The Project Gutenberg EBook of Newton: Poema, by Jos Agostinho de Macedo

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Title: Newton: Poema

Author: Jos Agostinho de Macedo

Release Date: October 8, 2008 [EBook #26848]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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NEWTON,

POEMA

POR

JOS AGOSTINHO DE MACEDO.


LISBOA,

Na Impresso Regia. Anno 1813.

_Com licena._




      _Sciscitanti clestium causas, domesticus_
                        _Interpres._

                                                 Seneca, Cons. ad Marcian.




PROEMIO.


O Mundo deve aos Conquistadores desgraas, lagrimas, e lutos; o Mundo
deve a Newton verdades, sciencia, e luzes. Se inquietar os homens tem
merecido tantas Epopas, porque no merecer hum Poema quem illustra, e
quem ensina os homens? Ah! se chegar o tempo de se conhecer, que huma
penna he mais util que huma espada! Canta-se com enfasi quem conquistou
huma Provincia, e porque no ha de ser cantado aquelle de quem se pde
dizer, que conquistra a Natureza, obrigando-a,  fora de estudo, e
engenho, a revelar seus mais reconditos arcanos? He preciso que
conheamos que o Imperio da Poesia tem limites muito mais extensos do
que at agora se julgava; e eu creio que o seu melhor emprego he a
contemplao, e a exposio deste sempre antigo, e sempre novo quadro,
que se chama a Natureza. A simples intuio de seus prodigios, e o
estudo destes mesmos prodigios, dilata, e accende mais a imaginao
do verdadeiro Poeta, que todas as chamadas grandes aces dos
Conquistadores, ou perturbadores da Terra. Se o homem s se deve chamar
grande, quando he verdadeiramente util aos outros homens, quem poder
pr em dvida que os descobrimentos, e as mesmas hypotheses de Newton
sejo mais uteis aos mortaes do que as expedies da Cruzada, que dero
a materia ao Poema de Tasso? Quem illustra a humanidade he maior que
quem a dimine. Newton merecia hum Poema, as Musas lho devio, eu
satisfiz esta divida; se a satisfiz bem, a critica o dir; em quanto aos
miseraveis reparos da escura Inveja, prepare-se esta, porque a mesma
chamma, que se me desprendeo n'alma para cantar Newton, me obriga a
consagrar igual tributo de louvor a Buffon.




NEWTON,
POEMA.


CANTO I.

    J da Aurora ao claro suave, e puro
    Cedia o campo azul do immenso espao
    D'estrellas recamada a noite umbrosa;
    Nuncia do dia, s lucidas esferas,
    Da luz primeira undulaes mandava.
    Das mos de neve, e do purpureo rosto
    Brancas brilhantes prolas cahio
    No verde esmalte dos rizonhos prados;
    De ondas immensas de escarlata, e d'ouro
    Era o ceo do Oriente envolto, e cheio;
    E pelo espao liquido dos ares
    Os adejantes Zfyros das azas
    Da manh fresca os hlitos soltavo;
    E a vaga turba aligera nos bosques,
    Dava o tributo dos primeiros hymnos
    Da Natureza ao renascente quadro.
    Quasi rompia o flammejante disco,
    Que onde soberbo, e vvido fulgura,
    Prazer espalha, e graas aviventa,
    E mostra em luz envolto o Mundo ao Mundo.
      Depondo o pezo do voraz cuidado,
    (Amargo pezo da existencia minha!)
    Eu no prazer do esquecimento envolto,
    E,  desgraa esquecido, ento pousava.
    Do doce somno em balsamos immerso,
    Somno em que meiga a Natureza furta
     existencia mortal trabalho, e magoa;
    Eis-que sinto levar-me...(e como, e onde
    Eu no posso dizer.) Voei nas azas
    De arrebatados extasis sublimes.
    Sonho, sonho no foi; que mil confusas
    Na fantasia imagens apresenta.
    Extasi foi smente, e arrebatado
    Eu fui de hum Genio habitador do Olympo,
    Que ao pensamento do mortal qu'indga
    Abre do eterno arcano eternas portas,
    E, n'hum centro de luz, lhe mostra o immenso
    Da Natureza o variante quadro.
    Do Grande Scipio dest'arte  vista
    Talvez n'hum tempo se mostrasse a Gloria,
    Que a prosseguir na bellicosa estrada
    Lhe manda, e lhe descobre o alto destino,
    Que aniquilla Carthago, exalta Roma.
      J pizo o aereo cume, e a luz brilhante
    Auri-luzente se diffunde, e espalha.
    Como do meio do profundo Oceano
    Costuma alar-se desmedido esclho,
    Que v quebrar-se nas eternas bazes,
    J languida, e sem fora onda espumante:
    Se olha do cume as voadoras nuvens,
    E os ressonantes tumidos chuveiros,
    Se ouve o horrendo fragor do accezo raio,
    Sereno permanece, e sente apenas
    Que a triste escurido nas faldas pousa;
    E onda, e vento debalde a baze aoita.
    Assim eu, levantado  immensa altura,
    Hum ar tranquillo e puro, e luz mais clara
    Bebo em torrentes, e descubro apenas
    Grossas nuvens pousar na Terra inerte.
    Eis no gremio da paz serena, e doce,
    Se me antolha pizar de Heres o alcaar,
    Extatico bradando, ah! no, por certo,
    Pode ser este o terreal assento!
    Hum co sereno, e Primavera eterna
    Celestes flores, e no vistas plantas,
    E, cheios de prazer, bosques sombrios,
    D'aguas mais puras borbulhantes fontes,
    No por certo no tem mesquinho Globo!
    Sem vos aqui contemplo, aqui descubro
    Essa invisivel fluida substancia,
    Que em torno fecha, e que circunda a Terra;
    Que em si nuvens contm, contm vapores;
    Que em si tantos fenmenos acolhe;
    Que he necessaria tanto, aos sons,  vista,
    Ao fogo,  vida, s arvores, s plantas!
     da Divina mo alto, infinito
    Poder nunca entendido! Se a atmosfera
    No refrangesse a ns do Sol os raios,
    No se viro brilhar n'azul campina
    Em distancia infinita immensos astros:
    Nem o doce crepusculo se vira,
    Ou quando o mesmo Sol s'esconde, e fge,
    Ou quando n'horizonte inda no surge,
    Mas debil raio matutino espalha.
      Se volvo aos ceos exttico meus olhos,
    Vejo proximo o Sol, da luz origem;
    O pelago de fogo, a ardente massa,
    De que he composto o fulgurante corpo.
    He elle o fixo, o luminoso ponto,
    Elle o centro commum qu'em torno cerco,
    Sem cessar gravitando, aureos Planetas,
    A Lua j descubro, e vejo os mares,
    Os largos, fundos, procellosos rios,
    Que parecem, da terra, obscuras manchas,
    Quando a vista de l nos ceos espalho.
    Ilhas descubro, altissimas montanhas,
    De cujas frentes escabrosas desce
    A luz reflexa, que da Terra eu vejo,
    Luz que lhe empresta o fulgurante globo,
    Origem della, e do calor origem.
    Seu mto vario, e desigual contemplo
    Com que mostra em seu gyro incerto o rosto;
    Talvez proceda da diversa, e forte
    Visivel atraco do Sol, e Terra,
    Do eixo obliquo em que se agita, e mve.
      Mais vivos que os Planetas, mais brilhantes
    Em viva luz aos olhos se offerecem
    Em sempre incerta, e variante frma
    To vastos, to excentricos Cometas,
    Tardios em mostrar-se, e sempre infaustos
     vil superstio do vulgo insano,
    Agoiro triste aos plidos Tyrannos!
    So duraveis, e slidas substancias;
    Da mo do Eterno Artifice so obras.
    O Nada as produzio, quando na origem
    Do Mundo lhe mandou, que fosse tudo.
    No quaes ousou julgar rude ignorancia
    Ligeiros fogos de temor objectos,
    Sem orbitas, sem leis, sem marcha, e centro.
      Quantas contemplo lucidas estrellas!
    Quantos Astros centraes! Quo luminosos,
    Quantos, quantos satllites velozes
    Em torno delles caminhando eu vejo!
    Em to diversos, to distantes corpos,
    To varios entre si, tanta harmonia!
    Minha alma se confunde, e se deslumbra
    Debil vista mortal. Tudo me opprime,
    Eu s prodigios, s milagres vejo!
    Entro no abysmo do silencio, e fico!...
      Qual o que sbe do Apenino ao cume,
    E alonga os olhos pelo immenso plano,
    Onde outr'ora s'ergueo Latino Imperio,
    Vastas Cidades v, ferteis campinas,
    E os restos immortaes do fasto, e gloria,
    Que inda em quebrados marmores avulta,
    V longos rios retalhando os campos,
    E do Tirrheno mar, d'dria nas ondas
    V nos altas rasgando o dorso a Thetis.
    Depois que vida vista em scenas tantas
    Hum pouco apascentou, turvado, absorto,
    Dentro em si mesmo se concentra, e fica
    Vastas idas revolvendo, quantas
    Da Natureza, e da Fortuna os quadros
    A seus olhos atnitos mostrro:
    Assim eu vejo em quantidade immensa
    Surgir das aguas, levantar-se aos ares,
    Pelos raios Febeos como attrahidas,
    As humidas pores j rarefeitas;
    Mais ligeiras que o ar, no ar fluctuo;
    Nellas a vida tem, nellas se frmo
    A nuvem densa, as nevoas importunas,
    Que, com diversa reflexo de Apllo,
    Que em seu seio refrange o accezo raio,
    Variante espectaculo me amostro.
      Dos rarefeitos ares eu descubro,
    Que os ventos nascem, (portentoso arcano,
    Por tantos, tantos seculos occulto!)
    Os inconstantes milagrosos sopros,
    (Da bemfazeja Providencia hum grito!)
    Pelo inquieto campo do Oceano
    Levo de hum Polo a outro ousados pinhos.
    Equilibrado o fluido dos ares,
    No os oio bramir!... Mas quem perturba
    A dilatada calma, a paz tranquilla?
    Quem rouba ao ar pacifico equilibrio?
    Talvez, talvez, que, exhalaes rompendo
    Do terreo globo, e tenebrosas furnas,
    Ou sobre o eixo a rotao diurna
    Da Terra seja do prodigio a fonte!
      Eis com elles se agito, se misturo,
    As espalhadas fluctuantes nuvens;
    Do agudo frio comprimidas, torno
    A seu terreno, e primitivo bero.
    Em chuva salutar desfeitas descem;
    Ou, se o frio he maior, candidos vlos
    Do brando vento conduzidos cobrem
    No triste Inverno o campo amortecido;
    Ou nas miudas condensadas gotas,
    Pelas douradas messes espargidas,
    Ao desvelado Lavrador s trazem,
    Depois de longo afan, tristeza, ou pranto.
      Vejo o accezo relampago medonho,
    Oio o horrendo trovo, vejo o espantoso
    Trilho abrazado do sulfreo raio,
    Nada a meus olhos se me esconde, nada!
    E j de enxofre, de bitume, e nitro
    De cido sal, de alclicos diversos
    Grosso vapor subindo eu vejo aos ares.
    Foi do Sol attrahido, o vento o leva;
    Com violento impulso ento fermenta,
    Prestes se accende, subito nos manda
    Essa palida luz sempre seguida
    D'alto fragor, que faz tremer nos eixos
    Timido o Mundo, e precursora he sempre
    Da chamma rapidissima, que desce
    Com pavoroso estrepito, e que abate
    Quanto voando na carreira encontra.
      De aspecto muda do vapor a massa,
    Nem sempre he raio estrepitoso; eu vejo
    As agudas Pyramides, as Traves,
    A Seta aguda, o flamejante Drgo
    E as que se mostro lcidas Estrellas,
    Que accezos trilhos n'horizonte deixo;
    E esse, usado a brilhar no algente Plo,
    Sem calor vivo, sem substancia hum fogo,
    Huns restos so maravilhosos, bellos
    Dessas de luz undulaes pasmosas,
    Que detidas do ar no immenso seio
    Frmo brilhantes Boreaes auroras;
    Ao lcido horizonte em parallela
    Linha se mostro, se mais baixas correm
    Ou, n'hum centro commum, s'unem subindo
    At que extinctas as pores sulfureas
    Pouco a pouco do ar desapparecem,
    Deixando apenas ao gelado Norte
    Hum suave crepusculo brilhante.
      Se volvo a vista n'outra parte, absorta
    De multi-forme cr descubro a nuncia
    Da sempiterna paz, Iris formosa,
    Que a doce reflexo dos aureos raios,
    Unida  refraco sobre miudas
    Da fria chuva transparentes gotas,
    A septi-forme cr prontos lhe imprimem.
      Quantos, quantos fenomenos pasmosos
    A luz reflexa nos produz nos ares!
    Em tanto objecto o pensamento fixo,
    Em tanto objecto extaticos meus olhos
    Grandes idas me desperto n'alma!
    Eu, de augusto silencio em sombras fico!
    E s do centro de meu peito exhalo,
    No os ais da afflio, do assombro o grito.
    Eu sinto, eu sinto hum Deos; no foi do Acaso
    A milagrosa produco do Mundo!
    Obra s foi do Artifice supremo:
    Hum rio origem tem, o effeito causa.
    Tantas estrellas lucidas dispersas
    Nesta estendida cpula azulada,
    Esta Lua, este Sol, o dia, a sombra,
    (Constante alternativa;) a luz, e os ares
    So cifras com qu'escreve a mo suprema
    De hum Ente Summo, Sapiente, Immenso.
    Na flor, na planta, no mimoso fructo,
    Nos rostos varios, e animaes diversos,
    Nos sons, nas cres, na minha alma o vejo,
    Almo thesouro da Clemencia eterna.
    Ella enriquece a Terra, e a vejo em tantas
    To varias produces na especie eternas:
    D'alta grandeza sua eu sinto a prova
    No fundo abysmo dos extensos mares,
    Nos Ceos immensos, na pezada Terra
    Seu Divino saber, tremendo adoro
    N'alma belleza dos mortaes objectos,
    Nas leis eternas dos celestes corpos
    Os caracteres luminosos vejo
    D'hum Concelho immortal que rege o Todo,
    Na exacta proporo dos fins, dos meios,
    Que do visivel Mundo o quadro ostenta
    Tudo, tudo me diz qu'hum Deos preside
    Monarcha immenso de infinito Imperio.
     luz ordena que me aclare, e manda
    Ao ar que me sustente, e a vida aspiro.
    Elle o calor produz, que o vital germe,
    Em successivas geraes conserva:
    Elle o dia formou, nelle ao trabalho
    O mesmo Rei da creao destina:
    Elle a noite produz, com ella em sombras
    Da fria Terra a machina sepulta,
    Em que o corpo mortal restaure a fora,
    Com que ao surgir da matutina Aurora,
    Torne s fadigas, aos cuidados volva.
    Porque discorro, existo, e eu sinto dentro
    De mim que penso sensaes diversas.
    Quando o incorporeo ser d'alma contemplo
    Vejo huma imagem do Motor supremo,
    Que quiz que eu fosse a similhana sua:
    E no direi, que me sustenta, e rege
    Hum Ser universal, hum Nume Eterno?
    Ah! da materia o movimento o mostra!
    Ella inerte de si, da inercia sua
    No podra sahir sem brao Eterno,
    De cujo impulso o movimento nasce.
      Em taes idas concentrado estava
    Sem olhos despregar do quadro augusto;
    Que sempre he novo, e bello, e sempre antigo;
    Livro do estudo meu, delicias minhas;
    Eis-que descubro no mais alto cume
    Do fulgurante Olympo erguido hum Templo,
    Cuja sublime estranha architetura
    Nem alma a concebeo, nem olhos viro.
    De lcido crystal, alto esplendente
    Se levantava altissima fachada;
    Arcos, columnas, architraves, tudo
    De pedraria oriental se frma,
    Onde huma luz celestial batendo
    Derramava reverberos brilhantes:
    A magestosa cpula fulgura,
    Qual de Narsinga o diamante fulge.
    Quem d fora a meu estro, e quem sustenta
    Meus temerarios sobrehumanos vos?
    Como  Verdade franquear eu devo
    T agora as bronzeas ferrolhadas portas
    De crena, a cuja luz no seja avra
    A turba indocil do inconstante vulgo?
    Longe, longe,  profanos! Se tu reges,
    Se tu mesma,  Verdade, o canto animas.
    Se me encordas Cithara toante,
    Para o Templo celeste apresso o passo,
    E no receio de mordazes linguas
    O golpe fundo, o livido veneno.
      No peristilio magestoso, e vasto,
    (Eu no distinguo se he mulher, se he Deosa)
    Ento descubro, que volvendo os olhos,
    Em mim pronta os fixou como se ha muito
    Naquella Estancia me aguardasse; estende
    Formosos braos, e me aperta ao seio.
    Soltando a voz angelica me exclama:
    Escrito estava no volume arcano
    Do immobil Fado, que no Templo entrasses,
    Que a Sapiencia levantou no Olympo.
    Tu, separado dos mortaes enganos
    Da vaidade, que domina o Mundo,
    E dando s Musas o fervente engenho,
    Que  grata sombra dos sagrados louros
    As horas ganhas da voluvel vida,
    E o gro thesouro de profundo estudo
    Buscas constante, e com trabalho ajuntas,
    Soffrendo o longo afan t quando a sombra
    No vasto seio involve o inerte globo:
    Hoje das mos da Sapiencia o premio
    Tu deves receber, teu genio enchendo
    No de verso suave, ou brandas rimas,
    Com que do mar o vencedor tu cantas,
    Que as portas abre do vedado Oriente,
    Qu'a Patria d'honra encheo, de gloria o Mundo,
    Mas d'excelsa verdade ao vulgo ignta.
      De seus olhos a Deosa amor respira;
    Mas tal amor, que penetrava o peito
    Sem perturbar do entendimento o lume,
    Qual ser costuma entre os mortaes, se he grande!
    Eu tinha fitos no seu rosto os olhos,
    Com celeste prazer toda a minha alma
    Em doces chammas ondear sentia;
    A Deosa o conheceo, quer mudo, e quasi
    Abstracta estava, e do sentido alheio.
    Solta hum surrizo dos purpureos labios
    E assim comea a me fallar benigna.
      "Tens cheio o corao de ignoto fogo,
    A quem mortaes no Mundo amor chamro,
    E a quem puro prazer nos Ceos se chama.
    Este puro prazer do gozo alheio
    Tma fora, e principio, e tudo a todos
    Se apraz de ser, e se derrama inteiro.
    Do privado interesse ignora a meta,
    E, nem se muda, nem se altera, como
    Tantas vezes no Mundo amor se muda.
    O proprio amor aos coraes innto,
    Que a todas as paixes qu'o peito agito
    Se amolda sempre, e se transforma nellas.
    He transvestido amor vossa esperana;
    Amor he pertinacia, Amor he magoa;
    Amor so todos os prazeres vossos;
    De Amor o movimento, os accidentes,
    Considerados, so paixes diversas.
    Na origem, quando nasce, Amor se chama;
    Quando do peito sahe, quando se expande,
    E busca unir-se ao suspirado objecto,
    Chama-se ento desejo; e vigoroso,
    J seguro de si, firme em si mesmo,
    Se as azas solta, e se remonta, e sobe,
    O nome tem de vivida esperana.
    He constancia, se, obstculos vencendo,
    Na mesma opposio mais fora adquire.
    Quando aos duros rivaes declara guerra,
    He sempre Amor; mas chama-se ardimento,
    Mil vezes a si mesmo elle se esconde;
    Mas neste raro sacrificio he sempre
    No altar do corao victima, e fogo,
    E Sacerdote Amor, que em si transforma
    Quantas no Mundo v paixes diversas.
      Mas tempo he j que teu desejo abaste,
    E te descubra o portentoso Templo,
    Onde benigno te conduz teu Fado.
    Esta, que vz alar-se, augusta mle
    Encerra dentro em si Filosofia:
    Altares alli tem, do monte excelso
    Genio a tem feito tutelar os Numes:
    Sacerdotes so seus, so seus Ministros
    Esses engenhos transcendentes, vastos,
    Que to raro entre vs asylo encontro,
    Sustento, proteco, respeito, escudo.
    A Fadiga sou eu; nome tremendo
    A quem d'hum ocio torpe os braos busca,
    E na mole indolencia a vida exhaure:
    Mas he doce o meu nome a quem Virtude,
    A quem Mrito apraz. Segue-me,  filho,
    Entra comigo os prticos do Templo."
      Que glido suor me banha a frente!
    De va em va penetrante frio
    O curso ao sangue fervido entorpce!
    Tremi confuso, e vacillante o passo
    Entre contrarios pensamentos movo?
    Vi que de Icaro o vo, a acerba queda
    Desse soberbo, e deslumbrado moo,
    Que mal regera ignpedes Ethontes,
    Eu hia a renovar. Meu alto assombro
    Descobre a Deosa, e se doeu de ver-me;
    A mo benigna me estendeo, susteve
    No meio j do pavimento augusto.
      Dentro era d'ouro o consagrado Alcaar,
    De azul celeste a cupula esmaltada,
    Onde brilhantes lucidas estrellas,
    Quaes Safiras finissimas, se engasto;
    Oriental Pyrpo o cho lhe frma;
    E nas paredes (mo divina!) expressas
    Admira a vista inslitas pinturas,
    Quaes nunca Rafael, quaes nunca ousara
    Traar pincel de Rubens portentoso.
    Aqui se vio nos incultos bosques
    Ir errando os mortaes sem lei, sem freio,
    E quasi extincto o luminoso facho
    Da celeste Razo, preza entre sombras.
    Alli se admiro simplices viventes
    Rudes choupanas levantar primeiro
    De annosos troncos, e de seccas folhas,
    Onde, quaes fras nos covs, s'escondem
    Das injurias do ar, do vento aos sopros.
    Neste estado infeliz de hum Mundo inculto
    Se d principio  sociedade humana:
    A primeira familia alli se ajunta
    A rotear comea o campo agreste.
    Nella o pai foi Monarcha, at foi Nume,
    Da sapiencia, e da razo guiado,
    Alli juntava Sacerdocio, e Reino.
    Os Ceos interpetrando as leis promulga,
    Que o bem commum da sociedade busco,
    No era a Sapiencia obscura, e arcana,
    Destes primeiros pais, mas doce, e clara
    Abria o Templo da vulgar Virtude.
    Deste humilde principio, e to pequeno,
    Surgio de Roma o desmedido Imperio;
    D'huma cabana s'estendeo no Mundo.
    Alli Romulo, e Numa as leis dictavo,
    Ao novo asylo universal chamando
    Do antigo Lacio indigenas incultos.
      Alm se via progressivamente
    Multiplicar-se sempre a especie humana:
    Mas passou mui depressa a idade d'ouro!
    A ferrea comeou, e alm se via
    Ir o robusto agricultor rasgando
    Com ferreo arado o seio  terra inculta;
    Sobre ella s'entornou suor primeiro.
    D'estranho tronco as arvores s'enxrto:
    Corta-lhe a foice os ressequidos ramos.
    Se falta a Natureza, a industria suppre;
    Pois quanto as plantas por seu proprio instincto
    Ajudadas do Sol, ferteis co'a chuva
    Nos espontaneos fructos produzio,
     humana preciso j no bastava.
    Ento das cultas, pampinosas vides,
    Se tiraro primeiro os dons de Brmio:
    Ento luxo ensinou tingir por fausto
    Co'a preciosa purpura de Tyro
    Do verme industrioso a tenue baba.
    Se a relva dava ento tranquillos sonos,
     sombra qu'espalhava o Freixo annoso,
    E se estancava a sede  lynfa pura
    Do serpeante lmpido regato;
    Vlos se arranco do innocente armento,
    Que ao canado mortal repousos presto;
    E o liquor salutifero se apra,
    Que restura o vigor no inerte corpo.
    Por buscar novos, escondidos Mundos,
    Da nativa montanha ento se viro
    Cortados abater-se o Chpo, a Faia:
    J vem nas ondas contrastar co'os ventos.
    Para ajuntar as peregrinas merces,
    L vai duro mortal soltando as vlas,
    No elemento no seu, do vento s iras;
    Mortal t agora ingenuo, e qu'outras praias
    No tinha visto mais, qu'as do tranquillo
    Regato que lhe corta os patrios campos.
    A guerra assoladora, a guerra infausta
    Era ignota at alli, e em tristes cres
    Alli se via a fervida peleja.
    Na bigorna se bate a horrenda espada;
    Em dura lana alm s'alonga o ferro
    Mais avante s'erguia o forte muro;
    As torres hio topetar co'as nuvens.
    Gozava a antiga gente ocio tranquillo:
    Ah! que Furia infernal, que monstro horrendo
    Trouxe do escuro Inferno o facho accezo?
    Que nuvem se elevou sangue estilando?
    A raiva, o odio, a inveja o brao alaro.
    Primeiro a Ingratido nas mos levanta,
    O ferro atroz, sanguinolenta espada;
    E peito a peito, d'ambio levado,
    Se combate o mortal; chamou-se gloria
    Esse furor brutal, que avilta as feras,
    Que poupo por instincto a propria especie:
    Tudo foi sombra, e confuso no Mundo.
    A raiva universal, honra se chama;
    Tanto do humano corao se apossa
    Que julga estado primitivo a guerra!
    Augmento-se as naes, o estrago cresce:
    Sempre o furor de dominar triunfa.
    O que era o pai, o Sacerdote, o Nume
    Da primeira familia, he j Tyranno!
      De fero aspecto debuxado estava
    Sanguinario Nembrot qu'ergue seu throno
    Sobre o pescoo das naes em ferros.
    A Terra se pova, o facho accezo
    No s'extingue jmais nas mos das Furias,
    Se hum throno se levanta, outro se abate.
    Nos mais remotos angulos do Mundo,
    Onde existem naes, a guerra existe.
      Mas entre tantas retratadas gentes,
    Que o ferro tem nas mos, no aspecto as iras,
    Eu vejo estar em solitario alvergue
    Pensativos mortaes, longe, e mui longe,
    Em doce paz, do estrepito, e tumulto.
    Ao ar, ao portamento,  vista, ao mto,
    Subito conheci, que os sabios ero,
    Que as sempiternas leis da Natureza
    Em pr dos outros conhecer tentro.
    Com pertinaz estudo, e prompto engenho,
    No grande livro do Universo estudo,
    E com pasmosa distinco contemplo
    To formoso espectaculo, to vario.
    C'os labios semi-abertos, os immoveis
    Olhos pregados tem no ethereo assento,
    Como que vo buscando o immenso, e certo
    Eterno gyro dos rotantes astros.
    He esta a ocupao, este o deleite
    Do cobioso pensamento altivo,
    De assombro os enche maravilha tanta;
    Curiosidade da ignorancia he filha,
    To propria, e tanto da mortal essencia;
    Smente ella produz sabedoria,
    Quando o veloz enthuziasmo ata,
    E quando observa desusado effeito
    Da Natureza, ou Ceo, corre anhelante,
    Corre prompta, interroga, observa, indaga,
    E tenta descobrir quanto se off'rece
    A seu ouvido extatico, a seus olhos:
    Vai dos effeitos penetrando s causas.
    Tal presupposto foi de antigos Sabios,
    Das cousas todas indagar as fontes.
    Da sciencia o amor, o amor do estudo,
    Entre os Sabios se diz Filosofia.
    Curiosidade, e ocio,  Deosa dero
    (A quem he consagrado o Templo) a essencia.
    s inda feras indomadas gentes,
    Mal acolhidas na choupana humilde,
    Communicou seus raios luminosos.
    Fez-lhes vr de si mesma a imagem pura,
    Apenas observou que accezos olhos
    Na abbeda dos Ceos apascentavo,
    Do sempiterno brao contemplando
    Essas sem fim maravilhosas obras.
      Depois que em tanto quadro a vista absorta
    Acabei de deter, novos objectos,
    Minha alma toda subito me levo.
    Eis esculpidas novas maravilhas,
    Nos aureos muros assombrado vejo.
    Sobre hum turquino fundo auri-luzente
    Fixas sempre n'hum ponto estrellas brilho,
    A cujos lumes, trmulos, suspensos
    Pelos bosques Caldeos vejo os pastores,
    Imprimindo signaes na mole ara,
    Da sabia Geometria as leis primeiras.
    (Dura, afanosa sapiencia, quanto
    Tu sabes levantar o engenho humano!)
    Co'a frente envolta em sombra alm correndo
    Eu vejo o vasto fluctuante Nilo
    Do pingue Egypto os campos retalhando,
    Vejo-lhe em torno industriosa gente
    Medindo-lhe a compasso s turvas ondas,
    Esperando que o Ceo constante, e meigo
    O retorno annual decrete s aguas;
    E, em quanto o interesse, em quanto o Genio
    Dividem entre si fadiga, estudo,
    Recebe nova luz Geometria.
    Qual costuma romper d'alpestre rcha
    Limpida fonte, e serpeando o campo
    Por entre as pedras vai com doce, e grato
    Continuo estrondo alimentando as flores;
    C'huma fonte depois, depois com outra
    Sempre augmentando a crystalina va,
    Que cresce, e passa a lucido regto,
    E, recebendo d'outros mil tributo,
    O fundo leito alarga, e j bramoso
    Aqui comea a se fazer torrente,
    Espuma, e freme, e se arrebata, e foge,
    De tanto, e tanto feudo enriquecido,
    E soberbo de si no fundo Oceano
    L chega, l confunde o nome, as aguas:
    Tal do seio da immensa Natureza,
    Escuro seio, pouco a pouco trouxe
    O humano entendimento a luz brilhante
    E dest'arte raiou Filosofia,
    Que foi por longos seculos juntando
    D'alma sciencia o perennal thesouro,
    Suave fructo da innocencia antiga,
    Ah! to buscada em vo na idade nossa!
    Em que fogo maior, mais viva chamma,
    Que essa que a boca do Vesuvio exhala,
    No seio do mortal fomenta o crime.
    Esse inquieto, e vil ferreo desejo
    De possuir incommodas riquezas,
    Que partilha no so, por mo destino,
    Do que apascenta o corao tranquillo.
    Na posse ingenua das sciencias todas:
    Com pertinaz estudo se augmentro;
    E do existente Mundo as leis, e as bazes
    Foro continuo emprego  mente humana:
    Mas nada lhe abastou desejo accezo,
    Que to vivo cresceo, qual cresce o vasto
    De pequena faisca immenso incendio.
    Quando fixo encarou bellezas tantas
    Lanou-se aos Ceos com generosos vos,
    E dos astros o influxo, e o vario aspecto
    Ouzou descortinar, no eterno curso,
    Pelos ermos do espao os foi seguindo.
    E soberbo de si, no satisfeito
    A seu profundo, e vasto pensamento,
    Co'a tcha acceza da Razo diante,
    Abre, piza, franqueia ignta estrada,
    Que mais, e mais se aplaina, e mais s'estende
    C'o porfiado estudo, e os homens leva
    Ao Templo augusto da immortal Verdade,
    Que escondido no he qual foi primeiro.
    Ella pde encantar Genios sublimes
    Cujas imagens em perennes bronzes
    Em si conserva o magestoso Alcaar:
    Oh! mui feliz Entendimento humano:
    Se em taes indagaes, se em taes estudos
    Aprende a conhecer, e amar o Eterno
    S de bens larga fonte, immenso Oceano!

_Fim do I. Canto._




NEWTON,
POEMA.


CANTO II.

    Da Sapiencia antigos amadores,
    Os Sacerdotes do celeste Nume,
    Ao sacrosanto Templo alto ornamento,
    Com seus bustos em porfido formavo
    Do magestoso altar decro illustre;
    Puro, innocente altar, onde a profana
    Mo despiedada dos mortaes infrenes
    Nunca pozera victimas de sangue,
    De que tanto se apraz da guerra o Nume,
    Que o cego Fanatismo, ah! to frequente!
    Nas torpes aras da Ambio degolla.
    So incensos aqui puros affectos,
    E o remontado pensamento os votos;
    So offerendas extases sublimes,
    Vos da mente, que s'eleva aos astros,
    E corre o immenso espao. Aquella Deosa,
    Que o bero tem nos Ceos, qu'he dom dos Numes,
    Que he mi das Artes, e inventora dellas,
    De magestade, e de belleza cheia,
    Taes holocaustos no seu seio acolhe.
      Vi, (qu'assombro!) de luz cercado o vulto
    Do primeiro mortal, puro, innocente,
    Qual j das mos do Creador dos Mundos
    Sahio primeiro, e dominou na Terra.
    Do Divno saber nasce ensinado,
    Das cousas conhecia a essencia propria,
    Impoz o proprio nome aos seres todos.
    E junto delle fulgurando estavo
    Em menos viva luz seus tardos netos,
    Que delle, como herana, alta doutrina
    N'huma idade de seculos colhero:
    De labio em labio aos psteros a mando
    T qu'horroroso, universal Diluvio
    Fez que de todo agonizasse o Mundo.
      Via logo a No, que intacto surge
    Do lenho guardador da especie humana:
    Aos filhos seus dos fulgurantes astros
    O aspecto, o moto, as posies ensina.
    Sublime Sapiencia, e douto estudo,
    Que to illustres fez, depois da obscura
    Confuso de Babel, naes diversas,
    O innocente Caldeo, o Arabe experto,
    Do Nilo o morador mysterios todo,
    E o Persa audaz idlatra do fogo.
      Descubro a Prometheo, e o velho Atlante
    Em que a verdade a Fabula reveste
    Da Poesia co'as brilhantes cres.
    Hum, com fogo dos Ceos, anima o barro;
    Outro o pezo sustem do excelso Olympo.
    Vejo o profundo Trimegisto, e vejo.
    O sublime Cantor harmonioso,
    Que de Troia a catastrofe nos pinta,
    Que, em brando verso, imagens lizongeiras,
    Da Sapiencia os pennetraes nos abre;
    A ida em si contm das artes todas.
      Pelas margens do Indo, e turvo Ganges
    Meditadores Brmenes diviso,
    Que em sombra muito espessa a luz envolvem,
    E a verdade entre symbolos nos dizem.
    A Confucio Chinez descubro, admiro,
    Que a voz escuta  sabia Natureza,
    E firma o summo bem s na virtude.
    Tres Zoroastros, que nas sombras planto
    Luminoso fanal, que  Persia, e Egypto
    Das Artes para o Templo a estrada aplaina.
    Logo dois immortaes cantores vejo,
    He Lino, e o doce Orfeo, que a Lyra d'ouro
    Com tanta fez soar maga harmonia,
    Que doceis se tornou troncos, e penhas,
    Que do chos no escuro horrendo centro,
    Principio do Universo, Amor plantaro.
    Pensativo Beroso alli contemplo,
    A quem de Athenas a famosa escla
    Estatua alevantou d'ouro mais puro.
    A par delle he Chilon, que o dia extremo
    Sem pena, sem temor contente encra.
    Do tyrannico sangue alli manchado
    Pittaco  morte sobranceiro existe.
    Legislador Solon de brando aspeito,
    Que com vasto saber enlaa Astra,
    E s leis soube juntar Filosofia;
    Dos bons Monarchas o modello he este!
    Depois Zaleuco vi, depois Carondas,
    Ambos com justas leis Sicilia exalto.
      No meio bem do taciturno alvergue
    De Pythagoras sabio o vulto admiro,
    No rosto, e ar mysterioso em tudo,
    Que da Unidade, ou centro aos seres todos,
    A origem fez sahir, principio, e causa.
    Clebulo descubro, elle a formosa,
    Sabia filha gentil conserva ao lado,
    Que da engraada boca em aureo rio:
    Eloquente entornou Filosofia:
    Ah! nunca aos homens se mostrou to bella!
    Admiro mais alm Biante o sabio,
    Que digna s julgou de humano estudo
    Moral, que na virtude a alma levanta,
    Em sua mesma magestade occulta,
    Deixando a Natureza, enigma escuro,
    Indecifravel aos mortaes mesquinhos
    Em quanto em fragil barro a alma se prende.
    Periandro alli vejo, e vejo o Scyta
    Anacharsis, Filosofo profundo,
    Cujo nome immortal materia, e fama
    Deo neste ferreo tempo ao douto escrito,
    Que a Grecia em si contm, co'a Grecia tudo.
    Vejo a Misson, que symbolo o destingue?
      O nobre, e nobre s proficuo arado,
    Que o seio rasga  terra agradecida:
    Delle se peja a estlida vaidade;
    Do Filosofo  vista he mais que hum Ceptro:
    Na cultura do campo o sabio he grande;
    Nem pode o estudo ter mais digno objecto;
    E nunca outro mister, nunca outras artes,
    Com mais afan buscasse o engenho humano!
    Celeste Agricultura, oh digno emprego
    T do mortal primeiro inda innocente!
      Eu distinguo Epimnides, que deixa
    A escondida caverna em que medita,
    Aos homens vem mostrar da luz os raios
    Fercides, Bericio, e aquelle observo,
    Que a Frygia vio nascer sublime, e douto,
    Que em lizongeiras fabulas esconde
    Quantas depois lies do justo, e honesto
    O Prtico sublime, a Esta dero.
    Thales descubro ento, brazo da Jonia,
    Que he da primeira escla excelso mestre,
    Que  Grecia deo lies, deo luz, deo tudo
    Quanto soube alcanar de Astronomia
    Do protentoso vidro o olho despido.
    Elle primeiro do Solsticio o ponto
    Sobre a Terra observou, e elle primeiro
    Predisse aos homens pavoroso eclypse,
    Que rouba a luz  Terra, e a paz ao peito,
    Deste mysterio assustador ignro.
    Elle o principio assignalou do Todo,
    O humor aquoso que circunda o globo.
    Vejo Archelo, Anaximandro admiro;
    Este infinita julga a Natureza;
    ( Portuguez Hebreo, tal foi teu erro!)
    Aquelle julga que as primeiras causas
    S so da gerao calor, e frio.
    Anaximenes do Orador Romano
    Sempre admirado, alli contemplo, admiro,
    No mto eterno da substancia eterna
    A essencia poz de hum rbitro supremo,
    E deo ao Mundo por principio immenso,
    A substancia do ar, vasto, infinito.
    O profundo Anaxgoras diviso,
    De fundos olhos, de enrugado aspeito
    Prolixa barba, atenuado corpo,
    Que ardente pedra incombustivel julga
    O luminoso Sol. Vai branco, e curvo,
    Calva a rugosa frente, a tez sombria,
    O protentoso Scrates, o justo,
    (Quanto o ser pode a Natureza impura)
    Attento sempre ao movimento interno
    Do humano corao, regeita, e mfa
    Dos vos systemas fysicos do Mundo,
    Que  mente dos mortaes ignotos deixa,
    E s'apraz de deixar Motor Superno.
    S da austera moral segue as pizadas,
    E avezado o mortal s vans idas
    Da vacillante Fysica o procura
    A estudo reduzir da essencia propria.
    S quando o homem se conhece he sabio!
      Vejo Aristippo, Antsthenes descubro;
    Hum busca o summo bem no inerte, e baixo
    Prazer que encanta os corporaes sentidos:
    ( lisongeiro do soberbo Augusto,
    Teu systema tal foi, teus aureos versos
    Aristippo smente, e Amor respiro!)
    Porm, mais sabio Antsthenes encontra
    S d'alma no prazer, ventura extrema;
    Este o primeiro da assisada turba
    Do Cynico mordaz. Crates contemplo,
    Que julga inutil pezo a v riqueza,
    E no abysmo do mar com ella esconde
    O inquieto temor, voraz cuidado.
    Alli Monmo admiro, e Zeno, e Hiparco,
    Vejo a vagante habitao do Sabio
    Digenes pasmoso, e alli defronte
    Em p contemplo o assolador do Mundo;
    Da esquerda parte inclina hum pouco a frente,
    E a fluctuante clmyde lhe arrastra;
    Pende-lhe ao lado o ferro, e delle em torno
    Calisthenes contemplo, e mudo, e quedo
    O grande Efestio. Elle ala o brao
    De quem Persia se teme, e teme o Ganges,
    E ao pobre habitador da cuba off'rece
    Seus thesouros, seus dons; tranquillo, e grande,
    S lhe pede que ao Sol no vde as luzes,
    Nem lhe tolha o calor que ao frio, inerte
    Corpo negado tem Frugalidade.
    Se houve grande Filosofo, he s este!
    Com taes lies, j Menedemo he grande,
    Que hum s bem conheceo, e he s virtude.
    Euclides vejo, e Pontico, avezado
     contumaz contradio de tudo.
    Vejo Estilpon magnanimo, que a intonsa
    Cabea traz, e descoberta sempre:
    Pobre o vestido tem, e os ps descalos,
    Com elles piza a vaidade, o fausto,
    E quanto pede o corao lhe nega.
     grande Preceptor do ingrato Nero,
    Se isto no foi teu animo sublime,
    Ah! so por certo teus escritos, isto!!
      Diofantes, Apolonio, eu bem destinguo,
    Tem nas mos o compasso, e tem na terra
    Immoveis sempre os encovados olhos;
    Alli descreve as trabalhosas curvas,
    E alm disto no mais surge esta idade;
    No foi mais Galileo, nem mais Des-Cartes!
    De Estoico rigor seguindo a trilha
    Eu vejo envolto em seus possiveis Zeno.
    De veneravel rosto accezos olhos
    Eu descubro a Plato, Plato que o Nume
    Nos objectos que v, contempla, adora;
    Que a novo Amor d luz, e alegre espera
    Que a seu astro natal sua alma torne.
     sublime doutrina, ah tu podeste,
    Dentro da Escla de Florena outr'ora,
    O eloquente escutar Policiano;
    Se as letras tem na Europa apreo, estima,
    Se em seu amor se me embranquece a frente,
    A to sabio mortal, to grande o devo!
    Este o tributo, que meus versos pago:
    Que mais te posso dar? Teu nome he tudo.
      Vejo Espeuzipo imitador da grande
    Virtude illustre de Plato sublime:
    Teve commum com elle, o estudo, o sangue;
    E a baze eterna lana  Academia,
    A quem deo nome o milagroso Tullio.
      Da belleza inimigo, e da ternura
    Xenocrates descubro austero, e triste,
    Vergonhoso baldo da especie humana,
    Que, nem ao mago scintilar d'huns olhos
    Nem ao surrizo de purpureos labios
    E s aureas ondas de madeiras d'ouro,
    Sente no peito a Natureza toda,
    Q'at do fundo abysmo aos monstros feios,
    E sanguinario Tigre, amar ensina.
    O pertinaz Arcesilo na escola
    O segue, duvidando, a alma suspensa
    Entre a diversa opinio conserva.
    A imagem de Carnades descubro,
    Da nova Academia he timbre, he gloria
    Cuja alma excelsa da verdade indaga,
    Entre o provavel sempre, a estrada incerta.
    Pythas vejo que do antigo Sabio,
    A quem Samo talvez j dra o bero,
    Vai seguindo as pizadas, e se julga
    Continuo habitador de corpos varios.
    Este aos ceos porporo, este a medida
    Primeiro assignalou; dos aureos astros
    Para hum centro commum conhece o mto
    Naquelle antigo symbolo mostrado
    Da septicrde auri-sonante Lyra,
    Que Febo tem nas mos, q'o Vate inveja;
    E se lhe antolha, que escutava ao perto
    Sempiterna, multiplice harmonia,
    Da Esfera portentosa alto-brilhante;
    Talvez nelle encontrasse o germe, a fonte
    De seu systema de attraco, sublime,
    Infatigado explorador Britano....
      Meditador Empdocles j vejo,
    Que julga ( fraco dos mortaes discurso!)
    Suor do terreo globo o vasto Oceano;
    Se este, se este no foi, Buffon facundo,
    Esse teu vapor humido, que a Terra,
    Destacada do Sol, e ardendo em fogo
    Ao mais subido d'atmosfera exhala,
    E cahindo de l se frma em mares!
      Do Italico saber brazes sublimes
    Tidas, e Architas fulgurando admiro;
    Ambos julgavo cada estrella hum Mundo.
    Suspenso pelo ar alto infinito,
    Onde hum astro central preside a muitos
    Rotantes globos, q'em si mesmo opcos
    Reverberante luz delle recebem:
    E no globo gentil da argentea Lua
    Mares, selvas, montanhas supozero,
    E de ser pensador fecundo alvergue.
    Este nas margens do revolto Sena,
    Que hoje escravos s vs, s ferros banha,
    Teu pensamento foi, sublime engenho,
    Quando d'hum Mundo n'outro Mundo ignto
    Levaste a passear matrona mbelle,
    Do prazer filosofico em ligeiras
    Azas de accezo enthuziasmo ouzado.
    Tal foi a ida de profundos sabios
    Que to soberba opinio vestro
    Das cres da razo, qual tu fizeste
    Nessa pasmosa extatica viagem
    Com q',  profundo Kpler, te lanaste
    Por entre os astros aos confins do Todo.
    Na escura tez Prothagoras conheo,
    Que entre sophismas envelhece, e nega,
    Oh! sacrilega audacia! hum Deos ao Mundo.
    Nem v na grande architetada mole
    De hum Ser eterno a mo reguladora!
      Cheio de assombro, e maravilha fito
    Na imagem de Demcrito meus olhos;
    Abdera o vio nascer, e a mente excelsa
    Na grande esfera da sciencia entranha.
    Vejo a par delle Heraclito, que chora
    Ao triste aspecto da miseria humana,
    Em quanto aquelle no incessante rizo
    Com soberba indiscreta o Mundo insulta:
    Ambos no excesso opposto hum erro abrange.
      Vejo a Pirron que pertinaz duvda
    Do que tem da verdade o cunho impresso;
    Muda sempre de cr, muda de aspecto,
    He duvidoso, e vacillante sempre;
    Filosofico orgulho, e quanto, e quanto
    Se fecundou teu germe em peito humano!
    Teu scepticismo do erudito Baile
    Os escritos manchou, q'espalho sombras
    N'hum ponto unindo o verdadeiro, o falso!
    Entre guerreiras machinas envolto,
    Entre abrazadas nos vejo Archimedes:
    Cheio de palmas, de laureis lhe chora
    De Siracuza o vencedor, a morte;
    Foi esta a vez primeira,  gro Marcello,
    Que sobre a Terra fez Heroes o pranto!
    Illustre pranto, que aligeira ao Mundo
    O ferreo jugo do Latino Imperio!
      Eis descubro Epicuro, o vulgo insano
    Nelle descobre hum mpio, eu vejo hum sabio
    Frugal, modesto, taciturno, humilde,
    Que d'alma no prazer, puro, e sincero
    Suprema quiz constituir ventura.
    Entre viosas arvores se assenta
    De hum ameno jardim; medita, ou finge
    Os infinitos tomos no vcuo,
    D'hum lao casual produz os Mundos.
    D'alma foi erro, e da vontade engano
    No passa ao corao; tranquillo, e puro
    Ama a virtude.  Seneca, foi este
    Teu pensamento quando instrues Lucilio.
    Mas erraste; he chimerica a virtude
    Em quem della no v n'hum Deos a fonte:
    Quem no acaso conhece o author do Mundo,
    Se no erra, e blasfema, ento delira!
      Eis d'Estagira o Genio, eis o prodigio
    Talvez, talvez maior q' a Grecia vira.
    Do Mundo he mestre, a Natureza he sua,
    No se confunde o Peripto, e elle:
    Elle foi luz, o Peripto he sombra.
    No he seu mr brazo ter visto o Mundo
    Do Mundo o vencedor posto a seu lado,
    Pois de Alexandre, que conquista a Terra
    S devia Aristoteles ser mestre.
    He seu tymbre maior ter da sciencia
    Quasi o infinito circulo corrido.
    Inda em seus livros q' a ignorancia altera
    (Ignorancia dos Arabes soberba)
    Saber encyclopedico descubro.
    Se hoje tudo he Buffon, se Plinio he muito
    Seno fora Aristoteles, no foro.
    Bem como hum Nume ao Mundo as bazes lana
    Quando no instante productivo o manda
    Sahir do centro do confuso cahos;
    Assim das artes, das sciencias todas,
    Quasi no cahos da ignorancia envoltas,
    Lana o grande Aristoteles as bazes.
    Quando deixou de perseguir o Mundo
    A Sapiencia, o merito, a virtude?
    Tristes aves da noite a luz odo:
    D'Athenas Aristoteles se esconde,
    Em voluntaria morte azylo encontra.
      Na sublime cadeira ento se assenta
    (E alli brilhando estava) o douto, o grave
    Da Natureza interpetre Theofrasto;
    Desgraado Calsthenes lhe escuta
    As sublimes lies, e o grande Endemo,
    E a respeitavel multido dos Sabios
    Affeitos sempre a passear pensando.
      Do Tybre a escravido, do Tybre os ferros
    Torno de Athenas, e Corintho o fasto
    Em pobre alda, ou lastimosas cinzas:
    Eis se transplanta a Sapiencia a Roma;
    E, se da Gloria o Templo as armas abrem
    A seus grandes Heroes, tambem seus Sabios
    No eterno Templo da sciencia eu vejo.
    Entre todos mais luz, talvez mais clara,
    Que a que se espalha dos Argivos bustos,
    O protentoso Cicero derrama!
    Nenhum Sabio formou do Eterno Nume,
    Entre as sombras Pagans, mais alta ida!
    Elle incorporeo, immenso o considera
    De eterna Providencia, Amor eterno.
    Existente por si, e author do Todo.
    Por certo entre os mortaes nenhum t agora.
    To profundo saber juntou co'a rica
    D'aurea eloquencia exuberante va!
    Do Epicuro Lucrecio ento descubro
    O pensativo, e descarnado aspeito:
    O centro tira do Universo, e Mundos
    Infinitos julgou no immenso espao.
    Alli vejo Epitto humilde escravo,
    Mas entre os sabios soberano, e livre;
    Cuja fragil alampada hum thesouro
    Entre as joias valeo da antiga Roma.
    Vejo o vulto de Seneca, seus olhos,
    De huma luz ardentissima, levanta
    Meditabundo ao luminoso assento;
    Piza as salas fataes d'ebano, e d'ouro,
    Onde o sangue materno hum Nero entorna,
    Onde jaz de Germanico o cadaver
    Seneca o monstro louva, e s'entristece:
    Dependencia d'hum throno a quanto obrigas
    Pequeno em obras he, grande em sciencia
    Elle a vida antepoz ao justo, ao pejo
    Por ella perde de viver as causas:
    Mas em seu gremio o tem Filosofia,
    S porque disse q' s aces internas
    He presente hum juiz, presente hum Nume.
    Roma nelle acabou. Na foz do Nilo
    Imperial Alexandria surge;
    Ella produz o Ecltico Potmon
    No Templo veio fulgurar seu rosto.
    Da bella Hipacia a formozura brilha;
    Eloquencia, e saber da boca entorna
    Entre suaves halitos de rozas,
    Que transportado Origenes lhe escuta.
    Em sua escola Prculo se exalta,
    Amnio, Celso, Jamblico, e Porfirio,
    Que mal sabido Platonismo illude.
    Vejo n'hum throno, sobranceiro a muitos,
    O magestoso vulto auri-esplendente
    Do novo Tullio, o fluido Lactancio,
    Talvez maior, que o Consular de Arpino.
    No era longe delle, em sombra envolto
    Da prizo melancolica, Boecio;
    Vai banhando os grilhes d'amargo pranto
    T que raiando vio Filosofia,
    Que as sombras rompe, as lagrimas lhe enchuga.
      Profunda escurido, profundo luto
    No vasto Imperio das sciencias pousa;
    Onde apparecem Vandalos, acabo.
    Quaes vemos entre ns do Sena os monstros,
    Que vem das artes derrubando os Templos;
    Vem do gelado, tenebroso Arcturo
    Bando, de morte, e de ignorancia armado,
    Apenas fico grrulas esclas,
    Que hum s busto no tem no eterno Templo,
    T que dos gelos de Sarmacia surge
    Coprnico immortal, este o primeiro
    Que alli se manifesta, alli fulgura
    Entre os astros envolto, entre as esferas:
    Vio Sol immobil, vio rodar a Terra,
    E apenas o immortal pasmoso escrito,
    Ao respeito dos seculos entrega,
    O templo augusto da sciencia todo
    De protentosos sabios se pova.
    Eis se me amostra Galileo, dos astros
    O novo Cidado, tem curva a frente,
    E descarnadas mos co'as vs cadas.
    Cinge-lhe Jove na enrugada testa
    As q' elle achra incognitas estrellas.
    D'antiga Resia veio o alto ornamento,
    He Bernlli immortal. Na margem fria
    Do discordante Baltico diviso
    O grande author das Mnadas, q' encontra
    No composto mortal mga harmonia
    Entre a composta, e simplice substancia.
    Nascido a meditar, modesto, e mudo,
    Da nebulosa Hollanda em canto escuso,
    Do gro Des-Cartes magestoso vulto
    Entre as sombras, e a luz plantado admiro.
    Hum globo tinha aos ps nas mos hum facho
    Q' ao globo espanca a trva da ignorancia.
    Legislador sublime alm brilhava,
    Verulamio infeliz, primeiro as portas
    Da recatada Natureza abria.
    O desprezado  cinte, e ignoto a muitos,
    O frugal Espinosa aqui surgia.[1]
    Errou que he homem, mas errou com elle
    Toda a escla Eletica, e tu mesmo,
     Seneca immortal, com elle erraste:
    E Campanla, e Bruno, e a ns mais perto
    Contradictorio Mirabaud, deliras.
    Mas quem, profundo Hebreo, te nega engenho?
    Em fora d'alma hes unico entre todos
    Dos que alm penetrar julgo que he dado
    Do que foi dado a pensamento humano.
    Eu te posso impugnar, e outros te insulto.
    Talvez eu sorte igual no Tjo alcano
    No penetrando da Sciencia o Templo,
    Porm no ingnuo dom d'ingenuos versos,
    Que a si por premio tem, por mta a Patria:
    Bja te deo teus pais, teu bero o Douro:
    Alguma cousa tens commum comigo.
      Alli d'Obergio, Mallebranche, e Locke
    Os aureos bustos luminosos via,
    Que em transcendente fluido brilhante
    Para hum Mundo ideal seus passos guio,
    E, as sombras methafisicas rompendo,
    Sem fallar ao sentido as almas fallo,
    Abrindo o geometrico compasso
    Quantos talentos assombrosos vejo!
    Entre o Germano agudo, e ameno Franco
    Do Italico saber vejo os milagres.
    O que Diofante, o que Apolonio excede,
    Do gro Toscano a par, brilha Viviani.
    Sexo, sexo gentil, na Italia hes grande;
    Nos Labyrinthos do profundo Euclides
    A formosa Ardighelli, e Agnezzi entraro
    Outra Laura maior, q' essa, que outr'ora
    Do vate, todo amor, deo fora  Lyra,
    Nos penetraes da Natureza entrando,
    A Spalanzani explica altos mysterios.
    Com ella Boscovich subiste aos astros.
    No te vence hum Maraldi, e nem Cassini:
    Talvez, talvez, que a formosura as graas
    Me parea que do luz s sciencias.
      Algaroti, teu vulto alli contemplo,
    To grato foste ao Salomo do Norte;
    Porm mais grato a mim, e s artes foste;
    Entre o fulgor da purpura mais brilha
    Do grande Passionei a excelsa imagem;
    Issocrates te cede, inda que venha
    Do gro pezo dos seculos seguido;
    No tem que oppr-te, ou q' igualar-te o Sena,
    E menos tem q' equiparar-te o Mundo
    Encanto omniscio, universal Roberti:
    No me cega a paixo, q' ao Tibre eu guardo,
    Nem o claro de Italica sciencia
    Tanto me cega, e me deslumbra tanto,
    Que no veja raiar no Templo augusto
    D'Anglia, e Germania os protentosos sabios.
    Alli d'Hobbes descubro a imagem triste;
    Alli vejo Stanley das Artes Livio;
    E o que nasceo para illustrar o Mundo
    Desde o frio Danubio, o gro Bruckro;
    E Kant, a si claro, e enigma a todos.
    Alli brilhava Degerando illustre,
    Que em mui douto suor banha os escritos,
    Que eterno fazem nos umbraes da Gloria
    De ti, Filosofia, vido amante.
    Meigos olhos lanou tambem no Tjo
    (Quando ha de,  Tjo, conhecer-te o Mundo?)
    E, entre inda sombras Arabes descobre
    O profundo Vernei, o ameno, o rico:
    E, que dissera se encontrra hum Nunes;
    Astros, astros do Ceo, prendeo-vos elle
    E, o subtil instrumento ao nauta entrega,
    Ao nauta Portuguez, senhor dos mares:
    Sem elle Cook o globo ah! no cortra!
    Mas l foi Magalhes sem elle, e cerca,
    Porque a si se levava, o mar, e o Mundo!
    Tu nos meus versos mofars do Lethes,
    E a gloria que te nega a Patria ingrata
    Em suaves canes te outorga hum vate.
    Ah! permittira o Ceo, q' o preo humano
     morte no pagra alma to grande!
      Eu no deprimo o merito, o talento;
    Naquelle alcar resplendente estava
    (Deposto hum pouco o Tragico cothurno,)
    O florido Voltaire, Sceptico illustre,
    Emilia tinha ao lado, Emilia o tymbre
    Talvez maior do feminil engenho;
    Com ella corre a passear nos astros.
    Eu l vejo Nollet, Brisson descubro.
    Salpicado Bailly de fresco sangue,
    Indagador Sonnini a quem Fortuna
    Se honras na vida deo, na morte as nga;
    Vive em sciencias, na pobreza expira.
    Alm dos mares a Frankln descubro,
    Que o raio foi prender nas mos de Jove.
    De Prussos vejo o busto; o nome ignoro,
    Ou barbaro talvez no cabe em versos;
    Aurea lingoa do Tjo em vo procura,
    Em seus cadentes numeros suaves,
    E na Lira ajustar, que a Grega imita,
    Os acres sons dos Hyperboreos nomes:
    Mas no faz dura a metrica harmonia
    O teu nome  Linneo, tu sacerdote
    Do Sanctuario d'alma Natureza;
    Alli vejo teu busto, alli cercada
    A frente tens de peregrinas plantas,
    E tu, qual novo Ado, ds nome a todas.
    Hum ramalhete de purpureas flores
    A Europa, a Lybia, a America t'off'rece;
    A Asia de tantas maravilhas cha
    Das margens do Mecn, do Ganges, do Indo
    Grinaldas te prepara, e l tas manda,
    To bellas quaes as pinta o China astuto:
    Ceilo entre seus balsamos as tece.
    E o suave vapor, q' a Aurora exhala,
    L no bero onde nasce, e espalha rozas,
    Em dourados tribulos te invia.
    No tivero os Reis, tributos destes!
    Ao poder se negou, d-se  sciencia.
      Maior gloria me chama, hum novo busto
    Que entre todos maior, mais luz derrama.
    Este he Buffon, que no mortal parece.
    He seu louvor, universal silencio:
    Nem lingoa humana diz, nem mente abrange
    Tudo o que foi Buffon; contemplo, e calo.
    Se he mais q' a Poezia, he mais que humano
    Rafael co'os pinceis, Buffon co'a lingoa....
    S Natureza he mais, porq' elles morrem,
    Morre, no ella, taes rivaes supplanta.
    S Newton he maior; que entrego a palma.
    No ao que pinta, ao que conhece as causas;
    Se este he s venturoso, este he s grande.
      Com tanta luz atonito, e suspenso
    Volvo os olhos de hum lado, e bem no meio
    Do magestoso Templo o altar estava.
    Por argenteos degros se avana e sobe,
    Mas com trabalho,  baze alabastrina.
    Alli sentada--Experiencia--estava.
    Eu prompto a conheci no rosto antigo
    Na longa veste, e diamantina tarja,
    Em q' esta li gravada, aurea sentena:
      "Das cousas mestra eu sou, dos homens mestra"
    N'hum quadrado Geometrico se assenta
    O sacrosanto altar, e em cima posto
    Vi como hum vaso de alabastro puro,
    Que no de Fdias o cinzel abrira;
    Teve artfices dois, Estudo, e Tempo.
    Do seio lhe rompia etherea chamma,
    Q' ante o Nume brilhando aos Ceos subia
    Inextinguivel lampada, que os annos
    Vo augmentando progressivamente.
    Formo  Deosa os seculos hum throno
    Mais que os rubins precioso, e mais segura
    Materia tem, que o slido diamante.
    Tem cheio o rosto de Viveza, e graa,
    Que amor no humano corao desperta,
    Que encada a vontade, a alma levanta.
    D'estatura commum se me antolhava;
    Mas logo a vi subida at co'a frente
    Ir topetar na abbada do Templo.
    De fios subtilissimos tecidas,
    Mas de materia indissoluvel, ero
    As vestes q' ella traja, e que formadas
    Foro por ella mesma, obra pasmosa,
    Que do candido p, ao collo eburneo
    Forma diversos gros: hum vo sombrio
    (Por mo proterva lacerado em parte)
    De negra antiguidade a envolve toda
    Nas mos tem livros de diversas lingoas,
    Onde eleva tambem dourado sceptro.
      Pasmado,  quasi omnipotente Deosa
    Todo me inclino, a magestade acato.
    Titubeante, e tremulo dest'arte,
    Soltando a voz hum pouco,  Deosa fallo:
      " tu do estudo emprego,  Madre excelsa
    Da intelligencia dos arcanos todos
    De que he fecundo o Ceo, fecunda a Terra;
    Tu da verdade indagadora, e facho
    Luminoso da vida.  tu do vicio,
    Tu da ignorancia rispido flagello,
    Tu, q' hes tudo ao mortal, q' hes luz, q' hes vida,
    Ante os teus olhos me conduz Fadiga:
    Misero Vate eu sou, no peito aclho
    Desejo de saber: sempre afanoso
    Apoz a imagem da verdade eu corro;
    Mas a alma envolta em sombra, em sombra os olhos,
    Enigmas vejo s, eu palpo enigmas:
    Sentir, gozar, no perceber, he esta
    Da existencia mortal partilha, e obra....
    Mas qual te vejo,  Deosa, e q' orgulhosos
    Amadores te cerco! Que ignorantes
    Do acatamento q' a teu lume immenso,
    Deveo sempre guardar o engenho humano!
    Deve, qual pobre, pequenino rio,
    A quem agua no deo caudal torrente,
    Correr tranquillo, e murmurar nas pedras,
    Ao Pastor innocente,  Ninfa ingenua
    Objectos de prazer offerecendo.
    Mas o desejo audaz, e o louco orgulho
    O torna rio impetuoso, e bravo
    Soberbo, ufano vai d'agua no sua.
    Eis se despenha, qual torrente Alpina,
    E os campos cobre furioso, e turvo;
    Leva comsigo os troncos, leva os gados,
    Leva o Pastor, e a misera choupana,
    T que cesse do ar fecunda chuva:
    E, serenado o ceo primeiro orgulho
    Ento depe deixando a marge enchuta."
      Mais quizera dizer eis q' o gro Nume,
    Fitos em cuja frente eu tinha os olhos,
    Soltou dos labios divinal surriso,
    E, doce voz alevantando, exclama:
      "Podem, meu filho, eternizar no Mundo
    O mesquinho mortal meus dons sublimes,
    E as idas altissimas, e claras,
    Q' eu co' mo destra na sua alma imprimo;
    Comigo, e o sentes tu, do pezo humano
    Se livra, se desfaz o entendimento;
    Ao alto sbe, e se remonta, e chega
    Comigo aos claros Ceos, comigo entende
    Mysterios profundissimos, e entra
    Da Natureza nos occultos seios.
    Essa Eterna Razo por mim conhece,
    Que se difunde n'Universo inteiro,
    A, que mora no germe, occulta fora,
    A que a tudo d forma, e d figura.
    Por mim, por mim conhece a origem d'alma,
    Qual tenha em corpo humano assento, e throno;
    A que fim s'encaminhe, e quaes s'encontrem
    Ou desgraas, ou bens, na vida, e morte.
    Eu torno bello o Mundo, os homens sabios
    Se ingenuos querem vir seguir meus passos,
    E contemplo por mim o alto principio
    Das cousas em si mesmo, os gros, e os tempos,
    Que a tudo tem prescripto a mo do Eterno.
    Eu os levanto a conhecer hum Nume,
    Obedecer-lhe, e venerallo sempre:
    Delle, s delle a pressentirem tudo
    A lei, e ordenao; eu s lhe ensino
    A dar justo valor, dar justo apreo,
    Ao que se mostra ou verdadeiro, ou falso.
    Se o prazer, a que he misto o pranto, a magoa,
    E o pungente pezar, que he tardo sempre,
    Os homens sabem condemnar, eu mesma
    Seu peito aclaro, o corao lhe inflammo;
    He meu proprio este dom. Por mim descobrem
    Que he s feliz na Terra, he s potente
    Quem se domina a si: Guia incorrupta
    So minhas luzes ao mortal na vida.
    Eu primeiro lhe aceno, eu lhe preparo,
    (Depois Religio, que he s, que he tudo)
    Sde no Ceo, qu'eternamente he bella.
    Do Christianismo h[~u] mestre, h[~u] sabio, h[~u] grande,
    De Alexandria nas escolas doutas,
    D'alta verdade, que dos Ceos foi dada,
    Pedagoga me chama, eu sou por certo
    Quem da luz da Razo, da Natureza
    Leva os mortaes a accreditar mysterios
    Qu' razo no se oppe, mas so mais altos.
      Mas eu deso comtigo ao Templo augusto;
    Q' inda que erguido o vz, no he distante
    Da terrea habitao do engano, e minha.
    Olha, admira, contempla a excelsa mle
    Premio d'hum Grande que he brazo do Mundo:
    Este he d'honra immortal o alto ornamento,
    Que eu mesma  Gloria consagrei, com elle
    De hum Pontifice meu premeio as obras,
    Elle as minhas expoz, dou premio s suas."
      A Deosa emudeceo,  dextra eu volvo
    (Nunca confuso assim) trementes olhos;
    E no meio da luz brilhante, e pura
    Soberbo alar-se Mausolo descubro.
    De Newton vi gravado o nome excelso
    N'hum prfido immortal, que nem d'Augusto;
    Ou no Tybre cobrio geladas cinzas,
    Ou do Grande Pompeo fechou no Nilo
    Restos chorados do implacavel Julio.
    Depois que vezes mil no estranho, e grande,
    Monumento fitei pasmados olhos,
    Por longo tempo contemplando absorto
    Aquella d'alto engenho obra estupenda,
    Ao Britanno immortal sagrei com votos
    Inteiro o corao, minha alma inteira;
    D'estima este o tributo, o feudo he este,
    Que eu primeiro paguei, Nao pasmosa
    De quem o mar he todo, a Terra he quasi.
    Mas eu sou Portuguez, e armas no podem
    Alhas deslumbrar-me; eu vejo as Lusas,
    Cuja gloria tu vz no vasto Oriente,
    E, onde levantas triplice bandeira,
    Primeiro o nome Portuguez encontras.
    Eu no te invejo a gloria, nem thesouros;
    Se de Safyras atulhados cofres,
    Fios de brancas Prolas, se finos
    Luminosos Rubins d'Asia recebes;
    J d'Asia hum Portuguez trouxe mais qu'isso:
    Do Indo, Hydaspe, e Gange as aguas trouxe
    Dentro em barro Chinez; e era Atayde.
    Ser maior teu Rodney, ou teu Nelson?
    Nem teu Monk he maior, se o Sceptro engeita,
    Em Regia frente o Diadema pondo.
    Hes grande para mim porque em teu seio
    Bolingbrocke apparece, Adisson, Pope;
    Apparece Bacon, Milton tacta
    Arpa tocada s d'Hebreo Monarcha;
    Em ti tivero bero, e Locke, e Tompson,
    E o que os povos do Mundo inda baralha,
    E a Gallia fez tremer, Pitt, he teu filho.
    Hes grande para mim, porque hum Senado
    De Reis, mais que o de Roma em ti conservas,
    Onde tantos Demosthenes, e tantos
    Tullios sabem surgir, salvar a Patria.
    He esta a fonte do respeito, e estima;
    Que eu Vate, que eu Filosofo consagro
    A ti grande Nao, da Europa asylo.

_Fim do II. Canto._




NEWTON,
POEMA.


CANTO III.

    Tinha ficado em extase profundo
    Do protentoso Mausolo co'a vista:
    Mas da pasmosa suspenso me chama
    A Fadiga outra vez; eis abro os olhos,
    Junto ao sepulcro vejo em ldo aspecto
    Matronas duas de belleza estranha:
    Humanos hombros veste argenteas azas,
    Na dextra mo sustenta argentea tuba;
    Vi que era a Fama, que immortaes escritos
    De Newton celebrou; era outra a Gloria,
    Que os sustenta nas mos, defende, e guarda.
    Da Fama, e Gloria he obra, he maravilha
    O immortal Cenotafio: aos ps sentada
    A Verdade admirei simplice, e na:
    Ella serve de baze ao grande, illustre
    Monumento immortal onde a pressga
    Mente me diz, que sabero no Mundo,
    Que eu no Mundo existi, tardios netos.
    Do seio extractos da materia prima
    Dois pedestaes esto, que no encendrado
    Ouro conservo symbolos diversos,
    E as bazes so de lcidas columnas.
    No meio huma Pyramide que mostra
    No mui subtil triangular remte
    Do fogo, e clara luz o throno; e assento,
    Qual entre os Gregos o mais douto o mostra,
    Crendo que deste fogo era alma cha,
    Que qual lao entre si sustenta, e prende
    Intelligivel Mundo ao Mundo inerte,
    Incorporea substancia  sensitiva:
    (Methafysico abysmo, ou sombra he isto,
    Que eu dbil, que eu mortal romper no posso).
    Daquelle fogo interminavel fonte
    Vi d'tomos sahir, que o Sol brilhante
    Desde o seu seio luminoso espalha,
    Donde o Immenso esplendor dalvez se forma.
    Alm do alcance do saber humano
    He sua rapidez, correm velozes
    Dos Ceos o immenso espao, em toda a parte
    Se difundem no ar; destas pequenas
    Particulas tem luz, tem lume os corpos;
    Sempre impellido vai, vibrado sempre
    (Continua undulao) primeiro raio
    D'outro, que delle apz o Sol despede.
    Diante da Pyramide sublime
    Entre as columnas se elevava ingente,
    Firme, segura baze; ordem Toscana
    Com magestade seus adornos frma;
    Nella esculpido teu gro nome eu leio,
    Immortal Galileo, tu preo, e gloria
    Da Etrusca Sapiencia, e timbre illustre
    D'alma Cidade qu'em seu gremio ouvira
    Os magos sons da Cythara suave,
    Que a Laura celebrou, qu'ouvira outr'ora
    Da boca de Ficino auri-eloquente
    Do excelso Platonismo expor mysterios;
    Que dera o bero ao que descobre hum Mundo,
    Que o nome seu tomou; qu'inda hoje o guarda.
    Immortal Galileo, devem-te os sabios,
    Da Terra aos astros o caminho aberto;
    Qual deve a Magalhes o nauta a estrada,
    Que cerca todo o globo em mar profundo:
    He teu brazo smente, he gloria tua
    Desta mesquinha, inerte escura Terra
    Avizinhar as lucidas estrellas;
    E, se o Toscano ceo d'astros he rico,
    Que ao throno Medico docel formro,
    A ti se deve, a ti!... Memoria triste!
    O throno Medico, he sombra, he cinzas,
    Depois que o Tygre, ou Vandalo do Sena
    Despreza a Sapiencia, avilta os thronos!
    O teu engenho inaccessivel abre
    Nova estrada ao saber: Britanno illustre,
    Com ella architectou obra estupenda,
    Que, consagrada  lucida verdade,
    Da proterva ignorancia o orgulho opprime.
    Immortal Galileo, ao dia, s luzes
    Que ao Mundo trouxe teu saber profundo,
    Se oppz a cega audaz insipiencia
    E inda agora se oppe; que hum vo sombrio
    Tentou no Sena despregar-te em cima.
    Ah! no se lembro que se a Italia culta
    No dera o bero a Galileo, no foro
    To ufanas de si Gallia, e Britannia,
    Hum Newton dando  luz, e  luz Des-Cartes!
      Dos lados sobre a baze alta, e segura
    Eu vi dois globos da pezada, e dura
    Magnete, que he mysterio ao sabio, a todos:
    Virtude de attraco nella reside,
    Se a mente a no conhece, a vista a sente:
    Pegando, unindo a si (profundo arcano!)
    Esse metal cruel, sagrado a Marte,
    Que hoje a misera Europa em sangue inunda,
    E he dos mortaes na mo rival do raio.
    Esta ao sabio, esta ao vulgo ignta fora,
    Como em triunfo se descobre, e mostra.
    De teu contnuo meditar foi obra,
     Genio do Tamiza, este prodigio;
    Mostra a tendencia qu'entre si conservo
    Alternativamente os corpos todos,
    Que a hum centro que he commum gravto sempre.
      Ignto nome aos seculos antigos,
    Foi attraco reciproca, e foi sempre,
    Centrfuga, e centrpeta ignorada,
    Com que estranhos fenomenos s'explico.
    Em seu lugar as grrulas escolas
    Sonhro Nume occulto, occulta fora,
    D'odio, e d'amor combate, ou guerra eterna,
    Horror do vcuo, e qualidade ignta.
      N'hum dos globos est gravada em ouro
    Por mos de Ptolomeo etherea esfera,
     qual d'ambito immenso a Terra he centro:
    Acima della brilha argentea Lua,
    Que o nocturno claro do Sol recebe.
    O mensageiro dos celestes Numes
    Muito acima fulgura; e essa, que teve,
    Alma belleza, no Oceano o bero,
    No que he terceiro Ceo, resplende, e brilha;
    Precede o dia; quando nasce, e surge
    Quando o disco do Sol se encobre, ou morre!
    D'aurea luz coroado, e ardentes raios
    O Sol succede: e se descobre Marte
    Sanguineo, e triste n'outro Ceo rodando.
    De Jupiter o globo immenso, e claro,
    Em mui remoto circulo se agita.
    Inda alm delle, vagaroso, e frio,
    Vai do antigo Saturno o debil raio.
    Immoveis pontos, lucidas estrellas
    Brilho no immobil crystallino assento.
      Obra do gro Coprnico descubro
    N'outro globo esculpida, immensa esfera,
    Della, o Sol luminoso he centro, he fco,
    Que mui proximo a si Mercurio observa;
    Vai n'hum carro apoz elle a Cypria Deosa
    Roseos freios batendo s alvas Pombas,
    (Dos astros todos o mais bello, he este);
    E n'outro ceo mais alto a escura Terra,
    Tornada astro rotante, o gyro absolve;
    Da Lua seu satllite seguida,
    Da qual ao vario movimento he centro.
    Das feras armas lugubres o Nume
    (A quem tanto tributo, incenso tanto,
    Em lagrimas, em luto a Europa off'rece!)
    Segue-se apoz da terra; e apoz de Marte
    O vivo, o claro, o desmedido Jove,
    De brilhantes satellites cercado
    Que tu, gro Galileo, primeiro achaste!
    E do tardo Saturno a immensa, e vasta
    Mole apparece, de Clientes muitos,
    E variante annel cercado avana.
      Hum longo estudo architetou to bella,
    To engenhosa machina prestante,
    Entre os gelos Sarmaticos levada
     maior perfeio, pois j n'antiga
    Idade a vio sahir absorto o Mundo
    Das mos do escravo do eloquente Tullio,[2]
    A quem, deposta a consular soberba,
    Se dignou de escrever, chamar-lhe amigo.
      Sobre os dois globos se sustenta, e firma
    A illustre, sepulcral Urna estupenda;
    Architetada, e repellida brilha
    De Prisma em frma, e de materia ignta;
    Se o brilho he do diamante, inda mais brilha,
    Se he solido o rubim, mais dura existe.
    Nas folhagens de Acanto, ou de Cypreste
    Alli pz Escultura: em vez de adorno,
    Em vez dos negros symbolos da morte,
    S gravou Mathematico Instrumento,
    Com que medir dos Ceos a immensa estrada
    Usa ida Astronomica segura.
    Do negro Paragon moldura observo,
    Que em si contm de Izc a illustre imagem;
    He relevada em solida Esmeralda,
    Parece q' inda volve, e q' inda espalha
    Filosofica vista em torno aos astros,
    Que respirando est Filosofia.
    E tanto ao vivo est, tal arte o frma,
    Que, se meus olhos acredito, ainda
    Cuido que solta a voz, que os labios move.
      Este relevo portentoso, e raro
    He sustido nas mos d'hum Genio illustre,
    A quem deo bero d'Adria a gro Rainha,
    (Hoje escrava tambem d'escravos feros)
    Genio que objectos da terrena estima
    Aos ps soube pizar, e alm subindo
    Onde o fragil mortal mui raro chega,
    Teve ao lado Virtude, e teve o gosto,
    Que o bello sabe achar nas artes bellas,
    Rival sublime, ou vencedor de Horacio,
    Na mente sempre  Poezia dada
    Seguro alvergue achou Filosofia;
    Pelas varedas da sciencia segue
    De Newton o farol brilhante e puro.
    Caro ao Monarcha, que juntou n'hum lao
    De Minerva, e Bellona o genio, e as artes,
    Minerva n'alma tem, nas mos tem Marte,
    E a pacifica Oliva ao louro ajunta:
    Monarca invicto, que estendeo vivendo
    A mo benigna s Musas desvalidas,
    E ao lado como amigo os vates senta,
    E no Reino, onde agora a Guerra existe,
    De Augusto, fez raiar dourados dias:
    Foi-lhe caro Algarotti; oh fausto nome,
    To doce e grato ao lisongeiro sexo,
    Que une mil vezes formosura, e letras!
    Da nivea mo travando-lhe o dirige
    Pelas agras do calculo varedas,
    E lhe ensina a no vr com medo, e pena
    Os labyrinthos das traadas linhas
    Nos cubos, nos triangulos de Newton;
    Este nas mos sustem o Oval relevo,
    Que ao vivo representa, ao vivo exprime
    Do grande explorador da Natureza
    O magestoso, e respirante vulto.
    D'Optica o Genio na moldura estende,
    Moldura sup'rior, brilhantes azas:
    Com septemplice luz se expandem bellas,
    Que as cres todas primitivas guarda:
    O corpo todo he n, cercado apenas
    D'hum sendal claro azul que estrellas bordo;
    Na dextra mo sustenta, huma grinalda,
    E acena de cingir com ella a frente,
    De pedraria Oriental composta;
    Na esquerda mo conserva os luminosos
    Crystaes, em lentes que affeioa e pule
    Co'as doutas mos Filosofo tranquillo
    O Portuguez Hebreo na Hollanda escura,[3]
    Que, a vil lisonja despresando altivo,
    Banha o po com suor, trabalha, e vive.
      D' aurea madeixa o Genio hum raio expande,
    Que, composto de mil, fulgura ao longe.
    Resulta delle a cr candida aos olhos:
    Da Urna sepulcral no seio o raio
    Se refrange instantaneo, em parte opposta
    Quadrilongo se v, posto que fosse
    Esferico ao partir da origem sua.
    Diversos gros, e proporo distincta
    As cres entre si guardo, conservo;
    O brilhante escarlate occupa o fundo,
    O laranjado o meio, e, qual no Goivo
    O amarello se mostra, alli campa;
    O verde ento se v, que enroupa as plantas;
    Vegetao Rainha assim se veste,
    pa com que se adorna, e o Mundo enfeita:
    Do azul, que forra os Ceos, o Indico he perto,
    E da saudade o symbolo tristonho,
    Matiz da violeta; eis brilha o rxo.
    Escala harmoniosa! Eis della em torno
    D'huma composta cr listes s'estendem,
    Que outros compostos gradativos formo,
    Que adornos so do Mausolo soberbo:
    E, n'hum Rubim profundamente expressas,
    Estas palavras portentosas ero:
    "Com suas Leis a vasta Natureza
    Immersa estava em tenebrosa noite;
    Surge,  Newton, bradava a voz do Eterno;
    Nasceo Newton no Mundo, e nasce o dia."
      Eis tres figuras mais, do gro Sepulcro
    Ornamento, diviso em torno postas;
    Primeiro a de Ancio curvo, e rugoso,
    Fontenelle se diz, meditabundo,
    Aos Ceos aponta, e contemplando os astros,
    Diz que habitados so, que a argentea Lua
    He do pensante, e do mortal morada;
    Qu'existem Mundos mais no ther immenso.
    De vrtices cingido, outro apparece,
    Em cujo seio envolve o Sol brilhante;
    Em seu gyro assignala o mto aos astros.
    Tem sobre o Cenotfio os olhos fitos,
    O simulacro observa, e mudo o adora.
    Entre elles ambos Maupertis descubro,
    E sobre hum globo estende aureo compasso,
    E sem temer as cerraes do plo,
    Gemetra sublime, os gros lhe mede.
      Eternidade sobre tudo existe,
    De insupportavel luz claro diffunde,
    Onde se perde, e se deslumbra a vista,
    S' ousa fitar-se ao seu seio immenso.
    Mal contemplava o monumento augusto,
    De homem to grande consagrado  gloria;
    De to sublimes extasis me arranca
    A Fadiga outra vez: "He tempo,  filho.
    Que o transportado espirito se torne
     habitao mortal, que desa  Terra:
    Vai: quanto viste, aos homens anunca;
    Vai declarar inslitos protentos
    Sobre esta mle sepulcral gravados.
    O Mundo vivir: Newton sublime
    Em quanto exista, existir com elle.
    Sobre as ruinas do acabado Mundo
    A gloria existir fastosa, inteira,
    Seu throno erguendo sobre immensa, e clara
    Luz, que s Newton dividio na Terra."
      Disse; eis foge a viso, eis foge o Templo.
    Eu, no diff'rente d'hum mortal que va,
    Deso do cume do fadado monte.
    O mesmo monte s'escondeo: vapores
    Levantados em torno  vista enferma
    Sobre mim denso vo de nuvens formo,
    Roubo-me ao claro Olympo: a planta apenas
    Se me antolhava que na Terra firmo,
    Do novo dia sou chamado ao duro
    Lagrimoso trabalho, herana minha,
    N'huma absoluta escuridade, inglorio,
    Smente a mim deixado, e  Natureza,
    Sem murmurar do Ceo que assim lhe aprouve,
    Tranquillamente o tumulo esperando
    (Pouco dista de mim!) repouso eterno.
    Mas sem que a vil lisonja hum po mendigue;
    Nem aos soberbos porticos dos grandes
    A dependencia guiar meus passos,
    Nem vergonhosa spplica, aos ouvidos
    D' hum homem meu igual levei t agora.
    Falte em que ponha os ps mesquinha terra,
    Injusta colliso d'almas obtusas,
    Menos que vermes na sciencia, em tudo,
    S grandes na ignorancia, e na impostura,
    Me procure azedar cadentes dias;
    Nem duro, e negro po banhado em pranto,
    E obtido com suor me escre a vida;
    Nem tenha onde evitar (paredes nuas)
    Das estaes a dura alternativa;
    Nunca abatido o peito em males tantos,
    Nem triste o rosto me vero no Mundo;
    N'alma assentado o presupposto tenho
    De huma voz Filosofica, que brada:
    "Dos males todos, o menor he morte."
    Se he preciso morrer, sou grande, e livre,
    Sou nobre, independente, e sou ditoso;
    Do estudo, e da sciencia o fructo he este.
    No he caduca vida hum bem q' valha
    De hum vicio s, de huma vileza o preo,
    Mas em quanto no finda este intervallo,
    Breve entre o bero, e tumulo, desejo
     Patria minha, engrandecer teu nome,
    Dar-te, qual hes, a conhecer ao Mundo.
    Isto busco, isto quero, isto medito,
    Neste seculo infausto  paz negado,
    Em que tudo se esquece, excepto o sangue;
    Em que he sciencia o calculo da morte;
    Em que hum Tigre feroz se chama hum grande;
    Em que amor do retiro, amor do estudo
    Como fraqueza, e pedantismo he tido,
    E a sciencia maior lembrar-se o nome
    Da terra em que os mortaes seu sangue entornem.
    Menos barbaro foi por certo o tempo
    Em que do polo aquilonar marchando
    Fero Atalio, ou Genserico veio
    He Theodorico barbaro, mas teve
    Ministro ao lado seu Cassiodoro:
    Deo-se apreo ao saber, respeito s Musas.
    Filosofo he Boecio; aurea eloquencia
    Apolinar, e Smacho sustento,
    E do Grego saber riqueza, e brilho
    Nas escolas Eclticas conserva
     foz do Nilo transplantada Athenas.
    Mas agora!...ah com lagrimas augmento
    Do patrio rio a turbida corrente!...
    Porm eu torno a mim, que a mim me rouba:
    Melancolico vo que alma me enluta.
    Trago do Templo excelso inda gravadas
    Na fantazia frvida as imagens,
    Que eu alli descobrira, inda me lembro
    De quanto ao gro Britanno as Artes devem.
    Cultas naes extaticas o louvo,
    Nunca a lingua mortal cana em louvallo:
    Unico Genio, cujo estudo, e fama,
    Smente ha de acabar quando se solte
    A chamma voracissima do fogo,
    Que a Terra, os astros lucidos consuma,
    Com que do Mundo a machina vacille;
    Como tu prometeste, e tu cantaste,
     dulcissimo Vate, a quem por louros
    Deo do Tybre o Tyranno a Scitia, e morte.
      Newton; foste mortal; mas quasi eu creio,
    (Qual he crena de extatico Poeta)
    Que d'hum astro natal vieste ao Mundo
    Mostrar prodigios aos mortaes igntos.
    Tu, c'o Prisma na mo mostraste a fonte
    Da septiforme cr, que a luz encerra,
    Qual seja a essencia sua, e qual a vida.
    A superficie dos terrenos corpos,
    Em parte absorve os luminosos raios,
    E, reflectidos n'outra parte, os manda
    Aos olhos nossos com diversas cres.
    Opco eis apparece o corpo, quando
    A luz no tpa com directos pros;
    Na obliquidade a escurido consiste,
    Pois menor transparencia a luz encontra:
    Tu decifraste as primitivas cres,
     grande Genio escrutador do Mundo!
    Tu das mixtas nos ds brilhante ida,
    Que effeitos so dos reflectidos raios,
    E qual seja o poder donde dimane
     refraco, e reflexo principio.
    Nem so de teu engenho obras supremas
    As qu'em suave metro expuz t agora.
    No so da luz as vibraes potentes
    Refrangiveis mostrou nos corpos densos,
    Que no incessante, moto encontro sempre;
    Mas a mais progredindo, a mente excelsa,
    No se perdeo no calculo infinito:
    Abysmos onde hum novo ignto brilho
    Aos mortaes pode abrir; sahindo ovante
    Do labyrintho de infinitas curvas,
    Quando a recta propoz, porque he finita;
    Se hum pouco s diverge, ento se frma
    Sempre em curva infinita.  sombra, as Musas
    De ti se espanto, se intimido, fogem:
    S lhe apraz terra donde brotem flores;
    S manejo pinceis, calculo odo;
    Ou he pequeno emprego  fantazia,
    Que se escalda, se expande, e se remonta,
    Juntar com sequido cifras a cifras;
    Outro quadro maior minha alma occupa.
      Bastava,  Newton immortal; bastava
    A dar-te hum nome eterno, a luz, e as cres;
    Mas tu, da clara luz transpondo o Imperio,
    Foste os astros seguir no eterno mto.
    A pestilente Inveja em vo contrasta
    A teu nome immortal memoria, e honra.
    Da Geometria nas valentes azas
    Nunca tentado despregaste hum vo,
    E d'huma esfera n'outra esfera foste
    Viver entre mil soes sem deslumbtar-te;
    L tu foste encontrar, de l revlas
    Lei q' a hum centro commum chama os Planetas;
    E a lei com que do centro os astros fogem.
    O mto desigual da argentea Lua
    A teus profundos calculos sugeitas.
    Tu no mto annual, tu no diurno,
    Vais passo a passo acompanhando a Terra.
    Tu do grande fenomeno espantoso,
    Exposto  nossa vista, e sempre ignto,
    Com que ora sobem na arenosa praia,
    Ora descem na praia as turvas ondas,
    A verosimil causa, ou certa apontas.
    E teu profundo espirito em repouso,
    Assombroso mortal, jmais deixaste.
    Se, os tubos astronomicos depondo,
    Deixas de ir vr os Ceos, correndo os astros,
    No satisfeito de rasgar o obscuro,
    Denso vo que encobria a Natureza,
    Pelos sombrios pennetraes entrando
    Com luminoso facho, e nunca extincto,
    Tu, nascido a dar luz, rasgas as sombras
    Talvez mais densas, que no seio envolvem
    Marcado j periodo dos tempos,
    Vai correndo teu fio, e apenas paras
    No momento em q'  voz do Eterno o Mundo
    Surge do chos, se organiza, e brilha.
    Tu, da impostura oriental mofando,
    E do fallaz mysterioso Egypto,
    S da verdade oraculos respeitas.
    Petavio, Usserio te contemplo mudos
    Quando outras luzes contemplando mostras
    Da Natureza na observada marcha
    To remoto no ser da Terra o bero.
    A baze, as progresses, a gloria, a quda
    De Imperios vastos que ambio formra,
    Interpetre das leis dos Ceos, dos astros,
    Quizeste ser Legislador dos tempos.
    Quem pde a gloria recuzar-te,  Newton,
    De dar ao Mundo a luz que elle no tinha?
    A transcendente Geometria elevas
    Ao ponto alm do qual finda o perfeito.
    Da Natureza sacerdote, acclaras
    Mysterios que ignorra a Grecia, o Lacio.
    Pelas sombras da Historia a luz derramas
    Quando a baze maior, Chronologia,
    Tu deixas em teus calculos segura.
      Se o profundo Varennio a terra, os mares
    Co'a rgoa Filosofica medindo,
    Este, ai! to triste! domicilio humano
    Em quadro multiforme off'rece  mente;
    Tu te dignas polir, dar brilho, e preo
    Talvez ao mr Gegrafo que exista;
    A Newton por interpetre merece!
    Nelle a luz he brazo, que tu lhe emprestas;
    Em ti timbre maior, sendo tu Newton,
    Confessar, conhecer merito estranho.
      Da Natureza expositor, quizeste
    As azas despregar n'hum ceo mais alto,
    As cortinas fatdicas rasgando,
    Com que a mo do Immortal cobre o futuro,
    Foi teu maior estudo esse volume;
    Onde as vises de extatico Profeta
    Em sombra impenetravel se sepulto,
    No vadeaveis, no, que os aureos sellos
    S lhos deve romper momento extremo,
    Quando de espanto agonizante o Mundo,
    Vir das nuvens baixar do Eterno o filho.
      No foste grande aqui; mas so pequenos
    Quantos ouso rasgar comtigo as sombras,
    Em que Deus quiz guardar mysterios tantos.
    No Templo Filosofico dest'arte
    Tu mereceste hum tumulo sublime,
    Que he seu mais nobre altar; no pompa infausta,
    Qual ser dos Reis o mausoleo costuma;
    Neste a gloria se acaba, o nome expira;
    O teu dalli comea, e dalli manda
    Raios de luz a esclarecer o Mundo.
      Se tens a mente de sciencia cheia,
    Tens de virtude, o corao cercado:
    He mais arduo ser bom, que douto, e sabio;
    E huma Virtude s tem mais valia
    Que o teu compasso d'ouro, as linhas tuas,
    E as leis que ds, ou que suppes nos astros.
    Entre o fausto incivil entre a grandeza,
    Podeste ser Filosofo modesto.
    Ah! sem virtude, a sapiencia he nada!
    A Inveja te assaltou, (e a quem perdoa
    Este monstro o maior do escuro Inferno?)
    Mas tu, qual no Oceano altivo escolho
    Das negras ondas, que rebento, zombas.
    E, se hum novo Palacio  Sapiencia
    Levantro mortaes no Tybre, e Sena,
    Os enfeites so seus, e as bazes tuas,
     feliz Albion, bero de tantos,
    Magnanimos Heroes, que o Mundo illustro,
    Da honra e da virtude asylo, e Patria,
    V que ha no Tejo quem conhea o grande
    Alumno teo que legislou nos astros;
    Quem seu saber adore, e seu profundo
    Systema v seguindo em todo, em parte;
    Quem possa ser maior, e igual ao menos.
    Este dos versos meus, tributo acceita
    Que eu consagro a teu nome,  gloria tua:
    Pendura-os em seu tumulo, e se tanto
    Nem desejar, nem merecer eu devo,
    Junto da pedra, que os despojos fecha
    De Tompson teu Pintor, meus dons conserva:
    Se elle traou da Natureza o quadro,
    Dos seculos t alli co'a Lyra intacta,
    Eu do Interpetre seu pinto em meus versos
    O grande Genio, e lhe eternizo a Fama.

_Fim do III. Canto._




NEWTON,
POEMA.


CANTO IV.

    Da luz que o Templo magestoso enchia
    Nunca a meus olhos o claro s'extingue,
    Com elle vejo d' outra sorte a Terra:
    S'era envolta at alli na sombra escura
    Do chos da ignorancia, eis fulge, eis brilha
    De novos astros, nova luz banhada.
    Era trva at alli quanto pousara,
    Em Athenas outr'ora, outr'ora em Roma.
    Era frouxa a impulso de sabios tantos,
    Que, mestres do Universo, aos homens davo
    Lies de sapiencia. Ah! nunca o Templo
    Aos miseros mortaes se abrio de todo!
    Quando a barbarie Gthica domina
    Por tantos, tantos seculos no Mundo,
    Dos continuos fenomenos a causa
    Sempre ignorada foi. De espao a espao
    Surga hum Genio, forcejando apenas
    Por quebrar os grilhes. Baldado intento!
    Hia o volume universal fechado,
    Com sellos de Diamante,  fora humana;
    Qual no tristonho tenebroso Inverno,
    Quando a densa, importuna, e grossa neve,
    Abafa em torno o ar; se o Sol brilhante
    Rasga c'o vivo raio o manto espesso,
    Subito foge; subito o negrume
    Tapa de novo o fulgurante aspecto,
    O Imperio estende da imperfeita noite.
    Tal da Verdade, e Natureza estava
    Envolto sempre o rosto em vo sombrio;
    E, se hum frouxo vislumbre hum pouco a treva
    Tentava dividir, mais carregada
    Vinha cahindo a sombra da ignorancia:
    Ou porque o cego Fanatismo as luzes
    Demorava continuo, ou porque ainda
    O marcado periodo no vinha
    Na vasta, immensa successo dos tempos,
    Que a mo que rege o todo s artes marca,
    Quaes os Imperios so que nascem quando
    Do nada  vida a Providencia os chama.
    Quantos Genios nutrio no seio a Italia
    Antes que Newton fulgurasse ao Mundo?
    Tilesio, Cisalpino, e Bruno, aquelle
    Que entre chammas fataes seu crime expia!
    E Cardano, que entr'Arabes idas
    Tantas centelhas luminosas lana!
    Mas nunca rompe o dia, e o Mundo aclara.
    Tu mesmo  Galileo, teu passo apenas,
    Ao Peristillo do gro Templo levas:
    No te foi dado os porticos de todo
    Aos homens franquear. Germania hum Sabio
    Produz, q' aos Ceos se lance, os astros peze,
    E ouse fallar de perto  Natureza;
    Kepler as leis universaes sentia,
    Que seguem na carreira ethereos corpos.
    E Gallia, ento n'Aurora, ento no bero,
    Ou no escuta, ou no conhece o Sabio,
    Que entre os gelos da Hollanda hum mundo finge
    De turbilhes, de vortices sonhados:
    E de Epicuro nos jardins se assenta
    Renovador dos tomos errantes
    Pensativo Gassendi, e em trva envolto,
    Corpuscular Filosofia ensina,
    Onde engenho s brilha, e nunca hum passo
    A sempre douta experiencia avana.
    Ah! se mais  razo, que  fantazia
    Desse o Germano illustre a quem patente
    O vasto Imperio foi das artes todas,
    Se as primitivas mnadas, se aquella
    Pr-existente enftica harmonia
    Hum pouco s'esquecesse, e a voz ouvisse
    Da contumaz observao das causas,
    Mais cedo, e mais brilhante a luz raira!
    Do immenso livro do Universo os sellos
    Aos olhos dos mortaes s'espedaro!
      Mas Newton existio, e a Terra he outra;
    O que era s mysterio, o que era sombra,
    Foi tudo luz, e sapiencia tudo,
    Bem como he todo luz, e he dia o Mundo
    Quando o disco do Sol do Ganges rompe,
    De arcanos naturaes expoz a cifra
    Rasgou-se o manto a toda a Natureza!
    Eis do infinito o calculo profundo
    Pde abrir, e forar cerradas portas
    Da Sapiencia o recatado Templo
    Visto apenas ao longe entre inaccessas
    Rchas quebradas de escarpados montes
    Se abrio de todo, e se mostrou qual era.
    Oh! que scena espantosa, oh quadro augusto!
    Enthusiasmo que minha alma agita
    Te abrange todo, te contempla, e pinta.
    Em teu claro vastissimo horizonte
    As gradaes da luz, da sombra eu sigo,
    Empreza digna de espantar por certo
    A rica fantazia, o fogo, a fora
    De Tintoreto, ou de Jordo pintando!
    Eu no sei que ardimento interno eu sinto,
    Irresistivel violencia aos versos
    Me leva todo, e da memoria eu tiro
    Thesouros cuja posse eu mesmo ignro:
    Sobre mim me levanto, e alheio aos males,
    Que outra vez to de perto, em copia tanta
    Terrivelmente minha Patria assombro,
    A Lyra Filosofica tacto,
    E onde no chega estrepito da guerra
    Eu vejo a luz que a Terra a Newton deve,
    De antigos vos ptica ignorada
    De Sarpi, e Porta aos immortaes cuidados,
    Ah! por certo deveo primeiros passos!
    Porm co' Prisma, a calculos de Newton
    Pode formar a analyse das cres:
    Do Genio, tymbre d'Anglicos triunfos,
    O volume doutissimo propaga
    A luz que em s vista, e ignota sempre.
    Vos systemas t alli que o throno occupo
    Cahem sem fora, e vigor no abysmo, e nada
    A Experiencia s, corrige, emenda
    Quanto  moderna observao se oppunha;
    E a nova escla Eclectica se eleva
    Sobre a verdade, e calculo smente.
    Eis-Eulr, e Clairault, profundos genios,
    Sobre o problema dos tres corpos lano
    A baze ao gro saber, e altos progressos
    Do magestoso simplice systema,
    Que La Place immortal do Mundo off'rece.
      Quo gloriosas consequencias vejo
    De teus principios,  Britanno illustre!
    A nutao do eixo em que se firma,
    Em que rodando vai pezada Terra:
    Do mar a exaltao, do mar a fuga,
    (Que fluxo, e que refluxo a proza chama):
    D'astros primarios movimento eterno,
    Dos satlites seus que ao centro tendem;
    Dos cometas excentricos, que o moto,
    E sempre incerto, irregular conservo,
    Os constantes periodos se marco.
    A librao da prateada Lua,
    Astro proximo a ns, mas sempre ignto,
    E a causa achada dos bramosos ventos,
    Do ar sonoro oscilaes pasmosas;
    Tudo he patente j. Methodo exacto,
    E de integrar, de aproximar se abraa,
    E tudo,  grande Inglez, tua gloria augmenta!
      A longa durao de quasi um cento
    D'annuas revolues da Terra inerte
    De teus principios  cultura entrega
    Fontenelle dulcissimo, que Mundos
    Vio mais no espao, e aridas sciencias
    De nova graa e formosura enfeita.
      Da Germania, que hum tempo, e na, e simples
    A' Historiador Filosofo se mostra,
    Surge o gro Wolfio, e se offerece ao Mundo;
    Segue o trilho de calculos profundos:
    Mathematica luz lana no campo
    De quanta a Terra vio Filosofia.
    De ti, gro Newton, os vestigios piza,
    E da exacta sciencia entra o Sacrario,
    Em sombras methafysicas s'entranha;
    Quadro bem digno da atteno do sabio,
    Nunca em meus versos ficars inglorio!
    A Inveja perseguio genio to raro;
    Entre agitadas borrascosas ondas
    Em seu peito existio tranquilidade,
    E a cada tiro venenoso dava
    A gro resposta de hum volume douto
    Com que da sapiencia o erario augmenta.
    Do Lyco de Berlin l foge expulso
    Vai com elle a Virtude, e vai Sciencia.
      Da Hollanda nebulosa os sabios surgem.
    Ah! porque foge  magica harmonia
    De meus versos seu nome! As Musas fogem,
    E os alpes vendo, os Pyreneos no passam.
    S do Tibre, ou do Tjo as aguas gosto
    Depois que o Trace barbaro, e que o Scytha
    Do Eurotas, de Hypocrene a margem pizo!
    Mosckembroke, Sgravesande illustro
    Da Fysica os confins. Conspicua em tudo,
    Antes que ao jugo Vandalo dobrasse
    O to nobre at alli livre pescoo,
    Nevosa Helvecia n'huma s familia
    Da sciencia o deposito conserva.
    Fadada para as letras Bazila
    Tantos Bernullis d, quantos os sbios.
      Claro ornamento da sciencia exacta,
    Onde hum tempo foi Grecia, e Roma outr'ora
    Onde em Sena mudado, eu via o Tibre,
    Quanto a Fysica val, quanto se avana!
     Luz de Newton nova luz empresta,
    E no deixou que dezejar  Terra.
    Da grande Academia o Templo eu vejo,
    Alcaar da sciencia ao Mundo aberto
    Do grande Newton a memoria, o nome,
    Alli qual genio tutelar preside
    No vasto erario de immortaes volumes
    Encerra, e fcha a Natureza toda,
    E a Natureza toda aos olhos abre.
      De luz to clara no carece Italia;
    Paiz to caro ao Ceo, to grato aos sabios,
    Ah! nunca os Brennos te pisassem, nunca!
    Devera em Cima de teus Alpes vr-se
    A gro Minerva sobraando a Egyde
    Co'a angui-crinita frente de Medusa
    Onde os Hydros fataes s'enrosco, silvo,
    Petrificar as Vandalas Cohortes,
    Qual j Perseo c'o diamantino escudo
    As iras suspendeo do equoreo monstro,
    E Andromeda livrou. Italia, Italia,
    Belligeranres torrees nos mares
    De contrarias naes, a Hesperia, a Gallia,
    E a soberba Albion, respeito, guardo
    Lenho que leva La Peyrouse, e marcha
    Co'as raras produes do opposto Mundo
    A enriquecer a Europa armi-potente:
    No he de huma nao, da Terra he todo
    O sabio que a riqueza augmenta s artes.
    Tal acatda ser, tal tu devias,
     domicilio do saber immenso,
    E no hirem turvar profanas armas
    Teus sabios immortaes, teus monumentos;
    Tudo em ti tinha o Mundo, e as Musas todas
    Tinho firmado em ti seu Templo, e throno.
    De hum vate acceita o pranto, acceita os votos,
    Sabe que o Tjo te conhece toda
    Entre as cultas naes, tu s me illustras,
    Eu nada tenho que invejar ao Mundo,
    Quando em viva abstraco te roubo ao Globo;
    Sem Filicasa, eu Lyrico me acclamo,
    Ah! sem Tasso, o Cantor do acceso Oriente
    Cedera a nenhum outro Epica tuba;
    E meditando harmoniosamente
    Eu s fra o Pintor da Natureza
    Se Arrighi, e Conti co'os pincis no dro
    A to grande painel mais alma, e vida.
      A accesa fantasia hum pouco, hu' pouco
    Das Musas se lembrou deixando as linhas,
    Os cubos, e os triangulos de Newton,
    E a regua de marfim, compasso d'ouro
    Com que elle mede a Natureza toda.
    Com quanta gloria te serviste delle,
    Tu, que a tudo primeiro o exemplo deste!
    No cede, no, Bolonha ao gro Tamisa
    Menos Florena, que, em jardins envolta,
    Da Fysica sciencia o Imperio estende;
    De Newton ao claro marcha Zanotti:
    Curvo, e velho Ricatti, abstracto, e mudo
    A seu sacrario te conduz, Urania;
    De Newton nas fluxes tu luz derramas.
    Se teve crime a Sociedade extincta
    Aos olhos da razo, tu lho disculpas,
    E tu pedes por ella o pranto ao Mundo.
    Manfredi, e Grandi, e Nicolai, de assombro
    Enche do Neva, e do Danubio os sabios;
    No mais, no mais a progredir se atreve
    O grande Imperio da sciencia exacta.
    Onde o claro Sebto as aguas volve,
    E ao perto ouve bramir, troar escuta
    Do medonho Vesuvio o seio horrendo,
    Chega de Newton a sciencia, e chega
    O desejo de abrir com aureas chaves
    Da recatada Natureza o Templo,
    Orlandi, e Galiani aos astros sobem,
    O gro Maraldi lhes franqueia a estrada;
    Com Cassini outra vez s'exalta o Mundo.
    Se muito a Galileo deveste,  Newton,
    Mais a Italia te deve, as Artes devem,
    Na Hesperia  perfeio levadas sempre.
      Mecanica, aos mortaes proficuo estudo,
    Depois de Newton teu sacrario aberto
    Eu vejo pela Europa, e mais se apura
    Do maquinista Siculo o talento,
    Que atalha os vos das Romanas Aguias;
    A fora cede a fora s artes sabias!
    Quasi vejo surgir Numes na Terra,
    A Cujo aceno os corpos obedecem;
    No he a Lyra de Anfio que os montes
    Manda a Thebas chegar, so leis profundas,
    Que s sombras arrancou da Natureza
    O estudo da Mecanica pasmoso
    Nos se suspendem, diques s'apresento
     furia sempre indmita dos mares.
    Sobe hum rio em Marly, corre hum penhasco
     ribeira do Neva, e a baze frma
    Da colossal, prodigiosa mle,
    Que representa o creador de Imperio,
    Que hoje a razo defende, o crime insulta.
      Sem a Italia meu canto erguer no posso;
    Se Imperio Mathematico contemplo,
    Musckembrocke, e Belidoro a guerra
    (Guerra dos sabios so, que o sangue ignoro)
    Accendem entre, si, disputo doutos
    Do movimento de impelidos corpos,
    Que a fora perdem gradativamente,
    At que a resistencia o mto acabe.
    Do Sena, e do Tamiza os sabios todos
    De Newton, de Amontons nas leis insistem;
    Eis surge, eis brilha o Bolonhez Palcani,
    E onde co'as doutas maquinas no chega,
    Mysterios da razo co'a fora abrange;
    Traa hum ramo hyperbolico engenhoso,
    Assinttico o diz, com elle explica,
    Com elle aclara o disputado arcano.
    Se as leis dos corpos slidos se mostro
    Em soberana luz, quanto escondida
    Guardava a Natureza a lei constante,
    Que pz desde o comeo ao rio undoso,
    Que elle na marcha accelerada observa!
    Mil equaes algebricas a escondem;
    Vencem-se em fim mysteriosas sombras.
    Depois de quanto afan, de quanto estudo
    Tu, Saladini, a theoria expunhas,
    Que esclho da mecanica tu chamas,
    No superavel quasi a engenho humano!
    Tu deste a Hydrodinamica pasmosa;
    Teu hemisferio hydraulico os louvores
    Do taciturno pensador La-Grange
    Te soube merecer. Ricatti o grande
    Te abraa terno com silencio augusto,
    Sobre teu rosto lagrimas derrama;
    Do Sabio velho a candida ternura
    Mais te explica, e te diz, que o louro, o premio
    Que Berlin te mandou, promette o Sena.
      Mas teus cuidados, as vigilias tuas,
     tu de Urania Sacerdote, e filho,
     sciencia do luz, que os ceos abrange,
    Por ti seu Reino estende a Astronomia;
    Desde o culto Caldeo, do douto Egypcio
    T quasi ao bero teu jazia em sombras;
    Nada avanado tinha rabe estudo,
    Guardador do deposito das letras,
    Que  furia se evadio do Turco indouto
    Depois que a sabia Grecia he cinza, ou nada:
    Nem mesmo entre os de Dnia agrestes montes,
    Onde Ticho elevou seu tubo aos astros,
    Solar systema se aclarou de todo.
    Mas apenas os Ceos co'a mente excelsa,
    Sem te assustar o espao indefinito,
    Ousaste passear, como vencida
    Da douta audacia a Madre Natureza,
    Ou fez que o Ceo, se aproximasse  Terra,
    Ou que a Terra de perto os astros visse.
    Leis occultas t alli se patenteo
    E o que Newton expoz, Cassini indaga.
    Seguindo a piza ao fundador, ao mestre
    Da sciencia astronomica, empunhava
    O Telescopio do subtil Campani;
    De Saturno os satellites descobre
    Quasi todos ento; busca as estrellas,
    Que immortal Galileo Primeiro achra,
    Luas de Jove so; fanal aos nautas;
    O espantoso fenomeno nos mostra
    Da luz Zodiacal, co'a parallaxe
    Do sanguineo, medonho, accezo Marte
    A distancia marcou do Sol  Terra,
    Distancia que confunde a mente humana,
    E que a luz n'hum momento abrange, e corre;
    Sabio traou Meridiana linha,
    E por ella nos mostra o variante
    Moto veloz da Terra ao Sol em torno.
    Ento mais claro no volume immenso,
    Dos Ceos, j quasi aberto, os homens lro.
    Foi-lhe sugeita a abobeda brilhante
    A rado mathemtico, qual era
    O mortal domicilio aos homens dado:
    Parallaxe annual d'altas estrellas,
    Que engastadas nos Ceos fixas se amostro;
    Ida falsa se aniquila, e foge,
    E a lei da aberrao mostra a verdade.
      Peregrinando pelos Ceos supremos
    Vo sabios indagar da Terra a frma
    Co'a sciencia astronomica se marca
    Da nossa habitao figura, e termo.
    Quasi se amostra a longitude ignta
    Sobre inconstante mar, onde em cavado
    Pinho, avaro mortal circunda o globo.
      Incessante fadiga a luz derrama
    No arcano presentido, e ignto ainda
    Da obliquidade do angulo, que hum pouco
    Em cem annos na Ecliptica decresce!
    Quasi deixo seu tom da Lyra as cordas
    Quando dest'arte nos umbraes me entranho
    Da linguagem dos calculos, que he sombra,
    Que estrema immensamente, e que divide
    O frio Euclides do fervente Milton.
    Ah! de Ariosto aos extases divinos
    Calculador pousado em vo se ajusta.
      Como indignado das prescriptas metas,
    Achadas at alli no espao immenso
    Herschell sobe mais alto, alm das tardas,
    Luas, que escolto frigido Saturno.
    L corre a suspender na marcha Urano,
    Leva comsigo a Carolina, e ambos
    Revoluo continua, e varia encontro,
    No luminoso annel que o globo cinge,
    Do nem remto, ou ultimo Saturno;
    Quando com elle hum Hercules comparo,
    Q' Olbers descobre, que a carreira immensa,
    No gyro de dois seculos absolve.
    De mais perto se observa a argentea Lua,
    Gelados montes tem, gelados mares,
    E tem Vesuvios que vomito chammas.
    He cidado, e morador he quasi
    Na Terra inda o mortal do ethereo assento.
    Desgraado Bailly, fuma o teu sangue
    No cadafalso vil: tua alma agora,
    J solta das prizes, l v nos astros
    Se o gro discurso teu, falhou no Mundo.
    Se a Terra, dizes tu, se outros Planetas
    Por centro do seu gyro o Sol conhecem,
    Talvez, que o nosso Sol, que os Soes, que fixos
    Parecem ser na abobeda azulada?
    Tenho centro commum n'hum Sol mais puro,
    Mais vasto, e luminoso, e que descrevo
    Em roda delle, essa orbita assombrosa,
    Que mais remotos tem limite, e termo,
    Que a fantasia fervida d'hum Vte!
    La-Lande a imaginou, La-Lande a sente;
    Mas, foge, foge aos calculos, s cifras.
    Vir talvez hum tempo... ah! se na Terra
    No tiver durao Vandalo Imperio!
    Em que outros vidros, outros tubos mostrem,
    Que foi verdade, e luz to grande ida!
    Depositada est no aureo volume,
    Que sobranceiro ao cadafalso, ao sangue,
    No ferio com Bailly furor de Tigres,
    Que ao Sena dero leis, e as do na Europa,
    Que os ferros beija voluntaria escrava:
    Vileza, e corrupo, chegaste a tanto!
      No foi sem fructo, no, ou foi deleite
    A sciencia Astronomica entre os homens!
    Ah! quanta, e quanta luz se deve a Newton!
    S so dignas de apreo as artes uteis.
    Quo proficuo aos mortaes he nauta ousado!
    Se tu, Lysia, tens gloria, ao nauta o deves,
    Que abrio primeiro do Oriente as portas:
    E teu nome immortal soou na Terra,
    Porque teu lenho undvago a cercra,
    Nas Ilhas do Oceano, e mares todos,
    Dos Lusos se conserva o nome, e a fama.
    Muito pde o valor, pouco a sciencia
    No seculo inda rude, alheio s artes!
    Por que inda hum Newton no subira aos astros,
    Newton, sciencia, calculos, systemas
    S Magalhes no necessita; basta
    Que ao lado delle vo, vingana e honra;
    Eis todo o Globo rodeado; he esta
    A faanha maior da especie humana.
    Era extincto o fervor nos Lusos peitos
    Depois que estranhas leis o Tejo ouvira,
    Do mar o senhorio ento transfere
    s mos Britannas o Senhor dos Mundos.
    De Vatennio a fadiga illustra hum Newton,
    Correm Bretes o mar, e o globo cerco,
    No levados do sordido, e terreno
    Insaciavel interesse de ouro;
    Mas s por illustrar, dar mr grandeza
     esfera immensa das sciencias todas.
    Vai Cook, e vai Byron cercando o Globo
    Por inda no tentada, incerta via
    Ento suspendem generosa marcha
    Quando em gelado mar, gelada terra
    Da Natureza no decreto attento,
    Que atraz lhes manda bracear as vlas;
    Que onde a Terra acabou, findar se deve
    O trabalho mortal, o amor da gloria.
       nome Lusitano,  Patria minha,
    Eu culpo o teu silencio, a huma virtude,
    Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia.
    Descreve Newton c'o compasso d'ouro
    O globo que Varennio exposto havia;
    Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville,
    Qual Anson foi guerreiro, e os mares gyro.
    Do Continente austral foge o fantasma,
    Que avarento Hollandez (nem hoje avaro;
    Nem j por crimes se conhece a Hollanda)
    Julgou grande poro do globo, e sua.
    Assombrado do gelo atraz voltro,
    Mas nunca hum passo alm co' lenho vante
    Da Terra foro que tocra hum Luso;
    Magnanimo Queiroz, dste-lhe hum nome
    Para ti foi brazo, e he meta aos outros
    Do nebuloso Sul prescrutadores:
    E a gloria de buscar no Mundo hum Mundo,
    Se ao pensativo Btavo pertence,
    E ao pertinaz navegador Britanno,
    No Tejo as bazes tem, no Tejo a fonte,
    Mais alm de Queiroz nenhum se avana.
    Foi entre tantos Magalhes primeiro,
    Todos de hum centro os raios se derramo,
    Que vem tocar d'hum circulo os extremos,
    Tal do centro de luz, que accende hum Newton
    Se derrama ao gro circulo das artes
    O perpetuo claro com que hoje medro.
      Quanto a vetusta Fysica ignorava,
    Sobre a essencia do ar se mostra aos olhos;
    Piza-se a immensa fluida substancia;
    E j senhor do mar n'hum curvo lenho
    No lhe basta do Globo o Imperio inteiro,
    Se o dominio o mortal no tem dos ares;
    L sbe, la passa, e v seguro
    Debaixo de seus ps cruzando os raios.
    Do antigo Architas se escurea a Pomba;
    Maior prodigio guarda a idade nossa.
    Eu vejo pelo ar volantes carros,
    Quaes vo nas ondas os baixeis arfando;
    E nelles os mortaes tranquillos vejo
    Sem temer o despenho, e no lhes lembra,
    Que afrontada dest'arte a Natureza,
    Tire vingana da famosa injuria.
    Eu vejo o golpe, e a victima primeira
    Em Rosier intrepido, que sobe;
    Elle o primeiro foi, mas prestes passa,
    Do regao da gloria s mos da morte.
      Porm mais uteis os trabalhos vejo
    Dos sabios, que o caminho a Newton seguem;
    Eis a fonte de incognitos arcanos
    Aberta aos olhos dos mortaes absortos;
    Eis o electrico fluido pasmoso
    De fenomenos mil j causa ignta;
    Do raio a patria se conhece, e teme,
    He das nuvens a electrica peleja.
    Se tra, se rebrama o escuro Inferno
    Dentro do bojo de Vesuvio, e exhala
    O fumo que se expande, e o Ceo nos rouba,
    E traz ao dia de repente a noite,
    E aquella chamma, que entre estragos tanto,
    Chora o Mundo o maior, de Plinio a morte;
    Aqui descobre electricismo o Sabio.
    Sabios illustres, que mysterios tantos
    Descortinar, e conhecer podestes;
    Legislador Americano, os vos
    Teo nome guardaro; Nollet, teu nome
    Da sapiencia nos annaes gravado
    Eternamente vivir; se as artes
    Barbaridade, que extermina tudo,
    Quizer poupar da aluvio de ultrages,
    Que s leis,  Natureza, e aos Ceos tem feito.
      Da multi-forme Boreal Aurora
    Mairan, seguindo os calculos de Newton,
    Expoz a causa aos seculos ignota.
    Da atmosfra solar poro tirada
    Por veloz rotao do terreo globo.
    Ao ar ento se communica espesso,
    Que as tristes regies do Polo abafa.
    Tu, de Brgamo o tymbre, sabio illustre,
    Tu, Savili, que na Lyra d'ouro,
    Cantaste os dons de Erto, os dons d'Urania,
    Do Volga, e do Boristhenes s margens
    Foste observar de perto o accezo quadro,
    Do Boreal Fenomeno, tu viste
    Nos gelos que c'os Ceos quasi confino
    A reflexo dos luminosos raios,
    E tantos, taes listes formar nos ares,
    Que pelas vastas regies das sombras,
    Ou da morte talvez, suprem hum dia.
      Das Artes no progresso a gloria vejo
    Da indagadora Chimica, que tanto
    Da Europa pelos angulos se acclama
    (Com tanto ardor, que enthusiasmo he, certo!)
    Interpetre fiel se diz da vasta,
    T agora occulta Natureza toda.
    J de antigos delirios despojada,
    Se ella analyza os simplices, no busca,
    Lisongeando sordida avareza,
    As pedras converter, (que insania!) em ouro!
    T mos Imperiaes viste,  Florena,
    Depondo o sceptro, tactear cadinhos,
    Tanto o prestigio de tal arte pde!
    Mas se delles a Purpura no foge,
    Fogem por certo as Musas d'espantadas:
    Nega-se a Lyra a barbaros, e escuros
    Termos, que juro sanguinosa guerra
    Do metro Luso  mgica harmonia.
    Morre-me a chamma, que me ferve n'alma,
    Se hydrogenio, se azte, ou se oxigenio,
    Ousados vem barbarizar meus versos.
    No te nego porm lugar, nem gloria,
    Lavoisier illustre, que hum momento
    Inda pediste ao barbaro Tyranno,
    Da vida, ai dor! que despiedado crta,
    Em que inda mais  Natureza abrisses,
    Nunca de todo, o sanctuario, aberto!
    Mas hum Tigre quer sangue, e no sciencia;
    Tu no choras a vida, a perda choras,
    De huma verdade, que comtigo em sombra
    Perpetuamente no sepulcro he posta.
      Nem do globo as reconditas entranhas
    Da vista ao sabio indagador se occulto;
    Tal he o Imperio do brilhante facho,
    Que Newton accendeu! Henckel, Bomare
    Ento das minas pela trva espessa
    Perdem de vista o Sol, da vista o dia,
    E  debil luz de palida lanterna
    O profundo vo ver Laboratorio,
    Em que os metaes prepara a Natureza:
    Dos homens os quiz pr, to longe, e longe!
    Vio que do ferro s, no curvo arado,
    Mas liza espada fabricar devio,
    E do bronze os canhes, que o raio imito,
    A tanta assolao chamando gloria.
    Mais o ouro escondeu no abysmo, e sombra,
    Devendo ser do mrito a cora,
    Quasi sempre he do crime o premio, e causa.
      Mas eu duros metaes deixo nas sombras:
    Distem pouco do Inferno, eu busco o quadro,
    Que em sua face a Natureza mostra.
    Estudo immenso, dos mortaes s digno,
    Perenne fonte das sciencias todas,
    Das mesmas Artes mi que estende o Imperio
    Por quanto abraa o ar, a terra, os mares
    Desde o vasto Elefante,  vaga, e bella
    Borboleta gentil, que beija as flores:
    Da gigantesca, ou colossal Bala
    Ao pequenino lucido testaceo,
    Que, igual ao gro de ara,  vista foge:
    Desde o cedro soberbo,  relva humilde,
    Que os gados tzo, que tapiza os prados.
    Estudo liberal, que engenho humano
    Descobre vasto, interminavel campo,
    Que o orgulho scientifico confunde
    Com tanto, vario, e differente objecto,
    Que imperceptiveis relaes conservo;
    Quaes anneis entre si ligados sempre,
    Interminavel a cada formo,
    Que prende, e tem principio em Ser Eterno.
    To vasto estudo, glorioso, e bello,
    Tanto mais se cultiva, e mais florece,
    Quanto  menos pezada, e menos densa
    Nuvem que assombra o social estado
    De Antiquario pedante, ou Vate inerte,
    Vadio adorador d'alta belleza,
    Cuja vida he desprezo, a morte he fome:
    De hebdomadal efmera caterva,
    Que do nada surgio, e ao nada torna
    Depois que o povo no momento d'ocio
    Escarneceo profeticas promessas.
    Estudo augusto, que propaga e cresce
    Onde menos o estlido Forense,
    E impertinente Puritano existe,
    Rico de frases s, de cousas pobre;
    Onde menos a enftica Impostura
    Precursora da morte, a morte apressa;
    E o Quinhentista moedor, mysterios
    Nos parece mostrar, se mudo, e triste
    Pulverulento cdice idoltra,
    Que he rico s de antiguidade, e traa.
    De insectos taes em ti no viste a praga,
    Aviltada Germania, ah! quando ao Mundo
    O grande author das mnadas off'rece
    A Prothogea. Nem Britannia a sente
    Quando Johnston, Derrham, e hum Lister dava.
    Nem com elles, Italia, ento gemeste
    Quando dava a Botanica Zanoni:
    Quando hum Morgagni teu, quando hum Borelli,
    Nos penetraes da Natureza entravo:
    Equando Valisnri a expunha toda;
    J limpa, e livre de pedantes eras,
    Quando a tcha accendia Spalanzani,
    E arranca de seu seio altos arcanos,
    Quaes desde o grande Peripto os evos,
    Nunca atlli descortinar podro.
    Nem Gallia (agora escrava em sangue, e ferros,
    Qual de Piratas viz n'Africa Emporio,
    Que o mar Tirreno co'as Gals infesta;)
    E de rapina, e violencia existe,
    De Novellistas oppremida estava
    Quando o grande Buffon n'hum quadro immenso
    A Natureza  Natureza mostra.
    Se a tempestade das Novellas surge,
    Se os Jornaes a si mesmo, e os homens mato,
    Se a militar, politica mania
    Comea de deixar to ermo o Globo,
    He pastor Daubenton, Sonnini expira
    (Inda feliz que ao cadafalso escapa)
    Do esquecimento, e da penuria em braos.
    Da Natureza no prospra o estudo,
    Nem se conhece hum Newton, se estes vermes
    Da sciencia os alcaares maculo:
    Nunca do Tejo s margens se aproximem,
    Ter throno a sciencia, as Artes preo:
    Lusitania ter Buffons, e Plinios;
    E Vates, que estudando a Natureza,
    Saibo dar justo emprego ao dom das Musas,
    Se tem tal nome, o ingenito talento,
    Que alta facundia a numeros sugeita,
    Que em grande tudo v, que imagens falla,
    E que, a razo ligando  fantazia,
    D fora, d calor, d vida a tudo.
      Mas de tristeza hum vo me envolve, e fecha
    Tudo o que palpo, e que diviso, he sombra!
    Della vejo romper Fantasma horrendo;
    Ao rosto atroz, s Sanguinosas vestes
    Eu conheci, (que dor!) Barbaridade!
    De Omar a ferrea Simitarra empunha,
    Na esquerda, e negra mo fulgura a tcha,
    E se me antolha j q' hum vasto incendio
    Das Artes o deposito consume:
    Que j so pasto da estridente chamma
    Das Musas todas as vigilias doutas!
    Nem teu mesmo volume escapa,  Newton.
    Oh perda!...Oh Albion, manda os teus raios
    Elles podem vedar barbaro incendio.
    Corre, e na Hespanha pulveriza os monstros,
    Que onde quer que do corpo a sombra espalho,
    Turva se o ar, se esteriliza a terra,
    Da vida, e da sciencia amor expira.
    Em quanto alm do Vistula rompendo
    D'honra, e valor o sufocado incendio
    Desfeicha o raio, que talvez da Europa
    De huma vez para sempre a injuria vingue.
    Ento do chos recuando o Imperio,
    Hum dia assomar que traga ao Mundo
    A luz que a Grecia vio, quando na escla
    O Genio de Estagira absorta ouvia;
    Quando acceso Demosthenes da boca
    D'aurea elequencia as ondas entornava,
    E alm das nuvens Pindaro subia;
    A luz j vista fulgurar em Roma
    Quando Augusto a seu lado assenta Horacio,
    Ou Tullio a dubia liberdade escra:
    Qual seculos depois raiou mais clara
    Do Decimo Leo no Imperio eximio,
    Quando o Segundo Julio s Artes abre
    O Templo, que at alli fechara o Godo:
    A luz que a Frana mais ditosa vira
    Do to Grande Luiz brilhar nos dias.
    Ento dos Ceos descendo a Paz serena,
    Da porficua Oliveira ao lado os Louros
    Far brotar, reverdecer, c'roar-se
    Com sua rama a magestosa frente
    Do profundo Filosofo, e do Vate.

_Fim do IV. e ultimo Canto._

    [1] Deve entender-se o termo--frugal--no sentido proprio de sustento
    parco; pois diz Collero, que se sustentava de sopas de leite, e
    passas, e era to modesto nos vestidos, que trajou sempre de preto,
    e de mui grosseiro panno; respondendo ao Gran Pensionario da
    Hollanda, que lho estranhou--Que o edificio humano escusava ricas
    armaes.

    [2] Contra os meus propositos a respeito de notas, me vejo obrigado
    a esta, talvez que em hum passo escuro para muitos eruditos: Cicero
    entre seus escravos tinha dois, ambos Gregos, hum chamado Tyro, que
    era seu leitor, e a quem Cicero escreveo muitas cartas; outro
    chamado Posidonio, inventor da machina a que chamamos--Planetario--;
    ainda que no to perfeita como a vemos. Isto diz o mesmo Cicero, a
    Attico, fallando da machina "_Quem nuper Possidonius noster ut
    venit._"

    [3] Collero na Vida de Espinosa diz, que seus paes ero de Beja, e
    que elle nascra no Porto, donde fora levado para Amsterdo de dois
    annos de idade, hindo tambem com seus pais o clebre Jacob Murteira,
    que depois foi seu Mestre: este foi o que depois se rio do desafio
    de Antonio Vieira.




Notas de transcrio.

No texto original existem alguns caracteres que no tm representao no
sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais.
Os marcadores usados nesta verso electrnica foram os seguintes:

[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma
abreviatura dos caracteres "um".





End of Project Gutenberg's Newton: Poema, by Jos Agostinho de Macedo

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NEWTON: POEMA ***

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