The Project Gutenberg EBook of Amor Crioulo, by Abel Botelho

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Title: Amor Crioulo
       vida argentina

Author: Abel Botelho

Editor: Grave Joo

Release Date: March 26, 2008 [EBook #24919]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR CRIOULO ***




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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Mar. 2008)





DO MESMO AUTOR


I--_O Baro de Lavos_, romance, 4.^a edio, 1 vol. br.
II--_O Livro de Alda_, romance, 1 vol. br.
III--_Amanh_, romance do proletariado, 2.^a edio, 1 vol. br.
IV--_Fatal dilema_, romance, 2.^a edio, 1 vol. br.
V--_Prspero Fortuna_, romance, 2.^a edio, 1 vol. br.



_Sem remdio_..., romance, 1 vol. br.
_Os Lzaros_, romance, 2.^a edio, 1 vol. br.
_Mulheres da Beira_, contos, 1 vol. enc.
_Amor crioulo_, 2.^a edio, novela.




ABEL BOTELHO


Amor crioulo

(VIDA ARGENTINA)

NOVELA


    _Ahi est, si, magnifica, opulenta,
     La codiciada tierra..._

                      GUIDO Y SPANO.


SEGUNDA EDIO

PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE LLO & IRMO, L.^{da}--EDITORES
RUA DAS CARMELITAS, 144
Livraria Aillaud e Bertrand, Lisboa-Paris

1921




A propriedade literria e artstica est garantida em todos os pases
que aderiram  conveno de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de Maro
de 1911. No Brasil pela lei n.^o 2.577 de 17 de Janeiro de 1912.)


PROPRIEDADE ABSOLUTA DOS EDITORES


Porto--Companhia Nacional Tipogrfica




AO DOUTOR

BRITO CAMACHO




AMOR CRIOULO




I


Naquela tarde mormacenta de fevereiro, Joo da Silveira embarcra em
Lisboa, no _Almera_, com rta  America do Sul. Considerava-se um
sem-ptria, agora, na sua ba e amorvel terra, sbre cujo manso e
carinhoso seio no fumegavam seno escombros; terra perdida e maldita,
pelo jacobinismo vermelho do 5 de Outubro abalada nos seus fundamentos e
furtada criminosamente ao seu destino. Todo o ambiente tradicional em
que havia sido criado, ste parasitrio rebento do vlho regmen vira-o
derruir de roda de si com estrondo. Crenas, privilgios, isenes,
benesses e preferncias, tda essa contrafeita armadura de iniqidade e
obscurantismo que sustinha ainda de p a combalida fico monrquica,
tudo rolra desfeito, num epilepsiado arranco, numa comoo formidvel,
enquanto invadia ferozmente o espao em trno um catico fumo de
confuso e de treva... e a viso inquieta do futuro envlta num trvo
mistrio, como um polvoru de runa.

Tudo lhe havia quitado descarovelmente esta estpida ida da Rpublica:
os cincoenta mil reisitos que le, mensalmente, ia ou mandava com tda a
pontualidade receber, a ttulo dum amanuensado hipottico na Junta do
Crdito Pblico; as bas graas da sua apetecida noiva, a Laurita, filha
dum acaudalado burgus e pelo pai abominvelmente educada, a qual agora,
com o Afonso Costa no poleiro, j cantava tambm de papo; e at,--o seu
pensamento hipcrita rematava,--e at as nobres, as suavssimas cres da
bandeira de seus avs, sse azul calmo e sse branco ingnuo, smbolo
irrefragvel da alma nacional, ora via suplantadas por um vermelho de
aougue e um verde de curral, duas tonalidades irreconciliveis, duas
cres speras, irritantes, herticas, como punhais, como blasfmias.

Durante os primeiros meses da Rpublica, Joo da Silveira, como tantos
outros, conspirou. Aquecia-lhe a alma ste vago _sebastianismo_ solapado
no ntimo de todo o bom portugus, acicatava-lhe o desejo a gulosa
lembrana daqueles magros cobres oramentais que, somados ao activo do
seu escasso patrimnio, lhe serviam a governar sofrivelmente a vida.
Assim, na sua ferina hostilidade contra o novo regmen, concorriam
simultneos a alma e o estmago, uma predileco ancestral e um instinto
devorista. E foi certamente esta dualidade antinmica de inspiraes
que, embora visando ambas o mesmo fim, cardou a sua actuao de
conspirador de todo o carcter excessivo. Porque ste cauto Silveira
firmou vrias adeses e compromissos, fez nutrida propaganda verbal
entre os rsticos, prontificou-se a recrutar gente, enviou mesmo algum
dinheiro; mas sem arriscar-se nunca pessoalmente no campo da luta
militante. Aps a frustrada incurso de Chaves, no quis mais. Os seus
40 anos previsores e calculistas haviam grado em grado esmoitado, na
gafa estrutura moral dste malogrado d'Artagnan, o esprito de aventura.
Vendeu a sua reputada vinha do Pinho, arrendou a linda quinta da
Folgosa com o solar de sete capelas, seu fidalgo bero natal e
residncia muito em conta quando em apuros de dinheiro;  noiva escreveu
que a sua dignidade, em briga com o seu amor, o forava quele exlio
doloroso; e a o temos agora dobrado com indolncia sbre a amura do
_Almera_ em marcha, vergado o busto, as mos pendentes ao abandno,
evitando olhar o manso deslise da cidade donde sentia que lhe vinha um
frio vento de repulsa, com as plpebras froixas seguindo, em baixo, o
rasgar da pra pela limosa torrente caudal do rio, e os lbios vorazes
vagamente encrespados na voluptuosa anteviso do Desconhecido.

Primognito dos trs filhos dos Silveiras Lbo, de Mosteir, o pequeno
Joo fra criado com tdas as mimadas preferncias e tda a jactanciosa
despreocupao dos antigos morgados. Todos os perniciosos desvos lhe
havia consentido o dissolvente meio familiar e ste odioso prejuzo
educativo, todos: desde o achincalho, o abandno burlo dos mestres, at
ao abuso feudal das raparigas. Da que, resultando uma organizao
inadaptvel ao trabalho e um carcter voluntarioso e cego, o Silveira
havia consumido o melhor da sua vida ou bambochando em saborosas
sensualidades, ou luzindo em brbaras pimponices, porm um msero
hspede sempre da pura emoo, sempre refractrio s reaces da
alquimia ideal do sentimento. Alto, forte, moreno, com uns negros olhos
dominadores e uma estrutura apolnea, entretanto no seu belo rosto
varonil espatinava-se a tinta de vulgaridade que imprime s fisionomias
de hoje a dureza, a ausncia do sentir. Pronto sempre e lerte ao
galanteio,  volpia,  brutalidade, ao prazer, nunca at quele momento
se sentira capaz duma paixo que o arrancasse a si mesmo, que montasse o
seu egosmo e as suas ambies tacanhas, que lhe pusesse asas na vontade
e lhe espiritualizasse o desejo. Nutria um tdio altaneiro pelos
aspectos triviais da vida,--ste tdio que  o triste apangio das almas
sem vo, dos coraes vazios. Jmais consentira intimidades e votava,
pelo geral, aos homens um desdm corts, s coisas uma indiferena
amvel. Podia ser assim na medida do seu critrio material, o mais feliz
dos homens, de vida rolando e fluindo suavemente como um exerccio de
patinagem, se no tivera a furuncular-lhe, como uma fatalidade
ancestral, a crsta da alma empedernida, o culto ardoroso, desptico,
incessante, brbaro, da mulher. Era ste o flanco vulnervel do seu
_eu_, o nico ponto em brecha naquele carcter dominador e altivo.
Absteno feita da condio, da raa e da moral, o alarmante _odor di
femina_, fsse urbano ou rstico, fidalgo ou plebeu, negro, amarelo ou
branco, amolecia-o. Posta em conflito com o perturbador mistrio
feminino, a sua melindrosa sensibilidade capitulava, cedendo a um vcio
de receptibidade extrema que se traduzia na falta absoluta de energia.

Nem por isso o nosso heri consentira nunca em descer aos atormentados
abismos da paixo, ou se deixra enlear no labirinto vsgo da loucura.
Mal aflorava com o desdenhoso lbio o mel turvo do prazer, saltitando
despreocupado dum amor a outro amor,--epidrmicos todos, breves,
fugazes, como frutos apenas mordidos e logo deitados fra. Era de
ordinrio a vulgaridade do instinto que o dirigia, arrastando-o no raro
a scenas ridculas; mas j tambm, uma que outra vez, a virtude suprema
da emoo, transfigurando-o, o erguera a desgarradas alucinaes de
artista. Nesses altos, raros momentos de libertao le sofrera, numa
atnita inconscincia, o puro domnio da Beleza. E agora mesmo, nesta
sua voluntria demanda da Solido, neste atoado caminhar para o
Infinito, sem o amparo duma doce mulherita ao lado, o Silveira sentia o
corao rido e triste como o ardido leito duma torrente sem gua...
Tremeu um instante, como no terror mortal de ir transpr o vcuo, e
sacudiu-o um confrangido alvoro, uma como que compaixo de si mesmo,
que o fez aprumar-se, esperto, na amurada, erguendo os inquietos olhos
ao espao, por onde lhe parecera ouvir bater um esparrdo incerto de
asas, e depois, com as plpebras hmidas num ensopamento de ternura,
querendo reter o perfil indeciso da cidade que lhe fugia, na magoada luz
do crepsculo, envlta em lvidas musselinas de mistrio.

Para onde ia le? que ignorados destinos o aguardavam l longe, nesse
novo grande mundo, para le um enigma, e onde tudo era colossal,--o
progresso e a barbrie, a misria e a riqueza?... Interrogaes que
naturalmente lhe acudiam e vinham, freqentes, cocegar-lhe a inculta mas
viva inteligncia. Vagamente sentia que o homem que viaja aumenta sempre
e a cada momento enriquece a sua bagagem impressionista interior, a
qual, bago a bago, se vai ento enceleirando, como um precioso tesouro
sentimental, no arco das ntimas recordaes, das lembranas
carinhosas. Cada povo, cada ambiente, cada pas, cada raa deixam a a
sua marca indelvel, e essas pitorescas estratificaes so outras
tantas parcelas novas que veem somar-se  histria da nossa vida,
despertando-nos cordas inditas no sentir ou alargando a latitude moral
da experincia. No eram estas coisas postas bem a claro nem sentidas
ntidamente pela insuficincia mental de Joo da Silveira; ntidamente,
contudo, le sabia,--isto sim!--ser a Amrica do Sul terra de lindas
mulheres; e o relmpago desta promessa acirrante fazia-lhe o passo
leve, encrespava-lhe a medula e acendia-lhe o desejo. Depois, havia
ainda que ver os seus scios de viagem, havia que observar e indagar
quem, quanta e que qualidade de gente vinha ali a bordo com le. Sem que
soubesse explicar-se bem porqu, tomava-o ste antecipado encanto dos
conhecimentos adquiridos em viagem, breves contactos de almas volitando
ligeiras entre os dois infinitos do co e do mar, qualquer coisa de
adorvelmente vago, de efmero e profundo ao mesmo tempo. So como que
brisas do sentimento: se no prendem o corao tonificam a alma.


Os primeiros dois dias de viagem, t  Madeira, foram maus. Tempestade
constante. Aquele primeiro mormao ameaador engrossra e fechra t
disparar na trgica violncia dum temporal desfeito. A chuva, a
cerrao, o mar revlto e o sudoeste rijo, soprando contrrio, atrasavam
o barco e com le jogavam perdidamente, sacudindo o transatlntico em
rijas convulses que reduziam a arrogncia industrial do seu poderoso
arcaboio a propores irrisrias. Nada estava seguro, pairava-se
indeciso na comoo e na treva. De quando em quando, varria de ls a ls
a embarcao uma rfaga mais intensa, e tudo ento a bordo danava,
estalava, tiritava e gemia, no estrangulamento brutal da garra do
Desconhecido. Grupos descalos de marinheiros, trotando rpidos, faziam,
aqui, ali, a sua apario fantstica, cerrando escotilhas, aprontando
escaleres, correndo presto a manobra. E agora, a intervalos, na
opacidade da noite como tinta, acima do ranger do cavername do monstro e
do rugir cavo das guas, por sbre tda essa brava orquestrao da Morte
roncava e erguia-se alarmante o grosso apitar da mquina em desespro.

E era como se no houvesse viv'alma ali dentro. A ningum era permitido
estacionar nos sales, no _bar_ ou nas cobertas; mas de horas antes que
perante a ameaadora fria do vendaval, poucos se sentiam em segurana,
e da que uns pelo enjo, outros pelo terror, outros por mra prudncia,
tudo, na timorata demanda do seu beliche, fra sucessivamente
desertando. Joo da Silveira, tomado dum indefinvel mal-estar, com a
cabea como chumbo, descera tambm ao seu camarote, que era situado num
dos extremos do barco, formando esquina, junto  pra. Tinha uma
ventanilha sbre o mar e outra sbre aquele ngulo avanado da coberta,
descobrindo assim um trecho dessa renovao inqua das gals, essa
enorme grilheta ambulante, onde, sob um miservel tldo,  intemprie,
ao abandno, no mais absoluto desamparo, na mais srdida promiscuidade,
num baralhamento ignbil de idades, de sexos e de raas, rolando ao
spero sabor da tormenta, como lastro, como calhaus, como ldo, como
viva espuma, seguiam, empilhados a monte, os passageiros de 3.^a classe.
Foi a primeira sorte de gente que, a bordo, se lhe antolhou ver mais de
perto; tinha agora ali assim, ao alcance inevitvel, prximo da ateno,
misrias, tristezas, espantos, dores que at ao momento le arredra
sempre com dureza do seu corao, de ordinrio avesso  piedade. Agora
tinha que forosamente senti-las, ouvia-lhes o singelo relato das suas
penas e angstias, chegavam-lhe lamuriados protestos, tmidos gritos de
rebelio, surdas frases doloridas; comeava a interess-lo o aspecto
resignado, humilde, sofredor daquelas rtas mscaras de agonia,
vinha-lhe o fartum nauseabundo da comida que lhes serviam; e durante a
sua primeira noite de mar, noite de pesadelo, noite de insnia, noite de
incomportvel pavor, em que a madorna do cansao lhe era a cada momento
posta em sobressalto pelo sbito martelar dos mais estranhos rudos,--o
ferrolhar brusco de cremalheiras, silvos raspantes de cordagens, choques
brancos de metais, ringidos como rasges, estalidos como pragas,--quem,
neste poema de extermnio, dava ainda a nota mais sinistramente aguda,
era essa atormentada frandulagem humana, quando, sbre o convs
encharcado rojados  mistura, os seus altos gemidos em splica rasgavam
ululantes o espao, formando um concertante macabro com o alardo
brbaro da tormenta.

Quando o _Almera_ conseguiu por fim fundear, frente  Madeira, a
caligem persistente no cu, as grossas cordas de gua e as vagas
alterosas no permitiam fcil s pequenas embarcaes acercarem-se do
paquete, e furtavam arreliativamente  contemplao do Silveira a
maravilha habitual dsse scenrio paradisaco,--o amoroso encanto da
luz, a aragem perfumada do ambiente, a graa ingnua das construes, o
azul translcido das guas, a esmeraldina frescura, o contrno sensual
daquele monte atrevido de colinas salpicadas de claras harmonias, o
deslumbramento sem par e a euritma incomparvel dsse atrevido
anfiteatro pago, nico no mundo, apenas agora entrevisto pelos claros
farpados na neblina, como atravs um entremeio de renda. Entretanto,
bjo acima da pequena cidade flutuante, os vrios _decks_ comeavam a
animar-se; de tda a parte surdiam lindos rostitos timoratos, cautelosos
bustos, ou enrgicos perfs, duras e arrogantes linhas masculinas,
incrdulos ainda, vidos, curiosos, abertos numa cantante expresso de
alvio ou movidos numa alegre inquirio de intersse; miravam-se
solcitos, acercavam-se efusivos e palreiros, formando vivos grupos de
acaso, intromiscando-se, reconhecendo-se, beijando-se; no salo
aparatoso da 1.^a classe, todo em _boiseries_ e estofos, os compassos da
orquestra espraiavam-se em molhadas ressonncias; no extremo oposto,
pela grossa atmosfera heteroclita do _bar_, as rlhas do Champagne
saltavam, preludiando estrdiamente o distanciar do perigo. Mas o
Silveira, de fito sempre ao largo, no cessava de considerar o
deslumbramento panormico da ilha; e ento viu como de roda do grande
barco, arfante ainda e a escorrer, sbre a juba crespa e revlta do mar,
dezenas de lanchas bailavam doidamente, em riscos de, num choque mais
violento, se estilhaarem contra o colosso, na impossibilidade duma
aproximao tranqila. E notou que vinham atulhadas de emigrantes,
outros tantos mseros foragidos como aqueles seus tristes vizinhos de
bordo, uns centos mais de desgraados que iam ser pasto da voragem
insacivel dessas regies intrminas onde fulgura o mito precrio da
riqueza; protico enxurro humano, encarnao polimorfa da desgraa na
demanda hipottica da fortuna. Eram carne votada  gleba, vtimas
foradas da iniqidade econmica, a quem nem por isso o duro
mercantilismo reconhecia a importncia do seu valor, como utilidade
social. Eram lgrimas que vo trocar-se em prolas, vidas hericas que
vo fundir-se em oiro, e que, no obstante, so tidas por nada por
aqueles mesmos para quem o seu descraziante esfro  tudo. Eram almas
tratadas como coisas, e que ali em baixo esperavam transidas, no mar em
clera, sob a chuva, que os iassem como fardos midos, como valores
mercants, como bagatelas, como bugiaras, como sucata, por uma corda. A
operao era primitiva: atados em pequenos molhos por um grosso cabo,
sem escolha, no importa como nem por onde, l vo subindo em cachos,
escorrendo gua, atoadamente, morosamente,--as mes com os filhitos a
drso, chorando, agitando no espao as mos como vermes; os vlhos
pendendo resignados na frouxido da impotncia; os moos ganhando
distncia em arrancadas simiescas, e todos numa ansiada alternncia
movendo os olhos pvidos entre a promissora segurana do navio, ao alto,
e em baixo a fria glauca do abismo.

Passada, porm, a Madeira, o tempo amainra, e agora, enquanto a dupla
hlice do _Almera_ fazia o seu arroteio manso de espuma, pela
imensidade movedia do oceano o espelhamento lmpido do cu
prolongava-se, guas adentro, em opalinas suavidades, em claridades duma
transparncia infinita. Como conseqncia, a bordo restabelecia-se a
tranqilidade e pelas diferentes cobertas a mancha buliosa e a sonora
chalra dos viajeiros alastravam, cruzavam-se, demandavam-se e cresciam
numa algarada cantante de alegria.  hora de comer, j noite, Joo da
Silveira baixou, entre os primeiros, a ocupar o logar de acaso que lhe
haviam indicado e le aceitra dcilmente, no seu altaneiro desdm por
aquela camaradagem fortuita de gentes vindas no sabia bem donde e
destinadas a desvanecer-se pronto, finda a viagem, no distanciamento
vago da indiferena. Era o nico logar que havia ainda vago, numa
pequena mesa para cinco talheres. Sentou-se. At quele momento, mal
havia tido ocasio de encarar os outros comensais, abotoados
naturalmente na constrangida reserva em que se nos fecha de ordinrio a
expresso,  visinhana de estranhos; porm, agora comeava a v-los sob
um novo aspecto, voltava cada um aos seus gestos habituais, mutuavam-se
olhares de confiante inquirio, sadavam-se efusivos, seguros,
contentes. Fizera-os comunicativos a simultnea vibrao do perigo. 
direita tinha o Silveira um curioso espanhol, abundante, palreiro,
grosso tipo de homem roando pelos 50 anos, calvo, vermelhao, grandes
dentes ralos nos grossos lbios gretados e rxos, a barba grisalha curta
e mal cuidada. Vestia com vulgaridade, e na lapela usada do _smoking_
ostentava a roseta de Isabel a Catlica, sofrvelmente suja.  esquerda
ia um italiano, j entrado em anos tambm, ponderado, gordote, a papugem
flcida das olheiras denunciando um grande _viveur_, a pele rosada e
fina passada de cosmticos, um ar importante, as mos muito cuidadas.
Seguia depois um joven chileno, irrequieto, pomposo, farta cabeleira
revlta pastichando a indumenta cerebral dum gnio, um colarinho mole
inverosmil, os olhos negros e ardentes como carbnculos, os dedos como
que modelando incansavelmente no espao abstrusas, incompreendidas
formas, O quarto comensal era um puro _gentleman_, de finas maneiras,
olhar inteligente e doce, um rio buo incipiente sbre a lisa ctis
morena penujando, e uma linha geral atraente, correcta, comedida.

--Rijo temporal, hein?--comentava com vivacidade, sacudindo a cabea, o
espanhol, quando o Silveira tomou logar  mesa.

--Foi de respeito!--acentou pronto o chileno.

--No acha?--tornou o primeiro interpelante, adiantando com intimativa o
busto para o italiano, que se limitou a baixar a cabea num tcito
assentimento.

O joven brasileirito julgou oportuno corrigir:

--Foi forte, sim... ah! mas no se compara com as borrascas da Biscaia
ou da Mancha.

Ao que, num abundso gesto de desaprovao, o espanhol, agitando o
guardanapo:

--No, isso l... O meu caro marinheiro, bem sei que  homem da
profisso... desculpar, mas no estamos de acrdo. Ento, eu no
sei?--E em tom convincente para o grupo:--Olhem que foi um passo... um
passo _de ponersele  uno los dientes de vara y mdia_!

--Mas, parece que no houve desastres a bordo?--aventurou quse
maquinalmente o Silveira.

E logo o outro, tranquilizador, dogmtico:

--Ah! no senhor. Nada! Nem _desperfectos_ nem doenas.  um grande
barco ste. Acabo de o assegurar ao comandante, que deposita em mim tda
a confiana. Ah, l isso...--E, num risinho envaidecido,
atestou:--Amigos vlhos!

--Contudo, aquela pobre gente da 3.^a classe...

O _soi-disant_ ntimo do comandante teve um desprezvel encolher de
ombros:

--Ah, sim, naturalmente... alguns _resfrios_. Mas eu j por l andei.
Que o comandante, j digo, para estas coisas no qure outro... Pois no
h nada, no... Vo tomar musgo e leite. _Una jugadita pasajera, no
ms_.

O caso foi que a familiaridade banal desta aresta de dilogo determinou
um comeo de conciliao do Silveira com o ambiente. le passeava agora
distradamente os olhos pela trivialidade cosmopolita do recinto,--sse
vasto quadrilongo sussurrante e refulgente, todo em branco e oiro, com
os seus colunelos tarracos, os metais scintilantes das vigas dos
flancos, o tilintdo lmpido dos cristais e loias, e,--constatava com
orgulho,--as lusas caravelas simblicas pinturiladas com arrogncia nos
luxuosos vitrais do teto. Interessava-o o ambiente e atraam-no as
figuras. E com os seus eventuais companheiros de comida, agora, numa
saborida mutuao de impresses, ia travando gradualmente
conhecimento.--O espanhol, dr. Contreras, era mdico, pelos modos: um
pobre diabo espalhafatoso e inofensivo... quando no exercia a
profisso, e em quem a arrogncia dispersiva da figura buscava
caridosamente iludir a inrcia tacanha do intelecto. Parece que o seu
govrno, para se descartar dum importuno e juntamente evitar ao pas o
aumento na cifra da mortalidade, o comissionra _in perpetuum_ para
seguir estudando as condies de sanidade a bordo dos grandes
transatlnticos. Um pretexto inocente e a misso mais a carcter para
ste pobre Esculpio _ rebours_, cuja educao profissional
cristalizra na teraputica obnxia dos purgantes e das sangrias.
Norberto Mackenna, o joven chileno, era um pintor cubista que ao seu
pas tornava, aps 4 anos de regalona vida em Paris, sectrio _enrag_
de Picasso e grande devorador de azeitonas. O moo brasileiro era o
tenente da marinha Euclides Pereira, que ia matrimoniar-se a S. Paulo,
de regresso tambm duma viagem oficial de estudo. O italiano,
finalmente, sse dizia-se marqus e da mais alta estirpe. Descendia dos
Colonna di Mafiori, e em lances sucessivos de azar desbaratra ao jgo o
melhor da sua fortuna. Esta maldita obsesso desfolhra e deixra
totalmente a nu, de prospia e de oiro, o seu frondoso e arcaico talo
genealgico, abatido agora burgusmente ao mercenrio ofcio de balco.
Porque o marqus ia a Buenos-Aires negociar em alfombras. E dizia estas
displicentes coisas numa resignada bonomia, com clara singeleza, com
altivez, quse com brio, mirando as unhas; e imobilizava-se em atitudes
de dignidade distrada ante a natural incidncia da ateno alheia.

Com o brasileiro seguiu o Silveira, no ascensor, ao salo da 1.^a
classe, pronto irmanados os dois nesta instintiva aproximao em que os
prendiam identidades seculares de lngua e de raa. Em cima, o recinto
estava pleno da mais variada gente, e havia o confiante abandno
familiar dos estmagos contentes. s curiosas, inquiries do Silveira
mal podia o tenente Euclides, tam hspede ali como le, cabalmente
responder, limitando-se quse a inform-lo sbre o que sabia das
famlias suas compatriotas. E  que estas no s abundavam ali, como
tambm, com a sua vivacidade despretenciosa e a sua bonachona
loqacidade, davam a nota dominante. Norte-americanos, e ingleses--les
e elas,--mal avanavam, um instante, pelas portas laterais, as cabeas
arrogantes e logo partiam, por um momento desviados na sua desportiva
tarefa de fazer indefinidamente o circuto do barco, em largas e slidas
passadas. Havia chilridos, cantos, vos, jogos inocentes de crianas;
implicativos _snobs_ que continuavam a imperturbvel leitura trazida,
sem intervalo, do comedor, forrados agora na aptica moleza dum
_fauteuil_, cruzando as pernas; e ao lado duma aparatosa francesa, de
cabelo duvidosamente loiro e traje no menos equvoco, um derrancado
vlho sonoleava.

Mas o Silveira, que se dirigia a Buenos-Aires, buscava de preferncia
exemplares argentinos; queria verificar ali, em documentos vivos,
flagrantes, se lhes assentava bem essa fama de galhardia, de distino,
de urbanidade e opulncia, da beleza soberana nas mulheres e de
enfatuado _estiramiento_ nos homens, que fazia do nome argentino o giro
dominador pelo mundo.

--De argentinos, aqui a bordo...--informou, circunvagando em trno a
vista, o Euclides, hesitante,--no  esta a poca... No dou conta seno
duma famlia.

E apontava-lhe, em cauteloso grupo  parte, num dos tpos do salo, um
homem grosso e grisalho, todo de negro, a face totalmente escanhoada,
com uma senhora idosa, vestida de negro tambm, muitos anis e colar de
prolas, sentada em meio das duas filhas. Poisavam singelamente, sem
estudo, sem afectao, o ar abstracto, numa atitude natural de abandno
tranqilo. As duas senhoritas principalmente parecia quererem delir-se
numa suave atmosfera de simplicidade e renncia que era a anttese
formal de todo o propsito de exibio galante: contudo havia na sua
linha geral, sobretudo duma delas, um no sei qu de espiritual
seleco, de fino, de subtil, de espontneamente belo e vagamente alado,
que comeava por fixar com agrado a ateno e gradualmente nos trazia 
alma um superior encanto.

Seguia interessadamente o Silveira, por entre as volutas quimricas do
fumo do charuto, o exame desta esquiva e singular figura, quando, todo
sorridente e afvel, se aproximou dle o marqus: que perdoasse, se
acaso o vinha molestar... mas queria apresentar-lhe um compatriota assaz
distinto, fidalgo tambm, como le... no tanto... e como le
arrunado. Amvelmente o Silveira acedeu, e da a instantes sentia o
efusivo aprto de mo do conde Amglio di Paoli, espcie de emrito
charlato internacional, vivo, matreiro, na larga face a inaltervel
palidez dos cnicos, farta cabeleira negra, a mirada penetrante e fugaz,
os gestos abundantes. Duros golpes da fortuna,--dizia,--o haviam
constrangido a demandar a Amrica para ver se conseguia colocar a meia
dzia das melhores telas da sua esplndida galeria. Telas dos sculos XV
a XVIII. Ricos pedaos da sua alma! Um sacrifcio enorme... No tivra a
coragem de o consumar na Europa, onde o extraordinrio valor das suas
coleces era alis bem conhecido. Exprimia-se com abundncia teatral
de efeito, num atroplo de frases mortificadas exteriorisando como que o
pejo da sua precria situao; e tudo era desatar-se em atenes e
lisonjas perante sse grande aristocrata portugus em que a sua
cabotina codcia farejava erradamente uma vtima. Luzia no _smoking_ uma
roseta vermelha e branca. Porm, o Silveira achava-o plebeu, mrmente
posto em confronto com o divino perfil, de Madona, da irlandesa que se
lhe sentava ao lado. Era sua mulher. Num dado momento, a querer captar a
confiana do Silveira, apresentou-a; depois, sempre nas suas prolixas
aclaraes e deferncias, ia atropelando: que levava a assim... havia
de ver! um pequeno mostrurio de obras tdas de mestres, que eram puras
maravilhas. Vend-las-ia mesmo perdendo, que remdio!... E que, em
Itlia, le era assim um como que avaliador oficial de objectos de arte,
pois fra o inventor dum engenhoso processo de constatar a autenticidade
dum quadro por meio da microfotografia. O nico infalvel! No sabia?...
Era um mtodo ignorado, exclusivo seu, porm a um tam nobre
senhor,--batendo-lhe amigvelmente no ombro, epilogava,--no teria
dvida nenhuma em o fazer comparte do segrdo.

O Silveira escutava-o numa indiferena corts, distradamente; enquanto
o melhor da sua ateno se fundia com deslumbrada ternura na figura
adorvel da irlandesa, que lhe agradava enormemente, com o seu ar
repousado e cndido, a linha purssima das feies, o arranjo tico do
cabelo castanho, o busto sbriamente redondo, o gesto singelo e nobre.
Da que, nos breves claros de repouso que lhe consentia a chalra
interesseira do marido, le fez perante a diva o ensaio de algumas
amabilidades discretas... deplorvelmente perdidas,--logo le desolado
verificou,--porque esta deliciosa filha de Erin no falava nem
compreendia seno a lngua do seu pas natal, de que o nosso desapontado
gal no percebia patavina.

Quando, pelas 11 horas, desceu  _cabine_, o Silveira trazia vivo e
palpitante no crebro o baralhamento policromo e difuso de tdas aquelas
figuras, tda essa efmera _kermesse_ de notas de acaso, na aparncia
desconexas e de cujas cruas tintas, bruscas oposies e antitticas
formas, reumava contudo um encanto especial, uma clara e singular
harmonia. Enquanto se despia, le notou que ali assim fra,  sua
ilharga, no tringulo aberto da pra, havia tambm alegria. Ali, a noite
era qusi total. Uma nica pra elctrica, com reflector, esclarecia
apenas o limitado espao ao seu alcance, e a maior poro do recinto
ficava sob o domnio impreciso de vagas sombras danando sbre montes de
andrajos. No aplastamento prprio desta hora de repouso e sob o mesmo
invarivel tldo negro, os grupos, srdidos, compactos, alargavam-se e
faziam monte sbre rolos de cordas, sbre as bagagens, sbre mantas
vlhas, troixas, sacos, sbre esteiras; e a escassez da luz erguia em
deformaes de pesadelo, emprestava monstruosas ampliaes de horror a
sse caprichoso arranjo de cansao e de misria. Mas havia ainda muita
gente desperta; mesmo encostados  _cabine_ do Silveira, dois rsticos
italianos faziam pausadamente o interesseiro clculo de quanto poderiam
vir a forrar, em cada ms, dos seus hipotticos salrios; um francs,
mais longe, trauteava _couplets_ canalhas; e tda a sorte de vozes, de
idiomas, de murmrios, gritos, expanses, risadas que eram lamentos,
suspiros que eram bocejos, tda a gama fruste da animalidade, tdas as
brutas exploses do instinto, se entrechocavam e faziam cro nesta
extica Babel flutuante, grosso concrto brbaro que afogava o marulho
manso das guas e que ainda o spro galhofeiro dum _harmonium_ vinha
cobrir, a espaos, com a sua toada _chillona_.

Acomodado j o Silveira entre os lenis, pareceu-lhe distinguir o
quebrado dedilhar duma guitarra, acompanhado duns acordes de violo...
Apurou o ouvido, no havia dvida... a voltam les, trinaditos, leves,
como quem est afinando, sses sons tam seus familiares, tam seus
queridos. E agora so j os preldios dengues do _fado_, um _fado_
choradinho e autntico como s a alma portuguesa, enamorada e fatalista,
 capaz de bem sentir. Da a momentos, em bom portugus, algum cantou:

    _Das barbas do Afonso Costa
    Mandei fazer um pincel
    Para escovar as botinas
    Do querido D. Manuel._

O Silveira saltou no leito, radiante, e ergueu meio busto,  espera de
mais, vidamente. J no se sentia tam s. A ironia gaiata daquela trova
f-lo estremecer de vindicadora alegria. Esta descoberta inesperada
espancava-lhe o sono, aclarava-lhe a alma. Oh, a justiceira voz do povo!
O desdobramento do mote devia ser impagvel. Vamos a ver que mais
vira...

O ignorado trovador cantou ainda outras duas quadras, porm j sem
intersse para o Silveira, porque gemiam lamechas trivialidades de amor.
No entanto, o grato alvoro daquela primeira impresso ficou. No era
s le... comprazia-se em repetir no ntimo, vivamente sensibilizado
por ste trao imprevisto de afinidade moral com gentes de condio tam
abaixo da sua. Tinha ali assim, tam perto, analogias de sentir e fveras
de dio como as dle, e a sbita descoberta desta conformidade
palpitante trazia-lhe confrto. Inimigos tambm do novo regmen...
dando-lhe costas, maldizendo-o como le. E mais eram do povo, pudra!...
do povo, sim... sse pobre e sempre ingnuo povo portugus, de cuja
hipcrita adulao os rpublicanos haviam feito plataforma essencial de
propaganda, e que depois do triunfo estavam agora burlando inquamente.
Ah, mas les lhes diriam! Brava gente! E tinha-os ali seus visinhos...
Havia que conhec-los, v-los de perto. Bem...

E adormeceu contente.




II


O dia seguinte amanheceu para o Silveira outra claridade. Esta inefvel
sensao de calma, de liberdade, de plena posse de si mesmo, que as
viagens em ns despertam, fazia-lhe querer a vida e sacudia-o num
alviareiro estmulo interior. De tudo quanto o rodeava crescia para le
o intersse. Livre, pelo momento, de preocupaes sbre o futuro e
assediado por todo um mundo de sons, aspectos, cres, idas e coisas
novas, todo o seu encanto de viver se resumia na hora presente, e a alma
dilatava-se-lhe num voluptuoso apaziguamento sem trmo, como essa lisa
toalha imensa de mar, sem perfdias e sem cleras.

A corneta chamara para o primeiro almo. Fra, pelo espao, havia sol,
havia luz, e o tpido acariciamento da brisa casava-se numa euritma
perfeita com o manso ronronar das guas. Neste plcido ambiente de
espuma e oiro, as silhuetas saltavam ntidas, as tonalidades ganhavam
valor, sentia-se mais amigo e mais prximo, mais potente, mais clido,
mais fecundo, o divino alento criador da Natureza: e, perante o olhar
extasiado do Silveira, todo o bigarrado movimento de bordo se esmaltava
de tintas de relvo, de cnticos pagos, de brados gensicos, de
inusitados brilhos, e os seus mesmos companheiros de embarque lhe
pareciam os habitantes dum outro planeta, onde as paixes fssem mais
fortes e a vida mais consciente e mais intensa. Sando, na direco do
refeitrio, para o longo corredor, veio-lhe a viva lembrana dos seus
ignorados, dos seus humildes correligionrios da passada noite, e ia a
demand-los, com piedosa ateno, atravs a gradeada porta da masmorra
que ali assim perto os mantinha a distncia, quando uma outra
solicitao mais empolgadora e mais instante lhe rompeu da alma em
alvoro: a imagem fugida e alada da joven argentina, entrevista tambm
na vspera, no salo. Mas, por azar,--debalde o Silveira esperou!--nem
ela nem ningum da famlia baixou a comer.

No havia ento remdio seno confiar do acaso o providencial milagre de
a ver aparecer.--Mas quando? mas aonde?...--E a sbe le de golpe no
ascensor e vem atravessar o salo e faz o giro afanoso do barco, mirando
em tdas as direces, perquirindo os bizarros grupos distribuidos
preguiceiramente ao longo das cobertas, no alinhamento marcial das
cadeiras de repouso. Absorto nesta preocupao essencial, o resto
marcava zero para le, nada mais via ou pretendia, de nada queria saber.
Acotovelava insensvel os arremangados homens do _sport_, cortava
indiferente as interesseiras chalras de grossos burgueses, vestidos de
fusto branco; por duas vezes houve que furtar-se, um pouco bruscamente,
s louvaminheiras investidas do dr. Contreras, em termos de passar por
malcriado; e por um triz no prga de brco sbre o convs com uma
barafustante paqueta baana, magra, pequenina, ictrica, que comandava a
poder de gritos e truanescas evolues uma chusma de pequerruchos.

Por fim, essa adorvel argentina ei-la que a vem agora avanando... Vem
s. Era alta, esguia, frgil e avanava leve e area, como um reflexo de
si mesma, lembrando no porte e na frescura um dsses longos, finos e
erectos fustes da _palmeira imperial_, com o vrtice perenalmente verde.
Seguia breve e alheadamente, com uma simplicidade no isenta de nobreza,
e foi sentar-se junto da me, uma repousada e aparatosa senhora que nos
parecia forte da robustez peculiar que circunda certas mulheres e que
denota honestidade. E de hora em diante o Silveira, feliz por aquela
segurana de tranqila contemplao que emfim conseguia, j no
abandonava mais o alvo querido do seu cuidado e atento ia e vinha, e
desdobrava arteiras pausas, disfarces e rodeios, para poder, sem que
fsse notado, entregar-se a esta viva e desbordante anlise que a sua
alma se comprazia em prolongar, porque ela respondia  excitao
misteriosa que dentro de ns faz chispar o maravilhoso reflexo interior
da simpatia.--Era curiosa, enternecedoramente curiosa, com efeito, esta
linda desconhecida. Aparentava 20 anos, no mais. Farto cabelo castanho,
_mousseux_, sem brilho, descendo em bands singelos a juntar-se sbre a
nuca; pequenina testa espiritual, em tringulo; os olhos castanhos
tambm, de leve desenho mongol, as sobrancelhas erguidas e lanadas
sltamente; o nariz projectado direito e um pouco longo, toda a face
alongada por igual, perfil grego, traado num como que afinamento
idealista e ingnuo; o queixo pontuado finamente, os dentes brancos,
muito iguais, e a bca breve, os lbios finos mas expressivos, resumindo
o que porventura havia de vida e de paixo nesta criatura reservada e
tmida. Nenhuma espcie de atavios: nem espartilho, nem jias. Apenas na
base do pescoo, tico e longo como um mrmore da Jnia, um colar de
corais napolitanos. As suas mos, de dedos brancos e finos como longos
estames, e mais claras que o tom _mate_ do rosto, eram o prolongamento
lgico de tda a figura, lembrando os tenros rebentos duma rvore de
sonho. E, quando sorria, os olhos perdiam-se-lhe no vago, enquanto na
filigrana hmida dos lbios perpassava um frmito breve de emoo.

Na alma ardente do Silveira rompra agora o desejo veemente,
irreprimvel, de mutuar impresses com a linda desconhecida.--Mas como
consegui-lo, como chegar adonde a ela?...--considerava com afinco,
instalando-se-lhe na frente, numa atitude de estudado abandno, os
cotovelos sbre a amurada.--Tinha que haver uma apresentao, manobra
tctica reconhecidamente difcil para o investimento corts duma famlia
como aquela, que le no via comunicar-se com ningum, que ningum
sadava e que a ningum retinha, mantida mui deliberadamente no seu
desprendido crculo de isolamento e indiferena. Assim, uma aproximao
em condies favorveis, segundo as regras do bom-tom, no era empresa
vulgar.--O Silveira, de lbio pregado, reconhecia-o, e esta
descorooadora evidncia, longe de o desalentar, mais o
enardecia.--Havia que buscar...--Numa fvera crescente de impacincia,
planizava estratagemas, ideava hipteses, amontoava projectos, que, mal
esboados ainda, todos logo fracassavam. Ento, em alternncias de
dulcssima pausa, como um blsamo, o spero aguilho do seu cuidado
amolecia na contemplao deliciada e atenta dsse baluarte suave de
iseno e de virtude. Mas logo, mais desptica, mais tenaz, a sua
amoruda obsesso voltava, por cada um destes venusinos exames trazida a
um enternecido exacerbamento que mais lhe acicatava a vontade e lhe
acendia o desejo.

Um momento veio ento em que o Silveira notou que, um pouco mais ao
largo,  ilharga e um tanto recuado das duas argentinas, um joven glabro
e calvo, com o engerido busto dobrado sbre uma destas pequeninas mesas
portteis de bordo, escrevia nervosamente. As garatujas do lpis seguiam
numa carreira febril, dir-se-ia ao atroplo clido da improvisao,
enchendo flhas sobre flhas sltas, que a aba loira dum grande _panam_
protegia da aragem dispersiva. E, sempre no mesmo propsito exibitivo e
grotesco, a intervalos o iluminado escriba parava na empolgante labuta e
imobilizava-se, como que colhido em pausas de transcendente laborao
interior, com os olhos vagos postos ao alto e o lpis erguido
digitalmente sbre o lbio sibilino. Depois, num mpeto criador, um
estremeo simiesco o sacudia, e, com um risinho envaidecido, le
recomeava inflamadamente a escrever. Ora, aconteceu afigurar-se ao
Silveira que, numa destas estases de espiritual concepo, o biltre
encarra particularmente a adorvel argentina, a criatura esfngica do
seu sonho... pareceu-lhe mesmo que cambira com ela um qualquer familiar
sinal de inteligncia.--Talvez tivesse a sorte de a conhecer! Feliz at
 insolncia... Bem, mas ento, nesse caso... havia que conhec-lo a le
tambm!--E forte nesta ida, feliz por ste relmpago de aproximao
salvadora, o Silveira estudava agora com agrado e analisava mais de
espao a espao aquele que presumivelmente ia ser o auspicioso trao
iniciai  sua fortuna.--Era uma figura abortiva e grotesca, assim
tortuoso, magrote, pequenino, com o seu bigodito loiro, raso  raz dos
lbios, com os seus olhos dum cobalto inexpressivo, com a cabea tda em
tortumelos, romboidal, enorme, e, a partir do queixo para o coronal,
aparada caricaturalmente em ponta, num dsses estiramentos cucurbitceos
peculiares do Greco. E ainda o alongamento filiforme do pescoo sbre a
ladeira dbil dos ombros mais acentuava o desliamento quebradio e
vacilante daquela estranha figura. Coisa curiosa: sbre ste pescoo
estriado, sbre estas mos nodosas, sbre esta cabea paradoxal que
parecia recm-sada dum cataclismo, no havia a epiderme rugosa e spera
que seria a condizer, antes se arredondava a macieza penujosa e clara
duma pele de efbo, _mate_, adoando os contornos, com transparncias de
aguarela e velaturas de arminho; a pele virginal e doce dum adolescente;
a qual, entretanto, pelo mais irritante dos contrastes, passava sbito a
uma rubefaco herpetizada e adusta no revestimento crassoso das
desertas grimpas do crnio luzido.

Vestia um jaqueto negro de lustrina, colete e cala de flanella crme,
sapatos brancos, pegas rxas, a camisa mole _ajoure_, e a farta
gravata de sda negra cada e slta num desmanchado lao de artista. Um
mixto de pedantismo e inconscincia, de garridice e desmazlo.
Propunha-se o Silveira abord-lo, quando um pequeno incidente surgiu, a
cortar-lhe o propsito e coloc-lo num passo difcil... Era o conde
Amglio que passava, mais a mulher, e que apenas avistou o grande
fidalgo portugus e seu no menor amigo, logo de acercar-se-lhe,
expansivo, sorridente, num afectuoso desbarato de gestos e mimadas
atenes, pouco mesmo faltando para lhe acarinhar com a mo,
familiarmente, o queixo. E assediava-o com perguntas, com propostas,
ofertas, lembranas, solicitudes.--Que fazia ali assim? porque no vinha
com les?...--A adorvel irlandesa, numa sublinha cativante, sorria
tambm. O Silveira tinha calafrios, colhido assim de improviso, de
sbito posto  prova na duplicidade egosta dos seus instintos.
Gaguejava de embarao, no acertava com uma posio, as palavras no lhe
acudiam. Tomava-o uma espcie de embrutecedora raiva interior, ao ver-se
assim entaliscado estpidamente entre essas duas solicitaes, qual
delas mais viva e mais tenaz, do seu desejo. Ardia por fazer-se notar,
por fazer-se admitir ao convvio da linda americana, cuja linha patrcia
e esquiva tanto o intrigava; e muito lhe agradava por igual _Mrs._
Edith, cujas bas graas no queria perder, mas junto da qual tambm no
lhe convinha fazer demasiado ostentiva parada de atenes, neste
momento. Defendia-se por monosslabos, numa grande instabilidade de
movimentos, crando como um colegial e mirando de escape, numa idiota
solicitao de escusa, a bela argentina, que nem dava por le. Por fim,
ante a insistncia pegajosa dos dois, cortou a dificuldade prometendo
que breve iria, a estibrdo, ter com les; e tornou a crar mais forte
quando o conde, j longe e ao dobrar a esquina do _deck_, se voltou num
gesto afvel, acenando-lhe convidativo com a cabea.

Da a instantes, liberto do arreliativo pesadelo, acercou-se dissimulado
do incansvel rabiscador, o qual, no momento justo, arredra, num desvio
brusco do antebrao, a grande aba do _panam_ protector de sbre as
tiritas de papel, que logo desparramaram ao acaso, como arvloas, pelo
espao. E logo tambm o Silveira, agarrando o pretexto, acudiu solcito,
baixando-se e ajudando o desconcertado escritor a recolh-las.

--_Un milln de gracias, caballero_.

--De nada...--obtemperou, amvel, o Silveira; e com discreta
ateno:--So produes inditas?

--_Apuntes del natural_,--tornou singelamente o outro, sempre em
espanhol,--esquissos, impressos, simples notas do momento, fugazes como
ste instante de vida em que voamos.

--Deve ser interessante.

--No vale nada...--derivou o iluminado anotador, num gesto
desprendido.--Um modo inofensivo de matar o tempo.

Convidou o Silveira a sentar-se e acercavase-lhe, solcito,
insinuante.--Sem dvida era portugus? Pelo modo, pelo acento, via-se
logo... Muito folgava! le era andaluz. Um pouco periodista e um pouco
homem de negcios.--Impingia-lhe o seu carto de visita, impresso em
tipo gasto e vulgar, modestamente.--Ramn Alvarez, _tout court_.--Mas,
sbre a caligrafia trpe dos caracteres, um empenachado elmo luzia
herldicamente, mais trpe ainda.--le era duma famlia da mais antiga
linhagem, famlia de cronistas, de poetas, de galans... e tivera sempre
um grande fraco pelas letras. Tinha dois livros em preparao, uma
novela e um poema po-histrico, e tambm um drama prestes a ser psto
em scena pela Maria Guerreiro.--Oh, os intelectuais!--exclamou o
incompreendido escriba, desarticulando o busto, rolando os olhos em
xtase e, num bravo arranque de entusiasmo, atirando a enormidade
paradoxal da cabea sbre a nuca.--So a flor por excelncia, a suprema
exaltao da terra!--Infelizmente, le vivia... viviam os dois, que lhe
perdoasse se tomava a liberdade de o dizer... mas l como c... viviam
numa peste de pases de analfabetos, onde por via de regra os
pensadores, os gnios, os grandes eleitos do talento e do saber, morriam
de fome. De sorte que, assim, havia que ser-se ao mesmo tempo um pouco
prtico.--Que remdio!--com enfado soberano rematou. E iludia o seu
prosaico mistr de caixeiro viajante num vago eufemismo, dizendo que
vinha  Argentina estudar o pas.

--E conhece argentinos?--logo o Silveira indagou com calor.

D. Ramn meneou negativamente a cabea.

--Alguma das famlias que vo aqui a bordo?

--Tampouco.

--Nem aquelas senhoras, ali assim,  nossa direita?

Essas menos do que nenhuma. Alvarez no conhecia nem tinha ganas de
conhecer.--Muito cheias de prospia. _No le gustaba_.--E franzia o nariz
com displicncia. Na irritao do desapontamento, o Silveira  que teve
ganas de lhe bater... Entretanto, na sua abundosa loquela, o Alvarez
insistia que nunca podra aturar gente pretenciosa. Ele queria-se com
gente alegre, comunicativa, franca, _sencilla_, gente  moda do seu
pas, da sua terra... com pessoas que nos pem  vontade, no fraternal
empenho de nos fazerem sentir que so nossos iguais, em vez de parecer
que nos querem impr uma humilhante adorao.--Olhe! como aquilo.

E apontava, de olhar incendido, uma linda morenita, mui viva e
coquetona, tda de branco, que justo lhes passava na frente. Ia ladeada
por dois outros tenros amorinhos, e as trs realizavam o mais delicioso
grupo etrusco, assim caminhando rtmicamente, sltas e leves, as cintas
enlaadas, os bustos danando, o cabelo ao vento.

--_Qu monada!_ Aquilo, sim... Veja! Veja!

Dizendo, o desengonado Ramn exagerava a sua abominvel aparncia
fetal, ao erguer-se, todo dobrado, sbre a mesa, para corresponder s
provocadoras sadaes que, passando, a rapariga lhe fazia com a cabea,
com os olhos, com o leque, com as mos, batendo forte o taco, bolinando
os quadrs lascivos. E quando a perturbadora viso se desvaneceu, le,
familiarmente:

--Prometi-lhe um soneto e neste momento mesmo o terminava. Quere ver?

Procurou, com a pupila febril, nas tiras sltas, e erguendo uma por fim
entre os dedos trmulos, leu ento, enfticamente, com cabotina audcia,
como sua, o puro decalque duma das lricas mais inferiores de Manuel
Palcio. Contra antecipadamente o seu instinto com a iletrada
ignorncia do Silveira, o qual, tomando naturalmente por original a
cadenciada toadilha, em marretadas de admirao vislumbrava agora nas
insondveis cavernas cerebrais do Alvarez tubrculos autnticos de
gnio. Porm j ste, num lume de vaidade, colhendo presto a papelada:

--O meu amigo perdoar... mas ocasies destas no se podem perder. _La
muchacha con seguridad_ espera-me. Est impaciente... _Hay que
aprovechar, por Dios!_

E, arredando brusco a mesa, partiu de abalada, pequenino e torcido sob a
aba descomunal do _panam_, como um chaparro anmico.

Desapontado, o Silveira quedou-se uns segundos sentado ainda e imvel,
na sua atitude de irremedivel lamecha, o busto abatido, as mos
pendendo tristes entre os joelhos. Depois, tendo enviado um derradeiro
olhar de desconfortado apetite sbre a espalda esquiva da linda
argentina inabordvel, ergueu-se e partiu tambm, sacudidamente. Mal
tinha dado a volta para estibordo, quando viu que a le se dirigia o seu
afvel comensal, Euclides Pereira, ladeado por dois graves e idosos
senhores, que deviam ser ingleses, a avaliar pelos cmicos desmanes em
que les buscavam amvelmente contrafazer a sua imperturbvel e habitual
tesura. O joven brasileiro apresentou:--_The Right Honorable the Earl of
Horrowby_--_The Captain John Stayton_. Este segundo tartamudeou umas
curtas frases guturais, que o Silveira no percebeu, lardeadas de
profusas reverncias; e o tenente Euclides explicou ento que vinham
pedir-lhe a honra de consentir em fazer parte do grande _Sports and
Entertainment Committee_, e ao mesmo tempo convid-lo a assistir 
renio preparatria, que devia realizar-se, aquele dia mesmo, no salo
de 1.^a--_the Social Hall_,--s 9 p. m. Erguido e dobrado numa atitude
de nobre aquiescncia, o Silveira agradeceu, no ntimo envaidecido. E
como que sentindo-se crescer, importante, alegre, seguiu com afectada
indolncia direito ao conde Amglio, que de longe observra e
compreendera a scena, e por isso o acolhia agora entre atencioso e
mordaz, num risinho de conformidade patusca.--le tinha adivinhado...
muito bem! muito bem! Fizeram o que deviam fazer, era de esperar.--E
todo em aprovativas mesuras:

--Sim senhor! muitos parabens.

--_Very, praiseworthy_,--completou _Mrs._ Edith, com o seu cndido
sorriso. Mas, encolhendo, modesto, os ombros, o Silveira:

--Uma simples amabilidade. Nem eu esperava. Que valor pode isto ter?

--Ah, pois ento no tem! les bem sabem a quem escolhem...--acentuou,
lisonjeiro, o conde, com ar convicto; e maliceiramente rematou:--Olhe, a
mim no me convidaram les.

--Mas,  que o devem convidar!--corrigiu com amvel intimativa o
Silveira; e, num generoso assomo de importncia:--Se o conde quere, logo
 noite lembro o seu nome.

--Oh, no, no... por amor de Deus! Essas honras, aqui, no trazem seno
incmodos e maadas. Para o efeito, sou da plebe, prefiro que me
considerem um annimo, um zero. No, no... Muito obrigado!

Trocaram depois uma meia dzia de frases banais sbre a monotonia da
vida de bordo, a extenso fatigante da viagem, a vulgaridade chocante
dos passageiros, a m comida, o calor, o belo tempo que fazia. O conde
tinha no regao um livro copioso,--_L'Argentine telle qu'elle est_, de
Paulo Walle,--cuja leitura recomendou ao seu amigo; mas a ste
interessava-o mais a silhueta ateniense, o abandno repousado e lnguido
da irlandesa,--sbre a _armchair_, frente  luz, estendida longamente,
com os psitos brancos traados fra, no ar, deixando a divina modelao
da perna a descoberto bastante acima do artlho, com uma cadncia suave
e tranqila na ondulao rtmica do seio, os braos em ansa, as mos
inertes em concha sob a nuca, e os grandes olhos de veludo mirando vago,
ao longe, reflectindo no sei que molhado encanto, da ardsia fluida das
guas, e parecendo seguir o vo dalguma quimrica viso na claridade
material do espao.

O toque para o _lunch_ veio cortar brusco ste primeiro ensaio de
_flirt_, com o qual a alma oblqua do conde no parecia alis
preocupar-se... Em baixo,  mesa, a conversao arrastou-se montona,
cortada e dispersa, como se cada um daqueles cinco fortutos comensais
trouxesse agora por distintas e opostas coisas dividida a ateno e
solicitado o esprito. Apenas, com familiar insistncia, se falou dos
prximos festejos, sendo o Silveira e o tenente Euclides felicitados
cordialmente por fazerem parte do grande _Committee_ directivo; e tambm
o abstruso Mackenna se desatou num panegirismo entusiasta daquela
aparatosa francesa cuja identificao moral e social trazia todos a
bordo intrigados, graas  mirabolncia equvoca das _toilettes_, e 
suporfera mansido e  conscincia no menos letrgica do presumido
marido.--Helena d'Ellery se chamava ela, j conseguira saber... mas,
jurava! ainda havia de saber-lhe tambm prticamente a biografia.--O
flcido marqus di Mafiori teve um risinho enigmtico, imperceptvel; ao
passo que, na sua libidinosa querena, o outro:

-- deliciosa! Tem o _chic_, o aperitivo acre do escndalo. _Hay que
gustarla!!_

E na gulosa antecipao dsse defeso prazer sonhado atacava furiosamente
o pires das azeitonas.

A interminvel sucesso da tarde arrastou-a o Silveira enfastiadamente,
em grande parte pelo brao solcito do tenente Euclides, que no se
cansava de o apresentar s numerosas famlias suas compatriotas. E assim
andaram deambulando amvelmente de grupo para grupo, sem que o Silveira
conseguisse dominar a impacincia e vencer o tdio. As jovens
brasileiritas, algumas bem interessantes, com as suas meigas expanses e
a sua vivacidade ingnua no logravam entretanto cativar-lhe o esprito,
enleado teimosamente naquele obsessivo empenho de se aproximar da
argentina; os homens, sses sem maior ateno, mal trocadas as primeiras
sadaes, logo reatavam o interesseiro dilogo interrompido, no
falavam seno em cotaes da borracha e do caf, perseguiam miragens de
fortunas fabulosas, desfiavam clculos que davam vertigens, denunciavam
burlas que pediam gals, antecipavam quebras iminentes, todos vidamente
engrenados no travamento egoista e brutal dos negcios, a que durante
tda a sua vida o Silveira, por temperamento e por educao, se
mantivera sempre altivamente alheio. Nada disto o satisfazia, nada o
interessava, nem por momentos o prendia sequer. Ento, num dos seus
vagos e atoados giros de bordo, atingiu o Silveira o trmo da coberta, 
pra, mesmo sbre o amontoamento heteroclito e srdido dos seus vizinhos
da _cabine_, em baixo, aquela pobre gente da 3.^a classe. No trecho
luzido e nu do convs que a projeco do grande tldo _gris_ deixava a
descoberto, le viu que vrios bigarrados e mansos grupos subiam e
desciam ao acaso, num constante vaivm, pelo sujo rasgo duma espcie de
negra fossa, a um canto, e vinham em cima amadornar-se, plcidos todos e
delidos como um sol de outono, todos na mesma calma resignada e humilde,
apagados, doces, tranqilos. Os homens, pelo geral, em camisola e
arremangados, a cabea nua, alguns descalos, estremavam-se segundo as
afinidades de raa, e fumavam, assobiavam, rilhavam fruta, falavam
tmida, espaadamente, como que narcotizados por aquele embalo montono
da vida que, durante dias e dias, havia de baloi-los entre a gua e o
cu. Muitos, num confiado abandno animal, dormiam. As mulheres,
acocoradas, remendavam-se, preparavam tisanas, amamentavam os filhitos
de colo ou catavam os mais crescidos. Numa clareira de escasso prazer,
ao centro, e de roda do mesmo incansvel e folgazo _harmonium_, passava
numa tropeada cantante um crculo folio, danando,--cujas atitudes
pags uma loira e delgada _touriste_ ia esquissando a correr no seu
_carnet_, deliciadamente. E o Silveira fazia a aproximao mental desta
suave chusma humana, na sua conformidade evanglica, na sua
inconscincia fatalista, na sua plcida singeleza e passiva sujeio ao
destino, com os gestos duros, a pupila metalizada, a frase breve e a
sfrega ardncia dos seus insatisfeitos companheiros de 1.^a... e achava
aqueles mais felizes.

Tocava o sol o ocaso, e o Silveira como que via agora, de roda de si, a
uma outra luz, os homens e as coisas, cujos contornos se debuxavam numa
agonia de tda a sua vida exterior, acendidos em tons violentos num
esfumaado fundo de tristeza. Encarou numa instintiva interrogao o cu
e surpreendeu, no seu desdobramento esfusiante, sse maravilhoso e
deslumbrante scenrio cuja amplido magnificente tanto lhe haviam
encarecido.--Era com efeito uma imensa, uma transcendente e apotetica
sarabanda de luz, que mais que aos olhos lhe falava  alma, e que em
parte nenhuma como ali, em pleno oceano, podia abranger-se ntegra na
sua avassaladora majestade, na sua incomparvel beleza, tomando
totalmente meio cu, descendo suavemente do frio azul mineral do znite
a um loiro clido de paixo, para depois,  raz do mar, inflamar-se em
_sanguneas_ vigorosas, esbrasear-se em lnguas de incndio. Na difuso
ofuscante desta aurola de sonho, as _walkirias_ fantsticas de nuvens,
encapeladas crca do horizonte, debruadas por aquela gama infinita de
cres, facetadas nas mais atormentadas e imprevistas formas do relvo,
tinham movimento, tomavam volume, inteno, vida, alma, carcter,
improvisavam grupos que eram smbolos, formavam cruas oposies,
saltavam em rondas caprichosas; e por fim tda essa manante claridade
sideral despenhava-se, como um Niagara de oiro, macia, translcida,
impecvel, sbre a imensa alfombra rtila das guas. A, na linha
molhada do horizonte, o mar era fogo lquido, e nesta enorme brasa,
crespa e fluda, a granada quse extinta do sol estrelava-se ainda para
o alto num imenso leque de violeta e oiro, que a algodoada capela das
nuvens contornava, e cujas ltimas trepidaes vinham, crepitantes e
dispersas, morrer pelas silhuetas errantes, pelas escaiolas claras,
pelas arestas vivas do navio arfando... ao passo que j, pelo difano e
desbotado azul da metade oposta do cu, da penumbra vaga do oriente, o
plcido vu da noite vinha subindo.--Era tda uma revelao esta soberba
e inimaginvel orquestrao area de aspectos, de formas e de tintas;
convertia num absurdo a impassibilidade tradicional do cu, fazia-nos
crr na clssica sublimidade da vida olmpica dos deuses, dava-nos como
que a sensao viva do Infinito.

Seguia o Silveira desta hora doce e imensa a magia incomparvel, quando
sentiu um toque familiar no ombro, que o fez estremecer. Era o pomposo
Norberto Mackenna, que com um gesto alto e desdenhoso:

--Ento, que faz aqui assim, tam s, meu caro?... Admirando o pr do
sol, no  verdade?

-- lindo!

--_Ya lo creo_.

-- maravilhoso!

Mas, num rebarbativo freio a ste entusiasmo ingnuo, o joven chileno:

--Sim,  bonito, ... mrmente para quem o contempla pela primeira vez.
Mas no nos podemos ficar por aqui!--E ante a muda interrogao do
Silveira, com infatuado ar, esclarecia:--Ora! Nas minhas primeiras
viagens, fartei-me de fixar colises de cres como estas; mas no
passavam de cpias servs, hoje no lhes atribuo importncia
nenhuma.--Plantava-se com intimativo vigor diante do Silveira, que
comeava a imagin-lo maluco.--Porque isto de pintura, meu caro amigo,
tem que progredir, como tudo o mais; tem que radicalmente mudar de
processos, entende-me?... Os valores ticos e estticos actuais so uma
lstima... adstritos como ainda andam  passividade idiota e servil de
gastas formas milenrias. Temos que fazer mais do que ficar-nos a
objectivar interminavelmente as vlhas concepes convencionais da
beleza e do amor. _Hay que poner patas arriba_ a tdas essas frmulas
mesquinhas. Oh, seguramente Picasso, Boccioni, Metzinger, Matisse, esto
na razo! H que derribar por completo, que arrancar pela raz tda essa
floresta vazia e pedante do Passado. Pois se ns temos de roda de ns,
flagrante, inexplorada, imensa, uma nova maneira de criar e de sentir...
Temos que renovar ao mesmo tempo o instrumento e a msica.--E movendo
desordenado a cabea, os nervosos dedos arranhando inspiradamente o
espao, a grenha revlta ao vento:--H que fixar o movimento, a
velocidade, a conquista do espao, o delrio da carreira, a embriaguez
do vo, as palpitaes do ter e as vibraes anmicas, todo ste
travamento voltil e febril da vida, tdas as grandes conquistas
arrancadas ltimamente pelo gnio humano  Natureza inerte e hostil...
No lhe parece?

--Sim, acho que sim...--aventurou maquinalmente o Silveira, que o
escutava indiferente, sem perceber nada, como quem ouve chover.

Entretanto, diante do seu olhar deslumbrado e absorto, e como um eterno
protesto  vacudade insolente daquelas palavras, continuava a
desenrolar-se a beleza perenal dessa agonia de luz dulcssima,
salpicando de brilhos fugazes a capela rasteira das nuvens, que como que
se abriam agora em magnlias, hortnsias, ltos, orqudeas e outras
flores maravilhosas, semelhando um imenso fogo de artifcio imobilizado,
no seu fulvo esplendor e no seu rasgo alado.

Breves horas depois, no _Social Hall_, a prefixada renio do
_Committee_ directivo de _sports_ e festas decorreu serena e
rpidamente. Para ganhar tempo e facilitar trabalho, o secretrio leu um
programa de diverses j prviamente elaborado, o qual foi aprovado sem
discrepncia. Procedendo-se em seguida  distribuo das respectivas
funes pelos membros do _Committee_, Joo da Silveira veio a saber, com
verdadeiro regosijo, que no lhe competia mais do que o encargo de fazer
entre os seus compatriotas de bordo a _qute_ voluntria para as
despesas.--E que no se aceitavam donativos superiores a uma libra.--Por
outro lado, a tarefa era-lhe um tanto ou quanto fastidiosa. De
portugueses, a bordo, o Silveira no se dava conta de mais que alguns,
poucos, pequenos proprietrios e comerciantes, seguramente
republiqueiros... bastava v-los. No lhe era nada agradvel tratar com
essa ordem de gente. Mas, em suma, por uma vez e como eram poucos, a
coisa resultava fcil, afinal. Era um alvio!

Da a pouco, sbre uma das mesitas do _smoking-room_, iniciava le o seu
trabalho, passando ao papel os nomes daqueles que j conhecia, quando
sbito se lhe interpe arreliativamente  luz a figura abundosa e afvel
do dr. Contreras.--No sabia se vinha _molestarlo_...--Tinha um risinho
solcito, de pretendente, ao explicar:--le estava crca, ali assim,
vendo jogar, quando deu conta dle.--E apontava uma mesa de _brigde_, em
que eram parceiros o Mafiori, o Mackenna, um ingls engelhado e esguio
como um arenque sco, e aquele misterioso e derrancado aclito de
_M._^{me} d'Ellery, a qual, complacente, se lhe sentava ao lado, de
perna traada e fumando, num  vontade petulante. O Contreras
continuou:--Estava vendo jogar, por ver... No que fsse _aficionado_.
_Ms bien le gustaba_ tratar com as pessoas de verdadeira distino. Oh,
sem favor nenhum! Por isso tomra aquele atrevimento.

E levemente incrdulo, dobrando-se para o Silveira, com o olhar astuto:

--_Es usted republicano_?

O Silveira teve um gesto solene de protesto. E servilmente o outro:

--Ora! via-se logo... Podia l lr por semelhante cartilha _un
caballero_ tam distinto! Eu, que sou eu, p'r'aqui um pobre
_come-meajas_, e com republicanos tambm nunca quis nada. _No parto
buenas migas con ellos_. Gente sem modos, sem educao... Nem a
rpblica, meu caro sr.,  para ns.--Dogmticamente confirmava,
arregalando os olhos:--Veja o que ela durou em Espanha!--E, com
dulcerosa expresso, batendo a espalda do Silveira:--Pois, meu caro
amigo, fao votos para que sse grande dia da restaurao lhes venha
breve.

O Silveira poisra a pena e erguera uns grandes olhos de esperana para
o generoso interlocutor, seguro senhor agora da sua grata simpatia, e
que com abandno familiar, sentando-se:

--Diga-me, meu amigo... le a rpblica portuguesa sempre suprimiu as
condecoraes?

--Suprimiu tudo!

--_Es lstima_...--comentou, de plpebra murcha, o Contreras; e depois
duma pausa, coando a barba, tmidamente:--Eu muito gostava de ter uma
condecorao portuguesa!

--Sim? Pois deixe estar, que quando a coisa volte...

--_De seguro_, promete?

--Alcano-lhe uma... a Conceio, por exemplo. Palavra!

--Ah, que agradecido eu lhe ficarei!--lamuriou o Contreras, enternecido,
de mos erguidas.--_En cambio_ tambm prometo fazer-lhe _un regalo, un
regalo precioso_...

Achegou-se e com afvel intimativa, muito em segrdo:--Dou-lhe uma das
carabinas apreendidas aos monarquistas portugueses, de que me fez
presente _el alcalde_ de Vigo, grande amigo meu...  uma carabina
autntica de Toledo, como aquelas que os jornais disseram que o govrno
espanhol havia vendido para o Paraguay...--Aqui ria grossamente,
mostrando a rala devastao dos dentes:--Para o Paraguay, hein... No
foi m _broma_ essa!

E outra vez srio, e com um encarecimento hipcrita, premindo o pulso ao
Silveira:

--Uma preciosidade, uma verdadeira pea de museu... Era do Paiva
Couceiro.




III


Na manh seguinte, ao _lunch_, j ao lado de cada talher, no comedor,
havia a lista dos passageiros e do pessoal de bordo, em papel
assetinado, impressa lindamente, e, junto, o Programa detalhado _of
games and sports_ para durante a viagem. A primeira sesso,--jogos sbre
a tolda,--realizar-se-ia j nessa mesma tarde. Por isso, o Silveira
havia visto, logo de manh, um grande quadro negro posto a prumo no
_Social Hall_, o qual era destinado  inscrio geral dos jogadores, e
que em menos duma hora aparecia abundantemente garatujado de caligrafias
exticas, hieroglifando nomes brbaros. Agora, no comedor, o Silveira
demorava com particular agrado a ateno sbre a beleza daquela
composio tipogrfica feita a bordo, e no ntimo rendia o seu mais
admirativo preito  celeridade e  limpeza como tudo ali assim
caminhava.

A seguir, e quando, postos de lado a Lista e Programa, desdobrava o
guardanapo para principiar a comer, o Silveira notou que o tenente
Euclides o mirava com uma expresso singular, entre alviareira e
irnica, alegremente. E como a insistncia maliciosa dste prazenteiro
olhar se prolongasse, levemente intrigado le ento aventurou:

--Como o nosso Euclides est hoje contente!

O brasileirito fez uma pausa de importncia, e depois olhando-o fito,
com um cocegante ar de mistrio:

--Tenho uma grande novidade a dar-lhe!

--Coisa ba?

--Bem agradvel, creio, lhe deve ser...

--Homem, diga l! desembuche,--comandou, j tambm interessado, o
Contreras dando um murro na mesa.

Porm, numa suave negativa de cabea, o tenente Euclides:

--Nada! O meu amigo perdoar... mas  assunto s p'r'os dois. No pode
ser...

O Silveira, razovelmente intrigado, reptava-o a que falasse. Curioso
por igual mas comedido, o nobre Mafiori, num protesto mudo de discreo,
levou a mo ao peito, fazendo luzir as unhas. Porm, a tudo resistiu a
alviareira e enigmtica expresso do brasileiro, que se manteve
impenetrvel.

Por fim, quando em cima, no salo, o Silveira, devorado de impacincia,
voltou a interpel-lo, o bom Euclides aclarou:

--No sabe voc?... J sei quem  o nosso misterioso argentino!

--De-veras!?... Falou com le?

--Sim! falei...

--E com as filhas?

--Tanto, no. Mas poder voc faz-lo... Est aplanado o caminho.

--Ento? ento?...

E ante os olhos interrogativamente abertos e a bca espectante do
Silveira, o amigo Euclides segredou-lhe ento, por entre cautas miradas
em trno, espaadamente,--que se tratava, no dum argentino de nascena,
mas dum vlho escandinavo, o dr. Justus Wimeyer, h trinta anos
estabelecido no formoso pas Del Plata, para onde viera, moo ainda,
exercer a advocaca, e onde fra cumulativamente jornalista e pedagogo,
sendo agora professor jubilado da Universidade de La Plata, grande
proprietrio no norte e homem de fortuna.

--Como diabo soube voc tantas coisas?--exclamou, maravilhado, o
Silveira, sacudindo a cabea numa comoo de espanto.

--Pelo comandante do vapor, que mo apresentou,--o Euclides aclarou
singelamente.

--E que santo fez sse milagre?

--Milagre nenhum...  que o homem  um grande fillogo, pelos modos;
conhecedor profundo da especialidade e tendo a mania da derivao
scientfica das lnguas. Quere obter certas indicaes prosdicas e
sintxicas sbre o portugus. Uma madureza como outra qualquer.

E, dizendo, Euclides Pereira ria bonachonamente. Mas, sbre brasas, o
Silveira:

--E depois? e depois?...

Que, depois,--continuou, aprazivelmente irnico, o brasileiro,--depois,
a pretexto de le falar portugus, aquele celebro, rompendo com a sua
engomada reserva, pedira para ser-lhe apresentado. E vai ento le, para
se descartar da estopada e simultneamente fazer um servio a um amigo,
escusra-se, alegando a prpria incompetncia, e inculcra-o a le,
Silveira, como um chavo na matria.

--O qu!?--bradou ste, num salto de pavor, mas no ntimo radiante.

--Assim mesmo!--confirmou jubilosamente o amigo.--A estas horas voc 
considerado pelo homem como um verdadeiro achado. Que mais quere?...--E
levemente mordaz, batendo-lhe no ombro:--Agora, veja l como se porta.
Olhe que eu disse que voc era um grande professor.

--Quere no que a fez fresca!--lamuriou, atarantado, o Silveira,
rascando a testa.--Indicaes prosdicas, sintxicas... sei l o que
isso ! Estou bem aviado!

--Ande, vamos!

Foram encontrar o dr. Wimeyer no mais discreto recanto do salo, frente
a uma mesa, sentado gravemente. No seu invarivel traje negro, e
gordote, rosado, o sulco devastador das mltiplas rugas cortando em
fundas ranhuras a descada oval do rosto totalmente escanhoado, com o
seu ar didctico e tranqilo le parecia desfiar coisas transcendentes a
dois desconhecidos, igualmente vlhos, que num religioso xtase o
escutavam.

Mal que viu aproximar-se o tenente Euclides com o amigo, o grave
perorador interrompeu a douta parlenda e ergueu-se, a receber
urbanamente os recm-vindos. Houve uma ligeira tremura de aproximao
feliz no seu primeiro aprto de mo ao Silveira. E, depois de todos
mtuamente apresentados, e convidados o Silveira e Euclides a
sentarem-se, retomando a palavra, o dr. Wimeyer explanou com grave ar
doutoral, num francs correctssimo:

--Eu estava expondo a stes srs. a minha teoria sbre a morfologia
secular das lnguas.  a qumica do pensamento.  uma coisa evidente,
racional, matemtica, infalvel. Falta-lhe um novo Lavoisier a consagrar
a sua axiomtica divulgao pelo mundo... As lnguas no so mais do que
puros agregados... atmicos, por assim dizer. Creiam nisto...  das
relativas combinaes e reaces dos elementos radicais e fonticos
dumas e outras que deriva a seriao fatal do seu parcelamento.

--Mas, como se explica ento a formao caprichosa, arbitrria, de
tantos idiomas e dialectos?--aventurou, com timidez, um dos vlhos
ouvintes.

--Ora essa! So as migraes, so os embates dos povos,  a aco das
latitudes, dos climas,--aclarou o vlho pedagogo com deciso, a fria
pupila azul momentneamente acesa.--Nada h a de arbitrrio. Tudo
obedece ao jugo imutvel de grandes leis de que ando perseguindo o
segrdo. So afinidades que se exteriorizam, so electrons tnicos que
se expandem. E so stes biolgicos reagentes que lenta e fatalmente
opram o desdobramento das razes primitivas em grupos progressivamente
diferenciados, na _tessitura_ incomovvel dos quais se vo manifestando
e impondo ento modismos e qualidades peculiares, que l residiam j no
estado latente. Vejam, por exemplo, entre o sanscrito e o grego, entre o
celta e o latim, entre o mosrabe e o portugus...--E aqui, enviando uma
terna olhada ao Silveira:-- sbre o que eu tenho que pedir bastante 
sua amabilidade, meu confrade ilustre, meu nobre amigo.

O Silveira fez-se plido e tartamudeou um vago assentimento.

Veio tir-lo do embarao uma cantante voz feminina, clara e virginal,
que junto do dr. Wimeyer e no mais puro francs, aventurou com meiguice:

--Poderias conceder-me um momento, papsinho?...--E logo, um pouco
perturbada e dobrando-se, ao notar a assistncia:--Ah, perdo... mas eu
no queria desarranj-los.

Perante a deslumbrante apario, o Silveira ps-se de salto em p,
aturdido, louco de prazer. As fontes latejavam-lhe, via tudo em
branco... Mas j o encadernado professor estava de p tambm e
cortsmente solicitava vnia para ausentar-se. Apresentou com
simplicidade  filha o Silveira, que, mudamente implorativo, se lhe
interpusera no caminho.--Era Irne, a mais nova das duas... A doutora
da casa,--sublinhou o pai com afvel desvanecimento. E da a instantes
seguiam os trs, fcilmente acamaradados, para a coberta de bombordo,
onde o dr. Wimeyer, na sua experincia de vlho viajeiro e por ser ste
o flanco menos batido do sol, havia sensatamente marcado cadeiras para a
famlia. A estavam, reclinadas molemente numa atitude elegante de
abandno, a espsa do professor, D. Catalina, e a filha mais vlha,
Dolores,--esta lendo uma qualquer Revista ilustrada, aquela imersa em
repousada beatitude. Pai Wimeyer apresentou-lhes com um sorriso
protector o Silveira, a quem fez mesmo depois sentar na sua cadeira,
entre D. Catalina e Irene.--Que sorte!... nem de propsito...--E,
trocadas algumas palavras a meia voz com a mulher, pronto voltou para o
salo, a reatar a sua voluntria catequse interrompida.

O Silveira ficou ento s e inteiro senhor do campo, na sua tam
apetecida situao junto das trs senhoras. Encareceu com lisonjeiro
calor o seu inexprimvel prazer de travar conhecimento com uma famlia
_tout--fait distingue_ como aquela: assim lho haviam afirmado e via-se
logo... Na mais amvel solicitude, buscava pela louvaminha _ outrance_
insinuar-se. E com um desvanecimento entre altaneiro e ingnuo, D.
Catalina corroborava, explicava ento,--que era argentina, aparentada
ainda com os Alvear, uma das raras famlias de aristocracia autntica
que podiam contar-se no seu embrionrio, no seu mesclado pas de
_chacareiros_ sem passado e adventcios sem escrpulos. Regressavam duma
viagem de recreio, de seis meses, pela Europa.--E, a propsito, iam
preguiosamente arrastando sse mais ou menos sabido travamento de vagos
comentrios, de estribilhos banais, tda a sorte de frases feitas, sbre
os encantos de Paris, as maravilhas da Sua, as preciosas coisas da
Itlia. Neste terreno fcil de consabidas baboseiras, o tacanho
Silveira, que tinha viajado algo e no era de todo alheio ao francs,
acompanhava as trs senhoras lindamente. Mas,  medida que o dilogo
aquecia, o esprito vivo e original de Irene estremava-se, tinha um
critrio seu, lampejava em pontos de vista pessoais, em contornos por
vezes imprevistos. Discreteava com elevao sbre coisas da arte e do
esprito. Em tda a Itlia, nada a cativra tanto como Florena.--Que
ambiente divino! Ali tudo era fino, harmonioso, tocante, puramente
lanado e superiormente belo.

-- certo. At as mulheres...--arriscou, com instintivo acrto, o
Silveira.

-- a cidade de mais deslumbrante e copiosa tradio espiritual. Da sua
arte divina a mesma Natureza  tributria.  o corao do
mundo!--epilogou Irene com brio; e depois, voltando a fechar-se na sua
tmida reserva habitual, singelamente:--Mas tambm, a propsito de arte,
deixe-me dizer-lhe que admiro muito, que aprendi imenso neste rpido
estudo da arte europeia, no h duvida. Oh, mas  uma arte demasiado
sbia, uma arte tda facturada e etiquetada de antemo, um curso forado
de _savoir-faire_ em que os rasgos de gnio so espontados como se
castigam as diabruras dum menino mal educado. Falta-lhe a
espontaneidade, que smente o vio criador dos pases novos poder
voltar a restituir-lhe.

--O qu! tu crs na possivel afirmao duma arte americana,
_ch_?--acudiu a irm de Irene, parando de lr, num desdem incrdulo.

--Tanto como creio em Deus!  uma questo de tempo.

O Silveira prometeu-se interiormente consultar sbre o caso o Mackenna.
E grado e grado a conversa do grupo tomava vida, cr, intersse, e
travava-se mais quente e familiar agora, no relativo isolamento em que
os ia deixando a debandada geral; pois tudo correra a estibordo, a
presenciar o primeiro nmero dos jogos sportivos. E  de saber que entre
os mais entusiastas e ligeiros _aficionados_ passou a pequenina e
desmanchada figura de Ramn Alvarez, o qual, ao ver assim de sbito o
Silveira j mano a mano com as trs sechoras, teve um saltinho de angur
e fechou num piscar de olhos patusco a parpsia do seu espanto.

No pequenino grupo amigo de bombordo, depois de arte e de modas,
falou-se na variedade, na magnificncia e beleza da paisagem europeia,
na doirada opulncia da sua luz, nas carcias infinitas do mar, nas
perspectivas majestosas da montanha. Mas tambm aqui a longa e
espiritual Irene discordou, e erguendo froixamente o brao, sempre na
mesma toada modesta e simples:

--A est outra coisa... Quanto a esplendores de paisagem, a
deslumbramentos e pontos de vista inditos, ho-de-me permitir que
discorde; porm tenho minhas restries a fazer.--E com a expresso
sincera e calma, sob o olhar atento da assistncia:--Eu no sei...
talvez seja por efeito de haver nascido num pas horrivelmente chato e
montono, mas a verdade  que no meu conceito a Natureza, ao contrrio
dessa apregoada opulncia, dessa mirabolante fecundidade e viva sucesso
de aspectos que tda a gente lhe atribui,  duma indigncia manifesta de
iniciativa e inveno, no consegue renovar mais que os mesmos
invariveis _coups de thtre_ e os mesmos cansados e gastos
espectculos, seja qual fr a altitude ou o clima. Repete-se a cada
passo.

D. Catalina, no ntimo desvanecida, julgou oportuno intervir:

--L volta esta minha filha s suas originalidades... Por mais que o pai
a corrija...

--_Mamita!_ original, eu?... quando exponho coisas que os outros podem
observar por igual?

--Os outros, no!--objectou Dolores, com mal contido azedume:--Eu pelo
menos encontrei, e creio que encontraria sempre, o contraste mais formal
entre os nevoeiros sujos de Londres, por exemplo, as imaculadas neves
alpinas e as escarpas sangrantes da Siclia.

Mas, na mesma dogmtica singeleza, Irene, de mo estendida, fechando com
o polegar o indicador e abatendo as plpebras:

--Tudo a mesma coisa! No dia em que tu tenhas o corao destroado, essa
cora alvssima dos Alpes aparece-te suja como um trapo servido. O
chamado esplendor do Mundo  tudo quanto h de mais convencional.
Depende de ns... de ns exclusivamente. sse consagrado chavo do
deslumbramento pago das coisas no , no fundo, mais que o espelho da
nossa sensibilidade, o reflexo exterior dos nossos estados de alma.--A
irm e a me sorriam, com um ar incrdulo; e ela, persuasivamente:--
certo! Tal a sensibilidade no nosso ntimo braveja ou esplende, tal
vemos de roda de ns a vida. So as mais das vezes as vibraes
cantantes do nosso mundo interior que ao mundo exterior emprestam todo
sse decantado brilho objectivo.  um esplendor de emprstimo. Sem ns
no valeria nada.

--Est bem, est bem...--comentou D. Catarina, prolongando um risinho
irnico em que havia um mal reprimido brilho de vaidade.

De sua banda, o Silveira, de olhos muito abertos e no sabendo que
contestar, limitava-se a assentir com vagos acenos de cabea,
idiotamente.

Assim,  medida que o dilogo ganhava intersse, ia-o Irene esmaltando
de notas originais, de impresses verdicas e frescas que ela extraa e
desdobrava do ntimo, como um perfume que impregnasse o seu sangue,
espontneas, vivas, palpitantes, e que deixavam o Silveira imerso num
atolondrado mutismo, por serem coisas impenetrveis  sua ignorncia e
inacessveis ao seu critrio. Entretanto, o seu temperamento sensual,
agora, acobardava-se... sofria a influncia transcendente e dominadora
daquela nobre e espiritual figura. Irene inclinava-se de preferncia
para le, naturalmente, e naturalmente ia desfiando os seus amveis
paradoxos, sempre com a mesma voz lmpida e virginal, em frases breves
como toques de pincel, vincadas pelo acento imperativo das inquietas
mos, incendidas no lume sideral das grandes pupilas sombrias. E era
como se na espiritualizao crescente das frases e dos conceitos a sua
indumenta animal gradualmente se fundisse. Tda a impresso de matria
desaparecia... os seus olhos eram reflexos de astros, os seus lbios
eram tintas de emoo, os seus braos eram volutas de sonho; e um nimbo
de harmonia dulcssima emanava, como um fludo mgico, de todo o seu
atenuado ser, simples e tranqilo. No obstante, junto dela o corao do
Silveira, como se aspirasse um ramo de flores de aromas violentos, batia
mais apressado.

Por fim, quando, passado algum tempo, as primeiras velaturas do
crepsculo comearam a abater sbre o barco o seu vu de tristeza, D.
Catalina ergueu-se, com as filhas, pedindo vnia para
retirarem-se.--Aproximava-se a hora de comer.--Houve uma afectuosa
sadao de despedida,--para Irene a ltima,--e depois o Silveira,
imvel e em p no mesmo logar  medida como ia vendo esta fina, longa e
clara figura esfumar-se na luz fugacssima da tarde e delir-se na
distncia, tinha a iluso de que ela no era mais do que uma pura
abstraco, imaterial, intangvel, como le se lembrava de ter uma vez
lido de Pierrot,--que nascera da projeco de um raio de luar sbre um
muro branco...

Essa noite levou-a deliciadamente o Silveira, embalado na casta volpia
dum vago e alado sonho, erguido nas esprulas de oiro dum alheamento
alto e inefvel. A abluo espiritual daquele curto dilogo com Irene
afinra-lhe o sentir, infiltrra-se nas mais nobres e puras radculas do
seu ser, e como que alimpra por momentos a sua alma fruste das escrias
brutais do instinto. Na manh seguinte, ao despertar, notou que o
_Almeria_ ralentra a marcha, e que lhe montava ao corao e lhe toldava
o crebro o que quer que fsse de opressivo e clido. Ganhava-o a
depressiva molenta do aproximar dos trpicos. Pela ventanilha, mesmo da
cama, olhou ao largo e viu que barrava crca o horizonte uma espcie de
ciclpico muro negro. Era o arquiplago de Cabo-Verde,--recordou.
Lentamente, com uma delidora quebreira nos msculos dormentes, reagiu,
ergueu-se.--Em cima, na tolda, no havia sol, e a luz diluia-se em
grisceas e densas toalhas, dispersa como andava no peneiramento molhado
da neblina, cortada como era por sse formidvel circuto de montanhas
ridas e a prumo, escalando sinistramente o espao. No se divisava em
tda esta imponente massa, de runa e de sombra, uma nota clara, um
cntico de luz, uma choupana, um rebanho, uma rvore, qualquer perdido
_oasis_ de frescura e de repouso. Era o repdio formal da Natureza.
Dentro dste revlto anfiteatro de maldio e de treva, o mar, fundo,
plcido, dum tom uniforme de pz com espelhamentos lvidos, parecia
amortalhado, era como um lago dantesco estrangulado na convulsa
paralizao dum cataclismo. E tudo falava de desolao e de morte neste
atormentado prtico do Averno, nesta monstruosa cavalgata petrificada,
pasagem de pesadelo tda em pontas speras e hostis, em escarpas que
davam vertigens, em agulhas topetando o cu, em rampas escalavradas e
adustas; terra de abominao onde a vida parra por completo... arestas
sbre arestas, abismos sob abismos... e cuja trgica insensibilidade o
mar, com os seus mansos rolos, buscava em vo comover, mandando-lhe o
acariciamento deslumbrante das suas franas de espuma.

Mal tinha o barco lanado ferro e j era simultneamente invadido, a
bombordo e a estibordo, por um duplo cordo de negros,--puros bronzes
vivos,--geis, luzentes, hercleos, a maior parte vestidos apenas dum p
ainda mais negro do que les, e que trepavam lestos  amurada ou
marinhavam pelas cordas como smeos, para deixar-se escorregar depois
sbre as vrias cobertas, trejeiteando, garatujando, saltando e em
risinhos duros, como de canibais, mostrando o impecvel marfim dos
dentes. Eram os carregadores de carvo que acudiam  faina. Porm,
seguidamente, da ensurdecedora algarada que subia do sem-nmero de
pequeninas embarcaes rodeando, em baixo, o vapor, um outro impdico
enxame de simiescos trues agora surdia, igualmente geis e negros,
igualmente nus, mas stes na maior parte ainda impberes, limpos e de
formas delgadas, desdobrando na sua extica invaso adorveis linhas de
graa gentlica,--e todos na vibrante impacincia de disputar pelo
mergulho a caa das moedas que de bordo os passageiros lhes atiravam,
por divertir-se. Uns da casca frgil dos botes, outros pelas enxrcias e
mastarus do vapor suspensos, toda esta coreia juvenil se agitava
sfrega, todos pediam clamando, cabriolando, encrespando a figura,
erguendo os joelhos, batendo as mos, desmanchadas nas mais inverosmeis
atitudes, zurrando tda a classe de rudos brbaros; depois, quando a
tentadora rodelita de prata ou de oiro traava o seu meterico brilho
pelo espao, les atiravam-se a nado, de braos em ponta, como flechas,
havia um abundante chapinhar nas guas, e da a segundos um dles
reaparecia, amostrando e apertando a codiciada moeda na ponta do focinho
triunfante.

Com tda a sua abominvel selvajeria, o espectculo tinha um
impressionante sabor pago a que o Silveira no pde manter-se alheio.
Seguiu-o por algum tempo com agrado, vibrando ao contagioso estmulo
daquele torneio brutal de agilidade e de fra; e apenas, uma que outra
vez, ao lembrar-se de Irene, olhava receoso em trno, tomado por ela dum
instintivo pejo... no apreensivo temor de quanto o seu virginal recato
por aquela impudente exibio animal se sentiria ofendido.

Nem ela, nem ningum dos Wimeyer apareceu, felizmente. O Silveira
descortinou porm, no sem uma certa surprsa, gozando muito compadres
aquele _sport_ brbaro, Helena d'Ellery e o Mafiori, ombro com ombro, e
furtados discretamente ao besbelhoteiro rodeio das atenes no mais
escuso ngulo da r, em cima, sbre a ltima coberta.

Um vlho negro, derreado e esqueltico, se lhe acercou entretanto,
ofertando produtos da indstria rudimentar do pas: colares, anis e
broches de coral, saquitos de junco, blsas de sementes luzidas e duras
como azeviche, grossas gargalheiras policromas tecidas de conchas, de
corais, de pedras polidas, de caroos de plantas indgenas e gomas
aromticas. Exprimia-se com dificuldade, gaguejando e mascando, num
galimatias gutural todo em monosslabos, adulterao burda do portugus,
cortada, spera, intraduzvel. De roda, uns tantos mais mercadores
mendigos, como ste, circulavam tambm, oferecendo laranjas, bananas,
ccos. E, vista assim de perto, a hirsuta e negra turba perdia aquela
nativa selvajeria da sua primeira investida feroz ao vapor; buscavam
suavemente comover a esquiva indiferena dos clientes, em gestos no
isentos de docilidade, dobravam-se tmidos, humildes, e apenas se lhes
traa a braveza inculta da condio no vido dilatar das chatas narinas,
na escrutadora dureza do olhar astuto.

Entretanto, por efeito do transbrdo do carvo, ganhava mais e mais a
imobilidade gorda do ar um p negro finssimo, impondervel, que tudo
inquinava, que tudo afogava, que tudo invadia, e que levado na asa
fuliginosa do seu irresistvel poder emporcalhante, no havia brilho que
le no apagasse, no havia limpa claridade que le no pontilhasse de
sombra. Ento o Silveira, que comeava a ver o seu rico fatinho claro
salpicado e mordido de minsculas lminas negras, como coleopteros
daninhos, teve que renunciar a seguir aquela picante aproximao de
Helena e do marqus, e resolveu deixar a tolda e internar-se no salo,
seguindo o exemplo do maior nmero. Mas a logo, do canto duma mesa, o
pequenino Ramn Alvarez a cham-lo em grandes gestos, com uma intimativa
insistente, quse aflita.--Queria em primeiro logar felicit-lo... Que
bem dirigido assalto, que sorte fulminante! Estava um outro Jlio
Csar... Magano!--Depois, ao notar a expresso de desagrado do
Silveira, numa brusca reviravolta, com um tom insinuante e outra vez
aflito:--Que estava muito atrapalhado... Uma andaluza, que era um vivo
demnio, pedira-lhe para escrever um pensamento no leque. E le,
embaraado na escolha, no sabia bem por que decidir-se...

--Tenho aqui tantas, tantas coisas!

E estrangulava nas mos nodosas a cabea descomunal, nesta hora crtica
por fra ardendo em plena gestao de baboseiras.

Da a umas horas, no _bar_, juntavam-se os parceiros habituais do
_bridge_, faltando apenas o marqus, que num estranhvel desmentido 
sua habitual correco, j ia tardando. Faltava tambm _M._^{me}
d'Ellery, e o seu imprescindvel assessor, o vlho bonzo, fazia maaneta
com as mos sbre o paninho verde e franzia a bca exangue, em mal
reprimidos sinais de impacincia.

Ento, manhosamente o Silveira tomou o Mackenna de parte, e por entre um
risinho cheio de reticncias, cujo significado exacto ste no podia
apreender, perguntou-lhe como ia a coisa? E logo, todo jactancioso, o
outro segredava-lhe que ia lindamente! era uma conquista segura...

O intrometido Contreras, que viera familiarmente imiscuir-se na
conversa, tossicou, amolou, coou as barbas, incrdulo. E, com ar
ofendido, o chileno:

--Parece que o amigo duvida?

-- que o vejo tornar as coisas fceis... No se caminha assim. Devagar,
devagar... Entre o pensar e o fazer, _hay que tomar el tranvia_.

--Se queria apostar?

Porm o Silveira, que tinha danando-lhe pcaramente diante dos olhos o
inopinado grupo do tpe da r, naquela manh, encolheu os ombros numa
ironia mansa:

--Eu j no digo nada...


Havia agora cinco longos dias a passar antes que volvessem a avistar
terra firme. Uma largussima sucesso de horas, sempre as mesmas, que
seriam vividas inevitvelmente sbre a clida opresso daquela atmosfera
pesada e espessa, que haviam de arrastar-se numa monotonia sem fim entre
o proceloso encapotamento do cu e a opacidade revlta das guas. Ento,
tda esta grande famlia que o acaso improvisra ali, sbre o piso
encerado das vrias pontes e cobertas, naturalmente, a iludir a
anestesia morna do tdio, vinculava-se, cingia-se mais, buscava a cada
momento pretextos novos de aproximao, lances de mtua intimidade;
teciam-se correntes sbitas de simpatia, havia um efusivo desborde de
galanteios, atenes, franquezas; concertavam-se negcios e
associavam-se intersses;--como se no precrio mbito daquela enorme
jaula ambulante les constituissem um universo novo, como se dentro
dsse frgil circuto de madeira e ao coubessem tdas as suas
preocupaes, planos, sonhos, febres, ambies, desejos... o concrto do
seu futuro e a incgnita do seu destino. Contudo, sobrelevando a
irresistvel sugesto dste acercamento crescente de relaes e
intimidades, o Silveira teve ocasio de notar que as senhoras Wimeyer,
coerentes e imutveis na sua linha de inviolada iseno, no se davam
seno com le.

_Mrs._ Edith, que se havia despido sensivelmente da sua dignidade
senhoril, andava agora tda entregue  divertida seriao dos jogos. O
ardente spro pantesta da desgarrada vida de bordo acendra-lhe a
repousada candura infantil em espontneos mpetos; e a cada passo ela
vinha e interrogava com vivacidade o Silveira, na sua qualidade de
membro do _Committee_, sbre horas, datas e mais circunstncias e
pormenores, que a redonda ignorncia do interpelado tinha que deixar
invarivelmente sem resposta. Ela reptava-o amavelmente, em graciosos
chistes e coquetonas burlas, a que servia de intrprete a complacncia
cnica do marido.--Estranhava realmente no o ver inscrito em nenhum dos
nmeros do Programa. J no dizia, em suma, no _Passo entre as garrafas_
ou na _Luta dos travesseiros_, que requeriam predicados especiais de
agilidade e de fra; mas em qualquer outra coisa... por exemplo, na
_Corrida das batatas_, tam fcil... ou ento no _Combate dos galos_.--Ao
desenho grotesco desta idea, tda a patrcia figura da irlandesa
estremeceu num jbilo: e arrebatadamente, batendo as mos:

--Ah, sim! sim! a est... Queria v-lo de galo... Seria tam
interessante!

Redondamente, o Silveira, entre bisonho e indignado, escusou-se. Ela
ento, num procurado ar inocente e um fiosinho meigo de voz, cheio de
promessas:

--Bem, mas promete-me que vai ao menos inscrever-se no _Enfiar da
agulha_.  fino!  lindo!

E com um risinho provocador a erguer-lhe a prpura sensual dos
lbios:--Que fsse, que fsse... que ela lhe procuraria a vitria.

Avizinhava-se a passagem do Equador, que seria celebrada a bordo por um
grande baile de fantasia, antecipao muito a propsito do Carnaval, que
vinha prximo, pois tera-feira gorda era j cinco dias depois da
passagem da linha, por alturas do Rio de Janeiro. Prometia vir a ser
ste Baile o nmero mais brilhante do Programa das festas, e, dois dias
antes, j a populao feminina de bordo quse se no preocupava de outra
coisa. Haveria prmios, adjudicados por votao geral; e admitiam-se
duas classes de trajes de disfarce,--os improvisados a bordo e os
trazidos j entre a bagagem. De famlia para famlia, de grupo para
grupo, fantasistas, curiosas, insistentes, as interrogaes cruzavam-se;
porm, naturalmente, cada um furtava-se, guardando absoluta reserva, e
ento as mais aventurosas hipteses, as mais abstrusas e sltas
imaginaes cresciam e batiam asas, como borboletas demandando a luz, de
roda dste fechado crculo de mistrio. Boquejava-se apenas que o
Alvarez preparava um nmero de sensao; que Pilarita Gomez, a
desenvolta _morenucha_ que le cortejava, figuraria, a conselho seu, num
_travesti_ algo picante; _Mrs._ Edith resistia inflexvel s inquiries
dulcerosas do Silveira, que apenas conseguiu registar a renovao
freqente das conferncias dela com o cabeleireiro; e sabia-se que a
petulante d'Ellery ostentaria um primoroso traje de odalisca. Por sinal
que, como ela, uma noite, na pequenina tertlia habitual do _bar_, se
lastimasse de que lhe faltava um adrno a condizer, para a cabea, logo
todo solcito e importante o Mackenna prometteu arranjar-lhe uma linda
pea a propsito, meio turbante, meio diadema, havia de ver... qualquer
coisa de abracadabrante, de sumamente artstico e grandemente
extraordinrio. E o caso foi que, na manh seguinte, le a vinha
instalar-se afanoso a uma das mesas do salo, munido de tesoura,
compasso, rgua, esquadro e um frasco de cola, e sobraando um volumoso
fardo; e convertia abusivamente ste liso rinco do _Social Hall_ em
oficina, logo extrando dessa boceta de Pandora pelintra a mais
desconcertante, a mais imprevista miualha, rodeando-se por um abundoso
aparato de flhas de lata, de carto, de vlhos retalhos de cachemiras,
sdas, veludos, de lantejoulas, sequins, rolos sujos de algodo e tiras
de papel doirado. E dois dias pegados levou ali assim, riscando,
talhando, cortando, ageitando, unindo, compondo prgas, chumaando
relevos... enquanto limpava aodado o suor e arredava a melena, nos
intervalos de pausa benefica que raro lhe concedia a congeminao febril
dos dedos; e sempre espargindo uma nuvem impertinente de ciscalhos, de
trapos, de escrias fulvas, perante a admirao trocista dos passageiros
e a muda indignao do _steward_ da sala, chocado por esta suja
infraco dos regulamentos.

Por fim, naquela quinta-feira de compadres, logo na antemanh, o amplo
convs de bombordo sofria uma transformao completa. As cadeiras de
repouso haviam sido recolhidas aos flancos, e agora a marinhagem fazia
quele largo recinto um emparedamento vistoso, colgando-lhe em trno
bandeiras e flmulas de tdas as naes, sujeitas de alto a baixo por
argolas e cordagens, batendo multicolores ao vento. At aconteceu que,
por um lapso alis fcil de explicar, dada a mudana tam recente das
institues portuguesas, a respectiva insgnia que aparecia desdobrada
ao contrno drapejante do improvisado salo, era ainda a bandeira
monrquica. No escapou ste inocente anacronismo ao Silveira, que,
radiante mas cauto, se limitou a esfregar as mos num raivoso jbilo,
felicitando-se no ntimo por ste como que pblico e espontneo
desagravo que aos seus fidalgos brios o acaso, ali assim, vingadoramente
lhe oferecia. Mas o pior foi que da a instantes passaram tambm dois
outros compatriotas seus,--um caixeiro da firma Brando Gomes, de
Espinho, e um agente da Camisaria Confiana, do Prto--adoradores
incondicionais do Baslio Teles e antigos revolucionrios do 31 de
Janeiro, os quais, tomando por uma deliberada afronta internacional
aquela inofensiva exibio da bandeira azul e branca, logo protestaram
indignados e, de caminho passando palavra aos correligionrios que iam
encontrando, breve foram todos levar exibitivamente perante o Comissrio
de bordo a expresso do seu _veto_ colectivo, em termos que o
escandaloso smbolo teve de ser retirado. Enquanto a reparadora
desmontagem se fazia, aqueles dois primeiros estrnuos zeladores da
verdade histrica miravam de soslaio, trocistamente, o Silveira, com a
pupila triunfante. E ste ento, como no havia a nova bandeira
rpublicana a bordo, monogolava com tristeza:--Afinal, a se fica o meu
pobre pas sem representao!--E depois, num soberano ar de desdm, com
um risinho perverso:--Que realmente era como estava bem... que aquilo
agora, com a rpublica, no era nao, no era nada.

Fechado assim por essa improvisada cinta internacional o recinto, a
mesma marinhagem com uma vivaz e alegre solicitude, festoava-o em
abundncia de renques de flores de papel, aplicava-lhe, a multiplicar a
iluminao, pras elctricas policromas. Por ltimo, o piso encerado foi
passado a gis, para garantir a integridade corporal dos bailarinos. E
durante todo o dia pode dizer-se que nesta parte reduzida do convs se
resumiu o melhor da vida de bordo. Os que no trabalhavam, vinham ver. A
certa altura, desceu mesmo a inspeccionar amvelmente o andamento dos
preparativos, a scca figura esquiva do comandante. Tambm os Wimeyer
vieram, num rpido giro, ver todo aquele arranjo, ao que les chamavam
uma diverso _cursi_, mantendo-se altivamente alheios. Ao almo, no
comedor, foi sensvel a ausncia das senhoras. E, fechados como se
mantinham nas respectivas _cabines_, uma ba parte dos passageiros, no
vivo empenho de ultimarem a tempo os seus disfarces, resultava assim
que, por momentos, e a no ser a mancha arrogante de um ou outro
contumaz grupo _sportivo_, o dilatado _stand_ do tombadilho aparecia
deserto.

Ao anoitecer, mal a corneta deu o primeiro sinal para o jantar, logo o
comedor foi assaltado e invadido com uma grossa presteza, como at
quela noite, em tda a viagem, no havia memria.  que a direco do
_Committee_ rogra aos senhores mascarados a fineza de descerem a comer,
trajando j os seus disfarces; e assim os simples _mirones_ davam-se
pressa em ir ocupar os seus postos de observao, na nsia natural de
gozarem bem, desde o comeo, a apario picante das figuras. Da a
minutos, os primeiros mscaras, logo acolhidos com palmas, desciam leves
os cinco envernizados degraus da escada. A seguir, outros e outros,
aquecendo de passo o ambiente do salo, que estimulado por esta ronda
bufona de cres estrdulas, de silhuetas, formas, gestos, smbolos e
brilhos imprevistos, vibrava e estralava de notas alegres, de
comentrios patuscos, de aplausos, vaias, interjeies, pilhrias,
burletas e volatas de risos. E  que havia de tudo nesse desfile
bigarrado e indito: traos ingnuos e arripios brbaros, a trivialidade
e o indito, a brutalidade e a elegncia. Ora, eram selvagens negruscos
que vinham aos saltos, guinchando e rolando, e _boy-scouts_, zuavos,
marujos, _pierrots_, fazendeiros, _gauchos_, tangedores de gaita de
foles; ora, insulsas meninas de bas famlias, que, ao amparo discreto
de consabidas e recatadas formas, vestiam apagadamente de _Fada_, de
_Noite_, de _Minerva_, de cigana ou ledora da _buena-dicha_.

Na mesa do Silveira, s se mascarava o Mafiori, que no acabava de
aparecer. No aparecia tambm, por igual, o Alvarez. A sua endiabrada
Pilarita, numa _louche_ figurao de _apache_, estava lindamente,
adorvel de canalhismo galante e desinvlta graa. _M._^{me} d'Ellery
ostentava uma riqussima tnica oriental, tda oiros e sdas, a cabea
sumia-se-lhe estrangulada no turbante birsamal do Mackenna, e vinha pelo
brao passivo e solene do seu derreado protector, de lao branco e
_frac_, tendo na lapela uma palma de esmalte verde. Tambm vinha em
grande _toilette_, com a espalda provocadoramente nua e altos taces
doirados, a jovem multimilionria Nora Scott, uma histrica mordida de
zelos pela irredutvel esquivana do Silveira. _Mrs._ Edith foi das
ltimas a descer, tda grave e senhoril, a par com a complacncia
orgulhosa do marido. Trajava um elegantssimo _costume_ Pompadour, que
como que a aligeirava, lhe adelgaava a redondeza helnica das formas e
lhe punha asas na figura,--e que era todo le do mais puro bom-gsto e
do mais escrupuloso rigor, desde a maranha luxuriante do penteado, desde
as miuditas flores e as prguinhas leves da saia e _corset_, at s
leves _mouches_ do rosto,  fina pinturilha do leque picado de oiro, e 
tnue e espumosa renda do leno minsculo, amarrotado entre os
dedos.--Oh, que esplndida!--rompeu exttico, sacudido de admirativa
gula, o Silveira, mal que a viu aparecer e batendo palmas:--Bravo!
bravo! Aquilo sim!...--E com a face congestionada, num cotovelo
persuasivo ao Contreras:--H-de ter o primeiro prmio!

Quando, por fim, uma redonda e rija morenita apareceu, com o busto
saltante envolto na bandeira brasileira, os seus compatriotas, postos
sbito em p, aclamaram-na num brado unsono, ao tempo que de todos os
pontos da sala os aplausos estrugiam com delrio. E no atropelado
desdobramento desta slta feira animal, o vasto recinto perdera o seu
frio e composto aspecto habitual, na sua disciplinada ordenana um
tolerante parntesis folio se abrira. Por entre o estrilante chocalhar
das loias e talheres, a cada momento os comensais paravam de comer e os
moos cessavam de servir, cortados e suspensos no contgio truanesco
dste concertante brbaro, fustigado a espaos por frmitos de loucura.
Pouco depois, em cima, ao compasso dum _two-step_ sofrivelmente
semsaboro, _a quu_ cabriolante dos mscaras, desfilando marcialmente,
fez o circuto do tarraco salo de baile. Apareceu ento o Mafiori, que
vinha soberbo, encadernado em mandarim. Porm agora o grande xito da
noite foi para Ramn Alvarez, que idera realmente uma improvisao
feliz,--montado em andas e rodeado por uma espcie de grande roca
cilndrica, feita em madeira leve e de cima a baixo encoberta por uma
tnica de chita roagante,  maneira dos santos de aldeia, na sua terra.
Assim realizava um picaresco _gigantn_, que le animava procazmente, ao
alto, com a autntica enormidade da cabea, prazenteira e afvel
oscilando, tda em mesuras. E nenhuma sorte de mscara ou atenuador
disfarce nesta estadeao impudente da figura. Apenas le avivra a
spia e nankin a dura projeco das feies, e asperisra a poder de
caio e zarco a macieza juvenil da face, tornada assim a raz lgica,
natural, da adusta rubefaco do crnio. Era um prodgio de bom humor
esta valente ampliao caricatural, ste autocomentrio alegre  prpria
disformidade.

Entretanto, de roda,  parede drapejante das bandeiras viera cingido e
compacto inscrever-se o muralho dos curiosos. Grupos surrateiros
conseguiam vir de fra e insinuar-se, impvidos e de p, avivados pelos
rostitos frescos das _midinettes_ da 2.^a classe, trazidas arteiramente
pelos oficiais de bordo a gozar o espectculo. O Silveira no teve
descano enquanto no abordou a irlandesa, para lhe enaltecer numa
mmica eloqente a impecvel distino da _toilette_. E ela,
infantilmente:

--_You like_?

le, incendido e vibrante, confirmava,--que sim,--e sentindo um
desvanecimento ingnuo em acompanh-la, procurava fazer-se compreender,
num desbarato exultante de admirativas olhadas, galanteios, vnias e
lisonjas, que s cessaram quando o imprvido gal notou que as Wimeyer
tinham vindo plcidamente tomar, num reservado cantinho, as suas
cadeiras. le ento desligou-se da irlandeza, e mudando de ttica, forte
no seu propsito de fazer triunfar aquela deliciosa figura, digna de
fixar amorosamente as prodigiosas faculdades de realizao dum Boucher
ou dum Latour, tudo era chamar para ela as atenes, encarecer-lhe a
propriedade impecvel do disfarce, a beleza galante do arranjo, e onde
quer que le visse alguma pessoa do seu trato, na disposio de
preencher a respectiva lista,--fsse embora um quse desconhecido,--a
corria logo a tentar persuadi-lo, a pression-lo com vivacidade, a
suborn-lo pela lisonja, no implacvel desgnio de fazer vingar o seu
desejo.

Grado e grado, porm, a presso sufocante do ar, a aglomerao, o calor,
o contgio ertico das danas, iam determinando na foliona turba um
comeo de enervamento que se exteriorizava em sensveis mostras de
enfado, em estases mrbidos de cansao. J os homens passavam os lenos
pelo pescoo, arejavam o nariz, enxugavam a testa; as ventarolas e os
leques andavam abundantes de mo em mo, sempre na sua palpitao
tremulante de passaritos assustados; e aos compassos convidativos da
orquestra a ronda flamante dos pares ia rareando. _M._^{me} d'Ellery
tinha calor, afogada no largo e fulvo amplexo da sua rica tnica
oriental, molestada sobretudo por essa desgraciosa bisarma que lhe
oprimia a cabea,--uma obstrusa composio da qual, para mais, ela
notava que todos em roda mais ou menos claramente se burlavam. Porque
nesta criao infeliz o Mackenna, fiel aos seus ideais cubistas,
realizara, no o canto harmonioso de curvas que seria a condizer com o
voluptuoso coleamento e as lnguidas suavidades daquele traje magnfico
de sensualidade e de sonho, mas uma desconforme trre de pesadelo, tda
em speras e duras linhas, em rasos planos, em projeces macias, em
cruas e vivas oposies, em ngulos que se penetravam, em pontas que se
hostilizavam, em arestas que ofendiam a vista. Era a cabea do Alvarez
estilizada. Um retalho de pagode primitivo incrustado num ngulo da
muralha da China. Por fim, num gesto de definitiva emancipao, a
insofrida Ellery atirou com o molesto diadema para trs do piano, despiu
a tnica, e provocadora e ardente, com a frescura rolia do busto
bailando agora sob a branca blusa transparente, como lobrigasse perto o
Alvarez,--que tambm se desembaraara do rodap de chita e das andas,
ficando em mangas de camisa,--travou-lhe sbito do brao e rompeu com
le num desenfreado _can-can_, que foi um escndalo para a poro grave
e burguesa da assistncia.

As Wimeyer haviam-se retirado antes; propcia eventualidade que o
Silveira aproveitou para ir valsar com a irlandeza. Depois, como o
momento das votaes se aproximava, ei-lo a de volta na sua furiosa, na
sua amoruda galopinagem, de grupo a grupo mendigando votos, captando
adeses, forando vontades. E o caso foi que logrou o apetecido xito; o
primeiro prmio para os trajes j de antemo preparados foi com efeito
conferido a _Mrs._ Edith, por maioria enorme. Dos homens, alcanaram
naturalmente a primeira votao o Mafiori e o Alvarez. O prmio para o
melhor disfarce feminino, improvisado a bordo, f-lo adjudicar a colnia
dos saxes e _yankees_, por um sufrgio esmagador, a uma inglesa
esnalgada e longa como uma chamin de fbrica, a qual tivera a suculenta
ida de se mascarar, figurando uma espcie de cozinha ambulante,--para o
que se deu ao trabalho infantil de semear e pendurar prdigamente,
doidamente, ao acaso, pela sua vestimenta servil, cortada em grossa
sarapilheira, uma heteroclita profuso de caarolas, tachos, cafeteiras,
abanos, tenazes, ps, colheres, ramos de cebolas, toros de couves,
mlhos de rabanetes, nabos e cenouras.

Entretanto, o Silveira, querendo tirar partido da situao, havia
passado com _Mrs._ Edith ao _restaurant_ improvisado no convs de
estibordo, para celebrar com ela, a _champagne_, o seu triunfo. Breve
apareceu porm o conde a cortar-lhes a efusiva comunho dos _toasts_,
ponderando--que era tarde, tinha sono... e ela tambm devia estar
fatigada.--Bebeu ainda uma taa de _champagne_, brindando pelo Silveira,
e, em grossos bocejos, despediu-se e partiu, amparado em pso ao busto
airoso e leve da mulher.

Os outros comensais, de momento ali, foram tambm passo e passo
desertando; de sorte que, em breves minutos, o Silveira surpreendia-se
quse s e como que restando o nico assistente ainda aos ltimos
acordes da festa agonizante. Sem embargo, no se sentia em disposio de
descer  _cabine_. Aquecia-o uma instintiva febre de movimento; carecia
do rce fresco do ar e do embalo manso das vagas, que lhe mitigassem a
mordente excitao, derivada das mltplas e opostas comoes da noite.
Fazendo ento o giro distrado do barco e erguendo ao alto a espertinada
cabea, fixou naturalmente o seu perdido olhar na imensidade calma do
cu e da sua eterna abbada constelada. Liberta por agora da forte
evaporao do dia, a atmosfera alimpra e despojra-se do vu cendrado
da neblina. Apenas a diafaneidade impondervel do ter se baloiava
entre as sombras vagas do mar e o vago luaceiro do Infinito. Eram sempre
as mesmas constelaes fulgurantes, a mesma pregara de fogo, o mesmo
brilho orgaco, aqui semeado ao acaso por entre flcos de neve ardente,
ali afirmando aladamente no espao o seu fulgor solitrio. Contudo, era
ste um cu diferente do que le estava habituado a ver na sua terra,
era um cu menos povoado, menos esplendente, menos louo, e que por
isso mesmo lhe parecia mais amplo, mais distante, mais solene, mais
profundo. No tam densos e brilhantes se desparramavam aqui, e
distribuidos por outra forma, os pregos de oiro dessa incontvel poalha
sideral, esparsa pelo espao. Seguramente era ste o csmico scenrio
prprio, a divina cpula de proteco adequada s ignoradas regies
aonde le se dirigia, de mudas solides intrminas e imensas extenses
desertas.

Dentro, porm, da relativa parcimnia e o discreto brilho dsse caminho
dos deuses, alguns sis se afirmavam potencialmente em fulguraes
vibrantes. Um dles, principalmente, que bastante acima do horisonte se
erguia tremulante, fascando, ardendo... Um grande diamante azul,
prodigioso altar tendido ao fogo entre os astros e mantido pelas vestais
incoercveis da Via Lctea,--suspenso pomo de luz viva, como que prestes
a desprender-se da abbada celeste, atrado pela noite insondvel do mar
e ancioso por descer a traspass-la com o dardo deslumbrante da sua
claridade, para decifrar-lhe o mistrio e desvendar-lhe os segredos.




IV


Com a ateno dispersa e a alma prendida nesta viva e indita sucesso
de impresses, dos ltimos dias, o Silveira esquecera fcilmente os seus
humildes vizinhos de bordo, e nunca mais a sua grata sensibilidade
estremecera no interrogativo anseio de conhecer bem na essncia, de
palpar mais de perto, os sentimentos, opinies, tristezas, projectos,
angstias, condies e desgnios daquela corda fruste dos seus
presumveis correligionrios, que ali assim seguiam, mesmo a seu lado,
promscuamente esmagados, baralhados, baldeados, delidos no empilhamento
srdido da desgraa. Agora, porm, o vago amadornamento em que a
temperatura tropical como que ensopava as vontades, e as tranqilas
solicitaes que  batida brava dos vrios jogos e diverses
naturalmente se seguiam, dram azo a que na alma dolente do Silveira a
imagem sadosa da Ptria esfumadamente esvoaasse, e, junto, a sacudisse
o comovido cuidado pela sorte daqueles tantos ignorados irmos seus,
atirados, sabia Deus por que duros e encontrados azares, ao traioeiro
baloio da Fortuna.

Por isso, numa linda manh serena e clida, logo a seguir ao _lunch_,
ei-lo que transpe a portinhola gradeada do termo do seu corredor, e se
aventura curioso pela suja e triste coberta da pra.--O mesmo mesquinho
e srdido espectculo de sempre. No seu passivo abandno s ignotas
flutuaes do destino, aquela caravana compacta de obscuros ilotas da
Dr ia e vinha, anudava-se e distribua-se em formaes de acaso, era
como um grosso formigueiro humano, incansvelmente montando e sumindo-se
pelo negro culo que dava ao poro, cavado a um canto, fundo e
insondvel como um abismo.--Porm a inesperada apario do Silveira
causou ali geral estranheza. A descida dste importante, dste flamante
e feliz desconhecido, t as patentes e repulsivas angstias daquela
densa colnia eventual do infortnio, fazia que as suas desprotegidas
camadas, dando-se um instintivo alarme, se repregassem,--uns por uma
vaga e hostil desconfiana, outros como que pelo pejo da prpria
misria. E o Silveira ia passando, ia seguindo compassadamente, manso e
afvel, nos forados torciclos a que o obrigava o atravancamento
pelintra do recinto; ia cruzando os grupos, com o ouvido colhendo,
atento, os cortados trechos do dilogo, com o olhar mirando fito o
desenho e o arranjo das figuras; e, por sentir-se ali o alvo admirativo
das atenes, no ntimo contente. At que, por fim, se acercou
familiarmente dum reduzido crculo de rudes gentes do campo, quse todos
de ps nus, que se lhe afiguraram portugueses, pela linha, pelos trajes,
pela expresso, pelos gestos tacanhos, pelo olhar ingnuo. Eram
patrcios seus, com efeito. E le ento, protector, insinuante:--Que era
tambm portugus e ia para Buenos-Aires. Muito estimava conhec-los... E
queles que seguiam por igual para a Argentina, muito prazer teria em
v-los e servi-los por l...

--_Agardecido_, muito _agardecido_, senhor!--balbuciou, de lbios
confusos, um meio ancio vestido de saragoa, rapado e calvo,
descobrindo-se.

Dulcerosamente o Silveira completou:

--Em fazer-lhes todo o bem que possa.

--Ai, que palavras de anjo! que rico senhor!--exclamou, com a voz
molhada, uma trigueira e rude quarentona, de saia de flhos, cabeo de
morim branco e uns pequeninos olhos doces, perdidos na aspereza da face
enrugada e curtida. E num cotovelo entusiasta ao companheiro:--Ouviste?

ste arrastou meladamente, dobrado numa mesura e parando de rilhar uma
banana:

--No faltar ocasio.

Procurando gradualmente insinuar-se, o Silveira tornou:

--Vem ento procurar fortuna?

--Se aquilo por l est tam mau... senhor!

--Ento?--o Silveira logo comentou, com um risinho perverso:-- o que
vocs ganharam com a rpblica.

--Eu c nisso, senhor, no sei falar...

--le a coisa j l vinha detrs...--aqui se permitiu arteiro observar,
adiantando-se um rapago amplo e forte, de cala de bombasina, camisola
e grande chapu cinzento, enquanto raspava um fsforo no quadril, para
acender o cachimbo.

O Silveira teve uma azda, imperceptvel contraco dos labios.

--Parece-te?

--Sim, que isto  com'o outro que diz...--retrucou, sempre no mesmo ar
intencional e altivo, o marmanjo.--Com rei ou com roque, ns c, os
pobres, ficamos sempre com'o o carrapato na lama.

E aspirava voluptuosamente as primeiras fumaas do tabaco ardendo.

O Silveira, despeitado, manteve uns segundos de arreliativo silncio;
mas logo, dominando-se:

--Bem! pois, repito, naquilo em que eu os possa servir... Interessam-me
todos muito. J vem que vim de propsito para conhec-los.--E num
refinamento interesseiro da sua amvel solicitude:--Qual de vocemecs 
o que canta tam bem o fado?

Houve de roda uma vibrao unnime de envaidecimento alegre.

--O guitarrista? Ah, isso h-de ser ali assim o Matias _gingo_.

--Matias!  Matias!

--_Adrega_ aqui, demnio!

Dirigiam-se a um pobre rapaz, delgado, pequenino e doente, que junto dum
outro grupo, de pernas cruzadas, no cho, estava vendo jogar as cartas;
e que ao ouvir que chamavam pelo seu nome com tam empenhada intimativa,
rolou moroso os olhos, primeiro, depois ergueu-se com dificuldade,
indeciso, e veio por fim avanando, a cabea nua, arremangado, descalo,
derreado e inerte, preguiosamente.

Acolheu-o o Silveira numa efusiva expanso de agrado, ameigando a voz,
erguendo os braos.

--Ora viva l! meu caro Matias.

--Em bem o diga e bem lhe v tambm, senhor,--murmurou com humildade o
recm-vindo.

--Algarvio?

--De Fornos de Algodres, fidalgo.

--E p'ra onde se dirige vocemec? Argentina ou Brasil?

--Com sua licena, vou-me at  Argentina, senhor.

--Bem, muito bem! Palpita-me que ainda l havemos de ser dois bons
amigos.--E ante o olhar oblquo e a bca de espanto do Matias,
batendo-lhe afvel no ombro:--Eu queria felicit-lo pela sua rica voz,
por aquelas tam lindas trovas... cantadas realmente com uma inteno,
com uma expresso, com um mimo e uma f que querem dizer muito...

--Nada, senhor.

--Ora! no me diga voc que as no escolhe, que no exprime nelas o seu
verdadeiro, o seu ntimo sentir...

Mas simplriamente o Matias, de braos pendentes, como um mno,
encolhendo os ombros:

--Eu no sinto coisa nenhuma.

--Ento, aquela _piada_ ao Afonso Costa, na outra noite?

--Sei l! Aquilo  uma moda que anda l na minha terra. Que seja essa ou
que seja outra, que minga faz?

O Silveira estremeceu e os olhos chisparam-lhe furiosos, num repelo de
contrariedade. Os demais sorriam.

--O qu!? pois, verdade, voc no liga maior sentido aos versos? no 
contrrio  rpblica?

-- fidalgo,  que a minha pobre guitarra est um chanfalho vlho, e eu
_mesmamente_ de polticas nada entendo...--E, estimulado pela olhada
atrevida que o homem do cachimbo lhe mandava, o Matias acentuou com
firmeza:--E  como est certo, sim! Que essa gente grada, com o devido
respeito, faz tam pouco caso de ns, que ainda o menos que ns podemos
fazer  pagar-lhe na mesma moeda.

Desconcertado, nervoso, o Silveira mendigava de roda, com o olhar
imperioso e intranqilo, uma simpatia, uma adeso, um qualquer
desmentido a estas descabidas e arreliantes afirmaes, tam longe da sua
espectativa como fra do seu desejo; e como fixasse com particular
insistncia um aldeo alto, espadado e sco, logo ste, singelamente, o
destroado chapu de palha girando na concha das mos calosas:

--Eu c, meu senhor, a minha poltica  ver se alcano a juntar uns
cobres com que possa depois viver tranqilo no meu torrosinho, mal'a
mulher e os filhos. E j que me no fui  frica, malhar nos pretos,
resolvi deitar t ao Brasil, em cata da famosa rvore das patacas. O que
a sorte quiser...

--Quere ento dizer que tambm voc se conforma com essa usurpao trpe
da rpblica?

--Se ela est, j agora deix-la estar.

No ntimo vxado por mais ste desengano, renitia entretanto o Silveira
na sua raivosa inquirio.--E voc?... E tu?... E tu que dizes?--Todos
se fechavam porm no seu invarivel obstinamento humilde; e foi ainda o
moceto do cachimbo quem ps termo ao inqurito, sentenciando
implicativamente:

--Est muito bem! O que  que se ganha agora com mudanas?

E atirava, arrogante, o chapu para a nuca, as narinas e os lbios
fumarando num regalo.

--Scia de palermas!--no se pde o Silveira conter que no exclamasse,
na insofrida exploso do seu despeito.--Por isso haveis de ser sempre os
eternamente explorados.--Deu de roda umas passadas curtas, arrepelou o
bigode, coou a nuca; e depois, conciliadoramente:--Mas, em suma, no
vale zangar... Sou aqui vosso vizinho, e amigo, repito, apesar de
tudo.--Deu dinheiro ao Matias para uma guitarra nova; depois, num largo
gesto altaneiro, ao grupo:--Bem! adeus! Ainda vos hei-de fazer abrir os
olhos.

E desandou bruscamente, perante a indiferena burlona da assistncia.

Da a minutos, em cima, e amarfanhado numa das espssas poltronas do
_Social Hall_, ruminava em desalento ste propagandista infeliz o
imprevisto e burlesco insucesso do seu inqurito, quando se lhe
dirigiram Euclides Pereira e o conde de Horrowby, que precisamente o
andavam buscando. Tinha que descer com les  _peluqueria_, a escolherem
as prendas para os prmios ganhos nos diferentes jogos, e cuja
distribuo solene estava marcada para antes do grande Concrto final,
naquela noite. Era uma diverso a propsito,  quebrantada presso do
seu desnimo. No se fez rogar; e a descem os trs a internar-se na
_cabine_ inimaginvel do barbeiro de bordo,--um cubculo acanhado e
abafadio, batido quela hora ardente pelo sol, com duas exguas
lucarnas apenas sbre o mar, e que alm do mobilirio e utenslios
indispensveis ao completo exerccio da profisso, era todo riscado em
prateleiras, e oprimido, atravancado, estrangulado, povoado de ls a
ls, tomado de alto a baixo, por uma aluvio inverosmil de tda a sorte
de pequenos artigos para negcio, desde as jias, as mil luxuosas
bugigangas de perfumaria e _toilette_, at s peas mais comuns de
vesturio e adrno, e um perfeito arsenal de brinquedos infants. Havia
espao para tudo, menos para o ar, neste pequeno recinto aplastador que
realizava um paradoxal desmentido  impenetrabilidade da matria. Uma
temperatura de fogo e um arranjo de _casa de prego_.

A bonachona espsa do conde chegou ao mesmo tempo. E logo o
mestre-barbeiro,--um francs ruivo e claro como um cacho da
Champagne,--a saltitar vivo e ligeiro em trno dela, pedindo indicaes,
apontando, mostrando, trazendo coisas. A cada nova oferta, que o
meliante sabia alertemente encarecer, a bondadosa e imperturbvel
senhora, sossegadamente, examinava rejeitava ou escolhia, e solicitava
gentilmente o parecer dos seus trs colegas, que se limitavam a baixar
num assentimento corts a cabea. Ento, logo o esperto _figaro_
apartava contente a mercadoria, anotava qualquer coisa no seu _carnet_ e
passava a impingir outro artigo. E assim montona, infindvel, secante
se foi prolongando a tarefa, ste duelo picante de aplicao ferido
entre a esperta indstria do barbeiro e a solicitude impvida da
condessa, insensvel ao calor, refractria  impacincia. No assim o
Silveira, que enjaulado naquela inaco e enervado pela temperatura
asfixiante, mudava de posio a cada momento, tressuava, sentia
tonturas, e ia buscar a incidncia mais favorvel do ventilador ou
abanava-se com duas ventarolas ao mesmo tempo, increpando-se ntimamente
por ter vindo. E neste abrasador suplcio passou uma hora que lhe
pareceu um sculo.

Por fim,  noite, realizou-se no _Social Hall_ a solene distribuo dos
prmios, rodeada dum cerimonial quse diria litrgico, atenta a
dignidade, a seriedade, a compostura, a _tenue_ escrupulosa e as
compenetradas atitudes por todos ali invarivelmente mantidas, desde as
primeiras s ultimas figuras. O mostrurio fascante das prendas
pompeava as suas gulosas tentaes esparso em abundncia sbre uma
grande mesa, colgada de veludo-cereja, no tpo do salo, sbre um
estrado;  roda, exibia-se o grupo esfngico dos membros do _Committee_,
de _frac_ e lao branco, e a condessa de Horrowby, em grande _toilette_,
sentados todos gravemente. Posto em p o conde de Horrowby e feito um
grande silncio, le ento, arqueando numa atenta _reverence_ o peitilho
reluzente, mordiscou por entre dentes _for the select assembly_ um
pequeno _speech_, quse inaudvel,--dobrado e pregado sempre no mesmo
ademn corts, inexpressivo e imvel, os braos longos e hirtos, de
punhos sbre a mesa. A seguir, sentou-se, e simultneamente, como que
impelidos pela mesma mola, erguiam-se a condessa e o capito Stayton;
passando ste a chamar em voz alta os premiados, cada um dos quais, em
traje de cerimonia tambem, avanava, franqueava em respeito o
majesttico recinto do estrado, colhia das palmoiras enormes da condessa
a bugiaria que lhe fra destinada, e retirava mudo e feliz, num vago
atordoamento de prazer, ante as palmas convencionais e os _hurrahs_
complacentes da assistncia.

Seguiu-se o concrto, cujo programa houvera, em ba verdade, um certo
embarao para organizar. No abundavam a bordo os _virtuosi_ nem os
amadores, tornando-se assim deveras rduo o problema de renir e
combinar alguns nmeros mais, alm do chirroteio mercenrio da
orquestra. Prestou o Silveira na apertada emergncia um assinalado
servio, pois conseguiu o concurso difcil das meninas Wimeyer, que
condescenderam graciosamente em exibir-se, por uma ateno muito
especial para com le, executando Dolores ao violino uma melodia de
Schumann, acompanhada ao piano pela irm. Por isso lhes couberam a bem
dizer as honras da noite; assim como ao Alvarez, que recitou uma
desgrenhada elegia sentimental,--_Coraes famintos_,--composta,
informava o Programa, expressamente para aquela noite; e tambm a um
vlho ingls, todo branco, de olhar menineiro e afvel, que se
distinguiu improvisando um humorstico monlogo todo obrigado a
contraces faciais, trocadilhos ingnuos e risveis infantilidades, com
que os seus conacionais gozaram imensamente.

O _God save the King_, pela orquestra, e por tda a sala, de p,
escutado religiosamente, ps o termo de rigor a esta escovada tertlia
da noite.

E foi a ltima diverso do Programa de festas. No dia seguinte ia
comear o progressivo xodo dos passageiros, atingida como seria ento a
costa das primeiras terras do Brasil. Foi, primeiro, Pernambuco,--a
lucilante Veneza tropical,--luminosa e tranqila emergindo, como uma
evocao de balada, da brava fria impotente das ondas, incansavelmente
erguidas, roladas e desfeitas contra a ruiva muralha irredutvel dos
seus recifes; e prolongada depois suavemente, para lste, por uma
fresca, macia e tenussima restinga de terra que pelo mar fra se
estirava indefinidamente em ponta, como uma imensa piroga verde,
empenachada pela umbela grcil das palmeiras, salpicadas de chacaritas
brancas. Foi, trinta horas depois, a esbelta Baa,--o vlho emprio
tradicional do tempo das lusas descobertas,--reclinada molemente sbre
uma luxuriante alfombra de mato e flores, esmagada de trres, pletrica
de igrejas, e quela hora matinal batida e incendiada em cheio pela
carcia gloriosa do sol nascente. Tda a clara cidade assim palpitava,
fulgurava, ardia numa crepitao paroxsmica de cr que emprestava a
sse quente deslumbramento panormico o mais antittico relvo, na crua
passagem do verde espsso e sombrio dos speros taludes, a seus ps
tendidos, para a policroma brbara dos trajes da multido formigando ao
longo dos cais e para as tintas berrantes saltando, ladeira acima, no
anfiteatro louo da casaria.

Dois dias depois,--justo em tera-feira gorda,--j devia o _Almeria_
lanar ferro na incomparvel baa do Guanabara. Era um dos grandes
acontecimentos da viagem. Reganhra agora uma inquiritiva animao a
vida de bordo, onde todos mais ou menos expressivamente manifestam o seu
intersse, todos aguardavam com vivacidade crescente o recorte ferico e
deslumbrante, na linha molhada do horizonte, dessa esplendorosa, dessa
surpreendente e colossal orquestrao de luz, de cr, de exuberncia e
de relvo, que era Rio de Janeiro, a maravilha do mundo. Os nacionais
tinham um legtimo sentimento de vaidade, os estranhos nutriam uma no
menos legtima sofreguido do indito.

Entre os mais interessados e inquietos, era de notar a vibrante
impacincia do joven Mackenna. Porm certo que no era prpriamente a
antecipada visionao das pinturescas maravilhas do Rio que num alvoro
idealista lhe sacudia os nervos de artista; uma outra oculta
determinante havia, mais prosaica, mais animal, a acender-lhe no olhar e
a fazer-lhe correr nos gestos esta sfrega palpitao de todo o seu ser,
irrequieto e vido.  que precisamente no Rio de Janeiro a formosa e
esquiva _M._^{me} d'Ellery ia desembarcar; iam os dois ali separar-se,
talvez para sempre, neste limite fatal posto ao seu ameno convvio; e
assim le tinha forosamente que precipitar a soluo ao seu assdio
galante, nesse apertado prazo de dois dias. Com uma assiduidade, uma
persistncia incansvel, com um calor por vezes audaz, nos ltimos
tempos o jactancioso gal fra apertando gradualmente o seu amavioso
crco, e segundo as mais ostensivas indicaes, com o melhor xito;
porm no obtivera ainda a rendio definitiva. Ao mesmo tempo,
acontecia que o seu feitio demonstrativo e pomposo fizera com que ste
singelo episdio de cortesana banal dsse bastante nas vistas. Havia um
pequeno grupo de besbelhoteiros trocistas que o espiavam; e os mais
ntimos a cada momento lhe disparavam chistes, o estimulavam com
depreciativas aluses, celebravam antecipadamente o seu fracasso,
assediavam-no de burlas molestas e stiras importunas. No havia pois um
minuto a perder. Na prova, ruidosa e fulminante, do seu triunfo estavam
igualmente empenhados a linha do seu amor-prprio e o fogo do seu
desejo.

Foi o motivo pelo qual, na noite dste domingo, o Mackenna imps um
implacvel bloqueio sentimental aos domnios afectivos da francesa.
Havia no convs de bombordo o costumado baile semanal; e o meliante tda
a noite danou com ela, e nos intervalos levava-a ao _bar_, a beber, e
insinuava-lhe coisas clidas e perversas, despedia-lhe frases
imperativas, aventurava proposies equvocas, a tudo o que a ladina
respondia com sorrisos que eram incitamentos, com evasivas que eram
provocaes, com abandonos que eram capitulaes, com estremecimentos
que eram promessas. Mas nada de lhe conceder a aquiescncia ntida,
formal, a uma entrevista. Exasperado ento, mas sempre optimista e
ftuo, o Mackenna deliberou recorrer ao assalto. Seria o supremo recurso
salvador. E filosofava convicto:--Serem tomadas  viva fra era, com
efeito, o melhor prazer para estas taboletas avariadas duma menos que
problemtica virtude. Era o que aquela bbeda queria... Era o mais
seguro caminho. Mas tom-la de surprsa, com xito, como?... Naquele
meio acanhado e bulhento, sem a tcita anuncia dela, era difcil. S se
fsse de manh... O derrancado Sganarello levantava-se tarde; os seus
prros movimentos de tabtico e a indolncia filha do tdio retinham-no
de ordinrio na _cabine_, at muito por sse dia dentro; por ste lado
estava seguro. Se le ento, nessa propcia hora matutina, pudsse
surpreender Helena! mas surpreend-la bem de-veras, apanh-la de
improviso, em condies morais e materiais de no poder oferecer-lhe
maior resistncia...--Inflamado, enardecido, espremia a inventiva,
planizava, rebuscava. E sbito, batendo na testa, com um relmpago
genial na noite ardente dos grandes olhos negros:--Ah, a est! No
banho...--Passou imediatamente ao _deck_ da sua imaginada vtima;
abordou com discreo o _steward_, cuja cumplicidade concluiu por obter
a trco duma ba gorgeta; e recolhendo depois  _cabine_, todo o resto
da noite levou embalado, aquecido na regalada anteviso do saboroso
triunfo que para le seguramente ia marcar o delicioso alvorecer do dia
seguinte.

Na primeira manh ei-lo logo a p, lsto e pimpante, procedendo s
habituais ablues, fazendo uma _toilette_ minuciosa. Depois,
mansamente, deixou a _cabine_ e escoou-se para o corredor, tendo vestido
um garrido _pijama_ todo em borlas, alamares e vizes de sda, a cabea
nua e a perfumada melena ondeando. Sem perda de tempo estava em cima, no
_deck_ de Helena, e aventurava-se afoito ao recinto dos banhos
destinados s senhoras. A trocou um breve e furtivo olhar com o
_steward_, que lhe fez um sinal afirmativo de cabea; avanou gil uns
passos, relanceou em trno os olhos cautos, e tendo-se certificado de
que ningum passava crca, arpoou o boto duma determinada porta com os
dedos trmulos, entreabriu-a... e ia entrar de salto, quando de dentro
estrugiu um grito de pavor, um argnteo e agudo grito feminino, ao passo
que de dentro tambm, acudia sbita e inesperadamente, ante a mirada
atnita do Mackenna, o sobrecenho grave e a mo rosada do Mafiori, a
cerrar a porta.

Foi a bordo um pequenino escndalo. Apesar da sua relativa presteza e
moderado rudo, esta scena picante no passou de todo despercebida. Ao
partir para a sua _donjuansca_ investida, no se deu conta o Mackenna
de que dois dos seus alegres espias, atrados por no sei que
divinatrio instinto, o foram seguindo. E stes, naturalmente, da
esquina do exguo corredor, mal assomando as cabeas, haviam saboreado o
burlesco fracasso da desastrada aventura; ao tempo que, simultneamente,
das portas dos banhos contguos alguns interrogativos bustos surdiam
tambm, ao aflitivo alarme daquele agudo brado feminino. Nem uns nem
outros alcanaram contudo divisar a ponderada silhueta do Mafiori,
dentro da _cabine_,--o que teria sido para a sua curiosidade doentia o
cmulo do regalo. Mas haviam visto o bastante para a ntida compreenso
do sucedido. De sorte que, da a minutos, j a notcia do truanesco
sucesso havia feito o giro alegre de bordo, com fulminante rapidez
solicitada vidamente, de grupo para grupo, e logo passada e acolhida em
acres segredinhos, vivas chamadas e perversas reticncias. E de bca em
bca, ste singelo episdio ia tomando vulto, agrandava, complicava-se;
por ltimo, j afianavam a vingadora interveno do marido, falava-se
em vias de facto. Daqui, uma notoriedade bem pouco invejvel para o
desabusado Mackenna, que arrastava agora pelos recantos mais escusos a
sua vaidade amarfanhada, como um stiro batido, e j no sabia por fim
onde meter-se, certo como era que por tda a parte um malicioso
intersse acolhia a sua apario, logo farto sublinhada de bisbisoteios
de risos, faccias e burletas. As mulheres olhavam-no com piedade
indulgente, os homens com humilhante mordacidade, no isenta de inveja.
E agora a leve e adoidada _Pilarita_, mais do que ningum intrigada e
impaciente, querendo  fina fra saber _lo que pasara_, batia os
psitos e golpeava com os punhos a pequena mesa onde abancava o Alvarez,
o qual se mantinha impenetrvel, enquanto zombeteiro e veloz anotava o
episdio nos seus inseparveis linguados, desorbitado em trejeitos
loucos.

Nesta divertida manh,  hora do almo, nem _M._^{me} d'Ellery baixou
ao comedor, nem o Mackenna. Entretanto  mesa dste, o picaresco assalto
matinal foi o tma obrigado da conversa, apreciado com jocosa vivacidade
por todos,  excepo do Mafiori, que se manteve mudo, bonacho e
plcido como nunca, nos intervalos de comer fazendo bolinhas de po e
mirando desvanecido as unhas.

Pouco tempo depois, em cima, e de p contra um ngulo da amurada,
reniam-se em ntimo grupo o Silveira e o Contreras, com o tenente
Euclides e mais dois amigos. A veio naturalmente  balha o
caso-Mackenna.

--_Picarn!_--comentou ruidosamente o Contreras, desmanchado em grossas
gargalhadas.

O brasileirito, vendo o magno acontecimento pelo seu cndido prisma de
noivo, fulminava-o com sincera indignao, taxando de imperdovel
desafro um desacato assim, quela hora do dia.

--Eu acho imensa graa...  c dos meus!--acudiu, tolerante, o Silveira,
esfregando as mos de contente.

O conde Amglio, que chegra justo ao tempo de recolher as homlias
ingnuas do brasileiro, rugiu ento ameaadoramente.

--Havia de ser comigo.

Todos se voltaram, a encar-lo com fixidez espectante. E le, num
sobrecnho de arrogante desdm:

--Conheo de sobra os processos e os ards dsses pulhastras.

-- conde...--murmurou baixinho o Contreras, mirando cauteloso de roda e
puxando-lhe do brao.

Amglio porm, de olhar duro, alteando a voz, minaz e insensvel ao
aviso:

--Mas conheo-lhes tambm a grande cobardia essencial. Sei que sses
bandalhes no so fortes seno diante de saias.

--Ah, sim?...--interveio o Silveira, picado de intersse,
adiantando-se.-- conde, amigo conde, se no  indiscreo, conte-nos
l...

--Bem simples! Tenho mulher, sabem... Pois nunca hesitei um momento em
lavar com sangue, no campo da honra, tentativas de ultraje semelhantes.

Era agora o Contreras que pvidamente, apurando o ouvido, se acercava;
ao passo que o Silveira, positivamente desconcertado por esta sbita
revelao, no conde, de inimaginados brios, inquiria, em dvida:

--Algum duelo?

--Cinco. Nada menos de cinco.

--De morte?

--No! nunca chegamos a tanto...--aclarou o conde com moderada
importncia; e num assmo quixotesco, arredando as bandas do jaqueto e
enfiando os polegares nos sovacos:--Mas a todos tive a sorte de aplicar
o merecido castigo.

O tenente Euclides voltou-se discretamente, a dissimular um risinho
incrdulo. O Contreras afastou-se, manso e humilde, coando compenetrado
a cabea. De sua banda, o Silveira rejubilava. le desconhecia o conde
neste seu intempestivo disfarce cavalheiresco e brigo; aquelas teatrais
bravatas de espadachim pareciam-lhe uma contrafaco absurda, no as
tomava a srio, no cria nelas.--Minotauro travestido de Othelo, podia
l ser!--E contudo a pundonorosa exploso do conde estimulava-o. Ante a
ameaa cocegante de perigo, um lume de reaco viril lhe afogueou o
rosto ardente, e o seu carcter amorudo e ribaldo espertava, vibrava de
belicosos mpetos, lata de energias novas.--Agora sim!  que le ia
afervorar nos seus prfidos galanteios junto da irlandesa. At 
provocao! at ao escndalo!--A ver se conseguia fornecer ao marido o
pretexto para mais um lance de honra que lhe permitisse, porm desta vez
com sorte adversa, contar a meia dzia.

A chegada ao Rio de Janeiro realizou-se infelizmente de noite. Um pouco
de marejada e o vento contrrio haviam ralentado a marcha do _Almeria_,
que assim, quando lanou ferro, da formosssima capital brasileira
apenas deixava entrever vagas formas de relvo, manchando, amplas e
azis, a imensa tla difana da sua claridade deslumbrante. Muita gente
desembarcava aqui; de sorte que, j horas antes, eram algo de
inabordvel as imediaes do portal, onde se acotovelavam e prensavam
duramente, numa gerarquia brbara, as famlias impacientes por chegar; e
onde, tambm, sbre improvisadas alfombras de lona, se amontoavam, num
grosso empilhamento inverosmil, fardos, malas, caixotes e bas de tda
a espcie, mantas, chapus, parguas, papagaios, cachorros, sagus,
cstos de flores e cabazes com fruta. Por tda a parte havia cmbios
cerimoniosos de cartes de visita, ou efusivos apertos de mo, amveis
oferecimentos, beijos, abraos, risos, tristezas, miradas sadosas,
lgrimas furtivas. Mas aos felizes que tocavam ento o termo da viagem,
havia que agregar ainda os que se propunham desembarcar como simples
turistas, para verem alguma coisa, para gozarem, movendo-se um pouco,
estas quantas horas de paragem benfica do vapor ali; e sobretudo,
sentindo-se dominados pela ardente baforada de loucura que lhes vinha de
terra, para irem ali passar uma ba noite _de garufa_.

Apesar de bastante instado para baixar tambm, o Silveira resolveu
ficar. O tenente Euclides oferecera-se amavelmente a ser-lhe companhia e
guia na cidade, mas por aquela noite smente;--le bem devia
compreender,--a noiva esperava-o com ansiedade, e tinha que seguir no
primeiro trem para S. Paulo, logo na manh seguinte. Por igual os
Wymeyer, tmidamente sondados, redarguiram, com mal contido desdm, que
no desciam... que para quem, como les, vinha da Europa, no valia a
pena. Para mais, a colnia inglesa de bordo, ponderando muito
sensatamente o horror de brrata, confuso e desordem que devia ser,
para um recm-chegado, aquela noite de Entrudo, no Rio, resolvera, em
vez de desembarcar, fretar antes um vaporsito onde passasse
despreocupada e ntimamente, ela s, algumas horas, bordejando a baa,
fazendo o suave e demorado contrno daquela fantstica decorao,
vogando plcidamente ao voluptuoso embalo daquele mar de sonho. Era uma
ida deliciosa. _Miss_ Nora Scott convidra o Silveira para a
encantadora excurso. Os Amglio iam tambm.--Que mais queria le?...
Para ver o Rio tinha o dia seguinte.--Resolveu, pois, ficar; e, depois
de jantar, sem fazer maior caso da estrepitosa festa carnavalesca que a
criadagem de bordo organizra na ponte da 2.^a classe, tomou ao portal
e desceu ligeiro ao vaporsito, cuja silhueta coqueta se desenhava em
baixo, convidativa e luzente, no regao manso das guas trepidando,
fumarando, bailando alegremente. Da a minutos, punha-se em marcha, e
sobre o seu minsculo convs, escassamente alumiado, foi difcil nos
primeiros momentos a identificao das figuras. A infeliz Nora Scott foi
a primeira a fazer-se reconhecer pelo Silveira, abordando-o e
abandonando-se-lhe com carinhos, incendida como ela vinha nos seus
propsitos firmes de seduco, provocante, amorvel, tda tules e
rendas. Porm, ao primeiro pretexto decente, o Silveira afastou-se; e
pronto a estava le j ao lado da sua apetecida irlandesa, trepados,
muito amigos e compadres, os dois  mesma clara-bia que dava luz s
cmaras interiores,  falta de mais cmodo assento. O conde mantinha-se
longe e a velatura crepuscular do ambiente era o mais discreto cmplice,
agora, a esta doce e inefvel aproximao, sem testemunhas e sem
peias.--O ar estava tpido, tranqilo e na sua morna quietao o crespo
afago da brisa passava como a carcia dum leque de plumas. De roda, pelo
caprichoso e largo desdobramento da cidade, as avenidas e os cais da
beira-mar, iluminados profusamente, eram um colar fascante de pedraria
e oiro, riscavam rtilas e esplendorosas curvas. E no tinha fim, no
tinha limite esta invaso delirante da claridade. As suas imensas linhas
de fogo sinuosavam, penetravam-se, contrapunham-se, prolongavam-se,
cortavam-se, profusas, ondeantes, e por fim seguiam sltamente ao largo,
pontilhando a vaga opacidade da trva, densas, vivas e espertas sempre,
embora grado a grado amortecidas e apequenando, na distncia. Se o vapor
se aproximava da terra, junto com os jorros da luz branca, que davam uma
ntida viso fragmentria das coisas, vinha ento o grosso co da
foliona febre da multido, em lufadas alucinantes.--_Mrs._ Edith e o
Silveira seguiam muito amigos e unidos, sentados sempre a par,--e
isolados no seu mtuo embevecimento, alheios ao tempo e ao logar, a
favor da parcimoniosa luz postos a seguro de vistas importunas,--gozavam
juntos, mudamente, a infinita delcia daquela hora incomparvel,
admiravam enleados, pela borda sinuosa dos cais, aquela parada inflamada
e ardente, essa corda, sse rosrio interminvel de sis, mais rubros,
mais claros e mais firmes que os sis do alto... esplendente barra de
oiro cravada no drso glauco do mar por alfinetes de prata, aguada
mgica de luz esparsa, no insondvel mistrio da noite subindo e
indefinidamente alastrando, diluindo-se, esbatendo-se, perdendo-se, a
danar anamrfica pelo espao.

A certa altura da noite comearam as libaes. O estalar das primeiras
rlhas de cerveja e de _champagne_ foi o apetecido sinal para o fcil
repdio das frmulas coercivas da etiqueta. Gradualmente agora iam sendo
postas de banda as peias, as convenes banais da cortesia, para
deixarem um pouco de campo ao exerccio livre do instinto. Muitas das
senhoras ento soltavam os _voiles_ ou deslaavam as blusas, afogueadas;
os homens arremangavam-se. Num progressivo calor, e numa contagiosa e
audaz alacridade, dentro de cada grupo os movimentos, os gestos
abastardavam-se, e subia o diapaso delirante das sadaes e dos
_hurrahs_. Veio mais tarde o momento em que, por uma adaptao
condizente ao epicreo abandno desta hora libertina, alguns deixavam-se
resvalar das suas _cadeiras_ e tamboretes para as tbuas rasas do
convs, onde se quedavam molemente estirados, numa beatitude inerte, a
cabea pesada oscilando, o dorso contra a amurada. O Conde Amglio,
esquecido da mulher e dando ao dmo os seus brios postios, divagava de
grupo para grupo, abundante e palreiro, feliz, o olhar empanado e a taa
vazia na ponta dos braos froixos, cambaleando. Havia uma nica nota de
excepo, um absurdo protesto passional, em todo este cro vibrante de
alegria; era a longa figura trgi-cmica da desgrenhada Nora, hirta e de
p, amparada ao mastro de ppa, mirando com deciso o mar, num pendor
teatral ao suicdio... Ao passo que no muito longe, o Silveira e a
irlandesa, cada vez mais cingidos, trocavam, amorosos, as taas, afim de
penetrarem-se mtuamente os segredos, e le, no podendo, em linguagem
compreensvel para a sua amada, expressar tda a veemncia do fogo que
lhe abrasava a alma, substituia com vantagem o calor sugestivo da frase
pela eloqncia muda dos contactos.


Na manh seguinte, sim, deu-se pressa o Silveira em demandar a terra. E
ao avanar, curioso, os primeiros passos pelo liso empedrado do cais
Pharoux, sentia-se bem, o corao dilatava-se-lhe, estimulado e contente
ao reconhecer-se num ambiente amigo. Tudo ali, com efeito, lhe avivava
impresses flagrantes, lhe evocava de Portugal a lembrana prxima e
querida, tudo,--desde a analogia cantante da linguagem aos traos e
ademanes conhecidos das figuras, desde o tipo sbrio e macio das
construes  brita mida e ao desenho do mosaico dos passeios. Tomou um
automvel e mandou bater ao acaso, num giro de reconhecimento rpido s
mais celebradas coisas da cidade. O _chauffeur_ era portugus, tomou
familiarmente assento ao lado dle. A ba disposio do nimo fazia-o
mais acessvel, o simpatismo sugerente do meio tornra-o jovial, aquecia
em frmitos de fraterna expanso a sua sensibilidade agradecida. Por
isso, a cada momento, naquela vertiginosa abalada, o feliz viajante ia
cortando os esclarecimentos fugazes do condutor por admirativas
exclamaes e brados entusiastas, quando no descia a indagaes mais
ntimas, inquirindo com afectuoso intersse o _chauffeur_ na sua
filiao, antecedentes e condies morais e materiais de vida.--Se
viera para a Amrica havia muito tempo? Se estava contente? se tinha
valido a pena?

--Alguma coisa se faz, meu amo...--contestou afvel, num risinho
esperto, o interpelado.

--E muita famlia l em Portugal?

--Mulher e trs filhos. Quanta _mosca_ posso forrar, p'ra l vai
inteirinha.

--E sadades da ptria, no tem?

--Que ptria, senhor?...--acudiu com amarga resignao o _chauffeur_,
olhando de espao o Silveira.--A gente, em vindo p'r'aqui assim, no
temos mais ptria. Por c chamam-nos _galegos_; se volvemos a Portugal,
somos _brasileiros_.

E encolheu os hombros com tristeza. Assim mano a mano chalrando,
indagando e informando, mutuando fugazes impresses, colhendo notas
inditas, percorreram os dois o amplo coleamento ureo-verde da avenida
Beira-mar, visitaram Botafogo, fizeram o rodeio dsse retalho
paradisaco que so as praias do Leme, Copacabana e Ipanema,
internaram-se pelo delicioso ddalo de sombras, palacetes, _parterres_ e
jardins do bairro das Laranjeiras, deitaram ainda ao Jardim Botnico, e
foram por fim almoar ao morro de Santa Teresa. Larga e formosssima
jornada. O Silveira estava encantado, aturdia-o a clida vitalidade do
ambiente, sentia-se bbedo de magnificncia, de luz, de cr, de
movimento e de rudo. Feria-lhe com agrado a ateno o escrupuloso aceio
das ruas, a variegada tinta das construes, o abundante luxo decorativo
das rvores e das flores, e, por uma estranha anomala dste scenrio
mole de prazer, o tom sempre atarefado, o crso afadigado e ligeiro da
multido, palpitando, tumultuando, fervendo numerosa e incessante, como
uma grossa onda de renovao a correr, generosa e fecunda, por essa
densa rde de artrias da abundncia e da fortuna. Bem mais porm que a
obra magnfica do homem o impressionou o esplndido vigor da
Natureza,--as colossais dimenses e o atormentado aspecto dessa grande
pasagem eruptiva tda em bruscas oposies e em arrancadas titnicas;
prodigiosa armadura cujo torso arfante, rompida, aqui, ali, a sua
espssa crsta verde, fra atirado vertiginosamente a prumo, formando
atrevidos minaretes naturais donde se abrangiam panoramas maravilhosos;
estonteadora ronda de montanhas fechando zelosamente na concha dos seus
flancos viridentes, como entre mos de gigantes um brinquedo, o
formigueiro policromo e frgil da casaria. Mas era demasiado grandioso e
solene. Perante a melindrosa sensibilidade de europeu, do Silveira,
tanta soma de majestade raiava j pela tristeza; sobrelevando  sua
exttica admirao por tam desconcertante e caprichosa exuberncia,
havia o que quere que fsse de vagamente constritivo e grave, que o
esmagava, que lhe pesava na alma, como um fatdico prenncio de
desgraa. Porque le no encontrava aqui, nesta luz crua, nestes
mameles adustos, a vegetao suave e amiga, as delicadas e mltiplas
nuanas, o brando afago, as acariciadoras sombras do torro bemdito que
lhe embalra a infncia. Aqui, na sua fechada monotonia, a sombria capa
verde do slo spero e convulso tinha um no sei qu de opressivo, de
hostil, de trgico; na impenetrvel noite do seu mato torcido e hirsuto
pressentia-se tda a sorte de quimeras ruins, de repts, de feras, de
monstros, espiando-nos. Era um den traioeiro... inadaptvel
seguramente  poesia dos contos de fadas,  simplicidade ingnua das
buclicas tangidas melanclicamente, na grave e dulcerosa paz dos
campos, pelos contemplativos pastores da sua terra.

Horas depois,  noite, e quando outra vez a bordo, o temperamento
vibrtil do Silveira ardia por expandir-se, debatia-se no vivo empenho
de transmitir impresses aos companheiros. Os Amglio acolheram-no com
frieza, fortemente ressentida como estava _Mrs._ Edith por no haver ido
com les. Ramn Alvarez, envernizado e rubro como um tomate, tambm
pouco o atendeu:--no estava de acrdo, ia morrendo assado... tinha
achado uma estopada!--Voltando-se para o Mackenna, ste no o deixava
falar, porque, no seu ftuo egosmo, tudo era por sua vez encarecer-lhe
os surpreendentes _motivos_ que esquissra para um soberbo quadro
simbolista.--Havia de ver!--Valeu-lhe por fim a sua grande amiga
espiritual, a loura e tmida Irene, que com amvel complacncia o
escutou longamente.

No dia seguinte tocavam em Santos; e enquanto o Silveira se debruava
atento sbre o aparatoso e slido desdobramento e o trfego colossal do
prto,--bem comparvel ao de Liverpool, lhe haviam dito, e via que com
razo,--a de acercar-se-lhe o pai Wimeyer, que, sempre no antegsto
falaz do seu tam almejado inqurito gramatical, todo o oportuno ensejo
aproveitava para lisonje-lo. E com familiaridade cativante, numa
erudio muito a propsito:--que le, como bom portugus, devia
sentir-se orgulhoso e contente, ali... vendo, e pisando podia dizer-se,
terra da celebrada baa, pitoresca e tranqila, onde, quatro sculos
antes, aprora a primeira expedio enviada de Portugal para colonizar o
Brasil; e que era ali a outrora ilha de _Enguguass_, sabia bem...
assim como foi dali que partiu breve para o interior, nesse tempo,
trepando e transpondo picamente a abrupta Serra do Mar, a expedio que
havia de fundar a legendria _Piratininga_,--a encantadora S. Paulo de
hoje.--Confundido por esta extica demonstrao de tanto saber, o
Silveira aplaudia, num risinho envaidecido; e quanto  embaraosa
iniciao dessa prometida sabatina gramatical, o aterrado argente ia
engenhosamente iludindo--que j agora, por poucos dias, seria melhor,
com outro descano... em Buenos-Aires.

Bastantes passageiros mais desembarcaram aqui; gradas figuras da finana
e da indstria, ricos fazendeiros do interior, caixeiros-viajantes,
mulheres de prazer, artfices, obreiros, pees, representantes de
empresas estrangeiras. Assim, aquele reduzido mundo que o bero
reluzente do _Almeria_ sbre as guas baloiava alegremente, ia em
repetidas golfadas rareando; e ali dentro a vida fechra-se em pequenos
crculos de discreta intimidade, cada vez mais singela, mais suave, mais
familiar,  medida como o termo da viagem se acercava.

Amiudavam-se agora e edulcoravam-se, naturalmente, aqueles almos e
fraternais colquios de Irene com o Silveira,--o que no era para ste,
alis, empresa fcil, apetecido alvo como le se sentia, a cada momento,
do _contrle_ implacvel de _Mrs._ Edith, vida por igual da sua
presena e ciosa do seu convvio. Ele porm sabia, sempre que isso lhe
convinha, desembaraar-se dela, invocando dstramente os seus
compromissos gramaticais para com o pai Wimeyer; depois, uma vez junto
dste, difcil lhe no era tambm deix-lo, na improvisada simulao de
qualquer solcita _dmarche_ junto da filha; por fim, quando, de longe,
a querenosa mirada de _Mrs._ Edith lhe significava a impossibilidade
formal de manter-se mais tempo, sem escndalo, junto da linda argentina,
le a expressava pezaroso, perante esta, o seu inadivel dever de
cumprir para com os Amglio uma qualquer obrigao de cortesia, e partia
imediatamente. E assim neste divertido crculo vicioso de inofensivas
invenes ia salvando com arte as dificuldades e preenchendo
saborosamente as horas. O certo era que a doce freqentao espiritual
de Irene fornecia ao Silveira uma derivante deliciosa cada vez mais
dominadora e mais atraente, aos desafos sensuais da irlandesa. No raro
passavam agora horas seguidas ss os dois, j caminhando mui camaradas,
par a par, a fazer uma e muitas vezes o giro completo do convs,
discorrendo com intersse juvenil sbre coisas de nada, ligeiros,
felizes, a frase slta e leve no ar cortante; j imobilizando-se sbre
um ponto ao acaso da amurada e a, sonhadores e mansos, balbuciando a
sua mtua emoo em termos vagos, imprecisos, como a dana incoerente
dessas fugazes _liblulas_ do mar, os peixes-voadores, que les viam em
baixo mergulhando e saltando atoadamente na imensidade azul das ondas. E
momentos havia em que o esprito subtil de Irene, ao calor desta casta
intimidade, se alava em sublimados conceitos, desatava-se em coisas
transcendentes, soltava palavras raras e profundas. Uma que outra vez
sucedia o temperamento msculo do Silveira aquecer e inflamar em
arroubados mpetos a sua alma enamorada... Porm ento, invariavelmente,
a cada discreto ensaio de galanteio, a alma timorata e nobre de Irene
fechava-se como em maro um boto de rosa; se le permitia, com um pouco
mais de vivacidade, ao corao pronunciar-se, ela acolhia-se a um
mutismo impenetrvel, no perdia o ensejo de levemente lhe fazer sentir
quanto a trivialidade mesquinha do amor  hora era insofrvel para a sua
sensibilidade e ofensiva para o seu orgulho.--Queria ver nle um amigo,
nunca um adulador.--Contrito e humilde, o Silveira resignava-se... e a
figura melindrosa e isenta de Irene aparecia-lhe ento como um dstes
tipos de virtude slida e doce que nos reconciliam com a existncia e
nos fazem tomar em respeito a vida.

Em breves dias, uma linda manh veio em que, no balanceio perptuo do
mar, a translucidez movedia das guas agora engrossava,--embaciava-se,
parecia coberta por uma bostelosa mscara de lama. Eram as infinitas
aluvies terrunhosas do Plata, cuja foz incomensurvel, avassaladora e
ampla como um mar, a pra arrogante do vapor atingia neste momento. J
por estibordo se descortinava a airosa silhueta do _Crro de
Montevideo_.--Um outro nome bem portugus...--voltava a observar-lhe o
pai Wimeyer com amvel solicitude.--Corrupo de _monte vi eu_, no era
assim?... Perpetuava a primasia na descoberta e acusava sintxicamente
uma linda transposio, como tantas havia na formosa lngua de Cames.
Tinham muito que conversar...--E batia-lhe no ombro afvelmente. Mas o
Silveira mal o ouvia. Neste feliz momento, os seus brios patriticos
empolgavam-no, sobrelevando aos quimricos terrores pela ameaa das
doutas interrogaes do pedagogo. O corao dilatava-se-lhe envaidecido,
porque le notava como durante a sua viagem, no decurso de todo ste
largo roteiro abarcando dois hemisfrios, desde a largada inicial das
bcas de luz e oiro, do Tejo, t  embocadura brumosa e intrmina do
Plata, le viera medindo, reconhecendo, verificando, palpando sempre,
ininterrompido e eterno, o trao, a marca indelvel dsse temerrio
arranque das descobertas... viera seguindo as aladas fugas do sonhador
esprito portugus, tivera a prova constante do seu gnio martimo
afirmada e selada picamente, cruzra o imperecvel sulco aventureiro do
seu caminho de glria.--Que outro povo podia vangloriar-se dum prodgio
igual?...--Perante esta ntima evidncia, sacudia a cabea com arreganho
e atirava uma depreciativa mirada de desdm a essa humanidade inferior
que o rodeava... a le, senhor do Universo.

Passada a encantadora capital uruguaia, no restavam agora ao _Almeria_
mais que oito escassas horas de viagem. Todos tinham pressa de chegar e
afanosos seguravam o tempo, compondo, cerrando as malas, dando
instrues aos _stewards_, buscando e preparando a continudade das
relaes ocasionalmente entaboladas.--Os Wimeyer ofereceram ao Silveira
a sua casa de Buenos-Aires, _calle_ Paraguay. O Mafiori a todos
anunciava bem alto que ia hospedar-se no _Plaza-Hotel_. Mas os mais,
pelo geral,--como o Mackenna e o Alvarez,--no sabiam; iam confiados ao
acaso ou haviam-se entregado ao solcito critrio dalgum amigo. Os
mesmos Amglio no haviam tambm escolhido domiclio. Assim, para
poderem depois vir a saber uns dos outros, concertaram renir-se ou
enviar o seu _adresse_ ao _Caf da Paris_, na noite seguinte. E ainda,
da suja promiscudade da 3.^a classe, no deixou de vir humildemente o
Matias, na companhia confortante de mais dois patrcios, a demandarem
interesseiros o Silveira, confiados na sua espontnea promessa de
proteco, para lhe pedirem numa lacrimosa lamria que no os olvidasse,
e desejando saber onde haviam de procur-lo.

A cada momento, espontneos, vivazes, por entre a atramochada barafunda
das bagagens, formavam-se grupos e travavam-se furtivos dilogos,
palpitando da inquieta indeciso daquele instante. Mas dilogos eram
stes que na sua impacincia mordente, no seu vo fantasista, em vez de
aproximarem os interlocutores, distanciavam-nos. Cada um ntimamente se
perguntava--que sorte iria ser a sua?... Aquelas quentes e efusivas
palavras ningum as apreciava maiormente, ningum lhes dava inteira
ateno, porque elas mesmas logo em cada um dsses insatisfeitos
espritos sugeriam e despertavam, para alm do seu significado real,
outros planos, idas, desejos, ambies e projectos que os levavam para
muito longe... Porque  assim neste vertiginoso e dissolvente
aturdimento que ns vivemos hoje a vida. Ningum se instala nela com
permanncia,--nem nas casas que alugamos agora, j com o antecipado
desgnio de as largar manh, nem nas dedutivas evidncias da nossa
razo, nem na voz instintiva da nossa conscincia, nas nossas paixes,
apetites, dios, amores, intersses. Nada para ns  hoje santo, grande,
estvel, firme, definitivo. Mudamos com uma rapidez assustadora e uma
lamentvel inconscincia, de ocupao, de famlia, de ideal, de
carcter. Nada h duradoiro. A febril obsesso de edificar o futuro
furta-nos ao gzo tranqilo e salutar da hora presente. A glria duma
inveno feliz, o lucrativo xito dum negcio, o aplauso por uma obra
benemrita,--que foram o produto de longo e persistente labor, as mais
das vezes,--contudo, apenas conseguidos e j no nos satisfazem, no nos
arrebatam, no nos empolgam; raro a compensadora embriaguez do seu
triunfo nos senhoreia por completo a alma. Devora-nos o apetite
inquietante, e sem repouso, de novos riscos, lances, emoes, aventuras
novas. O torvelinho trgico da vida desliza e corre sbre ns sem nos
penetrar, como a gua pelas penas dos cisnes. A nossa existncia
atropelada e incerta tem a _allure_ constante duma carreira,  um _film_
alucinativo e ardente, cuja precipitada mmica nem nos abonda  vontade,
nem nos cumula o desejo.  uma hiperblica e vertiginosa curva sem
termo, cujos ramos ideais mergulham no Infinito. Assim, andamos
incessantemente aos cotoveles  felicidade, sem saber v-la, sem a
apreciar, sem a sentir. Ao cabo, morremos sem haver vivido.

...Quando, seguramente, a base mais slida, mais coerente e mais lgica
para a plena posse do futuro, seria,  maneira antiga, organizarmos o
presente com serenidade, tratarmos com esmerado carinho as fugitivas
delcias de cada hora que passa, apreciarmos, em suma, e penetrarmo-nos
bem do valor intrnseco de cada dia,--como se o mundo fsse a acabar
nessa mesma noite.




V


Buenos-Aires, finalmente! O _Almeria_ agora avanava  cautela,
flanqueando devagar as sucessivas bias distribuidas, como um rosrio de
lumes, ao longo do estreito canal que dragagens contnuas mantinham
aberto, cavando um sinuoso sulco de ldo na chata pastosidade daquele
esturio imenso. Anoitecia. O cu conservava-se nublado, mas calmo, e
nessa infinita tela _gris_ o carvoamento confuso das linhas da costa
adquiria transparncia, tinha um encanto singular, banhava-o uma potica
e vaga suavidade. Na bruma indecisa da noite j o Silveira podia
descortinar, convidativa, avanando e crescendo do boleado mistrio do
horizonte, uma linha caprichosa de farolitos e de mastarus, primeiro;
depois uma complicada e imensa teia flutuante, a mais inextricvel
maranha de tda a sorte de embarcaes, trechos de docas, atributos
nuticos, pontes-levadias, guindastes, galpes, bandeiras; a seguir, a
linha quebrada e geomtrica, o viveiro apopltico das _azoteas_, das
trres, das cpulas; das agulhas, terraos, chamins e cornijas
rendilhadas, marcando por uma extenso sem limites, no seu pululamento
proteiforme, o contrno manso da cidade; e logo, j ntidos, j no
primeiro plano, os alinhados globos elctricos, a calada _embadornada_
e os pantagrulicos armazns marginais da terra firme. A a tinha agora,
a clebre, a grande cidade de trabalho e de esperana, de pensamento e
de aco, de labuta e de prazer, de maravilha e de sonho. A Terra da
Promisso actual, o _Eldorado_ mais em voga, o smbolo da abundncia
paroxsmica, do homem prspero na terra magnnima! A metrpole ideal da
magnificncia e da fortuna, da opulncia e da belza! Emfim...
Buenos-Aires!

O ar, pesado e espsso, impedia a viso clara, e era como se todo o
espao se houvesse diluido numa obliteradora meia-tinta, numa suja
mucilagem que delia os contornos e comia o brilho s coisas; contudo,
tanto quanto podia adivinhar-se das condies de desarolo e vida daquela
planura intrmina, o mbito dste prto modelar era enorme e colossal o
seu movimento. Um enxame, um delrio. Crescia grosso para o alto um como
que resfolegar de opresso, a afirmao potente, a rebeldia sujeita de
fortes energias represas, dessa floresta de chamins fumarando, dsse
empilhamento martimo de monstros de tdas as idades, de mquinas de
tdas as formas, dimenses, feitios, cres, que latejavam e arfavam com
veemncia, ora premindo-se, ora evitando-se, em risco de se
entrechocarem e que a limosa torrente do Plata no seu gigantesco dorso
embalava brincando, docemente, por uma extenso sem termo e sem medida.
Pela carcassa formidvel dste bratro de enormidades os homens,
iluminados de escape, lidavam como formigas. Saltavam choques brunidos
de metais do alto bjo flamante dos grandes transatlnticos, havia roces
de cremalheiras, roldanas, cordagens, quedas surdas de fardos, vozes
agudas de comando, tangiam as sinetas de bordo, as sereias apitavam; na
gorda pacificao do ar, saturado de maresia, sentia-se, a quando e
quando, um chapinar de remos, batendo claro no intervalo dalgum trinado
lamento de guitarra; e no fundo humilde de alcatroadas barcaas
fumegavam, a um lume discreto, caldeiradas apetitosas. E agora j, com o
avano lento e crescente do paquete, aquele primeiro esfumado e negro
bosquejo da cidade povoava-se, tomava volume, aclarava, definia-se a
cada momento; aqui, alm, bisbilhoteiras luzitas saltavam, riscando
arruamentos, desvendando interiores, trmulas e brancas como estrlas;
ou eram os grandes rclames luminosos que no seu relampaguear
interesseiro chispavam sbito, como borboletas de fogo, estremando
planos, talhando duras silhuetas na sombra e em manchas fortes como
_gouaches_ lambendo os panos do muro; esbatidamente. E agora tambm, a
favor da molhada ressonncia que lhe emprestava a proximidade das guas,
vinham acariciar o ouvido atento do Silveira as sonoras trepidaes da
vida urbana,--o _tlim_ nervoso dos tranvias, o lento arrasto das
carroas, o prego dos vendedores de dirios, o buzinar dos automveis,
o trapejar das oficinas.

Atracado ao cais o _Almeria_, e enquanto a marinhagem ajustava a
_passerelle_ para o desembarque, Joo da Silveira buscava com af em
baixo, na multido apinhoada crca, sob a _marquise_ monstro da aduana,
a figura pequenina e viva do seu amigo Pedro Azeredo.--Um convicto
monrquico tambm, igualmente fidalgo, da linhagem seis vezes secular
dos Azeredos, senhores de Penamacr e redondezas, alferes de cavalaria
ao tempo da revoluo, e que naturalmente, incompatvel com o salafrrio
regmen da Rpblica, seis meses havia que viera para a Argentina, com
licena ilimitada.--L estava le,--via-o agora!--plantado bem na
frente, mesmo na orla do cais, e correndo a amurada com a mo em pala
sbre os olhos, ao alto erguidos. Soltaram um simultneo brado de
cordealidade alegre, ao reconhecerem-se; e o Silveira, tam pronto como
pde, desceu, rompendo em cunha a atropelada impacincia da grossa onda
cosmopolita que jorrava de bordo. Um quente abrao, no cais, de efusiva
ternura; logo o Silveira confia do corretor do hotel e tediosa reviso e
entrega da bagagem; e breva saltam os dois para um automvel, que, 
indicao dada pelo Azeredo, partiu roncando.

--Ento, como vais tu?...--rompeu ste, num claro riso, saltando e
sacudindo a espalda ao amigo com a mo em leque, todo voltado para o
recm-vindo.

--E tu, meu alma do diabo?--acudiu vivaz o Silveira, fitando, confiado,
o companheiro e premindo-lhe afvel os joelhos.

--Menos mal, meu vlho. Ganha-se _plata_. Hei-de-te contar...--E com
desdenhosa arrogncia, atirando o palhinha para a nuca:--Bem melhor do
que l nessa pepineira de rpblica.

Mas o Silveira, que no cessava de mirar a um e outro lado,
interessadamente:

--Parece-me uma grande cidade, esta?

--_Como no!_

--E bela, caramba!

--Grande, grande...--corrigiu com sentencioso ademan o
Azeredo.--Sobretudo grande. Quanto a beleza, _hay que distinguir_.

Com efeito, o Silveira achava tendido sbre aquela vastido sem termo um
como que mortio pano de melancolia... Escasso movimento e pouca luz.
Seria por motivo talvez do enfado da viagem, mas parecia-lhe aquilo
triste.

O automvel deixra a larga avenida marginal e subia agora uma pequena
rampa, empedrada a paralelippedos, sulcada de _rails_ e tomada a todo
um lado por um macio casaro banal, atijolado e de balces em arcaria,
de comesinho aspecto colonial, sem vo, sem majestade.

O Azeredo aclarou:

--Aqui tens a chamada Casa do Govrno... _La Casa Rosada_. Residncia do
Presidente e instalao de vrios ministrios.

--No vale o nosso Terreiro do Pao,--com impertinente fatudade o
Silveira anotou.

--Foi feito noutra poca, noutras condies. No se comparam.

Seguia-se uma grande praa rectangular, definida pelas cimalhas
caprichosas de imponentes palcios barcos, e num dos extremos,
longitudinalmente cortando-se,  direita, uma colunata helnica de
templo.

--Ali  a Catedral, vs?--ciceronava entretanto o Azeredo.--Logo ao
lado, a Municipalidade. Aqui  ilharga o _Banco de la Nacin_, a Blsa.
Tens pois aqui assim, logo por entrada, o corao, o ndice poltico do
pas, o centro burocrtico da cidade.

O vasto recinto, tirante as ruas perifricas, estava quase totalmente
tomado por uma catica profuso de materiais em osso, via-se coberto por
um pejamento heteroclito e informe de linhas abstrusas, brbaras, de
coisas duras, cortantes, agressivas, sujas,--montes de saibro, calia,
areia, pilhas de beton, caixas de lato, barricas, vagonetes, vigas de
ferro, cabrestantes, escadotes, carretas, arames em puas hostis,
barracas de taipa, casotas de zinco, pastas de lama. E desta hirsuta
barricada, ao centro, sbre esta aluvio industrial monstruosa, de
destroos de runa e de tesas projeces suspensas, uma ingnua
figurita, espcie de Palas, no vrtice duma pirmide de _confiture_,
dbil e s no espao, assomava com tristeza.

--Tda esta confuso  por causa das obras do ferrocarril
subterrneo,--tornou o Azeredo, solcito.--Como o _Metro_ de Paris... Ou
melhor! muito melhor! Ah, indubitvelmente  um grande melhoramento.--E
enquanto o automvel rodava  esquerda, passada a Catedral:--Eu queria
levar-te pela Avenida de Maio, a principal artria da cidade; mas creio
que no ser possvel.

--Tambm anda em obras?

--Tambm... em parte. Mas no  por isso.  que estava defeso, e muito
bem, estender hoje o _crso_ por aqui; mas, a despeito da probio
municipal, a multido agora  noite conseguiu invadir a Avenida e todo o
campo  pouco para ela. No ouves?...

Pelo ar gordo e parado montava e alastrava um grosso resbunar pago, o
relincho orgaco da multido em febre, avassalando, acanalhando o
espao, tomando e prostituindo tdas as direces, sobrepujando e
sujando todos os rudos. Havia um vago clamor sobrenadante, assobios,
gritos, risadas, fanfrrias desafinadas, canes estrdias, e a espaos
buzinava spero pelo ar o trilo irritante das cornamusas de barro. Era a
despedida foliona do Carnaval, retida com ardor, prolongada com delrio.
Eram os ltimos arrancos da bruta bambocha anual em que a essa fera
travestida, que  o homem, se permite desdobrar  slta as suas
inclinaes e regressar  sua origem. Naquela noite dionisaca, a
presso clida do ambiente era engrossada pela onda impdica dos
desejos. Adivinhava-se a vulgaridade, a brutalidade, a volpia srdida,
a fria ertica, os grotescos desmandos do instinto plebeu, nesse
asfixiante turbilho animal, brigando, rugindo e tressuando. Como se por
completo se houvessem delido tda a luminosidade, todo o espiritual
enlvo, todo o fino ar, tda a aristocrtica leveza da magnfica cidade,
paresiada neste momento por um espasmo vsgo de loucura.

Na raz mesmo da Avenida, ao fundo da praa, o automvel teve que parar.
Dois polcias a cavalo davam-se a prros para regular aquela desordem e
facultar o trnsito aos veculos, positivamente bloqueados, na frente,
pelo marulho compacto da multido, nos flancos, pelo aprumo bisarmal dos
prdios. Num ligeiro estremecimento de contrariedade, disse o Azeredo
para o _chauffeur_:

--Bem, tome a por Rivadavia e veja se pode dar a volta por Cerrito.
Apemo-nos em seguida.--E, com ar enfastiado, para o amigo:--Aqui, o
entrudo  o que tu vs:  uma coisa antiptica, vulgar, uma festa do
populacho.

Depois, quando o automvel, desandando lentamente, conseguiu retomar
caminho:

--Mas que mania foi essa de hotel?

-- o mais prtico, meu filho.

--Bem: se chegasses aqui s, absolutamente sem conhecimentos, de acrdo.
Mas tendo-me a mim... Instalavas-te na minha penso. Eu at falei  dona
da casa... Estarias mais cmodo e mais barato. Como em famlia.

--So essas familiaridades que eu detesto, que eu temo,--objectou num
instintivo horror o Silveira.

--Tonto! Ao contrrio,  delicioso...--insistiu o Azeredo; e, saltando
sempre, com o seu riso escarninho:--H l um matrimnio srio,
provincianos _burgssos_, que convidam tda a gente a jogar o quino.
Quando no h _plata_ p'ra gastar fora, compreendes,  excelente... H
mais duas francesas, muito reinadias, que tem a excentricidade de no
receber visitas seno meia-noite passada. H uma professora de _tango_,
um estudantito de medicina, um caixeiro da _Ciudad de Londres_ ... e
ento uma _gaja_ chilena, menino!--aqui o Azeredo sublinhava o seu
entusiasmo, mirando em alvo, com requebros lbricos,--uma viva,
_morenucha_, gordota, com uns olhos assassinos que trespassam a gente!

--Atiras-te?

--Ela parece-me amvel, isso ... Tem um filho que  um _pibe_
insuportvel... Outro dia, com uma seta, de papel, ia-me vasando um
lho. Ah, mas pelas celestiais delcias que se adivinham na me,
aturam-se bem as diabruras do filho.

Prudencialmente, ao cabo duma pausa, Joo da Silveira mascou:

--Bem, tudo isso eu acho detestvel... Quero estar independente, livre,
absoluto senhor meu, entendes?--E como fazendo um exame de
conscincia:--No que s vezes, sem querer, prendemo-nos, e  uma maada
depois para sacudir essas seresmas.

--Ora!--com um desdm superior objectou o Azeredo.--A gente
defende-se...--E voltando a insistir:--V l, meu vlho, se preferes,
anda. Ainda ests a tempo.

--No, no... Prometo ir, mas de visita.

Uns minutos depois, junto a uma esquina, apeavam-se; e o Azeredo deixava
o seu amigo no _Cecil Hotel_, onde lhe tomra alojamento. E, ao
despedir-se:--que no dia seguinte no poderia vir logo de manh, porque
tinha o escritrio; mas pela tarde, s 4, viria busc-lo para darem uma
volta por Palermo e _fazer_ em seguida a _calle_ Florida.

--V l no te constranjas...

--Qual! Se  o que eu fao habitualmente.  o _chic_...--E com o lho
ladino:--_Noblesse oblige_.

--Bem, est direito. Depois jantas comigo.


Na manh seguinte, o Silveira que dormira como um bispo, levantou-se bem
cedo, banhou-se com deliciada pausa, e enquanto esperava o _desayuno_,
foi abrir os dois largos batentes da porta do seu quarto, rasgada em
balco sbre a rua. Era no ltimo andar do hotel, a uma altura onde
chegavam j mortias num adormecimento lnguido as pulsaes fortes do
exterior.--Ele queria ver a cidade com ar de dia, no seu fresco aspecto
matinal, no brio potente da sua vitalidade, erecta e liberta emfim das
vagas figuraes da sombra, daquele pesadelo de animalidade e desordem,
da passada noite.--Sau ao ar livre e avanou o busto com avidez, a
mirar a extensa, a plena toalha de movimento, de vida e de luz que lhe
oferecia, em baixo, o trao imponente da Avenida de Maio. Era um golpe
de vista bem digno duma grande metrpole, no havia dvida, essa formosa
e ampla linha correndo dum jacto, inflexvelmente, limpa e direita, da
pirmide rudimentar da Praa de Maio  esbelta cpula monumental do
Palcio do Congresso. E esbeltos eram por igual os opulentos prdios
marginais, caprichosos, brincados de formas, atirados com arrogncia
para o espao: Traziam-lhe reminiscncias de Paris na sua _patine_
cinzenta e montona, nos seus rendados balces floridos: e de Paris eram
tambm a atmosfera velada, o asfalto luzido, o ar discreto, as filas de
mesitas redondas acaparadas sob os tldos dos _cafs_ e _restaurants_, a
entestarem, numa disciplina idlica perfeita, com os renques de pltanos
muito escovados, tosquiados com simetria e alinhados marcialmente ao
longo dos passeios.

Contudo, abrangida daquela altura, a magnificente artria resultava
estreita em relao com o vo possante, com as macias dimenses da
casaria; das franas das rvores, dos postes telefnicos, dos colunelos
da luz elctrica, de tdas as arestas, de todos os ngulos, de tdas as
curvas e ressaltos daquela floresta arquitectnica, restos ignbeis de
serpentinas pendiam esfarrapados, tremulando ao vento; e aqui tambm, a
intervalos, tomando por vezes a extenso de quarteires inteiros,
voltava o Silveira a ver com desgsto o mesmo pejamento industrial com
que, durante o seu breve percurso, esbarrra na vspera,--havia trechos
largos de calada esventrados de ls a ls, fundidos em abismos de
trva, rasgados e cavados em boqueires hiantes, como chagas, que
geomtricas vedaes de zinco ondulado debruavam, polvilhadas de
purulncias de cisco, escoradas por eczemas de barro, e de cujo negro
ventre revlto subia incessante um bater ciclpico de picaretas e
ferragens, na mais irritante dissonncia com a gritada fria dos
preges, o compassado chouto das tipias, todo sse marulho vago das
ruas. Pelo ladrilho pardo dos amplos passeios marginais farandunava uma
peonagem atarefada e compacta, de tdas as origens, de tdas as idades,
feitios, tamanhos, cres,--o mostrurio ofegante do universo, o resduo
aventureiro de tdas as raas, sbre cujo movedio plasma, salvando a
onda banal dos jaquetes e dos chapus de palha, se afirmavam, aqui e
ali, exticamente, figuritas nervosas e amarelas de _nipons_, o tudesco
slido e arrogante, _kpis_, turbantes, chimarras, _ponchos_; grupos de
homens espadados e arremangados, de avental, a cabea de boina e o
grosso artelho nu sob o farto _calcetin branco_; tipos refeitos de
mulheres de aspecto arisco, o rosto acobreado e exttico, a saia muito
farta tecida em tons berrantes, e descido o cabelo esfngicamente, 
frente das orelhas, em duas tranas negras. Correndo a parte central da
Avenida que se mantinha vivel, pelas suas pores livres, uma dupla
fila de cches e automveis subia, e outra descia, infindveis,
incessantes, sem claros e sem trgua, aglomerados e suspensos por vezes,
em ndos de embarao, ao cruzarem as ruas transversais, donde
perpendicularmente golfavam a jrro mais automveis, mais cches, mais
ciclistas, mais cavaleiros, mais preges, tda a ordem de obstculos, na
sua invaso resfolegante engrossados ainda pelo pesado tropear das
galeras, dos _camions_, das carroas e tranvias. E desta forte
trepidao material e espsso escoamento, o fluxo e refluxo
interminvel, era regulado, s esquinas, numa sorte de automatismo
consciente, pelo basto vigilante dos polcias.

O comedor do hotel era na _planta baja_, furtado s vistas do pblico
por brancas e discretas _brise-bise_, mas invadido em cheio pelo marulho
atroador da rua. Tudo isto estimulava mais e mais a espertinada ateno
do Silveira, que, apenas findou de almoar, subiu a tomar a bengala, o
chapu e as luvas; e num momento a o temos no pequeno vestbulo outra
vez esperando que o porteiro lhe tomasse um _taxi_, onde a asa pitoresca
do movimento lhe acalmasse a actividade e lhe dsse pasto ao intersse.
No tinha fim determinado. Queria ir dar uma volta de aventura, ao
acaso, puramente ao arbtrio do _chauffeur_ e ao sabor do imprevisto.
Mesmo que outra coisa podia le querer, por agora, no conhecendo nada
da cidade?... Apenas recomendou  silhueta automtica do condutor, que,
de mos ao leme, sem olhar aguardava indiferente,--que no queria estar
a parar constantemente... e ento que fsse por onde houvesse menos
confuso, menos movimento.

O vlho _auto_ partiu logo, tomando a oeste, e pronto desembocou numa
praa amplssima, desbordante de luz, num aceio irrepreensvel as suas
largas avenidas de asfalto reluzente, e orlada apenas, como que
provisriamente, de casitas abarracadas e construes mesquinhas, na
cimalha _tape  l'oeil_ duma das quais, espcie de mercenrio
frontespcio de instalao de feira, mugia a toada populacheira e alde
dum realejo. A todo o fundo, desdobrava-se e crescia majestoso para o
alto, no seu deslumbramento marmreo, o Palcio monumental do Congresso,
vaidoso e lindo no estadeamento olmpico das suas colunatas, nos seus
astragalos e flores clssicos, nos seus gnios de bronze, nos seus
grupos alegricos, na linha purssima e alada da sua cpula sem par,
traando suavemente, na mansa tela lils do cu, uma grande parbola de
arrogncia e de sonho. Entretanto, e apesar da nobre e empolgante linha
geral do seu conjunto, esta mole colossal, erguida ali, no suportava a
vastido da perspectiva, sentia-se esmagada pela imensidade absorvente
do recinto. E ste aparecia-nos tambm inexoravelmente tomado pela mesma
grossa e incmoda farfalha industrial que, parecia, aqui avassalava
tudo; por tda a sorte de vedaes, de mquinas, de materiais, de
esboos de construo e montes de escrias. Uma como que subverso de
terremoto se produzira, ao centro, protuberado horrivelmente de pequenos
Atlas de ferro e ao, de Himalaias de cascabulho, de Jungfraus de lama.
Apenas, neste estrangulamento de srdidas durezas, algum triste e
anmico trecho do relvado, mais resistente, conseguia oferecer ainda uma
acariciadora mancha de frescura; e num dsses perdidos osis de plcida
harmonia debuxava-se, solitrio e nostlgico, o bronze do atltico
_Penseur_, de Rodin, na sua acefala paradoxal, na sua absurda
corpulncia. O mesmo edifcio do Congresso, que o Silveira deixra agora
 sua esquerda, estava por concluir, com o poderoso flanco sem epiderme,
amparado em andaimes, esperando o revestimento para as arestas
descarnadas e o tijolo ennegrecido.

Internou-se a seguir o automvel por uma rua espaosa e clara, espcie
de _boulevard_, no seu arranjo cuidado e simtrico, na sua dupla fiada
de rvores, no delrio policromo das taboletas, nas artsticas
vidreiras, na sua vida sussurrante. Alongava-se a perder de vista, e na
sua orla barulhenta as _talages_ comerciais e os tldos dos
_restaurants_ sucediam-se e disputavam primazias em alternncias
coruscantes. No letreiro duma esquina, de corrida, o Silveira conseguiu
lr--_Rivadavia_; e ento recordou que esta era talvez a principal
artria _portea_, e decerto a mais extensa, a de maior tradio, como
que a coluna vertebral da cidade. Depois, fortutamente e a intervalos,
consoante o giro caprichoso do veculo, o Silveira deu-se conta de
passar por uma rua Andes, cruzar a com um grande edifcio pesado e
austero, meio hospital, meio academia; a seguir outros arruamentos,
quse iguais, todos com lacnicas designaes,--Crdoba, Triunvirato,
Santa-F, Las Heras, Montevideo... por fim j nem tomava tento por onde
ia e abandonava-se, alheadamente,  incerteza voluptuosa do
desconhecido. Mas eram sempre as mesmas ruas infindveis, riscadas a
cordel, invarivelmente chatas e implacvelmente direitas. Em vo se
buscava neste taboleiro de xadrez colossal, a adoar-lhe a hirta algidez
sem termo, o desafgo verde e livre dum _square_, o perfume sorridente
dum jardim, um refgio amigo de sombra, a carcia duma curva, o
boleamento duma colina. De onde a onde, algumas tacanhas _plazuelas_ se
riscavam,  certo, porm submetidas por igual  mesma implacvel
esquadria, como que incrustadas na massa barrenta dos prdios, e na sua
tmida penumbra alimentando uma flora de claustro, recolhida e triste. E
por tda a parte tambm, mais ou menos, o mesmo pejamento de coisas
tscas e informes, o mesmo prurido desconcertante de renovao: ou era a
calada, esburacada em longos trechos e o trnsito impossibilitado pela
aglomerao impertinente de paralelippedos, em monte, de tubagens em
linha, de rolos de cabos, de maaricos, paz, alvies, lanternas; ou eram
os primeiros ensaios de _rascacielos_, com seu rodap de tapumes
lambusados de cartazes irritantes e aprumando hirsutos no vcuo os seus
esqueletos de tijolo e de ferro.--Uma cidade colhida em gestao
flagrante, sacudida num estremeo apopltico de vida, onde tudo estava
por fazer, onde nada se conclura ainda. No seu subsolo esfarrapado e
arfante, sob a sua carapaa movedia e spera como o drso dum monstro
antediluviano, bravejava uma caudal fremente de energias, reacionava no
mistrio a qumica formidvel dos interesses e a impetuosidade brutal
dos instintos. Nada quieto, nada seguro, nada inerte. Havia um eterno
ponto de interrogao suspenso sbre o seu arranjo definitivo, no se
atinava com o termo a esta sua cavalgada frentica na conquista
delirante do progresso e da fortuna.

Em contraste aberto com os populosos aglomerados das grandes capitais
europeias, aqui em Buenos-Aires as casas, de frente angosta e
profundamente esticadas, no tinham, pelo geral, mais que o andar
trreo. A lisura convidativa da _pampa_, deserta e sem obstculos,
incitava a esta expanso librrima, o que explica que Buenos-Aires
abranja hoje uma rea superior  de Londres. Alm disso, como o valor da
terra nas zonas de vida mais intensa sbe vertiginosamente, por isso
tambm, na economia do seu lgico desdobramento, as sucessivas
construes tendem a irradiar para a perifera, como os tentculos dum
aracndeo colossal, neste seu denso rastejamento sem freio e sem medida.
 proporo que se distanceiam do centro, as edificaes apequenam-se,
rustificam-se, vo gradualmente despindo o carcter urbano,
solidarizam-se, confundem-se com a terra, e a sua construo  mais e
mais simples, at descerem s combinaes rudimentares do tijolo, da
taipa e do adbe. E no  fcil fixar o limite a ste encurralamento
galopante para o Infinito.

O Silveira considerava com particular intersse a fisionomia, tda
peculiar, das construes principais,--essas altas bisarmas que rompiam
desamparadamente, aprumadas e esguias, do rasteiro cordo habitual da
casaria, e que assim desdobravam no espao livremente os seus flancos,
no impenetravelmente murados, ao modo de Lisboa, como tumbas, porm
abertos e entremostrando a trechos a sua estrutura intestina, no
escalonamento paralelo dos vrios andares sobrepostos, e, em cada andar,
na sucesso linear dos compartimentos, cujas portadas se entreviam
superando, muito alinhadas, a aresta do parapeito discreto dos
_pasillos_. Tambm lhe chamou a ateno o decorativo luxo exterior, o
rebuscado adrno das fachadas. E ste vicio era geral; nos palcios mais
opulentos como nas vivendas mais comesinhas, prevalecia e ressaltava
inaltervel uma indumenta excessiva da _ptisserie_ italiana; em todos
havia, um gongorismo de ornatos desbordante, uma nsia eruptiva de
contornos, um espolinhamento doido de torciclos barcos, de emblemas,
de flores, de amorinhos, caritides e quimeras. As paredes mais
modestas no dispensavam alguma mscara de fauno ou uma lira entre
malmequeres e rosas; mas eram sempre capas e capas de redundncias
sobrepostas, era um atropelado derroche de cimentos e argamassas que
retinham a luz, que arranhavam o gsto e varriam tda a sobriedade e
pureza de linhas. No havia arquitectura, mas apenas _albailera_.

Contudo, esta pesada obsesso do relvo era vantajosamente resgatada
pela nobre linha geral das construes, elanadas sempre e escalando a
altura com brio, num soberbo arranque de abastana e de fra. As
janelas no prescindiam, em geral, do confortvel resguardo das
persianas, de madeira ou de ferro, e adiantavam-se em amplos balces
rendados, muitos dles picados garridamente de floritas rubras e com
finas enredias verdes colgando. Mas nem uma vaga silhueta de mulher
neles vinha debruar-se, ningum se via s janelas, cujas persianas
impertinentes, inexorveis, se mantinham, de alto a baixo,
hermticamente cerradas. E as portas, estreitas, igualmente
impenetrveis, sentinelas fieis da felicidade e do amor... Impossvel
surpreender a mais fugida nuana da vida interior destas esquivas
bocetas, furtadas tam melindrosamente ao rce brutal do mundo. Isto
dava-lhes um tom singular, um ar recatado e discreto, o que quere que
fsse de aristocrtico e isento, contrastando afinadoramente com o
grosso industrialismo plebeu que lhes marulhava em trno. E um outro
mundo se adivinhava, com efeito, tecendo o seu manso ambiente inefvel
adentro dstes misteriosos ninhos da paz e da virtude. Como se o
carcter argentino, carinhoso, manso e precavido, cavasse um deliberado
abismo de meticulosa defesa entre a rude guerra aberta dos negcios e a
macieza impenetrvel do seu ninho! Como se a feio e o clculo, numa
trgua prudente do seu antagonismo, o levassem a lanar uma barreira
irredutvel entre as douras plcidas do _home_ e os atrictos
desgarradores do intersse, entre o corao e a banca, entre o lar e a
rua! C fra um balco, ali dentro um altar.--Seria assim?...--A verdade
era que, com tda a sua pacotilha ornamental, o seu aspecto provisrio e
o seu precrio arranjo, a grande cidade voltava agora a oferecer e como
que confirmava, ante a sensibilidade esperta do recm-vindo, o mesmo
indito e especial encanto, a mesma potica e vaga suavidade daquele
esquissado carvoamento das suas primeiras linhas na calma tla _gris_ do
cu, na passada noite... Um no sei qu de atraente e aprazvel, de
afvelmente acolhedor, de harmonioso, de limpo, de fidalgo, que le, um
hspede de horas, no sabia ainda se atribuir  claridade essencial das
almas, se ao respiro salutar das coisas.


E sentia-se bem, afinal. Tendo voltado ao hotel, e agora reclinado
molemente numa poltrona modesta do seu quarto, o desabusado morgado de
Mosteir repassava mentalmente o seu expatriamento voluntrio e iludia o
tempo numa saborida evocao retrospectiva de gratas lembranas, de
projectos, de sonhos, de scenas vividas, de prazeres, de desejos
suspensos. Primeiro a Ptria; mas o intervalo ainda curto do seu
distanciamento e o torvelinho de ineditismos ofuscantes que, desde a
partida, o vinham assediando, no permitiam que o vinco nostlgico por
enquanto se afirmasse na vibratilidade demasiado inquieta da sua alma;
depois, aqueles tantos dias de bordo, essa deliciosa bambocha de
pequeninas audcias, desiluses, surprsas, _flirts_, intrigas, tdios e
ridculos de raiva que era brisas e de gozos que eram espuma,
correra-lhe um pano de olvdo sbre o passado; entre o que le fra, e o
que era, haviam marcado uma eternidade e cavado um infinito.--De
Portugal, agora, queria l saber!--Apenas recordava, num desdm
superior,--que aquilo l devia ser uma maada, com os _carbonrios_ a
ditarem a lei, os conventos feitos quarteis, os novos sem religio, os
vlhos sem garantias, e uma mania de escolas por tda a parte, tudo
muito malcriado e ningum conhecido. A seguir, recordou vagamente os
dois irmos.--O que fariam les?...--Ainda o mais vlho, o Jos,
advogadote rbula e manhoso, saberia tirar proveito dos conflitos
jurdicos que, com a Rpblica, eram agora bastos como os cogumelos
depois da chuva; mas o Bernardo, o mais moo, um pateta feito agrnomo 
fra de empenhos, um _come-santos_ sempre metido por _lausperenes_ e
romarias, como se aguentaria, agora que o Afonso dra com os santos em
terra?...--Ora! no fsse _tanso_.--Por fim, ao evocar a visagem chorona
e os ademanes trgicos da noiva quando lsse a sua carta de despedida, o
lbio varonil ergueu-se-lhe num leve sorriso, entre comiserativo e
trocista, e os olhos ftuos, erguidos ao teto, semicerraram-se, a seguir
a indecisa imagem da pobre Laurita, que em espiralamentos caricaturaes
le via subir, envlta na fumarada tnue do charuto, seguida pela ronda
desolada e grotesca da famlia.

O derivativo patusco da viagem, isso sim... tinha sido bom a valer!--E
j de repente voltava a danar-lhe, efmera e jovial, pela retina tda a
divertida sucesso de episdios que durante sses deliciosos vinte dias
haviam marcado um dos captulos mais saborosos e interessantes da sua
vida. De tudo um pouco le havia logrado provar nesses adorveis
_instantneos_ breves, e fugazes como _fogos-ftuos_, feitos de
saltantes contradies e antteses sbitas. De tudo,--desde os trgicos
pavores da tempestade t aos desmanes hilares do ridculo.--Que rico
tipo aquele pedincho Contreras, com as suas intrujonas promessas e os
seus apetites decorativos... e a cabea e as piugas do Alvarez, as
fanfarronadas postias do conde, as doutas madurezas do Wimeyer... o
Mackenna com a sua pomposa inpcia, o Mafiori com a sua astcia mansa.
E, das mulheres, quanto no valia essa esnalgada e inspida Nora, a
querer teimosamente enred-lo na tentao paradoxal dos decotes... e que
apetite de formas, que rico amor, a irlandesa... e a formosura alada, o
requintado esprito, a indecifrvel iseno de Irene! Esta, sim, que
dava que pensar...--Por uma natural associao de idas, o Silveira
conjugou mentalmente a pdica abstno, o carcter retrado e tmido da
linda argentina, com o ar recatado e discreto que le de passagem
surpreendera, por igual, na fisionomia atraente da cidade. E todo ste
ambiente embocetado e austero, longe de o acobardar, estimulava-o, era
um desafio picante ao seu gnio enamorado e volteiro, acendia-lhe os
brios varons em tonadas ardentes de desejo. Na segura anteviso dos
mais belos triunfos, dilatava guloso as plpebras, movia numa
pregustao sensual os lbios gordos.--Ah, que o seu instinto
adivinhra! Devia por ali assim vir a passar bem bons bocados...

E aplaudia-se de ter vindo.

Pouco depois das 4, fiel ao seu compromisso da vspera, chegou o
Azeredo. A tarde estava um encanto. A luz esbatia-se suavemente na mole
carcia do ar, hmido e tranqilo. Tomaram pronto um _auto_ os dois
amigos e dirigiram-se ao parque famoso de Palermo, anunciado nobremente,
ao comeo da avenida Alvear, pelas faustosas decoraes da _Recolta_,
em cujo preguioso declive majestosas linhas arquitetnicas enquadram
harmoniosamente rasos e amplos taboleiros verdes, mosqueados de tintas
policromas, um precioso _bouquet_ de frescos relvados, de minsculos
jardins, de bosquetes, sbes floridas e tosquiadas sombras. 
aristocrtico e  lindo. E a seguir, descendo sempre suavemente, a mesma
sumptuosa e ampla artria se continua, atirada com arrogncia numa
dilatada conquista de espao, numa extensa projeco rectilnea sbre
cujo asfalto polido deslizam, rodam e se cruzam alegremente as
equipagens luxuosas e os automveis de preo. Definindo a todo o
comprimento o eixo da bela avenida, acompanha-a e ergue-se a perder de
vista, no seu fino recorte areo, uma floresta linear de esbeltas
lmpadas ornamentais, da renda brnzea dos braos tendo suspensos
grandes pomos brancos, e a lavrada raz mergulhando na macieza de
esguias e escovadas _pelouses_, picadas de estatuetas decorativas.
Depois, naturalmente, e fiel aos consabidos dogmas triviais da esttica
urbana, o formoso crso, deixando o largo aprumo inicial, passa a
desdobrar-se e a colear em mesurados lacetes de roda do grande lago, ao
qual por seu turno no faltam as casotas, pontes rsticas, lilipucinas
cascatas, esguichos anmicos, barquinhos, grutas do estilo, e o
gongrico _restaurant_ de rigor. Agora, neste consagrado circuto da
moda,  de-veras embaraante, pejorativa, enorme, a afluncia de
veculos, cuja marcha se torna grave e cheia de importncia. H um
refinado propsito de ostentao, uma patente fria exibitiva; a cada
passo, neste afluir compacto da assistncia, produzem-se
engorgitamentos, empastes, ndos, que obrigam a paragens sucessivas;
tudo servindo de pretexto amvel  mutuao de sorrisos, acenos,
agrados, cmbios de frases familiares entre as pessoas conhecidas. H
vida, h movimento, h opulncia, h rudo; mas tudo cerimoniosamente
espontado, sem espontaneidade e sem brio. De famlia para famlia, de
curva para curva, a cada novo cruzamento neste mostrurio ambulante de
vaidades, as vsgas miradas perscrutadoras, os desapontados gestos, a
raivosa estupefaco, as bcas sumidas de inveja, impem-se ao brando
rodar das equipagens e ao bisbisoteio da chalra sobrenadante. E em tam
pomposa parada de atrelagens, alguns vlhos _fiacres_ vo ainda
derivando de escape, ao largo, num repdio de instinto, humildemente,
como que vxados no seu anonimato de misria.

Ao mesmo tempo, uma afluncia enorme, desbordante e luzida por igual,
circula e galreja a p, bordejando abundante as _aceras laterais_,
taquinando com airosa presteza a areia fulva dos passeios. Com
saltitante orgulho o Azeredo vai mostrando ali ao amigo uma que outra
figura conhecida. O Silveira, todo na hora presente intercala com gulosa
vivacidade as sltas interrogaes que lhe acodem a propsito, no
impressivo relato da sua excurso da manh. Nota com espanto como, aqui,
adorveis grupos de _seoritas_ se permitem deambular, rir, volitar
livremente, fra do lho suspicaz das mams, desenvltas, seguras, num
confiado aprumo e em plena independncia. Nota igualmente que os homens
vestem em geral com desafectada elegncia, e que as mulheres teem uma
_allure_ cheia de graa, uma linha de conjunto harmoniosa e fina.--Mas a
moldura que a Natureza oferece a ste palpitante quadro social 
tristemente desataviada e mesquinha. A vegetao  pobre. Abunda a
mancha verde-sujo dos _eucaliptus_, formando por vezes tufos
gigantescos, e avultam alguns macios mais de chores, de pltanos, de
cedros, de salgueiros; porm a maior extenso dste chato parque
embrionrio,--meio _square_, meio pntano,-- povoada por uma fruste
vegetao arbustiva, sem brilho, froixa, mal cuidada; e h avenidas
inteiras orladas por pobres palmeiras _dpayses_, o tronco ano, a
folhagem esfarrapada e lvida, que na sua enfermia invalidez so um
eloqente protesto mudo contra a incongruncia edlica, arrefecem o
ambiente e tornam a perspectiva dolorosa. E ainda  de notar que, para
alm dum reduzido permetro, neste arremdo incipiente do _Bois_, o
traado pretencioso dos bons caminhos de rodado, das leas luxuosas, se
interrompe sbito a cada momento, cortado por tda a sorte de
obstculos. Se em qualquer direco o desprevenido turista pretende um
pouco mais ao largo aventurar-se, logo a lhe barra arreliativamente a
marcha uma passagem de nvel de ferro-carril, a armatura bisarmal de
alguma grande construo em osso, ou os intransponveis valeiramentos de
charcos, barrancos e atoleiros de tda a espcie. As rodas dos veculos
afundam-se e peganham impotentes na revlta viscosidade das argilas
empapadas. No h continudade nem segurana de trnsito nesta
desarticulada rde de aberturas. E debalde alongamos interrogativamente,
a um e outro lado, a vista morosa e cansada. Por tda essa montona
extenso de rsticas _parterres_, a luz rasante do crepsculo apenas faz
agora saltar o estagnado espelho dos lameiros e aguaais, que salpicam
bastos, com as suas placas corrosivas, como pstulas, a inevitvel
sucesso das lamas de mato ruo e rasteiro estranguladas entre a
via-frrea e o Plata, onde a luz falta e a humidade abunda.

Na volta, j noite fechada, o _boulevard_ aparatoso de Callao flambeava
de cr e regorgitava de vida. Outra das grandes e opulentas nervuras da
cidade. Tudo brilha, tudo vibra, tudo reluz neste largo e inquieto
diorama. Na mesma sombra h movimento. Sbre o piso esmerado, de madeira
em paralelippedos, os numerosos veculos teem um rodar suave e
acariciador, sem estrpitos e sem sobressaltos, como se corressem sbre
alfombras. Pelos largos passeios marginais, na onda ronronante da
multido, saltam vivas as arestas e as figuras cortam-se com violncia,
surpreendidas em flagrante e trazidas ao mximo relvo pela modelao
crua em que, do mesmo passo, as envolve o grande jrro de luz branca,
dos candelabros do alto, e as espadanas de luz doirada golfando dos
_escapartes_ scintilantes.

O Silveira seguia interessadamente o indito desdobrar desta cinta
magnfica, com a alma tda nos olhos e a ventonheira cabea passando,
em sbitas e incansveis alternncias, dos flores repolhudos dos
palcios  toalha esplendente da rua; quando, de repente, imperativo,
nervoso, arpoando forte o brao ao amigo:

--Ah,  menino! pronto, pronto... ali! manda parar.

--Aonde?

--Ali! ali!--insistiu, na mesma imperiosa querena, o Silveira.

E apontava um grande letreiro, projectado,  altura dum 2.^o andar,
perpendicular sbre a rua, onde em flamantes caractres sucessivamente
brancos e rubros, se lia--*Idiomas Berlitz*.

Mas, incommovvel e suspenso, o Azeredo, sem perceber:

--Ora essa! e porqu? Ests doido?...

--No, filho! manda parar, j te disse... Preciso adestrar-me no ingls,
p'ra me entender com uma criatura deliciosa que conheci a bordo. Se tu a
visses!

Agora o Azeredo ria a perder, sacudindo esperto o busto, espalmando as
mos sbre os joelhos.

--Ah! ah! ah! Essa nem parece tua.

--E ento?--retrucou, fazendo um mmo de srio, o Silveira, quse
ofendido.

--Pois tu no vs?... Por mais _apurado_ que quizesses andar, nunca
lograrias arranhar algo, e bem pouco, do ingls, seno passados dois ou
trs meses.

--Tanto tempo?

--Seguramente. E entretanto a mulhersinha teria sabido arranjar... quem
melhor a entendesse.

Cabisbaixo e um pouco triste, o Silveira ruminava mentalmente uma
aquiescncia. E com o lho ladino, o amigo:

--No me sejas zonzo, rapaz! Em matria de amor as mulheres no querem
saber de palavreado. Obras, obras...--E com um desprezivel dar de
ombros:--Que diabo! nem pareces portugus.

O _auto_ seguia sempre, mole e suavemente. Deixada para trs a falaciosa
esperana dsse letreiro redentor, j os dois amigos atingiam de novo a
Praa do Congresso e seguiam ao longo de Rivadavia, a internar-se no
chamado _centro_ da cidade.--Infindveis ruas estreitas e banais,
perpendicularmente enastradas, no seu hirto paralelismo e na sua
esquadria inflexvel riscadas sempre indefinidamente. A esta hora
ruidosa e opressiva da noite, elas so como que metericas fendas
lineares talhadas a prumo, num rectilneo enfiamento sem termo, ao longo
do ferro e o cimento _recoc_ dos grandes quarteires macios. No h um
desafgo, uma abertura, uma fuga de espao livre ou um claro de benfico
repouso, neste atropelado escoamento de coisas brbaras e difusas. Foram
ruas bastantemente espaosas e amplas, h quarenta anos, para suprirem
ento ao movimento de duzentos ou trezentos mil habitantes; porm hoje,
deplorvelmente adstringindo ainda o corao duma cidade cuja populao
quintuplicou, tornadas duma lamentvel e nociva insuficincia. No seu
estrangulamento arcaico chocam-se, cruzam-se e baralham-se delirantes
tda a casta de obstculos e de rudos. A cada momento h que parar. De
quarteiro para quarteiro, a cada passo o moroso avano  cortado por
embaraosas suspenses, em inalterveis sucesses de minutos que parecem
sculos. Enfastiado e impaciente, o Silveira props ao amigo
apearem-se.--No podia aturar mais aquela maada! A p sempre girariam
melhor.--Mas nem por isso a mudana de instrumento locomotor lhe trouxe
a ambicionada largueza de movimentos. Pior agora, talvez... Pelos
passeios laterais, mancos e exiguos, mal podem caminhar duas pessoas a
par; e ainda h que seguir com invarivel aprumo e a maior cautela, afim
de evitar o rce brusco dalgum dsses tilintantes e monstruosos
_tramways_ que teimosos e incessantes lhes passam, com estrepitoso
fragor, rasos mesmo pela aresta, em risco de nos levarem um brao ou
estriarem uma perna.

Debalde no cruzamento das ruas a polcia, numerosa e atenta, faz
cabalsticas manobras com o seu basto providencial, no honesto esfro
de regular os detalhes da circulao. Resulta sempre uma empresa rdua,
por vezes herica, a ordenada canalizao da trbida torrente, do atrito
cosmopolita dessas grossas _mangas_ humanas, jorrando em sujas golfadas
por um afunilado labirinto a sua hipertrfica exuberncia. Bem queria,
uma por outra vez, o Silveira deter-se um pouco, a analisar uma figura,
a sondar uma perspectiva, a anotar um pormenor, a observar as
_montras_... breve reconhecia ser, ali, tam singelo acto um cometimento
defeso  maior destreza humana; e tinha que arrancar brusco e retomar
caminho, entalado, enovelado entre os cotoveles nervosos do amigo e a
congestiva onda da multido que o levava por diante. Depois, se le por
acaso, inadvertido, voltava a abandonar a sua posio de equilbrio
periclitante para contornar o arreliativo tapume dalgum prdio em obras,
para dar o passo a uma dama, para alcanar o amigo, para atravessar a
rua, logo de cham-lo  brutal realidade,--e por vezes
simultneamente,--a busina dum _auto_, as campanhas das bicicletas ou o
timbre estridente de mais um grande _tramway_, cuja massa atravancadora,
farfalhante, enorme lhe cortava sbito a frente, ringindo, pesadamente,
com a esmagadora fria dum mastodonte a abrir caminho pela selva.

O Silveira sentia-se enervado, aturdido. Aquele caminhar fatigante 
fra de opressivo, o grosso marulho sobrenadante, a profusa luz dos
cafs, dos teatros, _tiendas_ e _cinemas_, entontecia-o. Entretanto,
prendia-lhe a ateno a _talage_ caprichosa e berrante das numerosas
lojas de engraxador,--peculiares de Buenos-Aires,--com as suas
estravagantes decoraes, o seu afanoso saracoteio, e o imprescindvel
fongrafo, ao fundo, sob o relogio, entre arbustos anmicos e
hilariantes cartazes, roncando alegremente. Mas nem a lhe era permitido
o gzo inocente dum pouco de exame tranqilo; porque, se um instante le
parava  porta dum dstes interesseiros especmens da fantasia
napolitana, logo de assalto,  altura do ouvido, lhe rompia o tmpano,
fazendo-o estremecer e fugir, a estentrica voz do pregoeiro, tam
nasalada e estrdula como as vibraes do fongrafo do fundo, para a rua
a sibilar clamorosamente:

--_Gay ass_...

--_Gay asiento, cabayero!_

Teriam os dois caminhado assim pouco mais dum quilmetro, quando muito
prazenteiro o Azeredo, sustando o passo ao amigo:

--C estamos em Florida. Uff! Aqui no h trnsito de veculos a esta
hora.  tudo para o belo _flirting_...--E todo aos saltinhos,
tomando-lhe do brao:--Anda ver o _chic_, meu rapaz!

O mesmo alinhamento angosto e banal das demais ruas em trno, cujo
inflexvel e cerrado travamento forma o clssico sistema vascular desta
parte da cidade. A mesma congestiva afluncia, o mesmo crso embaraoso
e difcil, o mesmo movimento, o mesmo rudo tambm; mas tudo isto aqui
constituido apenas pela dissonncia de vozes, o afanoso giro e o
formigueiro sussurrante da multido a p, que, livre do tropo
aplastante dos veculos, em plena alegria e em plena expanso,
revoluteia, afli, chalra, insinua-se, resvala e afirma-se prepotente,
tomando  vontade a rua tda, as suas impressivas silhuetas saltando
ntidas e as sombras mordendo em vincos de agua-forte a espelhada
fludez do asfalto reluzente.  a hora elegante, a hora preferida.
Sente-se e sa brando o peganho abundante das passadas, ao longo dste
grande salo a cu aberto. Ao alto, pela noite nevoenta do cu,
superando o estrangulado limite dos prdios, recortam-se, penduram-se,
cruzam-se e danam em profuso tda a sorte de rclames e adornos
luminosos, formando por vezes, de lado a lado, caprichosos viadutos, ou
suspensos em esplendentes rosrios que entornam a sua luz gloriosa sbre
o boleamento arquejante e febrl desta grande feira gentlica. Em baixo,
a sucesso dos estabelecimentos luxuosos  interminvel:  uma dupla
feira, magnfica, deslumbrante, de grandes _magasins_ de modas,
livrarias, floreiros, _bibelotages_, _tea-rooms_, _talages_
industriais, armazns de msica, adorveis pequenos sales artsticos,
rijos mostrurios de artigos de _sport_ que prendem um momento a ateno
dos homens, cristais de ourivezarias faiscantes que incendem em
pecaminosas tentaes o perdido olhar das raparigas.--Qualquer coisa
como a _Rue de la Paix_ ou _Bond Street_, porm com mais mpeto, mais
cr, uma vida mais compacta e mais intensa, e sobretudo com uma
percentagem muito superior de mulheres bonitas.

 ver a harmoniosa graa com que elas caminham, no seu passo miudito e
firme, airosas, leves, naturalmente distintas, requintados exemplares da
espcie, felizes pelo segrdo dste seu donaire especial, feito de
nobreza, de doura, de confiana e de vaidade. Os homens marcham com uma
tonada, uma segurana e um garbo igual, pisando ademais como senhores,
no convicto orgulho de si mesmos, incompatveis, v-se, com o instinto
da economia, altaneiros e certos na generosidade sem fim do seu torro
bemdito. E todo o mundo anda ligeiro. Claro que no corriqueiro programa
dste obrigado passeio elegante, de cada dia, a melhor e mais grata
funo  consagrada ao galanteio feminino.  pinturilada porta da
confeitaria _L'Aiglon_ estacionavam grupos de _mirones_, a cada momento
renovados, tam de-pressa sumidos no grosso embate da onda, como logo
refeitos galhardamente; por tda a parte se disparam frases amveis e se
despedem olhares gulosos ao venusino apetite das lindas _seoritas_ que
por entre o deslumbramento mgico das lojas desfilam incessantes,--mais
claras que as luzes, mais adorveis que os _bibelots_, de maior preo
que as jias; mas tudo isto  expedito, fugaz e feito com slta deciso
varonil, em breves pausas de cavalheiresca excepo abertas na febre
geral do movimento, deixando a perder de vista e afundando num abismo de
ridculo a pasmaceira lamecha habitual da nossa Rua urea e do Chiado.

--Que tal achas, _ch_?!--indagou o Azeredo vivamente.

E com os olhos extraviados de jbilo, o Silveira:

-- encantador,  divino! Esta  a minha terra!

Assim fizeram os dois o percurso total da formosa rua, desde as
aristocrticas instalaes de Harrods, passando pela arte postia da
_London Gallery_, a arcaria pedante do _Jockey-Club_, a branca portada
do _Charpentier_, as _montras_ suculentas da _Rotsserie Sportsman_, t
ao grosso amontoamento burgus dos armazens de Gath & Chaves. Ao cabo,
j sbre a Avenida de Maio, o Azeredo assinalou trocista  curiosidade
vida do amigo a chamada _esquina de los otarios_,--pasccia aresta de
voluntrio suplcio onde o amor pelintra dos caixeiros e amanuenses vem
baboso e marruaz aguardar a sada das costureiras. E aqui nste
estrepitoso cruzamento de duas das suas principais artrias, atinge o
mximo da intensidade e da cr a agitao resfolegante da cidade. Dsse
compacto torvelinho, da baralhada onda de tda essa grossa turba em
delrio, ergue-se em quentes lufadas e toma e embebeda o ar uma
clamorosa ressonncia, que  a evidenciao triunfante do bem-estar
fsico, da fecunda actividade, da pletra de fortuna e de riqueza desta
moderna Cartago,--a vontade feita moeda, um dos grandes fcos da
capacidade potencial do homem sbre a terra, portentoso centro de
atraco, emprio colossal do trabalho fascinante e criador, caldeado na
protica ardncia das mais vlidas esperanas e as energias mais
potentes das raas de todo o mundo.




VI


Bem disposto e vido por continuar o seu interessante exame objectivo da
cidade, o Silveira no dia seguinte ergueu-se cedo e desceu pronto a rua.
Andadas no mais de trs _cuadras_, ei-lo de novo na Praa do Congresso.
Dez horas da manh. Fazia um dstes claros, suaves e incomparveis dias
de outono de Buenos-Aires, em que do cu alto e lmpido, de pura safra
desce uma luz de oiro vlho a acariciar tranqilamente as coisas. Os
raros relvados do centro da praa, com a sua rociada lanugem verde,
formavam apetitosos ninhos, e a airosa cpula do Parlamento, ao fundo,
cortava-se na frescura opalna do ar em figuras de aguarela.--Mas agora
o Silveira notou que logo ao primeiro ngulo do vasto recinto,  sua
esquerda,--junto  base duma esttua que era a consagrao ornitolgica
dalguma grada personagem, de mataces e labita, desta as abas danantes
brigando simblicamente com as asas duma guia,--um joven de lunetas e
gravata branca, desbarbado como um _clergyman_, trepado a um banco,
acenava e arengava com entusiasmo a um hipottico auditrio que no
vinha.

Atrados pelo colchete dos seus dedos suplicantes e pelos seus brados
convictos, acodem primeiro alguns rotos _canillitas_, vendedores de
jornais; vrios cocheiros e _chauffeurs_ em repouso vo depois at le
preguiosamente arrastando-se; vem ainda, estimulados por ste
comovedor desbarato de eloqncia no vcuo, os poucos desocupados que
pelos bancos prximos amadornavam a sua indolncia. Curioso e atento, o
Silveira acercou-se tambm.--Discreteava sobre poltica ste improvisado
apstolo da rua. Falava em civismo, em liberdade, em igualdade, em
conscincia, no sagrado exerccio do sufrgio, nas inauferveis regalas
do povo. Figurava enfticamente o concurso s urnas como a benfica
corrente arterial da vida colectiva, como a maior conquista e o mais
grato dever moderno. A sua persuasiva parlenda rola sempre sbre a mesma
ida, torturadamente exibida num laborioso acrobatismo de
logares-comuns; dir-se-ia que le prolonga deliberadamente o seu
exrdio, a dar tempo a que a assembleia cresa. Agora h j mulheres
tambm entre os ouvintes. E o glabro orador ento aquece, afervora no
entusiasmo. Imagina-se compreendido e ala-se em conceitos galantes, em
primores de frases, desbrida-se em raptos de baixa lisonja sbre as
reivindicaes feministas e a sublime misso social da mulher. Gesticula
como um energmeno, os desmanes da inspirao e o tom da voz sobem de
ponto, j com jupitereanas fulminaes contra os abusos de caudilhismo,
a influncia desptica da riqueza e a corrupo sistemtica dos grandes
satrapas do poder,--inofensivas objurgaes abrangidas entretanto pela
alada coerciva da polcia.--Porm o Silveira acha ste mandado
charlato poltico menos interessante que os seus pitorescos
competidores _callejeros_, os barafustantes pregoeiros de pomadas e
elixires maravilhosos. E o assunto no o prende maiormente. Afasta-se
com tdio.

Segue ento percorrendo a p a esplndida rua Callao, num regalado
vagar, saborosamente. Fareja com libidinoso apetite as morenas
crioulitas que passam, em cabelo; esmiua com a vista maravilhada e
cativa tda essa opulenta sucesso de _magasins_ elegantes, luzidas
_talages_, soberbos hoteis e palcios sumptuosos. Mas eis que, ao
desembocar na praa Rodriguez Pea,--oh! fastidiosa surprsa!--_mutatis
mutandis_, ele a vem encontrar repetida a mesma scena de h pouco.
Igualmente aqui um veemente e fogoso orador blsa sbre um auditrio
escasso e mesclado, por igual, a mesma encomendada torrente de diatribes
e proclamas. Com a diferena que ste  trigueiro e barbado, de aspecto
faanhudo, tem um _taxiauto_ por pedestal, e  sua ilharga flameja com
triunfante arrogncia uma bandeira partidria. O pior foi que numa das
mais impetuosas fugas da sua inflamada homlia, um polcia aproxima-se,
intervm, exige-lhe a apresentao da licena; o interpelado titubeia,
estaca, empalidece, busca em vo um papel salvador nas algibeiras... e
por fim lana mo resoluta ao leme do _auto_, va e desaparece, entre os
bonaches aplausos e as casquinadas trocistas dos assistentes.

O Silveira lembrou-se ento de ter lido, ou lhe terem dito, que naquele
momento a luta eleitoral _battait son plein_ na grande capital
_portea_. Estava-se em pleno perodo eleioeiro, para a renovao
parcial de senadores e deputados. Os socialistas, na impetuosidade
juvenil da sua formao, tinham perante os vlhos partidos arreganhos
nunca vistos. stes respondiam com uma animao e um calor igual. Da a
encarniada vivacidade da luta, e a dispersiva abundncia de tdas essas
arrebatadas prdicas de moral poltica, cuja copiosa fria palreira o
Silveira ligou naturalmente  profuso berrante de cartazes com muitos
pontos de exclamao, e de anodnas efgies de bons burgueses,
aspirantes a pais da ptria, que le via por tda a parte colados s
paredes,--sbre todos batendo o _record_ da flamncia e do rclame o
busto implicante dum j maduro candidato a senador, de grande flor na
lapela, no redondo caro sensual uns olhitos muito vivos e o grisalho
bigode erguido.

Assim se explicava essa divertida e basta erupo de relmpagos de
civismo, por conta prpria ou encomenda alheia, um pouco  maneira
inglesa. Porm nada disto podia maiormente interessar quem, como o
Silveira, se expatrira de vontade, muito de indstria para furtar-se ao
galimatas poltico e no mais ser parte nem presenciar, sequer, as
sujas dissenes e as chinfrineiras brigas em que se esfacelava a sua
querida terra. Tambm, pelo momento, le comeava a sentir que j
conhecia demasiado, para um hspede de horas, como le, os aspectos
exteriores, o ambiente vulgar e comum de Buenos-Aires.--Isto s no lhe
bastava, no era nada. Queria ir mais alm...--Mordia-o o desejo
veemente, picava-o o apetite agudo de transpr essas portitas de
sacristia, de franquear essa freirtica barreira de inexorveis
persianas com que le esbarrava por tda a parte, tendidas
hermticamente; queria, em suma, desvendar um pouco o pensamento, a alma
da encantadora grande cidade que le escolhera para refgio,
surpreend-la nos castos mistrios do _hogar_, conhecer-lhe as
caractersticas morais, penetrar-lhe a vida ntima,--o que le de
antemo sabia, pelo Azeredo, ser algo difcil.

Entretanto nessa tarde, para aproveitar o tempo, e, como bom tctico do
galanteio, para no perder o contacto com as ticas perfeies e as
claras promessas de _Mrs._ Edith, decidiu ir de visita aos Di Paoli.
Tinha-os ali assim crca do hotel, na mesma Praa do Congresso. Uma
modesta penso que lhes haviam agenciado, em casa duma distinta
camarada de arte,--explicra-lhe o conde pomposamente. Era um simples
rs-do-cho, como tdas as antigas casas de Buenos-Aires, com a porta e
a seguir duas janelas. No humbral da porta havia um singelo _placard_ de
metal brunido, onde em negros caractres se lia: _Lady Cowpel,
miniaturista_. Entrava-se, subiam-se trs pequenos degraus, e passada
uma estreita porta envidraada, tinha-se o invarivel e minsculo
vestbulo, estiradamente continuado por um lgido corredor descoberto,
que uma longa fieira de discretas portas flanqueava, e que era alto,
fechado ao fundo por uma esguia charola de dois andares.--Uma mocita de
touca e avental branco acudiu  entrada do Silveira, a inquirir:

--_Qu desea, seor?_

Os Amglio haviam tomado o primeiro compartimento, logo  direita,--o
melhor da casa,--correspondente s duas nicas janelas dando sbre a
rua. A esperta _mucamita_ adiantou-se e foi golpear  porta,
melindrosamente blindada de persianas fixas de madeira, como tdas as
mais. O mesmo conde veio abrir; e logo com expansiva alegria, ao dar com
os olhos no amigo:

--Ah, o meu caro Silveira! Que bela surpresa!--Abriu convidativo a tda
a largura o batente da porta:--Entre, entre... queira entrar.

O Silveira hesitou, ao ver o conde em mangas de camisa, e do mesmo passo
surpreendendo num relance a atravancada desordem do aposento.

--Venho talvez incomodar...

--Qu! Incomodar?... De modo nenhum. Pelo contrrio! Entre... Fez muito
bem!--E para o interior, num altear imperativo da voz, anunciou
afvelmente:--Edith! o snr. Joo da Silveira.

O recm-vindo arriscou ento alguns tmidos passos no baralhado
pejamento do recinto. Era uma vasta pea, alta e triste, forrada a papel
vulgar, esfarpado a trechos e comido junto ao teto por eczemas de
humidade. Sbre a lisura de bistre do soalho encerado, arrastavam-se um
pouco por tda a parte as maletas, as caixas de chapus, os sacos de
viagem, e havia pulverulncias lineares de terra e lixo definindo
geomtricamente o bjo de grossos caixotes de pinho, intactos uns e
outros j eventrados, com as desprendidas tampas postas ao alto e
eriadas de grandes prgos, hosts e recurvos como garras.

Em meio da sala o conde, sempre convidativo e afvel, e depois de haver
cerrado a porta, apressou-se a explicar:

--No repare neste desarranjo, meu amigo. Eu estava desenfardando e
arrumando p'r'a assim de qualquer forma os meus ricos quadros. Parece
que no sofreram com a viagem.

--E so muitos?

--Ao contrrio. Mas valem pela qualidade. Um tesouro!--E num
convencional arrebite de vaidade:--Oh, que deslumbrante exposio eu vou
fazer aqui!

Passou a mo nervosa pelas negras ondas do cabelo, moveu o trax numa
leve opresso de cansao, e mesureiro, abundante, sempre
inaltervelmente plido, apontou desvanecido ao irracional exame do
Silveira a atramochada distribuo das suas telas, umas j penduradas,
outras ainda provisriamente postas de espalda contra o rodap
surramposo da parede. E tambm junto a esta um petisito obreiro,
arremangado e trepado a um escads de tesoura, como que aguardava
ordens, inexpressivo, imvel, de braos pendentes e o pesado martelo da
mo suspenso.

O Silveira julgou oportuno convidar polidamente:

--Bem, mas porque no continua?... Eu no quero que faam cerimnia
comigo.

--Cerimnia, nenhuma.  muito amvel...  que estou um pouco
cansado,--obtemperou naturalmente o conde, enfiando o seu leve jaqueto
cinzento. Fez um sinal ao mocito da escada, que desceu e sau em
seguida; e tranqilamente, sentando-se, acendendo um cigarro:--Temos
muito tempo.

Neste momento abria-se uma espcie de envidraada porta de alcova, no
mais escuso recanto da casa, e por ela fazia a sua apetecida apario
essa sonhada delcia de _Mrs._ Edith, singelamente vestida,--uma saia
corrida de fina sarja negra, blusa branca de _liberty_,--e o mesmo liso
penteado em bands  Clo, o mesmo divino perfil de Madona, o mesmo ar
repousado e ingnuo, a mesma ateniense modelao das formas. Avanou
sorridente ao Silveira, sadaram-se familiarmente, como dois bons
amigos. Logo ela recolheu pronto a mo, perturbada e esquiva ao beijo
demasiado expressivo do seu admirador; e tudo era depois circunvagar,
perante le, os confrangidos olhos pela sala, e enconchar e alargar e
mover com vivacidade os braos, em adorveis gestos de escusa.

O marido solcitamente interveio:--que o seu nobre amigo j sabia...
desculpava tudo. E para o Silveira continuou, desabusado e simples,
aclarando:

--Obtivmos por muito favor esta pequena instalao, que est longe de
ser decente... e muito mais longe de ser barata. Imagine: esta sala e
dois pequenos quartos, interiores, escuros, nada mais... quinhentos
pesos por ms. E a sco. Uma barbaridade! Temos que ir comer ao
_restaurant_ Santini, que nos fica a cinco _cuadras_, na _calle_
Paran.--Aqui a condessa fz notar com repulsivo enfado, que, demais,
tdas as manhs a laboriosa preparao dos banhos e ablues era uma
tragdia. E no mesmo tom o Amglio confirmava:--Uma roubalheira! uma
maada! Conheo Londres, Viena, Berlim, S. Petersburgo... pois,
senhores, j vejo que no h como Buenos-Aires para fundir dinheiro!

--No  nada tranqilizador sse anncio para mim.

--Aqui o pretexto para tam alta renda  que as peas esto mobiladas.
Mobiladas!--comentou o conde, com uma desdenhosa mirada em trno,
encolhendo os ombros.--Mas de que maneira!

No se recomendava com efeito o mercenrio recheio da vlha sala nem
pelo confrto nem pelo aceio. De reposteiros, cortinas ou alfombras, no
havia vestgio. Ao meio da principal parede, um aparatoso e ratado
grande contador japons, ainda com preciosas incrustaes de laca e
marfim, mal amparava a poder de cunhas e remendos a sua ruina
claudicante. Havia mais uma meia dzia de desparelhadas cadeiras,
tamboretes e _fauteuils_, com o estfo esfiampado e sujo; uma _tagre_
banal com conchas e bzios, um piano; e ao centro uma mesa redonda,
coberta por um coado e lustroso pano franjado, de lanujem verde, agora
ciscado abominvelmente de pequenas ferramentas.

Com um novo lastimoso dar de ombros, tornou o conde para o Silveira:

--Nem uma chvena de ch lhe podemos oferecer!

--_To morrow_...--acudiu a mulher com adorvel carinho.

E muito solcito o conde, interpretando:

--manhan... Oh, manh, certamente, com o maior prazer!--E
obsequiosamente lembrava:--O que podemos agora  preparar-lhe um
_punch_. Vai feito?

O Silveira recusou delicadamente.--Por modo nenhum! bastava-lhe gozar a
sua amvel companhia.--_Mrs._ Edith ofereceu-lhe _bonbons_, atalhando
assim gentilmente o previsto fluxo de consabidas frases lisonjeiras que
de seguro ia seguir-se. E levemente ruborizado, o Silveira, a derivar,
com os lbios melados da guloseima e do desejo:

--Diga-me, conde... e a sua exposio onde a vai fazer?

--Ainda no sei... Sei apenas, isso sim! que vou _pater_ tda esta
gente--rematou com a mais segura ufania, atirando fra o cigarro, os
olhos muito brilhantes.

E posto sbito em p, tomando com deciso o brao ao amigo:

--Isto  um mostrurio de puras maravilhas. Veja, veja... venha ver!
Comecemos por o que est j aqui assim  vista. Aqui tem mesmo na sua
frente um Hobbena, o maior paisagista holands depois de Ruysdaelf; a
seguir, um Corot, o grande psiclogo da paisagem; e agora em figura,
note! um dsses graves e aristocrticos retratos de Gainsboroug, que se
pagam hoje a peso de oiro; outro, do seu mulo e contemporneo Reynolds;
ali, um belo estudo de Salomon Konink; mais alm, v anotando sempre!
uma cabea de Ticiano, de quem o Tintoreto dizia que pintava com carne
moda. E por ltimo,--plantava-se com intimativa diante do Silveira
boquiaberto,--por ltimo, nada menos que um Velasquez! um genuino
Velasquez, ouviu?... o maior, o mais assombroso pintor de todos os
tempos.--A seguir, indicando pelo soalho os caixotes intactos:--Fra o
que est ainda p'r'a assim...--E sempre na mesma teatral fatudade,
dando um giro triunfante pela sala:--No lhe dizia eu!?...  realmente
uma dr de alma ter de desfazer-me de coisas tam raras e tam belas...
oh, mas ao menos encontro lenitivo na ida de que o meu sacrifcio h de
dar brado! e de que ficar memorvel na grata lembrana dstes bons
_porteos_ a maravilhosa seleco de obras-primas cuja aquisio eu
venho facilitar-lhes... um relicrio de Arte como les no viram nunca,
como no teem nada que nem de longe se parea sequr!

_Mrs._ Edith, que depois de cautelosa inspeco acabra por sentar-se no
menos avariado dos tamboretes, seguia esta flamante parada esttica,
sorrindo vagamente, numa complacncia tranqila. E do fundo do seu
obtuso espanto o Silveira, para o marido:

--Devem ser telas muito caras?

--Seguramente.

--Prprias talvez melhor para Museus.

--Ah, no... aqui todavia h riqussimas coleces particulares. Duas ou
trs, pelo menos. Eu estou bem _renseign_... Sei como hei-de
manobrar.--E ladinamente, piscando o lho:--A coisa  segura!

Perante tanta soma de glria e de fortuna, uma instintiva dvida chispou
na ptrea ignorncia do Silveira, que aventurou tmidamente:

--E, perdoe o meu amigo, so bem autnticos?

Um claro riso triunfal aqueceu a cnica face do charlato.

--Ora eis a precisamente a garantia do meu xito, a chave do meu
segrdo!  o caso daquela minha inveno... Eis o ponto onde eu queria
chegar.

Convidou o amigo a sentar-se, sentou-se defronte, e sentencioso,
pausado, dobrando  frente o busto, os cotovelos sbre os joelhos:

--Oia... O amigo sabe que tem sido sempre um problema difcil poder
constatar-se com segurana a paternidade dum quadro, especialmente dos
antigos, recorrendo apenas aos meios indutivos e dedutivos at agora em
uso. Vamos a ver...--Contava pelos dedos.--A anlise qumica das cres
empregadas no basta: primeiro, porque os discpulos dos grandes mestres
ficam usando, geralmente, as mesmas pastas e as mesmas tintas, o que j
estabelece confuso; segundo, porque, alm disso, as melhores ou piores
condies de conservao duma tela, a humidade, o calor, as tropelias
dos vrios retocadores e tcnicos, e mil outros malefcios, chegam
muitas vezes a p-la em estado de no ser possvel emitir uma opinio
segura sbre a sua idade e procedncia. Bem, mas poder ento
recorrer-se, dir-me ho, ao exame e confronto do estilo, da maneira do
artista. Ora aqui igualmente o bom critrio falha, falto de apoio srio,
porque no s, para cada artista, essas variantes no processo pictural
se produzem de ordinrio caprichosamente, seno que ainda, quantas
vezes! os adeptos e os continuadores duma escola acabam por apaixonar-se
pelas caractersticas de execuo do chefe e vo at assimil-las
maravilhosamente. A tem o meu amigo Perugino e Rafael: dois
temperamentos artsticos de bem diversa ndole, no  certo? E contudo,
comparados em algumas das suas melhores obras, parecem idnticos.

Contrariado e aborrecido por ste giro erudito do dilogo, o Silveira
esboou um gesto de impacincia e mandou uma implorativa mirada a _Mrs._
Edith, que folheava uma revista ilustrada, distradamente. O conde
prosseguiu:

--H ainda a considerar os testemunhos da poca, os chamados documentos
histricos, dum grande auxlio, seguramente. Mas tambm stes s por si
no bastam. Porque  por igual freqente deparar-se uma ou outra tela
atribuida a qualquer dos grandes mestres da pintura, sob cujo nome tal
ou tal quadro foi inscrito nos Catlogos, e afinal vir a averiguar-se
que le para semelhante obra no contribuira mais do que com a ida e
dra a firma, tudo o mais tendo sido feito por algum dos seus
discpulos. Olhe, a tem: o famoso _Retrato do Rabbino_, durante muito
atribuido a Rembrandt, porque em tudo correspondia  _maneira_
consagrada dste genial pintor, hoje  catalogado como obra de Salomon
Konink. E quantos exemplos mais!

Agora, sim, a condessa, condoda da mortificada expresso e a
confrangida atitude do Silveira, tossicou, ergueu-se e veio de novo
oferecer-lhe _bonbons_, piedosamente. Enquanto, palreiro e implacvel,
sempre sentado o marido:

--Esta deplorvel deficincia de elementos de _contrle_ d como
resultado que a gente percorre os principais Museus da Europa e a vai
encontrar, ainda hoje, muitas das suas melhores obras registadas e
inscritas sobre designaes deficientes ou imprecisas. A clebre
_Visitao_ e a _Ressurreio_, do Museu de Berlim, ainda hoje se no
sabe a que primacial pincel atribui-las. O mesmo acontece com duas
_Madonas_, um _So Loureno_, um quadro do _Glgota_, um _Retrato de
Guerreiro_ e vrios outros, todos peas de subido valor, no Museu de
Budapesth. O Catlogo contenta-se em nos dizer que so da Escola
italiana. E semelhantemente em todos os grandes museus do mundo. Pois
bem! amigo Silveira...--acentuou com jubiloso orgulho, abaritonando a
voz, aprumando o busto,--para preencher tam lamentveis lacunas achei eu
o processo! _Eureka!_  a minha grande descoberta, a minha glria, o meu
segrdo. Todos c viro ter...  infalvel! E quere saber onde pela
primeira vez ficou irrefragvelmente provada a eficcia, a importncia,
a utilidade mundial do meu invento?... Foi em Londres, na _National
Gallery_. Conhece?... H ali um grande quadro, _The Old Grey Hunter_,
que andava catalogado como obra original de Paul Potter. Porm,
recentemente, o dr. Bredius formulra a sse respeito dvidas
ponderosas, inclinando-se a atribu-lo antes ao belga Verboeckoeven.
Grande polmica nos jornais e revistas da especialidade, socorrendo-se
cada um dos contendores s suas melhores razes e argumentos, numa
renhida discusso sem fim... e sem resultado. Vai eu, que me achava
ento em Londres, aproveitei... a ocasio era formidvel!... propus-lhe
_crnement_ resolver a dificuldade, pr a limpo a questo, aplicando o
meu processo microfotogrfico. Acolheram-me a princpio com um
scepticismo incrdulo, mas acederam por fim. E sabe o que
aconteceu?...--E arrebatadamente, erguendo-se, num fogoso mpeto de
vaidade:--Provou-se, mas provou-se por uma forma insofismvel, entende?
que o quadro fra realmente executado por Potter... porm Verboeckoeven
pintra o cavalo.

No manso rosto complacente de _Mrs._ Edith, e ante a estupefaco alarve
do Silveira, perpassou o comentrio burlo dum sorriso. Enquanto
doutoralmente o Amglio, em p diante do amigo:

--Porque ste meu processo no s nos d a segurana absoluta de saber
se um quadro  antigo ou moderno, mas qual artista, moderno ou antigo,
foi o seu autor.--Sacudiu a cabea e ergueu as mos com
encarecimento.--O que ento se nos revela  portentoso! Tenho a
provas... hei-de-lhe mostrar.--E agora modestamente, encolhendo os
ombros:--E contudo  um processo bem simples e ao alcance de qualquer
que tenha uma certa prtica de fotografia.--Voltou a sentar-se, e com
dogmatismo pedante, feita uma pausa de importncia:--A questo  esta:
cada artista, quando pinta, e considerado ste acto sob o ponto de vista
puramente _mecnico_, poisa as tintas na tbua ou na tela
_inconscientemente_, tem um toque digital invarivel, traa
inadvertidamente uma grafia peculiar, que as centenas de pontas do seu
pincel vo de improviso riscando, numa impressiva obedincia ao
automatismo nervoso, e naturalmente rtmico, da sua mo.  um movimento
irreflectido, instantneo, um rasto imperceptvel, que ao mesmo artista
escapa, que o seu esprito no dirige, que o seu lho no alcana... e
contudo ficar marcando por uma forma incontrovertida, eterna,
insofismvel, a genuna autenticidade da sua obra. Qualquer
coisa,--entende?--como o reconhecimento duma assinatura por um perito
calgrafo, visto que a pena pode considerar-se como um pincel de duas
pontas. O certo  que os trabalhos de qualquer pintor,--quere sejam as
tentativas indecisas da primeira mocidade, quere os documentos fortes da
idade madura, quere ainda as j canadas produes da sua ltima
maneira,--quando submetidos  prova microfotogrfica, e basta ampli-la
oito a dez vezes, revelam todos um trao, um toque, uma caracterstica
idntica. Em cada uma dessas minsculas anlises se apura sempre,
invarivelmente, que as sdas do pincel, uma por uma, vo deixando um
fino sulco, ora retilneo, ora quebrado, ora curvo, ora mixto, afectando
infinitas formas, porm _idntico_ sempre quando se trata do mesmo
artista, e diverso se se comparam artistas diferentes.--E novamente
posto em p, sem pausa, sem piedade, no seu monoplio sem trguas da
enfriada ateno do Silveira, que debalde ensaiava um derivativo
inocente da fugitiva contemplao da irlandesa:--Que me diz a isto,
hein?

--Eu acho maravilhoso!--acudiu compenetradamente o Silveira, na sua
ingnua credulidade; e erguendo-se tambm:--Deve dar-lhe um dinheiral!

--Dinheiro e fama.

--No precisava deixar a Europa. Tinha a sua fortuna feita.

--Alguma coisa se fez j por l... Porm a divulgao de benefcios
dstes deve estender-se e apregoar-se bem por todo o mundo. Havia que
traz-la a estas improvisadas organizaes sociais da
Amrica.--Esfregava as mos de contente:--Vou acabar com a perniciosa
oligarquia, com a daninha praga dsses falsos peritos de arte,
verdadeiros criminosos, que por tdas as grandes cidades enxameiam e
manobram impunemente! E, aqui em Buenos-Aires, conto limpar as galerias
particulares de todos os falsos mamarrachos que uma cabotinagem sem
escrpulos tem sabido impingir-lhes, a pso de oiro, como obras primas.
Vai ver! vai ver!

--Uma tarefa benemrita...

--E lucrativa, pode dizer sem escrpulos.

E os negros olhos ladinos do conde tinham a metalizada expresso duma
voraz confiana, ao atribuir-se por ste modo, com o mais audaz
desplante, o primado da inveno e o exclusivo da aplicao dum processo
que, ao tempo, estava sendo praticado com xito notvel por Laurie nos
Museus inglses e por Thionville nas Pinacotcas da Blgica e Frana.

Por fim o Silveira anunciou que ia retirar-se, desapontado gal, ante o
fracasso formal da sua visita. E solcitamente o conde:

--Ento j?...

--So horas.

--Bem, mas volta manh, no  assim? Queremos muito v-lo aqui.

--_Without fault, to-morrow_,--instou numa sublinha amvel a condessa.

--Teremos j ento a casa um pouco em ordem e as tlas tdas 
vista,--tornou afvel o marido; e persuasivamente, quse ao ouvido,
batendo-lhe no ombro:--Tenho a um pequeno Boucher e um Bastien Lepage
que lhe devem convir... H-de gostar.

O Silveira sentiu frio na espinha e tomou pronto o chapu, para
despedir-se. Crescia-lhe agora na alma, contra a gananciosa estratgia
dste charlato sem igual, um vivo movimento hostil, de tdio e de
repulsa. Pensou vagamente em no voltar... Porm quando, ao receber as
ordens da condessa, sentiu nos lbios a carcia do veludo tpido daquela
mo pequenina, todos os seus apetites ribaldos espertaram e o reganharam
num instante. Rejubilou, aqueceu... e sau, leve e ufano, todo j no
fantasioso encanto das delcias da tarde seguinte.


Era uma quinta-feira, dia habitual de _carreras_. Um passeio ao
Hipdromo estava indicado. Para poder obsequiosamente acompanhar o
amigo, o Azeredo obtivera permisso de faltar nessa tarde ao escritrio.
 hora prpria, tendo antes apalavrado um _taxis_, seguiram alegremente
para Palermo os dois, e em breve se incorporavam e deliam na grossa e
luzida _queue_ interminvel, de pees de tdas as classes e matizes, de
veculos de todos os preos, de meios de conduo de tda a espcie,
que, naquele desapoderado crso  favorita diverso _bonaerense_, de
tda a parte afluiam e acudiam avassaladoramente, bolsando gente a monte
do estribo plebeu dos _tramways_, atirando de golpe as portinholas dos
_wagons_ na via-frrea, fazendo pomposamente buzinar e rodar a sua
opulncia pelo brunido asfalto das avenidas.

Considerava o Silveira com estranheza tam nutrida e animada concorrncia
a um dia de semana, um dia de trabalho. O Azeredo explicou-lhe:--que
todo o mundo ali jogava, moos e vlhos, pobres e ricos, enfermos e
sos, mortos e vivos... as mulheres e as crianas. Era a tintineira
geral. Quem no podia dar-se ao luxo de vir a Palermo, fazia obra pelos
palpites alviareiros das gazetas.  que o jgo, a alicantina, a
explorao, a fraude, o intersse, a indstria da burla e o recurso ao
azar, eram o vcio, a paixo, o mbil dominante, o desptico nervo
propulsor da vida da grande cidade. Os que no apostavam nas carreiras
especulavam em terras, jogavam nas loterias ou na Blsa. E ainda havia
os que tudo isto sabiam muito bem fazer, ao mesmo tempo. Da coisa mais
inocente nos surdia um _estafador_, das mesmas pedras da calada nos
tomava de assalto, a cada passo, um ladro ou um agiota.--E abrindo
depreciativamente os braos, rematou:

--Uma grande banca ao ar livre, uma batota ao abrigo das leis,  o que 
tudo isto.

--E tu?...--indagou o Silveira, num despreocupado sorriso.

--Ah, eu das corridas gosto. Bem vs... sou de cavalaria. Aos domingos
sou infalvel.

Cruzavam ao tempo a aparatosa _grille_ de bronze, da entrada, e
penetravam no largo e luminoso desafgo do _stand_, que, com as suas
luxuosas tribunas, rsticos palanques, pequeninos ronds, _pelouses_ e
minaretes, recordou ao Silveira Longchamps, porm mais pobre de pasagem
e com menos perspectiva. E, de roda, em pintalgados grupos sbre a
escovada areia sltamente ondeando e farandunando, a mesma concorrncia
habitual a stes logares, em tdas as grandes cidades; os homens,
grandes, fortes, serenos, trajando com severa elegncia, o tipo do
espanhol com vontade, no inteiro domnio de si mesmos; as mulheres,
desgarraditas e leves, numa harmonia de conjunto impecvel aquatintadas
finamente, a airosa silhueta cingida com meticuloso escrpulo ao crte
dos figurinos parisienses, mas sem afectao, numa _tenue_ de bom-tom,
num _virtuosismo_ ponderado e honesto, a que faltava aqui a nota
_criarde_ das _demi-mondaines_ lanando o estouvado prego das ltimas
extravagncias.

Era um pouco tarde. J os primeiros nmeros do Programa haviam passado,
e estava-se num intervalo. Havia um grosso embate mundano junto aos
vrios _guichets_ dos cbros e vendas. Cortava a suavidade pacfica do
ar o zangarreio spero, burlo, de dois aeroplanos. Crca do recinto da
pesagem, um rijo moceto trigueiro, desbarbado, gordote,--de grra,
_veston_ de presilha e polainas,--ao defrontar com o Azeredo exclamou
familiarmente:

-- amigo Azeredo, _como le va_?

--Bem, _gracias_! meu caro Jorge. E _Usted_?--acudiu, com um cordeal
aprto de mo, o interpelado. E seguidamente, apontando ao lado o
Silveira:--Permite-me que lhe apresente o meu querido compatriota e
amigo Joo da Silveira?--E logo para ste, com insinuante expresso,
completava:--O sr. Jorge Saavedra, argentino, cavalheiro muito distinto,
um dos meus melhores amigos.

--_Ah, tanto gusto_...--mastigou entretanto Jorge, numa sublinha
indiferente quele _shakehands_ banal a um desconhecido. Mas, tomado de
sbita simpatia ao encarar melhor a figura aberta e varonil do Silveira,
tornou com intersse:--E h muito que se encontra em Buenos-Aires?

--Recm-chegado apenas... h dias.

--E que impresses tem do meu pas? Agrada-lhe?

--Enormemente! Uma linda cidade e um povo cultssimo. Deve ser
encantadora aqui a vida.

O Saavedra sorriu, num jubiloso estremecimento de vaidade. Enquanto,
tocando-lhe na espalda, o Azeredo:

--E os seus favoritos hoje?... Agora, no _handicap_?

--No corre nenhum produto de marca... _ch_, c dos meus. No me
interessa.

--Bem, e a seguir, no clssico _Montevideo_?

--Oh, bem fcil... A vitria seguramente vai ser de _Packoy_.

--Tambm vou por le, sim. Linda estampa, elasticidade, nervos,
magnfico sangue...

--E montado por Arturi. No h que duvidar! D trs quilos de vantagem;
 porque est bem seguro da vitria.

Caminhavam agora de manso os trs, marginando a pista e sem maior
intersse pela corrida, pronta e fcilmente acamaradados. Jorge Saavedra
desfazia-se, a um e outro lado, galanteador, afvel, em rebuscados
cumprimentos, protectoras miradas e acenos abundantes. Os olhos espertos
do Silveira perdiam-se nas cres berrantes dos _jockeys_, na vivacidade
marulhenta do recinto, na perturbadora abundncia de deliciosas figuras
femininas. O Azeredo rejubilava, irrequieto, vivo, sempre aos saltinhos;
e com familiar confiana tornou para o Saavedra:

--Diga-me, amigo Jorge, e para o clssico _Chevalier_ que aposta fez?

--Isso nem se pergunta! Vou por _Canora_.

--Como _Canora_!?  vontade de perder _plata_... Eu aposto por _Chaica_.

--_Chaica?_...--atalhou por sua vez o Saavedra, parando, com um rir
trocista.--S por _broma_, _vamos_... _Es una cabuleadora_.

-- filha de _Pearl Rivel_!--redarguiu com intimativa o Azeredo,
formalizado.--Ora essa! Cumpridora a mais no poder ser. A sua primeira
prova foi a primeira vitria. No se lembra? no viu que _performance_
mais distinta?... No trno desta manh sei eu que fez os 700^m em 41''.

--No importa! no importa!--objectou Jorge, reatando a andar,
implicativamente.--_Canora_  filha de _Old Man_ e procede do _haras San
Jacinto_,  bom no esquecer.  voluntariosa, por vezes, tem um jgo
irregular,  certo. Oh, mas no h a uma competidora com _ms clase_ e
melhor estampa!

--No domingo perdeu.

--Por meia cabea, smente.

--Pois hoje perder por cabea e meia.

--_Ya lo veremos_,--pontualizou o Saavedra com arrogncia. E de repente,
esperto e firme, agitando imperioso o brao:--O _Montevideo_, agora!
Ateno! Se _levantan las cintas_... A partida! a partida!

Os seis ptros da escolhida _quipe_ para o clssico _Montevideo_ haviam
largado, com efeito, a tda a rdea, imponderveis, distensos, o pescoo
em flecha, disparada a garupa, os jarretes flamejantes fazendo voar a
terra. Com simultneo gudio do Saavedra e do Azeredo, _Packoy_ iniciou
galhardamente a direco do movimento e nesse posto de honra se aguentou
e cumpriu, durante os primeiros 600^{m}; porm depois, de tranco a
tranco marcando cada vez mais curto, inexplicvelmente, foi-se deixando
levar de vencida por forma que, ao desembocarem na grande recta final, o
seu distanciamento era j sensvel. Entretanto, _Grey-Eyes_, um enxuto e
gil potrito castanho que se estreava nesta corrida, atacando por fra,
ganhava o posto dianteiro, que manteve at final, vitorioso _leader_, ao
passo que _Packoy_ apenas em quarto logar alcanou a mta.

O Azeredo barafustava e erguia os punhos cerrados, em ganas contra o
_jockey_ duma arremetida justiceira, furioso, saltitando. Enquanto, numa
concordante exploso de clera, o Saavedra:

--Por culpa daquele _imbcil_ de Arturi! Sempre com a mania de conter as
montadas, a reservar-lhes o maior esfro, para efeitos teatrais, no
momento decisivo. E depois d destas _planchas_! Iam tam bem... O que
le precisava!

E golpeou desapontado com o chicote a sbe florida da vedao,
deslocando-se em largas e violentas passadas, o lho minaz, as narinas
aflantes.

Trouxe-lhe uma compensadora desforra a corrida seguinte, que resultou um
verdadeiro _match_ entre _Chaica_ e _Canora_, a sua ardente favorita, a
qual por mais de meio corpo atingiu primeiro o disco. Porm desta vez
Jorge, delicado e comedido, no querendo ferir os machucados brios do
Azeredo como prtico do _turf_, celebrou com moderado entusiasmo o seu
triunfo.

Faltavam ainda duas corridas; porm o Silveira de relgio na mo, tomado
dum vago embarao, arriscou--que no podia demorar-se. O Azeredo, que
estava ao facto do compromisso galante por le tomado na vspera,
desculpou-o. Mas, sinceramente penalizado, o Saavedra, dando preguioso
a mo a ste fulminante captador da sua simpatia:

--Retira j?... _Qu lastima!_

--Eu  que sinto imenso ver-me forado a privar-me, assim de repente, de
tam amvel companhia. Mas... o Azeredo sabe...

-- certo, ... Precisa deixar-nos--confirmou pronto o amigo; e sbito
com um jubiloso relmpago na pupila insinuante:--Mas eu tenho uma ida,
amigos! Podemos comer hoje os trs juntos.  uma compensao.--Premiu
afvelmente o brao de Jorge:--_Tiene Usted compromiso_?

--No... para hoje, no...

--ptimo! Considere-se ento convidado, hein?

--_Convenido_.

--s 8, no _Petit Salon_.--E com vivacidade, para o Silveira:--Tu
espera-me no hotel. Vou-te buscar.

Sadando ligeiramente, o Silveira partiu logo. Pouco depois das 5 horas
estava em casa dos Di Paoli, tendo antes comprado, na passagem por
Callao, um fino ramo de _muguet_, a flor predilecta da condessa. Fez
retinir fortemente o boto elctrico. Ia decidido a atirar-se de vez,
a arriscar um resoluto golpe de audcia que pronto lhe assegurasse o
triunfo definitivo.--E que auspiciosos prenncios para o seu intento!
_Mrs._ Edith estava s, e um verdadeiro apetite, arranjada lindamente.
Pela abundncia clida do cabelo uns toques dstros de ferro haviam
passado, ondeando-o ao de leve; no menos dstras pinceladas de _kohl_
haviam engrossado a linha sensual dos clios, haviam como que incendido
num voluptuoso fogo latente a macerada sombra das olheiras; e daquela
plstica impecvel os movimentos rtmicos podiam ntegros surpreender-se
e adivinhar-se, pelas indiscretas lisuras e os denunciadores refegos do
precioso _kimono_ de sda _grenat_ que os cingia apenas, sltamente,
deixando por inteiro a nu os antebraos e a alvura do colo deslumbrante,
que nas suas linhas de contacto com a sda adquiria reflexos duma rosada
e fluida transparncia, como se fra carne feita de prolas modas.

Foi um verdadeiro _coup de foudre_ para o Silveira a inopinada fortuna
desta situao e o supernal encanto desta figura. Beijou a mo da
condessa e entregou-lhe o ramo, tremendo ligeiramente, sem palavra
ferir, a lngua sca e os lbios frios. Ela correspondeu deixando fugaz
entrever, num sorriso discreto, a rociada frescura dos dentitos brancos.
Agradeceu o mimo da lembrana em carinhosas palavras, para a rasa
insuficincia linguista do Silveira arreliadoramente intraduzveis. A
seguir, muito naturalmente, prendeu sbre o corao dois dsses cachos
de minsculas caoletas perfumadas, e sem perturbaes nem pressas, o
olhar vago e repousado, sempre tranqila, foi acomodar os restantes com
atento esmero numa enfusita de vlha faiana, que trouxe da
alcova.--Veio ao tempo a _mucama_, trazendo numa bandeja o ch e dois
pratitos mais, um com _sandwiches_, outro com bolos secos, sofrivelmente
sdios. Disps em silncio o servio sbre o pano coado da mesa e
rodou num instante.

Na mente escandecida do Silveira o desejo, o ardor e a fria ertica
subiam de ponto. A sua incorrigvel fatudade, os numerosos e fceis
triunfos que ilustravam a sua larga flha de conquistador, debruavam-lhe
das falaciosas cres dum prisma demasiado optimista a singularidade algo
problemtica da situao; faziam-lhe tomar por claros propsitos de
seduo, por um convite formal ao galanteio, o que no passava talvez
dum ardiloso lao feminino. Pelo momento, a condessa convidra-o
simplesmente a sentar-se e servia-lhe o ch, com adorvel intimidade,
era certo, num abandno insinuante, avanando para le o brao nu,
enquanto as amplas prgas do _kimono_, dobrado  frente, desnudavam por
igual, em perturbadores relances, a rsea maravilha do colo erguido em
suaves ondas de pecado. E tentava explicar-lhe:--O conde no estava...
no poderia talvez vir seno tarde.--Quando o Silveira tal chegou a
compreender, sentiu nas orelhas um calor de evidncia, e na noite
ardente das pupilas relampeou-lhe um cntico de vitria... Mas aqui o
seu grande embarao! Queria mostrar-se um gal  altura, dominador
seguro dste lance de favor; urgia que iniciasse verbalmente o seu
ataque; porm como?... se stes soberbes ingleses faziam gala em no
manejar outra lngua seno a sua! Como em nenhum idioma os dois podiam
claramente entender-se, as suas abortadas tentativas de dilogo
resultavam assim um desbarato de palavras, confuso e estril, um
titubeio divertido e por vezes cmico, um atabalhoado duelo de absurdos,
desfechando sempre na mesma burlesca e formal impotncia, cortado de
suspenses, sublinhado a risadas. Havia que suprir a deficincia da
frase pela abundncia e a vivacidade do gesto, muitas vezes. E
lascarinamente o Silveira aproveitava para desbordar-se em atrevidas
manobras digitais, para arriscar sorrateiros toques sugestivos e
ensaiar, como filhas do acaso, aproximaes lascivas,--que _Mrs._ Edith
acolhia entretanto com inaltervel singeleza, como que sem dar-se conta,
desprevenidamente, abotoada numa cega inconscincia infantil e numa
frialdade desesperante.

Esta atitude inverosmil da condessa desconcertava o Silveira, punha-o
doido de despeito, de raiva e de desejo.--Que demnio! Voltava a
esbarrar com a mesma diva impassvel, a mesma criatura calma,
desentendida e ingnua do comeo da viagem... Vo l entender mulheres!
Essa deliciosa, essa picante doidelas dos dias de Entrudo escapava-lhe
outra vez!--E no desnorteado furor que o aquecia, le j descia a
processos de mau gsto, cometia imprudncias, roava-a ombro com ombro,
apertava-lhe o pulso, tocava-lhe o p debaixo da mesa.--Ento,
sbitamente, e como que obedecendo a algum convencionado sinal, fez a
sua inesperada apario na salinha a dona da casa, Lady Cowper,
sobraando um paquetito.--Alguns dos trabalhos das suas discpulas, que
ela vinha obsequiosamente mostrar ao recm-vindo.--O Silveira teve ganas
de lhe morder. Ela era uma quarentona repulsiva e obsa, vestida de
amarelo, pequena, ruiva, de olhos claros, marcada por abundantes
sarapintas de bistre na face enlagostada. Mesureira, bajulando,
adiantou-se a sadar, com o seu sorriso verde de criatura falhada, e
logo a sapuda concha das mos sardentas a semear pela mesa uma parada de
midas bugigangas. Eram rebuscadas miniaturitas, medalhas e iluminuras
banais, camafeus, embrechados, pirogravuras e esmaltes, de pssimo
desenho, duma execuo vidriosa e dura como o aspecto paleoltico da
professora. Esta porm, importante e de p, o ventre contra a mesa, no
despegava de encarecer essas efmeras obritas de _virtuosismo_ barato,
mostrando-as com ufania, uma por uma.--Que visse bem... aquele finssimo
esmalte _Lus XV_... sse delicioso retratinho com moldura _Imprio_...
_uma liseuse_ para um livrinho de Horas... esta preciosa moldura gtica
em cobre rebatido. E aqui... e agora... e isto mais. Verdadeiras peas
de arte, havia de convir. O que no admirava, feitas como eram tdas por
meninas da primeira sociedade.--Exprimia-se num mau castelhano,
horrivelmente gutural, ora aspirado, ora cortante, como golpes de
machado rasgando lenha. E passava sem cessar a aborrecida miualha s
mos do Silveira, que no propsito inocente de correr breve com a
importuna, tomava fulo cada pea e logo a arrumava, aps um exame
sacudido, sumrio, quse agressivo.

Baldo estrategema, porm, porquanto aquela empatadora inexorvel tomava
agora familiarmente assento ao lado dle, e numa astuciosa derivante,
erguendo a esborifada cabea e passeando com admirao as pupilas
deliquescentes pela sala:

--Soberba coleco! no haja dvida. Um verdadeiro museu. Fazia a minha
fortuna... J reparou bem, sr. Silveira?--E num propsito de baixa
adulao, com intimativa, alongando o brao:--E que fino, que lindo o
retrato da senhora condessa! Que no est favorecida...

S agora o Silveira notou que, com efeito, uma aparatosa fileira de
tlas, em ricas molduras doiradas, remoava e fazia viver dos brilhos da
sua cantante policromia a tristura pelintra das paredes. A um canto
havia, contrastando deplorvelmente, pela realizao e pela factura, com
todo sse broslamento sbio de figuras, de planos e de tintas, um perfil
a leo da condessa.

Como j fazia escuro, _Mrs._ Edith dirigiu-se ao prendedor elctrico, a
soltar a luz; no momento justo em que o marido entrava e vivaracho,
alegre, atirando o chapu, seguiu direito ao Silveira, a apertar-lhe a
mo. E logo, dando-se conta do ponto onde curiosa a sua ateno incidia:

--Aquilo  um modesto ensaio meu. No vale nada.

--O modlo no podia ser melhor...

O conde baixou a cabea e dobrou-se, num grato desvanecimento.

-- que eu pinto tambm um pouco, no sabia?... Tdas as belas
manifestaes da arte teem em mim o mais insignificante dos seus
cultores.

A seguir, desatou-se em prolixas e sabujonas desculpas por ter vindo
assim em _retard_, faltando, bem a seu pezar, a um compromisso para le
tam aprecivel. E esfregando as mos com rudo:

--Mas estou contente! Parece-me que tenho j local para a exposio... e
de graa. O salo dum compatriota meu, que  fotgrafo, na _calle_
Viamonte,--a fotografia mais elegante, mais _smart_, mais _select_ de
Buenos-Aires.

Lady Cowper, sentindo agora a sua presena dispensvel, havia deslizado
ignoradamente. Entretanto o Amglio, com o olhar vivo e matreiro, em
presunosas atitudes tomando a sala tda:

--E ento, agora, v bem como so preciosas as minhas tlas! Que grande
lio esttica eu venho trazer a esta gente, que coleco rara, que
magnfico conjunto!--Depois, cabotino, insinuante, travando confiado o
brao do Silveira e pondo-o na frente dum pequeno _estudo_ de pasagem,
onde uma figurita banal de alde se esboava, perdida numa _aleluia_
primaveril de papoilas e malmequeres:--Aqui tem o seu Bastien Lepage.

--O meu qu?...

--O quadrito, sim, que lhe destino. Uma pequena maravilha, como v...
Note como ali assim a figura poisa singelamente e sem _ficelles_ de
destaque, tocada simplesmente, com o mesmo valor de todos os mais
acessrios do quadro. Era, como sabe, a caracterstica dominante dste
grande mestre naturalista.--Encarecia sugestivo a expresso:--Uma
tentao, no ?...--E suasivo, assentando-lhe a mo sbre o ombro:--Que
me diz?

Cabisbaixo e mudo, vergado ao pso do fulmneo ataque, o Silveira
interrogou numa mirada suplicante _Mrs._ Edith, cujos olhos doces
esboaram uma solicitao de anuncia, irresistvel... E le ento,
pvido e submisso:

--Bem... mas por quanto?

--Oh, meu caro amigo! Isso  uma questo puramente secundria. Entre
ns, j v... Qualquer coisa... Nem vale a pena falar... Se as coisas me
correrem bem, terei at muito prazer em lhe fazer presente dle.

--No, mas eu  que no quero...

--Depois! depois!

Sbito, numa bem marcada simulao de desinteresse, o conde sentou-se ao
piano, e sltamente:

--Quere ouvir uma valsa que improvisei esta manh? Vou tambm
dedicar-lha.

E, com um ar bomio impagvel, bamboando o busto, os olhos em branco e a
cabea sbre a nuca, fazia gemer numa batida montona de compassos
triviais as cordas desafinadas.

Nos nervos em sobressalto do Silveira corria o mesmo frio arrepio da
vspera, agora mais spero, mais persistente... subsistindo ainda e
vibratilizando-o, minutos depois, j rua fra, junto com o exaspro
ntimo pela sua passividade, a sua indeciso, o seu acobardamento
estpido ante aquele descarado assalto  integridade da sua algibeira.

Numa vergonha instintiva, absteve-se de contar o humilhante episdio ao
Azeredo, que pouco antes das 8 veio demand-lo ao hotel, conforme se
combinra. Saram logo depois, a p, a tomar a _calle_ Esmeralda, e por
esta se internaram at ao ponto onde uns mocitos de libr encarnada
lidavam  porta dum grande barraco, murado de espelhos.

-- aqui, meu vlho. Espera um instante.

Dizendo, o Azeredo entrou ligeiro e atento, a buscar se acaso o Saavedra
j estaria, e a marcar uma mesa; enquanto c fra o Silveira seguia
alheadamente o taquinar miudito das _muchachas_ que entravam para o
_cinema_ defronte.

O Saavedra apareceu por fim, s 8 e meia.--Vinha um pouco em atraso...
mas era muito ba hora, _verdad_?--Acolhido pelo festivo aplauso dos
dois amigos, e num momento estavam todos  mesa. Jorge vestia agora um
_jaqu_ negro irrepreensvel, fechando por um s boto e extremamente
cintado, colete de bandas brancas, folgado e muito aberto, uma linda
prola a prender o n esguio da gravata, cala raiada de fantasia e bota
de polimento. Foi le o investido das graves funes da escolha do
_menu_.--_Petits canaps_ de _caviar_ para _hors d'oeuvre_, uma rica
_crote au pot_, filetes de linguado com mlho de ostras, depois uma
_entrada_, espargos, e por fim um prato crioulo, o coireceo
_churrasco_, especialidade da casa.--A questo das bebidas foi rdua,
pouco menos de insolvel. O Silveira lembrou tmidamente o _Colares_,
que no constava da lista, no havia; ento Jorge patriticamente
insistiu que provassem _Trapiche_: porm o Azeredo ops-se, com um
depreciativo distender do lbio, e optou-se afinal por um qualquer
_Borgonha_ de duvidosa procedncia.

Jorge iniciou a comida com apetite, e agitava-se petulante, ufano,
folgazo, todo ainda no vibrante estmulo das emoes hpicas da tarde.

--Oh, aquela impagvel _Canora!_ que _preciosura!_ Viram bem?... Correu
os 1:400 metros em 1',22.  verdadeiramente o _record_ mundial da
velocidade, jmais registado nos anais do _turf_. Eu esperava muito
dela, mas no tanto, palavra! Vale o seu pso de oiro.

--De quantos quilates?--amolou, trocista, o Azeredo.

--Oiro portugus, antigo... do tempo dos vossos Brass,--soube ripostar
pronto o Saavedra, numa lisonjeira evocao que os dois acolheram com um
quebrado sorriso. E sempre contente:--O certo  que esta vitria no s
exaltou os meus brios, como trouxe a mais agradvel compensao aos meus
desastres anteriores. Porque, meus caros amigos...--E numa aberta de
intimidade, abatendo a voz, dobrado sbre a mesa:--Nestas duas semanas
ltimas de _carreras_ saram-me da algibeira ao redor de trs mil pesos.
_Un clavo_... Mas a pap direi que perdi trezentos.--Depois, atencioso e
outra vez natural, para o Silveira:--E em Portugal h _aficionamiento_
pelo _sport_ hpico?

--Um pouco...

--Bastante! bastante!--acudiu o Azeredo, num saltinho convicto.--H
muito bons cales. Tem agora havido, no hipdromo de Palhav, uns
concursos internacionais muito brilhantes.

--Ah, eu recordo-me de ter visto no _Palace Thtre_,--obtemperou Jorge,
complacente, atacando a sopa,--um _film_ intitulado _Os Centauros
portugueses_, que era realmente admirvel.

--Sim! sim! trabalhos da nossa escola de Cavalaria.

--Que _raids_! que saltos... que segurana, que destreza! No se pode
exigir mais.

--E pode o amigo diz-lo sem favor. Superior aos italianos!--jactancioso
o Azeredo rematou.

E serviu cordialmente vinho ao Saavedra, que, da a momentos:

--Eu p'r'a semana volto ao campo. Tenho tda a famlia l, aqui j
tratei do que tinha a tratar, e pap no abona mais _plata_.--Encarou
numa penhorante afabilidade o Azeredo:--O amigo, j sei, no pode vir...
_qu lastima_!--E para o Silveira, abruptamente:--Porque no vem comigo?

Ante a inesperada oferta, os olhos ladinos do Azeredo dilataram-se de
espanto, quse incrdulos, e o deslumbrado Silveira aprumou-se, num
estremecimento de grata surprsa. Com sincera espontaneidade Jorge
insistiu:

--Venha! Digo-lhe isto de vontade.

--Muitssimo agradecido.

--No conhece ainda pap nem a minha famlia. Mas no importa! Fra da
cidade no h protocolo nem cerimnias. E eu posso levar as pessoas que
me apetea. Tenho carta branca, _ch_... fao o que quero.

--Vai, vai, meu rapaz!--estimulou, crepitante de jbilo, o Azeredo.

--Bem v, Buenos-Aires neste tempo  detestvel!--tornava entretanto,
com enfatuado ar, o Saavedra.--No h ninguem, morre-se de tdio. As
famlias com quem se pode tratar, _la gente bien_, est tudo fra...
veraneiam pelas _estancias_, como ns, pelo Tigre, Montevideo e Mar del
Plata. Bastantes deitam t  Europa. E quem no tem _mosca_, _ch_...
para dar-se qualquer dstes inocentes regalos, encurrala-se
hermticamente em casa.

--Pouco mais ou menos como em tdas as grandes cidades.

--_Si pues_... Porm o sr. escolheu realmente para a sua digresso 
America uma poca aborrecida. No h _recibos_, festas, no ha
_Coln_... _Nada ni nadie_. _Que va uno  hacer_?...--Encolhia os ombros
com enfado; e a seguir, alegre, fanfarro, abanando promissoramente a
cabea:--Mais tarde, no inverno, sim!  a grande animao... teatros,
bailes _farras_, _clubs_...--Franzia brjeiro os olhos:--E h ento
por' assim umas _tertulias_ de concorrncia mesclada, que so
deliciosas... onde _uno afila_  vontade e onde no faltam _mujeres
guapas_ entre as quais se pode mesmo, manobrando com discrio, _sacar
una bolita_...

Passava junto dos trs, neste momento, um curioso tipo de vlho
precoce,--desbarbado, pequeno, os lbios sensuais, longo nariz rebatido,
na prga froixa das plpebras a marca lvida das viglias. O Saavedra
premiu-lhe familiar o antebrao:

--Meu caro Belisrio, como vais tu?... Senta-te um pouco. Queres comer?

--Ainda agora eu almocei...

E com um arrastado ar _blas_, sem mesmo olhar os convivas, molemente,
afastou-se, dandinando. Jorge aclarou:

-- Belisrio Ruz, grande amigo meu... um incorrigvel _guarango_, um
_picaro redomado_. Aparece l pela _estancia_, algumas vezes.

Depois, na mesma cativante afabilidade para o Silveira, reatando:

--Espero que se resolva e me d o prazer de acompanhar-me.--Que eu nada
mais posso oferecer-lhe, l baixo, que uma casa de campo modesta e mais
modesta ainda a companhia. Pap, mam e _mi hermana mayor_... _Nadie
ms_... Que eu tenho uma outra irm, casada; porm vive em Paris. Tem um
filho, de 16 anos, que  um rico amor de sobrinho. So os encantos de
pap... Mas, j digo, esto longe. Aqui na _estancia_ o amigo sentir-se
h um pouco s... porm o que lhe vai faltar em atraces de convvio
caseiro, sobrar-lhe h em hospitaleira franqueza, em pitoresco, em
indito, em sol, em liberdade.

--Estou positivamente encantado...

--Mam  uma santa.

-- certo,--corroborou com amvel convico o Azeredo.

--Passa os dias pelos _ranchos_ da redondeza, a mitigar dores e adoar
misrias... Agora minha rabugenta irm, a pobre Clia--tornou Jorge com
uma afectuosidade tolerante,--essa aparece pouco e anda sempre de mau
humor, porque lhe faltam as igrejas.--Depois, com mal contida
ternura:--Resta pap... ste  um caturra adorvel, um moralista, um
filsofo, um sonhador... mas  moda antiga. E ento que morre por
conversar! Em le apanhando uma vtima a geito, nunca mais acaba. Um
_latero_ muito sofrvel, j o sr. fica sabendo... Mas h que
desculp-lo:  homem doutra poca, conhece a histria com'os seus dedos,
foi contemporneo de tdas as grandes figuras da nossa brilhante
renovao social e intelectual, de h quarenta anos. De sorte que,
assim, na sua ronceira opinio, tudo o actual  mau... no h nada como
os homens, os sentimentos, os costumes e as coisas do seu tempo. At a
nossa mesma casa aqui em Buenos-Aires, h-de ver...  como que uma
flagrante exumao do passado. Escura, desconfortvel, triste, cheia de
coisas vlhas... parece um tmulo.

E imediatamente, a desvanecer a impresso de enfriamento que por ventura
a sinceridade juvenil da sua exposio houvera feito alastrar no
simpatismo espectante do amigo:

--Agora tambm devo dizer-lhe: se acaso a minha prima Maria Mercedes se
resolve a aparecer, como prometeu, ento tudo aquilo toma outra vida,
outra animao...  como a passagem da noite ao dia, torna-se a
_estancia_ um paraso.

--Com efeito!

--Ela  uma criatura preciosa, rara, singular! dito por todos...
deslumbrante como uma deusa e perigosa como um demnio.

--No tenho a honra de a conhecer,--acudiu ladino o Azeredo; e todo
vibrante, num gesto cmico de defesa:--Nem quero!

Jorge sorriu; e com intimativa crescente, comprazendo-se na sua galante
e calorosa apologia:

--P'ra mim no, que temos demasiada intimidade, mas p'r'a grande maioria
dos homens esta minha prima  o que se pode dizer uma verdadeira
tentao.--E insinuante, jovial, quse orgulhoso, detalhava:--Viva,
rica, com 25 anos e sem filhos, fresca, novinha em flha; pode
dizer-se... apetitosa; e numa terra como os srs. dizem que  esta nossa,
de mulheres bonitas, passando por ser das mais formosas. Imaginem! _una
monada_.

O Silveira escutava, silencioso e cabisbaixo, sob a tirania voluptuosa
dos sentidos. Jorge completou:

--Depois, ilustrada, viva, inteligente. Que ditos finos, que conceitos
subts, que mordacidade, que esprito, que respostas a tempo! E o que
aquilo vai buscar p'ra tma de conversa! S ouvindo-a... Aqui h uns
dias, o dr. Farmin Gonzles, um dos nossos homens de mais _verve_ e
maior prestgio intelectual, quis medir fras com ela. Pois, senhores!
a flhas tantas declarava-se vencido.

--Nessa contingncia me no verei eu... juro!--tornou o Azeredo, no seu
gesto gaiato.

De sua banda o Silveira, estimulado, baboso, aventurou:

--Deve ter muitos admiradores?

--Seguramente! So aos centos. Como por exemplo, ste _imbcil_
Belisrio. Porm, ela _no les lleva el apunte, ch_... No h um que se
possa gabar!  mais indomvel e arisca que uma _potranca perdedora_.
Ter ocasio de ver...

Servia o moo, ao tempo, o clssico _churrasco_,--uma pantagrulica
montanha, cebcea e sangrante, de carnes laceradas em bruto, de
gorduras, ossos, tendes, coirama chamuscada e encorreadas fveras. Numa
instintiva nusea, o Silveira arredou a travessa, desviando os olhos.

--Deus me livre! Isto  alimento para estmagos blindados.

--Tudo vai do hbito...--comps o Azeredo docemente.

Ao passo que Jorge, com um ademan desdenhoso e implicante, voraz,
servindo-se com abundncia:

--Eu acho delicioso!

E uns breves minutos mais passaram os trs amigos nesta charla
despreocupada e alegre, espontnea exteriorizao da mtua simpatia, da
ntima conformidade de sentir que tam auspiciosamente parecia lig-los,
e que a esticada munificncia do Azeredo quis que fsse selada a
_Champagne_.  despedida, depois, por seu turno Jorge intimou que
voltassem a renir-se, domingo prximo, no Hipdromo.--E que nessa noite
comeriam com le no _grill-room do Plaza_.

--Ser a despedida. Retiro tera ou quarta-feira; porm no descanso sem
colhr a certeza de que no irei szinho...

E, na solicitao gentil duma anuncia, cravava os olhos expressivos no
Silveira, que, gulosamente, com a perturbadora viso dessa misteriosa
prima a incender-lhe a fantasia e a arranhar-lhe o desejo:

--Estou quse resolvido...


No domingo seguinte, pela tarde, ao entrar o Azeredo, no hotel, pelo
quarto do Silveira, encontrou-o de mau humor. Amadornado no _fauteuil_,
junto  janela, lia distradamente um jornal, que atirou longe, mal
sentiu o amigo, num movimento brusco e fransindo a testa.

--Que tens, amigo Joo, que  isso?...

--Nada...

--No... algo tens que te contraria ou aborrece.

O Silveira permanecia bisonhamente mudo. At que, a novas instncias do
amigo, e com mal contido despeito, num sacudido gesto de desgsto:

-- que, francamente, no compreendo esta gente!

O Azeredo sentou-se-lhe defronte, e meio curioso, meio trocista:

--Que mal te fizeram?... conta l.

--Por vrias vezes te tenho falado no meu delicioso convvio a bordo com
os Wimeyer, sabes?... Eu ingnuamente supus que se tratava duma
espontnea e lial amizade, que nos ligaria o que quere que fsse de
sincero, de ntimo, de cordeal, no  verdade?... alguma coisa mais do
que essas mentidas e efmeras relaes contradas em viagem, e que, uma
vez terminada esta, logo esquecem, como se largam as malas. Pois imagina
tu que ontem, como era natural, fui visit-los. Vem-me  porta uma
criadita espevitada e com cara de fasto, que me recebe desconfiada,
arisca, quse hostil, mal amostrando a cabea pela porta entreaberta.
Depois, apenas eu declino o meu nome e anuncio ao que ia, retruca-me
logo com uma grande secatura:--As senhoras no recebem.--E, zs! tam
pronto colheu na mo os meus cartes de visita, sem dar mais cavaco,
d-me com a porta na cara.

O Azeredo torcia-se em esgares trocistas e ria, ria, gaiatamente.

--Ah! ah!  ento por isso tanta arrela?

--Tu ris?...

--Sem dvida.

--Achas pouco?

--Acho que no tens motivo nenhum para tam saloia indignao, e que o
que te aconteceu  tudo quanto h de mais natural.--E doutoralmente
explanou:--Pois ento tu pensas que isto aqui assim  como l na nossa
_parvnia_, onde estamos sempre de braos abertos para acolher quanto
importuno se lembre de nos ir moer a pacincia e estragar as horas?...
Annh! aqui fia mais fino... Aqui tudo anda cerimoniosamente regulado,
pautado e medido; as relaes e os negcios, os dios e as afeies, o
sentimento e o intersse.

--Um pouco como em tda a parte.

--Aqui mais do que em parte nenhuma... Cultiva-se a sociabilidade a
distncia. Famlias que se dizem ntimas, vem-se duas vezes por ano.
Olha, sabes que mais? tens que comprar um livrinho que a h, de
marroquim azul e flhas doiradas,--custa-te dez pesos, o equivalente a
quatro escudos,--barato no ... mas, alma piedosa como tu s, deves
d-los por muito bem empregados, porque essa _massa_ destina-se ao
custeio duma obra pia qualquer, privativa funo do _high-life_: a
Associao _del Divino Rostro_.  uma coisa do tom.--E, reatando:--Ora
nessa espcie de mundano florilgio tu vais encontrar, metdicamente
distribuidos por ordem alfabtica e pdicamente apartados segundo os
sexos, todos os nomes, sobrenomes, apelidos, moradas, e a direco
telefnica mail'a indicao dos dias de receber, das famlias que se
przam, tda a grada gente.  um cdigo inviolvel, sabes? um ndice de
elegncia, um complicado e melindroso calendrio social, cujas
efemrides so infalveis... So dogmas, so escrituras. Por isso o seu
conhecimento, o seu uso se torna imprescindvel _ los muchachos
distinguidos_ como tu.--Ao ameno afago destas leves humoradas, o rosto
cenhudo do Silveira desanuvira; e prazenteiro e custico, o amigo:--J
sabes pois que fra de tais prazos rituais da etiqueta, nenhuma dessas
meticulosas figuras  acessvel. No so criaturas reais, so
abstraces, so smbolos... sobretudo agora. De sorte que, realmente,
demand-los nos dias dos seus convencionais eclipses, conforme tu
fizeste,  um triste documento de plebeismo, uma _gaffe_ imperdovel.

--Quro l saber!--atalhou de mpeto o Silveira, num sobranceiro dar de
ombros, mas no ntimo vxado, erguendo-se.

--Que remdio tens tu! se quiseres tratar com gente limpa,--contestou,
numa ironia amvel, o amigo; e rpidamente, tendo consultado o relgio,
erguendo-se tambm:--Vamos, que so horas.

Depois, j fra no _hall_ os dois, e enquanto esperavam o descensor:

--Tu deves mas  aproveitar e ir at ao campo. Repara bem que ste
convite do Saavedra foi um rasgo positivamente imprevisto, raro,
excepcional... eu ainda no quero crr. s um burro de sorte! Porque no
est nada isto no carcter argentino. So amveis e hospitaleiros stes
bons _porteos_,  certo... porm morosos sempre e difceis na
exteriorizao do seu agrado.--Bateu-lhe no ombro com
entusiasmo:--Caste-lhe em graa, no h duvida!

--Sei l...

--E depois, stes Saavedras so das poucas famlias autnticas de antiga
linhagem, que, com os Vicente Lopez, os Lastra, os Alvear ou os Acosta,
ainda a figuram e manteem as nobres tradies do vlho tempo colonial.
So ptimas relaes, j vs... e a melhor chave pr'a te franquear no
inverno o ingresso  ba sociedade, como desejas.

Atingiam, em baixo, a rua; e ento o Silveira com os lbios crspos e
uma vaga onda lbrica a empanar-lhe o esmalte dominador dos olhos,
aventurou docemente:

--Aquela prima...

--A est! P'ra mais, com o lascivo apetite da prima j a aquecer-te os
miolos... E mais, quem sabe? talvez que a ela lhe quadres. Marcha!
marcha, homem! Que mais queres?

O Silveira atirou-se de golpe, apreensivo, sonhador, para o ffo recanto
do _taxi_ que haviam tomado, e enquanto faziam o caminho de Palermo,
poucas palavras trocou com o amigo. Ia alheadamente escrutando os
indecisos aspectos morais da sua situao. Repugnava-lhe aquela fria
subalternisao, aquele anonimato estril do presente; vinham vagamente
acariciar-lhe a fantasia miragens promissoras do futuro.--A coisa afinal
estava bem clara: essa ideal Irene aparecia-lhe uma criatura
inabordvel... a amizade desbordante dos Amglio no passava do verniz
caviloso duma descarada explorao. E dos mais... disse! Nem
conhecimentos, nem apetites. Que demnio fazia le ento com tal gente,
ali assim?... Seria perder o seu rico tempo. Pouco menos que um
achincalho. Soberanamente ridculo... No era p'r'o seu feitio!--Assim,
quando os trs, j noite feita, regressaram do Hipdromo, estava justo
que o Silveira acompanharia Jorge  _estancia Amlia_. Belisrio Ruiz
tambm por l devia aparecer. Lialmente, o Azeredo lamentava no poder
fazer parte do rancho, e aplaudia-se de haver sido o espontneo e
gostoso interventor daquelas duas abertas simpatias juvens. E numa
efusiva e sincera mutuao de impresses, os trs foram seguindo,
chalrando  compita, deblaterando anecdotas, concertando planos,
visionando fortunas, soprando projectos irisados dos cambiantes
esplendores da mocidade.

Passada porm a avenida Santa F, o _auto_ teve que ralentar sbito a
marcha, e qualquer coisa de anormalmente pejorativo e tumulturio lhes
travou com fra a ateno.

 que na sua frente, agora, uma formidvel e pesada barreira, uma
barricada estrepitosa e farfalhante, se fechava, de _tramways_, de
cavaleiros, ciclistas, coches e _autos_; de meios de conduo de tda a
casta, cada um vibrante e lerte na ncia de adiantar-se aos demais, e o
seu arrastado travamento paralisando o trnsito, tomando de ls a ls a
rua tda. No era smente a luzida afluncia dos que de Palermo
regressavam, como les; era algo mais que o grosso movimento
domingueiro, habitual da rua: era qualquer coisa de deliberadamente
chocarreiro, de impetuoso, de trocista, de hilare e audaz ao mesmo
tempo, cujo atropelado escoamento se fazia com dificuldade e de cuja
turbulenta acumulao expluiam risos, motejos, apupos, estraladas fulvas
de ridculo.

Quando, a poder de pacincia e tempo, os trs amigos conseguiram atingir
a praa Rodriguez Pea, tiveram por fim a noo clara da grotesca
realidade.--O amplo recinto estava tomado e abarbado literalmente pela
multido, que, parada e compacta, desbordando a areia rubra das
alamedas, pendurada das rvores em cachos, posta em pinha sbre as
tenras _pelouses_ machucadas, escutava e recolhia em xtase a
torrentuosa eloqncia dos vrios oradores fantochando de riba dos
bancos a sua mmica redentora.

Jorge avanou, impaciente, a cabea, despediu o seu inquiritivo olhar ao
largo, e logo, retrando-se novamente e com mal contido desdm:

--Negcio de eleies... logo vi.  um comcio dos radicais.

Ao mesmo tempo, porm, e fazendo o ruidoso circuto da praa, uma
_queue_ por igual cerrada de veculos se lhe enrolava em trno,
atulhados por uma turbamulta de rapazolas que, chinfrineiros,
implicantes, chasqueando, assobiando, berrando, buscavam por meio dum
alarido infernal amesquinhar e abafar as iluminadas vozes cvicas dos
apstolos do centro.

--stes so os socialistas,--tornou aclarando Jorge; e num crescente mau
humor:--O alargamento do sufrgio deu nisto!

De roda crescia tambm naturalmente a onda dos _mirones_, atrados pelo
inditismo do espectculo. Porque parecia uma espordica prolongao do
Entrudo, formava o mais canalhesco e adorvel dos contrastes, esta
palindia colossal,--a solene gravidade e a impertrrita coragem dos
meetingueiros fieis, parados e atentos tomando em massa o vasto recinto,
com a algareira sublinha daquele rodeio impudente dos contrrios,
afogando-os numa implacvel cinta de arruaas, de burlonas apstrofes,
vaias, chistes plebeus e guisalhadas de troca. E nenhum dos dois bravos
campos se dava por intimidado ou vencido, nenhum queria ceder. Nesta
inofensiva e gritada briga mantinham-se testarudamente rivais; os de
fora na sua truanesca assuada, os de dentro na sua caturra perseverana.

O Silveira e o Azeredo seguiam a scena sorridentes, num maligno regalo;
ao passo que Jorge, sem perder a sua linha de pretenso aristocrata,
enfastiado e severo:

--Parece um bando de _patoteros_! Scia de _gringos_... A culpa  da
polcia.




VII


s 7 horas precisas da manh, o Silveira entrava na estao
_Constitucin_, com um moo carregando as suas duas ligeiras maletas de
_touriste_ e uma chapeleira de coiro; e em vo demandava agora, pelo
imenso e sombrio _hall_, a presena do seu amigo Jorge, que chegou nos
ltimos momentos, correndo aodado  bilheteira e logo tomando de
assalto um dos _wagons_ de 1.^a, j de portinholas cerradas, justo ao
tempo em que o silvo da locomotiva arquejante dava o sinal de partida.
Cmodamente instalados os dois num compartimento que ia vazio, pronto
acendiam os cigarros e, baixando a vidraa, seguiam despreocupadamente o
manso e buclico deslise da pasagem, na fina aquatinta daquela
deliciosa manh, clara e tranqila. Primeiro, o complicado e barco
bracejar, o espreguiamento indefinido do arrabalde da
cidade,--_tiendas_, _conventillos_, fbricas, riachos, poos, jardins,
_azoteas_ sbre monturos, calias entre arvoredos,--tudo isto cortado a
cada instante pela paragem barulhenta nas estaes, tudo riscado de
vagos esboos de alinhamentos de ruas, abertas no slo virgem, e que,
longe a longe, raro marcavam apenas, como afoitas vedetas, umas fieiras
de casitas sltas, cada vez mais raras, mais sumrias e mais humildes.
Depois, no progressivo despovoamento da planura, vinham os altos tufos
desgarrados de eucaliptus, dominantes e protectores como guardies do
deserto, vinham os penachos sussurrantes dos lamos e dos salgueiros, os
bosquetes, os telheiros, os _ranchos_, os sarais, as lomas de areia; e,
contidas na utilitria rde de inmeras vedaes de arame, as primeiras
manadas de gado pastando suavemente. A pastosidade atascadia do terreno
e a vizinhana do mar empapavam de humidade o espao; a relva fumegava,
e as esfumadas tintas do ambiente esbatiam-se numa mortia e branda
deliqescncia, feita de calma e de frescura; passada porm a estao
_Ferrari_, a linha frrea internava-se, inflectindo marcadamente ao sul,
e ento o ar ia alimpando, aquecendo, j as linhas eram mais firmes, os
contornos definiam-se, e por fim uma enxuta _aleluia_ matinal realava e
doirava, a perder de vista, aquela rstica pacificao dos homens e das
coisas.

O trem seguia sempre pelas suas implacveis e vibrantes talas de ao,
ferralhando, arfando... Ante a gostosa complacncia e a interessada
ateno do Silveira, o seu amigo, que conhecia naturalmente a regio a
palmos, ia de espao apontando panoramas e desfiando pormenores, fazia o
cadastro pitoresco do pas, obsequiosamente. At que, andadas assim
crca de 2 e meia horas, atingiam a encantadora cidadesita de Chascoms.
Aqui havia que deixar o trem de ferro para empreenderem caminho a oeste,
hora e meia de auto at  _estancia Amlia_, o apetecido termo da
viagem. Jorge Saavedra julgou oportuno aproveitar esta mudana para
fazerem, antes de seguir adiante, o circuito rpido da linda povoao,
marginando a melanclica laga que a rodeia por oeste e pelo sul, depois
passando frente ao _Club de regatas_, ao _Hospital de So Vicente de
Paulo_, dando a volta da _Praa Municipal_, e tornando por fim  beira
da laga, em piedosa visita ao desmantelado cemitrio vlho, dentro de
cuja rocalha carcomida, e por entre a parada fnebre de ciprestes,
destacava a mancha ratada e lvida duma alvenaria simblica.

Com um sobrecenho comovido e grave, o Saavedra explicou:

-- o moimento  memria dos chamados bravos do sul, que aqui
sucumbiram na famosa jornada de 7 de novembro de 1839, paladinos
sublimes do engrandecimento ptrio, pela libertao da sua estremecida
terra batendo-se como lees, dando de barato em holocausto a vida.

--Contra quem lutavam les?

--Era um grande movimento insurrecional organizado contra o tirano
Rosas, sabe?... Uma das pginas picas da nossa histria, quse
desconhecida, entretanto, apesar de haver sido escrita com sangue
autntico de heris.

--E tiveram por c muito tempo de guerra civil?

--Uns quinze anos, nada menos! _Una barbaridad_. Felizmente, j no  do
meu tempo... Mas ste santo movimento emancipador, aqui, foi a brava
seqncia do clebre _pronunciamiento_ de Dolores, cinco dias antes.
Tenho-o ouvido contar a pap centos de vezes. Diz le que ste comovente
episdio  dos que mais nos engrandecem, mais nos honram... e que deve
ser magnificado como o precursor imortal dos dias gloriosos de
Caseros.--E com progressivo e varonil entusiasmo:--Pelos modos, os
revolucionrios vieram por' acima capitaneados por Castelli e
concentrados primeiro em Dolores, o bero humilde dste movimento
redentor, como lhe disse. E havia um entusiasmo doido! tinha-se o
triunfo como certo, contava-se com que as fras do temido caudilho
Granada se passassem aos revoltosos, esperava-se o refro prestigioso
de Lavalle,--que sei eu?... A gente de Rosas saltou-lhes ao encontro,
mas c os bravos do sul repeliram-na, apesar de constituir a vanguarda
inimiga a famosa cavalaria de Catriel, uma indiada temvel! Quando de
repente... no sei bem como aquilo foi, parece que houve traio dum
capito... O certo  que, seguros j os revolucionrios da vitria, de
repente as coisas mudam, a gente de Rosas encurrla-os contra a laga,
les resistem, e um a um vo cando, raros tendo escapado  morte. Uma
coisa bela!--Agora Jorge fremia de raiva, e indignadamente:--Pois, a
seguir, sses brutais vencedores, dignos servos do tirano, todo o dia
levaram chacinando, degolando, lanceando a torto e a direito, por essas
ruas. Inocentes, vlhos, mulheres, crianas, tudo a eito! Uma vertigem
de canibais, macabra, horrvel... E foi como ficou assegurado por
catorze anos mais o domnio feroz do ditador!

Mas o automvel deixra a calada e breve reganhava o campo,
internando-se, salteiro e ofegante, no majestoso encanto da solido,
investindo com o desconhecido. Pela carreteira mole e insegura, no seu
rodar silencioso, aventurosamente se ia deixando envolver e perder-se no
problema insondvel da imensidade. Porque  sua ilharga e na sua frente,
alargando, crescendo, agrandando sempre, inexorvel, montono,
desdobrava agora a sua toalha de fertilidade inexgotvel o maior celeiro
do mundo,--inestimvel manancial de produo e tesouro de abundncia em
que os nativos firmam a sua imprevidncia, os colonos a sua esperana,
os mercadores a sua codcia e os milionrios a sua riqueza. Comeava o
desdobramento da interminvel _steppe_ argentina, a lendria _pampa_,
essa famosa e imensa planura verde, dum verde caracterstico e prprio,
um verde que  fra de carregado e sombrio,  quse azul; assim como,
ao alto, o azul da abbada celeste, a poder de claridade e leveza, 
quse branco; assim como, na sua fecundade palpitante,  quse negro o
sulco rasgado na crsta hmida da terra. E no h suspenses, crtes,
paragens, no h derivao nem termo, nesta avassaladora invaso do
Infinito. Por essa divina manh de outono e sbre a suave pradaria sem
fim, paira a carcia inefvel duma poesia dulcssima... e da luz a
difana pureza esbate e aparta em cristalinas nuanas a tonalidade
cambiante das coisas; aqui, em rsticos e tenros _bouquets_, as floritas
prpura da luzerna; logo, o verde gordo dos pastos, mosqueado da
manchita griscea ou bistre dos mansos gados, ruminando; mais alm,
definido pela lacrimosa fita dos _sauces_, o colear rumorejante e claro
das ribeiras; ou a ndoa triste dos currais, dos _ranchos_, das
_taperas_, dos celeiros; ou a imobilizada ondulao das dunas de areia,
com a epiderme rugosa e rida estriada pelo vento; ou ainda a ponta
lvida das mseras e frgeis _carpas_ dos colonos, grupadas como as
tendas dos _beduinos_ no deserto. De raro em raro, sbre a esmagadora
rasoira da solido virgulando tnues e mal perceptveis, como
infusrios, as _cuadrillas_ minsculas de pees cingem-se  terra e
incessantes moirejam, como formigas,--uns colhendo o milho em sacos,
outros acamando o rastolho, outros, mais previdentes, j rastreando,
arando... E sbre a gleba recm-revlta, nos vidos mamilos dessa fresca
terra virgem, a bno gloriosa do sol, como querendo antecipar-se 
fecunda labuta do homem, ci e entorna-se, palhetada, coruscante, em
prdigas sementeiras de oiro.

No ltimo limite da percepo visual, tam ao largo como pode alcanar a
nossa vista cansada e exttica, o esmalte plido do cu e a linha fsca
do horizonte tocam-se, mas no se confundem. So dois antagonismos, so
dois infinitos, duas grandes interrogaes, tangentes mas opostas,
raiando e barrando a tda a volta a imensidade do espao, como os dois
batentes da incorruptvel porta do Mistrio. Ao mesmo tempo acontece
que, na chata uniformidade dste solo raso e sombrio, os mnimos
acidentes topogrficos, os contornos mais insignificantes, um ligeiro
mdano, uma leve salincia, qualquer nfimo relvo, como se projectam
inteiros na despejada tela do horizonte, e pela sua mesma raridade,
ganham assim valor, crescem, avolumam, assumem dimenses gigantes, e
alam-se e aprumam-se bruscamente, caprichosos, enormes, como solitrios
ilhus no bero cavo das ondas. Tal imponente e vago mamelo que ao
longe nos aparecia como um punhado ciclpico de rochedos,  medida como
depois, fazendo caminho, dle nos acercamos, vai apequenando, minguando,
a aproximao desbasta-o, come-o a realidade, as suas linhas
reduzem-se... a termos que, quando lhe passamos perto, temos que
verificar por fim, desencantados e tristes, que essa miragem hiperblica
da solido no era mais que uma modesta mda de palha ou de feno, uma
casota humilde, um po, um _hangar_ ou um monte de estrume. Por igual,
o ligeiro arcaboio em ferro das bombas elevadoras de gua, com o seu
areo penacho rodiziando ao vento, figura-se-nos a macia evocao
dalguma lbrega trre feudal, rasgada em seteiras, cingida em barbacs,
coroada de ameias. H pequenas _estancias_ que parecem cidades, toias
de mato que parecem florestas, simples lomas que parecem montanhas. E
por vezes, sbre o esfumado pedestal dalguma dessas perdidas cumieiras
distantes, vinca-se e agranda sbito, monstruosa e negra na claridade
sideral do ambiente, qualquer coisa como a mgaltica renovao de algum
lendrio animal sagrado, e que no  mais entretanto do que a pacfica
silhueta dum cavalo ou dum toiro imvel e sonhador na muda passividade
do deserto.

O silncio  vasto, esmagador e solene como um crpe de olvido, como uma
mortalha de sombra... apenas de longe em longe picada pela microscpica
nota estrilante, encarnada ou azul, de algum raro saiote feminino. Nesta
melanclica extenso sem fim, tnues nuvens grisceas se desenrolam por
vezes e vo correndo...  o penacho arquejante duma locomotiva,  a
poeira erguida por uma tropeada abundante de vacas ou de cavalos; mas
tudo isto sempre fugaz, miudito e distante, como impondervel, sem
importncia e sem rudo. E sbre o domnio infinito da solido paira um
fundo imanente de tristeza. H tmidos lamentos pelo ar, e os sulcos
abertos pelo arado so como as crspas vibraes duma resignada
angstia, duma dr enfreada e humilde... que  a dr da prpria terra.
Porque esta  a terra maravilhosa das brbaras lendas _gauchas_, terra
de promisso, de paz e amor; terra de humildade e de sacrifcio, a terra
fatalista, a terra paciente, a terra mrtir,--retalhada primeiro pelo
ao dos conquistadores, que, empapada de sangue indgena, havia de mais
tarde florir na assoberbante iniquidade dos latifndios; hoje com no
menos avassaladora impudncia assolada e batida em tdas as direces e
sentidos, pisoteada pela bota surramposa de tda a sorte de colonos,
violada pela torpe especulao material de tdas as raas.

A prdiga, a inexgotvel, a doce e lendria _pampa_...


Um momento veio em que,  direita e muito ao largo, sbre uma ligeira
ondulao como que assoprada na frialdade jacente da planura eterna,
comeou a definir-se, a crescer e a afirmar-se potente, na claridade
vtrea do cu, uma ampla construo, tarraca e singela, hospitaleira a
sorrir entre o arvoredo.

E logo Jorge, convidativo e alegre, alongando o brao:

--L est a nossa casa. Pronto vamos chegar. Bem situada, no acha?...
Alcana-se a grandes distncias. E ademais  fcil de reconhecer, por
aquele grosso penacho verde-negro que se lhe ergue um pouco  frente,
no v?

--Sim... Distingo perfeitamente.

-- um vlho _omb_, no sei quantas vezes secular... um dos raros
exemplares que por' ainda restam desses abominveis veteranos do
deserto.

O Silveira aprumava-se e movia-se a cada instante, buscando concretar
impresses, progressivamente interessado; enquanto ao lado dele, Jorge,
preguiceiro, indolente, com a sua ligeira ponta de fatudade, ia
explicando:

--E, sabe o meu amigo? h muito que vamos j caminhando por terras
nossas. Tudo isto em volta. Ao redor de seis mil hectares. No  nada...
Mas, em suma, p'ra passatempo chega bem.--E regaladamente, estirando-se
mais, tirando o chapu e com a mo suave acamando o cabelo negro e
corredo:--Pap poderia j ter alargado a propriedade, mas no quere.
Est contente com o que tem.  que stes campos p'ra cria de gado so o
que h de melhor, porque do magnfica luzerna; e so igualmente
imelhorveis para tda a casta de produo agrcola. Tambm, por isso,
reservmos apenas uma tera parte para ns, e o mais anda tudo p'r'a
assim repartido por essa malta de _gringos_. O pior  que nem todos so
pontuais na renda, h que ser-se duro com les. Porm do vida a estas
redondezas e precisamos dos seus braos no fim de contas. Formam uma
famlia j bem numerosa... e por vezes bem incmoda.

Com efeito, para onde quere que o Silveira alongasse, cativado, a vista,
invarivelmente ia encontrar, aquecendo o ambiente e salpicando de
pitoresco o espao, a nota viva, rude, impressiva, da utilitria obra do
homem: a um lado, sempre a mesma basta e complicada rde das vedaes de
arame a dividir os _potreros_ travadas e geomtricas como os alvolos
duma colmeia, disciplinados crceres ao ar livre por onde os
contemplativos rebanhos arrastam mansamente a sua vida vegetativa e
incerta; ao outro, por igual a mesma intensiva e estreita parcelao da
terra, aqui riscada em hortas, vicejando em pomares, vergada ao pso das
colheitas, ali eriada ainda do rastolho, ou j limpa, revolvida, fresca
e fumante, esperando as sementeiras novas. E por tda a parte tambm, ao
acaso semeadas e dispersas, como tubrculos, rugosas e negras como
concrees de _tophus_ bretoejando na uniformidade epidrmica daquele
slo gordo e hmido, destacam as casotas sumrias dos colonos, mseras
choas de barro amassado com palha e feno, tendo cavado na frente um
pequeno po e  ilharga o inseparvel forno,--redondo ste, enorme,
dominador, como um zimbrio, muito liso e claro.

Atingiam agora os dois amigos a gradaria singela de ferro que
circunscrevia um tsco e reduzido esbo de jardim, frente  almejada
_estancia_. Ento o Silveira pde notar de relance: esta era um grande
edifcio quadrangular, de modesta elevao e linhas simples, apenas um
andar sbre o trreo, e tudo em alvenaria escaiolada a cr de ervilha.
Numerosas portas, tdas de crte igual, ofereciam acesso ao andar
trreo,  altura de cuja cornija uma espcie de farta cobertura de
_hangar_, em zinco ondulado, avanava e corria a tda a volta,
protectoramente tendida sbre o amplo _pasillo_, ladrilhado a mosaico e
vindo  sua frente apoiar-se em colunas. Depois, transposto o largo
porto do jardim, francamente aberto, e dados alguns passos mais, Jorge
e o seu hspede deixavam a espaldas a atormentada silhueta do vlho
_omb_; e agora, j junto  casa, a projeco area do _hangar_
mascarava-lhes a viso do andar superior, e tinham ali ao seu alcance,
em baixo, transposto apenas um degrau, o piso sombreado e confortvel
daquela espcie de garrida galeria andaluza, adornada por vlhos
lampies de cobre, enredias, gaiolas de canrios, faianas com plantas,
cadeiras de _hamaca_ e mesitas de vrga.

Pai Saavedra estava com o _mayordomo_, no seu escritrio,--informou o
_mucamo_ que acudiu solcito  entrada dos recm-vindos. Era a primeira
casa  direita do vestbulo. Jorge pediu vnia por um momento ao amigo e
entrou. O tempo suficiente para o Silveira, continuando o seu sucinto
exame, notar a tica singeleza e o escrupuloso aceio do pequenino trio,
luminoso, arejado, o brunido soalho em pedra mosqueado de miuditos
arabescos, e do estuque cinzento das paredes pendendo em simtrico
arranjo cabides, petrechos de caa e armas gentlicas. A face oposta 
entrada era tomada tda por um grande vitral colorido, ocasionalmente
aberto, e desvendando assim o risonho _patio_ que no seu interior os
sossegados muros da rstica habitao enquadravam ciosamente,--apenas
com uma furtada aberta, ao fundo, para a vaga imensido do campo. Devia
ser a cozinha a casa que a, interrompido o circuto, formava ngulo,
porque  sua porta uma mulher estava pelando aves, sbre um balseiro
fumegante. E no longe, junto ao po de gancho e roldana, um peo,
arremangado e de leno ao pescoo, brunia metais de arreios, com um
balde entre os joelhos.

Mas j Jorge voltava, risonho, ligeiro, no momento justo em que tambm o
_mucamo_ e um outro peo entravam do jardim, conduzindo as malas.

--Pap est s e morto por v-lo, amigo. _Pase! pase!_

E da a instantes o Silveira colhia o efusivo aprto de mo dum bom
vlho afvel, rosado, pequenino, que com uma voz enternecida e confiada
lhe dava as bas vindas.

--Imenso gsto em conhec-lo... Que honra, que prazer nos d! Que bem
que fez em vir!

--O prazer, o encanto  todo meu. Estou imensamente reconhecido...

--Como, reconhecido?... Qual! _Qu esperanza_... Pelo contrrio, a nossa
gratido  que  infinita p'ra todos quantos teem a complacente bondade
de vir alegrar esta nossa solido aqui. E quanto ao meu amigo, j
sabe... recomendado por Jorge, considere-se da famlia.

--Isso  dos livros!--exclamou Jorge jovialmente, num aprovativo acno
da cabea.

E o pai com a mais desafectada naturalidade para o Silveira, simples,
insinuante:

--Perdoe-me se o fiz esperar... _Este_... estava aqui caturrando com o
meu _mayordomo_. Coisas fastidiosas por vezes, mas inevitveis... coisas
prticas. Contas atrasadas que p'r'a andam... E manh  dia de abater
gado.

-- c p'r'o consumo da _estancia_,--acudiu obsequioso Jorge,
interrompendo.--Dois dias por semana.

-- certo,--mansamente o pai confirmou.--Um servio corriqueiro,
trivial. Pois stes _capatazes_ so uns _atorrantes_ e vingam-se, sempre
que podem, da sua condio subalterna, sacrificando, p'ra nos fazerem
dano, os melhores exemplares, ou ento mandando abater rses nocivas,
enfrmas. O demnio! H que andar sempre em cima dles. _Mucho ojo!_

--E um bom _rebenque_, no seria pior...--completou Jorge, ameaador,
com um gesto expressivo.

Calmo porm e bonacho, o pai corrigiu suavemente:

--Cala-te! No digas barbaridades.--Depois, amvel e voltado para o
Silveira, derivando:--Bem, mas isto no so coisas p'r'o nosso querido
hspede. Vamos ao que lhe interessa. A minha senhora no sei se est...
minha filha Clia tampouco. Queria apresent-lo... Porque,--e num
mimalheiro sorriso, indicando Jorge--com ste _gran bribn_ mais, somos
aqui tda a famlia.

E carinhosamente Jorge, abraando o pai sbre os ombros, com uma
liberdade e uma irreverncia chocantes para os rgidos preconceitos
educacionais dum europeu como o Silveira, ripostou:

--_Qu rico tipo!_

Os miuditos olhos garos do bom vlho molharam-se de ternura; e outra
vez voltado para o hspede, com a mesma acolhedora expresso, bondadoso,
aberto:

--Em suma, daqui a um momento juntamo-nos todos  mesa. Vai ver: pouco e
ruim... mas sabemos ser amigos, de todo o corao e co'a melhor vontade.

O vlho Saavedra dizia estas coisas com uma familiaridade calorosa e
espontnea, com uma simpleza tocante. Era uma figura interessante e
invulgar. Vestia todo de negro, tinha um ralo bigodito em escva, a
barbicha grisalha, aparada e tsa por igual, contornava-lhe a face de
orelha a orelha, e  volta do imaculado colarinho sem goma
enrodilhava-se um farto leno de setim, como h sessenta anos, negro por
igual e retido  frente por um n com duas pontas. Dois fundos vincos
entre os cilios, a clara testa repregada e vibrtil, o crnio mal
guarnecido de longas e sedosas cs, amplo e redondo, denunciavam o homem
de pensamento e de sonho, um recto entendimento alumiado por uma ingnua
alma. Flagrante espelho desta, os seus pequeninos olhos hmidos, dum
verde atenuado e translcido, eram fontes de doura, palpitavam duma
mobilidade inquieta, mantinham ainda essa fcil emotividade que  o
apangio das crianas. Vibrava pronto, ao sensitivo rodeio das
impresses. Os seus lbios eram ungidos de bondade, e tinha o gesto
acanhado e infantil das criaturas que menosprezam o mundo, que evitam o
convvio social e deliberadamente se mantem esquivas ao atrito
deletrio dos homens e das coisas.--Assim entrevisto na meia-tinta
austera daquela casa mobilada parcamente, ste doce e pequenino vlho
aparecia aos deliciados olhos do Silveira como uma encantadora quimera,
um absurdo, uma anmala figura perdida... como algum anacrnico painel
j lambido da _patine_ veneranda do passado. Era o vivo e adorvel
_pendant_ dsse outro leo de franco e rude batalhador que le agora
descobria sbre a macia secretria de roble, tomando a parede.

Ento Jorge, que lhe surpreendeu o movimento, adiantou-se a explicar:

-- meu bisav, o criador desta _estancia_.

--Um andaluz inteligente e trabalhador,--acudiu o pai quse ao mesmo
tempo,--mas pobre como Job, que veio p'r'a assim sem um centavo.

--Felizmente, vejo,--o Silveira julgou oportuno observar,--aqui a
fortuna sorriu-lhe.

--Ah, no h dvida... e le bem o merecia,--acudiu com desvanecimento o
vlho. Depois, espontneo sempre e afvel:--Mas enquanto se no almoa,
venha vendo a nossa casa.--Abriu a pequena porta  direita, e, tendo
antes feito passar o Silveira:--Aqui tem... _este_... a nossa
biblioteca.

Um severo e discreto compartimento, recebendo luz apenas do _hangar_
exterior e totalmente vestido em volta por uma alta cinta de estantes de
carvalho, em cujas prateleiras bambas um milhar de sonolentos volumes se
alinhava gravemente. Do escasso trecho de parede sbre uma das portas
pendia uma litografia detestvel de Domingo Sarmiento. Sbre a estirada
mesa de leitura havia desparramadas algumas pequenas estantes de
dobradia e um grande e aparatoso tinteiro, coroado por um Napoleo de
bronze com um termmetro no trax e um relgio no ventre.

Entretanto o bom vlho, complacente e palreiro:

--No passa dum gabinete de leitura modesto, uma tentativa, um esbo,
um ensaio, como v... Mas h a de tudo um pouco: filosofia, literatura,
jurisprudncia, viagens. O agradvel e o til. E as melhores _Revistas_
e alguns livros portuguezes. De sorte que, j sabe, quando esteja
aborrecido de ns ou lhe apetea isolar-se,  ste o cantinho que lhe
convm. Os livros  que nunca nos pregam _lata_; a gente larga-os sem
cerimnia, quando muito bem quere. E ainda so os nossos melhores
amigos.

Mas aqui Jorge interveio, e com vivacidade:

--Pap, lembra-te de que o nosso hspede h-de querer lavar-se, mudar de
roupa...

--Ah, sim... _este_... perdo! Vamos ento lev-lo ao seu quarto.
Fica-lhe aqui j, no seguimento para o interior. A  direita  o meu
arquivo.

Abriu outra porta,  esquerda, e entrou com os dois amigos numa ampla
pea, fresca e clara, tendida de cassas e _cretonnes_ e mobilada a pinho
de Flandres, com duas janelas abrindo para o campo e, fronteira, uma
porta sbre o _patio_ interior.

--Veja se lhe agrada.

--Oh, sr. Saavedra...

--Tem que se contentar, melhor no lhe podemos oferecer. Mas, veja...
comunicao directa com a biblioteca, e ali a seguir, _toilette_, banho
e mais servio. Creio que aqui assim na _planta baja_ sempre fica mais
em liberdade e mais cmodo. Mesmo ns no _piso alto_, que dispe de
menos espao, no temos seno os quartos da famlia. Quere dizer, h uma
nica excepo: os aposentos dessa endiabrada _Miqutas_... que, a bem
dizer, famlia  tambm.--E batendo com as mos em concha e sorrindo, na
lisonjeira evocao duma pessoa querida:-- o benjamin da casa. O que
ela faz... o que aquilo diz, imagina e inventa! Um vivo demnio!

E logo Jorge no mesmo admirativo tom para o Silveira:

-- a prima Maria Mercedes. No lhe dizia eu?...

Pouco depois do meio-dia, a grande sineta do ptio tangia para o almo.
Tendo acabado de ajustar a gravata e enfiar os anis, e dada uma ltima
casquilha mirada ao espelho, o Silveira abriu a porta do seu quarto e
transps compassadamente os geomtricos canteiros, debruados de buxo e
salpicados de japoneiras, _aucubas_, _pitcarnias_, cravos, rosas e
malmequeres, seguindo diagonalmente em direco ao po, a cortar
caminho para atingir o comedor, que lhe ficava no recanto em frente, a
entestar com a cozinha. Dentro estavam j Torbio Saavedra e a mulher,
que recebeu o Silveira carinhosamente.--Era uma grande senhora adiposa e
obsa, um monolito ambulante, o crasso busto sumido na montanha
enxundiosa dos quadris, os braos macios e curtos, as mos como
palmoiras. Tinha uns longos lbios froixos, a face pendente, e o
assetinado fulgor dos olhos castanhos perdia-se afogado na papugem
abundante das olheiras. Tda de negro, como o marido, com o volumoso
espaldo dos ombros resguardado por uma capota ligeira de veludo. O seu
ar era repousado e lnguido como o das criaturas que se sentem
instaladas na vida cmodamente, sem alternativas, angstias, apetites,
preocupaes nem dios. O seu aspecto desprendido e plcido apenas
estava desmentido por um antittico resduo de vlhos e irredutveis
coquetismos no colar de grossas prolas que em vo tentava remoar-lhe
as pelhancosas estrias do pescoo, bem como na origem, claramente
industrial, do loiro inaltervel do cabelo.

Tomou ela a cabeceira da mesa, ao passo que, cerimonioso e lento, o
Silveira entendeu dever manter-se a distncia, apoiando maquinalmente as
mos sbre o espaldar da cadeira que a lhe correspondia, como no ntimo
desgnio de quedar-se ali. Mas sbito, sorridente e num piedoso alarme,
a dona da casa:

--Ah, no, no meu caro sr.... a no! sse  o logar da _Miqutas_.
Conservamos-lho sempre... como se ela esteja. Queira tomar assento aqui.

E indicou-lhe o logar de honra,  sua direita, que o Silveira acudiu a
ocupar, pressurosamente. Entrou neste momento, do ptio, Clia,--uma
joven de aspecto bisonho e triste, o busto dobrado, os olhos baixos,
flcida, delgada, ictrica. Vestia blusa branca e uma singela saia de
cr indecisa, e da mesma indecisa e mortia cr tinha a epiderme, os
olhos, os lbios e o cabelo, lambido como um penteado de colegial e
repuxado  nuca. Quando lhe apresentaram o Silveira, dobrou-se mais,
baixando as plpebras, cortejou a distncia, sem lhe estender a mo e
sentou-se logo  esquerda da me diante dle.

Entretanto pai Saavedra vinha tomar logar ao lado do hspede, e
desdobrando o guardanapo com mpeto, alegre, menineiro:

--Vamos a isto, que so horas!

Uma criadita comeou servindo carnes frias; e para o Silveira, muito
atenta, D. Teresa:

--No lhe podemos aqui oferecer grandes mimos culinrios... tem que
desculpar... porm um bom _puchero_, isso sim! como certamente no come
na cidade.

Imediatamente o vlho Saavedra lhe pedia para avanar o copo, e vertia
nle com afectuosa solenidade um vlho Jerez como no havia de
encontrar muito. S de casa tinha quarenta anos. E de passo explanou-se
falando sbre as apregoadas excelncias e virtudes do Madeira--que le
apenas conhecia vagamente... um vinho de reputao mundial e ali na
Argentina quse desconhecido.

--Ah,  um vinho precioso, divino!--exclamou o Silveira com orgulho,
dealbando os olhos.--P'ra mim  superior ao Jerez... ao mesmo Prto. 
mais aromtico, mais gordo, mais suave.

E prometeu presente-los com uma poro de garrafas, que ia j no
primeiro correio pedir a um seu amigo.

--E de doce no gosta?--tornou solcita e voltando-se para le, D.
Teresa, entre duas garfadas.

--Bastante.

--Pois nesse particular  que poderemos ser-lhe agradveis. Em doces de
cozinha especialmente...--E com mimada ufania, apontando a filha:--Aqui
tem uma especialista.

--No digas isso, _mamita_!--gaguejou Clia ariscamente, retrando-se e
como querendo anular-se sob a mesa.

Mas, sem dar tento de ouvi-la, sempre no mesmo tom mimalheiro a me a
insistir:

--Quando est de mar faz um _dulce de leche_, uns _huevos quimbos_,
como no  possvel imaginar melhor.--E ante a modesta esquivana da
filha:--_Verdad!_--Depois, mirando-a amorvelmente:--Quem te no fez
freira!

Mas agora D. Torbio, que no cessava de, a curtos intervalos, olhar com
impacincia a porta em frente dle, murmurou contrariado:

--Que haver passado a sse Jorge, que no aparece?

Grande algarada entretanto no exterior. A terra estremecia ligeiramente,
como sacudida pelas atenuadas vibraes dalgum terremoto distante, e de
envolta com a trmula comoo dsse largo abalo, montava, crescia e
espirulava grossa pelo ar uma difusa e vaga ressonncia, que parecia
feita de vozes humanas, saltos, roncos, mugidos, tropeadas brutas de
animais, e choques bruscos de ferragens.

Poucos minutos depois, entrou finalmente Jorge ao comedor, e vivo e
corts, enquanto se sentava ao lado da irm:

--Peo perdo se venho em atraso... Demorei-me a ver passar essa
_tropilla que se va al rodeo_. No ouvem?...

--Ouvimos, ouvimos, sim...--contestou D. Torbio, j tranqilo.--E
ento?...

--No sei... vi s de relance. Porm tenho o lho bem experimentado...
havia ali grandes falhas.

--Ests sempre imaginando o pior.

--Muito roubada ia, pap... podes crr! Por exemplo, das nossas
_vaquillonas_ Shorthorn no vi nem meia! E eu sei donde nos vem o
dano...

--Bem, bem...--conciliadora a me rematou.--Senta-te e come. Seja que
no seja, no  ocasio agora p'ra nos azedarmos com retaliaes e
suspeitas; estamos  mesa.

Terminada a frugal refeio, Jorge opinou irem tomar o caf ao ar livre.
Breve vinham buscar logar fra, naquele aconchegado e tranqilo recanto
ao abrigo do ressalto da _azotea_, entre o pequeno po e a cozinha.
Meia dzia de cadeiras de vrga de ferro, pintadas a verde, rodeavam uma
tsca mesa de eucaliptus, em volta da qual os cinco se sentaram
indiferentemente. O Silveira, porm, para melhor poder observar o
recinto, postra-se de costas junto  parede; e ento pde notar que, 
sua ilharga e um pouco arredada, uma outra cadeira havia, porm esta
mais confortvel, ampla e de aparatoso espaldar com a cabeceira
acolxoada, e tendo mais, na protectora concha dos braos, duas almofadas
de setineta azul guarnecidas com renda de bilros, molemente adormecidas.

-- a cadeira da nossa _Miqutas_...--murmurou D. Teresa com
meiguice--Todo aquele preparo, veja... Chamamos-lhe a menina das
almofadas.  uma comodista!

Pairava um suave e acariciador ambiente, uma lisa atmosfera de sonho, de
calma e de beatitude. Aquele quadradito horto, fechado por espssas e
mudas paredes, matizado de flores quietas e tristes, parecia a remota e
nostlgica evocao dalgum claustro, furtando o esprito  realidade,
transportando-o a um outro mundo... Nessa embaladora hora de ssta, a
majestade do silncio amigo apenas era cortada pelos vagos sussurros
tilintantes que vinham da cpa e da cozinha. E, oposta a esta, via agora
o Silveira a caixa da escada para o andar superior, o qual, em cima,
acanhadito e modesto se desenhava, mas tomando apenas parte da casa,
pouco mais do que a frente. Rodeava-o a tda a volta uma garrida
varanda, de grades de madeira, em profuso festoada de arbustos, e
vestida e enredada de trepadeiras, por entre cuja engalanada opulncia
as floritas maceradas da _balsamina_, embebedando o ar, rompiam
abundantes, e onde alegre e crepitante saltava a mancha escarlate das
_estrelas federales_, grandes como girasis, com os seus estames de
oiro, e as longas ptalas aveludadas e sangrantes como tiras de prpura.

Ento com repousada familiaridade D. Teresa aventurou:

--Que tal encontra o nosso refgio?

--Delicioso, minha senhora. A mim parece-me completo.

Mas logo Clia, com uma mansido em certo modo implicante, tomando a
chvena da bandeja que a serva lhe oferecia:

--Ah, isso  que no! Peo desculpa, mas no estou conforme. P'ra
completo falta-lhe alguma coisa.

--Vossa excelncia dir...

--Pois ento no salta aos olhos? Esta casa, tal como , quero-lhe
muito...  claro. Mas nem por isso deixo de convir que ela no passa
duma acumulao semsabor de enojosas coisas materiais. Nada que nos fale
 alma, que nos aquea o corao, que nos eleve o esprito... No h uma
nota de deal, um qualquer _motivo_ religioso... um painel, uma cruz,
uma capela.

--Onde vs tu por' capelas ? - observou D. Torbio, sorrindo
burlonamente.

-- pap! por tda a parte... menos aqui. No vs a, a no mais de
oitenta quadras, na _colnia Esperanza_? E na _estancia_ das Argerich, e
na das Moreno?... Dize antes que no queres.

--Tem pacincia, minha filha, mas eu sou um grande cultor do passado: o
que quero  conservar ntegro e singelo, tal como recebi, sse nosso
ninho. P'ra que deturp-lo agora com enxertos?

--Meu pai, que profanao!

--Profanao seria desfigurarmos com excrescncias dispensveis a amiga
pureza tradicional de coisas com que fomos criados.

--E de muito mau gsto,--sublinhou Jorge com impertinncia, traando as
pernas.

--Todavia teem-se farto de construir p'r'a assim tdas essas bisarmas
de _cabaas_, depsitos, armazns e celeiros.

-- l ao largo, filha. E so coisas precisas.

--A religio no o  menos,--acudiu pronto Clia; e como que logo
arrependida dste sbito mpeto de vivacidade, suasiva e mansa
reatou:--Pois ento, por exemplo, aqui ao fundo e do lado de l,
formando esquina, uma simples ermidita no ficava tam bem?

--Cortava o trnsito.

--Ainda ficava espao bastante. Sr. Silveira, que lhe parece?

Colhido de golpe por esta interrogao, que era uma evidente demanda de
auxlio, o Silveira titubeou um instante; mas logo, afvel e galante,
recobrando-se:

--Eu em assunto de tamanha transcendncia no sei, realmente... no
queria atrever-me a emitir opinio. Parece-me entretanto que se
poderia... sem nada quitar ao carcter desta adorvel construo...

--Como? como?...--fez Clia, muito interessada, adiantando-se e
abandonando a chvena sbre a mesa.

--Fazer um pouco como na Europa... l pelas nossas terras. O trao da
conciliao seria talvez erigir por' assim um retbulo em azulejo,
figurando a divindade de sua maior devoo, e que saltasse, nada mais,
da esquina dum muro ou embutido na parede.

-- certo!

--E ento com uma lampadasinha  frente, tda a noite acsa, at teria
um certo _cachet_.

--Como compreendeu bem o meu pensamento!--exclamou Clia, erguendo as
mos em xtase, enternecidamente, os olhos hmidos, e a um e outro lado
movendo-se com presteza, alegre, triunfante:--Valeu, pap?... _Mamita_,
ouviste?...--E batendo palmas:--Seria lindo!

Depois, vibrando ainda na exultante comoo e notando a tmida bandada
de avesitas que manso e manso de roda dela vinham abatendo-se:

--Ai, que j me esquecia das minhas inocentes amiguinhas! Dispensem-me,
sim?

Atravessando o ptio, subiu num relance ao primeiro andar; e da a
instantes esta apagada e asctica figura reaparecia ao alto
momentneamente aquecida e chegando a parecer formosa, no enquadramento
rstico da varanda, donde o seu brao amorvel comeou espargindo
bagoadas de arroz e punhados de milho sbre a graciosa farndola de
_chuos_, viuvitas, tarambolas, flamingos e pombas, que pedinchonas e
vidas se abatiam sbre o terreiro, patitando, volitando, ruflando...

Havia que organizar o programa da tarde. Mas de repente o cu encapotra
e o vento forte de oeste presagiava tormenta. Sinalou D. Torbio o
fenmeno com desgsto, bordando lstimas sbre aquela tremenda
instabilidade do clima regional, em que no havia nunca que ter
confiana, nem mesmo no outono, a melhor quadra do ano. Assim, embora
Jorge tivesse at j mandado aparelhar dois cavalos para uma saltada ao
campo, foi julgado como de mais prudente aviso no sarem e entreter o
resto do dia num exame mais detido  _estancia_.

Tomados os chapus, e tendo pedido vnia s senhoras, D. Torbio e os
dois jovens encaminharam-se ento  suave atraco do campo, tomando
aquela aberta posterior do ptio e dando o flanco  cozinha. E logo a
havia a notar, entestando com esta diagonalmente, uma espcie de longo e
raso aqueduto, em tijolo, que disparava depois rectilneo e rasteiro
pela lisa planura sem termo, at ir mergulhar e perder-se por fim num
fechado penacho de eucaliptus, longe, muito longe, j no esfumaamento
vago da distncia.--Era o encanamento que trazia a gua para toda a
sorte de usos domsticos. O vlho po do ptio para pouco mais servia
do que para regas... estava condenado.

Depois a seguir prolongava-se paralelamente, a um e outro lado, uma
dupla fita de leves, sdias, frescas e arrogantes construes, dando a
nota actual, porm mantidas tdas, no mesmo enfiamento das paredes da
casa primitiva. Eram a carapaa industrial da _estancia_, o seu fecundo
trao de unio com o utilitrio credo do presente, os maravilhosos
instrumentos, ali, desta subjugante caudal de energias duma nova raa,
que so o segrdo do portentoso milagre da prosperidade argentina. Era o
hino fulvo da riqueza, o _allegreto vivace_ da abundncia.  esquerda,
sorriam os rubros tldos e as alvenarias deslumbrantes das cavalarias,
estbulos e currales para gado, erguiam-se as afusadas _torricellas_ e
mirantes da fbrica de lacticnios, das vrias _cabaas_, _tambos_ e
celeiros. Vinham de dentro perfumadas, tpidas emanaes de feno e de
amjo, um gensico alento, um ar criador, um bafo gordo e tenro acusando
o protico germinar da vida. Quando os trs passavam, do brunido
tejadilho dum _haras_ surdiu e avanou para les, coquetona, mimalheira,
familiar, uma linda e enxuta cabea de cavalo castanho. Jorge acudiu
desvanecido:

-- o meu rico _Emir_... um autntico meio-sangue, um corredor de
primeira. Que dizes, _mi valiente_?

E do lindo animal acariciou o focinho brincalho, vibrtil, em curtas
pancaditas, suavemente.

Passando ao lado fronteiro, a as instalaes novas, nas suas apagadas
cres, na sua arquitectura sumria e rude, tinham o que quere que fsse
de mais poderoso e mais severo. Singelos e amplos armazns, por vezes
simples _hangars_ cobertos de zinco e telha de Marselha, eram contudo o
centro propulsor, a potente fonte dinmica de tda aquela parada enorme
de trabalho. Ali se alinhavam por dezenas as carretas de mo, os grandes
_camions_, as zrras e as locomotoras, brunidas, scintilantes; depois
havia os grandes aparelhos geradores da energia elctrica, duas mquinas
_desgranadoras_ para descascar o milho, uma _esquiladora_ para a tosquia
de ls, trs _trilladoras_ para apartar o trigo, a luzerna e o linho; e,
a seguir, os interminveis depsitos dos produtos habituais do pas,--o
milho em pirmides colossais, o trigo empilhado em sacos, a luzerna e o
linho acamados sbre a lisa sucesso dos mostradores, esperando a
secagem definitiva.--O vlho Saavedra, passando orgulhoso em revista
ste formidvel organismo industrial, parecia remoado, ia acumulando
detalhes, multiplicava as instrues, fazia pr a seu tempo cada pea em
movimento; extasiava-se e como que se identificava com tda aquela
batida vibrante de luz e de rudos, com o engrenar suave das rodagens, a
galopada arfante dos metais, o alucinado spro das turbinas. E ento,
fatigado a espaos mas no vencido, parava e encolhia os ombros,
sorridente:

--Isto j no so coisas pr'a mim... Mas, que remdio! se ste meu filho
de nada quere saber...

--Eu nunca, pap, poderia substituir-te capazmente,--advertiu Jorge, num
parntesis hipcrita de modstia.

Mas logo o pai com carinhoso desdm:

--Vs, os rapazes de hoje, no valeis nada!

Porm a ateno do Silveira fatigava-se e ao seu carcter volteiro e
indcil ste rgido e automtico aparato industrial interessava-o
mediocremente.

s 5 horas, outra vez no mesmo aconchegado recanto do ptio, reniam-se
a tomar _mate_. Desta vez, por uma ateno especial para com o novo
hspede, a tradicional bebida foi servida, no na lisa concha habitual,
porm numa antiga cabacita de prata, vlha no mais de cincoenta anos,
modesta data que entretanto, perante o ingnuo critrio dste pas
nascente, assumia fros dum raro valor arqueolgico. Foi a preciosa pea
trazida da _tagre_ envidraada do salo, onde em religioso recato era
conservada com outros mimos mais e sadosas relquias de famlia. Era
duma cinzeladura rudimentar. O seu redondito bjo assentava sbre um
trip de cabeas de grifos estilizadas, e ostentava no anverso,
emergindo triunfal dum entrelaamento gordo de folhagens, o suave escudo
argentino.--Depois de cuidadosamente escaldada, D. Tereza verteu-lhe
pelo afunilado gargalo a rica infuso do _mate_ a ferver, introduziu-lhe
uma cnula tambm de prata com o fundo em crivo,--a clssica
_bombilla_,--e logo de oferecer obsequiosamente o indito aparelho ao
Silveira, que, na sua titubeante inexperincia de suco da _bombilla_,
queimou a lngua, apressando-se a passar o brbaro instrumento  dona da
casa. Os circunstantes sorriram ao observar o cmico efeito, por demais
esperado, da desastrada iniciao do recm-vindo. Mas logo se repuseram.
E agora a preciosa tacita foi passando de mo em mo, e lbios aps
lbios foram sucessivamente abocando sem escrpulo o mesmo tubo
aspirador como quem se desobriga dum rito sagrado, num recolhimento
quse solene, num inaltervel silncio, de longe e apenas vagamente
cortado pelo mugido das vacas e o balar dos cordeiritos que vinham dos
currales distantes.

A seguir, por uma natural expanso neste ambiente de pacificao cordeal
que a familiar cerimnia desdobrra, a bisarmal D. Teresa deu conta do
seu piedoso giro de manh. E naquele bondadoso ar habitual, repousado e
manso, convictamente imps ao marido:

--J outro dia to disse, tem pacincia... mas h que perdoar a renda a
sse pobre Juan Valrio. Que desgraada gente! Se tu visses...

--Mais outro?--balbuciou o vlho Saavedra com fastio.

--le est com um antraz, tolhido, rodo de febre... bem sabes.

--Ento no lho queimaram?--atalhou Jorge, numa ligeira impacincia.

--Sim, porm j tarde, infelizmente! Parece que no escapa. Que vai a
pobre da mulher fazer?

--Tem os filhos.

--Que filhos? No blasfmes. O mais vlho, depois daquele desastre na
via-frrea, ficou sem uma perna. E nem um centavo lhe deram de
indemnizao. A filha desarvorou com _uno tal por cual_... O mais moo
foi de conscrito.

--H-de voltar.

--E enquanto no volta?--acudiu Clia com carinho.

Seguiu-se uma breve pausa de embarao. D. Torbio, agora silencioso,
bamboava o busto hesitante, e os seus pequeninos olhos verdes adoavam,
molhavam-se de ternura. Por fim, com maligno sarcasmo, Jorge:

--Bem, bem, _mamita_... perda-me que te diga... mas o certo  que
estamos aqui  merc da ganncia de todo o _gaucho vividor_. Por ste
andar, daqui a pouco seremos ns que teremos que pedir por esmola aos
nossos colonos que nos dem algo com que viver!

E levantou-se sacudidamente.

Um novo silncio se abriu, arreliativo, apremiante, o qual Jorge
aproveitou para senhorear-se do Silveira e lev-lo consigo, atravessando
pronto o ptio e logo alcanando a desafogada galeria da entrada, onde
le se atirou aborrecido para uma cadeira de _hamaca_ e acendeu um
cigarro. Das nuvens grisceas e rasteiras caam os primeiros salpicos de
gua, e o joven Saavedra lamentou que o tempo os _embromase_ por aquela
forma, impedindo-os de sair, logo no dia da chegada. Lamentou-se
igualmente da insuportvel monotonia e da extenso sem termo, ali, das
noites. Bocejou e alongou preguiceiramente os braos, numa mole
distenso de tdio. Mas logo, insinuante, gaiato, aprumando-se e
assentando familiar a palma da mo sbre a coxa do amigo:--Que no lhe
dsse cuidado! le sabia bem como e aonde amenizar um pouco a coisa...
Os vlhos recolhiam cedo, ficavam os dois em liberdade; e ento nada os
impedia de irem por' onde melhor quadrasse... Tambm havia meio de
_farrear_ pelo campo, correndo essa _chinera_ em roda.--E, como
antecipado aperitivo, j o inflamado moceto deblaterava e fazia correr
a viso de vrios episdios patuscos, ante o lho lbrico do amigo.

 noite, sbre o jantar, passou o pequeno grupo ao salo de _recibo_,--o
primeiro compartimento  esquerda do vestbulo, na frente da casa.--Uma
arcaica moblia estofada, envlta em protectoras lonas; fogo de
aparatoso friso em escaiola, simulando mrmore, com relgio e castiaes
de prata; fronteiro, sbre o sof, um grande espelho com a moldura
ratada; quadritos a missanga pelas paredes, e, sbre dois singelos
trems doirados, vasos barcos de antiga porcelana, com flores de cera
sob redomas de vidro.--Logo de entrada o vlho Saavedra, correndo a um
armrio e com os olhitos codiciosos, invitou para uma partida de xadrez
o Silveira, que declinou com mal dissimulado horror a iminente estopada.
Entretanto, D. Teresa vinha abater-se em pso sbre o queixoso sof, que
se enrugou, gemendo; e chamava para o _fauteuil_ ao lado o hspede, a
interrog-lo sbre coisas de Portugal. Da mesma forma, Clia,
jucundamente posto agora de parte o seu aspecto bisonho e arisco, tomada
de sbita e grata simpatia por ste galhardo advogado, ao almo, do seu
desejo, interpelava-o com piedoso intersse sbre os lindos templos que
l devia haver, na sua terra... e preciosssimas alfaias religiosas,
relquias autnticas, oiros, pratas, pedrarias, magnficos
tesouros.--Desvanecido e importante, o Silveira fazia acenos aprovativos
de cabea: falou na custdia dos Jernimos, nos retbulos da Madre de
Deus, nos paramentos de Mafra, nas riquezas de S. Roque. E ntimamente
maravilhava-se daquela sua espordica exploso de patritica scincia.

Por seu turno ento D. Torbio, espontneo, afvel, acudindo gostoso 
deixa:

--Ah, no h dvida, Lisboa  uma linda cidade, e  um admirvel povo, o
portugus!

O Silveira soergueu-se e dobrou-se numa lambida mesura. E o bravo pai
Saavedra, confirmando:

-- certo! Os senhores, sonhadores e plcidos como so, teem um grande
esprito de iniciativa. Eu sou insuspeito. _Este_... Veja o meu amigo...
Eu descendo de espanhis, tenho algo dsse sangue impetuoso e ardente da
terra que  o smbolo vivo da bravura, o bero esplendente da alegria,
da arte e da beleza. Sou um admirador incondicional e formo ainda um
rebento distante dessa formidvel, cavalheiresca e valente Espanha,
ptria do amor, filha do sol, senhora do mar, _nodriza de mundos_!
Contudo sou o primeiro a reconhecer, e tenho o maior prazer em dar disso
pblico testemunho, que o progresso social da nao lusitana leva bem um
sculo de dianteira ao dos outros povos ibricos.

--Demasiada amabilidade...

--Quere ver?... Max Nordau tem razo... Ainda durante dois sculos o
_muezzin_ havia de continuar a evocar os crentes maometanos em Sevilha,
em Granada, em Crdoba, quando j o vosso Afonso III repelira dos
Algarves o ltimo rei moiro. Meio sculo antes que Colombo, de pas para
pas correndo, como um mendigo, obtivesse dos reis catlicos as
caravelas com que veio descobrir a Amrica, j o Infante D. Henrique
descobrira as costas de frica t muito alm do Equador. Muito antes que
Carlos V levasse a bandeira espanhola para alm do Mediterrneo,
Portugal conquistava Ceuta. Pombal expulsou de Portugal os jesutas,
quando ainda em Espanha luziriam sinistras por muito tempo as fogueiras
dos _autos de f_. Portugal foi dos primeiros pases a repudiar a pena
de morte, a abolir a escravatura; e ltimamente, renegando os vlhos
dogmas centralistas de tda essa Europa rgida e feudal, adiantou-se a
formar com a Sua e a Frana uma valente trilogia democrtica. No 
tudo isto verdade?... Aqui tem, meu caro amigo... _este_... porque eu
tanto os aprecio e admiro!

No foi muito do agrado do Silveira ste fecho revolucionrio da
apologtica parlenda; contudo, como rplica obrigada, espraiou-se le
ento em lisongeiros encarecimentos bordados sbre a formidvel
exuberncia e o vertiginoso progresso da admirvel nao argentina.
Entretanto, sse bom _calavera_ de Jorge aproveitra o giro erudito da
palestra para escapulir-se. E a estava agora Clia de novo a contas com
o pai, litigiando a favor da sua litrgica birra.--Que tinha um nome
demasiado profano a _estancia_. Era at um repto de orgulho feito ao
cu. Foroso baptiz-la.--O pai torcia-se contrariado, desfiava perante
a piedosa querena da filha todo um rosrio de ponderosas objeces,
mastigava, opunha-se.

--No, filha, que ida! Bem vs, no pode ser. Sabes que ste grande
nome, _Amlia_, justamente consagrado aqui como em tda a rpblica, no
 o caso dum nome banal, no  uma designao anodina, arbitrria,
familiar, pueril, no! Tem a sua santidade tambm...  um smbolo de
dedicao e herosmo, evoca uma das pginas mais impressionantes da
nossa histria.

Porm j me e filha, sem darem maior tento  resistncia formalista do
bom vlho, com cuja doce aquiescncia, contavam, afinal, tudo era
discutirem agora e esmiuarem meticulosamente qual dos cerleos
habitantes deveria como futuro patrono da _estancia_ merecer-lhes a
preferncia. E tinham dvidas, hesitaes, receios.--Talvez a adorvel
_Virgen del Pilar_, duma lenda tam popular e tam potica... Contudo, a
_Virgen del Carmen_ tinha mais tradio crioula. Ou ento seria melhor
_San Lorenzo_, protector das bas colheitas. E porque no _Santa
Brbara_, advogada contra as tormentas?

Ao que, trocista e afvel, o bom vlho Saavedra:

--_Este_... j agora, p'ra que ningum l no cu fique descontente,
chamem-lhe--_De todos los Santos_.

Por fim, a cortar crce a dificuldade, os trs foram unnimes em convir
que a _Miqutas_ decidiria.

E sbre ste ditame conciliador a patriarcal _tertulia_ fechou, por
aquela noite. D. Teresa ergueu-se pesadamente, com austera gravidade
obtemperando--que j eram as dez passadas... havia que despertar cedo,
ali: ela para os seus pobres, o marido para a _peonada_ do
campo.--Depois, j fra, no vestbulo, e como ltima das solcitas
indicaes com que a bondadosa senhora despediu o Silveira, aconselhou
com carinho--que, em suma, a estao j ia avanada... mas em todo o
caso, pelo sim, pelo no, que no se esquecesse de cerrar o mosquiteiro.


Neste acolhedor ambiente de lmpida cordealidade e benfico repouso
foram decorrendo para o Silveira deliciosamente os dias. Ali le
encontrava uma ntima e perfeita conformidade entre a amiga efuso das
almas e o afago tranqilo das coisas. Embalavam-no na mesma onda de
beatitude e carinho, o sorriso afvel das figuras e a placidez infinita
da pasagem,--aqui tam diversa das fragoeiras e montanhosas agruras dos
crros da sua terra. Tinha uma vida leve, encantadora, fcil, vida de
confiana e olvido. E todo ste suave meio, abundante em agrados e
repassado de indito, trazia ao seu ser moral e fsico um salutar
estmulo.

Assim, logo em cada antemanh, a estava le a cavalo e partia, de
ordinrio com Jorge, ou com o _mayordomo_, a surpreender na sua
complexidade pitoresca, na sua poesia sdia e rstica, a labuta spera
do campo. Pelas manhs limpas e claras, ainda mal o oriente aquecia da
carcia auroral do sol, e j le seguia com algum _capataz_ a verificar
o estado dos _alambrados_, a revizar e contar o gado. Assistia ao
apartar das rses, aprendia a ferrar, a castrar, a _carnear_, a
_investir_, a atirar o lao. Muita vez ento le estacava, e, com mal
contida inveja, quedava-se em admirativa contemplao perante a nobre
silhueta dalgum _paisano_ montado que passava arrogante e viril a
aprumar-se e a crescer na lisura uniforme da plancie. Encontrava
realmente belas, impressivas, soberbas de linha, de mpeto e de
carcter, cada uma destas rudes e ntegras figuras, curtidas pelo ar,
tisnadas pelo sol,--mescla de oiro e bronze, e como o mesmo bronze duras
e indobrveis,--envaginadas toscamente na sua singela blusa e na
_bombacha_ ou enfiando o _poncho_; ao pescoo, com um n  frente, o
indispensvel leno enrolado; protectoramente a cabea envlta nas
grandes abas do clssico _chambergo_; do cinturo, sbre os rins, o
inseparvel _cuchillo_ colgado, e o lao e as _boleadoras_ na garupa; as
retsas botas coladas e firmes sbre os aparatosos estribos, de tbua ou
de coiro, profusamente rendados de guarnies de prata. E ento,
naturalmente, ao vl-lo assim contemplativo e atento, Jorge orgulhava-se
e compartia daquela admirao complacente do amigo. Logo, comprazia-se
na exaltada apologia dsses centauros errantes da planura,
completava-lhes a fisionomia moral, enaltecia a sua bravura, a sua
generosidade, a sua altivez, o seu desprendimento, o seu desprzo
estico pelo dinheiro, a sua resignada submisso ao destino. Galopando
eram um turbilho, parados eram esttuas. E acumulava pormenores,
desfiava anecdotas.--Jmais consentem _que les pisen el poncho_. Eram de
sua natureza altercadores e briges, cultivando apaixonadamente, como um
_sport_, tdas as vrias formas da luta, porm nunca a sua lisa alma
abrigava o rancor e poucos baixavam ao crime. Cada um dstes bravos
senhores do deserto poder dar um heri, raro um facnora. Uma vez
vencedor desinteressa-se pronto do vencido, que desdenhoso se limita,
quando muito, a marcar com o estigma cortante dalgum _tajo en el
rostro_, um simples _barbijo_.

Mas, breve, com o glorioso avanar do dia apertava o calor, e ento
quse certo era irem os dois amigos demandar por um instante o
confortvel refgio de algum dsses humildes _ranchos_ dos colonos
agrcolas, sumarssimas construes de palha e barro, tmidas e mseras
palhoas que abrigavam sob o teto, raso e intonso, uma vida tam
elementar como as suas paredes eram primitivas. Ausncia quse total de
moblia, reduzida a alguns polidos crnios de vaca servindo de assento,
e a raros catres ou esteiras sltas sbre a terra nua. A alimentao
parca e simples, por igual: carne, po, _mate_, acar, e mais um pouco
de arroz nos dias de festa. Um campo rudimentar de aco e um reduzido
vo de desejos. O miudito espao fechado por estas ingnuas tcas  flor
da terra, parecia entretanto naqueles depressivos momentos, ao
quebrantado nimo dos dois jovens, um delicioso rinco do Paraso. No
que ia tambm um pouco de sugestivo encmio feito convictamente pelo
colono ao prprio ninho.

--Passa-se aqui melhor que na cidade, senhores... O _rancho_  fresco no
vero e quente no inverno.

Na Argentina corre geralmente despreciada e ignorada a obra, sbre tdas
fecunda, do colono, do emigrante, merc do anonimato inquo a que a
relega ainda a persistncia tenaz da tradio romntica do _gaucho_. E
contudo, aqui, as flutuaes na produo da terra dependem
essencialmente e so inseparveis das vicissitudes da vida do colono
estrangeiro, progressivamente vinculado pelo mortificado plasma do
prprio suor  mesma terra. E  em primeiro termo  beneficiosa
influncia e ao pastoso esfro dessas proticas aluvies humanas que
ste privilegiado torro, de flancos sangrantes, deve a maravilha da sua
abundncia e o milagre da sua riqueza.

Pela tarde, depois de uma breve ssta, novo giro. E, nesta vagabundagem
de acaso dos dois amigos, vinham a ser estases de obrigado repouso as
vrias _pulperias_ (casas de venda) com que les deparavam no caminho,
umas rodeadas de meia dzia de casotas mais, outras singelas e ss
aflorando tmidamente, como incrustadas na monotonia imensa da pasagem.
A _pulperia_ participa simultneamente do carcter de taberna, centro de
renio, estao postal e loja de comrcio,--um comrcio sem
especializao e sem limite, extravagante e imundo _bric--brac_ de
objectos para todos os usos, de utenslios para tdas as necessidades,
de produtos de todos os pases, de farrapos de tdas as pocas. Na
primeira casa dste gnero em que o Silveira entrou, surpreendeu-o a
confusa variedade, a atropelada profuso e o baralhamento infinito das
coisas disparatadas e antitticas que dste catico mostrurio formavam
o recheio. A um canto, ao lado do mostrador e tomando tda a parede,
havia um desordenado empilhamento de atributos hpicos,--cabeadas,
rdeas, freios, selins, aoites,--crestados j uns pelo uso, novinhos em
flha os outros. Ao lado oposto, era uma brbara inundao de ferragens
de tda a sorte, de cilindros e novelos de fio de ferro, de fusis e
petrechos de caa, ferraduras, martelos, cravos, navalhas, facalhes,
tesouras, tudo isto alternado com prateleiras cheias de produtos de
drogaria e especialidades farmacuticas. Ou eram fieiras de lmpadas de
petrleo suspensas sbre sacos de milho, feijo e arroz; ou ainda, um
pouco alm, os mais trpes especimens de calado vlho pendurados 
mistura com rsteas de alhos e mlhos de cebolas; ou a tentadora bateria
de cervejas, do _brandy_, do _whisky_, dos licores, nos seus frascos
rutilantes; ou, emfim, as cabacitas de _mate_ e as peas de algodo de
cres berrantes, infalvel engdo s predileces lous das raparigas.

Abancavam os dois amigos a alguma das mesas livres e pediam cerveja,
flanqueados de crca por outras mesas, de roda das quais pacficos
grupos, de gente rude e simples, bebiam _cana_, jogavam as cartas ou
concertavam transaces comerciais, dilatadamente. De quando em quando,
algum novo fregus entrava, sadava com gravidade, despedia um vago
olhar em trno, depois ia sentar-se e ficava-se indefinidamente
silencioso, esquecido, quse imvel, enrolando o cigarro, antes que
exteriorizasse a sua inteno ou manifestasse o seu desejo. Porque o
_gaucho_ nunca tem pressa. Habituado como le anda a medir o tempo
segundo a declinao do sol, assim perante o seu modo desprendido e
calmo de encarar a vida, uma hora a mais ou a menos no conta uma
aprecivel diferena. A _pulperia_ , para ste dominador lendrio da
_pampa_ argentina, mais que um vicioso centro de atraco:  um
inviolvel asilo de meditao e de repouso. Casa-se ntimamente com a
sua inata altivez, com a sua natureza indolente e agreste, a soberana e
apartada independncia, o calmo e tpido ambiente dstes baratos _oasis_
industriais, onde le em pleno olvido dormita e sonha, enquanto, fra,
por essa extenso sem fim, dardeja fogo o gldio em brasa do sol ou
fustiga o ar a asa revlta da tormenta.

Por vezes havia na taberna um guitarrista; e ento os preguiceiros
_gauchos_ desentorpeciam, chalravam mais alto e bebiam mais forte,
estimulados pelo zangarreio mole e sensual dos _tristes_, _vidalitas_ e
outras corridas rias crioulas. E tambm, a espaos, uma que outra vaca
ou bezerro, metendo a cabea, vinham mugir familiarmente  porta;
enquanto os gafanhotos e as borboletas a cada momento entram e sem
volitando, zombeteiros e livres, num como que desdm trocista por sse
mesquinho produto da indstria humana que se permitira a ousadia de vir
ali ridculamente enxertar-se na majestade soberana do deserto.

Porm para o feitio mulherengo e ribaldo do Silveira, as mais saboridas
horas nesta folgada digresso campestre, eram sem dvida as noites.
Inaltervelmente Jorge, com o seu faro infalvel de vlho garanho
regional e fiel s baixas solicitaes do seu instinto, conduzia ento o
amigo s estaes galantes da redondeza, a essas abscnditas e errantes
_pulperias_ do amor, asquerosas e imundas _madrigueras_, cheias de
mugre, o ar afrontoso e envenenado, crasso de emanaes carnais, nublado
de fumo de tabaco, onde sstros e descompostos grupos de chinas da
nfima espcie se deslocavam nas lbricas contorses de algum acanalhado
_tango arrabalero_, e no mais trpe delrio de gestos e visagens
porfiavam em inflamar o apetite mrbido dos visitantes, desmanchadas em
bailuchos desonestos, abertas em risos que davam tristeza, dobradas em
carcias que infundiam asco, sltas em requebros que faziam mdo. O
Silveira no descia a misturar-se na agitao insalubre do torvelinho;
porm mentalmente embebedava-se na contemplao desta dionisaca
pardia, comprazia-se no exame de tam ignbil espectculo. A exsudante
coreia animal enardecia-o. Ao passo que o seu amigo Jorge, menos isento
e mais frascrio, por vezes se emborrachava a perder, apostado no
clssico _tomo y obligo_ e confundido com a ronda esborifada e bestial
do mulherio.


Por fim, andados uns dias mais, o Silveira, reputando-se um esperto
conhecedor j da regio, emancipou-se. Agradava-lhe agora de
preferncia, uma ou outra vez, sair le s e aventurar-se em soltos
rumbos pelos dilatados panoramas da redondeza. As fragoeiras qualidades
do seu gnio requeriam esta expanso librrima. O aguilho vago da
incerteza era um estmulo mais a acicatar-lhe o vivo apetite do indito,
neste seu investimento solitrio do Desconhecido.--Assim aconteceu que,
uma tarde, depois de haver gozado algumas horas andando s inculcas,
szinho e  ta, pelos campos, quando pensou em regressar  _estancia_,
pela primeira vez hesitou na direco a seguir e comeou a dar-se conta,
com arreliador desagrado, de que pisava um pas ignorado, alheio,
hostil... compreendeu que se havia perdido. A sua ilusria presuno de
infalvel batedor do campo atraiora-o. No sabia onde estava. Debalde
interrogava e buscava ansioso profundar o mudo enigma do espao. Na
inquieta demanda do rumo perdido, ensaiava ao acaso veredas e trilhos
novos ou fazia longas e fatigantes caminhadas, que, como num circuto
infernal, o traziam invarivelmente ao mesmo ponto de partida. J a
noite vinha prxima e os pontos de referncia conhecidos falhavam-lhe.
Olhava ao largo e respondia-lhe o desdm burlo da imensidade. O mesmo
dcil animal que le montava, parecia tomado tambm,--caso raro,--duma
indeciso, duma ignorncia, dum receio igual, e a cada momento estacava,
fitando as orelhas, e num interrogativo ruflar, nervoso e lerte,
alongava as narinas fumegantes.--E no aparecia viv'alma!--Teriam que
ficar p'r'a assim, Deus sabe como, aonde e por quanto tempo... Nem um
ente vivo que os encaminhasse! no apontava um sinal, no alvejava uma
casa. No surdia por acaso algum dsses vlhos e graves _rastreadores_
que,--le ouvia contar,--seria capaz de met-lo a direito, descobrindo e
estremando-lhe o decalque do passo da montada no piso batido e poeirento
da planura. Nem tampouco se fazia o milagre de le encontrar um dsses
subts _baquianos_, inverosmeis topgrafos, que sabem o curso de todos
os mananciais, conhecem os vaus de tdas as ribeiras e so peritos em
discernir, um por um, entre milhares de caminhos...

Ento, na sua insistente e mida inquirio do ambiente, o Silveira
notou sbito, e ali bem perto, uma sbe de arbustos bravos para l da
qual havia seguramente algum. Sim, porque, no obstante a calma
paradisaca do ar, as suas flhas tinham rces metlicos, e os ramos
abanavam, estalidavam, dobravam-se e erguiam-se em choques rumorejantes.
Dirigiu para ali o cavalo e breve distinguiu atravs da folhagem as
indecisas linhas dum grupo: duas figuras, mas evidentemente em briga,
porque, ao seu impulso, a trama verde da precria vedao tinha
deslocaes violentas, crispava-se em bruscos sacudimentos, e de envolta
com a sua arrepelada flutuao vinha o resfolegar opressivo e anelante
de pessoas que lutam ardidamente... Curioso, o Silveira apeou-se de
golpe e deu volta. E viu que um sujo e intonso labroste estrangulava nos
braos brutais o corpito espavorido e vibrtil duma joven alde, que se
debatia exasperadamente, e que aquele animal queria  viva fra
sujeitar ao cevo do seu desejo.

O corao do Silveira teve uma retraco de generosa angstia, um lume
vingador lhe passou diante dos olhos e atirou-se, de salto, contra o
cobardssimo stiro, aplicando-lhe bruscamente um formidvel murro
contra a nuca, e logo, cingido cerce com le, afogando-lhe o pescoo com
as mos tirantes, duras, implacveis como duas tenalhas de ao.
Subjugado pela inopinada e valente agresso, o imundo labrego no teve
mais remdio seno deslaar os braos, largando a presa; e queria
voltar-se e defrontar duramente o adversrio; porm antes, cedendo ao
garrote aniquilador da asfixia, cambaleou e tombou desfalecido na mesma
terra revlta pela sua bestial investida. Dominador e soberbo, com o
revlver pronto assestado, o Silveira ameaou:

--Se te mexes, co! fao-te saltar os miolos.

O contricto matulo, estendido e inerte, esboou um esgar implorativo,
sem palavra ferir, erguendo os braos suplicantes.

Aproveitou o Silveira ste favorvel instante para lanar um olhar de
piedoso intersse sbre essa ignorada flor da selva que le
providencialmente acabava de salvar, a sua pequena desconhecida. E logo
o vencido rstico, surpreendendo a momentnea distraco, saltava lsto
em p e pronto a arremeter como um toiro, lvido de raiva, com uns olhos
de morte, contra o seu garboso rival, brandindo o traioeiro _cuchillo_
no brao homicida. Porm acudiu a tempo, de sua banda, a rapariga,
alcanando-o animosa pela espalda e pendurando-se-lhe do brao em pso,
a segurar-lhe o pulso. Foi um momento, o bastante para o Silveira, de
revlver sempre assestado, retomar o seu ascendente e obrigar o meliante
a largar o ferro. E v de zurzi-lo depois com o chicote
desapiedadamente, cobrindo-o de improprios, fazendo-o rodopiar sbre os
rins, arregoando-lhe a face, varejando-lhe os quadrs, e cortando-lhe os
joelhos. E o confuso marmanjo, outra vez de braos ao alto, no fazia
agora mais que recuar, recuar passivamente... t desaparecer por fim na
sombra, derreado, aturdido, cego e vagamente ameaador, rugindo.

Podia agora enfim o Silveira contemplar mais em sossgo a curiosa
figurinha que tinha ali assim a seu lado, retrada e tmida, tda
tremulante e magoada ainda da repelente luta de h pouco. A estpida
scena fra tam breve que a le nem dra mais tempo que para fixar-se bem
nos gestos e atitudes do seu caviloso contendor. Da indefsa vtima
dste no chegra a lograr formar-se uma noo definida e clara. Agora,
sim... Era uma linda e adorvel _morenucha_, pouco mais de nubil,
delgadita e enxuta, dum moreno de bom tom, um moreno atenuado e
lnguido, apenas mais vigorosamente mordido na macieza tostada da nuca,
no nankin macerado das olheiras. Calava uma espcie de tscas
alpercatas brancas e grosseiras meias negras, de l; sbre a saia, muito
curta, negra e rstica por igual, e em cujos tupidos refgos a
estreiteza anadiomnica dos quadrs se perdia inteiramente, abatia-se a
fmbria slta duma blusa clara, de riscado; e pela colina apolnea dos
ombros, firmes e redondos, uma floresta de fartos cabelos negros,
naturalmente ondeados, desparramava-se em desalinho. O fresco e
apetitoso dasabrochar duma esplndida flor do campo. Tinha uma expresso
singular, entre menineira e selvtica, uma como frescura moral de clara
fonte. A mais pura linha de contrno ovalava o seu rosto cheio e
singelo, cr de trigo maduro, animado por uma bca que era um alapo de
desejos, aquecido por uns deliciosos olhos negros, cheios de fogo, olhos
que se no fossem tam puros seriam a perdio da sua alma. E a clida
veemncia do temperamento, as demasias do sentir latente, a flama
espirrante da sua vida interior, denunciava-as bem a tinta mate da
epiderme,--essa cr hepatizada e ardente das loucas depositrias da
paixo.

Com paternal carinho o Silveira, adiantando-se, preguntou-lhe--como
tinha sido aquilo? que se havia passado?--E ela, cndidamente, com um
pso de vergonhoso embarao a velar-lhe as palavras e a abater-lhe as
plpebras:

--_Yo andaba buscando una tropilla de cabras que se me ha extraviado,
cuando ese gringo_...

--Pobresita!

A esta sincera exteriorizao de piedosa ternura no teve a suave
rapariga uma palavra de comentrio... porm a comoo empanou-lhe os
olhos e um spro de enternecida gratido lhe fundiu a alma.

--Como te chamas?--familiar o Silveira tornou.

--_Luisa, servidora de Usted_.

--E ento agora vais p'r' tua casa?

--_Si, pues_.

--Muito distante?

--_Sesenta cuadras, no ms_.

--Se queres, eu te acompanho.

--_Bueno, seor_.

Numa instintiva e afvel confiana, ela avanou dois passos, o Silveira
tomou-lhe a mo esquiva, e os dois acercaram-se ento do cavalo, a que o
dono tomou a rdea. E queria que a pequena montasse, e cortsmente
insistia, para furt-la  fadiga molesta de tam longa caminhada. Porm a
gentil rapariga, tenazmente, escusava-se.--_Que no, qu esperanza!_--E
por seu turno, desprendida e solcita, teimava em que le  que tinha de
aproveitar a montada. Era o natural... Um senhor da cidade, tam fino,
tam delicado!--Por fim, a rodear amigvelmente a dificuldade, resolveram
por mtuo acrdo seguirem, j agora, ambos a p.--Passariam trabalhos
iguais... assim, nem um nem outro teriam que dizer.--E foi como
alegremente iniciaram ento a penosa jornada, pronta e infantilmente
acamaradados, com o cavalo  mo e marchando a par e passo os dois,--ela
mocanqueira e feliz por tam fidalga companhia, vaidoso le e arrogante
por ver-se o depositrio ocasional daquele tesouro,--mano e mano
divagando, mansos e graves, na luz indecisa do crepsculo, pela orla
sinuosa dos caminhos.

Nesta hora recolhida e melanclica, j o sol baixava a rasar a purpurina
fmbria do horizonte, envolto numa conflagrao de nuvens que o
toucavam, redondas e infladas, como o penacho dum elmo rutilante. E o
seu estirado reflexo incendia o imenso lenol pampeano em fulvas
reverberaes, como um vasto claro de incndio, no mais puro e mordente
contraste com a leveza espelhada do cu, infinitamente calmo, fundo e
difano, cuspido apenas ao alto de breves nuvens policromas.--Andando
sempre, amavelmente o Silveira ensaiava, a curtos intervalos, travar
dilogo e entabolar conversa, a fazer um pouco o conhecimento da sua
misteriosa companheira. Lusa porm tinha dificuldade em compreend-lo,
fazia-o a mido repetir as frases; e apenas se ela consentia depois em
deixar escapar alguns raros, intervalados, curtos e soltos monosslabos,
como gotas de gua reumando num subterrneo. E a seguir logo ela recaa
no mesmo mutismo concentrado e aptico, fechava-se na sua invarivel
reserva, na sua tmida esquivana, marchando silenciosa e humilde, ao
lado do seu generoso amigo, com a repousada majestade da pasagem nua do
deserto.

Contudo, a poder de pacincia e mimo, o Silveira conseguiu inteirar-se
de que ela vivia separada e longe do pai e da me, por contendas de
famlia; e que trabalhava a jornal, mais um irmo, na fazenda dum dos
mais acaudalados chacareiros da redondeza. Igualmente conseguiu torn-la
sabedora do motivo da acidental apario dle por ali. E ento era de
ver como a graciosa _morochita_ vivamente se interessava.--Ah, a
estancia _Amlia_?... Conhecia muito bem: _una ricura! Qu buena seora_
a D. Teresa! _Seorita_ Clia, _una santa_... Por sorte, era p'r'os
mesmos lados da sua chcara. No havia dvida, ela lhe ensinaria... E
tudo mais que le quisesse... No havia por'li assim rinco nem caminho
que ela no _supiera al dedillo_. Conhecia-os com'os os seus dedos.--E,
dizendo, tornava-se comunicativa, e afogueada, risonha, saltitava de
prazer, tda na vibrao exultante de poder ser til a ste bravo e
louo desconhecido a quem ela devia mais que a vida.

Porm, sbito, a atraente campesina estremeceu, e, dando um salto,
atirou-se contra o flanco protector do amigo.

--_La lechuza! la lechuza!_--murmurou com supersticioso terror a
timorata rapariga.

E apontava um pequeno ponto escuro sbre um poste telegrfico,  ilharga
do caminho.

Ergueu o Silveira, alarmado, na mesma direco os olhos e pde
distinguir uma pequena ave, de cr quela hora indecisa, e que lhe
pareceu um pouco mais volumosa que os tordos que le sabia tam bem
caar, na sua terra; porm com uma grande cabea chata, solene e
doutoral, vagamente humana, e poisado com uma gravidade que lhe dava o
mais estranho ar, uma bizarra mescla de ridculo e de mistrio.
Confrangida e de cabea baixa, apertando os braos, a pobre Lusa
entaramelava,--que aquilo era uma ave m, agoireira, sinistra! Mal ia
aos que _la lechuza_ fitava assim... como a ela estava fazendo agora!
Era o mais temido avejo do campo, o mensageiro da fatalidade, um
prenncio certo de desgraa.--Animoso e incrdulo, o Silveira buscava
tranqiliz-la.--Que no dsse f a essas estpidas crendices dos vlhos
tempos. Quem cria agora em agoiros?... Tonterias! Era um pobre animal
inofensivo e simples, como tantos outros.--Lusa porm convictamente
protestava.--Que no! todos os dias se estava a ver... Ainda no havia
muito tempo que um tio dela cara e morrra afogado num po, por ir
perdido a querer furtar-se  perseguio duma aventesma destas, por uma
noite assim... E a amsia ltima do patro? E a filhinha do sr. juiz de
paz?... No havia nada peor! Tinha a sua vida cortada...

E, num mixto de ansiedade e horror, de quando em quando ela indagava a
presena, pelo espao, dessa azarenta mancha indecisa... a qual por seu
turno, de poste para poste, de boua para boua, surda e fantstica,
avoejando, implacvelmente os ia seguindo sempre,--na sua grande cabea
redonda, invarivelmente sbre os dois apontada e fixa, luzindo
ameaadores e presgos dois pontos fosforecentes.

Sentindo contra o seu flanco a palpitao do corpinho fresco e
tremulante da rapariga, o Silveira aquecia. Dirigia-lhe palavras de
carinho, cingia-a pelos ombros, afagava-lhe paternalmente o cabelo.
Neste delicado momento, senhoreava-o uma cida perturbao,
desdobrava-se-lhe a alma numa inquietante duplicao de sentimentos,
participando a um tempo da piedade e do orgulho, da vaidade e do desejo.
Quando considerava a justa oportunidade, o xito feliz da sua
cavalheiresca aventura, isento e honesto o corao alargava-se-lhe; e,
ao mesmo tempo, por todo o seu ser em alvoroo despertava uma sensao
de terna e estranha voluptuosidade,--o apetite vago de possuir a sua
linda e frgil tutelada para continuar a proteg-la...

Assim foram longamente caminhando, na progressiva invaso da trva e do
silncio, minsculos e ss os dois na imensidade, alumiados j pelo
sonambulismo errante das estrlas. Por aquela agonia dulcssima de
tarde, o crepsculo da luz e o crepsculo da tradio fundiam-se. Era o
charro e vazio esbatimento, era a definitiva eliminao de todo sse
mundo de encantadoras e imaginosas fices que, antes, volitando
irisadas e leves, como borboletas, esmaltavam de poesia a esfumada
atmosfera dste pas fantasista e ingnuo,--hoje irremissvelmente
dispersas, trituradas e desfeitas pelo industrialismo feroz da hora
presente. No mais serenatas, encantamentos, fadas, demnios surdindo
dos poos, virgens penteando-se ao luar, bruxas alucinando donzelas,
sereias a adormecer gigantes... No repouso letrgico da planura, o nico
rudo perceptvel era por acaso o rouco soluo de alguma locomotiva,
raspando ao longe. E neste apaziguamento sem termo, na absoluta
desolao desta soledade infinita, a monotonia sem fim da _pampa_
alastrava como uma imensa mortalha,--era um mar morto num pas de
olvido.

Haviam atingido o ponto obrigado da separao, o teimo fatal  deliciosa
e imprevista caminhada. Foi quando gravemente o Silveira estacou frente
 sua linda scia de jornada, e tomando-lhe as duas mos, encarando-a
bem nos olhos, suasivo e meigo:

--Ento, muito cansada?

--_No... aunque fuera doble del camino_,--murmurou Lusa docemente.

--Espero que nos tornaremos a ver...

--_Quien sabe?_--devagar ela suspirou, furtando os olhos, com um peganho
vago de tristeza.

E dos dois as mos trmulas e frias deslaaram-se, houve um mtuo breve
acno de despedida e voltaram-se costas, num eloqente mutismo, seguindo
cada qual o seu caminho.

O Silveira, porm, tam pronto deu no seu novo rumo os primeiros passos e
sentiu que lhe faltava o que quere que fsse... e contra o seu querer
no despegava de pensar, apiedado, quente, com uma devoo enternecida,
na misteriosa apario dessa adorvel e paradoxal criatura, tam
sobranceira ao mal, tam pura em meio de tanto ldo, tam segura da sua
imunidade, tam resoluta diante do perigo. Quis v-la uma vez mais....
parou, voltou-se. Mas, impelida por idntico desejo, ela voltra-se
tambm... E nesta simultnea permuta de olhares, confusa ao ver-se
surpreendida, a alvorotada criana deu logo rpida a espalda e disparou,
correndo.




VIII


Longe, na _estancia_, a extraordinria demora do Silveira tinha tda a
famlia Saavedra em cuidado. J eram as 9 horas passadas e ningum
pensava em comer, polarizada e anciosa como todos tinham a ateno no
pvido receio de que ao seu simptico hspede houvesse sucedido alguma
coisa... A conjurar os maus fados, a mstica Clia no cessava de
marmotar ntimamente rosrios sbre rosrios de intercessoras preces. E
j o irmo havia feito convocar uma dzia de pees, para que montassem
pronto a cavalo e batessem de roda os caminhos, quando finalmente,
aodado e ofegante, o Silveira apareceu. Entre fatigado e confuso,
desfazendo-se em implorativas frases, em instantes justificaes, em
escusas humildes, contou ento  mesa a sua romanesca aventura. O
pequeno crculo amigo escutava-o num pique de intresse crescente, que
subiu de ponto t assumir os contornos duma enternecida piedade, quando
le, tendo anotado por uma sacudida mmica a rpida e sumria exposio
da luta, se comprazia depois, turbado e quente, na sentida descrio da
sua pequena protegida. Ento os aplausos choveram claros, abundantes,
envolvendo o destemido gal no mais propcio ambiente de favor, de
agrado, de entusiasmo.--Uma aco de cavalheiro! Parecia mandado pela
Providncia ali... Fra lindo!--E com uns grandes olhos pezarosos, as
duas senhoras:--Pobre _chica_! essa... andar assim exposta... E  como
muitos males acontecem... por'mor da necessidade, tantas vezes!--Smente
Jorge, ftuo e incrdulo, punha neste ingnuo crculo a nota
discordante.--_Qu chica_! que perigos, que necessidades! _Pura parada,
zonceras, bromas_ ... Fra um caso trivial aquilo. le estava farto de
conhecer essas falsas virtudes do campo: eram umas sabidonas, umas
impostoras, umas ratas sbias da moralidade, rles virgens de
contrabando.--E como, santamente indignada, a irm protestasse, com
arrogante scepticismo, num risinho chocarreiro o impertrrito censor
desafiava:--Mandassem-na p'ra le, que logo a desmascararia!

No dia seguinte, de manh, correio. Pai Saavedra aguardava com
impacincia os jornais, que deviam j trazer o resultado das eleies em
Buenos-Aires. Confirmava-se a vitria dos socialistas. E desgostado o
bom vlho, depois de lr os nomes dos novos deputados e a crescida cifra
que haviam alcanado no sufrgio popular, disse para o filho e o
hspede, enquanto depunha as lunetas, abanando a cabea com tristeza:

--Acho um mau sintoma... Isto  um contrasenso, um absurdo, frtil em
resultados negativos que breve vo dar o seu pernicioso fruto, ho-de
ver... No faz sentido, no se compreende: uma sociedade minada pelo
socialismo e tda regida ainda por leis gticas e romanas.

Esperava tambm notcias da famlia, de Paris, que havia j tempos que
no vinham. E numa piedosa tristeza, encolhendo os ombros:

--Aquele meu neto! S escreve quando precisa de dinheiro.

Igualmente o Silveira havia recebido correspondncia da Europa, e que de
Buenos-Aires obsequiosamente lhe remeteu o Azeredo. Primeiro, largas
notcias dos seus primos de Tourais, informando-o que aquilo por'li ia
mal... o Douro estava descontente. O vinho todo nas adegas, os preos
arrastados e mesmo assim ningum comprava. Efeito em ba parte da
proteco escandalosa que o govrno da Rpblica continuava dispensando
aos vinhos do sul, que pelo Prto e Gaia entravam descaradamente. E que
os lavradores estavam furiosos, os jornaleiros com fome, os povos na
misria. A continuarem assim as coisas, muito sangue ia correr!
Falava-se em revoluo, e, em ltimo caso, o Norte saberia bem
emancipar-se polticamente dsses soberbos e egostas mandes de
Lisboa!--Todo ste inflamado rol de ameaas o Silveira leu breve e
distradamente, sem dar ao assunto maior ateno, como se se tratasse de
remotas coisas passadas nalgum pas desconhecido. Tinha agora uma carta
do seu irmo Bernardo. Lamuriava a sua falta de trabalho, a ignorncia
rotineira dos lavradores, a descrena e a impiedade corrompendo tudo...
e pedia-lhe dinheiro. Soltou-a das mos com indiferena. A seguir, outra
carta. E le conhecia bem esta letrinha tortuosa e mida, traslado
flagrante do carcter mimalheiro e vibrtil da sua olvidada noiva.--Umas
dzias de linhas lacrimosas, desgrenhadas, lgubres... bagoadas de
nnias e lamentos, amargas recriminaes lricamente contornando, como
lianas de queixumes, todo um florilgio veemente de paixo. E exprobrava
ao seu ingrato prometido essa evasiva hipcrita da sua dignidade em
briga com o seu amor... e que tal amor por ela nunca le sentira... por
isso que o verdadeiro amor  um sentimento exclusivo, dominador
absoluto, que com nenhum outro se compara, de nenhum pode aceitar
limitaes nem sofrer competncias. Vinham ainda solenes protestos duma
vida tda de isolamento, de absteno e renncia, t que o seu amado
voltasse. Aludia-se vagamente ao suicdio...--Porm, ainda na mesma
alheada e fria disposio de nimo, a ateno do Silveira correu ligeira
sbre a enternecida pgina, desviando logo a vista indiferente e
arrojando-a ao lado com tdio.

Agora, um exemplar de _La Razn_, de Buenos-Aires, com um longo artigo
marcado a lpis azul e um bilhetito dentro. Era daquele seu peripattico
scio de viagem, o Ramn Alvarez, que com desbordante ufania lhe
noticiava estar contratado para escrever nesse dirio umas crnicas
literrias semanais que firmaria com o seu pseudnimo de
guerra,--_Carrasco Bossa_. E sessenta _nacionaes_ por cada uma. Bem bom!
A ia a primeira.--O Silveira nem uma linha leu sequr; e v de tomar
por fim a ltima carta,--esta sim! que o fez dobrar-se, nuns grandes
olhos espectantes, e foi logo aberta com o maior intersse. Vinha de
Espanha, tinha o carimbo de Orense. Era um dos seus amigos da fracassada
conspirata monrquica a participar-lhe--que as coisas iam bem agora...
ali trabalhava-se mais  vontade, as autoridades faziam a vista grossa,
les tinham armamento, dinheiro, quantidade de gente instruida. Desta
vez seria a valer! E que estava por pouco sse pesadelo trpe da
Rpblica!--E na sua confiada anteviso do termo breve do seu exlio, do
advento vingador do seu triunfo, o Silveira lia e relia com demorado
calor o sugerente papel acariciado entre os dedos, e um frmito de
incontido jbilo vinha bailar-lhe na aresta dos lbios trmulos.

Mas seguramente aquele era o dia das novidades, porque  hora do _mate_
um inesperado telegrama chegou, dirigido a D. Teresa.--Era Maria
Mercedes que anunciava a sua visita, para a manh seguinte.--Foi todo um
gudio, um encanto, um alvoro, uma festa. Ao mgico influxo da
prazenteira notcia, a arrastada e montona vida habitual da _estancia_
ganhou alento, alma, calor, transfigurou-se. J um spro de cordial
eflvio vibratilizava o ambiente, e as fisionomias tinham um outro ar,
as coisas brilhavam duma claridade nova. E tda a tarde, depois, para
sses reservados aposentos do andar superior um carinhoso movimento
convergiu, de solcitos mimos, previses, atenes, cuidados. Os
serviaes arrumavam, espanavam, varriam, traziam lenis e toalhas,
faziam as camas; Clia foi incansvel na conduo de flores, em sbias
instrues ao pessoal da cozinha; e de sua banda os dois Saavedras, pai
e filho,  porfia volviam a desfiar, cada um por seu modo, os singulares
atributos e as adorveis perfeies da nova hspeda, perante a picante
emoo crescente do Silveira.  noite discutiu-se quem havia de ir 
estao receb-la. Clia e Jorge estavam indicados; porm o Silveira
desejaria acompanh-los tambm, e a dvida era se teria logar. Porque a
_Miqutas_ trazia seguramente a inseparvel Dorita mail'a _niera_: eram
assim ao todo seis pessoas, e o auto no comportava mais que cinco.
Contudo, a momentnea dificuldade comps-se pela desprendida insistncia
de Jorge--em que seguiria ao lado do _chauffeur_.

Na manh seguinte,  hora justa do horrio, o trem de ferro parava em
Chascoms. E na obscura mancha _gris_ dos raros viandantes que saltaram,
v de recortar-se, num forte e eurtmico destaque, a esbelta silhuta
duma mulher redondita e grande, os olhos negros, loira, aparatosa,
avanando com lentido, de cabea erguida e sorriso aberto, na flexuosa
molenta dos movimentos revelando todo um contrno de divindade pag, e
ora amplificada em ademanes de ranha, ora quebrada em mimalhices de
criana. Vestia um singelo traje _tailleur_, de miudito xadrez preto e
branco, gorro de fazenda e cr igual, um tenussimo vu de _foulard_,
preso em duas largas pontas sob a nuca, e luva e sapato branco. Trazia
ao clo um delicioso cosito, de focinho afusado, os olhos como contas
de azeviche e o friorento corpinho por completo forrado no esplndido
_manchon_ natural do seu longo plo, cr de rato. Seguia-a uma criadita
delgada e joven, vestida de negro, com uma menina dos seus 10 anos,
plida e frgil, pela mo.

Logo Clia e Jorge correram direitos a sad-la, e depois das primeiras
acolhedoras demonstraes fizeram-lhe a apresentao amvel do Silveira
que Maria Mercedes acolheu com distrada indiferena. Poucos minutos
andados, instalavam-se todos no auto; no logar de honra,  de saber, a
formosa viva, com um banquinho puxado aos ps e logo uma ffa almofada
trazida para sob a espalda; depois, ao lado, a pequena Dorita e Clia; e
na frente, de costas ao _chauffeur_, a _niera_ mail'o Silveira, que
gentilmente Jorge obrigou a tomar assento junto e _vis--vis_ da sua tam
encomiada prima. Breve, e uma vez o auto em marcha, o dilogo abriu-se,
animado e impressivo, todo neste cortado e vido travamento de
monosslabos em girndolas, curtas frases sibilantes, simultneas e
bruscas exclamaes, atoadas perguntas sem resposta e relmpagos de
inquiries em suspenso, que caracterizam, de ordinrio o primeiro
contacto afectivo de pessoas ntimas, h muito separadas pelo tempo ou a
distncia. Maria Mercedes, naturalmente, dirigia-se de preferncia a
Clia e quando muito, uma que outra vez, ao primo, no se dando conta
absolutamente para nada da presena do Silveira, que frente a ela seguia
apagado e mudo, numa vaga humilhao, o rosto invarivelmente paresiado
numa lrpa expresso de convencional agrado.

Vieram primeiro solcitas indagaes sbre a preciosa sade dos tios
Saavedras; e como corria o tempo na _estancia_, a peonada, as flores, a
vizinhana, as colheitas. Depois, a maligna coscovilhice habitual sbre
o mundo imenso das amigas. Uma viperina reportagem verbal que fazia o
regalo do feitio burlo de Jorge e com que os mesmos piedosos escrpulos
da irm gostosamente se acomodavam.--Trazia-lhes um grande _bouquet_ de
novidades, um punhado de revelaes inditas, imprevistas... Incrvel!
no breve espao de dois meses, que de coisas entre trgicas e patuscas,
se haviam passado. E que imaginassem... A Pilarita Flores, sempre era
certo! rompera o casamento... um compromisso tam antigo... e tam a
fundo. E depois do que se dizia! Agora o noivo, furioso, ia-se fartando
de dar  lngua e o mal no era seno p'ra ela. O puro do escndalo!
Porm outra melhor: aquela sonsa da Marta Wilkinson, a casada,
sabiam?... sempre afinal deixou o marido. Tendo um filhito de seis anos!
onde  que se viu isto? E tudo p'ra juntar-se com sse _farabute_ de
Sottardo... ordinrio, feio, pobre, um rles aventureiro. Fugiram p'r'a
Europa, cr-se; enquanto o marido, deixando o filhito  av, se foi p'ra
Crdoba esconder a vergonha. Porm tam descarados os dois, que, antes de
abalarem, ainda estiveram no _Hotel Majestic_ uns quinze dias, sem
recato, sem mdo, sem pudor nenhum, fazendo pblico alarde da sua
revoltante mancebia... Mas pelos modos aquela gentinha Wilkinson era uma
bem triste famlia! A outra irm de Marta, a mais nova, a morfinmana,
l estava no sanatrio de Rivadvia... Apenas dezanove anos e doida de
todo!

--Uma famlia _cursi!_--sentenceou Jorge com enfado.

E a prima, seguindo rdidamente o seu implacvel relatrio,
acrescentava,--que sempre se confirmavam as escapadas furtivas da mulher
do Santelmo Martinez  _garonnire_ do Avellanoso. E que, pelos modos,
no _hogar_ sem mcula dos Perez se descobrira _recin_ um par de
ilegitimos _polluelos_...

--Perdida gente!--lastimou Clia num compungido suspiro, baixando com
beata compuno os olhos.

--Agora quanto a pequenas notas de ridculo,--continuou a viva, mudando
de tom, num ar mais ligeiro e mais facto,--tenho tambm uma cabazada
cheia. Ai! se fsse a desfi-las tdas... Basta s que vos diga: essa
impostora da Anita Castex h mais dum ano que no paga  modista, porm
manda p'ra l as amigas tdas; as toltas das Molinas, apertadas pelo
cbro de contas que lhes vieram da Europa, tiveram que vender o melhor
das jias e da moblia; o mais assim.--E ao cabo dste regalado _raid_
pelos meandrosos domnios da m-lingua, a aparatosa viva balbuciou com
ar enjoado:--Mas, em suma, sejamos tolerantes, deixar l...--E logo, num
imperceptvel bocejo, com uma adorvel depresso de fadiga:--Mas,  meu
Deus! esta horrvel caminhada no tem fim. Sinto-me fatigada, sabem?

--Como fatigada, _ch?_--levemente trocista acudiu Jorge,--por uma
viagem tam curta? Uma criatura que anda sempre dum lado p'r'o outro...

--Tambm  verdade, sim, viajo muito.--E com um requebrado
suspiro:--Ainda  a melhor maneira de iludir a triste vacudade da minha
vida.

Durante tda essa deliciada sarabanda de sociais mexericos, continura a
marcar zero para a assistncia aquele anonimato humilhante do Silveira.
Debalde le a quando a quando demandava, a que lhe dsse importncia e
valor, o generoso amparo da inocncia, nalgum implorativo olhar
despedido com um sorriso a Dorita, a qual, tda ouvidos s perversas
revelaes da viva, invarivelmente lhe voltava o rosto enfastiado.
Lembrou-se o pobre ento, como ltimo recurso, da bondade infinita dos
ces... e tratava, com timidez, de interessar em seu favor a enternecida
ateno do lindo animalito ali enovelado diante dle, mirando-o com
familiaridade, pedindo-lhe a patita, esboando no ar com a mo em concha
vagos gestos de carinho.

Bateu certo, desta vez, porque Maria Mercedes, sensvel a sse timorato
ensaio de irracional galanteio, j condescendia em envolver a figura
suplicante do Silveira no amavioso crculo da sua ateno e dos seus
conceitos. E coquetona e lnguida, um pouco teatral, continuava:

--Pareo alegre, muita vez...  certo. Das minhas _abrumadoras_ crises
de desnimo desperto sbito, e esqueo-me de mim mesma a inventar
movimento, a organizar festas, diverses, prazeres... Oh, mas tudo puro
engano! No so coisas que brotem c de dentro.  a maneira mundana de
me aturdir... de iludir ste afrontoso tdio do meu viver, entre
sentimentos que me enganam e pensamentos que me aborrecem.

E agora, num atencioso e directo relancear de olhos ao Silveira, com
familiar singeleza:

--Mas eu sou uma criatura feita de contradies... no faa caso do que
eu digo.

Porm o exttico Silveira nem a ouvira, todo preso e incendido na
devoradora contemplao daqueles grandes e divinos olhos, que le agora
pela primeira vez surpreendeu em tda a plenitude dos seus belos traos
fulgurantes... uns olhos clssicamente distanciados, negros, profundos,
e que eram como um ardente cu estival: com relmpagos e sem nuvens.

Ao tempo, do assento da frente, Jorge debruava-se, torcendo a espalda,
para a prima, e ligeiramente irnico, apontando o cosito:

--E que nova raridade  essa agora?

--Ah, e bem raridade, _ya lo creo_!--logo a viva contestou, fazendo de
agastada.--_No lo diga Usted por broma._.--E com intimativa:-- um
autntico _Pomeranian_. Talvez no haja mais quatro em todo o
mundo!--Passou a mo caridosamente pelo felpudo crro do animalito.--Meu
querido _Riddle, verdad_?...--Depois outra vez para Jorge,
naturalmente:--Comprei-o agora, h meses, na minha passagem por Boston.

--Muito caro?

--Cinco mil _dollars_.

--Que coragem!

--Ah, mas fui prtica...--apressou-se em aclarar com ladina expresso
Maria Mercedes.--A emprsa que mo vendeu, segurou-me ao mesmo tempo a
vida dle em igual quantia, por dez anos.

E j ela novamente, com amvel ateno para o Silveira:

--E, diga-me, meu caro, h quanto tempo se encontra na Argentina?

--H apenas dias.

--E que impresses tem?

--Oh, as melhores do mundo, minha senhora!  um pas encantador.

--Cale-se! cale-se!

--E porque hei-de eu calar-me, se digo a verdade?... se eu no vejo por
tda a parte seno a mais deslumbradora e magnfica expanso de cultura,
de actividade, de progresso, de abundncia e de beleza?

--Mau! mau!--tornou graciosa a viva a atalhar, erguendo o brao com
enfado, fransindo o nariz com tdio.--A temos ns que escutar uma vez
mais sse hipcrita e estafado _clich_ de quantos gnios de exportao,
emritos vividores e fracassados socilogos, nos visitam.

--So espcies zoolgicas a que eu me orgulho de no pertencer.

--Fao-lhe essa justia. Mas por isso mesmo lhe peo que, pelo amor de
Deus! no me continue nesse tom incondicionalmente bajulador, que, 
fora de falso e gasto, em vez de nos desvanecer, nos irrita e nos
desgosta... Busque antes ver as coisas como elas so realmente. Fale-nos
da pobreza da nossa pasagem, da monotonia e solido do nosso campo, do
nosso feitio desbaratador e indolente, da nossa vaidade insolente de
_parvenus_, da nossa penria de inventiva, a nossa fatudade, a nossa
ignorncia... a mal alinhavada _pastiche_ da civilizao europeia a que
em ltima anlise se reduz tudo isto.

--Como? como?...--acudiu Jorge, voltando-se brusco, num vivo rebate de
orgulho, visivelmente contrariado.

--Parece-me severo em demasia o quadro,--urbanamente entendeu o Silveira
dever contestar.--O que a vai, minha senhora!

-- prima! isso tambm agora...--ao mesmo tempo protestava Clia com
indignao.

Porm de sua banda a viva, serna, imperturbvel, e seguindo na
solcita catequese do Silveira:

-- que eu desejo que venhamos a ser dois bons amigos, e p'ra isso,
condio imprescindvel, ter que ser sempre franco comigo, h-de ter
opinies suas, pintar-me os homens e as coisas sinceramente. Ter que
ser, sobretudo, original... No lhe quero ouvir baboseiras.

Semierguido e dobrado numa vnia galante, exultante de prazer, com o seu
mais fino sorriso o Silveira aventurou:

--Original?... Numa coisa seguramente eu no poderei s-lo, minha
senhora...

--E ento?

--Na incondicional admirao por si.

Visvelmente lisonjeada, Maria Mercedes cambiou com a prima um
expressivo olhar de agrado; enquanto, num risinho mordaz, o irmo:

--Sempre galantes stes portugueses.

--Aprenda, aprenda...

--Ora! vlhos modismos pigas de h cem anos...--logo o moo argentino
ripostou com desdm; e com desenvolta petulncia rematou:--E qual a
mulher que os merece?

Nesta slta e frvola chalra foram rpido consumindo o tempo; a termos
que j em breve, como de improviso, vinha cortar-se-lhes na frente,
prxima e amiga na infinita rasoira semsabor do horizonte, a torcida e
rugosa carcassa do vlho _ombu_ da _estancia_. Pronto o auto parava
junto ao gasto porto da entrada, onde, comovidamente acudindo, os dois
vlhos Saavedras fizeram  sua hspeda dilectssima a mais efusiva e
carinhosa acolhida. No faltaram c fra os curiosos; bem como dentro,
ao longo do jardim e seguindo pelo vestbulo e pelo _patio_, o grosso
dos serventurios e pees da casa, alviareiros e contentes,
cerimoniosamente alinhados. E por todo sse alvoroado cortejo Maria
Mercedes passou num arrastamento de importncia, meiga e solene,
devagar, entornando graas, dadivando sorrisos, naquele seu ar a um
tempo menineiro e senhoril, com aquele precioso dom de atraco a
distncia de que ela tinha o segrdo.

Todo o almo foi um encanto; e no seguimento festivo da tarde, depois,
a vinha uma incessante, interminvel romaria de bons _paisanos_ dos
arredores, por onde correra boato da chegada da sua grande e formosa
amiga, e que enternecidamente lhe traziam a homenagem das suas
sadaes humildes, concretamente afirmadas por adorveis oferendas de
_pan dulce_, ovos, mel, _biscochuelos_, cabritos, leites, aves e
flores. Sbre o comer,  noite, naquele repousado salo da frente,
recobrou desusada animao a familiar tertlia. Nem D. Torbio pensou no
derivativo soporfero do xadrez, nem tam pouco ao filho acudiu o
emancipador recurso de alguma das insalubres _juergas_ nocturnas. Todos
se sentiam bem, deliciadamente presos na atraente e dominadora presena
de Maria Mercedes, a qual para o jantar fizera grande _toilette_,--com a
farta e ondeada maranha do seu cabelo fulvo contornando-lhe a primor as
tmporas, e contra a nuca aplicada e erguida em roscas petulantes; e
aberto no mais indiscreto decote o ligeiro corpinho, de musselina negra
com vidrilhos, que deixava livre o colo, os braos e as espduas, sbre
cuja redonda nudez uma levssima _charpe_ slta, e negra tambm, movida
ao artificioso capricho das mos da viva, realizava sua tentadora
gimnstica de pecado... ao embevecido Silveira permitindo surpreender,
nos deslumbradores claros dessa mmica perversa, a fluida solidez dos
msculos escorregando, como numa banha de sda, sob a quente alvura da
pele, suavemente... E quando no era a carcia ateniense do gesto, era a
graa mrbida das atitudes, era a iluminada vivacidade da expresso, o
enigmtico ninho de promessas da bca suculenta, a espiritual malcia
dos olhos grandes e profundos, despedindo misteriosas flechas de fogo,
que, quando as plpebras baixavam, parecia que se partiam na aresta
sensual das longas pestanas negras.

A pouco de entrarem no salo, a linda e aparatosa viva, sentindo-se o
alvo comovente das atenes, com marcada complacncia arrastou uns
poucos passos lnguidos, teatralmente, poisando de importncia; e logo
de arrojar-se com indolncia sbre um _fauteuil_, e num ar mimalheiro e
infantil, a cabea froixa, os olhos vagos, achegando ao flanco as
almofadas:

--Ai, mas que bem que eu me sinto aqui! entre pessoas sinceramente
amigas, sem fingimentos, sem peias... e sem cuidados. Como eu vou poder
descansar!

--Ah! ah! Mas descansar de qu?...--cascalhou Jorge familiarmente.

--Com a vida que levas...--ainda a irm dste comentou, sorrindo.

--O qu? vocs pensam que eu na cidade no fao nada?

--Claro! Uma perfeita _haragana_.

--Pois enganam-se! s 7 da manh j eu estou a p.--E ante o sorriso
incrdulo da assistncia confirmou com ardor:--Palavra de honra! Apesar
de ter confiana na _ama de llaves_, passo logo revista  casa tda.
Depois, s 8, vem a massagista; s 9 a cabeleireira e a manicura; s 10
tenho o _desayuno_ e cuido um pouco da _nena_. A seguir, at ao almo,
encosto-me um pouco, isso sim...  uma grande regra de higiene: conserva
o bom parecer e evita a magreza. Mas durante o resto do dia,
naturalmente, depois,  o meu procurador, quantidade de coisas da
beneficncia e uma sca de voltas, compras e visitas. De sorte que assim
 noite, quando acabo de comer, sinto-me fatigada... e a pelas 10 ou 10
e meia, quse invarivelmente, deito-me. J vem...

--Com efeito!--encareceu D. Teresa com agrado.

--Deito-me logo,  certo. Embora s vezes tenha convidados, que todavia
ficam e me desculpam.--E na espontnea demanda do infalvel testemunho
da sua inocente afilhadita, que acabava de entrar, Maria Mercedes
rematou:--Dorita, no  verdade?

A precoce e dbil criana dobrou numa ponderosa afirmao a cabea; e a
seguir, abandonando a boneca sbre uma cadeira, avanou vagarosamente a
acercar-se da viva, a cujo lado, tomando-lhe com ternura a mo, se
enovelou, j com um ar composto e grave de pessoa adulta,--o seu rosto
srio e os pequeninos olhos claros, muito abertos, revelando tda a
acudade mordente da ateno para apreender e quanto possvel assimilar,
no enunciado e na inteno, o desenho sinuoso do dilogo.

Entretanto, com burlona ironia tornou Jorge:

--Pois aqui, querida primita, j sabes... h tambm que trabalhar.

--Pronto!--rompeu, saltando de mpeto, a viva.--Teem programa?

--Espervamos por ti,--aclarou D. Teresa.

--O teu _veredictum_  essencial,--completou pai Saavedra com ternura.

--Bem, pois vamos ento a ver... J pensaram em algo?

De roda abriu-se um claro de silncio hesitante, e houve um tiroteio
mudo de olhares de incerteza. Apenas Clia ousou ento docemente
insinuar:

--H a um assunto, de magna importncia, quanto a mim... Porm todos me
_hacen burla_, _me pelean_, opem-se...

E aquela esquiva e inspida figura desfiou com vivacidade crescente,
perante a ateno tolerante da prima, tda essa magoada histria do seu
desgsto pelo industrialismo, a irreligiosidade, a chateza, a afrontosa
materialidade pag que pesava sbre a _estancia_; e como era vivo, alado
e ardente o seu desejo de ver por fim ste adorado ninho da famlia
posto sob a invocao duma santa padroeira qualquer, ao mstico abrigo
tutelar da divindade. E ainda, por ltimo, esboou e enalteceu, como o
seu nico apoio, a potica ida do Silveira.

--Ah, mas eu acho ptimo!--acudiu com palpitante animao Maria
Mercedes, avanando o busto com graa e juntando e batendo as mos,
crspos de deciso os lbios, os grandes olhos faiscando.-- certo,
sim... Abundo no pensamento do sr. Silveira. Excelente, no h dvida...
Tens razo, Clia! Tens-me a teu lado.

Num perturbador lume de vaidade, logo o Silveira, dobrado em afvel
reverncia:

--Sinto-me deveras ufano por essa sua espontnea conformidade de pensar,
minha senhora.

--Ah, mas no v desvanecer-se demasiado, meu caro amigo! A minha
conformidade no  completa. Um ponto h em que eu peo licena para
divergir...

--E ento?

-- nessa coisa gasta e trivial de azulejos pelas paredes e retbulos
pelas esquinas,--no seu expressivo fransir do nariz respondeu morosa a
viva:--Nada, nada... temos muito melhor!--E ante a suspensa ateno do
pequeno grupo, sacudindo iluminada a cabea, batendo com fra no
joelho:--A santa imagem propiciatria dste logar hemos de a colocar l
fra, no jardim, debaixo do vlho _omb_.

Um eloqente alarme de protesto, um calafrio de indignado horror,
acolheu a hertica audcia da proposta.

-- _Miqutas_, por favor!--censurou, a primeira, D. Tereza.

--Uma rvore condenada, ca, podrida, intil...--comentou o filho com
asco.--Um smbolo de mau agoiro.

--Por isso mesmo!

--A que extremos o prurido da originalidade arrasta por vezes esta minha
ba sobrinha!--com o seu ar mais bonacheiro interveio, sorridente, D.
Torbio, e conciliadoramente:--_Este_... Pois tu no conheces o vlho
adgio crioulo: _rancho con omb acaba en tapera?_... Sabes muito bem
que a _gauchada_ odeia, por tradio e por instinto, quantos raros
exemplares por' ainda acaso existem dste torturado e solitrio
representante da nossa grande flora secular. les teem o _omb_ por uma
rvore presga, abominvel, a cuja sombra sinistra parecem germinar e
medrar a runa, a desgraa e tantas vezes o crime.

--Uma crendice estpida.

--Que em todo o caso existe. Quantas dessas vlhas rvores o nosso
_paisano_ pode impunemente alcanar, sabes que as abate logo a machado.

--E fazem muito bem!--implicativo tornou Jorge.--Se  lenha que nem para
o fogo lhes serve!

--Essa antiga sentinela do nosso jardim deve seguramente a vida ao seu
resguardo,--continuou afvelmente D. Torbio; e com suasiva mansido
para a sobrinha:--De sorte que... _este_... j vs, se ns vamos agora a
pretender nobilitar, a deificar em certo modo, pela tua peregrina ida,
sse precrio foragido do deserto, muito possvel  que ento a bruta
peonada dos arredores, conseqente no seu dio medular, seja capaz de,
por extenso, tomar tambm em averso toda a _estancia_. V l...

--Certo, certo...--cabecearam Clia e a me, num passivo assentimento.

Porm, serena e insensvel, sem se desconcertar, no mesmo convicto ardor
teimou a viva:

--Pelo contrrio!... Essa pobre gente pensa mal?  vtima inconsciente
de niquos preconceitos e crendices absurdas? Pois o nosso dever 
ensin-los, educ-los, esclarec-los... varrer-lhes o intelecto e
aclarar-lhes a conscincia.

--Ests bem aviada!

--Claro que sim! Temos a santa obrigao de abrir-lhes os olhos, de
fazer-lhes bem sentir tda a cega extenso da sua ignorncia e o brbaro
desvio do seu rro.

--Querem l saber!

--Em vez de ser um tema de abominao, o vlho _omb_ argentino merece
bem ser antes um objecto de carinho. H que reabilitar sse veterano
simptico do nosso campo, essa relquia veneranda do passado, testemunha
muda e inocente de tanto sucesso lendrio...

--Eu logo vi...--atalhou Jorge com o seu incorrigvel ar trocista.--Est
sabido. Todos os _ombs_ so lendros.

--Quando no so histricos!--corrigiu pronto, com firme severidade, a
viva. E posta sbito em p, sempre com a mesma incisiva veemncia
levando de vencida a j froixa resistncia do auditrio:--Ora imaginem!
Improvisa-se uma peanha, em cima um nicho a carcter, instala-se dentro
o santo ou a santa... e a temos ns o pretexto para uma interessante
festa nocturna. Vero o efeito. Cai a tudo... vai ser lindo!

E como de roda todos, vagamente sorrindo, se fechassem num silncio que
era uma aquiescncia, ela comandou com alegria:

--Bem! bem! est combinado. Daqui no h que sair. Amanh veremos os
detalhes...--E rematou com deciso, segura j do seu triunfo:--Meus
caros amigos, no h tempo a perder! porque a minha demora aqui vai ser
curta.

Uma aluvio de subitneos protestos choveu da assistncia, entre os
quais era de notar a calorosa insistncia do Silveira.--Que no! no
podia ser! tinha por fra que demorar-se. Adorada por todos como ela
era ali assim! O contrrio seria uma crueldade, seria um crime. Nada!
no a deixariam partir...--Mas a despeito de todo ste adulador incenso,
a mimada viva, com bem dissimulado desgsto, aventurou--que, emfim, era
foroso... A estao ia adiantada, e ela tinha ainda forosamente que
visitar Crdoba, Montevideo, Bahia-Blanca, Mar del Plata.--E
bruscamente, passando a recostar-se numa convidativa e ampla _dormeuse_,
frente a uma janela aberta, e agitando a mo com angstia, queixou-se de
que sentia imenso calor e tinha sde... queria beber alguma coisa.

Logo de roda o pequeno crculo em solcito movimento. Dorita partiu a
correr, a buscar um leque; Jorge improvisou uma ventarola de papel; pai
Saavedra foi estabelecer corrente de ar, abrindo a porta, enquanto o
Silveira abria tambm mais a janela; e D. Teresa e a filha, aodadas e
inquietas, batiam, acamavam o estfo da _dormeuse_, ageitavam a
cabeceira, arredavam as almofadas. Depois, mal o criado de mesa entrava,
trazendo uma bandeja com refrescos, e j era a imediata presena da
_niera_ que a insatisfeita viva imperiosamente reclamava, para que lhe
trouxesse o seu _little Riddle_, que ela sfregamente aninhou no colo,
deliciada a coar-lhe a nuca e a dar-lhe guloseimas.

Ainda a conversa se prolongou por um tempo mais, bordada sbre coisas
vazias de intersse, a termos que por fim Maria Mercedes, erguendo-se e
aconchegando a _charpe_, pediu licena para retirar-se, com Dorita,
dizendo agora que sentia frio. Todos obsequiosamente a acompanharam, ao
longo do _patio_, t  porta da escada para o andar superior. E a, na
carinhosa cauda das despedidas, ela disse afectuosamente ao Silveira,
estendendo o brao:

--Ento, bons amigos, no  assim?

--E aliados!--confirmou le, radiante, beijando aquela mo divina.

E, tda a noite, ste autntico produto da singela e bronca regio
duriense quse no dormiu. A impresso vincada por Maria Mercedes no seu
temperamento clido, na sua apoucada inteligncia, no seu impetuoso e
lmpido carcter, marcra fundo bastante para espancar-lhe o sono e
atear numa viva espertina a arrastada sucesso das horas. No o
fascinra smente o deslumbrador cortejo dos encantos fsicos da
recm-vinda, mas tambm, e de preferncia, a linha sinuosa e complexa do
seu perfil moral. Organismo rico de sangue e pobre de nervos, afeito s
aventuras fceis, esperto e fanfarro batedor na caa dos simples amores
campesinos, o impressivo desenho desta figura requintada e esfngica
desnorteava-o. At quele momento le no lidra, mais ou menos, seno
com mulheres dum crte definido, compreensveis, sinceras, claras como o
azul matutino do cu e a gua cantante das ribeiras. Ainda agora aqueles
seus dois ltimos conhecimentos, durante a viagem,--a esquiva Irene
dentro do seu espiritual alheamento, a provocante _Mrs._ Edith embiocada
na sua sbia impostura,--mostraram contudo logo o que eram, foram sempre
lisas, coerentes, lgicas consigo mesmas. Porm Maria Mercedes, no! Era
uma criatura embricada, enigmtica, temvel... estava a ver. Cheia de
mimalhices, caprichos, alternncias, brusquerias, entusiasmos, tdios.
Um diablico e indecifrvel novelo, um problema estonteante. Queria
investir com ela e tinha-lhe mdo! Era um abismo de sedues e um
torvelinho de mistrio, que ora lhe inflamava o instinto ora lhe
acobardava o desejo. E--coisa interessante, rara tambm e para le
inexplicvel,--a cada momento, a cortar suavemente a angustiosa dvida
do seu querer, nos mais agudos instantes desta sua obstinada devassa
interior e pelo mais adorvel dos contrastes, vinha e debuxava-se-lhe na
vaga penumbra do aposento, sobrepondo-se  turbadora imagem da viva, em
claros benficos de repouso, a figura mansa e rstica da sua confiada
amiguita da antevspera, Lusa, a linda morenita, na mesma apostura
silenciosa e humilde, na mesma inrcia contemplativa, na mesma frescura
moral de clara fonte, iluminada de ternura ingnua... e na amaviosa
concha do seu olhar, cheio de fogo latente, envolvendo-o, calmando-o,
dominando-o... merc dsse irresistvel poder das mulheres suaves e
tristes, quando rogam mansamente.


Na rpida sucesso dos dias, depois, no perdia o nosso atolambado gal
o mnimo ensejo em que acercar-se pudsse da viva, a procurar tornar-se
insinuante, familiar, prend-la ao seu convvio. E buscava ardilosamente
captar-lhe a ateno, na impossibilidade manifesta de lhe falar ao
desejo. Ao mesmo tempo arriscava tda a sorte de tmidas, de insidiosas
inquiries sbre o problema mordente do seu passado.--Uma mulher assim
devia ter crnica!--A cada momento esboava interrogaes e bordava
conjecturas sbre os ignorados antecedentes, sem dvida invulgares,
daquela vida. Preocupava-o rdidamente o mistrio desta estrangeira
nascida tam longe dle, e cuja existncia,--estava-se a ver,--teria
porventura sido demasiado vaga e errante para que le jmais pudsse bem
conhec-la.

Algumas vezes D. Tereza veladamente lhe insinura,--que a sua pobre
_Miqutas_ no fra nada feliz com o casamento. O deslumbrado Silveira
no queria crr... Jorge, o seu confidente natural, discretamente e de
pausa lhe ia tambm relatando um que outro pormenor, avanando um
detalhe, sublinhando uma anecdota; e, na crdula cegueira da sua
admirao lamecha, cada nova revelao sempre o Silveira aproveitava
para desatar-se em hiperblicas fantasias, cuja asa de oiro logo o amigo
prosaicamente lhe cortava, por um episdio trivial ou um comentrio
trocista. Foi assim que, uma tarde, sentados os dois naquele aconchegado
rinco do _patio_, junto ao comedor,--e porque, incorrigvel, o Silveira
voltasse ao seu panegrico optimista sbre as sublimadas perfeies
dessa criatura de deslumbramento e de sonho, que merecia mais que um
trono... um altar,--ainda uma vez com inflexvel frialdade tornou a
frisar-lhe o amigo:--que todavia ela no era, nem fra nunca, feliz. E
que poderia bem t-lo sido... com as paixes loucas que inspirou, com os
belos pretendentes que teve! Pelo desespro uns levados ao suicdio,
outros  loucura, outros  ruina. Ele j sabia. E que afinal...

--Afinal...--recalcou o Silveira com ardor,--sempre teria sabido
escolher um marido digno dela. Se  que semelhante prodgio era
possvel!

--Que prodgio! Nada disso! Pelo contrrio... Muito mais vlho...
_camorrista_, devasso e jogador. Comparado com ela, um perfeito
estafermo!

--Bem! mas ao menos morreu... Est livre dle!

--Morreu... E por que forma?--balbuciou Jorge, fazendo uns olhos de
piedade, com uma custica expresso de enfado. E por fim, ante a
suspensa e mortificada ateno do amigo:--Em casa duma amante... duma
apoplexia.

O Silveira fez-se plido, corrido por um frio interior de njo e de
revolta. Porm Maria Mercedes, que passava na ocasio e aprendera esta
pequena aresta de dilogo, acercou-se, mansa e familiar, dos dois
amigos, e com uma adorvel resignao, quse infantilmente:

--Ah, mas por'mor de Deus! Meu caro amigo, no me lastime. Eu
relativamente estimei... Poupou-me o desgsto de o ver morrer.--E logo
com desenfastiada naturalidade, derivando:--Mas dispensem-me, sim?...
Vou escrever p'r'a capital, quero ainda aproveitar o correio de hoje.
Vou mandar uma carta cheia de minuciosas instrues a sse santeiro de
_calle_ Suipacha, sabem?...  a encomendar-lhe uma grande imagem da
nossa futura padroeira, a Senhora da Conceio. Escolhi bem, no lhes
parece?... Ela  o santo smbolo da fecundidade e da pureza, e portanto
o mais condizente escudo e o mais fiel espelho desta manso exemplar da
abundncia e da virtude.

E, feita uma ligeira vnia, ei-la que retoma a andar, naquele seu
estudado ademan de requebrada e ondeante majestade, a fugida asa dum
sorriso a encrespar-lhe os grandes olhos cr da noite e a adejar nos
lbios nacarinos.

--Divinal mulher!--murmurou, posto em cmico xtase, o Silveira.--Como
diabo foi ela tomar um animal dsses p'ra marido!?

--Sei l!--redarguiu Jorge, num risinho scptico.--Coisas de mulheres...
Ela diz que foi por amor ao paradoxo e umas tantas _pavadas_ por ste
teor. Mas no! quanto a mim, foi pura questo de vaidade. _Se le ha
puesto entre cojas_ dominar, moralizar, regenerar sse salafrrio. _Pero
se ha embromado_.

--Com o que nada perdeu, no fim de contas.

--Ah, no seguramente! Ao contrrio, com mais sse pequeno escndalo o
seu nome no fez seno ganhar em fascinao, em poder, em comovido
intersse e mundanal prestgio.

Abroquelada na sua individualidade melindrosa e rebelde, Maria Mercedes
nem a todos os preceitos se amoldava daquele salutar e primitivo viver
da _estancia_. No lhe importavam passeios, temia as caminhadas,
envolvia no mesmo abandno de fastidiento desdm a barulhenta bisarma
das instalaes industriais e o manadio disperso da riqueza pecuria.
Substancialmente, a rude movimentao, o giro spero e forte da vida do
campo, repugnavam-lhe. No seu temperamento subtilizado e mrbido essas
cruas batidas de ar e de luz feriam reaces bruscas, violentas, quse
dolorosas. Despertava, erguia-se cedo; porm de ordinrio, antes do
meio-dia, ningum conseguia v-la fra do quarto, sucedendo-lhe repetir
amide que de manh no era mulher p'ra nada. Antes daquela hora
apenas condescendia em sair dsse inviolvel reduto, quando muito, a
_niera_, a arejar o _Riddle_ e a passear Dorita. Maria Mercedes apenas
uma vez acedeu a dar um passeio matinal, a cavalo, na companhia de Jorge
e do Silveira. Mas baldadamente ste depois, em vrias dulcerosas
investidas, tentou persuadi-la a que lhe fizesse a fineza de repetir, e
desta vez com le s, o sacrifcio... todo na saborida anteviso dum
aventuroso idlio. Nada alcanou. Fra uma faanha sem exemplo.

Pelas tardes, sim, era a bela viva a primeira na actividade, no
bom-humor, na alegria. Fazia largos e piedosos percursos, ento de
ordinrio companheira inseparvel e gostosa de D. Tereza no seu
esmoltorio desporte pelas redondezas. E em seguida, s noites, no
salo,--aonde sempre acudia uma ou outra famlia vizinha,--era ainda ela
o prestigioso centro das atenes, o fulcro espiritual do dilogo, neste
mrno e sossegado ambiente, sentindo-se na posse plena dos seus nervos e
em todo o facetado fulgor do seu esprito.

Ao cabo duma semana, por uma nublada manh, pesada e ardente, chegou
Belisrio Ruiz. Exceptuando por parte de Clia, teve sua consabida
recepo de agrado. Maria Mercedes acolheu-o com afabilidade e
festejava-o, judiava-o, apurava-o muito, merc desta liberdade inocente
que a intimidade nos traz e um largo conhecimento. De sua banda porm o
Silveira entristeceu e alarmou-se, por uma apreensiva retraco do
instinto.--Ganharam ento em colorido e intersse as familiares
tertlias da noite, agora de ordinrio bordadas sbre assuntos mundanos,
em que a desabusada _verve do recm-vindo_, no seu arrastado ar _blas_,
intercalava amide a nota picaresca ou o comentrio equvoco. Era sem
fim o rol que, a propsito, este pndego contumaz se comprazia em
desfiar, de casos escuros, anecdotas picantes e grotescas aventuras,
fruto da prpria experincia umas, outras colhidas naquele seu fcil e
slto passo pela vida fra. Ento no raro aconteceu, quando o dilogo
assumia um cariz algo _verde_, a meticulosa Clia erguer-se e sair,
dissimuladamente. E uma noite pai Saavedra, bonacho alegre, no seu
adorvel espanto infantil, exclamou para Belisrio, batendo galhofeiro
os braos, os pequeninos olhos verdes hmidos de riso:

--Mas que coisas com que ste homem nos vem! _Chacotn_! Onde demnio
vai voc saber tudo isso?

--A teem!--acudiu com intimativa a viva, sbito erguida da sua
apostura indolente.-- o que se ganha com as viagens. ste senhor tem
viajado muito, como eu. Faz bem... O que a gente v, ouve, sente,
adivinha, ausculta e aprende!... So um grande e divertido
ensinamento.--E num suspiro lnguido, recumbida e mole novamente:--Quem
me dra ir j por' fra outra vez!

O Silveira esboou um convicto e mudo assentimento; e carinhosamente D.
Torbio:

--Sempre viajar! sempre viajar! Nunca te fartas...

--Que querem? sou assim...  da baralhada essncia do meu sangue.
Imaginem; minha me era uruguaiana, minha av italiana, meu av alemo,
meu bisav norte-americano... Com uma ascendncia assim, que outra coisa
poderia eu ser seno uma incorrigvel vagabunda?

--Deves ter amor  tua terra.

--A minha terra?... Sei l qual !

--No digas isso!--acudiu a gorda e macia D. Teresa, estremecendo e
erguendo com horror as grossas palmoiras  tinta industrial do cabelo.

Porm a viva, quente, imperturbvel:

--Ah, isso  que eu digo, minha querida tia! perdoa-me... Porque no h
razo nenhuma, porque eu no sinto o menor movimento de alma, nem
conheo qualquer forte fundamento exterior que me leve a prender-me ao
torro onde acidentalmente nasci.

--Deves querer mais do que tudo  tua ptria--severo reprimendou Jorge.

--L vem, l vem o consagrado chavo! a linda e convencional
mentira!--pronto a viva contestou num alto desdm burlo; e a seguir,
fransindo o nariz, doutoralmente:--Isso de ptria  uma antiga inveno
dos ambiciosos e dos dspotas, para por meio dela escravizarem ainda
mais a rcua desprezvel dos humildes; para faz-los pelo corao
tributrios dos seus domnios, e cegos no deslumbramento dessa patranha
sublime, jungi-los e arrast-los ento irracionalmente, como mquinas,
no carro devastador das suas conquistas, aos grandes actos de herosmo
colectivo e annimo,  abnegao,  intrepidez, ao sacrifcio,  morte.
Sempre assim foi... Neste ponto a estratgia dos grandes mandes 
invarivel assim como a passiva estupidez dos que lhes obedecem 
infinita.

--Ests-te excedendo, filha!--atalhou com sincera indignao D.
Torbio.--Nem pareces argentina!

--No sei o que pareo, nem me importa! O que eu sei, o que eu sinto
muito bem,  que a noo de ptria  uma concepo tacanha e absurda. Os
mais, num blco unnime, protestavam; e ela, com vivacidade
persuadente:--Pois se a terra, na origem, na essncia e no destino, 
tda igual! Ento os senhores no vem que tudo quanto h de perdurvel
e transcendente neste mundo, as grandes invenes, os grandes ideais, os
grandes sentimentos, so de carcter universal? Pois no  certo, que
para que uma obra da literatura ou da arte alcance a consagrao eterna,
ela h-de romper o mbito estreito do regionalismo e alar-se 
objetivao sinttica de algum dos grandes movimentos comuns a tda a
humanidade?

--Diz muito bem, minha senhora!--apoiou com irnica veemncia o
pequenino e glabro Belisrio.--A ptria de cada um  onde melhor se
encontre e melhor possa governar a vida.--E logo, com um ar ligeiro e
brinco, a desfazer a chocante heresia do conceito:--Eu c, por
temperamento e por inclinao... seria turco.

A seguir, volveu a informar-se com mais detalhe das diverses que havia
planeadas. Queria, em suma, saber o que a esperta inventiva de tam
preclara gente havia concertado para colmar um pouco o tedioso vcuo da
prosaica vida do campo. Falaram-lhe na projectada festa ao _omb_; na
benta iniciao da _estancia_: achou plebeu, pueril, ingnuo. Para o dia
seguinte havia uma _doma de potros_, aguardada com impacincia pelo
Silveira; porm seguramente as senhoras no iriam. Maria Mercedes no se
conformava, no podia suportar esse espectculo, que ela reputava em
extremo repugnante e brbaro, bestial. Redondamente opunha-se. Belisrio
pediu licena para discordar,--pois, pelo contrrio, essa primeira
brusca e sbia investida do homem com o irracional era a mais linda
lio de coragem, de inteligncia, de destreza e de fra; era um belo
torneio para cujo completo realce, como em Espanha nas toiradas, se
tornava indispensvel a presena e o aplauso da mulher, que  a suprema
encarnao da beleza. E a poder de dulcerosas instncias, de ardilosas
lisonjas e vivas frases sugerentes, o meliante conseguiu o assinalado
triunfo de conquistar a aquiescncia difcil da viva, a qual por fim,
reptada a que declarasse formalmente se estava, ou no, disposta a
acompanh-los, prometeu que sim!

No dia seguinte, s primeiras horas da tarde, a alegre caravana em
movimento. Houve que fazer uma longa hora de caminho, sob a pantalha de
oiro do sol, delidos na rasa imensido implacvel da planura. Pela
angosta e rudimentar carreteira, ou triturando aquela imensa alfombra
verde, o auto seguia tombeando e oscilando, numa cautelosa marcha de
incerteza, moderadamente, erguendo rolos de poeira ofegante, ladeado
pelas donairosas figuras do Silveira e Jorge, que galopavam 
estribeira. E agora alcanavam uma larga mancha de terreno pastoso e
lamacento, onde, a um lado, se aglomerava uma encantadora mlhada de
eqdeos, bravos, garbosos, finos, com o ar surprso e selvagem, a sua
insofrida disperso contida pelo disciplinrio esfro de meia dzia de
_gauchos_ montados, speros e duros de roda circulando. Um outro grupo
interessante se notava, de bruta peonada, de chinerio nativo, de
carripanas, cavaleiros, de rotos, mulheres e crianas, todos num
empilhamento do intersse contornando daquela arena de acaso o piso
brando e revlto, o vago e amplo recinto. Fra, na lisa nudez da campina
e a pequena distncia, uma ba fogueira ardia, chispando estabaredas.
Preparava-se nesta improvisada cozinha rstica o clssico e delicioso
acepipe de _asado con cuero_.  mngua de lenha, o fogo era alimentado
por tda a sorte de detritos orgnicos: destroos de moblia, flhas
scas, farrapos, palha, ossos. Pelo espiralado intervalo entre duas
lnguas de lume apercebia-se uma caveira oblonga, na rubra ardncia do
braseiro luzindo a sua lgida alvura, macabramente. E naquele justo
momento um vlho peo surdia, ajoujado ao pso duma perna de cavalo, j
em parte putrefeita, e que ao ser arrojada ao fogo, dsse calcinado
monte de impurezas fez erguer uma labareda de fumo gordo, negro e
nauseante.

Na parte reservada do recinto, havia sido batida  pressa uma tsca
bancada de honra, destinada aos recm-vindos. Mas dste primitivo
instrumento de relativa comodidade apenas Belisrio e o vlho Saavedra
se utilizaram. As senhoras preferiram manter-se furtadamente a
distncia, empalancadas no seu auto. Jorge e o Silveira haviam-se logo
apeado, e acercaram-se ligeiros da manada.--E j agora a um sinal dado,
um galhardo moceto no mesmo sentido avana, e, despedindo certeiro o
lao, colhe pelo pescoo e arrasta at meio do terreiro um dos pobres
animais, que da a instantes, enfurecido e trmulo de espanto, sente
tambm, por meio de novas voltas de lao, irremissivelmente presos em
ns de cordas os quatro membros. Ento, um simples estico dado s
prises, sacudido e forte, rompe com o precrio equilbrio da vtima,
que tomba em pso sbre o slo, em risco de se lhe deslocarem as
articulaes ou partirem os ossos. E a se precipitam logo sbre o
assombrado ptro, que, louco de terror, se debate froixamente, quatro
espertos matules, a segur-lo e a enle-lo mais forte, por meio de
consabidas travas, t que o imobilizam por completo. Outros lhe sucedem
neste anacrnico e despiedado exerccio, e que, ajoelhando e abatendo-se
contra o indefeso quadrpede, encapuzam-lhe a cabea, passam-lhe o
brido e aplicam-lhe num momento a sela (_el recado_) cilhada
dstramente. J no h receio agora de que o abatido animal possa
escapar-se; a complicada rde de cordagens desembrulha-se, escorrega,
afroixa e deslaa mansamente; e o ptro pode, emfim, cego e aturdido,
erguer-se, mal conseguindo firmar os ps naquele terreno falso e mole,
adrede escolhido, e com as duas mos,  cautela, tomadas ainda por uma
ltima laada. E quando o peo destinado a mont-lo intervm, num pulo
salta para a sela, a derradeira priso desata-se, e le a larga a
montada na sua frente a correr e a coucear desapoderadamente, colado e
cingido com ela como um centauro, tendido o busto em flecha, os olhos em
fogo, e incansvel e duro o brao fazendo rodopiar o _rebenque_ em
crculos de ameaa. Flanqueiam-no, a enquadrar a corrida, dois outros
cavaleiros brandindo tambm chicotes. E os trs aventuram-se nessa
desenfreada carreira buzinando uma gritaria doida, descompostos em
pragas, urros, vociferaes, soltando uivos de bstas-feras, que pem o
plo em p aos atnitos poldros da manada e que a rta chusma dos
assistentes acompanha, delirando, num concertante infernal, num alto
cro selvagem. Corridas assim umas centenas de metros, o estupefacto
cavalo estava cansado. Tolhido de assombro e de pavor, apequenava,
submetia-se. E estacava a intervalos, colhido todo numa atitude de
abandno e doura que tmidamente exteriorizava a sua veemente
solicitao de, emfim, parar... Trazido ento ao ponto de partida e
renovada a brutal carreira, j le pronta e resignadamente obedece,
abdica da vontade e est rendido  discrio do algoz.

Entretanto o Silveira, que seguira ste brbaro entremez com empolgador
intersse, movia-se nervosamente e dava rebarbativas mostras de
impacincia, de desagrado, quse de indignao, as quais pela estranheza
alarmaram a ateno de Jorge. Aquele, porm, rasgadamente
explicou-lhe,--que achava excessivo, desnecessrio, estpido! Animais
nobres e inteligentes como aqueles no se tratavam assim. No podia ver
semelhante coisa!--E enquanto o amigo, com um risinho azdo, procurava
aplac-lo, foi o segundo ptro trazido ao castigo. Este porm, altaneiro
e vibrtil, sau mais rebelde: s ao cabo de quatro corridas se deu por
vencido. Veio depois o terceiro, que teve que ser logo retirado da
arena, porque, abatido sbre o ldo desastradamente, rompeu um quadril.
O Silveira no teve mais mo em si. Avanou com deciso e reclamou alto
que lhe permitissem domar le o ptro a seguir.--Havia uma outra maneira
de fazer aquilo, mais suave, mais racional, mais humana. Iam ver!--De
roda foi um espanto. Pela grossa corda do populacho passou uma oscilao
de pasmo e de surprsa; havia burdas interrogaes em suspenso,
esboavam-se atitudes de achincalho, de desdm, de irritante desafio, de
malcia perversa, e a sua bronca expresso abria-se em risinhos
alvarmente incrdulos. Belisrio ps-se de salto em p. Pai Saavedra
protestava, em repetidos gestos de negao, agitando com veemncia os
braos. Da apartada altura do seu reduto, D. Teresa impava ofegante,
Clia e Maria Mercedes taparam o rosto com os leques, aflitivamente.
Apenas Jorge, por um simpatismo viril, apoiou a atrevida solicitao do
amigo.

E foi o bastante.--O quarto paciente veio ento, e, em meio da ansiedade
geral, os pees da manobra permaneciam quietos e a distncia, esperando
instrues, de olhos fitos no Silveira, o qual lhes ordenou que,
mantendo por enquanto o prisioneiro enlaado, apenas, mais, lhe
prendessem as mos. A seguir, le mesmo se acercou e investiu, entre
duro e afvel, com o animal, que todo ruflando de temor, assombrado e
arisco, reagia a patadas. gil e precavido, porm, o Silveira furtava-se
a tempo e logo voltava, numa polarizao empolgante de todo o seu ser, a
defrontar-se com sse trecho vivo de natureza em bruto; olhava-o firme,
rodeava-o e cingia-o, dstro, incansvel, ameaando, bradando,
rojando-se, saltitando; envolvia-o num mgico crculo de dominadora
astcia, ora atrando-o por interjeies familiares, ora de escape
afagando-lhe o pescoo, ora tocando-lhe a garupa com o chicote
levemente. Feito assim um pouco o conhecimento com a sua indmita
montada, foi le ainda quem lhe vendou os olhos, o enfreou e lhe atirou
pronto a sela para sbre os rins, afivelada num relance. Novos afagos
agora, mais permitidos, mais claros, mais seguros; em seguida faz sinal
 peonada que solte as prises; e num intrpido salto ei-lo aronado
slidamente contra o espavorido drso do animal em fria. H ento uns
breves, absorventes minutos de ansiedade e de luta:  a consumada
maestria, a serenidade, a destreza, a forte musculatura e a vontade
indomvel do cavaleiro, em decisivo duelo com o desordenado furor do
ginete, que, sob a presso exasperante daquela formidvel tenalha de
ao, se dispersa em esforos inteis, encabrita-se, escouceia, escarva,
atira upas, sacode a espinha, curveteia, bufa, geme e tressua,
inelutvelmente. Depois, quando o Silveira teve o seu domnio eqestre
por assegurado, despediu tambm o ptro a galope, mas no cega e
irracionalmente, como os dois anteriores, antes forando-o a seguir, no
mesmo andamento sempre, em dadas direces, manejando-o e dominando-o a
seu bel-prazer, obrigando-o at ao cansao... e assim conseguindo por
fim traz-lo a fazer o vitorioso circuto do terreiro, ante a
estarrecida imobilidade da assistncia. Ento, tranqilamente, apeou-se
e abandonou as rdeas ao cavalo, que, sem o mnimo assmo j de
emancipao ou de revolta, pelo contrrio, deu em seguir espontneamente
na esteira do seu hbil domador, manso e humilde como um podengo, os
flancos molhados, estirado e murcho o pescoo, e o focinho arquejante a
acariciar-lhe a espalda, que ia deixando mosqueada de baba
sanguinolenta.

A tda a volta estrondeou uma tropeada de aplausos delirantes, que o
Silveira, altaneiro e frio,--e enquanto, tirado o _chambergo_, enxugava
o suor,--agradeceu escassamente. Correu a abra-lo com admirativa
efuso o reduzido grupo dos amigos. E, como ldimo arauto da multido,
um veterano _gaucho_ se adiantou gravemente, batendo os espores
farfalhantes, de rosetas como sis, e depois duma rotunda sadao
estendeu-lhe com solenidade aos ps o _poncho_, por esta rstica
homenagem fiel intrprete da consagrao indgena ao seu triunfo. Neste
fremente e alto cro apotetico Maria Mercedes smente fez excepo.
Quando, na quente raaga ainda das ltimas ovaes, o Silveira demandava
com ingnuo alvoro o seu aplauso, ela acolheu-o com reserva e
festejou-o parcamente; e insensvel a tanto prestgio, num deliberado
propsito de afastamento, de frialdade, de indiferena, todo o resto da
tarde, depois, e ainda ao jantar, e pela noite adiante, foi para o
burlado vencedor, de poucas horas antes, dum cerimonioso alheamento e
duma secatura implacvel, naquele seu ar distrado e enfadado mantendo-o
a inexorvel distncia... Ao passo que, com uma _coquetuela_ vulgar, se
desentranhava em atenes, galanteios, donaires, mmicas de seduo e
adorveis preferncias para com o atnito Belisrio, que, exultante e
feliz, na inverosmil radiao do seu espanto, tinha a prga lvida das
plpebras aquecida por um riso desvanecido e amide passava ufano pela
calva precoce os dedos trmulos.


Na breve e jocunda sucesso dos dias, depois, foi preocupao dominante
a preparao dsse festivo programa para o baptismo religioso da
_estancia_. Maria Mercedes era a incontestada Egria do movimento.
Tomada de iluminado e impressivo entusiasmo pela realizao da sua
grande ida simblica, tudo ela ardida e metdicamente concertava,
planizava, distribua, tudo ordenava e impunha, no inflexvel dogmatismo
derivante do seu prestgio, com uma impetuosa tenacidade que fazia o seu
prprio espanto e era o acendrado regosijo do squito amigo.
Invarivelmente ela agora, com uma pontualidade burocrtica, logo s
primeiras horas da manh descia ao seu escritrio de ocasio, instalado
na biblioteca, e a, mais ou menos, trabalhava indefssamente o dia
inteiro. Sob a sua imediata inspirao, em grandes flhas de cartolina,
Belisrio riscava escalas, fazia alados, crtes, projeces, esquissava
planos. De funes mais modestas, o Silveira secretariava, anotava o rol
das despesas, expedia as requisies, fazia a correspondncia. Jorge
comunicava as ordens e distribua o servio directamente pela famulagem,
e era a pessoa indigitada para trasladar-se  capital, dada a hiptese
de alguma misso de confiana. Por sua banda pai Saavedra, atenta a
relativa invalidez prpria da idade, e bem assim a mulher e a filha,
tinham a incumbncia de fazer da estranha e inusitada festa, pelo bronco
populacho dos arredores, uma elucidativa e suave propaganda. E ao
auspicioso gesto e sob o alado impulso dessa fada irresistvel, todos
trabalhavam com ardor, acrto, deciso e entusiasmo igual. E era de ver
como esta imprevista intromisso de trabalho ligeiro e jovial na grossa
labuta habitual da _estancia_, longe de destoar, por inecessria e
ftil, em vez de lhe trazer qualquer ralento dispersivo, antes ao
contrrio com ela se enquadrava idealmente, e como que insuflava um
protector alento de consagrao espiritual a todo sse utilitrio e
rasteiro desparramar de produo e de vida.

Ficou assente que, na manh do santo dia aprazado,--um domingo,--se
procederia  bno da imagem votiva da Virgem, padroeira futura da
_estancia_; pela tarde seria a sua conduo processional t ao
estilisado nicho erguido ao abrigo da umbela majestosa do venerando
_omb_;  noite, iluminaes, fogos de artifcio, arraial e grande
concurso cosmopolita de canes e danas populares, com prmios em
dinheiro, instrumentos agrcolas, _registo_, _vernicas_, viandas e
guloseimas. A primeira notcia da sagrao da _estancia_ tropeou
naturalmente num ambiente hostil, quando comeou de circular pela
redondeza. Contra a sua realizao o cego rotineirismo e os atvicos
preconceitos dos naturais ergueram-se em alvoro, por um supersticioso
alarme sacudidos no seu torpr de sculos.--Que peregrina ida era esta
agora de trazer santos de igreja p'r'ali? e p-los, p'ra mais, ao abrigo
dessa odiosa rvore de desgraa e de runa? Era uma heresia, um absurdo,
um desafio sacrlego ao Cu. Podia redundar em azar p'ra todo o campo em
roda... Era uma iniqidade mais dsses abominados senhores do vlho
tempo, que no podendo j priv-los da liberdade, vinham afrontosos a
derrumbar-lhes as crenas. Seria uma calamidade.--Era assim como s
tardes pelas _pulperias_, nas recolhidas horas da ssta,  roda
vinolenta do balco e de mesa para mesa, de grupo para grupo cortando a
cada instante o giro vago da conversa, chispavam vivas e inflamadas,
quse unnimes, as frases de acre censura, os votos de protesto, os
conclamas de revolta. E tambm pela calada cmplice da noite, no
ignorado mistrio de alguma _tapera_ distante, maus elementos campesinos
havia que, incitados pelos raros _montoneros_ e _churriadores_, corriam
a renir-se em clandestinas conspiratas, e ferozes e estpidos, o pulso
peludo apertando o _machete_ vingador, a tramavam desforos violentos,
represlias subversivas; por fim, concordes em que uma soluo radical
seria assaltarem de golpe o jardim da _estancia_ e abater pela raz,
destroar, fazer em fanicos o fatdico e arrogante _omb_... redonda,
rasamente.

 medida porm que, na _estancia_ metamorfoseada como por encanto, as
linhas ornamentais se erguiam e no ar doirado se debuxava o anncio
jovial da prxima festa, paralelamente, todo aquele fermento de rebelio
latente se apagava e se sumia. Vinham os bravios conspiradores da
vspera, e, ante a evidncia promissora do facto, grado a grado
capitulavam, imobilizados primeiro numa paspalhice alvar, curiosos e
interessados a seguir, e por fim levados de vencida nessa onda
estonteante de alegria. A realidade sugerente do prazer tinha nas suas
almas rudimentares e famintas maior efeito que a catequese terica dos
Saavedras. O certo foi que, por virtude do capricho inventivo de Maria
Mercedes, a patriarcal _estancia_ agora perdera todo o seu ordenado e
pacato aspecto antigo. A cada momento ali um afadigado enxame de
obreiros voluteava incessante, no s fra, pelas imediaes, formigando
em manchas de atento e aplicado ardor, como tambm, do gradeado a
dentro, pisoteando os tenros canteiros do jardim, revolvendo do _patio_
a lisa areia, invadindo os quartos, encostando escadas, verrumando,
parafusando, martelando, encavalados pelas paredes, debruados da
_azotea_. Esta sua dispersiva nsia de movimento a cada passo era
cortada pelo pejamento inerte duma abundante farfalha industrial:
tubagens, cordas, arames, ps, alvies, pras elctricas, chumbo em
blco, ferros em brasa, metais luzentes, destroadas rumas de barricas e
caixas de lata estripadas. Sobrelevando aos prosaicos rudos habituais
do recinto, de tda esta batida sonora soltava-se o ritmo sadio e
folgazo dum como cntico de vitria. E do mesmo passo a me-terra
aparecia tda fendida e revlta, cortada em tdas as direces por uma
anastomose de sulcos ridentes e hmidos, aberta com prodigalidade em
ruturas serpeantes,--o que fazia o infantil regalo de Dorita, todo o dia
rojada sbre a frescura plstica do slo, embodegada e suja, a fazer
casitas.

Para a limpa execuo dsse trabalho delicado e novo, tinham vindo da
cidade carpinteiros, sambladores, polidores, torneiros, electricistas. E
a favor do tempo se foi a garrida e abundante decorao gradualmente
definindo.--Uma cerrada fieira de lmpadas contornava nas suas linhas
essenciais a arquitectura sbria da residncia, correndo em dupla fita
ao longo da cornija, cingida aos relevos terminais do _hangar_,
marinhando em hlice pelas colunas. Uma espelhada cinta idntica de
vidros coloridos rodeava por inteiro o gradeamento alto do jardim, e
pelo interior dste, depois, em caprichosa profuso seguia a circutar e
a derramar-se em lacetes numerosos, riscando troncos de rvores,
desenhando globos, estrlas, rendados, franjas, vestindo e pintalgando o
ripado fresco dessoutra floresta de gongricas pirmides que em farta
sementeira se escalonavam pelo recinto. Havia mais, ali, de rvore para
rvore, de poste para poste lanados com elegncia, grossos festes de
buxo e sanefas berrantes de papel de cr; e na inefvel palpitao do ar
batia uma alacre trepidao, compacta e esplendente, de emblemas
religiosos, de laos, flores, _pompons_ e bandeiras. Fra, pela
intrmina expanso do campo, alinhavam-se extensas fiadas de tarimas
tscas, feitas em madeira clara e resinosa, adrede improvisadas para que
 epicrea onda da multido elas pudssem ser, cumulativamente, fcil
estendal para a comida e cmoda estncia de repouso. E no ponto
culminante, ao alto, protegida pela enramalhada concha, tda em
torciclos gigantes, dessa atormentada rvore secular, j nos ltimos
dias luzia suas inditas galas um lindo nicho baldaquinado, em
equilbrio sbre um alto lenho prismtico, tombado ligeiramente,  moda
veneziana, e entalhado em duro roble, com porta de cristal e um rico
lampadrio de bronze  frente suspenso.

Esse aprazado domingo amanheceu, por sorte, um encanto. No azul puro e
difano do cu, peneirado duma subtil poalha de oiro que era como uma
alvorada de bnos, apenas alguns farrapitos de nuvens, brancas e altas
como asas de anjos, erravam levemente... E desde as primeiras horas que,
algarreira e abundante, a multido comeou aflundo, todos em salteiros
grupos endomingados,--_con sus trapitos de cristianar_,--fundidos no
guloso mpeto do mesmo apetite mstico e folio, porm distanciados pelo
trao diormico dos costumes e pelo desenho ideal das crenas. Vinham em
alegres volatas, em chireantes golfadas, em cordas de riso uns aps
outros vitoriando, cantando e danando, como se nesse dia de glria a
amplido ridente da planura se vestisse duma grande e viva alfombra
cosmopolita, realada em matizes de tdas as latitudes, de todos os
pases, de tdas as religies, de tdas as raas. Assim decorreram entre
festivas e ingnuas pompas as anunciadas cerimnias do dia, cingidas no
atropelado abrao de tda essa grossa onde espectante. A bno
comovedora da Santa e a sua processional trasladao, depois, quele
improvisado altar da selva, foram, a um tempo, duas maviosas sinfonias
de movimento e de cr, e duas tocantes demonstraes de lisa f e
piedoso entusiasmo. A vitoriosa culminao da festa estava porm
reservada para mais tarde, quando, ao cerrar da noite, aqueles quantos
milhares de pequeninos globos, serpeando como vermes de fogo, saltando,
fascando aqui e ali, errantes e vagos como pirilampos, comearam de
acender de roda a sua aleluia policrma. Um outro dia apontava agora,
suave e discreto, no cortado j na prosaica nitidez das evidenciadoras
flamas do astro-rei, porm pela atenuada sarabanda dessa infinidade de
minsculos sis arredondado em claridades de sonho, slto e ideal campo
aberto, agora, s fugas da imaginao, aos arroubos do amor e aos vos
da poesia. Era todo o vasto e bigarrado recinto dos seus fundos de
sombra jorrando esplendentes fontes de luz, palpitando e ardendo numa
estonteadora profuso de lumes caprichosos, que definem linhas
arquitecturais, que festoam silhuetas de rvores, que espirram para o
espao, que da relva rompem ou no ar se baloiam em largas figuraes de
fantasia, e em que o uso das novas lmpadas de fio metlico multiculr
d motivo s mais deliciosas projeces de cr, s nuanas mais
fantsticas e imprevistas. E por sbre tda essa orquestrao lampejante
 ainda e sempre a carcassa mgaloide do vlho _omb_ que mais destaca e
mais reala, todo inflamado em recamos de gala, casquilho, remoado
agora e como que ufano do seu destino, iluminando afvel e protector a
passividade muda do deserto,--o polipo colossal das razes, que
poderosas esgaram a terra, mosqueado de tijelinhas de cr, como
tentculos luminosos, no amplo seio amostrando com orgulho e abrigando
com carinhos de avoengo o nicho tremeluzente, e pelo atormentado e largo
bracejar da ramaria o mltiplo rosrio das lmpadas pingendo, facetadas,
lmpidas, fulgurantes como lgrimas de alegria.

Entretanto pela ampla e redonda extenso que ste luaceiro de festa
abrangia, apinhada e confusa a ronda do populacho crescia,
amontoava-se... o vago marulho da sua agitao fanfurriava em ritmos
brbaros, vibrava em cnticos, era avivado em singelas dolncias pela
sublinha sensual das tocatas e descantes... e a quando em quando, sob a
estralada esfusiante dos fogos de artifcio,  flor dsse revlto mar,
reverberava ento c em baixo, em pinceladas goyescas, por instantes, a
floresta alvar das suas cabeas em delrio.--Fazia aprazvelmente o
Silveira o interessado circuto do recinto, quando sbito, na compacta
mar montante de figuras que do exterior vinham vidas colar-se  grade
do jardim, lhe pareceu distinguir um rosto seu conhecido.
Irresistivelmente, adiantou-se... e, com efeito! era Lusa, a linda e
fresca morenita, que na sua adorvel rusticidade ali viera poisar, e que
enlevada e imvel, por um alheamento de indizvel beatitude os sentidos
presos e a ateno suspensa, no perfil garboso e enrgico do seu bravo
defensor cravava encantada os grandes olhos negros.

Ento o Silveira, entre lisonjeado e surprso, com uma doura cantante
na expresso aproximou-se.

-- Lusa! A minha querida amiguita tambm por aqui?... Como vais tu?

Por nica resposta, ela teve um breve sorriso de xtase a encrespar-lhe
os lbios, e logo, crando ligeiramente, baixou os olhos. O Silveira
tornou:

--Que ba ida tiveste! Mas que fazes a assim? porque no entras?

Sem articular palavra, sem se mover, Lusa manteve a mesma atitude
retrada e humilde.

--Anda!--carinhoso e afvel o Silveira insistiu.--No queres comer?...
no vens danar?

Lusa movia a cabea negativamente, fechada sempre na mesma inrcia
contemplativa, sem romper o seu mutismo.

--P'ra que vieste ento?

Ela agora por fim, com voluptuosa pausa volvendo a abrir as brumas
plpebras, e na clida demanda do seu galhardo interlocutor o fogo
latente do olhar chispando, numa velada ternura balbuciou, singelamente:

--_Para verlo_...

O Silveira sorriu e num estremeo de vaidade, medocremente sensvel 
tmida e incontida expanso da rapariga, insinuou a mo pelos ferros e
acariciou-lhe ao de leve a face tostada e redonda.

E partiu a seguir, por que em cima, junto  residncia, uma salva de
morteiros anunciava o incio do concurso coreogrfico, e le fazia parte
do jri. Ento a pintalgada e densa coluna das vrias msicas e bailados
que insofrida se achava a postos, comeou montando a _ladeira_ suave do
jardim para ir marcialmente desfilar e luzir seus mritos frente ao
estrado posto a meio da galeria,--ante a mirada crtica de Maria
Mercedes, tda de branco,--e seguindo num grosso e infindvel
coleamento, apartados por castas, distintos pelas cres, opostos pelos
ritmos, todos cantando, vibrando, saltitando, numa grande coreia
dionisaca que era a encantadora revivescncia de algum atrevido
_fresco_ pago, na espontnea impetuosidade e na vida instintiva do seu
movimento afirmando a irmanao gensica do homem com a Natureza, das
almas com as coisas. Foi primeiro o _tango_, sse gracioso hino da
lascvia, impregnado de malcia picaresca, uma dana de perdio feita
de lnguidos requebros, a um tempo trgicos e sensuais, exprimindo
lricamente a conjuno fatal do amor e da morte; depois as corriqueiras
_vidalitas_, acompanhadas a viola e tamboril, crnica leve e sugerente
de faanhas guerreiras, de zombeteiros chismes e cmicas aventuras; a
seguir, os _tristes_, lembrando os nossos _fados_, gemendo um ritmo
atormentado e dolorido, quse religioso, que d a vaga sensao do
mistrio, da solido, do infinito; as _jotas_ e _sevillanas_ no seu
saracotear febricitante, a _tarantela_ no seu acadmico balanceio, o
_trepk_ no seu simbolismo ingnuo; e o desenvlto _gato_, o mesurado
_pericn_; as _baturras_, _soleares_, _farandolas_, _chulas_,
_fandangos_... e quantos mais.--Durante horas seguidas, assim na calma
benfica da noite, sob o jrro delirante dos aplausos e na sua estrdia
ronda aquecendo a fria majestade do deserto, se agitou danando tda
essa corda guizalhante de rsticas melopeias. E quando j os primeiros
alvores da manh clareavam o horizonte, ainda, na debandada final, a sua
interminvel cola sonora se via impetuosa e lou, desparramada a
rabejar pelos caminhos.




IX


Um escasso dia volvido apenas sbre a festa, Belisrio regressou 
metrpole. Seguiu-o no intervalo de mais um dia o Silveira, cuja
existncia ali, depois do seu assinalado triunfo hpico, nas ltimas
semanas, decorrera tda batida em alternncias de cruel incerteza,
assaltada de imprevistas dvidas, cortada em antteses absurdas, numa
espectativa mortificante. As flutuaes coquetas, incessantes, da sua
ba amiga Maria Mercedes, cujas tpicas excelncias tam vivamente
haviam sacudido o seu temperamento de fogo e vincado o seu carcter
mulherengo; sse jgo caprichoso e perverso entre a frialdade e a
exaltao, entre o espanto e o desdm, entre o enfado e o carinho,
desconcertavam-no. Inelutvelmente, corrido de vaga humilhao, le
reconhecia em Belisrio um primaz competidor. Por sbre aquele aspecto
derrancado e turvo, a despeito do podrido descalabro dsse fsico todo
escrias e runa, o Silveira, forte embora da sua virilidade radiosa e
exuberante, achava-lhe superioridades: era dstro no dilogo, fino e
leve, bem falante, brandia a ironia como um florete, vestia com mais
elegncia. Por isso a sua obrigada e constante freqentao, ali, com
sse mulo temido, e frente a frente os dois do dolo do seu comum
cuidado, tornava-se-lhe uma coisa irritante, molesta, dolorosa, por
vezes intolervel. Contudo, retirar antes dle seria uma desero, uma
cobardia. Foi suportando... Logo porm que o afastamento voluntrio do
rival arredou a emergncia dessa hiptese deprimente, o Silveira abalou
tambm, na sua incontida nsia de emancipar-se duma situao por demais
incmoda, violenta, e, perante a pungente ampliao do seu despeito...
porventura ridicula.

Tendo chegado a Buenos-Aires ao entardecer, acolheu-se logo ao hotel,
jantou e nessa noite no sau. Apreensivo e triste, sentia uma grande
necessidade de isolamento... e cedo se encerrou no quarto e abandonou-se
 tortura voluptuosa das suas ntimas cogitaes, cujas mrbidas volutas
o surdo embalo dos vagos rumores da Avenida, em baixo, favorecia. Na
manh seguinte ergueu-se tarde. Aquele destemperado vibrar dos nervos
impunha-lhe agora um preguiceiro e salutar repouso. Porm, apenas
terminado o almo, picou-o um vivo apetite de expanso, de arejo, de
movimento; precisava desabafar... queria falar, mexer-se, descompr
algum, ver caras conhecidas. Acendeu pronto o cigarro, tomou o chapu e
sau logo, em demanda do amigo Azeredo, que mudra de penso e residia
agora ali perto do hotel, na _calle Libertad_, a no mais de quatro
_cuadras_.--Era um pequeno prdio antigo, sem porteiro e sem ascensor. O
Silveira teve que subir uma extensa escada de mrmore, em caracl, quse
s escuras, e encontrou-se sbito num modesto e exguo _hall_,
pavimentado a baldosas negras e verdes, guarnecido por uma vlha moblia
de vrga, globos de vidro estanhado, missangas, _crochets_, enredadeiras
e vasitos com plantas. Veio-lhe ao encontro o dono da casa, um aparatoso
andaluz, de alentada envergadura, loiro e obso, o _pijama_ e cala de
riscado vestidos sumriamente sbre a pele, e os felpudos ps nus mal
contidos nas babuchas.

--O sr. Azeredo ainda estava  mesa. _Quiere Usted pasar_?...

Acedendo curioso ao afvel convite, o Silveira seguiu o solcito
introdutor ao longo dum corredor tristonho e esguio, com anteparo de
zinco sbre o saguo, e ao cabo entrou no comedor, uma crepuscular pea
oblonga, tomada quse totalmente pela mesa, em trno da qual, havendo
cessado de comer, os seus seis convivas, guardanapos depostos e
arredadas as cadeiras, em amena chalra, num baralhamento pelintra,
familiarmente se esqueciam. O Azeredo, mal que viu o amigo, ergueu-se de
salto a abraou-o efusivamente.

--Oh, Joo! meu grande vadio... Finalmente! Cuidei que te ficavas por
l...--E numa palmada cordeal sbre o ombro, indicando a cadeira que, ao
lado dle, a _mucama_ havia pronto achegado:--Senta-te... Que magnfico
que vens!

Em seguida, com aquele seu invarivel ar salteiro e risonho, o Azeredo
fez em globo a apresentao do amigo aos outros comensais, com uma
sublinha especial,  de saber, perante a dona da casa,  direita da qual
le tinha o honroso privilgio de sentar-se,--e que era uma grossa e bem
fornida vasca, quadrada, ruiva, de epiderme branda e leitosa, viva
havia ano e meio, e todavia agora ligada maritalmente ao andaluz... por
convenincias domsticas.  direita do Azeredo sentava-se uma joven
corista do _Avenida_, miudita, clara e franzina como um mimo de bazar,
os olhos maquilhados fortemente, esborifado o cabelo, e na morbidez
cansada da expresso saltando em contraste provocador o narizito
petulante. O nariz era tambm a nica feio acentuadamente vincada,
nessoutra vaga e estirada figura espectral que tinha logar  mesa em
frente dle,  esquerda da dona da casa,--um incompreendido violinista
de caf-concerto, a pele como pergaminho, os msculos como arame,
rechupado, lvido, transparente. Mais  esquerda, havia um acomodatcio
e bronco pintor de taboletas. Finalmente, com depreciativo orgulho
posta, e sentada como por demais, entre stes dois ltimos, aparecia uma
gorda e casquilha quarentona, com o ar presunoso e taful, pastosa,
feia, arrogante, que era a mais insensata e hilariante personificao do
burlesco; vestia uma curiosa bata ornitolgica, tda carregada de
passamanarias, vidrilhos, contas e plumagens, bigarrada em cres de
papagaio, em tons berrantes; a testa era rudimentar, e uns desastrados
laivos de gua oxigenada sarapintavam cmicamente a maranha abstrusa do
cabelo pegajoso e sujo; pela fartura pendente do colo moreno havia por
igual, s dedadas, a lambugem clara dos cosmticos; e  raz da face
opada rasgavam-se uns grandes olhos brilhantes mas apticos, na sua
vtrea imobilidade reflectindo uma fixidez obtusa de surio, uma
credulidade estpida.

O Silveira compreendeu num relance que esta presumida e grotesca
marafona era naquele momento o centro burlo das atenes e o tema
desopilante da conversa. Com efeito, no tardou que o amigo lhe no
dissesse, apontando com solenidade a exibitiva carcassa em frente, numa
irnica reverncia:

--Chegas na melhor ocasio. Tenho o prazer e a honra de te apresentar a
_seorita_ Calliope Cernadas, uma joven e distinta cantora, prxima
debutante no _Coln_...--E com um patente ar zombeteiro, num gesto de
solcito apoio aos circunstantes, acentuou:--Em plena primavera da vida,
como vs... Vinte e cinco anos, _no mas_. Um flamante embrio de artista
e um corao inabordvel! No  certo?...

De roda houve um bem simulado cabeceamento de convicta anuncia,
enquanto a embada vtima trejeiteava desvanecidos requebros, em meio do
cro hilariante da assistncia. E para ela agora com a mesma urbana
solenidade, o Azeredo, indicando o amigo:

--O meu amigo e patrcio Joo da Silveira, solteiro, rico, poeta... O
homem que lhe convm... Um grande fidalgo e um grande enamorado.

No mais caricato arremdo de xtase, a enxundiosa Calliope revoluteava a
aptica inexpresso dos olhos, mordia o leno, parodiava atitudes
infants e mottes ingnuos. Entretanto, na sua apologtica parlenda o
Azeredo tornou:

--Uma voz de oiro!

--Dito por todos os mestres,--confirmou Calliope com fatudade.

--Cinco anos de Conservatrio e dez de lies particulares.

A inocente visada teve um salto de despeito. E a seu lado o violinista,
coando deliciado a nuca, piscando um lho:

--No se pode dizer um talento muito espontneo...

Porm, vagamente apiedado, o Silveira:

--Deve ter comeado de muito criana.

--Era tudo fra da vocao...--aclarou o Azeredo, no mesmo tom
escarninho:--Quando largou o _biberon_, j solfejava.

Em volta da mesa, agora, o riso estalou sem rebuo. E o avantajado
andaluz, que acendera o cachimbo, fazia, mudo, sorridente e matreiro, o
giro atento da casa.

Mas de repente o Azeredo, consultando o relgio, ergueu-se.--Eram horas
de voltar ao escritrio:--E sau rpido, com o amigo, conduzindo-o
familiarmente ao seu quarto singelo e claro, com varanda sbre a rua.
Ainda podiam quedar-se uns minutos. Acendeu o cigarro e sentou-se, na
prga trocista dos lbios apagando-se-lhe as derradeiras vibraes por
sse jgo desopilante com a _seorita_ Cernadas. O Silveira
perguntou-lhe--que _bolha_ fra aquela de mudar de penso? E com ar
enfadado, sucudindo os ombros, o Azeredo explicou:

--Aquilo l era uma maada, menino! Imagina: a tal viva chilena dava-me
uma sorte completa... e que rica mulher! impetuosa, louca, insacivel!
Porm o lamecha do caixeirola, perdidamente embeiado por ela e sem
sorte, tudo era voltar-se contra mim, dardejava-me olhares de desafio...
um riso! fazia-me arremessos... E  sua arisca Dulcineia escrevia ento
umas cartas lacrimosas e ttricas, tresandando bafio romntico, nas
quais havia desgrenhados apelos ao refgio amargo da morte, e por entre
cujos rbidos arrancos tremeluziam ameaas de vingana.

--Que te importava a ti?

--No, mas  que ao mesmo tempo essa pobre rapariga _tanguista_, que era
uma triste lambisgoia, dizia-se apaixonada por mim e da seringava-me a
todo o momento, metia-me bilhetinhos pelo buraco da fechadura,
espiava-me, com scenas de cimes... Uma carraa, uma cataplasma, um
tdio! Uma noite, comeu as cabeas tdas duma caixa de fsforos e foi
naquela casa um rebolio... vomitrios, frices, prantos, desmaios...
tivemos que lev-la  Assistncia.

--s o terror das penses baratas.

--De sorte que eu ento, p'ra evitar uma dupla tragdia, tive um
iluminado rasgo de prudente deciso e raspei-me. E aqui, estou bem. E
uma casa _reinada_... O diabo da patroa joga como uma danada nas
carreiras, e de cada vez que ganha,  um deboche de _champagne_ com os
hspedes e as amigas.--E logo num tom de desafectada cordealidade, todo
dobrado para o amigo:--E tu por l, meu magano?...

O Silveira desfiou regaladamente a narrativa entusiasta e lou da sua
breve estada no campo,--a imensidade lendria da _pampa_, a luz, a cr,
a pasagem, o inditismo claro dos aspectos, a rude singeleza dos
costumes. Espraiou-se em gratas referncias ao hospitaleiro carinho dos
Saavedras, enaltecendo de preferncia, em enternecidas frases, essa doce
e encantadora figura de D. Teresa, na sua aberta simplicidade, na sua
bondade inverosmil.

Com um risinho misterioso, o Azeredo aventurou:

--Sim, sim... Ainda tu no sabes quanto ela  de boa!

--Ento?...

-- uma sogra rara, nica, paradoxal.

--Como assim?

--Sabes que ela tem uma filha casada, agora em Paris, a qual lhes deu j
um netito, sse _guapo muchacho_, o Eduardo, que  a exclusiva adorao
do av. Ora o pai do pequeno  um perdulrio, um sem vergonha, um
sensualo, um estroinao impenitente. Pois esta D. Teresa, na sua louca
dedicao pela filha, tem a santa ingenuidade de assegurar uma mesada ao
genro s p'ra que le, com as suas _calaveradas_, no d desgostos 
mulher.

-- ba! Era uma sogra assim que me servia.

--No haver duas na terra.

A seguir, o Silveira, depois duma pausa,--e como quem tmidamente
retarda o defrontar com uma dificuldade, ou voluptuosamente dilata a
fruo dum prazer,--referiu-se a Maria Mercedes, pastichou-lhe em
tintas de vivo entusiasmo o deslumbramento da beleza fsica, apontou em
vagas e trmulas linhas de incerteza a complicao desconcertante do seu
perfil moral. E nesta empolgante anlise retrospectiva, a despeito do
tom deliberadamente ligeiro dos seus conceitos, a cada momento a comoo
traa-o. Inadvertido e quente, descobria-se. Um spro de ntimo incndio
trazia-lhe a alma aos lbios, ao ensaiar a turbadora evocao dsses
formidveis episdios, dessas horas atormentadas e profundas, relmpagos
de enlvo, eternidades de dr, delcias dum instante.

O Azeredo, dando-se grado a grado conta da situao, escutava-o em
silncio, num crescendo de apiedada estranheza, com aborrecimento, com
queslia, com desgsto. E por fim, tomando o chapu para sair, com a
bca severa e os clios graves, aconselhou:

--Tem-me conta com essa _gaja_... Comea por te derreter os miolos e
acaba por te fundir a algibeira.

-- rica.

--No importa. A esta gente aqui est-lhes na massa do sangue:
_estafarem_ o seu e o alheio.


Voltaram naturalmente a juntar-se naquela tarde os dois amigos. Jantaram
na _Rtisserie Sporstman_, e foram ao teatro _San Martin_, desemborrar
um pouco os nervos na contemplao da mmica petulante e lbrica da
Pastora Imprio. No dia seguinte, esperto e ligeiro, deu-se pressa o
Silveira em ir fazer o giro matinal de Palermo, onde j sob a claridade
molhada do ar, na renovao da temporada elegante, um cordo de
deliciosas silhuetas dandinava pela orla escovada das _pelouses_, e a
envernizada frescura do asfalto se emplumava do trotar garboso das
amazonas. Sentia-se bem... Reganhava-o o sugestivo encanto da vida ampla
e fcil da cidade. Naquele doce ambiente de agrados e belezas o seu
estimulado ser tinha um aprumo salutar... a vontade tomava razes, a sua
galharda juventude frondejava em mpetos, sentia o pensamento inerte,
embevecida a alma, o corao cativo.--Buenos-Aires, bem se dizia... era
o Paris da Amrica, seguramente!--Vinha-lhe o dulceroso apetite de
quedar-se esquecidamente ali, nesse adorvel ninho da felicidade, essa
esplendorosa sucursal do Paraso, deslumbrante e imensa caravanara onde
 compita, vinha estrelar-se o escol das civilizaes, onde mulos se
davam cita os gnios de tdas as raas, o melhor dos progressos, das
grandes conquistas morais e materiais de todo o mundo... ali, o
privilegiado solar da fortuna, da abundncia e da harmonia, a terra das
mulheres de lindas bcas, de rostos de linhas puras e suaves, tendidas
com nobreza.

Duma das vezes, ao desembocar na _Avenida das Palmeiras_, crca do lago,
pareceu-lhe distinguir na sua frente, entre o pintalgado baralhamento da
qudrupla fita de veculos, uma figura sua conhecida. Era com efeito o
grosso e ponderado Mafiori, que descia dum aparatoso _Peugeot_, e mal
que reconheceu o Silveira, veio logo adonde a le, importante mas
afvel, a oferecer-lhe as duas mos e a perguntar-lhe--como ia. Corts e
solcito por igual, pediu-lhe tambm o Silveira informaes dos seus
negcios. O marqus estava remoado, parecia feliz. Os olhos flcidos
tinham mais brilho, a vasta e epilada testa desanuvira, e tda a face
rosada e redonda florescia, erguida pela sade ou dilatada pelo prazer.
s interessadas perguntas do amigo, le sorriu.--Bem! muito bem!--E com
a sua fidalga e resignada bonomia aclarou, encolhendo os ombros,--que
aquela forada abdicao dos seus fros nobilirquicos trouxra-lhe
sorte, afinal. Estava fazendo bastante negcio. Fizera uma ba venda aos
Spantuzzi, outra aos Ribolto, estava alcatifando de novo a casa tda dos
Arriola,--um palcio!--e tinha uma grande encomenda para o
_Jockey-Club_.

E sempre com dignidade, uma ligeira sublinha de irnico desdm a
encrespar-lhe os lbios:

--A esta hora, j as venerandas ossadas dos meus maiores ho-de haver
estremecido, vrias vezes, de indignado horror, nos seus ricos mausolus
lavrados. Uma indignao de mau gsto, no fim de contas... Porque outra
coisa no h a fazer nesta terra, que com todo o seu exibitivo
pedantismo no passa duma mercearia colossal. Tudo mais ou menos se
negoceia aqui:  uma questo de rtulo. O segrdo est na arte de embair
o fregus a encarecer a fazenda.

Depois, num gesto de paternal incitamento:

--Porque no faz o mesmo, meu amigo...?

Sbito, como na onda vaga da multido descortinasse algo que o
interessava, despediu-se de improviso, embrulhando banais desculpas e
rematando amvel:

--Eu continuo no _Plaza_. Venha um dia almoar comigo.

E le que segue dissimuladamente na peugada duma mulher grande e loira,
de idade  primeira vista inclassificvel, artista lrica em
disponibilidade ou _demi-mondaine_ em decadncia.

Certo foi que a prtica significao daquele seu conselho calou suasiva
e funda no nimo inconsistente do Silveira.--Seria realmente uma coisa
acertada, sensata, oportuna, tentar um negciosito. Porque no?... J
vrias vezes le o havia pensado: fazer como tda a gente. le trouxra
consigo uns contitos de ris, p'r' que dsse e visse... e porque no
procurar engross-los? de preferncia a desbarat-los p'r'a
estpidamente, em aventuras banais com mulheres ou jogando  ta na
roleta e nas carreiras?... E, ainda, mais a dura preocupao dos
intersses monetrios poderia ser qui um derivativo salutar, e ter a
virtude de pelo seu ureo deslumbramento dissipar moles inclinaes
pigas e furt-lo a exaltaes perigosas, como essa agora da diablica
_Miqutas_... V feito! Era o caminho a seguir.

Desta forma, o Silveira, sensvel ao contgio do mercantilismo ambiente,
perdido, como tantos outros, na embriagadora miragem dum engrandecimento
rpido e retumbante, nos dias subseqentes dava-se com afinco  leitura
dos anncios comerciais dos dirios, concorria aos leiles, era um
assduo freqentador das _vitrines_ dos corretores, onde em taboletas
relumbrantes de emisses de ttulos, vendas de lotes de terras e
quejandas alicantinas, se acenava aos incautos com fortunas fabulosas. A
intervalos, as venusinas predileces do seu carcter reganhavam o
natural ascendente, e le ento pensava em visitar os Wimeyer, que
contudo ainda no haviam regressado do campo. Queria tambm voltar a ver
os Amglio; porm aquela cavilosa duplicidade de _Mrs._ Edith
irritava-o... Era porm evidente que, por momentos, a branca crsta da
sua alma metalizava-se. J jogava em fundos e entrra com capital para a
fundao duma _Sociedade Internacional de Seguros_. le era o primeiro a
fazer troa de si mesmo, desconhecia-se... e com familiar abandno
comentava, perante o Azeredo:

--Tem graa! eu tam influido agora com negcios... coisa que no  nada
o meu feitio.

E meio incrdulo, o amigo:

--No te dura muito!

Contudo, o Azeredo, vagamente scptico mas no fundo de acrdo, entendia
que sim, que fazia muito bem! porm tinha que precaver-se e ter muito
lho contra essa imensa praga de _estafadores_ e meliantes... Ao mais
pintado les faziam o _conto do vigario_, a cada instante! Por isso, que
no tratasse seno com gente bem conhecida. Havia de apresent-lo no
_Club Progresso_, onde teria ocasio de relacionar-se com importantes
financeiros e industriais, com grandes e autnticos _terratenientes_,
com fazendeiros honestos e firmas garantidas.

Entretanto, tdas as manhs, com uma pontualidade de amanuense, o
endurecido Silveira subia a _Avenida de Mayo_ para ir ver as cotaes da
Blsa e em seguida fazer, por _San Martin e Reconquista_, o interessado
giro do bairro clssico dos negcios, dando-se a acariciadora iluso de
ser j um grande capitalista ou proprietrio. E ao mesmo tempo algum
havia que, com solcita antecedncia e uma pontualidade igual, em face
mesmo do seu hotel, da esquina oposta da Avenida, em plena rua,
aguardava em suspenso a sua apario e espiava afincadamente a
realizao quotidiana dste acto banal da sua vida exterior.--Uma
simples e adorvel rapariga do campo, verdadeiro diamante em bruto,
miudita, morena, bem calada mas vestindo pobremente, com o ar um pouco
estranho, desageitada, esquiva, em cabelo. Tinha frvidamente posta a
vida, o apetite, o desejo, na enternecida fixidez dos grandes olhos
negros, incansavelmente apontados ao porto espelhento do hotel; e,
fechada no exclusivismo da sua mordente inquirio, como que buscava
anular-se para tudo o mais, tmida e pequena ante o roce brutal da
multido, furtando-se aos galanteios, repelindo, assustada e arisca, as
propostas equvocas dos que passavam. Depois, quando a aprumada figura
do Silveira assomava  porta e saa, passeio fra, a caminhar
distradamente, a sua encantadora e ignorada espia vibrava ao
imperceptvel estmulo dum inefvel jbilo interior e seguia-lhe humilde
na peugada, durante uma ou duas _cuadras_, paralelamente; e por fim,
quando se perdia ao longe, na atropelada onda do movimento, aquele
desprevenido alvo do seu cuidado, ela por seu turno,  primeira esquina,
dobrava e desaparecia tambm num relance.

Mais de uma semana, com inaltervel preciso, dia por dia, se prolongou
e repetiu ste jgo inocente para o inadvertido nimo do Silveira
absolutamente despercebido. T que, duma vez, como le tivesse que
dirigir-se  _calle_ Vitria, apenas sau do hotel cortou direito a
Avenida e veio assim a cruzar-se, quse ombro com ombro, com a
interessante figurita annima que o espiava, e que na sua deliciada
confuso, ao primeiro instante, queria evit-lo, eliminar-se, fugir...
Impossvel deixar de not-la. E logo sbito, numa expanso de grata
surprsa, reconhecendo-a:

-- Lusa! tu aqui?...

Tolhida numa vergonha, a gentil rapariga torceu as mos, baixou os
olhos, enquanto a frescura virginal da face tda se conflagrava em
tintas de incndio.

Abrindo acolhedor os braos, o Silveira interrogou:

--Ento? deixaste a _chacra_ onde trabalhavas?

--_No me pagaban_.

--E teu irmo?

--_Me pegaba_.

--Pobrezita! bem digo eu...--bondadoso o Silveira tornou; e com apiedado
intersse, a seguir:--Fugiste ento e vieste p'ra Buenos-Aires governar
a vida?

Numa tcita aquiescncia, muda e indecisa, Lusa sorria vagamente.

--E gostas?--indagou o Silveira, muito afvel; e como a sua linda
desconhecida abanasse afirmativamente a cabea, com o vago sorriso de h
um momento aquecido agora por uma adorvel expresso convicta:--E
porqu?

Lusa teve uns segundos de comovido silncio e por fim, dobrando humilde
o busto, com as abatidas plpebras seguindo, em baixo, o movimento dos
ps, que em taramelados giros raspavam trmulos na orla do passeio,
murmurou:

--_Porque aqui estoy mas cerca de Usted_...

Pelos arrepiados nervos do Silveira uma branda emoo correu, mixto
fundente de orgulho e de prazer, de fatuidade e de ternura. Sentiu-se
quebrado, preso... Atingiu-o em cheio na alma a ingnua confisso, a
doura sentimental da rapariga. Naquela tarde havia uma renio de
acionistas da tal _Sociedade Internacional de Seguros_, e le ia agora 
_calle_ Vitria para ter uma conferncia prvia com um dos membros da
Comisso Directiva, pois sobravam razes para desconfiar que semelhante
_Sociedade_ no passava duma audaz mistificao, duma burla
descaradssima, na qual le via j infelizmente a arder o seu rico
dinheiro! Porm, num pronto, a apario de Lusa, ante a inefvel magia
daquelas palavritas de oiro, vencido pela singela eloqncia duma
confisso tam espontnea e tam formal, tda a sua grande preocupao
financeira,--uma preocupao de enxrto,--se lhe varreu do sentido... Ao
mesmo tempo, numa tristeza de instinto, fitava com demora a sua passiva
interlocutora, olhava-a bem, considerava a sua rudeza inata, o exotismo
da sua figura, a misria do seu arranjo... e sentia-se vxado; via-se
que no podia decentemente quedar-se ali assim muito tempo, s claras,
nesse comprometedor _tte--tte_ num logar tam pblico, nem tampouco
acompanhar com ela. Mas tambm,--que demnio!--esquivar-se agora e
deix-la, retribuir sse infantil abandono com a indiferena, seria a
maior das ingratides, uma desumanidade, uma cobardia. Por isso le, de
repente, cedendo a um cavalheiresco impulso interior e todo dobrado para
Lusa, olhando-a com carinho:

--J almoaste? queres comer?

Por seu turno, Lusa, sem ousar encar-lo, as mos juntas erguidas aos
lbios e confrangendo o busto, tartamudeou uns monosslabos de embarao.
E o Silveira ento, adivinhando-a, tomou-lhe do brao, e com afectuosa
deciso, familiarmente:

--Anda da!

Internou-se com ela em Vitria, mandou-a seguir rua abaixo, na sua
frente, um pouco a distncia, em direco ao Congresso; e a dobraram
rpido para Entre Rios, onde entraram num _bar-restaurant_ de nfima
classe, velhacouto barato de _menesterosos_, rufies, cocheiros,
_chauffeurs_, caixeiros sem patro e _redobloneros_ sem clientela.

Abancaram os dois a uma das mesas mais interiores, numa discreta
penumbra, e,  aproximao solcita do moo, dobrado em interrogativa
atitude depois de haver passado maquinalmente o guardanato sbre a tbua
encardida, o Silveira insistiu com a suave morenita p'ra que dissesse--o
que queria tomar. E ela, numa deliciosa hesitao, com a face incendida
e os olhos hmidos, sem acabar de ageitar-se na cadeira, no atinava
igualmente com o que havia de escolher.--No queria comer. Passra-lhe a
vontade...--Contudo, aps uma laboriosa inquirio pela hipertrfica
lista dos gapes em giro, decidiu-se afinal por um chocolate _liviano_ e
_sandwiches_. le pediu um _Bilz_. E com familiar naturalidade, num
singelo abandno, algareira, feliz, Lusa foi ento contando:--Ela no
andava por'li assim tam perdida como o seu _querido nenito_ imaginava.
J estivera por duas outras vezes em Buenos-Aires; a ltima, quando foi
do centenrio. Tinha mesmo aqui uma irm... E que l no campo moam-na
com trabalho e ainda em cima no lhe pagavam. Guilherme, o irmo, era um
desalmado, um bruto. Ela arrastava assim uma vida de negra, era certo...
mas, em suma, como no sabia o que era mundo e no alcanava a mais,
ia-se conformando... A vlha adivinha de Castelli l dizia: que cada um
nasce com o seu destino j talhado. Que lhe havia de fazer?... Porm que
depois, de repente, nessa terrvel tarde que afinal se volveu p'ra ela
numa aurora, ao v-lo surgir tam milagrosamente e salv-la, sentiu que
se lhe abrira qualquer coisa dentro da alma! como ela no sabia
explicar... via e abrangia agora as coisas por uma outra forma,
compreendia como podia _quererse_ a algum... e que a sua verdadeira
existncia comeara naquele momento, que no mais poderia quedar-se ali
onde a querida imagem do seu rico protector, lhe aparecia a todo o
momento, infiltrada de sadade, reclamando-a com imprio.

Premindo-lhe a mo com doura, o Silveira interrogou:

--Mas que te importa a ti?...

E ela, num profundo acento, gravemente:

--_Nada mas me importa en el mundo!_

A seguir, por entre as freqentes olhadas oblquas da freguesia equvoca
do _bar_, intrigada pelo estranho _accouplement_ daquele rico
_mozalbete_ com uma tam ordinria _piba_, Lusa continuou
desfiando,--que, resolvida a partir, fra a socorrer-se com aquela santa
senhora, D. Teresa, a qual lhe deu algum dinheiro e uma carta de
recomendao para sse _gran comercio de imagenes_ que havia na _calle_
Suipacha, onde a admitiram como caixeira. Tinha graa! todo o dia agora
a lidar com santos, ela que nunca se havia confessado nem comungado na
sua vida.

--Confssas-te agora a mim.

--_Es que el seor es mi santo preferido. El seor y San Antonio_.

--Mas ento, estando a empregada, como  que?...

--_A las once salgo  almorzar. Y yo iba en una carrera y luego me ponia
en acecho, ya sabe, frente mismo  su hotel. Por suerte algunas veces mi
amor tardaba en salir... Y yo entonces, despues de verlo y seguido un
rato, como ya no tenia tiempo, volvia apurada  la tienda, sin comer_.

--Que disparate!

--_Es la cosa mas natural... Y no se me importa: soy de poco comer_.

--E aqui onde vives?

--_En la calle Tucumn, en una pensin muy cmoda e barata, dirijida por
una espcie de monjas, que ese buen santero de Suipacha me indic. La
casa es solo para seoras y seoritas. Tengo un lindo cuarto, con el
piso encerado y la camita blanca. Tratan muy bien  la gente. Pero tiene
una cosa fastidiosa: no se permitem visitas y despues de las nueve de la
noche ya nadie puede salir_.

--Se precisares de alguma coisa...

E com crescente animao Lusa, num progressivo abandno de todo o seu
ser confiado e vibrante:

--_Preciso, si... preciso verlo, oirlo, tenerlo algunos momentos cerca
de mi, asi, bien cerquita! Sus ojos me llenan el corazon de sol, su
simple presencia me infunde valor. Preciso tanto de ella como del aire y
de la luz, para vivir... e con ella me contento, toda vez que no puedo
aspirar  su cario. Lejos de Usted es como yo ya no podria vivir!
Porque ahora es una cosa tan diferente... Si el seor vise como yo, all
afuera, vivia solita y triste, sin afectos, sin amparo, sin una pisca de
alegria!... Por eso necesito que se me convierta en un dulce y leal
amigo de siempre, mi generoso protector dun instante. Que cargosa le voy
a ser!... No se acuerda el seor de aquella noche en que la siniestra
lechuza nos seguia todo el camino?... Nos lig en la vida y en la
muerte. Es la suerte ya v... Y yo confio en ella y  ella me entrego, y
estoy contenta. Porque decia mi abuelita, que Dios tenga en su gloria,
que cuando la felicidad se pone delante de nosotros  abrirnos un
camino, es como la desgracia,--es por mucho tiempo_.

Vagamente apreensivo, num frio e convencional sorriso, o Silveira
murmurou:

--Bem, est bem...

Lusa agora mudra de expresso, e com adorvel infantilidade,
tristemente, olhando-se com desprzo:

--_Lo peor es que yo, verdaderamente, en esta facha, me averguenzo...
si, reconozco, tengo que confessar que no soy digna de Usted!_--Mas
logo, numa coqueteria ingnua, recobrando-se:--_Ah! pero tambien yo s
vestirme como las seoritas de la ciudad. Y tengo com qu, gracias al
Seor!_

--No tens um chapu?

--_Como no! Y una linda blusa de seda, pollera con pliegues y cordon de
oro_.--Atirava com deciso o guardanapo:--_V a ver!_

O Silveira expandiu-se num claro riso, entre trocista e incrdulo; e
aps uma pausa, voltando a afagar-lhe com carinho a mo sbre a mesa,
suavemente:

--Mas, dize-me: ento, srio, srio, no te lembra o campo?

--_Que me voy a acordar?_

--No deixaste por l nenhuma inclinao? no tens sadades?

--_Inclinacin?... Acaso s lo que es eso!_

--Era natural...

--_Nadie! nadie!_--E com um sincero calor, beijando os dois indicadores
postos em cruz:--_Juro! por esta... Yo naci sin una flor en el alma. Yo
andaba por ahi como una pelota lanzada al acaso, sin paradero, sin
hogar, sin destino. Quien hacia caso de mi_?...--Depois, comovidamente,
com os antebraos ao alto, as mos postas em splica e as pupilas
ardentes num amoroso enlvo despedidas ao busto atnito do
Silveira:--_Ahora, si! es que yo creo haber finalmente encontrado mi
familia, mi mundo... ahora es que yo compreendo la razn y el fin de mi
vida. Que feliz soy! Cuanto le debo!_

Sbito, como no seu enlevado giro os alarmados olhos de Lusa se
fixassem no grande mostrador circular do relgio da sala, a timorata
rapariga estremeceu, e como quem desperta dum sonho:

--_Ah! pero que tarde es!... Que disculpa voy  dar en la tienda,
valgame Dios?_--E pondo-se de salto em p, apressurada,
inquieta:--_Disculpe-me, si?... Es forzoso. Voy  tomar el tranvia_.

Arredou a cadeira de golpe, e enquanto o Silveira pagava, sem uma
palavra de despedida mais, sem um agradecimento banal, sem mesmo esperar
por le, partiu precipitadamente.

O Silveira ficou ainda, uns minutos, como avergado ao pso dum
inconfessvel cuidado. Acendeu um cigarro, sau morosamente... e
longamente depois, penseroso, inerte, foi subindo a p a praa do
Congresso.--Em que viria aquilo a dar?... ia vagamente contrariado,
porque sentia que demasiado o preocupava aquele trivial episdio
_callejero_. Increpava-se da sua debilidade. O saboroso desenlace desta
aventura picante seduzia-o, fazia-lhe negaas ao desejo; mas
simultneamente, perante a turbadora ameaa do contubernal convvio com
essa criatura delicada e simples, o seu epicrio egosmo revoltava-se. E
como quem padece dum mal secreto, como se premeditasse algum delituoso
plano ou houvesse cometido alguma aco indigna, guardou-se de contar
qualquer coisa ao Azeredo.

Curioso foi que  hora habitual, na manh seguinte,--e embora no
houvessem feito nenhum acrdo prvio,--l estavam os dois outra vez cada
um no seu posto; dando-se at o caso singular de ser o Silveira quem
apareceu primeiro. Pronto le havia baixado ao salosinho de leitura do
hotel e da, sem mesmo pensar em almoar, recostado com indolncia num
_fauteuil_, junto  janela, seguia espiando em disfarce a apario, na
esquina defronte, da sua linda e suave companheira.--Nada tinham
combinado, mas de seguro que ela havia de vir!--E, forte nesta
acariciadora evidncia, a curtos intervalos le no despegava de apontar
os olhos codiciosos ao outro lado da rua. Muito no tardou que a sua
femieira impacincia no fsse satisfeita. E ento, mal que o insofrido
gal viu em frente, debuxar-se no torvelinho vago da multido a fina
silhueta apetecida, ergueu-se, tomou o chapu, correu  porta... num
momento estava junto dela.--Vinha outra, com efeito, naquela manh,
conforme anuncira. J parecia algum... Cmicamente travestida em
_seorita_, trajava uma singela blusa em _soyau_ crme, decotada, com
largo cabeo  Tudor, segundo a moda; uma saia negra em sino, muito
curta, com sobre-saia _plisse_, da mesma cr; bota de pelica e verniz,
e meia branca; ao colo um tnue fio de oiro; na cabea um barato
chapusito _panier_, de palha castanha, rebatido sbre os olhos e atrs
em slta curva erguido sbre a mlhada luzida do cabelo, pregado 
nuca; e umas luvas triviais de algodo branco, pospontadas de negro,
sujeitavam a rstica aspereza das mos, donde pendia uma bolsinha de
sda.

Entalada nesta convencional, e para ela quse indita, indumenta urbana,
Lusa aparecia desfigurada. Era uma autocaricatura. Era como uma
estiolada flor trazida do campo. Na sua improvisada encadernao havia o
que quere que fsse de contrafeito e extico, que a desfavorecia. Ela
mesmo no se sentia  vontade... os movimentos eram hirtos, a expresso
estranha, no sabia que fazer dos braos. Estava adorvel de embarao e
de ridculo. Mas a tudo sobrelevava sem esfro o contrno picante da
sua figura, e dessa contrafaco irrisria zombava triunfal a sua
mocidade recendente, a sua palidez fresca de flor, a sua graa nativa, a
sua confiana ingnua, o seu vio exuberante.

Sadaram-se por um cordeal aprto de mo, e de roda dela o Silveira tudo
era mir-la de gsto e aplaudi-la, complacente e risonho festejando-a
por aquele milagre de metamorfose tam sedutora como imprevista. Achava-a
encantadora. Porque de todo aquele ingnuo esfro ressaltava a
exclusiva, a ardente preocupao de interess-lo; todo sse preparo
coquete era um discreto convite, um desafio evidente, que o enardecia...
Do mesmo passo, a confusa e tmida criana, no ntimo lisonjeada, pedia
mimadamente--_que no le hiciese burla_...-e trejeiteava umas infants e
humildes expresses que, eram a demanda subtil do seu agrado.

Contudo o Silveira encontrou-a triste. Mantinha-se inconcebivelmeute
perplexa, muda, cabisbaixa. O que quere que fsse de penoso e molesto
lhe ensombrava a expresso, lhe pesava nos lbios e abatia o vo
sonhador das plpebras. Interrogou-a com insistente carinho e ela sempre
no mesmo silncio embaraoso e difcil; t que por fim, por muito
instada, balbuciou a custo:--que ao entrar na loja, na vspera, como
chegasse uma hora mais tarde, no quiserem saber de razes nem
desculpas. Pagaram-lhe e despediram-na.

Tomado dum indominvel frio egosta, o Silveira exclamou:

--E agora?...

--_Ahora que s yo?_--murmurou Lusa mansamente; e na sua resignao
fatalista, encolhendo os ombros:--_Busco otra casa_.

Insensivelmente haviam retomado a andar, rua abaixo, agora j sem
esquivanas, sem hesitaes nem dvidas, mano a mano, como dois iguais,
como dois bons amigos. Mas seguiam sem palavra ferir, silenciosos e
graves, a par um do outro e distanciados pela interposio dsse
arreliador problema econmico, filosofando em comum sbre a dura
incerteza do futuro. Porm, sbito, um outro problema bem mais grave
formularam as exigncias fisiolgicas do Silveira,--a necessidade de
almoar. E ste era de soluo imperativa, imediata. Fez sinal ao
primeiro _taxi_ fechado que passou, empurrou para dentro a rapariga e,
de mo  portinhola e p no estribo, ordenou ao _chauffeur_ que tomasse
em direco ao arrabalde, a para Flores ou Olivos, e que aterrasse
nalgum pequeno _restaurant_, aceado e cmodo, onde pudesse almoar-se
bem e a bom recato.

E nesse acomodatcio bucolismo de fra de portas foi onde gozaram o seu
primeiro idlio,--breves, fugazes horas de paz e de enlvo, vividas ao
acalentador abrigo dos muros dum exguo _patio_ colgado de trepadeiras,
em cujas sombras transparentes os raios do sol vinham quebrar-se,
danando, como sarabandas de beijos, como boquitas de oiro. Gradualmente
aquecendo, o Silveira, profissional emrito nas prticas da seduo,
envolvia-a em cariciosas esprulas de encantamento e de sonho,
acenava-lhe com promessas, espertava-lhe desejos, insinuava-lhe
desvarios, dizia-lhe coisas audazes e perversas que a deslumbrada
criana recolhia inteiras, num embevecimento ingnuo, com os grandes e
lindos olhos muito abertos, que pareciam escutar. Depois Lusa tambm,
no progressivo alento da confiana e pelo eflvio excitante da comida,
tornava-se ligeira, expansiva, fcil, tagarela, e com a sua vozita
lmpida e vibrtil, titilando como uma luz ao vento, fazia o enternecido
relato do seu passado, da sua vida de desamparo e misria... e como
agora sempre o seu pensamento rodava incessante em volta do seu rico
amor... desnudava as mais ntimas prgas do seu sentir, punha da mais
comovedora evidncia a intacta virgindade da sua carne e a nvea pureza
da sua alma. Ao cabo, no regresso, quando dentro do auto os dois outra
vez, le cingiu-lhe a cintura, puxou-a a si, beijou-a sfregamente... e
ela abandonava-se, poisando-lhe em delquio a cabea contra o peito,
encolhidita, humilde, gozando o prazer inefvel de sentir-se pequena
junto ao homem que adorava.

Nos dias subseqentes,  de saber, a embriagadora scena a repetir-se. Um
e outro tinham o dia todo por seu: nem ela nutria agora maior empenho em
buscar nova colocao, nem tampouco le se interessava demasiado pelos
negcios. Narcotizava-os a tirania mole do instinto, embalava-os,
adormecia-os uma preguiceira onda de prazer. E assim, numa desptica e
mtua seduo, dias ps dias, foram indominvelmente consumindo o tempo
e pelo seu amoroso exclusivismo enchendo as horas, num delicioso
deambular de acaso, alheios ao mundo, perdidos pelas tascas dos bairros
suburbanos, delidos nas orvalhadas sombras do Tigre, extraviados na
quietude vaga e balsmica do campo. E ste delicioso parntesis de sonho
engrinaldava-o Lusa com um chancear cristalino e alegre, intervalado de
carcias tam espontneas e tam ardentes, que o inflamado Silveira no
sabia por vezes a que sobremanas fras socorrer-se para enfrear a
violncia do desejo. Eram as consabidas tapas duma capitulao moral,
gostosa, inevitvel, em que a alucinada criana ia deixando a pedaos o
pudor,--essa epiderme da alma,--como antes, pelo campo, a fmbria da
rstica saia esgarada nas balsas dos caminhos.

Debalde prudencialmente o Azeredo, j ao tempo conhecedor da situao,
buscava conter e dissuadir o amigo. Fazia-lhe ver, dsse resvalo inobre
em que se obstinava, as responsabilidades, os contras, os alapes, os
tdios... porventura os perigos.--Que preciso tinha le? com tanta
mulher por' e noutras condies, e mais educadas, mais lindas,
melhores, seguramente!--A nada porm cedia a libidinosa querena do
Silveira. Se le a princpio hesitra, agora, merc da garra mansa do
convvio, o domnio, o gzo, a plena posse de Lusa tornra-se para le
uma ida obsidiante. Pressentia-lhe o aroma e o sabor dos frutos
silvestres. Como um cacho ruivo de medronhos, embebedava-o o apetite
acirrante de mais esta aventura, tanto na sua tradio como do seu
agrado. Por fim, lgicamente, amaram-se na cumplicidade mercenria duma
_casa amueblada_. E logo nessa noite o Silveira, quando a ss, no hotel,
com a reflexiva calma do seu leito, sentiu correr-lhe a espinha um frio
de vaga e presga angstia. Inexplicavelmente, e uma vez dissipado
agora, com a posse, o encanto, o devassado mistrio dessa criatura
confiada e simples, uma sorte de spero cuidado espancava-lhe o sono...
remordia-o um amargo e apiedado sentimento, para le desconhecido. Tinha
supersticiosas apreenses e vinha-lhe uma tristeza. Quereria
retrogradar, increpava-se, arrependia-se... No desfecho tam plausvel e
tam humano dsse vulgar lance de amor, a sua conscincia em alarme
futurava qualquer coisa encaminhada a fazer sangrar a sua alma e a pesar
no seu destino.





X


Mais ou menos o mesmo severo aspecto revestiram, no dia seguinte e
quando inteirado do sucedido, os repreensivos comentrios do Azeredo,
que duramente increpou o amigo.--Afinal havia cado na mesma estupidez
de sempre! E p'ra qu, no fim de contas?... Porque no soubera
reprimir-se, atalhar o mal a tempo, furtar-se, desertar, reagir? E que
tivesse vergonha! pois aquela premeditada violncia era sempre no fundo
uma aco indigna.

Depois, com uma doura amvel a cantar-lhe na expresso, sensatamente
ponderava:

--Sim, porque essa pobre rapariga agora no te larga... tens que
ampar-la no novo caminho que lhe fizeste. Pendura-se-te da vontade,
enrosca-se-te ao desejo. E  bem feito! E vai tu, com o teu bom gnio,
com sse feitio brando e sensualo, deixas-te gradualmente prender,
apidas-te, habituas-te, condescendes... e acabars por descer a essa
equvoca situao tam do agrado de todo o bom portugus: a mancebia.

--No  mulher p'r'a mim,

--P'r'os homens fracos e lascivos como tu, tdas as mulheres esto 
altura.--E num gesto nobre e viril, sacudindo os ombros:--Porque no
fazes como eu?... Tentaes dessas prefiro que venham adonde a mim.
Fica-se sempre bem... Foi o meu caso com a chilena. O verdadeiro prazer
deve ter asas, ser leve como uma pena e fcil como os frutos maduros.
At por uma questo de egosmo. Pois tu no vs? que diabo!... perante a
epicrea gula dos nossos sentidos, o convidativo saber da mulher feita
vale mais que o espanto semsabor da virgindade.

Confundido e vxado, o Silveira concedia--que sim... o seu amigo tinha
razo. So destas coisas que acontecem. J tinha que ser...--Mas logo,
com desdenhosa arrogncia, recobrando-se:--O que no valia a pena era
dar ao caso maior importncia. O que melhormente agora ali o interessava
era ganhar _plata_. O mais, queria l saber!--Aproveitando jubiloso a
derivante, logo o Azeredo lhe disse que ainda na vspera, no _Club
Progresso_, o comendador Niatello com todo o intersse lhe perguntra
por le.

--Tem estranhado a tua ausncia e com razo. Nunca mais apareceste!

O Silveira prometeu que iria naquela noite sem falta. E com efeito,
crca das 10 horas, a entravam os dois a portada banal do _Club_, na
_Avenida de Mayo_. Transporta a modesta escalinata, em mrmore branco e
mosaico, e atravessado em cima um esguio vestbulo envidraado, cortaram
logo para o primeiro salo,  direita, uma grande e bem esquadrada pea
participando do simultneo carcter de centro de conversao, _fumoir_,
biblioteca e sala de leitura. O teto, alto e distante, era todo
artezonado em bastos e simtricos caixotes de estuque lavrado, com
abundncia de oiros e relvos; pelo amplo lenol das paredes, forradas
duma espcie de brocado verde, de l, com filetitos de oiro,
penduravam-se aparatosas taboletas emoldurando recompensas industriais,
oleografias, espelhos, a lista impressa dos scios e o plano policromo
da cidade; em baixo, sbre o envernizado _parquet_, havia uma mesa
enorme, pejada de jornais e revistas, e disseminavam-se em profuso as
cadeiras, poltronas, sofs, _causeuses_ e _fauteuils_ de tda a espcie,
obrigado refgio  modorrenta inrcia dum avultado nmero de
assistentes, dos quais alguns, raros, em traje de _soire_ ou _smoking_,
porm a maior parte encadernados no comodismo plebeu do jaqueto, e
todos com arrastado vagar discorrendo sbre triviais casos mundanos ou
tricas vulgares de negcios.

Junto a uma janela abancava, com trs scios mais, o comendador
Niatello, um quinquagenrio reforado e grande, de queixo querenoso, de
olhos ladinos, saltando com dominador relvo da abaanada flacidez da
larga face curtida e negrusca, inteiramente escanhoada. Mal que le
descortinou os dois amigos, logo de cham-los de longe com protectores
acenos familiares, afectuosamente. E  sua aproximao ergueu-se e
adiantou-se a acolh-los, numa solcita cortesia, convidando-os logo a
tomar _asiento_ e apresentando-os sorridente aos trs
companheiros.--Todos vlhos. Vicente Alvear, descendente duma antiga
famlia colonial e herdeiro duma grossa fortuna, era ainda uma bela
figura marcial, com a slta elegncia de movimentos que nos d uma vida
fcil. Recm-chegra da Europa, dizia as coisas mais triviais com solene
entono, tinha um certo _aplomb_ fidalgo, e o seu rosto liso, afvel e
atraente iluminava-se da espelhada abundncia e frescura do bigode e
cabelo, totalmente brancos. No assim Jos Pitronero, que desbarbado,
esguio, pequenino, era a mais completa e flagrante realizao dum dstes
grilhetas eternos do trabalho, vestindo pobremente, com a arisca
silhueta repregada sbre si mesma, os olhitos cavilosos, a face
rechupada e o chin grisalho, recurvo o dorso como um cifro, as mos
crispadas como garras. Finalmente, Pedro Urquiza era o mais galhardo e
moceto dos trs. Grosso, moreno, gordote, a cara opada e macia, o
cabelo lustrado de leos, as mos moles e brunidas, era bem um tipo de
puro e contums _porteo_, no crte arrogante do busto, no desempno
viril dos gestos, na linha imperativa da bca, entre voraz e insolente,
na dura expresso do olhar, entre altaneiro e cnico. Trajava com
afectao, de cala excessivamente curta, polainas, grande prola na
gravata e um cravo branco no olhal do jaqueto cintado.

Foi le quem imediatamente reatou conversa. Fazia a apologtica
enumerao das fabulosas riquezas naturais do pas, postas agora a
claro: os jazigos petrolferos de Comodoro Rivadavia, as hulheiras de
Chubut, os incontveis tesouros em minrio da cordilheira. Tanta
maravilha por' assim a explorar! tanta coisa misteriosa, ignorada,
indita, imprevista! No mundo no havia melhor.

--Parece-lhe ento que todo sse sul da Rpblica?...--indagou
ingnuamente Vicente Alvear, avanando o busto com intersse...

-- o nosso futuro Potosi, no h dvida! Bem v, o norte para a
explorao intensiva  ainda demasiado selvagem, o centro est dando o
mais que pode dar... de sorte que  para essas caudais de abundncia do
sul que deve de preferncia voltar-se a nossa ateno e canalizar-se o
nosso dinheiro.

--Parece que essa obra do carvo de Chubut _es un cuento_,--mascou o
cauto Pitronero com frieza, fransindo desconfiado os olhos e apertando
os braos.

--Como, _un cuento_!?

--Sim... eu li algures a opinio do engenheiro Rivoretto, um informe
oficial, que diz que so jazigos demasiado recentes.

--Pelo contrrio,--acudiu o Alvear com entusiasmo,--na Europa corre que
 um carvo que pode competir com o melhor de Cardiff.

--Poder... daqui a mil anos.

--Tudo isso so abominveis maquinaes e intrigas de tanto invejoso,
tanto malfadado empatador que p'r'a abunda!--contestou indignado Pedro
Urquiza. E com persuadente intimativa:--No tenham dvida: o valor das
hulheiras de Chubut, mas o valor actual, imediato,  enorme. Depois, h
ainda os mananciais do Neuquem, h tda essa imensa e feraz
Patagnia...--E num ardor de patritica exaltao, pondo-se em p, com
os lbios imperiosos, com uns olhos de vidente:--Ah, creiam, meus
amigos! por tudo, at pela raa,  no sul que repousa o engrandecimento,
 do sul que h-de avassaladoramente romper e impr-se o grande futuro
da Rpblica. E o dever de todos ns , desde j! no s acompanhar, mas
estimular sse portentoso fenmeno natural com as nossas melhores
reservas de actividade, de inteligncia e de numerrio.--Rodeou o grupo
em duas passadas nervosas, e por fim, abatendo a mo sbre o engerido
ombro do Pitronero:--Voc que diz?

Este teve um instintivo estremecimento, e naquele gesto tam seu, de como
quem defende a algibeira, encolhendo os braos todo dobrado:

--Eu no sou ambicioso... no digo nada.

--Duvida? tem receio?

--No sei, no sei... Aquilo que tenho custou-me tanto a ajuntar!...

--No diga isso! Um homem como voc, dos do bom tempo, quando
inesperadamente se acordava rico... Um felizo, que apanhou fortunas de
mo beijada...

--Sim... porm o meu amigo no atenta agora, com as reviravoltas da
crise, em quantos ttulos eu tenho comprometidos... no toma em conta a
imensidade de terrenos que eu comprei a 30 pesos o hectare, e que neste
momento no valem 5... Ningum mos quere!

--So injustificadas apreenses. L vir seu tempo.

--Virtualmente estou pobre.

Uma girndola de incrdulos risos acolheu ste lamento hipcrita. E a
seguir num generoso arranque de confiana, o Alvear:

--Pois eu c, no! eu estou meio tentado. O dinheiro que os meus me
legaram, p'ra que o quero eu? seno p'ra p-lo ao servio do meu pas,
ajudando-o e engrandecendo-me?... Que essas novas empresas consigam do
govrno, pelo menos, o apoio moral, e o meu capital disponvel estar
com elas.

--Bravo! meu nobre amigo. Muito bem!--exclamou com festiva arrogncia o
grosso Urquiza, dobrado com esfro, sobre a espalda do amigo. E logo
para o Silveira, que, sentado ao lado, seguia num vago deslumbramento o
giro tintinabulante do dilogo:--E que diz a isto o nosso simptico
estrangeiro?

Aqui interveio o ladino comendador, at ento silencioso, e que com
dulcerosa expresso, envolvendo protector o Silveira na chispa
traficante do olhar, astutamente:

--Ah, o meu joven amigo no precisa aventurar-se tam longe p'ra fazer
fortuna. Tem um pouco mais perto, j sabe... os meus terrenos da
provncia de Cordoba. No  verdade?

Maquinalmente, o Silveira sorriu; enquanto o Azeredo fransia a testa com
desgsto, o negrusco aliciador continuava:

--Pode ali fazer uma rica explorao agrcola em larga escala.  o mais
simples e o mais seguro.

--Eu gosto muito do campo.

--A tem! Que melhor oportunidade que a que eu lhe ofereo agora? E olhe
que poucos lotes me restam j... Um terreno privilegiado, no imagina!
Ainda no viu a exposio dos produtos dessa minha terra, aqui em
Florida?... Faz o assombro de tda a gente. V ver, v... e eu tenho a
antecipada certeza que de l o meu amigo correr ao meu escritrio.

--Haveria logar para tudo...--magnnimo o Urquiza aventurou.

--Nada! nada! _Qu esperanza_... Creia, amigo Silveira, nenhum negcio
como ste meu. Garanto-lhe que, em dois anos, tem o valor do seu capital
quintuplicado. Quere ver?

E, dizendo, o acobreado Niatello sacava duma pasta e desdobrava
aparatosamente sbre a mesa uma grande planta policrma, enquanto de
roda os trs vlhos cambiavam entre si um imperceptvel olhar
escarninho, e o Azeredo impaciente beliscava o brao ao Silveira.

--Bem! vou ao meu assalto de florete,--anunciou, num sco gesto de
despedida, o Urquiza. E para o Silveira, com especial predileco:--Tive
imenso prazer em conhec-lo, pode crr... _Calle_ Lavalle, 1391,
inteiramente ao seu dispr. E fra disso, pelas tardes, encontra-me
sempre invarivelmente fazendo a _calle_ Florida, no _Jockey Club_ ou a
pela livraria _Mendeski_, pelo _Wictomb_,  porta do _Lacloche_ ou no
_Rumplmeyer_.

Seguiu, breve e altaneiro, para o interior da casa, tomando-lhe o
exemplo, a poucos minutos passados, Vicente Alvear e o Pitronero, que
deixaram o comendador a desdobrar  vontade a sua estratgia de seduo
perante os dois portugueses. Assentou le em pso a negra mo
convincente sbre uma larga flha de papel-tela, onde tentadoramente se
estrelava uma grande mancha trapezoidal, escaqueada por um labirinto de
pequeninos rectngulos, brancos, amarelos, azis e verdes, que uma
floresta de traos negros definia, e carimbados a algarismos vermelhos.
A toalha esfngica da fortuna.

--Isto aqui  o melhor que pode haver, notem os srs. bem! Provncia de
Cordoba, departamento de Iulumba. Dze horas de ferro-carril;  um
passeio. O lote que eu lhe ofereo  ste, o n.^o 13, um nmero de
sorte, um verdadeiro _regalo_. Veja: so crca de oito mil hectares,
terrenos absolutamente virgens, a dois passos da linha frrea,
abundantes carreteiras, e em condies topogrficas excepcionalmente
favorveis, entre a montanha e o rio.

--H-de ser caro...

--Qu, caro? objectou com a mais teatral iseno o comendador.--O meu
amigo no me conhece... De tanta soma de terras aqui vendidas j eu
tirei um lucro bastante compensador; de sorte que agora ste resto,--que
no  um refugo, seno um mimo,--ceder-lho hei por nada, quse de graa.

--E como  que tanta preciosidade--arriscou com impertinncia o
Azeredo,--se conservou at agora assim baldia, estril, ignorada,
intil?

--E um fenmeno vulgar em tda esta imensidade.

--Bem, mas em todo o caso este meu amigo, sem ver, sem se informar
melhor... no pode assim de golpe comprometer-se...

--E porque no vo l primeiro, certificar-se? Eu at estimo.

--Desnecessrio!--atalhou, num rasgo de quente deciso, o
Silveira.--Est posta de parte, por descabida entre ns, a questo de
confiana.--Depois a meia voz, para o Azeredo:--Talvez convenha,
hein?--E na hipnose ingnua do oiro, erguendo-se:--Olhe, meu caro
comendador, eu no resolvo nada de pronto; no entanto peo-lhe que me
reserve o lote, que me d um prazo.

--S sendo muito curto, j v...

--Eu manh sem falta vou ver a sua exposio, e em seguida, em qualquer
hiptese, passarei pelo seu escritrio.

E com um efusivo aprto de mo despediu-se e afastou-se, com o Azeredo,
enquanto o comendador dobrava e guardava, num jubiloso vagar, o seu
trapaceiro _dossier_, com a segurana ardilosa do triunfo a bailar-lhe
no olhar astuto.

No muitos metros andados na direco dos bilhares, chamou a ateno dos
dois amigos, quse travando-lhes o passo, um grupo atnito e compacto
que em exttca suspenso escutava o verbo suasivo e ardente dum
invisvel charlato, sob o domnio empolgante da sua embadora parlenda
desdobrando cifras e barafustando enganos.

-- um assunto que eu pensei maduramente, meus senhores!--pregoava le
na sua ardorosa invocao, convictamente.-- uma grande empresa, um
negcio estupendo!

C de fra e de longe, o Silveira no podia distinguir a figura do
industrioso perorador; mas pareceu-lhe reconhecer aquela voz sacudida e
vibrante, de timbre metlico, saltando no silncio espectante de em
trno como um jrro de moedas batidas sbre o balco. Ergueu-se ento em
bicos de ps... e, com efeito! era o seu abortivo Ramn Alvarez quem com
tam compenetrada fria encarecia as maravilhas dalgum indito elixir da
sua lavra. E que de repente, ao v-lo:

--Oh, meu caro Silveira! Que feliz, que providencial acaso! Quanto
estimo! _Pase_, _pase_, venha ouvir... Como chega a propsito!

E tam pronto fez praa ao amigo, logo le, para no perder o calor
sugestivo do momento, rompeu clamoroso outra vez:

--Trata-se nem mais nem menos que da construo dum grande, um alado, um
colossal e gigantesco pra-sol sbre tda a praa de Mayo.

Os paresiados rostos dos circunstantes fulguraram num rasgo de admirao
alarve. E le, impudente, imperturbvel:

--Os senhores compreendem bem a minha ida, o meu fim essencial:
oferecer um pouco de comodidade ao grosso publico, furtar s
inclemncias do calor e ao rigor das intempries tda a imensa aluvio
humana que de sol a sol febrilmente circula e se agita nessa tmida
aorta da cidade. Mas de passo eu quero renir ao til o agradvel, quero
adornar de atractivos, rodear de fartas e lindas diverses, essa
benfica estncia de repouso. Ser um ponto de renio forado, uma
obrigada estao de prazer, _chic_, esttica, elegante. Haver por
exemplo ali assim, logo em baixo, tda a sorte de _tiendas_,
_restaurants_, bazares, _garages_ de automveis, que sei eu?... Depois,
em cima, envolvendo o grande suporte central, e suspenso, teremos um
vasto salo de concertos; dos extremos de cada vareta, ao largo de tda
essa perifera, eu farei igualmente suspender quantidade de teatrinhos,
cinemas, _bars_, estufas, e por fim, no afusado remate do vrtice,
rendado e fino como uma agulha de catedral, erguer-se h um lindo
_belvedre_ e flutuar um balo cativo.

--Encantador, grandioso, realmente!

-- uma ida bem americana!

--Parecer-lhes h estranha,  primeira vista...--ponderou o grotesco
Alvarez, sorridente, pendulando a fenomenal cabea com modestia.--E no
entanto nada de mais exequvel, de mais oportuno, de mais simples, de
mais a propsito.

Mas por entre o cro basbaque dos aplausos algumas birrentas dvidas
surdiam.

--Acho um plano em demasia arrojado.

--Impraticvel talvez...

--Como, impraticvel?--de salto o Alvarez acudiu, com o frio cobalto dos
olhos sbito incendido.--Ao contrrio, hoje, com o ferro e o cimento, 
tudo quanto h de mais fcil.

--A mim parece-me a renovao da cmica faanha do _homem das botas_...
com a diferena que esta no custou dinheiro,--disse em surdina para o
Silveira o Azeredo.

--E a forma prtica de o realizar?--interpelou um ouvinte mais rebelde.

--A municipalidade consentir? J obteve a concesso do exclusivo?

--Ainda no... porm tenho a promessa formal do _decan_ da
Presidncia.--Um crdulo cabeceamento de aplauso acolheu esta animadora
notcia.--O lucro vai ser imediato, enorme, colossal!--tornou dogmtico
o Alvarez; e aps uma ardilosa pausa, abrindo familiar os braos,
singelamente:--Agora o que h,  que estas coisas, sem dinheiro, sem
muito capital... Eu s no posso... Pensei numa sociedade por aces, de
cem pesos, cobrveis em duas prestaes. Est ao alcance de tdas as
bolsas. Uma coisa de nada! Aqueles dos srs. que me queiram acompanhar...

Entretanto, nas flhas do providencial _carnet_ que um solcito
_corredor_ ia fazendo adrede circular pela assistncia, choviam
abundantes as adeses e as rubricas dos subscritores. O Silveira
inscreveu-se com cem aces, levado na rtila asa dos seus sonhos de
fortuna.

Na manh seguinte, tomado de plutonmica impacincia, le a ia visitar,
em _calle_ Florida, o tam apregoado mostrurio agrcola do comendador. A
distncia de mais de meia _cuadra_, j le distinguiu um grosso grupo de
mirones, na sua curiosa inquirio colados com avidez  montra, tomando
o passeio e da alastrando ainda em arrelienta cauda pela rua. Tanta
soma de intersse foi para o hipnotizado Silveira mais um estmulo.
Estugou o passo, e, breve, a poder de firmeza e de deciso, pedindo
vnia, acotovelando, rompendo, atropelando, logrou alcanar o posto de
exame desejado.--Um perfeito deslumbramento! Distribuida com arte e
colmando superabundante a vidreira, havia a mais tentadora profuso de
bulbos, de sementes, de frutos, leguminosas e gramneas de toda a sorte
e tudo sltamente luxuriando em cres sadas e brunidas, em tmidas e
aveludadas curvas, em farturas reumantes, escarolados cofres da
abundncia, gordos, frescos, viosos, grandes como le nunca vira igual!
Alguns eram duma corpulncia descomunal, verdadeiros prodgios da
Natureza.

Havia ali batatas grandes como meles, meles que pareciam abboras,
abboras que eram como as trres da Senhora dos Remdios ou do Bom
Jesus, na sua terra. Seguramente, na ltima exposio promovida pelo
Vilarinho de S. Romo no Palcio de Cristal, e que tam falada foi, no
aparecera nada capaz de se comparar com isto. Era uma possana
paradisaca que metia positivamente num chinelo os afamados feijes e as
couves de S. Cosme, os pssegos do Varosa ou os calombros de Lamego. Que
portentosa produo e que privilegiada terra!

Nem todos pareciam, entretanto, manter esta corrente ingnua de sentir,
no heterogneo grupo da assistncia. Um que outro dito mordaz passava
dissimulado ou esfusiava escarninho; alguns rodavam num propsito
manifesto de troa, assobiando; e mesmo junto  orelha do indignado
Silveira, algum houve que, fransindo o nariz, com implicativo acento
exclamou:

--Hum! A mim parece-me isto um _conto do vigrio_.

O Silveira sentiu ganas de contraditar a blasfmia; e sobranceiro a ste
deletrio contgio, como um decisivo gesto do seu protesto pessoal a
tanta soma de imbecilidade e ingratido, sbitamente, deixou por seu
turno a vidreira e seguiu na pressurosa demanda do comendador,--no
fsse algum mais diligente e esperto antecipar-se-lhe!--e adquiriu para
si o famoso lote n.^o 13. Oito mil hectares de terra virgem, a dez pesos
o hectare. Um ovo por um rial. Um negcio de mo cheia.

Descontado ste dinheiro, mais o capital que arriscra na _Sociedade
Internacional de Seguros_, e o custo das cem aces, do dia anterior,
no lhe restava j do seu parco patrimnio, feitas bem as contas, mais
do que com que viver, e bem escassamente, quando muito, por um ano...
Oh, mas que importava isso, se dentro em poucos meses, seguramente, le
dos seus esplndidos negcios ia colhr rios de dinheiro!--Bem bom! bem
bom!--dizia-se, esfregando as mos, sorridente.-- um dito ste bem
certo: que h males que veem por bem... Afinal, em ba hora viera. Ia
_fazer a Amrica_, veriam! Ainda havia de mandar depois as bras ao
Afonso Costa. E que esmagadora lio le infligia  Laurita!

Arrastado na falaz miragem dste sonho magnificente, tda a tarde o
Silveira levou, desocupado e frvolo, em prazenteiros _flirts_ pela
cidade. Comera o delicioso ms de maio, o opulento batedor da
_season_, arrepiado dos primeiros frios e com as suas plcidas manhs
envltas vagamente, como por uma pelia cara, nas peroladas franjas da
neblina. Apetecia o confrto caseiro e lembrava, gratamente, o spro
morno dos _calentadores_, o efusivo calor das recepes mundanas, o
tpido e sensual ambiente das veladas, dos concertos, dos bailes, dos
teatros. Haviam-se inaugurado j os selectos _ts_ dominicais do Plaza,
e os aristocrticos cartazes com o _elenco_ do _Coln_ tenorinavam
lricas tentaes pelas esquinas. Ao longo da Avenida de Mayo, limpa j
de ruturas, porm ciscada a trechos pela chuva outonia da folhagem dos
seus pltanos, vrias brigadas de obreiros lidavam regulamentarmente,
desdobrando tubagens, firmando plintos, marchetando escudos, aprumando
postes, bandeiras, mastarus, pendurando sanefas de lumes e articulando
prticos de ripado, para as prximas iluminaes das festas da
Independncia. E tornavam a aparecer as equipagens de preo, e pelas
ourivezarias e casas de modas cruzavam, em vagarosa importncia, as
grandes figuras conhecidas. Era _la gente bien_ da grande cidade que, de
novo, condescendia em mostrar-se, era um novo ciclo da sua ostentosa
vida social a definir-se. Opulncias, brilhos, vertigens, intrigas,
caprichos, loucuras, traies, amores... Era a lampejante renovao de
mais um dsses embriagadores remolinhos de fortuna, de engano e de
prazer em que o aturdido Silveira estava disposto agora a deixar-se
envolver, pronta e avassaladoramente.

Ora, justo no dia seguinte, primeira tera-feira do ms, os Wimeyer
recebiam. s 6 da tarde, l estava pontualmente o Silveira  portita
discreta e esguia dsse modesto rs-do-cho da _calle_ Paraguay. Desta
vez a criada, sem hesitar, abriu logo o batente da porta envidraada,
dando afvel o passo ao visitante, que se encontrou num escuro e
enfadonho _hall_, de teto envidraado, onde le poisou o chapu e a
bengala, passando logo,  esquerda, ao salosinho da frente, que dava
para a rua. A, sbre um coado sof, no logar de cerimnia,
espapavam-se duas assaz ponderveis matronas, amplas e obsas, de negro,
com muitos bands e prolas, atendidas solcitamente pela dona da casa.
E no havia mais seno, um pouco  parte, junto ao piano fechado
prudencialmente, duas raparigas vestidas de claro, ambas dum crte
igual, em p e com o exguo ventre em abandno  frente, os ombros
ladeiros,--cuja frvola ateno Irene e Dolores buscavam maquinalmente
prender, mostrando-lhes num convencional agrado um jornal de modas, que
as duas delambidas olhavam como por demais, de plpebras froixas, o
longo narizito afilando enjoado no rosto impertinente.

Fez naturalmente sensao a imprevista entrada do Silveira, cortando
assim de improviso a sorna frialdade do pequeno crculo feminino. D.
Catalina festejou-o muito, dando-lhe com marcada alegria as bas-vindas,
e logo, com o seu ar repousado e lnguido de sempre, apresentando-o s
duas bisarmais amigas. A seguir, o Silveira dirigiu-se a cortejar o
apartado grupo das quatro jovens, que lhe acenavam com sorrisos; e
ento, ao defrontar-se com Irene, estremeceu e sentiu que lhe banhava a
espinha um frio de estranheza. Olhava, olhava e no queria crr...
Estava mais alta, mais dura e mais forte, engrossra deplorvelmente.
Parecia-lhe outra, desagradava-lhe, desconhecia-a... J D. Catalina o
chamava afectuosamente, ageitando-lhe cadeira a seu lado, e o
desencantado Silveira no conseguia confortar-se do seu desgsto nem
repr-se do seu espanto. Sofria a mais amarga e dolorosa decepo! Que
era feito ento dessa alada e fugida figura de h dois meses antes? que
lance cruel do azar ou que tirania estpida de raa lhe haviam assim
desfeito o encanto ideal dessa viso bemdita, durante a viagem?... le
estava a ver! perdera a sua linha fidalga, aquele soberbo ar de
_palmeira imperial_, na sua area esbeltez, na sua altvola frescura...
Tinha agora uns ombros quadrados e rolios, um pulso de cavador, uma
anca rotundamente animal, espatinados os seios, a pele ardda, as
feies empastadas e sob o queixo fazia refgos. Como fra aquilo, em
tam pouco tempo?!

Entretanto, D. Catalina, sem poder dar-se conta desta arreliadora
surprsa do Silveira, carinhosamente interpelava-o:--Como tinha le
passado durante todo aquele tempo? E Buenos-Aires que lhe
parecia?--Impaciente e distrado, o Silveira arrastava quaisquer vagas
banalidades. E logo mui dulcerosa a me Wimeyer:--Que les  que nunca
poderiam esquecer tam bom amigo. Falavam nle todos os dias... E que
haviam recm-chegado. Dolores estivera com o pai em Salta. Irene, no!
essa era mais _regalona_, acompanhra a me no Tigre.

--Nunca o vimos por l...--aqui acudiu naturalmente Irene.--Todos os
dias  espera!

Com o ar humilde e contrito, quse vxado, o Silveira balbuciou--que,
com efeito, confessava o seu pecado... mas nunca tinha ido ao Tigre.

--Como!? E ainda o diz?--reprimendou, a fazer de agastada, a doutoral
me de Irene.--No podemos perdoar-lhe semelhante falta! A nossa melhor
estncia de vero... Nem a Sua... Dito por todos!

--O Tigre  lindo!--acudiu com nfase uma das paparretas de junto do
piano, aproximando-se.

--A minha filha deu-se muito bem por l...--tornou D.
Catalina.--Erguia-se muito cedo, todo o dia ao ar livre... pescava,
montava a cavalo, remava muito. No v como lhe fez bem?

Neste preciso momento, Irene aproximava-se do Silveira e vinha
oferecer-lhe uma chvena de ch, crando ligeiramente, com a sua
habitual singeleza. E posta assim, natural e simples, diante dle,
revelava numa irrecusvel eloqncia sse subito e passivo avatar
burgus da sua figura.

No era nada j a esquiva e patrcia silhueta ideal do _Almeria_; antes,
entre tantos, um rebarbativo exemplar mais de fmea prolfica e segura.
Tomando enguiado da bandejita a chvena, o Silveira no podia no ntimo
perdoar-lhe... Os seus olhos agora repeliam-na, o seu corao
repudiava-a. Perdera para le todo o intersse. Sentia-se roubado.

Contudo, atencioso e galante por instinto, dos lbios frios ia deixando,
com importante pausa e um pouco  ta, escapar seus lisonjeiros
comentrios sbre a sociedade e a vida _portea_, frisando a tempo a sua
impresso e dstramente sublinhando de admirativas frases o tiroteio
vago de perguntas com que o pequeno crculo feminino o assediava,--tdas
agora em interessado grupo rodeando-o, e as raparigas j com desabusada
familiaridade depois que souberam que le no era casado.

Foi quando pai Wimeyer entrou, e ao divisar o Silveira, os seus olhitos
claros chisparam num guloso raio de alegria. Vinha invarivelmente todo
de negro, e sempre rosado, gordote, apesar de bastante mais avelhentado.
E logo, com o seu ar didtico e afvel, adiantando-se:

--Oh, o nosso bom e simptico portugus por c! Finalmente... J me
tardava. Quanto gsto eu tenho!

O Silveira teve um mudo calafrio de terror; e, num aberto
desvanecimento, D. Catalina para o marido:

--Diz que gosta imenso de Buenos-Aires.

--Promete radicar-se na Argentina,--acrescentou Irene.

E dogmaticamente o dr. Justus:

-- o que deve fazer! Em estando mais vinculado aqui, ver como se sente
bem. A Argentina  um pas cativante, remunerador. Tem o meu exemplo.

--E ento que pode encontrar por' uma linda noiva...--lisonjeira
interveio uma das arcicas bisarmas do sof, em pancaditas suaves de
regalo sbre o ventre.

--Encontra com certeza!--a me Wimeyer sublinhou, num risinho
inteligente.

--E em todo o caso--tornou com dulcerosa intimativa o dr. Justus--as
nossas prometidas lies que no esqueam.

--Quando vossa excelncia quiser...--balbuciou o Silveira com esfro,
ante a estopante ameaa empalidecendo.

--No creia que a ideia inicial seja minha. No. Tem at graa...
sugeriu-ma um vlho compatriota seu, filho da India, o dr. Gomes, que eu
em Lisboa conheci casualmente. Que homem talentoso, raro, profundo,
subtil! Era uma figura estranha e insinuante, com os seus agudos olhos
de vidente, as suas atitudes estticas de _fakir_, a sua ctis de bronze
oxidado, a sua longa barba messinica. Habitvamos a mesma penso, e a
sbre coisas da alma e do esprito ns caturrvamos longamente. E vai
le ento, que era um tuberculoso irremissvel, ao morrer legou-me um
precioso manuscrito garatujado de nmeros, frmulas, smbolos e chavetas
complicadas, que era a embrionria gnese do seu plano. Uma teoria
genial! Tenho que p-la a claro.

--Pois sim...--atalhou benevolente a me Wimeyer,--porm, deves
compreender que o sr. Silveira ter coisas mais agradveis que o
interessem. Na sua idade...

--Ainda um rapaz...--protectora reforou a dama suave do regalo.

--H tempo p'ra tudo. No  certo?

--Como no?--maquinalmente o Silveira aquiesceu.

E como neste momento uma das grossas figuras do sof se erguesse para
sair, le despediu-se tambm, com a promessa de voltar pronto, e deu-se
pressa em alcanar a rua. Ansiava por ver-se a salvo... dali bem longe.
Ia na resoluta disposio de tam cedo no voltar. Desta aziaga manso de
desencanto e horror concorriam simultneamente a distanci-lo--a birra
pedaggica do pai e o engrossamento prosaico da filha.

Chegado ao hotel, o Silveira encontrou um carto do conde Amglio, com
duas linhas amveis reclamando a sua presena.--Pedia-lhe que passasse
pelo local da sua exposio, _calle_ Viamonte, e iriam depois a casa os
dois tomar ch, com a condessa.--A primeira impresso foi de encantado
alvoro. Num sugestivo instante, o seu insatisfeito apetite evocou,
reviu e enroscou-se  deliciosa imagem da irlandesa, fazendo-lhe saltar
nos nervos chispas lbricas de desejo. Porm, ao mesmo tempo quse,
chamavam-no ao telefone. Era Jorge Saavedra que lhe anunciava o
regresso, dle e da famlia, do campo, rogando-lhe por igual que
aparecesse, se, antes, le mesmo no fsse visit-lo.--Finalmente...
Ainda bem!--Nova e mais deliciosa impresso lhe fez correr, pelos
sentidos em alarme, a grata e inesperada notcia.--Sim! porque a volta
dos Saavedras significava que teria vindo tambm Maria Mercedes. E le
morria por tornar a v-la... oh, a esta de preferncia a tudo o mais!
Era um vivo e complicado demnio que, pela frma mais adorvelmente
desptica, se lhe instalra na vontade e lhe monopolizra a existncia.
Pois le poderia l viver sem ela, ali, prximos e familiares os dois
dentro da mesma cidade, sob o mesmo azul carinhoso, no mesmo ambiente
perturbador, ao mesmo contacto amigo! E, depois, tinha contas que
ajustar com ela... Havia uma deprimente situao que liquidar entre os
seus brios varonis e essa criatura enigmtica e divina. Assim duplamente
lho impunham o seu corao machucado e o seu amor-prprio ferido.

Na tarde seguinte, querendo iniciar a sua galante digresso pelo mais
fcil, tomou o Silveira um auto e rodou para Viamonte, onde entrou num
pequenino salo trreo, decorado com ricos mveis Renascena, pelas
paredes verdoengas um profuso mostrurio de telas de preo, porm de
gente deplorvelmente vazio. Na desconfortante solido daquela
fracassada armadilha artstica apenas, lenta e merencreamente, se movia
o dono da casa,--uma baa figura loira, de olhos claros de porcelana,
barbicha em ponta e lunetas, e o cabotino Amglio, astutamente cingido
ao crtico de arte de _La Nacin_, a quem com loquaz intimativa, num
atropelado desbarato de grossos gestos e frases feitas, buscava
alarvemente encaminhar a ateno e subornar o critrio. E depois que
ste partiu, o mesmo conde, agora absolutamente s com o Silveira, e no
ntimo vxado por aquela evidenciao patente do seu rotundo insucesso,
contudo assumia atitudes de importncia, e num desvanecido ar superior,
os olhos negligentes na face cnica, passando a mo pelo cabelo,
atribua, ftuo e altaneiro, o facto a um mesquinho concurso de causas
bem inferiores ao seu alto propsito. E enumerava com desdm,--o pouco
adiantado da estao, a crise, a incultura geral, o retramento invejoso
dos artistas, a hostilidade surda da imprensa.

Passado pouco tempo, e ninguem havendo a atender, os dois retiraram e
dirigiram-se ao pensionato pelintra que os Di Paoli ocupavam, na Praa
do Congresso. A, das paredes roadas e encardidas, quse totalmente
nuas, apenas agora pendiam, destacando sbre uma medocre miualha
industrial, uma pequena pasagem de realce e o brbaro retrato da
condessa. Esta acolheu o Silveira naturalmente, com um risinho afvel
mas sem calor, sem a mnima demonstrao expansiva, com uma frieza
exasperante, fechada outra vez naquela expresso calma, alheada e
infantil que a bordo, era para o insofrido gal o maior encanto e o
melhor estmulo. Falaram ligeiramente sbre uma quantidade de coisas
indiferentes e banais, o Silveira fez o pitoresco relato da sua estada
no campo; e por fim, como o dilogo voltasse naturalmente a recair sbre
a digresso artstica do conde e o seu resultado econmico, ste num
abandno de familiar confiana, manifestou ao amigo,--que, devia
dizer-lhe com franqueza, as coisas no lhe corriam nada bem... Estava
por completo desalentado, no tinha vendido nada! Parecia-lhe aquilo um
pas de pedantes e impostores.--E numa autorevelao inconsciente:--Tudo
puro charlatanismo. _Parada_, _parada_, conforme les diziam... porm no
fundo nada de quantioso, de firme, de slido. Queria le saber?... sse
belo Corot que le ali havia visto, mandra-o, a pedido do milionrio
Spantuzzi, o clebre coleccionador, a casa dle, para o estudar devagar,
para se inteirar melhor, para ver...--Cruzava indignado os braos.--Isto
havia dois meses. O tempo fra passando... Era pr'a consider-lo
vendido, no era verdade?... Pois que agora lhe devolvera o quadro, com
uma carta muito sca, dizendo que afinal Corot no era dos pintores da
sua predileco, e que j tinha trs, e que por isso resolvera no
comprar...

Abria numa irritao os braos, e sacudindo a cabea com dignidade e
erguendo-se, acremente:

--E tudo o mais assim! H trs meses, apenas, em Buenos-Aires e j
gastei quinze mil francos. E lucros nenhuns... Um pavor! Em m hora vim
aqui... Que tremenda desiluso! Vou retirar breve seguramente.

Deplorando-o com sinceridade o Silveira, e num instintivo terror
aproximando a sua sorte da do conde, tentava confort-lo. Porm, sbito,
ste, aplacado, risonho e com afvel singeleza, a mo interesseira
estendida  parede:

--O seu quadrito ali est... P'ra onde quere que lho mande?

O Silveira estremeceu. Nem le se lembrava j... E contudo ho havia
meio, agora, de furtar-se decorosamente quela polida insinuao, que
para o seu carcter valia uma intimao formal. Que enormidade iria le
cobrar-lhe? Alguns dois ou trs mil psos, estava a ver... Um rombo
muito sofrvel no seu j tam reduzido capital, um saque no previsto que
lhe desequilibrava o oramento. E  que no havia remdio!... Numa
retraco ntima de terror, le increpava-se duramente pela sua
imbecilidade, dava ao diabo o azarento acaso dste conhecimento...
Porm, breve, a sua proverbial impreviso a fazer-lhe bailar no esprito
aquela suculenta miragem das abboras e dos meles do lote n.^o 13.
Providencial compensao! Que importava o resto?... Ele poderia bem, j
agora, ajudar ste pobre diabo e burlar-se da condessa... que a sua
brilhante e urea desforra estava certa, depois. Questo de tempo...
deixar correr!

E com marcada sobranceria, ao despedir-se, recomendou ento ao conde,
sem discutir o preo, que lhe mandasse o quadrito ao hotel, com a conta,
no dia seguinte.

Queria ainda naquela tarde encontrar-se com Jorge. Baldado empenho
porm, pelo momento; pois que, tendo chegado ao hotel e telefonado
sucessivamente para casa dle, para o _Circulo de Armas_, para o
_Jockey-Club_ e para o _Plaza_, de parte nenhuma lhe davam notcia dle
nem sabiam dizer-lhe onde porventura se poderia encontrar.--Estaria
p'r'a talvez na sesso _vermouth_ dalgum teatro barato. Mas qual?...
Fssem l saber!--Ficaria o encontro ento para a noite, sbre o jantar.
Disposto pacientemente a esperar, o Silveira correu a coluna de anncios
dos espectculos, na _Prensa_ e viu que naquela noite havia no _Palace
Thtre_ uma funo em benefcio de _La Caja Dotal de Obreras_, pia
instituo patrocinada pelas damas da primeira sociedade. L estaria
certo o rapaz. E possvelmente Maria Mercedes...

Alentado por ste desejo e enardecido por esta esperana, logo que
acabou de comer, o Silveira sau. Mal havia dado porm, confiado e
quente, os primeiros passos, e logo  esquina da _cuadra_ seguinte,
ei-lo que se defronta sbito com Lusa... a qual buscou simular um
encontro de acaso, mas que, tmida e inexorvel, mais uma vez o estava
dali espiando, seguramente.

O Silveira teve um claro sacudimento de arrelia, e brusco e hostl,
plantado com dureza frente  sua adorvel e simples amiguita, fitando-a
com imprio:

--Que fazes tu aqui!? que quere isto dizer?...--E como a atnita
rapariga se mantivesse muda, numa compungida atitude de assombro, os
olhos baixos, a fria prega dos lbios transida de amargura, le na mesma
clara dureza tomou:--No so horas e mais que horas de recolheres a
casa? Como vais agora entrar?

Lusa ergueu para o seu spero censor os grandes olhos, repassados de
piedade, e aps uns segundos de embarao, naturalmente:

--_Yo cambi de domicilio_.

--O qu!? Deixaste essa ba casa de Tucumn? Que fizeste tu por l?

--_Yo nada, seor_.

--Puseram-te na rua?

Ao golpe achincalhante da interpelao, a pobre Lusa fez-se branca,
torceu-se numa contorso aflitiva, e logo, reagindo, a protestar com
suavidade, as mos trmulas em magoada cruz sbre o peito:

--_Nada tienen que reprocharme alli, se lo juro! Al contrario, las
buenas madres eran bien amigas mias_.

--Nesse caso, ento?...

Nova pausa, de eloqente silncio agora, e logo ela, crando, a segredar
docemente:

--_Es que yo no podia pasar asi todas las noches, sin verlo_...

--Com efeito!--exclamou o Silveira, numa fatudade sorridente.

--_La culpa es toda suya, ya v_...

Insensvel porm o Silveira  voluntria e total abdicao desta alma:

--De sorte que te encontras agora aqui assim  tuna, sem uma ocupao,
sem famlia, sem casa nem abrigo?

--_Yo no le pido nada_.

--Pois, meu rico amor, se vinhas co'a ida de entreter a noite comigo,
perdeste o teu tempo.--E como a desconfortada rapariga o envolvesse numa
fundente expresso de carinho e ensaiasse um tmido gesto
suplicante:--No! no! Vou com pressa. Tenho um compromisso. Palavra!

--_Que compromiso mayor que el nuestro?_

--s tla!

E no mesmo instante o Silveira, duro sempre e insensvel, jogado ao
mpeto do seu cobarde egosmo, voltou costas e seguiu caminho, deixando
a sua amantesita infeliz pregada e fria como uma esttua, os lbios
lvidos, tolhida de dr e de vergonha, imobilizada de pasmo e de
tristeza.

Cortando logo para Corrientes, o arreliado Silveira caminhava rpido e,
a intervalos, voltava-se, a inquirir se porventura, e a despeito da sua
formal negativa, le no seria seguido. Enfastiou-o de-vras o episdio.
Incendeu-o num furor pueril, que lhe punha asas nos ps, a insistncia
pigas da rapariga.--Tam longe le estava agora de semelhante
coisa!--Trs dias havia que no sabia dela, buscando insensivelmente
furtar-se e fechar impunemente o ciclo de mais esta fugaz aventura com o
slo cmodo do olvido.--Por que era uma maada, no fim de contas, a
peganhice infantil dessa seresma! Ba rapariga, no havia dvida... Mas
tambm as mas que le, na sua terra, tivera a sorte de arrastar a uma
torpza igual, eram bas como esta... e mais dceis, mais razoveis.
Sabiam medir distncias, compreendiam a situao. A breve trecho, eram
elas as primeiras a anular-se... voltavam ao que eram e no o
importunavam mais, conformavam-se sem lamrias e deixavam-no em
descanso. Ao passo que agora esta carraa... Em m hora lhe tinha
acudido!--E a biltraria recndita do seu nimo fortalecia-se. Erguia a
cabea com jubiloso arreganho e caminhava mais apressado. Porm a
espaos, no obstante, se num claro de grata recordao a sua alma
evocava a cndida imagem de Lusa, crescia-lhe sbito no ntimo uma onda
de condoda ternura, que o envolvia, que o abrandava, que o fazia
arrepender-se e parar no caminho. E le revia ento, em todo o seu
incondicional abandno, em tda a sua rstica simpleza, essa esplndida
flr do campo, a tinta ardente da sua epiderme, o alapo de desejos que
era a sua bca, o lume de paixo espirrante dos seus olhos cheios de
fogo... e pensava.--Talvez que esta sentisse mais e melhor que as
outras... Valeria mais que tdas!

Esta quse palpvel evidncia perturbava-o. J perdia a noo exacta do
rumo que levava. Entrou no vestbulo do _Royal_, tomando-o por o _Palace
Thtre_; e por ste passou desgarradamente, uma e duas vezes, antes de
reconhec-lo. Pesava-lhe na alma essa obsidiante luta interior entre o
apiedado alarme da sua conscincia e a farta repulso do seu desejo........
...........................................................................




NOTA FINAL


Abel Botelho, o artista ilustre que s letras do seu pas legou tantas
pginas de inspirao e de beleza, no teve tempo de concluir o romance
_Amor Crioulo_, escrito longe da sua terra e da sua gente mas sempre com
a imaginao e os olhos postos na Ptria distante. A morte colheu-o de
sbito, paralisando para sempre a mo augusta que tam activamente lidou
e a lcida inteligncia que nunca se fatigou de combater, durante meio
sculo de esfro permanente e fecundo, para atingir um ideal de
perfeio suprema.

Analista subtil do corao humano, psiclogo, moralista pelo castigo
spero do sarcasmo, Abel Botelho desceu a profundidades poucas vezes
exploradas antes dle, tentando imprimir uma utilidade social  sua
arte. A vasta obra que nos deixou e em que a sua alta personalidade se
perpetuar, tem de ser tomada como uma lio, mesmo nos seus aspectos de
mais cru realismo e na sua mais cruel expresso--que fazem dela um
flagrante documento da poca e do meio em que foi elaborada. Vista em
conjunto--que  como deve ser julgada pelos espritos imparciais--h-de
necessriamente reconhecer-se-lhe um mrito esttico e moral.

Os derradeiros captulos que comps, com tanta ternura e tanto relvo
artstico, foram estes do _Amor Crioulo_, que os seus Editores hoje
lanam aos alaridos da publicidade para que nada se perca de tudo quanto
o romancista excelso produziu. O livro ficou incompleto. Todas as
pacientes buscas encetadas, para se encontrar a parte final, em Lisboa,
onde Abel Botelho tinha a sua casa, e em Buenos-Ayres, onde le era o
representante diplomtico do Governo da Rpblica Portuguesa, foram
infrutferas. A doena inesperada interrompra, certamente, o trabalho
do escritor insigne, que a morte no tardaria a eliminar da comdia da
existncia. A aco do romance estava em pleno desenvolvimento quando o
brao do seu autor cau desfalecido. Adivinha-se, no entanto, o desfecho
do _Amor Crioulo_ pela leitura dos coloridos, nervosos e movimentados
episdios em que a sua tessitura se desenha vigorosamente e o conflito
sentimental se estabelece.

Publicando-o tal como lhes foi entregue, os Editores contribuem com
novos e valiosos subsdios para o estudo e para a crtica da
individualidade de Abel Botelho que, na moderna literatura nacional, se
afirmou com nobre superioridade. A Escola realista entre ns poucas
figuras mais elevadas possue. Abel Botelho era um pintor por vastas
massas, dispondo duma paleta muito rica, um minucioso observador da vida
que  sua volta desenrolava maravilhosos scenrios e que le reproduzia
com surpreendente fidelidade e um justo conhecimento dos tons e dos
valores.

Foi, em todo o caso, lamentvel que no terminasse ste volume
pstumo--porventura aquele em que ps mais devotado carinho, mais
emoo, mais orgulho de raa, e que, mesmo fragmentado, o denuncia como
uma entidade representativa. Nem ao menos pde corrigir as provas em que
os escritores da sua rara estrpe do sempre os ltimos retoques de
graa, de harmonia, de equilbrio e de luz. A elevada honra dessa tarefa
foi-me confiada a mim, procurando eu desempenh-la o melhor que me foi
possvel e suprindo pela vontade de acertar o que me falta em
competncia. Qualquer rro que no texto aparea ter, portanto, de me
ser imputado, e no ao escritor modelar que tanto dignificou a sua
nacionalidade nos luminosos domnios do pensamento e da arte.


  Prto, 28 de julho de 1919.

                                                         Joo Grave.




*Lista de erros corrigidos*


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+------------------------+-------------------------+
  |          |        Original        |        Correco        |
  +----------+------------------------+-------------------------+
  |#pg.    9| sna                    | sua                     |
  |#pg.   43| _Commitee_             | _Committee_             |
  |#pg.  118| familiaridadecativante | familiaridade cativante |
  |#pg.  118| eru dio              | erudio                |
  |#pg.  124| tropelada             | atropelada              |
  |#pg.  214| cortornos              | contornos               |
  |#pg.  249| est                   | ste                    |
  |#pg.  253| prprior               | prprio                 |
  |#pg.  337| Silvera               | Silveira                |
  |#pg.  377| sbre                  | sbre                   |
  +----------+------------------------+-------------------------+


A pontuao em alguns casos foi substituda (pontos por vrgulas e dois
pontos por ponto&vgula, e vice-versa), conforme se verificava errada a
sua utilizao.





End of the Project Gutenberg EBook of Amor Crioulo, by Abel Botelho

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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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