos, se so bem dirigidos, isto , na
proporo em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente
realmente necessitada. Mas, s pelo facto de gastar, no contribuem no
quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se
pretendemos sustenta-la, ento toda a nossa pretenso deve assentar no
facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que
gastamos e por sse trabalho acrescentmos realmente os recursos dos
outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, no acrescentaremos o
quer que seja a sse bom resultado.

Assim, no ha virtude alguma em a nossa aco como gastadores... Muitas
vezes, pelo contrrio, haver um resultado definitivamente pernicioso
onde fr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os
trabalhadores ou os fabricantes de riqueza so em numero limitado, e,
com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a
soma de servios que podem prestar em um ano,  severamente limitada,
mesmo que possa crescer gradualmente  medida que os anos vo correndo.
E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum
individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da proviso
total produzida sem deixar algures uma falta. Isto  por tal forma
verdadeiro e obvio que podemos ir at afirmar que por cada cem libras
que gastamos, alm das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos
nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa
comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas
vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco _shillings_. Ora nos
tempos _bons_, quando o clamor dos indigentes no  muito alto, nem de
longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de corao leve os
rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a
relao entre a nossa abundancia e a indigncia dos outros,
suficientemente para nos inclinar a no dispender o nosso dinheiro como
antigamente.

Nestas lucidas asseres, que so afinal versiculos capitais de um breve
e fecundo evangelho moral e econmico, com to elevado talento definido
por um esprito e por um caracter manifestamente superiores, no quer o
seu autor que se lhe atribua a afirmao de que os nossos habitos de
gastar so egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no
caso unico em que les involvem realmente um perigo grande para o
sistema actual da indstria. E que les na verdade so nste sentido
habitos maus, est provado pelo facto--e sse  o sinal de todo o habito
mu--de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal
sofreram um choque. Por ste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes
 inerente, sses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e
parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirmide
da indstria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena
classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais.

No so cousa simples as obrigaes de caridade com os nossos
dependentes, e muito menos o so o conhecimento e arte de a exercer pela
nossa aco em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se
imagina autorizado a dispend-la, na boa f de que para isso tem
moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal.
Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar,
a seu activo teremos de lanar as profundas lies sociais que nos deixa
e o poder, seno o terror, com que nos obriga a escut-las. Porque, no
dizer de um jornalista ingls, a guerra ensinou a certa gente, pela
primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade.
Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, est
mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretenses
individuais esto em conflito com os interesses de todo o povo. Da vem
que a guerra est desenvolvendo uma agudissima srie de problemas
sociais e, ousarei acrescentar, da vem conjuntamente que, sendo a
maior das calamidades, poder resultar em uma fecunda angstia, se por
sua instigao houver o bom senso e coragem de dar a sses problemas as
solues evidentes que les reclamam, e que de resto continuamente
conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.

Viu o nosso tempo uma terrivel desgraa que no pde evitar e o tortura;
mas viu tambm uma gerao que, esclarecida como nenhuma outra igual que
a histria nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dres e
delas tirar ensinamento para emendar os seus rros e para acautelar a
justia e a paz das geraes futuras. Honesta e delicadamente se apressa
a aproveitar e meditar as lies de uma experincia cruel.  isso a sua
honra e o seu dever, e  afinal o interesse imediato do seu
contentamento e felicidade.




O Cavador e o Profeta


Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada,
porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigao de
assiduidade e servio efectivo, o velho que vive comigo  um caracter
irreductivel em seus moldes. Feito  lei da natureza, do que ela deu e
do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia
infinita constituido fra de toda a presso da vontade e intenes de
estranhos, no h nada que o vergue, nem h contingncia que o
amedronte, nem mesmo fora que facilmente o modere. O seu brao e a
conscincia so a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o
domina e conduz. Tem a sua aspirao, sua crena, regra e necessidade, a
sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela no se afasta. No h
insinuao alheia que lhe modifique a opinio ou que lhe abrande a
teimosia; e o vigor da afirmao  tanto mais seguro quanto  pura e
estreme a ingenuidade. No conhece duvidas, como por certo as ignoram as
raizes que alimentam os lirios e as saras que se cobrem de espinhos.

Cavador e servo por condio e nascimento, desde a infncia at 
velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos,  uma
destas creaturas que nasceram para tirar da terra o po com o suor do
rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores,
e que, por sua grandeza e nobreza, no maldizem semelhante estado e nem
sequer o evitam. Toda a metralha filantrpica e seus condimentos e
acessorios sociolgicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas
infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e
repartio da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis
iluses, tudo isso se teria afigurado futil e vo a sse velho pobre, se
le fsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai
no ntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que no
permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e
outras gordas e uns ninhos esto altos e outros baixos, uns em logar
seguro e outros em risco, por sse motivo se julgaria impedido de se
atormentar estudando as desgraas do mundo e a sua redeno. Para o meu
cavador, a servido seria uma cousa que acontece, como o crepsculo, a
aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas
vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lgica e
aceitvel, porque nessa natureza com que lida de perto, no encontra
injustias, nem resignaes, nem sofismas, e apenas h uma ordem eterna
e intransgressivel que s a natureza determina e conhece. Um fatalismo
vago ser talvez um dos bordes da humildade.

E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor  sua condio. A
melhor condio seria a primeira e a mais proxima para que o destino o
lanra. Porque se deixou induzir na tentao de descobrir onde mora a
riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a p, por sses
caminhos fra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as
sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia at  cidade. Mas em
nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o
seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E
depressa voltou  enxada e  escravido do amo a quem cavava as terras,
e que em troca lhe dava o po. A experincia do mundo, quando o via de
perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da
pobreza.

Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque
tambm se casou; tambm um dia foi  egreja maila a sua aucena, como
diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgncia sses
malfadados passos.

Deu-se mal. Era de prevr. No sei o que seria a mulher; no creio muito
que primasse pela doura. E, como le pelo seu lado no personificava a
brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a
sua conseqncia.

Pesava-lhe pouco sse apartamento em que rehavia a independncia,
dando-a tambm  mulher e aos filhos. Porque, como sbre os bens no
havia questo, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava
maravilhosamente com as suas propenses, o divrcio tornava-se, e de
facto se tornou, em extremo simples. No precisava de juiz nem escrivo.
Era deixar  mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a
poesia, graas e confortos que l no encontrou, e mais todas as
inquietaes que l o mortificaram, e ir-se le embora, a cavar nas
terras de alguem que lhe desse o po e o socgo. E foi o que le fez,
serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor.
Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdra de um
fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condio
e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus
criados e servidores.

Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade
e a paz, pagava-as com a iseno; no as pressentia nas cobias, por
elas no se afreimava.

Cavar e servir, eis a suprema felicidade  qual obedecia. No se detinha
a verific-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava
claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a
mais penetrante arte de persuadir.

Cavar, servir... e tambm amar. Servir com um to arrebatado
desprendimento j significaria muito amor, mas sse amr, que lhe andava
no nimo, tinha traduco ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos
animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zlo
terrivel. Por les se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era
escasso ou se a avareza do amo ou do feitor no alargava as raes at
onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estbulo. Algum anjo
ou demnio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacficos a
afeio e a dedicao que os homens pagavam mal; advinhava-lhes
superioridades na inconscincia, e com ternura as reconhecia.

Entretanto, acrescentava em seu esprito e lembrana o compndio dos
ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham
levado, no era indigente de opinies. Tinha a sua filosofia,
consistente, slida, de largos e singelos alicerces, e de resto
rematadamente singular. Assim, entre as lies que lhe ouvi, aprendi que
no casamento a questo de idade s importa ao homem. A mulher a todo o
tempo pde casar; o homem  que precisa de ser novo.

--Porque?

--Porque?!... Ora essa! Porque o homem  que tem de _o_ ganhar, precisa
de ter fras para isso. A mulher  s para o governar e gastar.

E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que pde ainda
trabalha, com uma tenacidade indomvel. No  para se enriquecer nem
para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma
indiferena.  por trabalhar;  o trabalho pelo trabalho, impulso
essencial, significao nica da vida, nica razo de ser da existncia
na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e
econmico trabalhar  usar dos braos para criar o po. No concebe
outra cousa.

Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a
poupana e a previdncia. Onde  que le viu isso nas plantas que semeia
e nos animais que estremece? No pde, evidentemente, caber na sua
lgica o que no coube na lgica da natureza. Por isso a dissipao da
taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe
parecero um facto to natural e legtimo como as correrias dos potros
na pastagem.

Quanto tem  para beber, e a sua mgua  que eu lhe d muito pouco para
sse fim. Se lhe dizem que  um vicio e a causa da sua misria, recebe
com um desdem altivo a advertncia. No seu conceito, a embriaguez 
apenas uma alegria, abenoada como todas as alegrias.

Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas
provaes do mundo, tivesse fechado a abbada de uma grande filosofia. A
vida seria uma obrigao e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade,
uma sujeio de toda a nossa actividade ao esfro de criar o po e uma
independncia de todos os instinctos na suma vibrao das suas
energias--uma religio em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e
aos homens,  terra e aos cus, porque a terra e os cus eram as duas
grandes verdades iniciais, duas emanaes sublimes de um s esprito
misterioso.

Ora eu gosto de ouvir sse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito
aquilo que eu no fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de
vida que eu no fui capaz de atingir, indubitvelmente h-de saber o que
eu no sou capaz de saber.

Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre
de sangue o mundo?

--A guerra, respondeu-me,  por causa dos que querem comer sem
trabalhar. Olhe, quando eu vou  cidade e vejo por l os soldados, bem
agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo
comigo que  essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de
costa direita, quer comer sem trabalhar.

Ai est uma opinio! Opinio de um cavador, que o , honestamente, h
mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinio. E como tem seus
apstolos, como h-de ser prgada na taberna, entre os cavadores,
_caveant consules_! tomem nota os generais e os seus imperadores,
andam-lhes inimigos na fortaleza.

Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias
inteiras, e em uma simples carroa levam todos os seus bens, e vo muito
longe,  Sibria, quasi  China, a fazerem as colheitas. Depois por l
ficam, por l engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos
incultos, e so felizes at que os governos as descobrem para lhes
pedir impostos e os filhos para a guerra.

Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o
gnio, em todo o seu resplendor de glria, soletrassem ambos as mesmas
palavras nas mesmas aces? Foi o cavador que falou pela bca do profeta
ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e
identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e
consubstanciao em uma nica viso?!...




Aparies

Mazzini


 condio ingnita dos homens sofrer para conhecer. A experincia e o
que ela ensina no passa sem mguas. A dr ilumina e revela o caminho da
salvao. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento
e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulaes que eles
importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de
uma fortuna fcil e prolongada.

Se benefcios teve a guerra, o mais alto seria acordar, at s suas mais
remotas profundezas, a conscincia dos povos, o sentimento do seu
destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes
incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela
morte, pela fome e pela desgraa, perguntam entre agonias se na terra
haver refgio de to agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam
os cus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o
prego do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas
que a embriaguez das paixes votra  mudez dos seus tumulos e a quem o
seu tempo desconhecra ou apenas suspeitra a grandeza, erguem-se das
cinzas aureolados de poderes divinos.  confuso tenebrosa do tumulto em
que os homens se despenham nos abismos que a prpria loucura cavou,
sucedem aparies que os guiam na estrada da redeno. So remorso e
esperana, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos
cara, e esperana da glria a que nos conduzem.

Poucos dias apz a declarao da guerra, encontrei em uma folha inglesa
o nome de Mazzini.

Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela
obsesso do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado
os espritos e edificado os imprios do nosso tempo, alvoroando o
assombro da nossa imaginao e inflamando-nos traioeiras vaidades.
Revolucionrio, poeta e sonhador, incarnao de idealismos que haviam
ganhado fama de estreis e perigosos, e a negao daquela espcie de
homem prtico em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini
jazia no manso olvido e proscrio a que uma poca toda enlevada e
confiada na ordem, na scincia, na razo e no positivismo havia votado a
legio inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores
rebeldes e apstolos intemeratos,  qual le pertencera e dera todo o
fulgor do seu gnio. Ia na onda que varrera da nossa presena e da nossa
f as vises romanticas que um entendimento prtico at aos aviltamentos
da brutalidade usava acoimar de ridculas e vs.

Era surpreza que algum desse bando exilado voltasse, e exactamente na
hora em que menos deveria poder, quando a violncia estava senhora do
mundo e nle corria solta, em momento sem dvida nada favorvel 
contemplao de vises que o ferro e fogo no fsse capaz de desfazer.

Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e
atentamente corri a ouvir os clamores da apario.

Que dizia?[8] Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...

No compreendia Mazzini a subsistncia do mundo e da razo s por si,
independentes de um princpio superior a que se subordinassem. O
universo pertncia a Deus. A terra era apenas um degrau para os cus,
uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia
divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia o
triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza
das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspirao, uma essncia
impalpvel, era isso a sumula, regra, condio da vida de todas as
realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, nico
consistente, de todas as edificaes que tentassemos construir.

Quando o profeta cuidou de traduzir a f na soluo dos problemas do seu
tempo e do seu pas, no ardor de mrtir a que consagrra a vida, sentiu
que duas doenas corrompiam as classes que preponderavam no govrno dos
estados--o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho
disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e
de uma franca, corajosa e leal adorao da verdade; a segunda, atravs
do culto do intersse prprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia.
Eram essas as doenas sociais e polticas que ameaavam e embaraavam
uma renovao poltica da Itlia, e que hoje,  tristemente manifesto,
de todo perturbaram a fortuna da Europa.

Por completo nos desprendemos da lei, e no h vida sem uma lei. Onde a
vida existir, existe em certo modo, conforme certas condies, sob uma
certa lei. Uma lei de agregao governa os minerais; uma lei de
crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as
estrelas; uma lei nos governa, a ns e  nossa vida, lei mais nobre e
mais elevada do que aqueloutras, por isso que ns estamos superiores a
todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder,
viver conforme a nossa lei,  sse o nosso primeiro, e at mesmo o nosso
nico dever.

A ordem do progresso  clara e evidente. Revela-se-nos pela histria
como pela conscincia. Mostra-se na grande distncia entre a crena do
presente e a f que foi a base da moralidade das geraes que nos
precederam. Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem,
sem mesmo procurarem compreend-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder,
no no seu amor; tiveram uma vaga concepo de certa relao entre Deus
e o homem, mas nada mais. Foi longa, durou dilatados sculos a
insinuao do esprito que nos havia de levar a compreender que _h um
s Deus e todos os homens so filhos de Deus_. Foi a promulgao destas
duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e s ento o homem
soube que onde encontrar um companheiro est um irmo, dotado de uma
alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmo
a quem deve amor, participao na sua f, e auxilio de conselho e aco
quando o carecer. S ento se ouviram nos lbios dos apstolos palavras
sublimes, profticas de outras verdades contidas em germen no
cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal
compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apstolos. Porque _da
maneira que em um corpo temos muitos membros, mas no teem todos uma
mesma funco, assim, ainda que muitos, somos um s corpo em Cristo, e
cada um de ns membros uns dos outros_. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c.
XII, vv. 4, 5). _E haver um s rebanho e um s pastor_ (Evangelho de S.
Joo, c. X, ver. 16).

A poltica era a traduco dessa lei suprema no govrno das naes, em
toda a extenso dos princpios que da se deduzem. Seria uma aco
religiosa e moral, e jmais era lcito degrad-la em uma disputa de
egoismos ou em uma conveno de intersses. O govrno do pais tem de
ser baseiado pelo nosso trabalho sbre o culto dos princpios, no sbre
o culto idlatra dos intersses e da oportunidade. H pases na Europa
onde a liberdade  sagrada no intimo, mas sistematicamente violada
externamente; povos que dizem que _a verdade  uma cousa e a utilidade
uma outra cousa, que a teoria  uma cousa e outra a prtica_. sses
pases teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento,
opresso e anarquia.

A educao, que  a insinuao da lei e a integrao das geraes na sua
substncia, assume, nesse sistma, uma misso e poderes capitais.

O indivduo  um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua prpria
fra na fra da humanidade. ste trabalho de alimentao e renovao
opera-se pela educao, que directa ou indirectamente transmite ao
indivduo os resultados do progresso de toda a raa humana. Por
conseguinte, no s porque  uma _necessidade_ da nossa vida, mas tambm
porque  uma espcie de santa comunho com todos os nossos companheiros
e com todas as geraes que viveram, isto , que pensaram e trabalharam
antes de ns, por isso carecemos de nos educar, o mais possvel, em uma
educao moral e intelectual que compreenda e cultive todas as
faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e
mantenha um lao entre a nossa vida individual e a vida colectiva da
humanidade. E para que sse trabalho de educao se realise o mais
rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e
intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por
isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espcie de ser
inferior pde viver por si, sem outra comunho alm da que tivr com a
natureza, com os elementos do mundo fsico. Ns no. A cada passo temos
necessidade dos nossos irmos; e no podemos satisfazer as necessidades
mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.

Infelizmente, estvamos e estamos longe de atribuir  educao o seu
valr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e
produzindo escassissimos e contaminados bens. Hoje, na Europa, a
_instruco_, desacompanhada de um gru correspondente de _educao_, 
um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um
mesmo povo e inclina o esprito ao calculo, ao egoismo, a compromissos
entre a justia e a injustia, e a toda a falsa doutrina.

Comunho  uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma
famlia nica de irmos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo
pensamento de salvao, na mesma esperana e no mesmo amor do cu.
Smbolo da igualdade entre os homens, cumpre  humanidade desenvolver
toda a verdade que nela se encerra.

A egreja no o fez e no pde faz-lo. Tmida e incerta no seu comeo,
mais tarde aliada com os prncipes e com o poder temporal, embebida no
prprio intersse, com uma tendncia aristocrtica alheia ao esprito do
Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou at diminuir o valor
da comunho, limitando-a para os seculares s ao po, e reservando para
os sacerdotes a comunho nos _dois gneros_.

No era materialista. Os moos de inteligncia estreita e educao
superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado
morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade  lisongeada pela
ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir
naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, so levados a confundir a
negao de uma forma gasta da religio com a negao daquela religio
eterna que  inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto
de uma rebelio generosa, e muitas vezes  acompanhado pelo poder de
sacrifcio e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porm, entre
os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material,
tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e
nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os
finalmente perante a violncia triunfante, perante o despotismo do _fait
accompli_. Fra le que em Roma extinguira toda a virtude
republicana.

Porque no era materialista, s acusava a egreja onde a julgava infiel 
sua misso espiritual e divina; no porque ela se fundasse em uma misso
que havia deixado de ser a aspirao da humanidade, a sua religio. Pois
a vida era uma misso, e a existncia aquela parte dessa misso que ns
temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente
dominar aquele fragmento da lei divina que  acessivel s faculdades
humanas, transmud-lo em aco (at onde as foras humanas o permitem)
aqui, onde Deus nos pz,  o nosso fim, o nosso dever. Cada um de ns e
todos ns estamos sujeitos ao esforo de incarnar na humanidade aquela
poro de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma
realidade terrena to grande parte do reino dos cus, da concepo
divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender.

No era ingrato  egreja, nem irreverente perante as suas grandes
ruinas. No esquecia que lhe deviamos no s a ideia da unidade da
famlia humana, da igualdade e emancipao das almas, mas tambm a
salvao das relquias da nossa anterior civilisao latina.

A salvao do cristianismo e por le a salvao da civilisao
europeia, pela unidade da hierarquia durante um perodo de anarquia e
trevas; o esprito de amor com os pobres e os prias aflictos da
sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa
sustentada por les em nome da lei moral contra o poder arbitrrio e a
ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande
misso (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou
compreendem da histria) cumprida por sse gigante da inteligncia e da
vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitria que le ganhou em auxilio do
govrno do esprito sbre as armas reais, do elemento italiano sbre o
elemento germanico; a misso da conquista civilisadora entre povos
semi-brbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado  agricultura
pelos monjes durante os tres primeiros sculos, a conservao da
linguagem de nossos pais, a poca esplendida de arte inspirada no dogma,
as obras eruditas dos beneditinos, o comeo da educao gratuita, a
fundao de instituies de benevolncia, nossas irms de
misericrdia--tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da
egreja.

Mas acusava a egreja da insania de pretender que um facho, aceso h
desoito sculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma nica poca,
estava destinado a ser uma nica luz no caminho do infinito. Acusava-a
de desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em
inspirao e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais
sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas. Uma
religio expirava, se perdia o poder de sacrifcio. E o catolicismo
podia ainda, com o auxlio dos enganos dos seus ministros e da pompa
dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis,
aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a nica
escolha dsses fieis est entre as recordaes de uma f, outrora grande
e fecunda em bens, e as negaes ridas de um materialismo embrutecedor.
Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela f que ela
representava, e no se encontraria entre eles um s mrtir.

No se enganasse a egreja! Em volta dela a f agonisava. Como
scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a f, em nossos dias,
desfalecendo encontra expresso nas oraes murmuradas perante os nossos
altares, por fora do hbito, em momentos breves e determinados.
Evapora-se  porta da egreja, e no mais governa ou guia a vida
quotidiana dos homens. Do uma hora para os cus e o dia para a terra,
para os seus clculos e intersses materiais, ou para estudos e ideias
estranhos a toda a concepo religiosa.

A f em Deus determinava uma economia, uma constituio e uma repartio
da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas
relaes civs e polticas. Fra ela que lentamente fizera crescer no
esprito dos homens o sentimento do dever social com as classes
trabalhadoras, que se tornra preponderante na poltica do nosso tempo
e fizera da liberdade de concorrncia um espectro de crueldade. Para
aqueles que nada possuem, para aqueles que so incapazes de poupar o
quer que seja no salrio quotidiano e no teem, por conseguinte, cousa
alguma para comearem qualquer empreza comercial, a liberdade de
concorrncia era uma mentira, como a liberdade poltica era uma mentira
para aqueles que por falta de educao, instruo, oportunidade e tempo
no podem exercer os seus direitos.

O progresso seria essencialmente um estado de conscincia. Realiza-se
passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar,
por _desenvolvimento_, pela _modificao_ perptua dos elementos que
manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas
pocas, em certos pases e sob a influncia de certos erros e prejuzos,
deram o nome de elementos, de condies da vida social, a cousas que no
teem a sua raiz em a natureza, mas smente nas convenes e costumes de
uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa poca particular ou
alm dos limites prprios dsses pases. Mas podemos descobrir quais so
os verdadeiros elementos inseparveis da natureza humana, interrogando
os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradies de
todos os tempos e de todos os pases se sses instinctos nossos so como
sempre fram os instinctos da humanidade.

E, evidentemente, desde que o progresso  sse desenvolvimento,
sujeito a leis fra do alcance do poder humano, o remdio para a
deplorvel condio presente no podia encontrar-se em qualquer
organizao geral arbitrria, feita segundo o plano de certo esprito e
estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em iluses por diversos
modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remdio tinha de ser
qualquer outra cousa que no significasse a criao de uma humanidade
nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendncias essenciais e
indestructiveis. Algum dia fomos _escravos_, depois _servos_, depois
_assalariados_; no tardar que sejamos, se o quizermos ser, livres
produtores e irmos na _associao_--associao livre e voluntria, por
ns mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se
conhecem, amam e estimam, no a associao obrigada, imposta pela
autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laos e afeies
individuais, tratando os homens mais como mquinas de produzir do que
como seres de livre e espontnea vontade.

S pela renovao moral dos homens se alcanar a renovao das
sociedades. Essa  a condio de toda a reforma social. O progresso s 
eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. A sorte de um
homem no se altera renovando e embelezando a casa em que le vive. Onde
s respira o corpo de um escravo e no a alma de um homem, todas as
reformas so inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada,  um
sepulcro branco, nada mais. S os princpios edificam. Onde
quizermos realizar um dos grandes feitos chamados revolues, temos
sempre de ir ao conhecimento e  pregao dos princpios. O verdadeiro
instrumento do progresso dos povos tem de se procurar no factor
_moral_. No suprimiremos o factor econmico nem  possvel suprim-lo,
mas subordinmo-lo ao factor moral, porque fora do govrno da sua
influncia, desligado dos princpios e abandonado s teorias do
individualismo que hoje o governam, resultar em egoismo bruto, na luta
perptua entre homens que devem ser irmos, na expresso dos _apetites_
da espcie humana. A cada estado do progresso devia corresponder uma
melhoria positiva da condio material do povo; mas sustentava que os
intersses materiais no podem desenvolver-se ssinhos, dependem dos
princpios, no podem ser a _mira_ e o fim da sociedade. Porque sabiamos
que semelhante teoria destri a dignidade humana, porque nos lembramos
que, quando o factor _material_ comeou a apossar-se de Roma, e o dever
com o povo se reduziu a dar-lhe _po e jogos_, Roma e o seu povo
apressaram-se na prpria destruio; porque viamos hoje em Frana, na
Espanha, em todos os pases, a liberdade calcada aos ps ou atraioada,
precisamente em nome dos intersses comerciais e daquela doutrina servil
que separa dos princpios o bem-estar material.

So as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma
revoluo  a passagem de uma ideia da _teoria_  _prtica_. Digam os
homens o que disseram, os intersses materiais nunca causaram e nunca
causaro uma revoluo. A pobreza extrema, a ruina financeira, a
tributao opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que so
mais ou menos ameaadores e violentos, mas nada mais. As revolues teem
a sua origem no esprito, nas prprias raizes da _vida_; no no corpo,
no organismo material. Na base de toda a revoluo h uma religio e uma
filosofia.  uma verdade que pode provar-se por toda a tradio
histrica da humanidade.

Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia nas palavras
de um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos
na Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens
as emprezas mais santas e uteis. No venceriam seno _tornando-se, les
mesmos, melhores_; no conquistariam o exerccio dos seus direitos seno
_merecendo-os_ pelo sacrifcio, pelo engenho e pelo amor. Se os
procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido,
alcan-los hiam; mas, se os procurassem em nome do _bem-estar_ que os
materialistas lhes tinham ensinado, apenas alcanariam triunfos
momentaneos, seguidos de desiluses tremendas. Atraioavam-nos aqueles
que lhes falavam em nome do bem-estar, da felicidade material. Tambm
sses procuravam o seu _bem-estar_ e para o obterem queriam unir-se com
eles, como um elemento de fra, emquanto tinham obstculos a vencer;
mas, logo que com o seu auxlio tivessem obtido o bem estar,
abandon-los hiam para que tranquilamente podessem gozar a conquista.
Era essa a histria do ltimo meio sculo e o nome dsse meio sculo era
_materialismo_.

As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e
organizao dos intersses econmicos. As classes abastadas, no
conforto da sua prosperidade, nunca experimentam privao ou sofrimento.
Por vezes, vem a misria do pobre, mas facilmente se habituam a
consider-la uma triste _necessidade_, e deixam s geraes futuras o
cuidado de lhe encontrar remdio. A indiferena e o esquecimento so
doces para o homem que se sente no santurio da sua famlia, cercado de
faces sorridentes, emquanto l fra sopram as rajadas do inverno e a
neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraas da janella dupla. Esperareis
erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo pela simples expresso
da _situao econmica_ e do que deva substitu-la em uma sociedade bem
organizada? Esperareis arranc-los do seu repouso egoista meramente pela
anlise do que acontece em uma esfera na qual eles nunca penetraram?
Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas utilitrias; no lhes
peam, porm, que promovam a sua aplicao. Porqu? Falam-lhes em nome
de _intersses_. No  o gozo o primeiro dos intersses? E les gozam.

A nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, ser
tambm um facto de conscincia moral e religiosa e nunca, por mais
habilmente desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela
delimitao do territrio, pelo agregado e conjugao das fras
econmicas e por qualquer combinao de actividades polticas. A
nacionalidade  a crena em uma origem e um fim comum. Se hoje fr
fundada em um intersse, pode ser derrubada amanh por outro intersse
mais ousado e mais poderoso. S quando o evangelho da fraternidade de
todos os homens de uma nao fez da alma santurio de virtude e amor,
quando a grande concepo da nacionalidade deixou de se encontrar
reduzida a propores mesquinhas, quando procura para base dos seus
direitos alguma cousa mais que o intersse material, intersse que
sempre tem o seu rival... s ento teremos uma nao como nunca ser
possvel t-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus.

O progresso  um acto de f. A cada passo no pensamento religioso
correspondia um progresso na vida civil. Deus assim o quer seria o
grito eterno de todo o movimento que tem por fundamento o sacrifcio,
por instrumento os povos, e por fim a humanidade. O pensamento
religioso  o alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e
alma, o seu esprito e o sinal externo. A humanidade s existe na
conscincia da sua prpria origem e no pressentimento dos seus prprios
destinos. Fora do trabalho da reforma moral toda a organizao
poltica  estril, e  iluso esperar triunfos se do nosso trabalho
banirmos a ideia religiosa. S a conscincia liberta os povos. O
elemento religioso  universal e imortal. Em toda a grande revoluo
est marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim.

Acreditava em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto
vivo, de que o nosso mundo  um raio e o universo a incarnao.
Acreditava em uma lei, geral e imutvel, que constitue o nosso modo de
existir, que compreende toda a srie possivel de fenmenos e exerce uma
influncia continua sbre o universo e sbre tudo aquilo que le contm,
no seu aspecto fsico como no seu aspecto moral. E a lei da vida, para
Mazzini, era por igual essencial e simples.

Cristo disse:--Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com
afeio fraterna. E disse tambm:--Entre vs ser o primeiro aqule
que fr o servo de todos. Toda a essncia do cristianismo se compreende
nestas palavras. Unidade de f, mtuo amor, fraternidade humana,
actividade nas boas obras, a doutrina do sacrifcio, a afirmao da
doutrina da igualdade, a abolio de toda a aristocracia, o esforo de
perfeio no indivduo e a liberdade, sem a qual nem o amor nem a
perfeio podem existir--tudo assim se resume naqueles dois preceitos.

Toda a revoluo social  essencialmente _religiosa_. Toda a poca tem
a sua _crena_. Sem unidade de f, a associao  impossivel; prgar a
humanidade, a ptria, o povo, essas grandes frmulas da associao que
superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o
_sentimento religioso_,  desconhecer a significao dessas palavras,
querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessrios. Como
frem as nossas crenas, assim elas nos ho-de dar a regra de aco. Em
seu corao amava a viso de uma f, no de uma escola.

Os direitos em que a Revoluo Francesa se fundou, involviam a mais
traioeira das aspiraes de uma sociedade. Foi glria do Profeta,
talvez a mais alta das muitas que o coroaram, a intuio e o ardor com
que opz o dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se
combatia e morria pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes que
provocou podesse resultar nem a fortuna nem a tranquilidade dos homens,
arrastados de escravido em escravido, de misria em misria, de
tormento em tormento, de incerteza em incerteza. Um erro inicial os
transviava e perdia; ignoravam que o unico padro da vida  a ideia do
dever, santa, inexorvel, dominante.

Fazer da poltica uma arte e apart-la da moralidade, como os
estadistas e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e
uma destruio perante os povos. O fim da poltica era a aplicao da
lei moral  constituio civil de uma nao na sua dupla actividade,
domstica e estranha. O fim da economia era a aplicao da mesma lei 
organizao do trabalho no seu duplo aspecto de produo e
distribuio.

No pregassem, no trabalhassem em nome de direitos que apenas
representavam o indivduo, mas em nome do dever que representava o fim
de todos. No havia direitos alguns, salvo os que eram conseqncia dos
deveres cumpridos; podiam resumir-se em um s direito--que os outros
cumpram comnosco o dever que ns cumprimos com les. No dissessem que a
soberania est em ns. A soberania est em Deus. A vontade do povo s 
sagrada quando interpreta e aplica a lei moral. Quando dela se afasta, 
impotente ou nula e no representa outra cousa seno tirania. A
sociedade de Rousseau, como a de Montesquieu,  apenas uma sociedade de
seguros mtuos. Partindo da filosofia da liberdade individual,
destituiu de fecundidade ste _princpio_ baseando-o, no sbre um dever
comum a todos, no sbre a definio do homem como uma criatura social
por essncia, no sbre a concepo de uma autoridade divina e de um
designio providencial, no sbre o lao que une o _indivduo_ 
humanidade do qual le  um factor, mas sob a simples _conveno_,
confessada ou subentendida.

Carecemos de ensinar no o _direito_, mas o _dever_, acordar para
melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo
decrescente; carecemos de possuir a conscincia do valor humano e da
misso dos homens na terra, e por a erguer a fra de proceder, que at
agora est esmagada pela indiferena. E isso obra de princpios, de
crena, de pensamento religioso, de f. Foi a obra de Jesus. No
procurou le salvar pela crtica um mundo moribundo. No falou de
intersses a homens cujas almas estavam envenenadas pelo culto dos
intersses. Prgou no santo nome de Deus certas verdades at ento
desconhecidas. Estas poucas verdades que agora, desoito sculos depois
da sua passagem, procuramos esforadamente realizar, mudaram a face da
terra.

Trs cousas eram sagradas--tradio, progresso, associao.

A tradio histrica tinha de ser considerada, no com a ignorncia
presunosa dos materialistas modernos, mas com a ateno reverente
devida a uma representao da nossa vida colectiva, nico padro onde
podemos deduzir e verificar a concepo da lei que a governa. A verdade
encontrar-se hia no estudo severo da tradio universal que  a
manifestao da vida na humanidade. A humanidade, dizia, invocando e
desenvolvendo o pensamento de Pascal,  um homem que aprende
continuamente. Os indivduos morrem; mas a verdade que pensaram e o bem
que produziram, no se perdem com eles. A humanidade junta-o, e os
homens que passam sbre as suas sepulturas aproveitam-no. Cada um de ns
nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenas que so a obra de toda a
humanidade antes de ns; cada um de ns traz inconscientemente algum
elemento, mais ou menos valioso, para a vida da humanidade que se lhe
segue. A educao da humanidade cresce como aquelas piramides orientais
a que cada viandante junta a sua pedra. Passamos, viajantes de um dia,
chamados a completar a nossa educao individual em outro lugar; a
educao da humanidade brilha por scentelhas em cada um de ns mas o seu
inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente,
continuamente, na humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra f,
passo a passo, a humanidade conquista uma viso mais clara da sua vida,
da sua misso, de Deus e da sua lei. Onde a tradio e a intuio se
completam e consubstanciam, onde encontramos a voz permanente da
humanidade harmonisando-se com a voz da nossa conscincia, a teremos ao
nosso alcance alguma cousa com absoluta verdade.

O homem no , porm, apenas o investigador da verdade.  _pensamento_
e _aco_. As teorias podem modificar o primeiro; no podem criar o
ultimo. E, fielmente obedecendo ao prprio esprito, em Mazzini
confundiram-se o profeta e o homem da aco, o apostolado e a viso, o
poeta e o revolucionrio. Desde a adolescncia selando com o sangue os
juramentos da sua f, conspirador e camarada certo em todas as
inumerveis e prolongadas revolues que sonharam e fundaram a Itlia
unificada, muitas vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma,
inspirao, e o seu brao executor, no houve risco a que se esquivasse,
no houve penas que no experimentasse, desde o aturado exlio que em
condies de pobreza, s vezes extrema, o apartou da famlia, da ptria
e dos amigos, at  condemnao  morte e porventura  tentativa de
assassinato que o perseguiram como milhafres. No houve contrariedade ou
ameaa que lhe vencessem o desprendimento e o ardor, uma vaga sde de
martrio. Particularmente aborrecia o egoismo, to popular com a gente
de hoje. No gastava o seu tempo cantando, orando e clamando a Deus que
lhe salvasse a alma. Nem se entregava ao estudo e  cultura para lhe
salvar o esprito. Sempre cuidava do esprito e da alma, mas era sempre
do esprito e da alma dos outros. E foi conspirador porque era muito
fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os vr atraioados, muito
honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo para que
aceitasse a paz sem honra[9].

Nem por isso lhe faltaram inimigos. No podiam faltar a quem, na lgica
inevitvel dos princpios que se deduziam da sua f, viu classes
perigosas nos eclesisticos ociosos, de que h muitos mil, e nos ricos
que com o seu dinheiro no faziam bem. Um instinto seguro os advertia
de que quem tudo confiava do povo era naturalmente o adversrio perigoso
dos apangios e privilgios que ensoberbeciam as aristocracias polticas
e eclesisticas. Cavour e Luiz Napoleo Bonaparte eram irmos nos
sentimentos com que detestavam Mazzini, e nem outra cousa se compadecia
com o conflito de ideais que o amor do apstolo e a ambio do
aristocrata e do imperador em confronto necessariamente inflamavam. O
profeta era apenas o co da voz do cristianismo, e o cristianismo  a
negao radical e a ruina de quantas aristocracias, hierarquias,
divises de classes e servides o egoismo e a perverso dos homens teem
inventado para contentar e engrandecer a paixo de mandar e as suas
cobias. Todos sses sistemas de dependncias morais, polticas e
econmicas partilharam daquela decadncia das divindades pags que o
monoteismo cristo confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a traduo,
em diferentes modos da vida social, de uma concepo moral e religiosa
que caducou; foram deuses adorados por multides submissas e
inumerveis, tiveram o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas,
no corao e nos bens da terra; mas, lentamente, outra e mais alta
religio os destituiu do seu poder e prestigio, inspirando-nos e
mostrando-nos uma outra razo da vida, adjudicando toda a nossa
actividade intima e externa a um outro esprito. No faz sentido ter e
invocar como princpio de aco e dedicao o meu senhor, ou le seja
rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capito de industria, quando senhores e
vassalos de toda a casta e ordem e categoria todos teem de invocar e
seguir o seu Deus, aqule perante o qual so irmos igualmente
humildes e sujeitos, dle recebendo igualmente uma s e nica lei de
comunho e coadjuvao. A obedincia comum nivelou, e de facto destruiu
s porque as nivelou, todas as gradaes e distncias em que as
comunidades brbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos
e dogmatismos, mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente
se fundaram e viveram, tomando por eternidade a convenincia poltica ou
religiosa de uma hora. Se em nossos dias essa ordem se mantm ainda por
muitos modos e em diversos lugares, se persistem e so uma fra
espiritual efectiva aqules sentimentos de fidelidade, lealdade,
dedicao e sujeio que eram seus vnculos e instrumentos, se essa
ordem e todo o seu cortejo mental e espiritual sobrevivem quando j
terminou a religiosidade ntima que era a sua essncia e alma,  smente
porque, convertida em tradies polticas, estticas, morais e
eclesisticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que edificou,
pde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade prtica,
um sistema de conjuno e organizao oportuno e cmodo, o remanescente
de hbitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que  a
primeira das condies de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o
imprio de Deus arruinou virtualmente o imprio dos cesares, desde os
que so coroados em tronos magnificos at aos que teem seus escudos nos
cofres  prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princpio 
de efeitos prticos incomensurveis e invencveis. A conscincia de uma
escravido eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu
aquela outra conscincia de escravides mortais, condicionadas,
contingentes e transitrias, por longos sculos decisivas e supremas.
Mazzini, que por ser fiel  primeira e lhe sujeitar a poltica denunciou
as ultimas e as combateu e teve por calamitosas, no podia merecer-lhes
seno anatemas.

Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condio do profeta. Tinha
de ser apedrejado e consagrado pela averso e pela ira dos fariseismos
absolutistas e demaggicos que disputavam o domnio do seu tempo.
Amaldioado dos despotismos, por isso que pedia a liberdade, no podia
ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus, religio e dever
perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira smente viam e queriam
o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez sugere e
aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dres tripudia, mente e se
desfaz.

Quando morreu, a 10 de maro de 1872, deixava a terra inteira, e
sobretudo a Europa, atnita e prostrada na adorao daqule materialismo
da fra e da riqueza que vencera em Sdan e nas escolas e academias,
cimentando os alicerces de um grande imprio e a se oferecendo 
imitao das naes, emquanto se insinuava nos laboratrios e nas
bibliotecas e a endurecia o corao e envenenava o esprito das novas
geraes. Nesse momento, Mazzini era um vencido; com o seu dbil corpo
se sepultavam as suas iluses. Liberdade, religio e o povo que
inconscientemente as guarda e serve, iam de tropel calcados e esmagados
no culto de multplices escravides, no desprendimento de Deus e da sua
lei, na f vil de que o mundo era um banquete do qual s ao nosso ventre
tinhamos a dar contas.

Dsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto,
sabedor e previdente, to abundante de servos envaidecidos da prpria
servido como prdigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus
anfitries desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as
primeiras horas gloriosas. Ento, o apstolo era apenas uma sombra que
se afundava naqule crepsculo em que o romantismo sonhador anoitecia,
escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam  irriso e
condenao das multides, por muito ter amado a liberdade e os homens.

Quarenta anos vo passados. O banquete degenerou no ajuntamento trgico
das frias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na aurola da
sua glria, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra
ser eternamente o inferno ensanguentado a que descemos.

FIM.


    [1] Artigo do _Manchester Guardian_.

    [2] Principe Troubetzkoy, professor de Direito na Universidade de
    Moscou, no _Hibbert Journal_.

    [3]_Millgate Monthly_, maro de 1915. Notcia de um discurso de
    Oliver Lodge, em Bradford.

    [4] Percy Dearmer. _Patriotism._ Humphrey Milford: Oxford Unversity
    Press, 1915.

    [5] William Temple. _Cristianity and War._ (Humphrey Milford; Oxford
    University Press, 1914).

    [6] E. Carpenter, _What will Stay the Plague?_ Artigo publicado em
    _The Christian Commonwealth_, de 9 de dezembro de 1914.

    [7]_The War and Democracy_, por W. Seton--Watson, J. Dover Wilson,
    Alfredo E. Zimmern e Arthur Greenwood. (Londres; Macmillan, 1912).
    Pag. 374 e seg.

    [8] O pouco que sei do pensamento e vida de Mazzini colhi-o
    principalmente, quasi exclusivamente, em dois volumes da _Everyman's
    Library_. (Londres; J. M. Dent & Sons), um que contm verses dos
    escritos de Mazzini, _The Duties of Man and Other Essays_, e o outro
    que  a narrao da sua vida e a crtica das suas doutrinas,
    intitulado _The Life of Mazzini_, escrito por Bolton King. Esses
    dois volumes constituem s por si uma lio moral e poltica e uma
    inspirao de dignidade e nobreza de um altissimo valor. Quem os
    divulgasse em linguagem portuguesa, prestaria excelente servio s
    letras ptrias, e sobretudo  educao das novas geraes, to
    desiludidas das seguranas e presunes materialistas que encontram
    no ocaso, como apressadas em descobrir novos e mais serenos
    horizontes para que se encaminhem.

    [9] H. Demarest Lloyd. _Mazzini and other Essays._ Pag. 4 e 6.




Indice


    Prologo

    Convulses dum enfrmo

    Ganhos e perdas

    Reviso de valores

    Da arte de gastar e suas responsabilidades

    O Cavador e o Profeta

    Aparies




DO MESMO AUTOR

    _Vozes do meu lar_, 1 vol.

    _Na paz do Senhor_, romance, 1 vol.

    _Reino da Saudade_, romance, 1 vol.

    _Via Redentora_, 1 vol.

    _Apostolos da Terra_, 1 vol.

    _Sonho de Perfeio_, romance, 1 vol.

    _S. Francisco d'Assis_, 1 vol.

    _Jos Estevo_, 1 vol.

    _Alexandre Herculano_, 1 vol.

    _Rogaes de Eremita_, poemetos em prosa

    _Salmos do Prisioneiro_, 1 vol.





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